Blog do Rodolfo Lucena - + corrida
 

Fala, leitor

Macarronada e mutucas

A ultramaratona Brooks BR 135, realizada na semana passada na serra da Mantiqueira, colocou à prova muito mais que o preparo físico dos 15 ultras que enfrentaram o acidentado percurso (11 terminaram no tempo-limite). Superar a dor, o medo, a fome, o frio e, principalmente, a vontade louca de parar foi o grande desafio. Vejam a seguir como Agnaldo Sampaio, professor de corrida em São Bernardo, superou todas essas dificuldades. Ele terminou a prova em 28h53min01s, atrás apenas do recordista das Américas de provas de 24 horas, Valmir Nunes. Vamos ao texto de Sampaio.

Os primeiros 6 km foram dentro da cidade, a partir daí, entramos numa estrada de terra do Caminho da Fé e então começou o grande desafio.

O Valmir Nunes desprezou a todos e imprimiu um ritmo forte logo no início, então decidi ir junto, confiante que assim faria uma grande corrida e conseguiria chegar em uma boa colocação, já que atrás de mim estava vendo alguns nomes mais respeitados em ultramaratonas mundiais.

Depois de muito sobe-e-desce veio o primeiro grande desafio no km 23, o Pico do Gavião, onde ficava o primeiro posto de controle da prova. Subi muito bem e parei no ponto de apoio para tomar meu hidratante.

Mas logo vi o Áureo Adriano, campeão da prova em 2005, sair com tudo. Percebi que tinha que ser forte, senão seria engolido pela turma que estava subindo o Pico. Resolvi então dar um de kamikaze e imprimir um ritmo forte até buscar o Áureo e assumir outra vez o segundo lugar.

O tempo ia passando entre uma montanha e outra, e a chuva, que não parava, inundava riachos e transformava a prova em uma verdadeira pista de motocross.

Depois de umas quatro horas correndo, a prova saiu das estradas de terra e pegou o asfalto. Começava ali a Serra dos Andradas, uma subida que depois se transformava em uma descida muito perigosa porque a chuva era forte e tínhamos que dividir a pista com os caminhões que vinham descendo.

Terminando a Serra, a prova passava por dentro da cidade de Andradas e logo em seguida entrava novamente pelos sítios e fazendas de estradas de terra, onde começava todo o sofrimento outra vez.

Escorregões, tombos e muita chuva na cabeça. Depois de uns dez quilômetros, começava a Serra dos Lima, com sua série de subidas intermináveis.

Terminei a Serra dos Lima e sentia naquele momento como se meu corpo tivesse sido atropelado por uma carreta. Um resfriado havia me pegado, o que era até lógico depois de tanta chuva e tanto esforço.

Naquele momento, saquei da pochete o meu primeiro socorro, um antigripal que tomei e segui firme até o km 70, onde tinha um outro posto de apoio, na cidade de Barra.

Já fazia seis horas que eu estava correndo na chuva e tudo que eu queria era uma bela macarronada quentinha. Parei nesse posto de apoio e comi dois pratos da suculenta macarronada.

Lá, falei com o Rodrigo, um dos organizadores da prova, que eu estava com vontade de parar, mas ele logo me deu aquela força. Disse que eu e o Valmir estávamos muito fortes e muito bem e que eu deveria continuar firme que o resfriado iria passar.

Não fiquei mais que dez minutos parado, peguei minha pochete, uma garrafinha de água e voltei forte para a prova, entrando outra vez no meu ritmo e controlando a minha mente. Tinha que ser forte, senão como chegaria a São Paulo e falaria para os meus alunos não desistirem? Iria me sentir um falso profeta.

Lá vou eu vencendo os desafios: subida, descida, chuva, lama, até ser atacado por um enxame de mutucas que me picaram o corpo inteiro.

O jeito foi arrancar um galho de árvore e correr com o galho na mão girando sobre a minha cabeça como se fosse a hélice de um helicóptero. Assim foi por muitos quilômetros até chegar à cidade de Crisólia. Só então pude abandonar o meu escudo e me livrar das mutucas.

A prova então seguiu pelos vilarejos e voltou outra vez pra estrada de terra, onde logo encontrei um riacho transbordando e tive que escalar pedras pra atravessá-lo, aproveitei para tirar um pouco a lama do meu corpo.

Logo segui forte. Precisava chegar à cidade de Inconfidentes antes de escurecer, lá era o km 113 da prova e havia um posto de apoio importantíssimo.

Em minha estratégia, solicitei que a organização da prova deixasse minha mochila com lanterna, roupa de frio e material pra correr à noite nesse posto de apoio. Se eu não chegasse lá antes de escurecer, com certeza me perderia na mata no meio da escuridão.

Mas deu: cheguei a Inconfidentes na última luz do dia com pouco mais de onze horas de prova.

Nesse ponto de apoio estava o Tião Magu, o grande massagista de prova, que fez uma rápida massagem. Tomei um banho quente, vesti minha roupa seca, jantei uma macarronada, peguei minha lanterna, blusa, roupa refletiva e caí na mata.

 

Continua na próxima mensagem...

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h10

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Fala, leitor

Dois olhos na escuridão

Segunda e última parte do relato de Agnaldo Sampaio (foto) sobre sua participação na ultramaratona Brooks BR 135, um acidentado percurso de 217 quilômetros na serra da Mantiqueira. Vamos ao texto dele.

Não dava pra enxergar um metro à frente sem a lanterna. Naquele momento não podia descuidar, qualquer vacilo significava se perder. O caminho era marcado por setas refletivas e quando a luz da lanterna batia, ela refletia e assim segui destruindo todos os quilômetros da prova.

Por volta da meia noite, a chuva que nos acompanhava desde o início da prova resolveu parar, mas as suas conseqüências estavam por todo o caminho. Muita lama, atoleiros e rios cheios.

No meio da madrugada, encontrei o Rodrigo com sua pick-up atolada no meio do percurso. Pude conversar um pouco com ele, peguei uma água gelada e segui o meu caminho, vencendo o sono, o cansaço e o frio da roupa molhada até chegar à cidade de Tocos de Mogi, onde avisei na pousada dos peregrinos que o Rodrigo estava atolado e estava sem sinal de rádio e celular.

Troquei as pilhas da minha lanterna, me hidratei, comi algumas frutas secas e barrinhas de cereais e segui em frente. Logo saí da cidade e de novo estradas de terra e subidas.

O sono era forte, a solidão me destruía, e eu não podia parar, senão com certeza perderia meu segundo lugar e a esperança de ganhar a prova, já que o Valmir Nunes poderia a qualquer momento parar pra descansar.

Foi quando quase enfartei de tanto susto: coloquei minha lanterna pra iluminar as setas refletivas do percurso e vi dois olhos brilhantes levantarem em minha frente.

Não tive outra opção a não ser bater o meu recorde de 100 metros pra trás, mas logo depois descobri que era apenas uma vaca que só queria sair da estrada, e não uma onça que fosse me atacar.

O episódio engraçado serviu pra espantar o sono e assim foi até o dia clarear. Logo cheguei à cidade de Estiva, em mais um posto de apoio, onde tomei banho quente, deixei todo o material que usei pra correr à noite, tomei um copo de leite quentinho e segui minha viagem para os últimos 50 quilômetros de prova.

Desci a rua da pousada, uma rua de paralelepípedo, até subir uma passarela que passava por cima da Rodovia Fernão Dias e logo à frente, outra vez, estrada de terra, lama e muita coragem rumo à cidade de Consolação, a última cidade antes de Paraisópolis.

Quando lá cheguei já estava exausto, era como se um filme estivesse passando e eu fizesse parte dele. Todos os meus alunos eram os personagens e a cada metro de prova sentia que não estava sozinho.

O Caminho da Fé me ajudou a descobrir o mito da vida, a ilustrar e compreender o compromisso de luta por ideais de muitas horas de vida levada ao extremo pela paixão de correr. Naquele momento tudo que eu queria era terminar a prova.

O medo da morte por exaustão era constante ao ponto de eu ter que reduzir o ritmo com medo da morte, aquela que eu sempre satirizei. Não podia morrer, o meu propósito estava chegando ao fim, e eu teria que carregá-lo até a linha de chegada e servir de exemplo, só assim eu teria a admiração de milhares de pessoas que eu quero conquistar e conduzi-las a uma vida saudável e a um mundo bem melhor do que este em que vivemos hoje.

Voltando à minha prova, os quilômetros iam passando e tudo que eu queria era encontrar uma cidade atrás de todas as montanhas que eu me deparava.

Subia a montanha e atrás dela outra montanha, estava no meio de um vale montanhoso, com milhares de subidas, descidas, muita lama e nada de chegar à Paraisópolis. Água e hidratantes já tinham acabado, e o jeito foi apelar para a água natural saindo direto das nascentes que encontrava no caminho.

Quando avistei a cidade de Paraisópolis foi a glória, sabia que era só ligar o piloto automático e vencer as últimas montanhas. Logo entrei na cidade, corri por volta de mais um quilômetro e a emoção a flor da pele, o cansaço, a dor, as bolhas nos pés e todo o sofrimento tinham valido a pena.

Quando avistei a linha de chegada e escutei a risada e os gritos escandalosos da Elis, vi que não estava sozinho, avistei também a Luiza e a Regina, minhas alunas e amigas, que iriam me fazer companhia e dividir a glória do meu segundo lugar em uma prova absolutamente desafiadora.

Cruzei a linha de chegada, fotos, câmeras, parabéns, sorrisos, choros em uma mistura de homem e herói, que usou seu talento e sua coragem, dominou a dor para vencer um grande objetivo.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h08

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Na Inglaterra

Crianças em ação

A Inglaterra vai distribuir pedômetros para estudantes de regiões mais pobres do país com o objetivo de motivar as crianças a fazer exercício. O investimento no Programa Nacional de Pedômetros para as Escolas chega a quase 500 mil libras (cerca de US$ 1 milhão).

Pelo projeto, serão distribuídos 45 mil pedômetros para 250 escolas de regiões mais necessitadas, que também terão acesso a recursos on-line para orientar os trabalhos.

Antes do lançamento, foi feito uma experiência em 50 escolas, e as crianças que usaram o pedômetro mostraram mais disposição para a atividade física. Os benefícios foram maiores para as crianças que eram menos ativas, mas os mais esportivos também avançaram.

Até as famílias se envolveram no esforço da garotada para aumentar seu número de passos e melhorar seu desempenho. Pais e mães passaram a participar de caminhadas com seus rebentos, e alguns decidiram até participar de clubes locais.

"Esse programa mostra que você não precisa entrar numa academia ou começar a correr maratonas para melhorar sua forma física. Coisas simples, como sair para uma caminhada ou subir as escadas em vez de tomar o elevador, podem contribuir para aumentar seu bem-estar", disse a ministra da Saúde Pública, Caroline Flint, ao lançar o programa.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h43

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Humor

Orlando

Orlando é um sujeito de mil facetas, todas elas muito boas. Ilustrador e chargista, também encontra tempo na sua movimentada vida desenhada para ser agitador cultural e sindical, mobilizando os colegas de pincel e lápis. De nome completo Orlando Pedroso, é paulistano e nasceu em 1959.

Faz parte do conselho da SIB - Sociedade dos Ilustradores do Brasil, para quem organizou o 2º e 3º ilustrabrasil! em parceria com o Senac Lapa. Participa do grupo de formação das câmaras setoriais de artes aplicadas junto à Funarte.

Acaba de lançar o livro "Moças Finas", com 84 desenhos inéditos.

Saiba mais sobre Orlando e seus trabalhos AQUI e AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h19

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Terror urbano

Pontes e viadutos

Todos sabemos como é complicado correr em São Paulo, em meio à fumaça dos carros, donos da cidade.

Mas cruzar viadutos e pontes leva a taça da complicação.

Não sei qual engenheiro inventou que pedestre não deveria usar essas vias (ou, se usasse, não deveria ter segurança nenhuma).

O fato é que as passagens para os bípedes são estreitas, sujas, esburacadas e desprotegidas. Há as quem nem planas são. Em algumas, uma muretinha nos separa dos carros, que passam chispando. Em outras, nem isso.

Para complicar, o viaduto sobre o marginal Tietê que desemboca na continuação da av. Pompéia está sem várias placas de concreto naquilo que atende pelo nome de passagem para pedestres. Você corre por ali e, sem mais aquela, tem de saltar um buracão. Se estiver pensando na morte da bezerra, corre o risco de quebrar a perna.

Saravá!

PS.: Não me venham os engenheiros reclamar, por favor. Sei que a culpa não é deles, pois esse tipo de coisa faz parte de uma política centenária de desrespeito ao cidadão comum e favorecimento dos privilegiados em geral. Mas, se algum engenheiro quiser reclamar, fique à vontade.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h01

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Pan-americano

Mais censura

Além de tentar amordaçar a mídia eletrônica, o Comitê Olímpico Brasileiros aponta suas baterias contra a livre manifestação dos atletas.

"Nenhum atleta e/ou oficial da Delegação Brasileira dos XV Jogos Pan-Americanos Rio 2007 pode atuar como repórter, produzindo textos ou pesquisas mesmo para fins editorias, enviar periódicos ou diários on-line para sites na Web durante o período dos XV Jogos Pan-Americanos", afirma um comunicado enviado às confederações brasileiras.

O documento é assinado pelo presidente do COB e do Comitê Organizador do Pan do Rio, Carlos Arthur Nuzman.

Saiba mais AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h09

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

"On the Edge"

Pradarias e montanhas

Aproveitei o domingão chuvoso para ver um DVD que comprei no ano passado, nos EUA, e deixei esquecido na gaveta. Errei em levar tanto tempo para assistir ao belo "On the Edge", que conta a história dramática de um ex-quase-corredor olímpico que tenta se reerguer e voltar a competir quando já está na idade madura.

O filme, cujo título pode ser traduzido para "No Limite" ou mesmo, com mais emoção, para "À Flor da Pele", é cheio de chavões, lugares-comuns e todas aquelas coisas que os críticos de cinema adoram condenar e que nós outros, espectadores, adoramos assistir. A produção é de 1985, mas está longe de ser uma velharia _o DVD é de 2005.

Os cenários são maravilhosos, a fotografia é de babar, as trilhas por onde o sujeito treina dão vontade de sair correndo, e as montanhas são coisa de cinema (por sinal, é disso que estamos tratando...). Infelizmente, não tem legendas sequer em inglês; alguns diálogos se perdem, comidos pelo sotaque de um ou outro personagem, mas quem tem inglês mediano consegue acompanhar medianamente a história.

O resumo da ópera: aos 44 anos, 20 anos depois de ser banido do esporte, um corredor aposentado volta à sua cidade natal para correr uma prova trilheira local de fama nacional, a segunda corrida mais antiga dos Estados Unidos, que perde apenas para a tradicional maratona de Boston.

Aos poucos, a história vai se esclarecendo e outros elementos complicadores são acrescidos à trama.

A volta para casa é também o difícil reencontro com o velho pai, comunista de carteirinha que sempre desprezou o esporte e vive em molambos cuidando de um ferro-velho.

Outra superação é aceitar as ordens de seu antigo treinador, que concordou em orientá-lo para enfrentar o novo desafio (aliás, alguns técnicos irão adorar um diálogo entre os dois, quando o corredor agradece ao treinador pelos conselhos, e o técnico diz: "Eu não dou conselhos", fazendo o sujeito se submeter).

O maior complicador é o fato de ter sido banido do esporte, e justamente por causa de uma deduragem do sujeito que agora, 20 anos depois, é o diretor da tal prova.

A punição não foi por doping, mas por Wes Holman, o tal corredor, ter se rebelado contra a falsidade do mundo do atletismo dos anos 60, com seu amadorismo de fachada protegido pelas elitistas federações.

O filme não é um documentário, mas vários atletas dos anos 60 e 70 enfrentaram e desmascaram a hipocrisia dos dirigentes esportivos de então, como fez o famoso Steve Prefontaine.

E a prova é baseada numa corrida maravilhosa, que tomara um dia eu possa fazer. Trata-se da The Dipsea Race, que começa nas montanhas e termina no mar, no norte da Califórnia. O percurso inclui escadarias, subidas dificílimas, descidas traiçoeiras, barro e até asfalto.

É o puro creme do milho.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h28

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

In memoriam

In memoriam

O céu está cinza

Morreu na sexta-feira passada Denny Doherty, 66, um quarto do sensacional grupo folk The Mamas and The Papas, que mesmo os mais jovens entre vós devem conhecer pelos sucessos "California Dreamin" e "Monday, Monday".

Ele cantará para sempre.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h12

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Cara e coragem | PermalinkPermalink #

Especial

Especial

Primeiros passos (replay)

O doutor João Gilberto Carazzato, um dos mais reconhecidos especialistas em medicina esportiva no país, foi um o primeiro colaborador da área médica neste blog. Logo no início de nossas atividades, publicamos texto dele em que dá orientações para quem pretende começar a fazer uma atividade física. Agora, manda uma seqüência daquele texto. Como o primeiro artigo foi publicado há quase dois meses, faço agora uma repostagem dele, com o objetivo de avivar a memória de todos. Em seguida, acompanhe a nova colaboração.

Vamos às dicas.

"De todos os métodos utilizados para preservar a saúde e para prevenir e, mesmo, curar as doenças, não há nada melhor que o exercício físico. O exercício é mais eficaz que os medicamentos e deve ser praticado durante toda a vida para preservar e restaurar a saúde", já dizia Nicholas Andry em seu livro "Orthopedia" , publicado no século 18.

Como também refere Carazzato na introdução do seu livro de Medicina Esportiva: "O ser humano, durante toda a sua existência, preenche as 24 horas de cada dia das mais variadas formas possíveis. Há os que acordam cedo, trabalham muito e têm pouco tempo para alimentação, repouso e lazer. Há os que, na prática, ´nada fazem`.

"É evidente que a programação do dia de cada pessoa tem por base seu grupo etário. Assim, o recém nascido permanece praticamente imóvel durante 24 horas, sendo apenas ´acordado` para higiene e alimentação. Muitos idosos, em seus últimos momentos de vida, encontram-se também em condições semelhantes. Em todos os demais grupos etários, as programações apresentam características absolutamente particularizadas e individuais.

"Sabemos também que, além da alimentação, do repouso, do trabalho, do estudo e do lazer, a prática de atividade física é também considerada essencial para o ser humano e, portanto, deve ser realizada em toda a sua existência. Assim, independente de seu grupo etário, você deve fazer atividade física."

Vamos supor que você resolva iniciar um programa de atividade física. Como fazê-lo?

Dependendo do seu grupo etário, você deve inicialmente avaliar suas condições de saúde. Uma avaliação médica com alguns poucos exames laboratoriais pode considerá-lo apto ou detectar pequenos distúrbios que devam ser sanados inicialmente.

Para um início de atividade física, não são necessários grandes e complexos esquemas de avaliação cardiocirculatória tais como teste ergométrico e detecção dos limites aeróbios e anaeróbios, tão importantes nos esportes competitivos e nos programas de atividade física de alta intensidade e que são determinados por médicos especialistas em medicina esportiva.

Assim, um início simples pode ser conseguido com a mais rudimentar das atividades físicas, ou seja, o andar.

Para haver benefícios cardiocirculatórios, o andar deve observar três princípios básicos: freqüência, intensidade e continuidade.

A freqüência deve ser de um mínimo de três vezes por semana, se possível cinco vezes, e nunca sete vezes.

A intensidade ideal seria de 120 passos por minuto.

A continuidade deve ser conseguida em todo o ano.

Como conseguir isto?

Podemos fazer um protocolo inicial muito simples, a saber: ande em linha reta por cinco minutos com passos amplos com a mesma velocidade que você utiliza no dia a dia. Conte o número de passos. Vamos chamá-lo de X.

Sabendo que o ideal seria 120 passos por minuto o total seria 600 passos em cinco minutos, faça a diminuição 600 – X = Y. Ou seja, Y é o número de passos que faltam para atingir os 600 passos em cinco minutos.

Divida este número Y por dez ( ou mais ) dias e teremos Z que é o número de passos que você deve alcançar a cada dia que andar, até atingir o número ideal de 120 por minuto em cinco minutos.

Conserve sempre o tempo de cinco minutos.

Conseguido o andar com 120 passos por minuto, passe a aumentar o tempo em um minuto a cada dia que andar até atingir o tempo que queira disponibilizar para sua atividade.

Caso você não consiga atingir o número de 120 passos por minuto, não desanime. Estabeleça o seu limite, que pode ser, por exemplo, 80, 90 ou cem passos por minuto, que será aquele que você deve utilizar.

Bem, esse é o início.

Posteriormente poderemos correr, nadar, andar de bicicleta, fazer musculação, ginástica especializada ou até as mais diversas modalidades esportivas. Mas isso veremos em informações posteriores.

Comece de forma simples, que não exija demais de suas condições, para que possa ir progredindo lenta e gradativamente, sem desgastá-lo, sem estresse e, assim, sem oportunidades para frustrações em não conseguir chegar a limites que sejam ambiciosos demais.

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h18

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Dores e medos | PermalinkPermalink #

Especial

Especial

Entenda os movimentos

Texto do doutor João Gilberto Carazzato, um dos mais reconhecidos especialistas em medicina esportiva no país, especial para este blog. Ex-técnico e atleta de vôlei, Carazzato participou de várias seleções brasileiras. Como médico, esteve na delegação brasileira em três Olimpíadas e quatro Pans. Professor-doutor do departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da USP, ele chefia o Grupo de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas.

Mas chega de conversa. Vamos ao texto.

Vocês observaram as regras básicas para o início de seus programas de atividade física e devem perguntar: "E depois, o que fazemos?"

Antes de seguir, veja algumas particularidades que não mencionamos inicialmente para não dificultar os seus estímulos em iniciar a prática de atividade física.

Sabemos basicamente que existem três tipos de relações do aparelho locomotor a saber: a) Longilíneo: com a predominância do tamanho dos membros em relação ao tronco; b) Brevilíneo: com a predominância do tamanho do tronco em relação aos membros; e c) Normolíneo: com o equilíbrio entre os dois segmentos.

Sabemos também das diferenças entre as estaturas dos indivíduos. Os altos, acima de 1m80; os baixos, abaixo de 1m70, e os que se situam entre as duas faixas.

É evidente que um passo total do longilíneo é maior que do normolíneo e mais ainda em relação ao brevilíneo. É evidente também que quanto mais alta é a pessoa maior é o seu passo.

Assim, um passo total aberto de um longilíneo alto pode ultrapassar 1m20, enquanto o de um brevilíneo baixo dificilmente chega a 0,80 m.

Isto vai influir no esquema que relatei a vocês em relação ao número de passos por minuto. Em conseqüência, o desgaste e o esforço necessário para dar 120 passos totais por minuto é muito maior nos brevilíneos baixos que nos outros tipos.

Se for o seu caso, não desanime. Estipule um número menor e use-o como padrão.

Sabemos também que os 120 passos totais de um longilíneo alto pode alcançar mais de 144 m, e os de um brevilíneo baixo não chegam a 100 m.

Mas, apesar da grande diferença dos espaços percorridos em um minuto, os esforços serão semelhantes. As diferenças podem ocorrer com o aumento da velocidade, que acarretará esforços maiores.

Além disso, existe outro fator que deve ser considerado. A relação peso X altura. Os indivíduos com obesidade terão muito mais dificuldade e esforço que os indivíduos magros para cumprir os mesmos programas.

Assim, se você for andar acompanhado, o ideal seria estar com alguém com suas mesmas características. Os opostos andando junto ou exigem esforços maiores dos brevilíneos baixos e obesos ou insuficientes aos longilíneos altos e magros.

Decida-se. O importante é que você ande.

Outras diferenciações podem ser notadas no contato dos pés com o solo.

O apoio total, com a observância das três fases (do apoio do calcâneo, do apoio total do pé e do desprendimento do hallux), promove reações bastante favoráveis para o bom funcionamento dos "corações dos pés" ( a rede artéria-venosa que ocorre em cada pé ), responsáveis pela impulsão do sangue periférico de volta ao coração e da diminuição de edemas dos membros inferiores.

Esse tipo de andar proporciona ótima circulação para seus membros inferiores (experimente tirar seus sapatos no início de uma longa viagem de avião na qual você deve manter-se sentado em sua poltrona. Ao final da viagem, você não conseguirá calçar seus sapatos pois seus pés estarão muito inchados).

Já o andar ou corrida apoiando apenas as pontas dos pés não beneficiariam tanto a circulação dos pés, mas, em compensação, aumentariam muito a velocidade e o desgaste em relação a grande diminuição do atrito com o solo.

A vantagem da corrida é acarretar um maior trabalho cardiocirculatório em menos tempo.

Os passos com carga total são mais efetivos para a circulação dos membros inferiores, mas proporcionam menos benefício cardiocirculatório na unidade tempo.

Enfim: andar rápido, trotar, ou correr rápido depende mais do psiquismo do indivíduo e de suas necessidades do que suas características de aparelho locomotor.

Se você quiser ganhar grande capacidade cardiocirculatória para a prática de esportes competitivos, a corrida é obrigatória

Se você quer emagrecer, apenas ande e sempre acima de 40 minutos, quando então você começa a perder gordura ( até 40 minutos praticamente você queima apenas açúcar).

Se o seu benefício é psíquico, escolha o que achar melhor.

E agora vamos em frente.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h14

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Dores e medos | PermalinkPermalink #

Necessidade básicas

Aquela hora sagrada

Quando Valmir Nunes voltou de Formosa, depois de quebrar o recorde das Américas das 24 horas, fui entrevistá-lo. Uma pergunta obrigatória, considerando que a reportagem seria publicada na Folha, para leitura por público que talvez não soubesse nadica de nada de ultramaratonas, era como ele resolvia suas necessidades básicas durante a corrida, já que tinha de ficar 24 horas batendo pernas na pista.

Não parava nem para fazer xixi; se o caso fosse mais grave, aproveitava as instalações colocadas á disposição dos corredores.

Bem, cada atleta já deve ter enfrentado um problema semelhante em corridas ou treinos. Fica sempre a dúvida se vale a pena parar. Em geral, acho que a tendência, em provas, é o sujeito segurar o máximo possível. Mas chega uma hora que não dá mais, que o desempenho está sendo prejudicado.

A neomãe Paula Radcliffe, recordista mundial da maratona, não quer nem saber. Resolve logo seu problema, surpreendendo até o narrador da corrida, uma prova de dez quilômetros em Londres. O cara fica em dúvida se ela caiu, se tropeçou e pede para dar um replay na cena (que não aparece direito no vídeo, na primeira vez).

Volta, e o sujeito vai narrando: "Vejam só, é mais ou menos por aqui... Ela vai diminuindo o ritmo..." Quando ela se agacha e o narrador percebe o que está ocorrendo, ele fica sem palavras. depois retoma: "Bem, seria muito indelicado comentar..."

Depois da prova, Radcliffe é entrevistada, pede desculpas pela cena e conta que seu desempenho estava sendo muito prejudicado pelo esforço em segurar o que se revelou insegurável.

 

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h43

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.