"Primeiro-casal" diz presente na maratona de Praga
Lula lá
Fantasiado de Lula e Marisa Letícia, casal de corredores participa da maratona de Praga, realizada hoje nas ruas da capital da República Tcheca (foto Efe). O homem vestido de Lula está usando número de mulher.
Escrito por Rodolfo Lucena às 16h41
Não deu para a Sirlene
Parabéns, guerreira
Sirlene do Pinho lutou até o último momento, abraçou a derradeira oportunidade para tentar conquistar uma vaga na maratona olímpica, mas não deu.
Ela correu hoje a maratona de Praga em busca de sub-2h37, que é o índice A para mulheres, mas, a julgar pelo que já vi pelos sites, parece que nem completou a prova (não tenho ainda confirmação disso).
O certo é que, de acordo com as informações disponibilizadas no site da prova, apenas duas mulheres correram abaixo de 2h37, num dia relativamente quente para os padrões locais (quando os primeiros da elite chegaram, os termômetros marcavam 18 graus).
A campeã do ano passado, a russa Nailya Yulamanova, defendeu seu título com galhardia, fechando em 2h31min43, melhorando em quase 90 segundos seu tempo de 2007. A queniana Emily Kimuria chegou em segundo, com 2h35min55), e sua compatriota Caroline Kwambai , campeã da meia-maratona de Praga em 2006, veio depois, com 2h37min51.
O queniano Kenneth Mburu foi o vencedor no masculino, com 2h11min06.
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h16
Honra e glória ao maratonista derrotado
Herói bigodudo
A cidade italiana de Carpi prepara homenagem para o centenário do feito de um de seus mais ilustre cidadãos, o maratonista Dorando Pietri. Em breve, vai inaugurar uma estátua em homenagem ao corredor (na foto da Reuters, operário trabalha na obra).
Pietri foi o não-vencedor da primeira maratona de 42.195, distância que faz cem anos agora. Na prova realizada em Londres, nos Jogos de 1908, o percurso foi esticado para que os atletas terminassem em frente aos camarotes reais.
Conta a lenda que, em 1904, o bigodudo Pietri trabalhava tranqüilamente quando corredores disputando uma prova de 10 km passaram em frente à loja. Ele não teve dúvida: tirou seu avental e saiu a perseguir o líder da corrida. Os dois terminaram lado a lado, e Pietri ficou fissurado.
No ano seguinte, venceu uma prova de 30 km em Paris; foi campeão italiano em 1907 e conseguiu sua classificação para a maratona de Londres-08 depois de correr em 2h38 uma prova de 40 km em Carpi.
No dia 24 de julho de1908, ele e mais 55 atletas largaram na maratona olímpica, num dia anormalmente quente para os padrões londrinos.
O italiano começou na boa, mas resolveu atacar depois da meia-maratona, alcançando o segundo posto na altura do km 32.
Aos poucos, foi percebendo que o líder, o sul-africano Charles Hefferon, fraquejava. Ligou o turbo e mandou ver, conquistando a liderança a cerca de dois quilômetros do estádio olímpico.
Quando chegou ao estádio, a massa o aclamou. Mas o esforço cobrou seu preço: ele estava meio baleado, e pegou a direção errada. Foi auxiliado por oficiais da prova, e caiu pela primeira vez.
Com ajuda, levantou e seguiu, em frente a 75 mil espectadores emocionados. Ele ainda caiu várias vezes e cruzou a linha de chegada nos braços de auxiliares (imagem abaixo). De seu tempo oficial de 2h54min46, dez minutos foram usados nos últimos 350 metros.
A medalha de prata foi para o americano Johnny Hayes, mas a equipe dos EUA entrou com reclamção contra o resultado e conseguiu reverter o quadro: Pietri foi desclassificado por ter terminado a prova com ajuda de terceiros.
Mas, no coração de todos, foi o vencedor. Ganhou da rainha Alexandra uma taça de prata, com placa dourada. A homenagem teria sido sugerida pelo escritor Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes, que trabalhava como jornalista cobrindo o evento.
Pietri se tornou uma celebridade. O compositor Irving Berlin criou uma música, "Dorando", em homenagem ao atleta, que foi convidado para se apresentar em corridas nos EUA.
Em novembro de 1908, enfrentou um desafio contra Hayes, no Madison Square Garden, em Nova York, e deu um pau no americano. Para não deixar dúvidas, ganhou de novo em outro desafio semelhante, em março do ano seguinte.
Ainda fez sucesso e ganhou muito dinheiro em corridas, considerando os padrões da época. Virou empresário, mas não teve muita sorte. Acabou dono de uma oficina de automóveis em Sanremo, onde morreu em 1941, aos 56 anos.
Seu feito está hoje nos anais da história olímpica.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h45
A primeira vitória ninguém esquece
Pódio e grana

Supervisora de vendas de profissão, Patrícia Maria Resende Pinto corre há quatro anos apenas, mas já guarda muitas medalhas e a memória recheada de conquistas. Rápida, costuma correr na frente e já foi várias vezes premiada na faixa etária _tem hoje 31 anos. Mas ser a primeirona, no geral, nunca.
Quer dizer, até agora: em uma corrida promovida pela empresa em que trabalha, disparou e subiu ao mais alto do pódio, no geral, categoria colaboradores (foto no alto, arquivo pessoal) _havia ainda uma categoria especial, de corredores de elite.
Patrícia participou pela primeira vez de uma corrida em dezembro de 2004, na prova de revezamento Ayrton Senna racing Day ("Fiz 5.280 metros em 34 minutos e pouco e quase morri", diz ela). Picada pelo bichinho das corridas, passou a treinar regularmente a partir de fevereiro do ano seguinte.
Bom, leia a seguir a história da corrida da vitória tal e qual Patrícia contou. Antes, saiba que a prova, num percurso de 6 km, foi realizada no domingo passado, em Anapólis, Goiás, sede da Neo Química, que organizou a prova para comemorar seu aniversário. Agora, sim, leia o texto da vencedora.
"Hoje sou só sorrisos: fiquei em primeiríssimo lugar na corrida que a empresa organizou neste final de semana.
Melhor ainda: o primeiro lugar valia o prêmio de R$ 3.000. Uhu-uhu-hhu!! Levei pra casa!
Foi a única vez que eu vi entrar algum dinheiro em corridas. De costume, é só gastar. Nem acredito. Ainda estou muito motivada pelo $$$$ e pelo brilho que eu teria ontem naquele momento.
Fiz meu melhor tempo em prova oficial de 6 km, 27min38. Corri dando o meu melhor e só tive coragem de olhar pra trás no km 5, quando sabia que, se alguém ameaçasse, eu não perdia mesmo.
A segunda colocada eu nem conseguia ver.
Só na largada que duas doidas saíram desembestadas, mas antes da placa do primeiro km eu já tinha passado as duas. Depois nem vi fumaça delas ... Foi maravilhoso!
A empresa possui aproximadamente 3.000 colaboradores e se inscreveram 460, sendo 80 mulheres.
Logo de cara, as meninas da empresa já diziam que eu tinha mais chance porque eu já treinava, mas eu nem quis saber. Cada um corre atrás do que gosta e por sorte a empresa promoveu uma corrida --se promovesse um jogo de futebol, eu não teria chance alguma.
Eu nunca tinha tido nenhum incentivo ou ajuda da empresa para treinar, então a mesma chance que eu tinha, todas tinham...
Havia premiação para o feminino e masculino do 1º ao 5º lugar para colaboradores e para atletas de elite (que eram aproximadamente 50).
Pasmem: a premiação do 1º da elite era 2.500,00 e para colaboradores era 3.000.
Os caras da elite não acreditavam. Eu nem ligava, pela primeira vez eu via algum benefício pra mim."
Escrito por Rodolfo Lucena às 18h02
Anote agora e confira depois
Vai dar China
Pelo menos, é o que diz um estudo divulgado hoje em Londres. Segundo o professor Simon Shibli, da Sheffield Hallam University, que realizou a pesquisa, a China deverá conquistar 46 ouros em Pequim-08 e superar os Estados Unidos.
Shibi afirmou que esse seria o nível máximo que o país-sede teria condições de atingir, exatamente porque embalado pelo apoio da torcida. Em condições normais (sabe-se lá o que isso é), o potencial chinês é de 39 ouros, de acordo com o estudo.
Mesmo esse número já é algo impressionante, assim como é sem precedentes o progresso da China no quadro de medalhas olímpicas.
O país conquistou 16 ouros em Barcelona-92, quando ficou em quarto lugar, mesmo posto obtido em Atlanta-96. Foi terceiro em Sydney-00 e segundo em Atenas-04, com 32 ouros.
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h14
Última chance para ir a Pequim
Sonhos em Praga
No próximo domingo termina o prazo para a qualificação de maratonistas brasileiros para a Olímpiada.
O Brasil pode levar até três corredores com índice A ou um com índice B.
No masculino, o país tem "A" em pencas. Por enquanto, os integrantes da seleção são Marilson Gomes dos Santos, José Telles e Franck Caldeira.
No feminino, apenas Marily dos Santos, como você viu neste blog, tem o índice A.
Mas tem mais gente de olho nas vagas.
Sirlene do Pinho corre no domingo nas ruas de Praga, na República Tcheca, tentando marcar menos de 2h37. Vanderlei Cordeiro de Lima também pretendia participar, mas acabou desistindo por causa de uma lesão que ainda provoca dores.
Aproveito o ensejo para lembrar que cada país tem o direito de fazer a seleção de seus atletas como bem entender, desde que os escolhidos tenham o desempenho exigido pelo Comitê Olímpico Internacional.
O Brasil oferece esse prazo para a qualificação, e o índice pode ser obtido em qualquer maratona oficial, com percurso aferido.
Já os Estados Unidos fazem uma prova seletiva, na qual participam os atletas que obtiveram o índice. A seletiva masculina foi realizada em novembro passado, na véspera da maratona de Nova York; a feminina, agora em abril, na véspera da maratona de Boston. Os três primeiros ganham as vagas.
O leitor Gino Genaro mandou uma mensagem elogiando o método norte-americano, que considera melhor do que o Brasileiro. Ele lembra que, no caso brasileiro, "o atleta que possui condições para disputar uma prova mais rápida do outro lado do planeta geralmente acaba levando vantagem sobre aqueles que tentam obter o índice em provas locais mais difíceis".
É um argumento.
Mas há que lembrar, por exemplo, que Marily cravou o A em uma prova com chuva e vento em terras brasileiras, na bela Floripa.
E, contra o método norte-americano, há o fato de que arrisca a deixar de fora um atleta de desempenho consistentemente melhor do que o dos rivais, mas que teve uma dor de barriga no dia da seletiva...
O que você acha?
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h28
Leitura de fim de domingo
Há que mudar
O artigo do presidente do Ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Márcio Pochmann, é uma das boas coisas da edição da Folha deste domingo. Pode não ter nada a ver com corrida, mas tem tudo a ver com todos que vivemos neste mundo velho sem porteira.
O texto todo está AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL.
Para não dizer que não falei das flores, copio a seguir a conclusão do artigo.
Depois de apresentar dados sobre a gritante desigualdade econômica e social que grassa no mundo e sobre os problemas ambientais que a sanha exploratória acarreta, ameaçando a própria vida do planeta, Pochmann afirma:
"Outro padrão civilizatório precisa ser constituído no mundo. O ser humano e o ambiente não podem permanecer em segundo plano. A organização da economia deve ser o meio necessário para o atendimento do desenvolvimento humano sustentável, o que significa dizer que os bens não devem ser valorizados intrinsecamente, mas em conformidade com a sua capacidade de produzir o avanço do bem-estar de toda a humanidade com a menor agressão possível ao ambiente. Do contrário, prevalecerão as duas categorias básicas de homens a se manterem no porão do navio: os pobres excluídos da dignidade humana e os ricos condenados à solidão e à lógica da rivalidade."
Escrito por Rodolfo Lucena às 20h43
Meninas da maratona aquática garantem vaga
Saudações, garotas!
Tudo bem, elas não correm, mas têm resistência, força, garra e determinação de fazer inveja a qualquer maratonista de terra firme.
Especialistas em ficar na água por muito tempo e nadando velozmente, as brasileiras Poliana Okimoto e Ana Marcela Cunha garantiram suas vagas na maratona aquática em Pequim, prova de 10 quilômetros.
Elas carimbaram o passaporte no Mundial da modalidade, realizado sábado em Sevilha.
As dez primeiras teriam classificação garantida para a Olimpíada, o que fez com que as 51 garotas enchessem de marolas as águas do rio Gualdaquivir.
A competição esteve tão acirrada que a diferença entre a primeira e a décima colocada ficou em apenas 14 segundos. A décima, por sinal, foi a adolescente Ana Marcela, 16, que fechou em 2h02min16. Poliana (foto AP, no alto), com 2h02min13, conquistou o sexto lugar. A vencedora foi a russa Larissa Ilchenko.
Escrito por Rodolfo Lucena às 12h52
Palestinos fogem de tiros e foguetes para treinar
Orgulho nacional
"Quero erguer a bandeira palestina e mostrar ao mundo orgulho por minha cidade e meu país", diz Nader al-Masri, único atleta da Faixa da Gaza que vai estar presente em Pequim.
Ataques aéreos e foguetes foram alguns dos "pequenos" problemas a se intrometer no treino de Masri, 28, que corre com tênis baratos e teve de superar também problemas burocráticos para conseguir autorização de Israel para sair do território ocupado.
Ele nem dá bola. Armado de "fé e confiança", como disse à agência Reuters, o corredor treina diariamente entre prédios bombardeados e casas com marcas de tiros. Roda por campos que, vez que outra, são atingidos por mísseis israelenses.
Na sua cidade, é muito conhecido: "Run, Nader, run", dizem as crianças, em incentivo, enquanto os adultos acenam para o fundista --ele vai correr a prova de 5.000 metros em Pequim (na foto da Reuters, ele treina em sua cidade, Beit Hanoun).
Não é exatamente o mais veloz do mundo --seu melhor tempo é quase dois minutos pior que o recorde mundial. Mas o atleta palestino acredita que pode melhorar bastante até a Olimpíada.
É o que também espera a outra corredora da delegação palestina, a jovem Ghadeer Ghroof, de Jericho. Hoje com 17 anos, ela teve de superar problemas ortopédicos de infância para se transformar numa velocista de nível internacional.
"Ela é especial, extraordinária", diz o treinador do time palestino, Yusef Hamadna. "Até pouco tempo atrás, caminhava como se fosse Charles Chaplin, com os pés para fora, mas ela teve determinação, força de vontade. A nação palestina deve se orgulhar dela."
Ghroof (foto Reuters) começou a correr aos 11 anos. Em Pequim, vai participar das competições de 100 e 200 metros. "Estou muito feliz de chegar lá. Eu não estou indo pela medalha, mas sim para dar um orgulho para a Palestina e mostrar que nós ainda existimos."
A delegação é integrada ainda por dois outros atletas, ambos da natação.
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h22
Entrevista com Marily dos Santos - parte 1
Índice A
Marily dos Santos, a guerreira das Alagoas, chacoalhou o mundo das maratonistas brasileiras ao obter o índice A de classificação para a maratona olímpica, tornando-se, por enquanto, a única representante do Brasil na maratona feminina em Pequim-08. No dia 20 de abril passado, um domingo de frio e chuva forte, ela correu 42.195 metros nas ruas de Florianópolis em 2h36min21. Nesta entrevista exclusiva, feita por telefone na semana passada, Marily conta um pouco da emoções da conquista e relembra sua trajetória.
Folha - Você acaba de obter o índice. Quais são seus planos, a partir de agora?
Marily dos Santos - Vou dar um descansozinho só nesta semana, só trotezinho leve na água da piscina e na grama. Depois, vou treinar sério mesmo para a maratona para a gente tentar correr bem lá. Procurar fazer um tempo bom na maratona, independente da colocação que chegue, porque todo mundo sabe que lá estão as melhores do mundo. A semana que vem, o treinamento sério que eu digo é treinar mais forte. Eu treino em dois turnos, de manhã e à tarde. Faço tiros de velocidade na terça, na quinta e no sábado. E rodo uns 120 quilômetros por semana.
Folha - Mas, por enquanto, você está só festejando o índice. Como foi a prova em Florianópolis?
Marily - Eu fiquei tão feliz que fiquei só ajoelhada e orando. Eu esperava de mim, mas no dia mesmo fiquei muito preocupada. O treinador ficou mais preocupado do que eu, dizendo assim: ‘Acho que hoje não vai conseguir fazer tempo para o índice olímpico, mas vamos tentar ganhar a maratona‘. Aí eu fiquei um pouco desgostosa. No meio do caminho, eu falei: ‘Vou embora antes do 21‘. Ele falou: ‘Vá no 21, na metade da prova‘, mas só que eu me desesperei e vim embora desde o 16.
Aí ele viu que eu estava querendo mesmo, ficou emocionado, lá, gritando, me dando força: ‘Você pode, você pode, vai que você pode!‘. Aí eu achei que conseguia, era uma emoção só.
Ele confia muito em mim, mas no dia da prova estava chovendo muito, tinha muitas poças d‘água, ele ficou com medo que eu me machucasse. Estava um rio tão grande de água de um meio-fio para o outro. A gente ficava procurando aquele local que tinha menos água, porque não é brincadeira a gente largar numa maratona, saber que o asfalto está livre para a gente e a água ficar tomando conta, a gente ficar com medo de pisar numa pedra, numa boca-de-lobo e ainda fazer tempo.
Eu achei assim, inesquecível, nunca mais vou esquecer. Ele mesmo ficou muito feliz, porque ele achou que se chovesse mais do que aquilo não ia dar em nada mesmo. Ele achou que eu fui uma guerreira mesmo.
Folha - Esse foi o seu melhor tempo em maratona?
Marily - Meu melhor tempo, essa foi minha quinta maratona. A primeira foi só para brincar mesmo, estrear, foi em 2003, em São Paulo, fui a sétima. Foi uma estréia sem compromisso de subir no pódio nem de correr na frente, porque eu só corria meia-maratona e 10 km, não tinha aquela responsabilidade de chegar entre as três, de enfrentar outras maratonistas que já tinham mais experiência do que eu.
Folha - A experiência que você ganhou ajudou em Florianópolis?
Marily - Claro, a gente fica ali, uma estudando a outra, olhando o relógio, mas eu não gosto de correr muito com relógio. O carro-madrinha estava na minha frente com aquele cronômetro, mas chovia tanto que estava embaçando o cronômetro. Eu perguntei para a Márcia [Narloch] e para a outra menina que estava ao lado, como é que estava o tempo. Elas disseram que já era, o negócio era tentar ganhar a prova. Eu sou muito insistente, falei: ‘Não, eu quero mais do que ganhar a prova‘. Isso foi no km 14. No km 15 km, eu olhei para o meu treinador, ele olhou para mim, disse que estava cedo. Quando chegou no 16 eu falei: ‘Ele pode brigar comigo, falar o que quiser, mas eu vou embora é agora‘. Aí eu vi a placa do 16 dei logo uma pancada.
Comecei a liderar a prova, com aquela coragem, sabendo que eu ia fazer um tempo bom, que eu ia chegar em primeiro lugar ou que eu ia fazer o tempo para Pequim. Só sei que eu estava com coragem e confiando muito em mim. Ai o treinador viu que eu estava com coragem, ficou calado, olhando para mim. Ele estava mais me dando força, olhando para mim e mandando eu ir embora. No retorno, lá no 23, quando eu retornei eu já tinha 500 metros de frente, já. Eu digo ‘já era, mesmo que eu não faça o tempo, mas aqui eu vou segurar, não vou deixar ninguém mais passar na minha frente‘. Eu corri 26 km sozinha na frente.
Folha - É muito difícil correr sozinha na frente?
Marily - É difícil, mas, quando a gente está querendo a coisa, quando a gente tem coragem, a gente vai em frente. Eu fiquei conversando comigo mesma correndo. Resolvi fazer de conta que tinha uma menina aqui no meu pé e não queria me largar de jeito nenhum. E fui correndo assim: faz de conta que ela quer me passar e eu não vou deixar. Eu me concentrei assim, aí eu corri assim, como gente grande mesmo. O treinador gritando, gritando para eu baixar o tempo. Não sei o que passava pela minha cabeça, minha cabeça não estava obedecendo, nem minhas pernas, nem nada. Eu sei que eu queria era correr.
CONTINUA...
Escrito por Rodolfo Lucena às 23h12
Entrevista com Marily dos Santos - parte 2
Primeira corrida
Folha - Conte um pouco sobre sua vida, onde você nasceu, como era sua família...
Marily - Eu nasci num sítio perto de Joaquim Gomes, é uma cidadezinha em Alagoas, onde a gente fazia as compras e vendia as coisas que a gente plantava. E, vivia muito, assim, saudável, eu corria muito na época de criança. Tinha uma bodega, lá, minha mãe dizia: ‘Marily, vá lá comprar isso aqui‘. Dava o dinheiro. Eu pensava que era só aquele dinheiro, pagava, não pegava nem o troco, saía correndo de volta. O pessoal gritava: ‘Volta, menina‘, mas eu pensava que era brincadeira, vinha embora correndo. Eu cuidava de minha avó, levava as compras dela, porque ela era aposentada. Aí toda semana eu levava as compras dela na cabeça. Só que dava uns 8 km da minha casa para a casa da minha avó. Aí eu ia correndo e caminhando com o saquinho na cabeça.
Folha - Isso com quantos anos?
Marily - Isso aí com oito anos até os 15 anos, 16 anos até a época quase de eu vir embora. Aí eu ia correndo e caminhando. Agora, na volta tirava de uma carreira só, não gostava de parar de jeito nenhum. Eu vinha vazia, sem nada. Quando ela me dava uma jaca lá do sítio para trazer, eu chegava com a cabeça toda furada. Teve uma vez, era uma jaca mole, minha cabeça quase entrava dentro da jaca, de tão mole que estava. Apanhava, tomava uma surrinha assim, umas chineladinhas só para aprender, mas eu não me importava, eu queria era correr. Tomava aquele carão de menino mesmo. ‘Ah, por que você fez isso e não sei o que e tal. Ah! Duas horas depois eu estava fazendo de novo.
Folha - E ao mesmo tempo você trabalhava na roça?
Marily - Assim, a gente plantava abacaxi, mandioca, muito feijão. Aí meu pai dizia: ‘Olha, a gente está com muito feijão aqui dentro de casa, vamos vender‘. Algumas pessoas lá encomendavam para a gente. Aí, eu ia avisar, na casa das pessoas, que estava tendo um cento de abacaxi lá para ele. Tinha 300 abacaxis, tinha jaca, tinha feijão, para eles virem comprar. Eu tinha que passar na casa de todas essas pessoas. Até chegar na última casa dava mais ou menos uns 10 km. Aí eu ia correndo e tinha que voltar correndo. Tanto que, às vezes, o pessoal passava carão em mim, porque eu não conseguia nem dar o recado direito, eu falava gaguejando de vir correndo assim um pouco cansada, ofegante.
Meu pai dizia assim: ‘Eu vou cuspir no chão, se esse cuspe estiver seco quando você voltar, eu vou puxar a sua orelha‘.
Aí eu ia correndo, eu tinha um medo de apanhar já depois de grande, de vergonha das minhas coleguinhas, assim, do pessoal. Aí eu ia correndo, ia num pé e voltava no outro, correndo mesmo. Tanto que eu não conseguia dar o recado direito. Eles entendiam porque já sabiam, já conheciam. Eu chegava: ‘Tem um cento de abacaxi lá para o senhor. Vá buscar. Três horas da tarde‘. E saía correndo de novo.
Eu demorava um pouquinho na última casa, tomava uma água e voltava correndo de novo. Aí dava uma dorzinha de facão no meio do caminho, eu parava para caminhar, dois minutos depois a dor passava, voltava a correr. Isso quando não era subindo nos cajueiros, nas jaqueiras, derrubando jaca. Subia nas árvores, assim, aí acho que tipo uma academia, não é?
Folha - E qual foi a primeira corrida em que você participou?
Marily - Foi lá em Alagoas. Foi lá em Maceió, a Corrida do Trabalhador. Meu primo que me levou. Meu primo é tricampeão da Maratona do Rio, foi medalha de prata no Pan-americano, perdendo para o cubano dentro do estádio (Cuba-1961). Foi segundo em Boston, ganhou várias maratonas. O nome dele é José Carlos Santana. Ele foi passar as férias lá nesse sítio, que era um local tranqüilo. A nossa vida lá era assim: não tinha energia de jeito nenhum, lá a gente não via televisão, rádio tinha que comprar a pilha, quando a pilha acabava a gente colocava no pé do pote para ficar fria para colocar no rádio de novo. E, às vezes, sinto até saudade desse tempo.
Aí esse meu primo me conheceu e perguntou se eu queria ver a praia pela primeira vez. Me levou para Maceió, chegou lá disse que tinha uma corrida, perguntou se podia me inscrever. Eu disse: ‘Pode, eu vou correr‘. E corri, fui quarta colocada no geral. Era uma corrida de 10 km, foi quando eu tinha 18 anos.
Folha - Você ganhou algum prêmio?
Marily - Tinha premiação para as três primeiras. Aí acharam tão assim, eu correr a primeira vez, que me deram uma medalha. Deram a medalha e eu fui com essa medalha direto no peito, mostrar para o pessoal e tal. Aí eu falei: ‘Acho que eu não vou querer correr mais não‘.
Folha - Mas você não tinha ficado alegre com o resultado, por que você pensou em não mais correr?
Marily - Ah, porque eu sofri demais. Eu sofri demais, eu queria correr na frente dos homens. Meu primo disse que eu poderia ter chegado entre as três, eu corri muito forte no final, já fiquei toda dolorida. Aí, depois de dois dias já queria correr de novo. Aí ele me trouxe para uma outra corrida de Maceió, e fui a terceira no geral. Aí ganhei dinheiro, R$ 300, eu fiquei tão feliz, que eu não sabia onde botava tanto dinheiro. Então tive que continuar correndo.
CONTINUA...
Escrito por Rodolfo Lucena às 23h10
Entrevista com Marily dos Santos - final
Osso duro de roer
Folha - Na época, você trabalha com sua família, não tinha salário...
Marily - Não, a gente trabalhava para a gente mesmo. Meu pai comprava as coisas para a gente. Ia comprar junto. A gente dizia: ‘Eu quero isso‘, e ele ia lá e pagava. O primeiro dinheiro que ganhei foi aquele da corrida, mas prêmio mesmo foi um ventilador. Eu vendi por R$ 30. Foi numa corridinha, uma brincadeira que teve na comunidade, em Joaquim Gomes. O povo soube que eu tinha corrido em Maceió, aí tinha essa corridinha, falaram: ‘Olha, aquela menina daquele sítio corre‘. Aí eu soube e vim correr, não é? Depois de Maceió, tinha a corrida de Juazeiro (BA), meia-maratona. Eu sofri mais ainda e ganhei dinheiro, também. Eu fui quarta no geral. E decidir ir morar em Juazeiro, fiquei dois anos lá, morando com a família daquele meu primo e também na casa do meu tio. Treinava, corria e estudava lá, em Juazeiro, no colégio Jutahi Magalhães.
Folha - Você fazia o segundo grau?
Marily - O segundo grau, eu tinha muita vontade, mas não dava, não, porque lá onde eu nasci não tinha escola. Tinha uma professora lá que ensinava só até a quarta série. Só pegava criança a partir de 7 anos. E criança hoje em dia com 7 anos, já sabe ler e escrever, e eu não sabia. Não só eu, todas as crianças de lá. Aí comecei a estudar, estava na quarta série, aí o colégio caiu, lá nesse sítio. Até fazer um outro eu já estava com 16 anos. Em Juazeiro, fiz a quarta e quinta junto, mas não passei, porque o estudo era muito fraco lá no sítio. Mas no outro ano eu passei. Depois fui para Salvador e continuei os estudos.
Folha - Por que essa mudança?
Marily - O meu primo me trouxe para Salvador, e disse: ‘Olha, Marily, eu vou te apresentar um treinador, porque eu sou maratonista, não tenho como passar treinamento para juvenil, para pessoa iniciante, que está começando‘. Ele não encontrou o que estava procurando, ams encontro esse com quem estou treinando agora, o Gilmário Mendes. Aí deu tudo certo com esse.
Folha - Tão certo que vocês casaram...
Marily - É, foi isso mesmo, depois de dois anos de treino a gente começou a namorar e casou.
Folha - Todo atleta tem algum atrito com o treinador, de vez em quando. E como fica no caso de vocês?
Marily - Claro que tem, porque nem todo mundo é santo, mas a gente não mistura muito as coisas não. A gente não mistura porque profissional é profissional, você tem que ter o lado ali do trabalho sério e o lado de esposa e marido em casa, não é? O que a gente vê ali, a gente conversa depois. E nada para interferir, assim, em treinamento, viagem, essas coisas. Se a gente quer conversar mais alto, deixa para casa ou lá no interior. Tem, sim, aquelas briguinhas bestas, mas a gente chega num acordo. Meu treinador se preocupa muito comigo. Ele cuida. Se eu estiver com alguma coisa e não falar para ele, aí ele se chateia, mas eu acho que é para o meu bem.
Folha - Desde quando você se considera profissional?
Marily - Corredora profissional desde os 20 anos já. Desde que eu comecei a ter treinador, porque eu comecei a treinar com um treinador muito profissional, então me achei profissional também. Nós também temos um trabalho nosso, uma equipe de corredores, a MultSport Clube de Corredores. Mas patrocinadores daqui, nada. Se eu não fosse, assim, persistente, não tivesse disciplina de pegar meu dinheiro de corrida, que eu ganhava aqui, e ir correr nas competições de São Paulo, Rio, aparecer na Globo, hoje em dia não teria não. Eu comecei a aparecer na São Silvestre. Mesmo que não ganhasse a corrida, eu sou osso duro de roer, ia lá para a frente, comecei a aparecer na televisão, as pessoas acharam que eu tinha talento para isso. Começaram me dar apoio, comecei a ganhar material esportivo, depois a Mizuno me chamou num acordo e estou recebendo salário da Mizuno e da Caixa (Marily é bicampeã do circuito Caixa de corridas de rua).
Folha - Por tudo isso, a corrida é muito importante na sua vida...
Marily - A importância da corrida é ter me tirado de um local que não tem futuro. Foi uma escola para mim. Aprendi muitas coisas importantes. Viajar, já fui para fora do Brasil sozinha. Já fui, já voltei, aprendi bastante coisa, também. Minha mãe está vendo o que eu era, o que eu estou sendo agora, acho isso muito importante. Meu pai, também, não é? Ele não entendia o que eram as corridas e agora já está entendendo, sabe muito bem o que é que eu quis na minha vida, isso é muito importante. Eles me apóiam bastantes. Meus pais são assim, sabe, muito meus amigos.
Folha - Você falou de viagens para o exterior. Qual a mais legal?
Marily - Já corri o Campeonato de Cross, na Bolívia. Já corri a Corrida de São Fernando, no Uruguai. Já corri em Portugal o Mundial de Meia-Maratona. Apesar de ter sido muito longe mesmo, eu gostei muito de ter ido para a Tailândia. Gostei mesmo. Até acho que eu não tenho coragem mais de ir para lá, mas eu gostei muito. Fui com mais três colegas, foi um prêmio da Corrida Contra o Câncer de Mama. Fui a segunda no geral, eu perdi só para a queniana. Fui a primeira brasileira. Aí eles falaram que davam a passagem para a gente para a Tailândia. Eu não achei que ia sair, mas, depois de um ano chegou essa passagem. A Fabiana [Cristina da Silva] também ganhou a passagem, foi em 2002 [A queniana Tegla Loroupe venceu, Fabiana foi a quinta colocada e Marily, a sexta].
Folha - Lá é quente, úmido, poluído, como deverá ser em Pequim...
Marily - Quanto a isso eu não me preocupo não, quando mais quente estiver, para mim é melhor. Eu corri muito bem na chuva, mas eu sou do calor.
Escrito por Rodolfo Lucena às 23h08
Maratona entra na trama de comédia romântica
Só por amor

Já vou avisando que não vi o filme ainda, portanto esta não é uma crítica nem uma recomendação.
Está passando em São Paulo um filme cujo título em português é "Maratona do Amor"; pelas resenhas que vi, promete algumas risadas (e talvez faça corredores mais sisudos franzirem o cenho).
Um sujeito está para casar, mas amarela e larga a quase-futura cônjuge no altar.
Tempos depois, mais maduro e também na pindaíba, avalia que cometeu um erro e trata de arquitetar estratégias para demonstrar à amada seu amor.
Na falta de dragões para matar ou castelos para tomar, vai enfrentar o grande e heróico desafio de correr uma maratona ("Qualquer um pode correr uma maratona", diz), mesmo não estando no primor da forma, como o próprio título original já revela ("Run Fat Boy Run", algo como Corra, Gordinho, Corra).
Ele não se abate e vai treinar (foto no alto, Divulgação). O incentivo é ainda maior quando descobre que o então namorado da moça (afinal, ela não ficou parada; como se diz, a fila anda) também vai correr. E, claro, tem de ser derrotado.
Como você vê, trata-se de uma grande bobagem. Mas pode ser divertido, ainda mais que a direção é assinada por um especialista em comédia, David Schwimmer, que ficou conhecido na TV como o Ross do seriado "Friends" e faz sua estréia por trás das câmeras.
Escrito por Rodolfo Lucena às 12h46
Não deu para Baldaia
94 segundos
Essa foi a diferença entre a marca obtida por Maria Zeferina Baldaia e o índice A para estar presente na maratona de Pequim.
A corredora mineira fechou a maratona de Hamburgo, realizada hoje na Alemanha, em 2h38min34, o que deixa, por enquanto, o Brasil com apenas uma representante na maratona olímpica, a alagoana Marily dos Santos.
Baldaia correu a primeira metade em 1h16min56, mas não conseguiu manter o ritmo _o que seria mais do suficiente para sua qualificação. Fez a segunda metade em 1h21min39 (a diferença entre a soma das metades e o resultado final é por causa das aproximações, creio eu; os números são os oficiais).
A vencedora em Hamburgo foi a russa Irina Timofeyeva, que fechou em 2h24min14, deixando a queniana Pamela Chepchumba mais de um quilômetro atrás.
No masculino, o duelo dos quenianos David Mandago e Wilfred Kigen foi mais apertado. Mandago venceu em 2h07min23, e o compatriota chegou 25 segundos mais tarde.
Escrito por Rodolfo Lucena às 12h40
Não tem nada a ver, mas...
21 aninhos
Desculpe aí se você acha que este blog só pode falar apenas, exclusiva e tão somente de corrida, mas não resisti à vontade de compartilhar a foto acima, que foi mandada por uma assessoria de imprensa.
Ela retrata a tenista russa Maria Sharapova no momento em que apaga as velinhas em sua festa de aniversário, em Nova York, na noite da última terça-feira.
E, como já estou me sentindo patrulhado por corredores heavy-metal, que só querem saber de assuntos corredísticos, aproveito o ensejo para acrescentar uma informação que não tem nada a ver com Sharapova, mas sim com os Jogos Olímpicos.
A presença em Pequim do campeão olímpico da maratona Stefano Baldini está ameaçada. O italiano sofreu uma fratura por estresse na perna esquerda e vai ficar em tratamento por um mês.
"Não quero fazer drama, mas isto complica as coisas. Estamos perto das Olimpíadas e acho que me machucar não é a melhor maneira de me aproximar dos Jogos", disse ele.
E eu que pensava que só pangarés amadores como este escriba sofriam de tais males, típicos de algum erro de treinamento...
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h00
