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Saudosismo revigorante
Correr a dois é mais gostoso. Quando o parceiro é também a amada, fica ainda melhor, como nos conta o leitor Adolfo Morandini Neto. Ele é designer, tem 43 anos e corre "desde sempre". No ano passado, ganhou companhia especial, como nos conta no texto a seguir.
Nasci em São Paulo há 43 anos. Sou designer há 25 anos, judoca há 33 e corredor desde sempre. No começo, a corrida era um complemento para o condicionamento físico, tão necessário para o judô. De uma quase ’"obrigação", virou meu prazer e minha terapia. E lá fui eu aumentando a distância e melhorando a performance a cada dia. Até que, em 2004, corri minha primeira São Silvestre. Prazer indescritível, ainda mais encontrando a mulher e os filhos na linha de chegada.
Em 2006, para correr minha terceira São Silvestre, fiz grande parte do meu treinamento no parque da Água Branca, em São Paulo. No início do ano, um amigo morreu atropelado na av. Brás Leme, e meus colegas de judô me "proibiram" de correr na rua, como eu costumava fazer diariamente, às 5 horas da manhã.
O parque da Água Branca é um local especial. Passei parte da minha infância freqüentando aquele espaço. O mesmo fazia minha mulher, quando criança.
Talvez movida por esse saudosismo, ela passou a ir comigo para respirar um pouco de ar puro e relaxar. Um dia resolveu caminhar. Andou algumas centenas de metros. Outro dia andou alguns quilômetros... Para encurtar a história, depois de algumas semanas estava trotando alguns metros, intercalando a corrida com sua caminhada. (Ela sempre me incentivou a praticar atividades físicas, mas estava sedentária havia 15 anos).
Um belo dia, ainda em fevereiro de 2006, ela disse que gostaria de correr a São Silvestre. Fiquei espantado, mas imensamente feliz. Passamos a treinar juntos, cada um no seu ritmo, trocando experiências, relatando sensações e dores. Isso nos aproximou ainda mais e tornou os treinos muito mais prazerosos.
No último dia 31 de dezembro, a Cláudia completou sua primeira corrida de 15 quilômetros. Correu em 1 hora e 45 minutos. Chegou inteira, realizada, e querendo participar no próximo ano.
Se correr é um vício delicioso e saudável, acho que o mundo das corridas ganhou mais uma viciada.
Escrito por Rodolfo Lucena às 10h19
Qual é o caminho?
A maratona de Pequim, nos Jogos Olímpicos de 2008, terá um percurso especial, que começa a ser definido pelos organizadores e que deverá passar pelos mais famosos monumentos e ícones da capital chinesa. Recentemente, relata hoje o "China Daily", um grupo com representantes do Comitê Olímpico e de consultores fez um passeio pela cidade para tentar estabelecer a rota da maratona.
A idéia é fazer da prova um superhipermega cartão-postal da cidade, passando pela Cidade Proibida, a praça Tianamen, o Palácio de Verão e outros pontos famosos. Mas outros elementos devem ser levados em conta, tal como o fato de que todo o percurso precisa ser visível pelas câmeras que estarão em helicópteros.
Claro que eles deverão levar em conta a tradicional rota da Maratona de Pequim, realizada em outubro, com suas imensas retas. Apesar de plana, a prova é duríssima por causa da temperatura e umidade, além da poluição, que também prejudica o desempenho. Se houver vento contra, então, a coisa complica para valer.
Mesmo assim, a última edição foi vencida pelo queniano James Kwambi Kipsang com o razoável tempo de 2h10min36. O melhor chinês foi Ren Longyun, que fez 2h15min13 para conquistar o oitavo posto.
Escrito por Rodolfo Lucena às 12h16
Nas bancas
"Contra-Relógio"
O destaque da edição de janeiro, que já está chegando às bancas, é o Ranking Brasileiro de Maratonistas, elaborado pela revista, tendo como base as cinco maratonas oficiais do país (Porto Alegre, São Paulo, Rio, Florianópolis e Curitiba). Trata-se de uma seleção baseada em limites de tempo por faixa etária, o que leva a revista a dizer que apresenta "os melhores maratonistas em 2006".
A edição traz ainda um panorama sobre das cinco maratonas, com detalhes sobre altimetria, temperatura, organização etc.
Na área de orientação técnica, dicas para o treinamento de base nos primeiros meses do ano, para obter melhores resultados ao longo do período.
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h51
Ronaldo da Costa
Lalo de Almeida - 30.dez.98 /Folha Imagem

Até Pequim
Ele deu uma estrela no asfalto de Berlim e desapareceu no firmamento esportivo. Agora, tenta voltar: sonha com o Pan, com a maratona olímpica, sabe-se lá mais com quê. É Ronaldo da Costa, mineiro de Descoberto, o primeiro dos Ronaldinhos a maravilhar o mundo, derrubando um recorde que durava dez anos. Depois da brilhante marca, no entanto, passou por uma série de problemas na vida pessoal e profissional. Nesta entrevista exclusiva, feita por telefone em novembro passado, ele conta sobre seu recomeço, no interior de Minas, relembra o passado e revela um pouco de seus sonhos.
Folha - Há quanto tempo você recomeçou os treinos?
Ronaldo - Tem um ano e três meses que estou trabalhando com o Filé, o treinador da Márcia Narloch.
Folha - Por que você resolveu mudar de treinador?
Ronaldo - Bom, o Cavalheiro estava viajando muito, e eu estava um pouco abandonado, não é? Eu precisava de uma pessoa para ficar perto de mim, para me dar uma atenção. Aí, eu conversei com o Filé, na época, e ele me aceitou. Ele me arrumou um médico para tratar da cirurgia e tudo o mais. Eu operei o calcanho do pé esquerdo há um ano e meio, mais ou menos.
Folha - E você voltou para os treinos quando?
Ronaldo - Tem mais ou menos um ano que já voltei. Durante esse um ano, eu treinava uma mês, parava uma semana. Agora, não, estou bom. Depois da cirurgia, pararam as dores no pé, mas aí vieram as lesões, uma hora era na panturrilha, outra na coxa, até perder um pouco o peso. Agora, já está indo bem. Não falo que está 100% não, porque não vou mentir, não.
Folha - Mas você está treinando cinco, seis dias por semana?
Ronaldo - É, eu treino todos os dias, não é? De manhã e de tarde, uma média mais ou menos de 25 quilômetros por dia. Por enquanto, estou só no trabalho de base mesmo, para depois pegar firme. E, agora, já era para estar mais ou menos bem, porque já está quase em cima do Pan.
Folha - É esse seu objetivo agora?
Ronaldo - É. Meu objetivo mesmo agora é tentar pegar o índice do Pan. Tentar, não é? E Pequim, a Olimpíada, esse é o maior objetivo. Depois parar.
Folha - Você quer a maratona no Pan?
Ronaldo - Meu objetivo é a maratona. Vamos tentar treinar bem, a partir de janeiro começar competir em algumas provas aí, em abril tentar correr a maratona para ver se já pego o índice logo, num tiro só, vamos ver.
Folha - Você está treinando aí em Minas?
Ronaldo - Agora estou em São João Nepomuceno, próximo de Juiz de Fora, 70 km. Eu nasci em Descoberto e São João fica a 10 km de Descoberto, mas aí a minha família mora aqui, a minha esposa e tudo o mais.
Folha - Tem lugar legal para treinar aí?
Ronaldo - Aqui é bom, aqui é uma maravilha. Tem as paisagens, assim, muito verde, a montanha e terra batida, não tem muito trânsito, não tem nada de casas, aquela poluição, por isso que eu gosto daqui. Aqui é legal, vejo boi, paisagem de montanha.
Folha - Como é sua vida aí? Você mora na cidade ou tem uma casa no campo?
Folha - Eu tenho meu apartamento na cidade aqui e estou fazendo uma casa na roça, numa chacarazinha, a gente gosta de ficar mais lá.
Folha - Você planta alguma coisa?
Ronaldo - Eu capino, planto. É pertinho, mas é bom. É tranqüilo, é natureza, não é? Eu planto milho, feijão, planto grama, faço de tudo, é um tipo de ginástica, uai. Eu comecei a minha vida na enxada. É meu jeito mesmo. Eu não vou fugir das minhas origens, não. Não sei o dia de amanhã, é ou não é? Não vou passar fome. A gente tem que ser versátil.
Folha - Quando você começou a correr?
Ronaldo - Comecei com 16 para 17 anos. Antes, eu trabalhava na roça, mexia com plantio de arroz, de milho, feijão. Trabalhei na prefeitura aqui na cidade de Descoberto, onde nasci. O prefeito organizou essa corrida, em 1987, aí fui segundo colocado e meu irmão terceiro. Na segunda corrida que ele fez, fui primeiro e meu irmão foi segundo. Dali para a frente, foi isso aí.
Folha - Mas você resolveu participar da corrida do nada?
Ronaldo - Não, o prefeito fez a corrida aqui no dia do aniversário da cidade, um evento, no dia 30 de maio de 1987. Aí faltando 15 dias para essa corrida, comecei a treinar, pensando: "Quem sabe eu posso ganhar esse radinho aqui", que era o prêmio. Aí fui segundo colocado. O cara que ganhou, fazia dez anos que corria, eu não tinha nem 15 dias direito, fui segundo colocado e meu irmão terceiro. O pessoal gostou, eu era pequenininho, era uma atração, foi diferente. Em setembro teve outra corrida, no 7 de Setembro, aí eu ganhei do cara que tinha dez anos que corria, que se chamava Wilsinho.
Ronaldo - Não, aí eu fui para Juiz de Fora, eu fui correr na região, conheci um treinador que se chama Jefferson Viana. Ele foi meu primeiro técnico. Aí depois veio o Henrique, da Pé de Vento, ganhamos a São Silvestre de 94. O Henrique acabou de me formar. Depois passei para o Cavalheiro.
Folha - E você já estava ganhando dinheiro com corrida?
Ronaldo - Estava começando a ganhar alguma coisinha. Assim que eu fui correr pela Pé de Vento lá, não é? Comecei a pegar mais experiência, comecei a viajar para o exterior, aí começou a melhorar.
Escrito por Rodolfo Lucena às 00h00
Ronaldo da Costa - parte 2
O giro da estrela
Esta é a segunda parte da entrevista exclusiva com Ronaldo da Costa, que foi ao fundo do poço e aspira os píncaros da glória. Neste trecho, ele fala sobre seu momento no topo do ranking mundial dos maratonistas. Segue o baile.
Folha - Como foi a experiência de ganhar a São Silvestre?
Ronaldo - Ah, foi bom, porque a São Silvestre tinha dez anos que brasileiro não ganhava. Eu estava bem preparado porque em 93 eu tinha sido sétimo colocado geral. Depois, em 94, no ano da São Silvestre, fui terceiro colocado no Mundial da meia-maratona, na Noruega, e estava bem. Aí fui para a Colômbia treinar na altitude. Treinei 25 dias lá e estava confiante que podia ganhar e ganhei, foi aquela maior festa, foi bom. Era meu sonho ganhar a São Silvestre. Me abriu as portas mais ainda.
Folha - No ano seguinte, você passou a treinar com o Cavalheiro? Por que trocou?
Ronaldo - Ah, porque já tinha um tempo com o Henrique já, queria mudar, fazer uma nova experiência, para ver, não é? Eu não briguei com ele, que é uma pessoa muito boa. Eu queria fazer uma experiência. O Cavalheiro é um cara muito estudioso também. Só por isso mesmo.
Folha - E você fez sua primeira maratona em 1997, certo?
Ronaldo - Muito bem, ali mesmo, eu lembro até hoje, se eu tivesse aquela mesma experiência... Eu corri um pouco com medo naquela maratona. Todo mundo falava que eu poderia quebrar. Aí eu segurei até os 30. Estava muito fácil para mim. Aí quando eu vi lá. eu achei que ia ganhar a corrida, cheguei todo vibrando, não tinha ninguém na minha frente. E eles já tinham chegado. É sério. Essa história não contei para ninguém. Cheguei todo animado, feliz, não sei o quê, depois... Mas foi bom, o tempo foi excelente, 2h09min07. No ano seguinte aconteceu o que aconteceu.
Folha - Mas, antes de chegar lá, na sua melhor prova, eu queria saber qual foi sua pior corrida, da qual você tem as piores lembranças...
Ronaldo - Rapaz, foi Porto Rico, a meia-maratona. É bonito, eu fui segundo colocado, em 93 ou 94. O Khannouchi ganhou de mim lá no final. Meu amigo, quatro horas da tarde, um calor de não sei quantos graus no lombo, nossa Mãe do Céu. Eu fui duas vezes, umas três vezes eu já fui lá. Um calor! Mas tinha mais de mil pessoas na rua. Um sobe e desce danado, mas subida mesmo. É três vezes mais do que a Brigadeiro. Aquilo não é para atleta, é para cabrito, uai. Estou falando sério, um calor, um calor infernal. Onze horas da noite lá é dia, eu nunca vi isso, uai. A gente fica doido, não dá para concentrar, não.
Folha – E por que você resolveu passar para a maratona? Você estava se dando bem em distâncias menores...
Ronaldo - A maratona, como dizem, tem a sua história. É uma prova muito especial. E exige treinos longos. É um pouco mais desgastante, mas é um ritmo mais moderado. Você correr, fazer uma prova de 10 mil, são trabalhos de piques muito rápidos. Eu sou rápido em termos. Na maratona, você se dá mais, o corpo fica mais tranqüilo, o seu coração vai naquela batida...
Folha - E aí você foi para o recorde mundial...
Ronaldo - É, me preparei aí, estava muito bem, estava numa fase muito boa. Estava crescendo muito e sabia que podia bater o recorde brasileiro. Acho que do André Ramos, 2h07min35. Eu sempre falava que podia correr entre 2h07 e pouco e 2h08? Estava muito bem aquela vez ali. Aí eu falei: "Bom, eu não tenho o compromisso de bater o recorde mundial". Pensei em bater em os recordes Sul-Americano e Brasileiro. Aí que deu aquele 2h06min05. Eu cheguei muito bem, inclusive fiz aquela estrela, aquela gracinha no final.
Folha - O que deu em você para fazer aquilo? Você tinha planejado?
Ronaldo - Planejei quando estava no final, faltando mais ou menos uns três quilômetros, estava na frente dos caras. Já sabendo ali que estava para ir para o recorde, pensei: "Se chegar bem aqui, vou fazer uma graça".
Folha - Como você sabia que estava indo para o recorde? Quem avisou?
Ronaldo - Ah, foi o Felipe, meu empresário. Foi no km 30 mais ou menos. Ele estava no carro da organização e falou: "Ronaldo, Ronaldo, você está correndo para o recorde mundial" Eu fiquei na minha, tranqüilo, está bom, bom. Fui concentrado. Aí o ritmo foi aumentando. A cada quilômetro foi baixando o tempo. Eu tive que fazer 2h06min05, e ali estava correndo para 2h06min40, mais ou menos. Nos últimos quatro quilômetros, três quilômetros, corri mais de 2min17 por km. É, mano, quando é o dia não tem jeito... Às vezes, você treina bem, treina para caramba, chega no dia, você não corre o que treinou. Deu tudo certo, a temperatura estava ótima, o clima estava agradável, estava 12 graus, mais ou menos, aí falei: "É hoje". Aí foi.
Folha - E o que aconteceu depois da estrela, como foi a festa?
Ronaldo - Eles costumam fazer uma festa, tinha comes e bebes, dança, foi uma maravilha. Eu fiquei umas duas noites sem dormir, cara. Duas noites sem dormir e aí fui correr. Até cair a ficha, não é? É meio complicado, não é?
Folha - Você na época estava casado ou solteiro?
Ronaldo - Já tinha saído de um relacionamento e eu conheci uma outra. Antes da maratona de Berlim estava com a minha amiga, estou com ela até hoje, com a Lucília. Ela é o meu ponto de equilíbrio, não é? É uma pessoa tranqüila, pessoa da paz, de boa índole. Depois, outra coisa, é uma mãe exemplar., não é? Claro: se tem um pai exemplar como eu, tem que ter uma mãe exemplar.
Folha - Vocês têm um filho, dois filhos?
Ronaldo - Não, tenho um enteado de 13, que eu conheci com cinco anos, na época, e minha filha Victória, tem seis anos e meio. Essa é a Ronaldinha da Costa .......
Folha - Vai ser corredora também?
Ronaldo - Bom, eu não quero forçá-la, não. Ela é criança, quer brincar e tudo o mais. Você não pode obrigar a ser igual ao papai. Calma. Deixa assim.
Escrito por Rodolfo Lucena às 23h48
Ronaldo da Costa - parte 3
De olho na política
Esta é a terceira e última parte da entrevista exclusiva com Ronaldo da Costa, 36, brasileiro que bateu o recorde mundial da maratona em 1998. Depois da façanha, ele viveu anos complicados e agora tenta voltar à antiga forma. Sonha com o Pan e com a vereança. A foto é Leonardo Colosso (Folha Imagem), feita em 30.dez.98. Segue o baile.
Folha - Voltando ao recorde: quanto você ganhou?
Ronaldo - É, foi US$ 100 mil pelo recorde, mais a premiação, não é? US$ 30 mil, na época. Foi bom.
Folha - Teve teste antidoping? Como foi?
Ronaldo - Tranqüilo. Eu, se acontecer isso comigo, eu nunca mais mexo com esporte, não. O homem tem que ter vergonha na cara. A pessoa que faz isso aí, não dá para confiar em hora nenhuma. Eu não confio, não. Você treina, dá um duro danado, na natureba, vem um safado desse aí, tem que ser preso. Não tem nem conversa. Você tem que se valer do esporte, incentivar as outras pessoas. Mas esse negócio de doping, além de não fazer bem, está roubando do próximo que está levando a sério.
Folha – Mas, na época em que você quebrou o recorde, um outro atleta que treinava com o Cavalheiro foi pego... E você não usava?
Ronaldo - Mas aí, ele pode usar, alguém pode usar, está do meu lado e eu não estou sabendo, não é? Porque você sabe que quem vê cara não vê coração. Eu não sei, eu não posso falar por ele, porque não vi, não sei. Se foi acusado, alguma coisa de errado deve ter feito. Se foi comprovado, é porque usou. Se ele fez, ele pagou pelo erro. Mas é assim mesmo, a gente não pode esquentar a cabeça, não. Minha cabeça está sempre está erguida, nesse ponto aí.
Folha - Bem, com a divulgação do dinheiro que você ganhou surgiram várias histórias, a ameaça de um seqüestro...
Ronaldo - É, dei muita falta de sorte. Quando fui para Berlim, já fui mais ou menos machucado também. Não fui 100% para lá. Aí as coisas começaram a dar tudo errado. Foi complicado. Um amigo meu inventou aquelas coisas de seqüestro, foi uma confusão danada.
Folha - Um amigo seu?
Ronaldo - Foi, não vou citar o nome dele, não. Na época, ele queria ir para os Estados Unidos. Como eu já estava com aquele nome tudo o mais, direitinho, em 99, aí ele estava em casa em Minas, aqui, começou a inventar moda, que alguém queria me matar e não sei o que lá. Mas quem não deve não teme. Estou vivo ainda, não é? Tranqüilo aqui, olha.
Folha - E você foi para os Estados Unidos?
Ronaldo - Eu e a Lucília, ficamos em San Diego, fomos para Bolder, depois. É no Colorado, é uma cidade maravilhosa.
Folha - E como você se sustentava?
Ronaldo - Ah, não, a viagem, essas coisas aí, foi tudo visualização da competição, a gente aproveitava e ia. Aí aluguei uma casa lá. Ficamos num apartamento lá, em San Diego. Ficamos dois meses, três meses lá, é muito tempo. Eu gosto do Brasil, meu, o Brasil que é bom. Aqui ou senão a Colômbia, a Colômbia eu gosto.
Folha - Mas você voltou para cá e ficou afastado das competições. O que aconteceu nesse tempo todo? Às vezes parecia que você ia voltar, participava de uma prova ou outra...
Ronaldo - Sei lá, nem eu entendia, nem eu estava entendendo também. Mudou tudo, as coisas estavam esquisitas. Tudo complicado. Não sei nem como explicar.
Folha - E o que você fez nesse período que não estava correndo.
Ronaldo - Ah, estava aqui, estava em casa, sem nada, sei lá, sem passado, sem falar com ninguém, Ficava dentro do meu quarto. Não podia falar nem em corrida comigo. Não é que eu quisesse parar de correr, mas não podia falar de corrida. Fiquei em deprê, mas agora, não, agora estou tranqüilo...
Folha - Pelo menos, já consegue falar sobre suas corridas... O que você pensa quando corre?
Ronaldo - Rodolfo, o negócio é o seguinte: meu negócio é chegar, eu quero ganhar. Claro, o pensamento pensa em ganhar, mas as pernas, às vezes, não vão, não é? Aí você pensa tanta coisa boa, você pensa na família, se ganhar pode ajudar um pouco no orçamento financeiro e tudo o mais, mas concentrado e fazendo força. Puxa, pensar o que eu já fiz, quando eu trabalhava na roça, pensando e fazendo força. Tipo uma coisa lê na sua mente. Aí vai passando, vai aumentando, faz força e concentração total e não se preocupar com adversário nenhum que esteja do seu lado.
Folha - E depois do Pan, vocês já sabe o que pretende fazer?
Ronaldo - Coloca aí: eu sou candidato a vereador na cidade, sabe?
Folha - Você já se envolveu com política antes?
Ronaldo - Eu gosto de política, sempre gostei. Ah, gosto de tumulto. Porque política é tumulto, você sabe, não é? É, uai, é uma confusão danada, eu gosto da função. Porque eu sou uma pessoa muito popular, entendeu? Pessoa muito comunicativa, gosto dessas coisas, não é?
Folha - E você já se candidou alguma vez?
Ronaldo - Não. Sempre tive vontade, mas não me candidatei, não. Mas, desta vez, agora, a idade vai chegando, aí o corpo vai diminuindo, aí estou pensando alguma coisa, de passar a minha experiência para alguém.
Escrito por Rodolfo Lucena às 23h35
E os deficientes???
A leitora Clara Beauty mandou um comentário que está publicado no seu devido lugar, mas merece destaque nesta página. Disse ela:
"Rodolfo, só para não passar em branco, você conseguiu encontrar em algum lugar o resultado dos cadeirantes/deficientes físicos na SS? Procurei nas notícias sobre o evento, mas não consegui achar nada. É isso aí que chamam de "estimular a participação"? Faltou respeito."
Eu fui atrás de respostas.
De fato, não consegui encontrar, no site oficial da São Silvestre, nenhum link para os resultados dos cadeirantes. O botão "Resultados" dá acesso a uma página com links para a classificação geral na prova _em 2006, 11.556 homens e 1.233 mulheres completaram a São Silvestre.
Lá, na penúltima chamada da coluna "outros destaques", aparece o título: "Tetracampeão, Aranha diz que 'foi um feliz ano velho" . Apesar de não se referir a deficientes, desconfiei e fui ver o texto. Trata-se de uma reportagem sobre a São Silvestre dos cadeirantes: "Neste domingo, o paulista Fernando Aranha da Rocha se sagrou tetracampeão da São Silvestre para cadeirantes. Com uma ampla vantagem sobre o segundo colocado, o paraatleta se mostrou surpreso com o feito conseguido e teve um novo ânimo para pensar na participação nos Jogos Pan-americanos".
Não há informações sobre os resultados gerais. Consultei a assessoria do evento. "Os resultados serão publicados no site da São Silvestre asim que forem definidos os resultados oficiais. No site agora estão os resultados extra-oficiais", disse em e-mail Marcelo Eduardo Braga.
Bem, também não encontrei essa tal de classificação extra-oficial, mas digamos que a reportagem citada seja a dita cuja...
De qualquer forma, para que não passe em branco, seguem os resultados passados pela assessoria do evento:
Relatório Geral Masculino - CADEIRANTE
1 Diego Lucas Madeira 00:32:28
2 Francisco Claudio Amora da Silva 00:55:32
3 Jorge Henrique Ferreira Coelho 00:55:44
4 Noel Cleudinei Kostiurezko 01:03:38
5 Ronilson Bispo dos Santos 01:05:56
6 Jorge Marcos de Arruda 01:12:56
7 Carlos alberto Simão 01:21:34
8 Claudio Rosa 01:37:41
Relatório Geral Feminino - CADEIRANTE
1 Angelina Nascimento da Silva 01:46:53
Relatório Geral Masculino - VISUAL
1 Pedro José dos Santos 01:17:27
2 Otacílio Aires dos Santos 01:18:41
3 Welison Batista de Oliveira 01:28:06
4 Francisco de Assis Benício 01:30:15
5 Edson dos Santos 01:35:30
6 Irisvan dos Santos Oliveira 01:41:53
7 Silvio Benedito Fernandes leite 01:58:13
8 Elias Pereira de Morais 02:13:46
Relatório Geral Feminino - VISUAL
1 Dores Fernandes Leite 01:19:38
2 Izabel Lina da Silva 01:38:59
Relatório Geral Masculino - DMAI
1 Jose Oswaldo Gallardo 02:01:39
2 Marcelo Ferreira 02:10:04
3 Anoestre Antonio Correa 02:10:53
A sigla DMAI, que não conhecia, refere-se a "atletas deficientes andantes membros inferiores", com deficiência que dificulte seu caminhar ou correr (que utilizam bengalas, muletas, andador etc.).
Com base no relatório extra-oficial, destaco o feito do senhor Anoestre Correa, que tem 62 anos e completou a prova em pouco mais de horas. Aliás, o campeão dos deficientes visuais, Pedro José dos Santos, tem, segundo o relatório recebido, 63 anos.
Escrito por Rodolfo Lucena às 16h43
Leitura
"SuperAção"
Um perfil da bicampeã da maratona de Nova York, Jelena Prokopcukaa, é um dos destaques da revista "SuperAção" deste mês, que também traz uma entrevista com José João da Silva, o bicampeão da São Silvestre que é hoje empresário de eventos esportivos.
Na área de orientação técnica, a revista traz uma reportagem com várias dicas para começar a praticar a corrida com tudo neste ano.
Mais informações no site da editora.
Escrito por Rodolfo Lucena às 14h18
Amanhã é quinta-feira
Dia em que circula o caderno "Equilíbrio", da Folha. Na primeira quinta de cada mês, como amanhã, o caderno traz minha coluna +corrida.
O blog também terá amanhã material especial, uma entrevista exclusiva com um grande atleta brasileiro.
Não deixe de ler a Folha nem de visitar este espaço.
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h24
Bons programas
Está rolando agora (19h12), na ESPN, um VT do Mundial de Ironman. Mais tarde, às 23h, a emissora apresenta a cobertura do Mundial de Corridas de Rua.
Amanhã, no mesmo horário, está programado o VT do Mundial de atletismo. Quem chega cedo do trabalho pode curtir, às 19h, a cobertura do New Plymouth Triathlon World Cup.
Na quinta, dia 4, tem repetição, às 13h, do Mundial de Corridas de Rua. Às 14, um resumão do IronMan.
Confira no site da ESPN.
Escrito por Rodolfo Lucena às 18h12
Atrações em profusão
O calendário de janeiro está cheio de provas bacanas, nas mais diversas distâncias, com percursos e desafios para todos os gostos.
Uma estréia que promete ser muito legal é a Maratona do Vinho e Maratoninha do Suco, em Bento Gonçalves, que já comentei neste blog. Se os organizadores cumprirem o prometido no regulamento e anunciado no site da Fenavinho, vai ser uma beleza.
No extremo oposto, de dureza pura, para poucos selecionados, está a Brazil 135 Ultramaratona. O nome do país está com "Z" no site oficial da prova, e o 135 se refere à quantidade de milhas da corrida. Em quilômetros, são 217, que deverão ser percorridos em até 60 horas nas montanhas da serra da Mantiqueira, em Minas.
Para quem prefere praia, a 1ª Meia Maratona Cidade de Maceió é de dar água na boca, com largada e chegada em Pajuçara. Como é prova de estréia, ainda não dá para falar nada sobre a organização. Claro que vai ser quente, mas isso aí faz parte. Também no dia 28, Cabo Frio (RJ) terá uma meia-maratona. É outra estréia, e nada sei sobre a organização.
Para quem prefere os dez quilômetros, uma boa pedida é a prova que marca o aniversário do Rio de Janeiro, no dia 20. E, claro, a do aniversário de São Paulo, no dia 25, que já vai para sua décima edição. Outra tradicional e simpática prova é a que comemora o aniversário do bairro de Santo Amaro, no dia 14, na zona sul de São Paulo.
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h42
Madri
O recorde que não foi
Eu pretendia deixar meu poético texto de abertura do ano solito na página o dia inteiro, mas não posso deixar de registrar a quebra não-oficializada do recorde mundial dos 10 km, ocorrida no apagar das luzes de 2006 em terras madrilhenhas.
O vencedor da San Silvestre Vallecana e o segundo colocado correram abaixo da marca de 27min02 estabelecida há quatro anos por Hailé Gebrselassie, mas a façanha do queniano Eliud Kipchoge (26min54) na Espanha não deverá figurar nos rankings da IAAF. Isso porque o percurso da prova espanhola tem mais descida que o admitido pelos regulamentos (a diferença das altitudes da largada e da chegada é maior do que a aceita pela IAAF, caracterizando um circuito lomba abaixo -"downhill").
O queniano, que era dono da melhor marca do ano na distância, teve de dar tudo o que tinha para se manter na liderança, pois o campeão mundial dos 20 km estava fungando no seu cangote. Zersenay Tadesse, da Eritréia, fechou no mesmo segundo, mas centésimos atrás do vencedor, que assumiu a liderança com menos de um minuto de prova, ligou o turbo e disparou atrás do recorde que foi , mas não foi.
No feminino, a bicampeã da maratona de Nova York mostrou que é boa também em percursos mais curtos. Jelena Prokopcuka, da Letônia, fechou em 31min27, mais de 40 segundos à frente da segunda colocada, a australiana Benita Willis-Johnson.
Escrito por Rodolfo Lucena às 14h40
Prazer solitário
Quando faltavam uns 200 metros para terminar meu percurso na Sumaré, comecei a torcer para quem não aparecesse nenhum corredor. Ao me dar conta do sentimento, fiquei até meio envergonhado e uso esta tribuna como uma espécie de expiação. Mas confesso que deu um certo orgulho ser o único corredor na avenida na manhã então ainda chuvisquenta, friazinha, cinzenta do primeiro dia de 2007.
Não sei bem que façanha é essa ou se sequer é uma façanha, mas a história saúda quem primeiro cruzou os mares, os céus, descobriu isso ou aquilo, encarou as tempestades. Claro que a Sumaré não esconde muitos perigos nem cobre de glória quem por ela passa solitária, mas me senti um desbravador da Sampa ainda adormecida.
Por isso, talvez, consegui controlar as dores de costas e pés que ainda me acometem. Elas vêm e eu as enfrento. Eu dia elas vão vencer, assim como o tempo vai nos derrotar, mas, enquanto isso acontece, a gente segue dando um pau neles todos, tempo e dores. Com esse sentimento, entrei no parque da Água Branca quase entregue às moscas, e lá descobri os primeiros atletas de minha jornada.
Não eram corredores. Às 8h19, com os termômetros marcando 19 graus Celsius, dois senhores de bermudas coloridas e camisas de mangas curtas faziam exercícios sob a marquise de uma das baias do parque (para quem não sabem, a Água Branca abriga de quando em vez exposições de animais e feiras diversas e tem um conjunto de baias cobertas, além das estrebarias para a cavalhada).
Quando os vi, estavam de frente um para o outro e faziam algum tipo de exercício de respiração. Juntos, estavam lá talvez pelo sesquicentenário, como as barrigas, papadas, carecas e restos de cabelos brancos indicavam. mas faziam seus exercícios. Na última olhada, iniciavam uma série de agachamentos (quantos mais daquele idade estariam fazendo exercícios neste país?).
Segui enfim para o elevado. Com quase meia hora de treino, já estava mais leve e acostumado às dores, esquecido delas talvez. Vendo o asfalto limpo, vazio, especial para mim, apertei o passo na subida, fazendo a trajetória inversa à dos corredores que ontem participaram da São Silvestre.
No trecho que abrigou a corrida, quase nada lembrava os milhares de passadas da tarde chuvoso do 31 de dezembro de 2006. Apenas sachês de carboidrato chupados, dobrados, rasgados, esquecidos no chão, indicavam que o asfalto fora palco de um evento esportivo, assim como as camisinhas que pontuam o chão de algumas praças da cidade revelam o uso romântico do espaço.
Passando a alça por onde os atletas subiram, o percurso no Minhocão então revela alguns restos de comemorações na madrugada. Uma rolha perdida, carcaças de foguetes e rojões, uma garrafa de guaraná de dois litros. E nenhum outro corredor...
De gente, só alguns passantes. Um casal idoso caminha na manhã, e nos cumprimentamos pelo Ano Novo. Na alça da Ana Cintra, outro retrato da cidade: os sem-teto fazem um espécie de triste convenção, atirados sob a proteção do muro. Desprotegido, no asfalto mesmo do Minhocão, um menino ainda dorme com a cabeça escondida na camiseta, embalado sabe-se lá por qual droga ou simplesmente pelo cansaço da vida.
A mesquinharia da vida também se revela em mim mesmo, que fico meio acabrunhado, lamento até, quando enfim aparece outro corredor, pouco depois de cruzar sobre a Angélica. Mas chacoalho fora o sentimento feioso, me alegro com o outro, um sujeito mais velho, careca, com uma camiseta laranja- claro, e nos saudamos na passagem, ele seguindo em direção à Água Branca, eu já começando a acelerar para encontrar a Consolação, onde vou terminar minha horinha de estréia no ano.
Na última curva, avisto ao longe gentes em uma composição de cores que encerra a beleza da humanidade: uma jovem mãe carrega no colo seu filho. À distância, sua saia vermelha parece pregueada, plissada tal como as das normalistas de antanho, que povoaram sonhos de garoto. O menino, de calça azul-escuro e blusão azul-bebê, contrastava com a blusa verde-grama, clarinha, da mãe.
Chegando perto, pude ouvir o garoto manhar. Tinha um ano e meio, dois talvez, e seus nhém-nhém-nhém pareciam pedir chão. A mãe o largou no asfalto bem quando passei por eles, correndo forte. Logo aproveitei para ainda dar uma olhada para trás: o guri corria pelo asfalto, a mãe seguia atrás, o guri ziguezagueava, os passinhos curtos, os dois se divertiam.
Parti com tudo para a subida da Consolação. Ainda vi o primeiro carro batido do ano (o primeiro que vi, claro), cruzei a avenida e subi na contramão. No meio do trajeto, fui resgatado pela minha mulher, e seguimos para celebrar a dois o Ano Novo.
Escrito por Rodolfo Lucena às 10h32
Feliz 2007!
De despedida do ano e de olho no recomeço, deixo com vocês a poesia do gaudério Mario Quintana, um gaúcho que conhece a alma do mundo como o Minuano que ronca no Pampa. A palavra do poeta é esta:
"Lá bem no alto do décimo-segundo andar do Ano
Mora uma louca chamada Esperança:
E quando todas as buzinas fonfonam
Quando todos os reco-recos matracam
Quando tudo berra quando tudo grita quando tudo apita
A louca tapa os ouvidos
e atira-se
– Ó miraculoso vôo!
–Acorda, outra vez menina, lá embaixo, na calçada.
O povo aproxima-se, aflito
E o mais velhinho curva-se e pergunta:
- Como é o teu nome, menininha de olhos verdes?
E ela então sorri a todos eles
E lhes diz, bem devagarinho para que não esqueçam nunca:
O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA..."
Escrito por Rodolfo Lucena às 18h05
Franck do Brasil
Num verdadeiro passeio no parque, o mineiro Franck Caldeira não tomou conhecimento dos adversários e venceu com tranqüilidade a São Silvestre, corrida sob forte chuva. Como sua conterrânea Lucélia Peres, rompeu a fita na Paulista mandando beijinhos para a galera. Os dois mineiros, por sinal, já haviam vencido este ano outra prova da Globo, a Volta da Pampulha, em Belo Horizonte.
Como na prova feminina, os verdadeiros contendores desceram a Consolação economizando. Caldeira avançou na entrada do elevado: na metade da alça de acesso ao Minhocão, tomou a liderança. Foi acompanhado, no elevado, por Ubiratan José dos Santos, atleta especialista em distâncias menores, e já desceu a avenida Pacaembu isolado na frente.
A partir de então, tratou de aumentar a distância, enquanto a disputa pelos postos secundários rolava, esta sim, forte, dois quarteirões atrás do mineiro. No km 10, Paulo Alves enfim deu o bote no angolano João Ntiamba, veterano de cinco olimpíadas, e assumiu o segundo posto com ares de quem ia fungar no cangote de Caldeira.
Não durou muito a esperança. Alves tratou de garantir seu posto, revezando-se com o adversário, mas sempre dominando o angolano e o colombiano Javier Guarin, que acompanhava a dupla.
Quando faltavam cerca de mil metros para o final, um pouco depois do viaduto que passa sobre a Brigadeiro, dá-se a surpresa: um bólido vem bagunçar a tranqüilidade estabelecida. Como se estivesse a 50 metros da chegada, o baixinho Clodoaldo Gomes da Silva ataca os estrangeiros, encosta no já cansado Paulo Alves e toma-lhe a frente sem dar a menor chance para sequer um esboço de reação.
Clodoaldo subiu a Brigadeiro como rei da montanha. Parecia querer mais chão para ter tempo de alcançar o distante líder. Mas as imagens de seu rosto, já na Paulista, mostraram que não era assim. Ele lutou e conseguiu manter o segundo posto conquistado com galhardia, mas uma distância maior talvez fosse mais favorável a Paulo Alves. Nunca saberemos, pois o que vale é o feito.
Caldeira, que fechou inconteste em 44min06, recebeu os dois compatriotas, que completaram mais um pódio totalmente brasileiro. A seguir, o garoto mineiro falou para o país, mostrando seu farto e limpo sorriso (registrado aqui na foto de Rogerio Cassimiro/FI). Contou sua emoção, agradeceu ao técnico e à família, mas se deixou entusiasmar pela vitória: "Na falta do Marílson, eu tive de carregar o Brasil nas costas".
O povo da Globo cometeu vários erros na transmissão, talvez pelo cansaço de duas São Silvestre em seqüência. Um dos quadros mostrando os líderes apareceu com o nome de Ubiratan no segundo e no quinto postos, tumultuando a transmissão. E, no final, o narrador chamou Caldeira de Marílson, para ficar só nisso.
Mas tudo bem, só quem já fez sabe como é difícil uma transmissão ao vivo. E a galera se diverte. Por sinal, fiz uma eleição privada para escolher os melhores recados do povão. Logo no início, alguém conseguiu colocar em frente da câmera um cartaz rabiscado: "Sandy, eu te amo!". Para ficar no romantismo, outro sujeito declarou em uma faixa que erguia com os dois braços: "Eu amo minha sogra" (Parece aquela música que diz: "Ana Cristina, eu não gosto de você, eu estou apaixonado pela sua mãe). Não posso deixar de registrar a placa que anunciava "Sou gaúcho, tchê". E, pelo tanto que falaram nela, a faixa mais apreciada pelos globais foi a que dizia: "Devo, não nego. Pago se ganhar a São Silvestre". Então tá.
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h32

Lucélia do Brasil
A tricampeã da Pampulha fez valer nas ruas de São Paulo a maturidade que conquistou ao longo deste ano. Dominou a São Silvestre, surpreendeu-se com a chegada de Ednalva Laureano no km 10, mas soube manter o equilíbrio, garantir a liderança, ampliar a distância, administrar a dor e abrir o sorriso quando viu que a Paulista era dela.
Com a alta temperatura mais baixa do que o esperado, ela fez, sim, menos de 52 minutos, rompendo a fita em 51min23, mandando beijinhos para a galera.
Desta vez, não houve quebra nem desmaio (como na meia do Rio). Lucélia, que já tinha sido a segunda colocada na principal corrida brasileira, ficou no segundo pelotão pelos primeiros quilômetros. Guardava-se enquanto a turma se desgastava na descida da Brigadeiro. Foi para a frente no Minhocão e ali ficou, cozinhando o galo, ao lado da queniana Jane Kibii. Nessa altura, por sinal, Ednalva estava quietinha mais atrás, numa boa.
Mais dois quilômetros e tudo está diferente. Lucélia está solita, e a Pretinha, como é conhecida a corredora da Paraíba, vem atrás com a passada leve e elegante que a caracteriza. No km 10, encosta na líder, chega a ficar na frente uns poucos metros, mas a mineira, mais jovem, mais alta e aparentemente mais forte, recupera o terreno perdido e já passa pelo Municipal como quem corre para os louros da vitória.
É quando a queniana Pamela, anunciada desde o início como a mais perigosa da esquadra africana e marcada desde a saída por Marily dos Santos, arremete. Será que vai tentar o bote na Brigadeiro, aguardando a quebra das brasileiras?
Podia ter até pensado nisso, mas Lucélia e Ednalva estão em outra dimensão. No posto de água da Brigadeiro, Lucélia bebe um pouco, joga água sobre o rosto, atira mais água nas pernas e segue impávida. Pouco depois, Ednalva, que parecia muito tranqüila e prestes a disparar para tentar uma disputa exatamente na parte mais difícil da subida, revela um cansaço que o telespectador não tinha percebido: olha para trás, preocupada com o avanço de Pamela (que mais tarde desapareceu....).
Lucélia trata de administrar sem perda de ritmo. Seu rosto já começa a dar mostras de alegria, ela já enxerga a Paulista. Ainda olha para trás, mas Ednalva não significava mais ameaça.
A mineira faz a curva, abre o sorriso, parece dizer: "Esta é minha, daqui ninguém me tira!". De fato, ela vai embora para romper a fita, mandar seus beijos para a galera, ser recebida pelos microfones da Globo, dividir a vitória com a família e o técnico e destrancar a alegria que segurava no peito: "Finalmente, chegou o meu dia".
Parecendo respeitar aquele momento, Ednalva chegou quase meio minuto depois, com a mesma fisionomia serena que estampou na prova e trazendo em mãos a bandeira de sua orgulhosa e valente Paraíba.
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h45
Surge uma nova força???
A reunião dos técnicos da elite dos corredores de rua do país pode gerar uma nova força no atletismo brasileiro. Apesar de eventuais diferenças entre eles, ao que parece o grupo que se reuniu ontem no hotel em que ficou a elite da São Silvestre, no centro de São Paulo, conseguiu chegar a um denominador comum. Um dos participantes, com mais de 40 anos de rodagem na área, disse que nunca vira um encontro daqueles acontecer.
O documento com as reivindicações do grupo será mandado às entidades nacionais de atletismo e às empresas que organizam corridas de rua no país. Não sei exatamente o texto final, mas envolve, como já disse antes, exigência de mais respeito e consideração aos atletas brasileiros e a suas equipes, com tudo que isso representa, de tratamento na prova a pagamento com regras claras.
Participaram da reunião: Edilberto Barros (técnico de Lucélia Peres) e João Sena (treinador de Marizete Moreira dos Santos), ambos de Brasilia; Gilmário Mendes, treinador da Marily dos Santos e colaborador eventual deste blog, da Bahia; Filé, treinador de Márcia Narloch, e Henrique Vianna, treinador de Franck Caldeira, do Rio de Janeiro; Adauto Domingues (treinador do Marilson), Claudio Castilho (presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo), Marco Antonio de Oliveira, Nelson Evêncio e Danilo Balú (os três também colaboradores eventuais deste blog), de São Paulo; Minardi (do Cruzeiro), dr. Roberto/Leone, de Minas Gerais; Josa Moral (treinador de Ednalva Laureano), da Paraíba; Daniel, do Recife; Valmir Nunes (maior ultramaratonista brasileiro e treinador de Sirlene Pinho), de Santos, e Maria Domiciano.
O grupo dediciu realizar encontros anuais nos 10 km da Tribuna de Santos, no Trofeu Brasil e na São Silvestre. Além disso, os técnicos prometeram manter contato permanente por e-mails. E já foi agendado o primeiro encontro entre o grupo e a Yescom, que organiza a São Silvestre e demais provas transmitidas pela Globo.
Bem, tomara que isso venha mesmo a significar melhorias para a elite.
O que eu gostaria de saber é se os técnicos da elite pensam também nos corredores amadores. Afinal, vários dos participantes da reunião dirigem grupos de gente comum, que somos os que mais sofremos com a falta de organização e de respeito nas provas. Como vocês viram em outro texto que coloquei no blog, os corredores mais lentos somos os que mais sentimos, por exemplo, os efeitos deletérios do calor.
Pergunto ainda se algum dos técnicos de elite já viu o tratamento que o pessoal do caminhão-prego dá aos corredores que fecham a maratona de São Paulo. O espaço deste blog está aberto para que os técnicos da elite comunguem suas idéias e preocupações com os corredores comuns.
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h48
São Paulo

Sampa noturna
Cerca de 50 pessoas participaram na noite de ontem da corrida festiva Sampa Noturna, apesar da chuvarada, das festas e do fato de que vários ainda se preparavam para dizer presente na São Silvestre desta tarde. A turma se reuniu no vão do Masp, na av. Paulista, a partir das sete e pouco da noite.
Quando eu cheguei, lá pelas 19h40, já havia um bom grupo espalhado por ali, entre as grades que seriam usadas hoje na SS, palanques para a televisão e uma turma acampada sob a proteção do prédio. Eles dizem integrar um movimento contra o aumento das passagens de ônibus, mas não cheguei a conversar com nenhum deles.
Por causa da chuva, os planos tiveram de ser revistos na última hora, já que os corredores não poderiam ser acompanhados por ciclistas, como inicialmente estava previsto. Como a segurança teria de ser feita de carro, nada de reviver os românticos primórdios da São Silvestre, quando a prova tinha cerca de metade da distância de hoje e o percurso era invertido: descia-se pela Brigadeiro e sofria-se na subida da Consolação.
A participação no evento foi gratuita. Os organizadores pediram apenas que cada atleta levasse um quilo de alimento (o total arrecadado foi doado para uma obra beneficente). Havia uma camiseta alusiva (boa qualidade e belo desenho), que custava R$ 15, mas seu uso não era obrigatório (eu, por exemplo, corri com a minha regata dos Marathon Maniacs). Vários de nós usamos algum sistema individual de iluminação _um corredor, mais experiente em trechos noturnos, parecia uma árvore de Natal.
Com toda essa confusão, o início atrasou por cerca de meia hora, mas enfim saímos a passo, atrás do primeiro carro de apoio (outro fecharia o comboio e havia mais um ou dois acompanhando). Pela Paulista, fomos todos mais ou menos em bloco, mas, mal chegamos à Consolação, os corredores se agruparam em basicamente dois grandes grupos, os mais rápidos e os mais lentos. E havia também uma meia dúzia de gatos pingados não tão rápidos, mas não tão lentos, na qual se incluía este que vos fala. Calculo que o cortejo ocupasse mais de cem metros, contando as lacunas entre os diversos grupos.
Para mim, a descida da Consolação foi complicada, procurando não escorregar e tentando fazer com que as costas não doessem. Tinha de aproveitar a diversão, conversar com os amigos e saudar motoristas e transeuntes que nos cumprimentavam.
No viaduto do Chá, fizemos uma parada para confraternização, água e fotos do grupo. Depois, enfrentamos a pior subida do percurso, a traiçoeira Líbero Badaró e o tradicional largo de São Francisco. Ali fomos saudados por um grande grupo de moradores de rua que se escondia na chuva nas marquises dos prédios em frente às vetustas Arcadas.
Finalmente, Brigadeiro. Foi um cada-um-por-si, pois o acompanhamento pelos carros da segurança tornou-se muito complicado no corredor de ônibus. Alguns seguiram pelo asfalto, outros pela calçada. Eu fui pulando de um lado para outro, conforme me parecesse mais seguro.
Num zás-trás, estávamos na Paulista, encharcados e satisfeitos, correndo para o final do treino de pouco mais de sete quilômetros. Ainda ganhamos bebida isotônica gelada e um simpático kit, com minipanetone, torrone e outras guloseimas. Mas o melhor foi a promessa de que no ano que vem tem mais.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h01
Apronto final
Oi, galera, não sou treinador nem nada, mas não posso deixar de meter minha colher torta no dia daqueles que vão correr a São Silvestre.
Iniciantes e veteranos, vocês já fizeram tudo o que tinham de fazer, agora é só tratar de não meter os pés pelas mãos que todos vão chegar à Paulista felizes e vitoriosos.
Se os debutantes conseguiram dormir à noite, ótimo. Se não, procurem descansar o resto do tempo até a hora decisiva.
O mais importante para todos, agora, é cuidar da alimentação e da hidratação. Sei que água não é cerveja, mas fiquem bebericando esse tal de líquido insípido, inodoro e incolor até pelo menos uma hora antes de sua refeição principal (que deve ser por agora para as mulheres).
Não abusem na hora da dita cuja (a refeição principal). Ouçam o que dizem e repetem sempre os mais famosos nutricionistas do país e deixem a esbórnia para depois da prova. Uma hora antes do início da corrida, comam uma banana ou uma barra de cereais, tomem mais água e vão em frente, que a glória os espera.
Quanto a mim, tomo emprestado o bordão do Macaco Simão: "Vão indo que eu não vou".
Feliz São Silvestre. E mandem notícias contando como foi.
Escrito por Rodolfo Lucena às 09h53
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PERFIL
Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).
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