| |
Pausa para meditação
Embarco hoje para Rio Grande, no sul do país, onde domingo participo da Supermaratona de Rio Grande, na praia do Cassino, a maior do mundo em extensão. Estou morrendo de medo do calor, mas pior é a guerra.
Depois, entro em microférias e provavelmente vou rarear minha presença aqui.
Mas continuem visitando, pois vez que outra posso trazer alguma surpresa.
E grande abraço a todos.
Corram com alegria.
Divirtam-se.
Escrito por Rodolfo Lucena às 14h22
Os 10 mais
Apresento a vocês a lista dos dez melhores tempos da história na maratona. Sem tabela sei que é mais difícil de entender, mas façam um esforcinho e tudo dará certo.
A única marca estabelecida por um não-africano foi a do brasileiro Ronaldo da Costa, já entrevistado neste blog.
Os dois EUA que aparecem no ranking são de Khalid Khannouchi, nascido no Marrocos e naturalizado norte-americano (seu primeiro recorde foi como marroquino).
Notem que a segunda melhor marca da história não foi a de um vencedor, mas de um segundo colocado (perdeu para o Tergat em Berlim).
As informações são as seguintes: lugar no ranking, tempo na maratona, atleta, nacionalidade, cidade onde foi estabelecida a marca, posição do atleta na prova e data da corrida.
1- 2:04:55 - Tergat, Paul - Quênia - Berlim -1- 9/28/03
2- 2:04:56 - Korir, Sammy - Quênia - Berlim -2- 9/28/03
3- 2:05:38 - Khannouchi, Khalid - EUA - Londres -1- 4/14/02
4- 2:05:42 - Khannouchi, Khalid - Marrocos - Chicago -1- 10/24/99
5- 2:05:48 - Tergat, Paul - Quênia - Londres -2- 4/14/02
6- 2:05:50 - Rutto, Evans - Quênia - Chicago -1- 10/12/03
7- 2:05:56 - Gebrselassie, Haile - Etiópia - Berlim -1- 9/24/06
7- 2:05:56 - Khannouchi, Khalid - EUA - Chicago -1- 10/13/02
9- 2:06:05 - da Costa, Ronaldo - BRASIL - Berlim -1- 9/20/98
10- 2:06:14 - Limo, Felix - Quênia - Rotterdam -1- 4/4/04
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h29
Vai rolar a festa
É hoje, finalmente, a reunião entre os técnicos de corredores brasileiros de elite com a Yescom e, provavelmente, alguns outros organizadores de provas de rua. O encontro será em São Paulo.
Espero que os técnicos da elite se lembrem da massa dos corredores e reivindiquem provas começando mais cedo e com água, além de suas propostas específicas.
Mas a coisa está em ritmo de festa: pelas informações que colhi, não confirmadas, a Yescom teria pago as passagens dos técnicos que não moram em São Paulo. Quando necessário, teria bancado também a estadia de ontem para hoje e estaria financiando o dia de reunião (com almoço e cafezinhos) em um hotel da capital.
Isso não é nenhum crime nem nenhuma ilegalidade. Também não desabona nem tira a independência dos participantes da reunião, mas é bom que fiquem claras as condições em que o encontro está sendo realizado.
Se a Yescom quiser fazer algum comentário, este blog está aberto para sua manifestação.
A Yescom, para quem não sabe, é a organizadora das mais importantes provas de rua do Brasil, da São Silvestre à Meia do Rio de Janeiro. Enfim, as provas da Globo.
É uma grande empresa no setor, obviamente, com grande capacidade de trabalho, mas também é muito criticada por corredores de rua, por causa dos horários tardios das provas e de bagunças nas corridas, além do péssimo tratamento dado aos corredores mais lentos, especialmente na Maratona de São Paulo.
Os fóruns de corredores e este blog trazem muitos depoimentos de corredores de rua insatisfeitos. Tomara que, na tal reunião, lembrem também desses problemas.
Escrito por Rodolfo Lucena às 09h20
"Contra-Relógio"
Uma reportagem com dicas para você se preparar para as
maratonas primeiro semestre é o destaque da edição de fevereiro da revista.
O articulista Ayrton Ferreira apresenta planilhas de treinamento
de 13 semanas, para 21 níveis de corredores, para preparação com vistas às
maratonas de Porto Alegre (27/5), São Paulo (3/6) ou Rio de Janeiro
(24/6).
Outra reportagem afirma que corrida e dietas vegetarianas são
compatíveis. Segundo a nutricionista Andréia Torres, as dietas vegetarianas têm
várias vantagens e poucas limitações.
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h39
Em busca do equilíbrio
Neste artigo, o doutor Wagner Castropil traz informações que podem nos ajudar a organizar melhor nossos treinos a fim de tentar evitar lesões. Ex-judoca olímpico, Castropil está se preparando para sua primeira maratona, marcada na agenda para abril próximo. Com mestrado e doutorado pela USP, é o inspirador do Instituto Vita. Leiam o que ele nos conta e, se tiverem perguntas, estejam à vontade para mandá-las.
"Quando nos deparamos com uma lesão, questionamos a causa que a gerou. Mudanças nos treinos, equipamentos inadequados (tênis, piso) ou trauma são lembrados, mas os desequilíbrios musculares relacionados ao esporte praticado são freqüentemente esquecidos.
"Deve haver um equilíbrio entre grupos musculares para o bom funcionamento das articulações. Quando esse equilíbrio é quebrado, temos uma sobrecarga na articulação.
"Na corrida, utilizamos a musculatura propulsora, formada pela cadeia muscular posterior, que trabalha impulsionando nosso corpo para frente, e por isso se desenvolve nesta atividade física.
"O desequilíbrio mais freqüente ocorre entre a musculatura anterior e a posterior das pernas e das coxas, que pode ser a origem de muitas lesões encontradas nos corredores, como tendinites ao nível do joelho, fraturas por estresse da tíbia ou mesmo desgastes articulares que vêm com os anos.
"É preciso prestar especial atenção no fortalecimento da musculatura anterior da perna e da coxa e nos alongamentos da musculatura posterior para prevenir esse desequilíbrio.
"Em casos de recuperação de lesões ou atletas de alto rendimento, é aconselhável uma avaliação mais precisa e individual através da avaliação isocinética (foto), que consiste em um teste de força, resistência, potência e fadiga da musculatura, medindo cientificamente todas as qualidades da musculatura testada e direcionando um trabalho de equilíbrio e prevenção de lesões."

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h08
Akron Marathon
Tênis de graça
Assim como a gente ganha camisetas aos terminar uma corridinha de 10k ou uma dolorida maratona, o pessoal que participar da Road Runner Akron Marathon vai ganhar tênis ao completar a prova.
Trata-se de uma parceria com a Brooks, que vai fornecer quatro modelos para cada corredor escolher, de acordo com seu tipo de pisada.
Além do presentinho para os concluintes, todos os participantes no evento, que será em setembro e inclui ainda meia-maratona e revezamento, vão ganhar uma camiseta especial também da fabricante norte-americana de tênis, que é a segunda dos EUA no mercado de calçados para corredores.
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h15
Cruce de Los Andes

Travessia vitoriosa
A ultramaratonista Elisete Pereira, que vive no Paraná, está de volta da travessia dos Andes, duríssima prova de revezamento para equipes de 12 atletas em que cada um corre uma maratona.
Ela me mandou uma mensagem, que diz o seguinte:
"Consegui sobreviver pelo segundo ano.
"Das 11 equipes, nossa equipe feminina, a Kurufmawida, se posicionou em quinto lugar, chegando a essa colocação com muita garra e mostrando a força que tem a mulher no esporte.
"Só tenho a dizer que a Cruce de Los Andes é uma competição muito dura -de sobrevivência.
"Quando pensava em desistir, me lembrava, primeiramente, da minha equipe, por todo o esforço que havíamos feito nas etapas anteriores, passando por privações, enfrentando as diferenças de altitude, tempestade de neve, chuva, calor, frio. Pensava que deveria ser uma guerreira e ir até o fim.
"Foi muito duro o percurso e não passei bem, devido à altitude.
"Corri o tempo todo com náusea, tonturas, problemas gastrointestinais... Tive que enfrentar no inicio um frio insuportável, e dos 33 km em diante um sol de rachar a cabeça, com subida de 10 km, em curvas de sssss (esses)."
Escrito por Rodolfo Lucena às 13h16
St. Pauli Elbtunnel

Nas entranhas da terra
Esta eu ainda vou fazer um dia: uma maratona sob o rio Elba, na cidade alemã de Hamburgo, cruzando o antigo túnel.
O único risco é ficar claustrofóbico e totalmente tonto, pois são 48 voltas nos túneis mais um tequinho de 508 metros, totalizando a menor ultramaratona do mundo.
É verdade, pois a soma oficial do percurso dá 42.196 metros, um a mais que a cabalística distância da maratona.
A mais recente edição da corrida foi no dia 28 passado. Além de divertida, é uma boa forma de escapar do frio que faz nas ruas lá em cima...
As fotos que ilustram esta mensagem eu consegui deste site AQUI, que é em alemão. Tem um botão para obter a tradução automática para o inglês, com todos os defeitos desse sistema, mas bom o suficiente para entender um pouco do que rolou.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h13
SuperBeijo
Quem consegue dar o mais longo beijo? Esse é o desafio dos participantes da maratona do beijo, que vai rolar no próximo final de semana em Malta, na Europa.
É a terceira edição dessa competição, que neste ano vai durar 20 horas (o dobro do tempo do beijo vencedor no ano passado).
Por sinal, o casal campeão de 2006 estabeleceu um recorde para a modalidade, o que levou os nomes de Louis e Samantha Agius ao Livro dos Recordes de Malta.
Os competidores têm de ser maiores de 18 anos. O beijo é na boca, mas os participantes devem manter um nível de decência (sabe-se lá o que isso seja, mas deve ser para conter os mais entusiasmados).
Os prêmios da maratona do beijo incluem um anel de diamantes e uma viagem para a Sicília.
Escrito por Rodolfo Lucena às 10h57
Vale dos Vinhedos

Corrida nos parreirais
"Cadê o Lavandoski?", conclamou o cartunista Iotti ao final da Maratona do Vinho, chamando às falas o organizador da prova de revezamento realizada no último domingo de janeiro na bela e etílica Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.
Sem esperar resposta e usando sua autoridade de patrono da corrida, o artista, que integra o grupo de corridas Macarruners e colabora com este blog, tascou alto e bom som: "Lavandoski, vá tomar no olho de seu ...! Nós queremos te agradecer pelo percurso que tu arrumaste, todo plaino, sem lomba", disse, irônico e brincalhão, com seu estilo de gaúcho da serra.
A alegria (vá lá, mesclada com uma dose de irritação) de Iotti provavelmente refletia a de todos que participaram da estréia desse projeto: uma corrida que passa pelos parreirais e pelas sedes de várias vinícolas de Bento Gonçalves, com oferta de produtos da região aos corredores, que também foram agraciados com o bom vinho gaúcho.
A corrida começou mal, com quase 15 minutos além do já tardio horário oficial de início (8h30). O solaço prometia uma prova duríssima, exaustiva além das dificuldades inerentes ao percurso (cheio, repleto, crivado de longas subidas e descidas mais terríveis ainda).
Mas todo mundo estava alegre com a perspectiva da aventura. Ao som do tiro de espingarda disparado por Janice Teixeira, heptacampeã brasileira de tiro ao prato e bronze no Pan de Santo Domingo-2003, larguei acompanhando meu irmão Rafael, que faria a primeira perna no nosso quarteto da Nossa Turma, que também levou uma dupla a Bento Gonçalves.
Ele havia preparado uma surpresa: como os organizadores sugeriram que as equipes corressem fantasiadas, meu irmão deu um jeito de produzir máscaras de Rodolfo, e saímos então quatro barbudos e cabeludos.
Depois dos primeiros metros de brincadeira, a coisa ficou séria e cada um tratou de se organizar para que a equipe tivesse o melhor desempenho possível.
Na primeira perna, aqueles metros iniciais no hotel Villa Michelon, que abrigou a largada e a chegada da prova, foram praticamente os únicos planos do percurso. Atravessando a avenida e já margeando um imenso parreiral, a subida veio dolorida, queimando as panturrilhas ainda adormecidas.
Mas a gente seguiu conversando, apreciando a beleza da serra gaúcha, cuidando para não escorregar nos diversos tipos de piso: chão batido, algum trecho acascalhado, asfalto de novo e cascalho mais uma vez.
Nessa batida, chegamos à metade do percurso e ao prometido posto de água. Mas, antes mesmo de aportamos à salvação naquele calor imenso, corredores mais rápidos, que voltavam do posto, avisavam: "Não tem água!!!".
A raiva foi grande. O fornecimento de água é talvez o único ponto em que os organizadores de provas não poderiam errar, pois prejudicam o desempenho e ameaçam a saúde do corredor. Os caras podem dizer o que quiserem, mas não há justificativa para errar nisso.
A gente já entrou no posto gritando e reclamando. Demos a volta protestando e seguimos pela estrada dos Vinhedos pensando em como seria rodar mais meia hora, 40 minutos no seco, nas lombas, no solaço.
Talvez por causa do nosso protesto, uns 500 metros depois fomos abordados por um carro da organização, que levava água. Mas o mal estava feito. E os corredores que passaram antes? Seguiram a seco.

O que vale é que as paisagens nos distraíam, mas não dava para ficar muito perdidão, não, porque estávamos na estrada principal, e carros e caminhões rodavam em velocidade de cruzeiro, tornando o percurso muito perigoso.
Esta foi outra falha muito grave da organização: não cuidar da segurança dos cerca de 250 corredores que participaram do evento. Tudo bem que não desse para fechar a rodovia, mas seria possível pelo menos colocar cartazes de advertência para os motoristas, distribuir panfletos, sei lá, tomar medidas para deixar as coisas menos perigosas.
Ainda bem que, ao que eu saiba, não aconteceu nada mais grave. Mas, no trecho em que percorri com meu irmão, várias vezes tivemos de pular do acostamento para escapar de caminhões ou carros mais afoitos.
Outra dificuldade, que enfrentamos por várias vezes, foi saber para onde ir. Na parte final, do asfalto, estava fácil. Mas, ao longo do percurso encabritado e serpenteante, pelo menos três vezes ficamos em dúvida sobre o caminho a seguir _coisa que poderia ser resolvida pela organização com facilidade e sem muito custo.
E assim, subindo lomba e reclamando, chegamos ao final da primeira perna, festejando ao passar por um belíssimo parreiral, descendo ainda uma rampa escorregadia e alcançando o tapete vermelho da troca de corredor. Ali nos esperavam uvas, vinhos, água e até um sandubão decupado (o pão e os pertences vinham separados, todos embrulhados num pacotinho só).
Também deu para acompanhar o empenho da criançada que participou da Maratoninha do Suco, revezamento de 1.800 metros. Era o posto de troca das duplas: meninos e meninas chegavam afogueados e saíam em disparada, acrescendo mais alegria ao dia de festa.
Continua...
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h09
Vale dos Vinhedos - parte 2

Vozes da montanha
Rafael entrou o bastão para o Marcos, o comandante da Nossa Turma e o mais rápido da equipe, que queimou o chão. A parte dele era praticamente toda de asfalto, com uma enorme descida, longa e leve, e uma amaldiçoada subida de pelo menos dois quilômetros. Em compensação, passou por uma das vinícolas mais progressistas da região do Vale dos Vinhedos, que hoje é muito mais que apenas um terreno.
Os vinhos produzidos ali agora fazem parte do seleto grupo das indicações geográficas reconhecidas pela União Européia. O grupo inclui, por exemplo, os produzidos nas regiões de Champagne, Bordeaux, Douro. Pela primeira vez, a União Européia reconhece uma denominação de origem não-européia. Além do Vale dos Vinhedos, foi aprovada a denominação Napa Valley, para vinhos produzidos naquela região da Califórnia.
Esse "selo", digamos assim, é um reconhecimento da qualidade dos produtos de certa região, fabricados segundo regras e padrões predefinidos. E tem enorme valor de mercado: no ano passado, o Vale dos Vinhedos (região entre os municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul) exportou 500 mil litros de vinho para a União Européia.
Mas nós não contávamos litros nem dólares, muito menos euros: contávamos quilômetros. E Marcos acelerou na parte final de seu percurso, mais uma longa, duríssima subida, que lhe deu como prêmio uma das mais belas vistas de todo o percurso (abaixo).

Linda também era a bagunça montada no alto da montanha para receber os que chegavam à metade exata da prova. Nada de vinho, apenas uva e água.
Em compensação, um coral devidamente paramentado com vestes típicas italianas (ou alemãs ou aleanas ou itamãs, sei lá) mandava ver com invejável entusiasmo. Eu não resisti e relembrei meus tempos de baixo barítono (ou será barítono baixo?), unindo-me ao coro de "Santa Lucia".
Dali saíam os segundos corredores das duplas, os quintos dos octetos e os terceiros dos quartetos para enfrentar talvez o mais "selvagem" ou "rural" de todos os trechos, pegando estrada de terra e cruzando por parreirais. Foi a Lika, a noiva do Marcos, que fez essa perna na nossa equipe, sofrendo um pouco nos trechos íngremes e subidas longas, mas divertindo-se enormemente com o ambiente.
Ela emergiu de um verdadeiro túnel de uvas e vegetação para me entregar a pulseira de corredor da vez no mais belo posto de troca, com grama, árvores e uma vinícola instalada em uma casa antiga. Para os que ali chegavam, havia água, vinho, uvas e sombra. Vários compraram o vinho dali, de boa qualidade e em oferta. A bebida, por sinal, fez parte da premiação: os vencedores em cada categoria, além de dinheiro, levaram 50% do peso da equipe em vinho.
Aos que partiam, como eu, estava reservada, de saída, uma lomba abaixo daquelas, em que só faltou eu ir de cócoras. Desci carregando o velho corpo com cuidado, já tendo uma idéia das dificuldades que viriam.
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h04
Vale dos Vinhedos - final

Vinhas da alegria
Apesar de já ser mais de meio-dia, não estava tão quente quanto na primeira metade da prova, pois nuvens encobriam o sol e, de vez em quando, soprava até uma brisa. Quando o sol rompia, porém, o negócio era sair de baixo.
Coisa que eu não podia fazer.
Tinha mesmo era que olhar para o chão, pois mais de metade de meu caminho seria de calçamento irregular, pedras e paralelepípedos traiçoeiros.
Passei por uma fábrica de vinho, para a qual os chamados connoisseurs torcem o nariz, alegando que produz o precioso líquido em massa, sem a pureza artesanal que os enólogos tanto prezam.
Sei lá, o certo era que a fábrica estava cheia de caminhões em volta, para transportar sua produção, um bom indício de seu sucesso. E o cheiro era inebriante.
Subir, subir, subir. Queimamos os quadríceps, as panturrilhas, mas em compensação as costas ficam inteiras. E, olhando para a frente, já vejo o céu, indicação que a lomba um dia há de terminar.
Seu fim me lava a descortinar os vales lá longe, em um show de verdes claros, escuros, indicando campos e parreirais. Saio da estrada para entrar em uma vinícola, talvez a mais sofisticada de todas as que participam do evento e recebem a passagem dos corredores por seu terreno.
Essa hospitalidade é semelhante à que dão aos turistas. Um bom grupo de vinícolas da região está aberta à visitação e, especialmente à degustação de seus vinhos. No passado, tudo isso era gratuito, mas hoje cobram preços simbólicos pela taça de degustação. Você compra uma taça, passeia pelo terreno, aprende alguns dos segredos da produção e, depois, usa sua taça para experimentar os vinhos da terra.
Nessa balada, em uma tarde você pode fazer a festa gastando relativamente pouco e bebendo relativamente muito, se seu interesse for esse. Mas, na região, parece que o foco é na degustação, apreciação lenta e em pequenas quantidades da bebida tratada quase com néctar de saúde e prazer.
Para mim, ali, o prazer era o contato direto com a natureza, com a produção rural de que estou tão distante no dia a dia. Nessa voltinha de pouco mais de um quilômetro pelo terreno da vinícola, passei por um parreiral tradicional e também por outro, muito diferente, em que os pés de uva são arrumados em estacas, em fieiras, formando imensas ruelas, no chamado plantio em espaldeira
Tinha visto isso na França, quando participei de uma maratona na Provença, região também afamada pelos seus vinhos, além das ervas e da cheirosíssima lavanda.
No Brasil, desconhecia esse uso. Pareceu-me curioso que a mesma vinícola usasse as duas técnicas em terrenos próximos, separados apenas pela estrada.
O parreiral tradicional, em que as uvas e folhas fazem um grande campo a cerca de 1,5 m do chão, é mais produtivo, mas a qualidade das uvas assim produzida é muito díspar, pois, como é fácil perceber, uma certa quantidade de cachos vai receber mais sol que a outra, que fica entremeada no parreiral.
Da outra forma, em espaldeiras, o plantio é mais organizado. São carreiras e carreiras de parreiras, como se fossem enormes prateleiras de supermercados. Dessa forma, os cachos recebem sol por igual e a manutenção e a colheita também são mais fáceis.
Essas uvas são usadas na produção de vinhos finos, o orgulho do Vale dos Vinhedos e do Rio Grande do Sul, que produziu no ano passado 32 milhões de litros de vinhos de alta qualidade. No total, o Estado contabilizou 217 milhões de litros, sendo responsável por mais de 90% da produção nacional.
Curioso mesmo foi descobrir que, mesmo pensando estar no alto da montanha, tinha ainda mais um trecho para subir. A volta do percurso seria em uma igrejinha, onde corredores esperavam seus colegas dos octetos, pessoal da organização oferecia água e algumas moças e rapazes fantasiados também divertiam a turma.
Fiz a volta confiante que, a partir dali, era só descida. Como vocês sabem, para baixo todo santo ajuda, mas descer é uma atividade traiçoeira. Os joelhos estão sempre em risco e a musculatura posterior da coxa é chamada a trabalhar como nunca: exagerar na descida é receita certa para abrir o bico mais adiante.
Para um sujeito como eu, então, um tanto acima do peso e, especialmente, com hérnias e dores de coluna, todo cuidado é pouco. Desci aqueles quilômetros escorregadios mais rápido do que subi, é certo, mas fazendo de tudo para proteger a lombar, enrijecendo o abdômen, cuidando da postura, restringindo a fome de correr um pouco mais.
E assim chegou o asfalto e mais morro. Parece que eu só falo de lomba acima e lomba abaixo, mas o fato é que a altimetria do percurso parece um eletrocardiograma... de um sujeito com arritmia.
Não posso reclamar, porque os quilômetros vão se acabar, cruzo a porteira final, mais uma curva e já vejo o tapete vermelho. Os companheiros da Nossa Turma se aprochegam, mascarados de Rodolfo, e lá vamos os quatro para terminar a primeira Maratona do Vinho, um revezamento gostoso e saudável em uma das mais belas e inspiradoras regiões do país.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h59
Dá raiva
A cobertura da Globo tropeça nas próprias pernas. Nem numa provinha pequena, com menos de 20 atletas, como esse fast triatlo que está rolando agora em Camboriú, a emissora do plim-plim consegue dar informação na hora e com precisão.
A câmera acompanha a primeira colocada e, com sorte, a segunda. Como a terceira desapareceu do olho da câmera, já não sabemos quem é. Nem eles, os narradores...
No caso da equipe brasileira, aconteceu alguma coisa com a atleta Bocannera, que não conseguiu acompanhar as poderosas Mariana Ohata e Sandra Soldan no pedal. Mas os caras não conseguiram explicar direito o que aconteceu.
E, no final, não informaram com precisão qual a classificação da dita cuja na segunda bateria: "No visual, parece que ela entrou em sétimo", disse o locutor.
Lamentável.
Escrito por Rodolfo Lucena às 10h09
Onde está a Justiça
A coluna de Elio Gaspari, hoje na Folha, não trata dos temas costumeiramente abordados neste blog, mas é extremamente educativa. Com o título "O viés dos juízes pelos pobres é lenda", apresenta o resulta de pesquisas que analisaram e contabilizaram decisões judiciais em São Paulo e mais 16 Estados.
A coluna, na íntegra, está AQUI (para assinantes da Folha e/ou do UOL), mas dou a seguir uma palhinha que já apresenta a questão:
"Se dois litigantes buscam a proteção de uma mesma lei, aquele que está no andar de cima tem até 45% mais chances de sair vitorioso. Se o contrato favorece o forte, tende a prevalecer. Quando favorece o fraco, esgarça. (...)
"Quando uma das partes pertence ao andar de cima local, tem entre 26% e 38% mais chances de prevalecer do que um grande grupo nacional ou internacional. (...) Quanto maior a desigualdade social numa região, maior é o conforto do poderoso."
PS.: Antes que alguém me acuse de preguiça, aviso que postei esta mensagem também em meu outro blog, Circuito Integrado, porque a julguei de interesse de informatas e corredores.
Escrito por Rodolfo Lucena às 09h35
Ver mensagens anteriores
|
|
PERFIL
Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).
|
|