| |
Som e tecnologia
Chips que correm
A maratona de Nova York é um dos maiores e mais charmosos eventos de corrida do planeta. Neste domingo, cerca de 37 mil pessoas vão tomar as ruas da cidade, aplaudidas ao longo do percurso por esperados 2 milhões de espectadores.
Muito dos corredores vão enfrentar as dificuldades da distância com o auxílio da tecnologia. Lance Armstrong, o ciclista superhipermegacampeão do Tour de France, é talvez a maior estrela da prova. Ele vai usar tênis da Nike com sensores que mandam para seu iPod nano informações sobre seu ritmo de corrida.
O empresário Dino Farfante terá cada passo monitorado por um aparelho GPS fabricado por sua companhia, a MotionLingo. O aparelho manda os dados para um toca-MP3, que, por sua vez, vai sussurrar as dicas no ouvido do corredor, segundo reportagem publicada no "The New York Times".
Os GPS para corredores, aliás, são os mais novos membros da família de acessórios eletrônicos, em que os mais conhecidos e usados são os monitores cardíacos. A Garmin, que fabrica um relógio/GPS/monitor cardíaco, vem patrocinando corridas nos EUA para divulgar sua marca. Por sinal, aguarde que em breve vamos publicar em +corrida um teste exclusivo do Forerunner 305, um dos mais sofisticados aparelhos do gênero.
Mas, em Nova York, como bem lembra o NYT, provavelmente o acessório mais usado será o tocador de MP3, ainda que muitos organizadores de corrida não recomendem o uso de fones de ouvido por questões de segurança.
Entrevistado pelo NYT, o editor-chefe da Runner`s World, David Willey, disse calcular que um em cada cinco marotonistas use algum modelo de toca-MP3 para dar ritmo à corrida ou simplesmente se divertir.
Um técnico de corridas norte-americano recomenda a seus alunos que façam o download de um podcast com um metrônomo, a fim de ficarem no ritmo certo. Mas, para a maioria, a música é que comanda.
Pamela Ribon, autora de "Why Moms Are Weird" (Por que as mães são estranhas), não larga seu aparelho. Segundo ela, a música "Toxic", de Britney Spears, foi o incentivo que precisava para superar uma câimbra depois de seis horas de prova, na milha 24, na maratona de Maui. Para se recuperar, seguiu o resto cantando e dançando como podia e cruzou a linha de chegada.
>
Para você, prezado leitor, qual é a música?
Escrito por Rodolfo Lucena às 14h03
Nova York
Brasileiro na área
A edição deste ano da maratona de Nova York, que acontece neste domingo, reúne talvez o mais galáctico dos elencos galácticos que costumam rechear a famosa e charmosa prova.
Para começar, nada menos que o recordista mundial e superconhecido dos brasileiros, o queniano Paul Tergat, que defende o título. No feminino, a campeão do ano passado, Jelena Prokopcuka, também volta ao campo.
Os norte-americanos vão torcer pelo seu compatriota Meb Keflezighi, medalhista olímpico nascido na Eritréia. Talvez com mais chance de beliscar o pódio corre Deena Kastor, que fez uma prova cerebral nos Jogos de Atenas para conquistar sua merecida medalha.
Conforme o clima, um brasileiro também pode incomodar. O campeão da São Silvestre, Marilson Gomes dos Santos, 29, está lá para tentar mais do que simplesmente fazer bonito. Ele deve correr os 5.000 e os 10 mil metros no Pan, mas isso não quer dizer que vá deixar de lado uma oportunidade como esta. Com tempo de 2h08min48 na maratona de Chicago, em 2004, Marilson tem credenciais e cabeça para dizer presente entre os melhores.
Escrito por Rodolfo Lucena às 13h56
Nova York
Muita grana
A maratona de Nova York oferece a maior premiação da história nessa modalidade de corrida. No total, são mais de US$ 740 mil em prêmios. O primeiro homem e a primeira mulher levam US$ 130 mil cada um. Haverá bônus diversos premiando desempenhos sub-2h11min30, para homens e sub-2h29 para mulheres.
Pela primeira vez na história, a corrida vai ser transmitida ao vivo pela internet. Uma parceria de NBCSports.com, NBC Ports e MediaZone vai dar acesso às imagens para quem pagar US$ 4.99. Eu já paguei, estou devidamente registrado e, se tudo der certo, vou contar para vocês os principais lances da corrida neste domingo pela manhã.
Escrito por Rodolfo Lucena às 10h27
Nova York
Estrela entre as estrelas
Um ciclista será a pessoa mais paparicada amanhã entre os 37 mil corredores que vão participar da maratona de Nova York. Trata-se do heptacampeão do Tour de France, Lance Armstrong, que vai tentar mostrar que é tão bom no chão quanto no pedal.
Para chegar inteiro, correndo e com um bom desempenho, será auxiliado por outras estrelas, estas do mundo das corridas. Terá como pacers, ou seja, corredores que lhe ditam o ritmo, nada menos que o maior herói norte-americano da longa distância, Alberto Salazar, último vencedor em Nova York que levantou a bandeira dos EUA, e Joan Benoit Samuelson, que venceu a primeira maratona olímpica feminina.
Salazar, 48, vai rodar com ele as dez milhas iniciais (16 km). A vencedora de Los Angeles-84, de 49 anos, ditará o ritmo nos 16 quilômetros seguintes. Para chegar quase até o final, Armstrong terá a orientação do campeão olímpico dos 1.500 e 5.000 metros, Hicham El Guerrou. O superciclista só vai correr sozinho, mesmo, os tais 195 metros que matam.
Tomara que ele sobreviva.
Escrito por Rodolfo Lucena às 10h04
Mil maratonas - parte 4
Na reta final
Parte final da entrevista exclusiva com Norm Frank, aposentado norte-americano que corre para completar sua milésima maratona
FOLHA - O senhor correu a maratona de Boston por 30 anos seguidos, correu uma maratona por mês por 216 meses seguidos... FRANK - É, isso foi lá no começo. Eu nem sabia que tinha esses recordes. Quando eu compilo meus dados, mando para esse clube do Japão, e eles que me disseram que eu tinha esses recordes. Mas eu tive uma cirurgia da próstata e tive uma infecção muito grave, que me deixou praticamente um mês sem poder correr. Como eu não sabia que tinha esses recordes, nem cheguei a fazer uma tentativa de manter a seqüência. Daí os dois recordes caíram no mesmo ano, em 1997, caíram sem que eu nem ao menos soubesse que os tinha..
FOLHA - Bem, esse foi um problema grave de saúde, mas não relacionado com as maratonas. O senhor já teve problemas graves de saúde relacionados com sua corrida? FRANK - Não. Tive uma cirurgia na aorta, uma operação de coração aberto. Mas não foi por causa da corrida, eu nasci com o problema e chegou a um ponto em que ela precisava ser substituída porque já não estava mais funcionando direito. Provavelmente funcionou por mais tempo do que poderia porque eu corro. Eu já tive minhas lesões. Já rompi o tendão de Aquiles, tive várias lesões ao longo dos anos, mas elas só me deixaram fora de combate por algumas semanas, um mês no máximo.
FOLHA - O senhor considera isso um vício?. FRANK - Sim, absolutamente. Eu diria que certamente é um vício, mas um bom vício. Eu não bebo nem fumo. Correr alivia o estresse. Eu tinha meu negócio, minha empresa, mas no final de semana eu corria, na segunda estava pronto para voltar ao trabalho. Eu gosto de viajar e, durante um certo tempo, viajei bastante, foi muito divertido. Agora é mais difícil.
FOLHA - Sobre sua família: o senhor é casado, tem filhos. FRANK - Eu fui casado, mas me divorciei há uns 30 anos e vivo sozinho. Tenho um filho, de 47 anos, que é um ultraciclista, corre umas 100 milhas todos os finais de semana, e minha filha vai fazer 40 anos, ela nasceu no mesmo ano em que comecei a correr. Ela tem dois filhos. Ela corre quando tem tempo, porque ela é muito ocupada com o trabalho e com a família, mas tem muita vontade de correr uma maratona. Ela gosta de correr, ele gosta de pedalar.
FOLHA - O senhor tem esse objetivo de completar sua milésima maratona. Já tem tudo planejado, qual será? FRANK - Eu não tenho tudo planejado, pois não dá para pensar com tanta antecedência. Em primeiro lugar, porque tenho 75 anos e posso nem sequer estar aqui em dois anos... Mas, se as coisas derem certo, minha milésima maratona será na minha cidade, Rochester, em setembro de 2008 Isso é o que eu imagino, pois dificilmente será antes dessa data. Vai ser legal, minha família está aqui, meus amigos, vai ser uma grande celebração se eu conseguir fazê-la aqui.
FOLHA - O senhor tem alguma mania, alguma rotina antes de cada prova? Usa sempre a mesma roupa, come a mesma coisa? FRANK - Eu tomo uma xícara de café e como um donut. Durante a prova, tomo alguma bebida esportiva ou água, como uma banana ou o que me oferecerem. Nas ultramaratonas há mais comida... O que eles tiverem, eu como.
FOLHA - Qual sua mensagem para os corredores ou para as pessoas que gostariam de correr? FRANK - Eu sugiro que todos experimentem correr, participar de corridas e que não fiquem decepcionados se não se derem muito bem no início. Sejam pacientes e pensem nas razões para fazer isso. Algumas pessoas começam a correr apenas para perder peso. Tente aproveitar a corrida, faça dela uma diversão, uma experiência. Não seja exagerado, tente não ficar tenso, tente não exigir muito de si mesmo.
FOLHA - O senhor conhece algo sobre corridas no Brasil? FRANK - Nunca fui ao Brasil. Fui ao Panamá uma vez, ao canal do Panamá. Eu ia correr do oceano pacífico ao oceano Atlântico, cerca de 52 milhas. Mas fiquei no sol e me queimei de tal forma que não conseguia sequer colocar as meias. Fui até lá e não pude participar da corrida. Esse é o lugar mais próximo do Brasil em que já estive.
Escrito por Rodolfo Lucena às 13h17
Mil maratonas - parte 3
No "Livro dos Recordes"
Aqui continuamos a entrevista de Norm Frank, o jardineiro norte-americano aposentado que corre para completar sua milésima maratona -neste ano, ainda planeja correr pelo menos duas provas de 50 quilômetros, além de duas maratonas. Na mensagem anterior, ele falou sobre seu processo de aprendizado dos segredos da corrida. Agora, segue o baile.
FOLHA - Como o senhor prova que correu todas essas maratonas? Como documentou seus feitos para entrar no "Guinness"? FRANK - Eu tenho toda a documentação. Para entrar no "Guinness", eu tive de apresentar um certificado de todas as maratonas em que participei _o que eu fiz. Se não tivesse um certificado, um artigo de jornal ou o resultado publicado da prova, mas da maioria delas eu tinha um certificado oficial com o meu tempo etc.
FOLHA - Quando o senhor bateu o recorde mundial? FRANK - Em 1994. Foi quando eu completei 525 maratonas. O recorde anterior era de 524, e eu o quebrei em maio, em Buffalo. E eu o tive por alguns anos [hoje, o recorde registrado no "Guinness" é do alemão Horst Preisler, que correu 1.305 maratonas ou provas mais longas de 1974 a 2004].
FOLHA - Em que ano o senhor correu seu maior número de maratonas? FRANK - Não lembro exatamente, mas acho que foi 1996, mas eu venho correndo entre 35 e 40 por ano desde que quebrei o recorde. O que acontece é que as mulheres começaram a correr, assim como pessoas passaram a caminhar as maratonas para alguma causa (combate ao câncer, luta contra a leucemia), as cidades começaram a ganhar dinheiro com isso, e então passaram a organizar e promover maratonas. Passou a haver dinheiro nisso, para as cidades, o turismo, os restaurantes. E surgiram mais provas, nasceu o clube dos 50 Estados (para que correm uma maratona em cada Estado norte-americano), há dois deles, com centenas, milhares de membros. Isso é muito bom para as cidades. Agora, em Nova York, 37 mil pessoas vão correr a maratona. Pode imaginar quanto dinheiro isso gera? Então também ficou mais fácil correr uma maratona, pois você não precisaria sair de Nova York e ir até a Califórnia para participar, porque você poderia ir ao Maine ou a outro local mais próximo. Hoje, eu consigo correr praticamente uma por semana sem ter de viajar de avião, eu não viajo mais tanto _e nem teria condições de fazê-lo...
FOLHA - Como o senhor se sustenta hoje? FRANK - Bem, eu sou aposentado. Tinha meu próprio negócio e me aposentei e vivo de minha aposentadoria.
Escrito por Rodolfo Lucena às 13h11
Mil maratonas - parte 2
Menos é mais
Leia a seguir a seqüência dos melhores momentos da entrevista com Norm Frank, 75, norte-americano aposentado que planeja chegar, em 2008, à maratona número 1.000.
FOLHA - Mesmo esses seus números do começo da carreira, de três a cinco maratonas por ano, já eram maiores dos que os recomendados por treinadores ou médicos do esporte... FRANK - Por muitos e muitos anos, sempre se pensou que você podia fazer apenas duas ou três maratonas por ano, que seu corpo não iria resistir, que não era saudável. Eu até acho que isso possa ser verdade para quem está tentando fazer a maratona em menos de duas horas e meia, mas para quem corre como eu... Eu nunca na verdade fui bom o suficiente para correr tanto que me quebrasse, então... Eu simplesmente não achava que eu tivesse algum problema por fazer a quantidade de maratonas que eu fazia. À medida que passavam os anos, havia mais maratonas, e eu passei a fazer cada vez mais maratonas por ano. Nos últimos dez anos, venho fazendo mais de 35 por ano.
FOLHA - E por que tantas? O senhor disse que o desafio o atrai, mas um desafio desses a cada semana? FRANK - Sim, acho que sim. Os percursos são sempre diferentes, o clima também faz diferença. Quando você vai para a Flórida, é calor; quando você para o oeste, tem as montanhas. Cada uma das maratonas que fiz foi um novo desafio. Nunca fui muito fanático sobre o meu tempo, eu queria me sair bem, mas não pensava que eu tinha de correr mais rápido a cada prova...
FOLHA - Qual era o seu objetivo, então? FRANK - Meu objetivo era terminar a prova. E esse tem sido meu objetivo desde sempre, e hoje é um desafio ainda maior do que era há 20 anos, pois estou mais velho, é mais difícil, eu estou mais lento. Mas acho que é por isso que eu me dei tão bem e fiz tantas maratonas, pois considero cada nova prova um desafio. Você precisa respeitar a distância cada vez que você corre uma maratona.
FOLHA - O senhor tinha uma rotina de treinamentos? E como é hoje? FRANK - Quando comecei, eu realmente tinha um plano de treinos. Era um processo, e você precisa lembrar que corro há 40 anos. Ao longo do tempo, fui aprendendo. E atribuo parte da minha capacidade de correr por tanto tempo ao fato de que eu não treinava muito, que não exagerava nos treinos nem nas provas. Hoje eu corro talvez um dia por semana, no meio da semana, entre as provas, e apenas umas cinco milhas (oito quilômetros). Eu caminho bastante. Gradualmente, ao longo dos anos, fui passando de correr todos os dias para quatro dias, três dias e, hoje, talvez um dia por semana, às vezes nem isso. Acho que muitos corredores exageram nos treinos. E se machucam. Quebram. A maioria dos corredores sofre lesões nos treinos, por causa do excesso de treinos. Eles não se machucam nas provas, mas sim nos treinos.
FOLHA - É melhor correr provas em excesso do que treinar em excesso? FRANK - Sim. O treinamento excessivo é um fator importante de lesões. Eu não estou dizendo que você não deve treinar, mas esses caras que fazem 160 quilômetros por semana, você não os vê correndo por 20 anos. Você simplesmente não consegue manter isso. Todos aqueles caras que ganhavam as corridas quando eu participava da maratona de Boston, há 30 anos, você não os vê correndo. Você vê outros corredores mais velhos, como eu, que não corriam na frente... Eu fico satisfeito de não ser tão rápido, talvez eu não estivesse aqui agora [seu recorde pessoal é de 3h20; hoje leva entre seis horas e meia e sete horas para completar uma prova].
Escrito por Rodolfo Lucena às 13h06
Mil maratonas
Jardineiro ultrasupermega
Persistência é a mais marcante característica de Norm Frank, no próprio dizer desse solitário senhor aposentado que, aos 75 anos, tem como meta na vida chegar à milésima maratona. Ele não está longe disso: no final de outubro, contabilizava 931 maratonas, sendo 175 delas ultras -corridas em distâncias superiores aos 42.195 metros da prova olímpica.
Frank nasceu em 20 de junho de 1931, em Rochester, Estado de Nova York, no nordeste norte-americano. Começou a correr aos 35 anos e nunca mais parou: faz entre 35 e 40 maratonas por ano e já teve seus feitos registrados no "Livro dos Recordes".
Ele conversou com a Folha por telefone de sua casa em Rochester, onde mora sozinho -divorciou-se há cerca de 30 anos. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.
FOLHA - Quando o esporte entrou em sua vida? NORMA FRANK - Eu sempre levei uma vida ativa e pratiquei esportes. No ginásio, corria cross country, participava da equipe de atletismo, jogava basquete, tênis, futebol americano, era bastante ativo. Eu saí direto do segundo grau para o trabalho, não cheguei a fazer nenhum curso universitário. Trabalhei na construção civil durante um tempo, depois estive no Exército por uns dois anos, joguei futebol e basquete, mas nada de atletismo. Quando eu saí do Exército, em 1955, costumava jogar squash. Trabalhava na construção civil, depois entrei na área de publicidade. Quando cheguei à maratona, eu já tinha trocado de carreira: estava no paisagismo. Tinha minha própria empresa de jardinagem e paisagismo, Marathon Lawn Service, e fiquei nela até me aposentar. Tive meu próprio negócio por cerca de 40 anos. Eu me saí bem nisso e tive a oportunidade de ser o meu próprio patrão: eu podia sair na hora que quisesse e ninguém podia me dizer que não era permitido. Eu era o patrão.
FOLHA - O que o levou à corrida e às maratonas? FRANK - Eu jogava muito squash. Perto de onde eu morava tinha uma represa, em Cobb Hill, era um lugar bacana para correr. Eu ia até lá e corria um pouco, para soltar os músculos antes ou depois de uma partida. Um dia, conversei com um sujeito, que me perguntou: "Você está treinando para Boston?" E eu perguntei: "Boston?", eu não tinha idéia de a que ele estava se referindo. Ele me contou, falou que tinha corrido a maratona, eu me interesse. Era algo novo, parecia um desafio, e eu queria experimentar. Então eu fui e adorei, fui fisgado para as maratonas na primeira vez que corri Boston.
FOLHA - O que fez com que o senhor gostasse tanto? FRANK - O desafio. Era difícil, muito duro. Os outros esportes, eu podia praticar por horas a fio, eu era até bastante bom não tinha problemas, nada era difícil para mim. Mas a primeira maratona, ah!, ela foi muito difícil. Depois que terminei, eu não conseguia me segurar de vontade: queria logo fazer uma segunda porque eu tinha de melhorar, eu queria que ela não fosse tão difícil. Nos anos seguintes, ir a uma maratona, viajar, se tornou parte da corrida. Fui para todos os Estados dos EUA, fui a Dublin, na Irlanda, a Berlim, a Atenas, lugares para onde eu nunca jamais iria se não fossem as maratonas.
FOLHA - Quando fez sua segunda maratona? FRANK - Acho que uns dois meses depois, em Toronto, Canadá. Não havia muitas maratonas naquela época. Por vários anos, eu consegui apenas correr umas três ou quatro maratonas ao ano. Por uns dez anos, eu não corri mais de cinco ao ano. Não havia muitas e, se havia, você não sabia, não tinha informação. Não conhecia ninguém em Rochester que corresse maratonas. Ninguém para dar dicas ou conselhos, não havia livros de treinamento.
Escrito por Rodolfo Lucena às 12h33
Maratona na veia
Esse foi o título de estréia da coluna +corrida, que passa a ser publicada toda primeira quinta-feira de cada mês no caderno "Equilíbrio" da Folha.
Na primeira coluna, contei a história de Norm Frank, um jardineiro norte-americano aposentado que, aos 75 anos, tem como objetivo na vida chegar à milésima maratona. Até agora ele já fez 931 provas de 42.195 metros ou mais longas.
A coluna está AQUI, exclusiva para assinantes da Folha e/ou do UOL. Ao longo do dia, vou colocar no ar os principais trechos da entrevista com Frank.
Escrito por Rodolfo Lucena às 09h35
Entrevista - parte 3
Em Chicago, de patins
Moacyr Lopes Júnior/Folha Imagem

FOLHA - Das corridas que você fez, qual que você lembra com mais carinho?
CICARELLI – A de Nova York eu terminei em prantos porque eu não acreditei que eu tinha corrido uma maratona. Eu falei: "Gente, não é possível que eu corri uma maratona". Eu corri, eu não tinha muita noção de corrida e corri.
Eu tenho medo de altura e, quando deu a largada, eu estava antes da ponte do Brooklin, assim, beleza, 40 mil pessoas estavam lá. Quando eu subi na ponte, a ponte começou a balançar. Eu olhava para baixo e travei, fiquei na ponte escorada... Eu falei: "Gente, eu não vou sair daqui".
Eu praticamente engatinhei na ponte de tanto medo, a ponte balança. Quarenta mil pessoas em cima da ponte a ponte faz assim, olha, e eu fiquei apavorada. E terminei chorando, numa felicidade enorme.
FOLHA - Bom, as suas dores, você falou que tinha tendinite...
CICARELLI - Eu tenho a tal da tendinite, cada um tem a sua. Já tive fratura de estresse. Eu tenho tendinite na tíbia esquerda. Às vezes volta, mas tudo bem. É um problema sem solução, não é como um problema de joelho. Um problema de joelho você opera, mas esse negócio não tem, você tem que parar de correr. Você põe gelo, coloca aqueles adesivos, passa pomada antiinflamatória, faz fisioterapia, faz alongamento, faz massagem, faz aqueles ultra-sons. São paliativos, mas, quando o negócio vem, a solução é parar de correr, não tem outra coisa.
FOLHA - Alguma prova que gostaria muito de correr?
CICARELLI - Outro dia eu fiquei sabendo de uma maratona que tem na Noruega, que é do Sol da Meia-Noite. E tem as mais convencionais, como a de Chicago. Eu, no primeiro ano, fiz a maratona de Nova York. No segundo, comecei a treinar para a maratona de Chicago. Mas aí tive uma fratura de estresse, que eu descobri depois da meia do Rio, que é em agosto, e a maratona de Chicago é em outubro. . Já estava com a passagem paga, já estava com tudo pago. Então eu fui para fazer a maratona de ... patins. Nunca fui tão xingada em toda a minha vida. Acho que eles pensavam: "Espera aí: eu passei o ano inteiro treinando e agora vem essa mulher de patins e corre do meu lado. Ela está louca?" Mas, me xingaram, me xingaram, os 42 km eu ouvi. Então eu fiz uma outra maratona, também, de patins, mas essa não vale.
FOLHA - O que você recomenda para quem quer começar a correr?
CICARELLI - Eu não sou treinadora para recomendar, mas eu recomendo fazer o esporte, porque é muito gostoso, muito legal. É um esporte que todo mundo pode fazer. Eu já tive amigas que nunca tinham corrido ou que eram gordinhas, que fumavam. Começava caminhando no parque e foi evoluindo, no final dava aquela corridinha, sabe? Aquela corridinha toda tímida e que deixava a pessoa extremamente feliz. Da mesma maneira que um dia também eu comecei caminhando e um dia corri uma maratona. Eu recomendo correr, porque é um esporte muito gostoso, muito popular. Não é um esporte de elite. É um esporte do povo mesmo, e eu tenho o maior orgulho.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h42
Entrevista - parte 2
Moacy Lopes Júnior/Folha Imagem

Delícia de vício
A corrida conquistou Daniella Cicarelli em São Paulo, para onde a garota mineira se mudou em 2001 para investir na sua carreira de modelo. Foi no parque do Ibirapuera que ela deu seus primeiros trotes, experimentou correr sem parar por longuíssimos 12 minutos e ficou com o coração na boca. Hoje, a corrida virou um vício para a apresentadora de 1,79 metro e 62 quilos. Foi no Ibirapuera, também, que ela deu esta entrevista exclusiva na semana passada. Leia a seguir os principais trechos da conversa.
FOLHA - Já vi muitas notícias dizendo que você estava treinando para uma maratona, mas não lembro de alguma falando que você tinha efetivamente feito a prova. Você já correu uma, afinal?
DANIELLA CICARELLI - Eu fiz a minha primeira maratona em Nova York, em 2003. Comecei a correr em 2001: uma amiga minha estava correndo, treinando para uma maratona. Eu falei: "Mas o que é isso?" Quarenta e dois quilômetros ponto 195. Eu acho muito importante esse ponto 195, são os finais, são os piores. Aí, eu falei: "Mas como assim? Alguém corre isso? Isso existe? Alguém já correu? Você vai ser a primeira?" Aí, eu resolvi começar a correr. Lembro que a primeira vez que eu vim correr aqui no parque, eu corri 12 minutos, sentei no chão e fiquei, parecia que eu ia ter um troço. Isso eu tinha 21 anos (ela completa 27 anos na próxima segunda-feira).
FOLHA - E como foi a maratona?
CICARELLI - Fiz minha primeira maratona em 4h12 _imagina, seis minutos por quilômetro. Sofri, sofri, sofri, mas terminei. Quando eu vi a plaquinha do quilômetro 41, nossa, eu chorava, chorava. As pessoas perguntam: "Você chora? Mas chora do quê? De tristeza?" Eu falei: "Não, você chora de pura felicidade, porque maratona nada mais é do que você impor um objetivo para você e você se superar". Você pode até competir com seu vizinho, com seu amigo ou com sua amiga, mas o objetivo, a superação é sua, porque é você que sente a dor. Dói tudo, dói do fio do cabelo até a unha do pé. A unha do pé, então, principalmente, não é?
FOLHA - A corrida acompanhou sua carreira de modelo ou você já tinha destaque?
CICARELLI - Não, estava no começo. Quando vim para cá, em 2001, eu estava começando. Comecei uma vida nova. Antes, eu fazia faculdade de administração, em Belo Horizonte. Aí mudei para cá. Comecei a correr, comecei a trabalhar como modelo, logo depois eu entrei na TV. Então, a corrida esteve ao lado nessas grandes mudanças. Em 2001, eu era exatamente modelo. Agora, não sou mais, agora sou apresentadora de TV, principalmente, porque as modelos agora têm 12 anos, 14 anos, eu sou tia delas, não é? Então, no começo eu era modelo e corria e ninguém acreditava, porque todo mundo falava: "Gente, modelo não come, como é que consegue correr?"
FOLHA - Modelo come alface, corredor come massa.
CICARELLI - É verdade, só que eu sempre tive o negócio da gula. Sou filha de família italiana, então eu amo massa. Para mim, não é uma obrigação comer uma massa à noite para fazer um treino longo de manhã. É um delírio, eu adoro. Eu adoro comer, eu como chocolate, como massa. Eu sou do carboidrato total, total, total, total, eu gosto e contei com a genética e agora com a corrida, não é? Porque chega uma hora em que a genética acaba. Aí entra a corrida.
FOLHA - Você tem um treinador que dá orientação?
CICARELLI - É uma assessoria esportiva. Não tenho um treinador do meu lado, comigo, correndo, não. Você vai, paga uma mensalidade, você tem a infra-estrutura dos treinos e ele te manda uma planilha. A minha planilha geralmente é: segunda, eu corro e nado; terça, eu faço musculação e pedalo; quarta, eu corro e nado; quinta, musculação e pedal; sexta, eu corro e nado; Sábado, faço treino longo de corrida e domingo, treino longo de pedal.
FOLHA - E você consegue cumprir a planilha?
CICARELLI - Depende, eu estou sempre tentando encaixar, mas tem dia que, obviamente, não dá. Tem dia que você está cansada, não se alimentou direito, está meio fraca e não vai. Mas é um dia incompleto. O dia que eu não treino é um dia incompleto.
FOLHA - Incompleto por quê? O que falta? Como você se sente quando não treina?
CICARELLI - Não sei, me dá uma sensação de preguiça grande, assim... Não sei explicar. É uma sensação de corpo preguiçoso. É uma loucura, porque, realmente, eu tenho essa turma do triatlo e é geral assim: todo mundo que fica sem treinar fica praticamente deprimido. É uma droga mesmo.
FOLHA - Uma droga? Um vício?
CICARELLI - É um vício, é um vício louco.
FOLHA - O que ele traz de bom?
CICARELLI - Eu acho que a número um é a superação, não é? Hoje, eu consigo correr dez quilômetros, amanhã eu consigo correr 12, depois de amanhã eu vou correr meia maratona, um dia eu vou correr a maratona, um dia vou baixar o tempo da minha maratona, um dia vou ganhar do fulano. Essa coisa competitiva que é bacana. A coisa de superação também, eu acho que é o melhor. Se eu pensar que um dia eu não conseguia correr 12 minutos e um dia corri uma maratona, eu fico superfeliz.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h38
ENTREVISTA
Cicarelli e o mundo das corridas
Moacyr Lopes Júnior/Folha Imagem

"Dona Cicarelli, na contramão não dá, tem imprensa no parque. Imprensa, dona Cicarelli."
Com algo de cúmplice, ainda que firme, o policial da Guarda Civil Municipal que cuidava de botar ordem na bagunça do estacionamento próximo ao viveiro Manequinho Lopes, no parque Ibirapuera, obrigou Daniella Cicarelli a fazer a volta e sair do bolsão por onde irregularmente havia entrado.
Ela ligou avisando que ia atrasar um pouco mais para a entrevista exclusiva marcada com o (+)corrida. Levou seu jipão até sua casa e voltou a pé, sozinha.
Boné laranja enterrado no rosto, passos rápidos, chegou contando o incidente no estacionamento e reclamando do trânsito. Mas, para a conversa, a apresentadora dublê de maratonista estava bem disposta.
"A roupa tá boa?", perguntou ao fotógrafo, mostrando que sua camiseta rosa-choque não tinha marcas de patrocinadores.
No local escolhido para as fotos, ainda perguntou: "Com boné ou sem boné?" E foi se posicionar. Uma corridinha para cá, outra para lá. Mais uns tantos piques, fotos de frente, de lado. Em cerca de dez minutos, foram 225 cliques _a seleção dos melhores está apresentada aqui. As fotos são de Moacyr Lopes de Souza, da equipe da Folha, e você pode ver a galeria AQUI.
Depois, sentada num banco de pedra, numa sombra no Ibirapuera, uma conversa desarmada sobre suas grandes diversões: correr, nadar, pedalar.
A corrida vem antes de todos: "Tanto a natação quanto a bicicleta são os esportes mais difíceis de praticar. A bicicleta tem toda aquela parafernália, lugar, é um esporte muito perigoso. Para a natação, você precisa de uma piscina. A corrida é o mais popular deles, sabe, aquele que todo mundo pode fazer. Já a natação você precisa de uma infra-estrutura, de um clube, de uma piscina, de uma academia, alguma coisa. A bicicleta é supercara, é um equipamento: bicicleta, fora que é perigoso também e acho que a corrida é mais popular, assim, e ela é mais gostosa".
Cicarelli, que vai fazer 27 anos na próxima segunda-feira, não se cansa de elogiar o esporte, que pratica com a orientação de uma assessoria esportiva.
"É uma delícia, porque são todos os tipos de pessoas, são todos iguais, porque todos sofrem igual, todos têm dor, todos passam mal e todos também têm suas grandes recompensas. Então, eu sou fã número um. Eu faço bicicleta e natação também. Mas acho que, como corrida, não tem. Fora que eu acho muito prático, não é? Você leva um tênis e está pronta, em qualquer lugar você pode correr."
Leia na seqüência mais trechos da entrevista com a maratonista, apresentadora e modelo Daniella Cicarelli.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h08
Vamo que vamo
Assim mesmo, comendo letras e encavalando as palavras, é o cumprimento dos corredores que rodam nos parques e nas ruas da cidade. É uma voz de incentivo, de apoio, de parceria. Cada um entende as dificuldades que o outro enfrenta, e cada um sabe a luta que é para superá-las.
"Vamos lá!", "Falta pouco!" são variantes ouvidas nas provas, que se repetem mundo afora. Nos Estados Unidos, os espectadores batem palmas e cumprimentam pelo esforço: "Good job", dizem. Numa corrida em que partipei, porém, uma garota se esgüelava para gritar seu incentivo a plenos pulmões: "Guys, you are amaaaaazing!", fazendo com que cada um se sentisse ainda mais sensacional.
Na Alemanha e nos países escandinavos, fala-se "Reia!, reia!" ou algo que soa parecido. Na França, "allez, allez!". Há quem seja mais exigente: em uma prova na bela região da Provença, alguém pendurou um cartaz em que havia um boneco corredor desenhado com traços infantis e a frase que mais parecia uma cobrança: "Plus vitte, JC!" O tal JC, que provavelmente vinha fazendo seu esforço máximo, como todos nós, deve ter ficado uma arara...
Mas é com o espírito pacífico, de incentivo, apoio e parceria, que começamos hoje este blog sobre corridas, corredores, suas histórias, conquistas, dores e prazeres.
Fique com a gente, aproveite as histórias contadas por nossos entrevistados _a primeira é Daniella Cicarelli- e mande também o seu recado.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h04
Ver mensagens anteriores
|
|
PERFIL
Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).
|
|