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Cassino, Rio Grande

Cassino, Rio Grande

Regresso aos pagos

Neste momento, escrevo este texto vestido com a camiseta regata lembrança da XIV Supermaratona de Rio Grande, que completei no último domingo, dia 11 de fevereiro, três dias antes dos meus 50 anos, em 6h48min32, segundo registro de meu GPS.

O aparelho, aliás, marcou uma distância um pouco inferior a 50 km no percurso, mas como o trajeto vem sendo percorrido há 14 anos sem reclamações e como a própria fabricante diz que o aparelho pode não ser totalmente preciso, não vou falar mal da distância, que é muito boa, simpática e desafiadora.

A prova foi totalmente excelente. Diferentemente da de dois anos atrás, quando faltou água já no km 5, desta vez a organização foi primorosa. Acho até que havia mais postos de água do que os prometidos no regulamento. Todos eles abastecidos e com um bom número de pessoas atuando, oferecendo a bebida e dando incentivo aos atletas.

Com o calorão, nem sempre a água estava sequer fresca, mas não faltou para ninguém. Ambulâncias cruzavam o percurso, e o interesse e a preocupação com a saúde e o bem-estar dos corredores eram evidentes.

O bem-estar de todos, aliás, foi muito auxiliado pelo clima. Corri dez quilômetros antes da prova, como aquecimento e para engrossar os 50 km, por causa de um objetivo futuro. Comecei às 5h45, e posso dizer que nesse horário estava mais quente, ou a sensação térmica era pior, do que nas primeiras duas ou três horas de prova.

Isso porque a largada, às 7h02, foi sob uma temperatura agradável, brisa e até alguma nebulosidade. O tempo estava abafado, mas já tinha estado pior. Com menos de uma hora de trote, a chuva começou a bater, tirando aquele mormação da nossa frente.

Deu uma pancadinha leve, depois um pancadão, mais uns pingos cá e lá, o suficiente para refrescar. Mas ficaram nuvens no céu, continuando a nos proteger pelos primeiros quilômetros, que são muito perigosos.

A Super larga da praia do Cassino, a maior do mundo em extensão, a praia mais família e gaudéria desse planeta, onde o vento carrega o cheiro do churrasco e o mar é do tamanho da alegria e da satisfação dos banhistas. Dali, a gente roda um quilômetro na própria cidadezinha, que tem pouco mais ou menos que uma dúzia de ruas calçadas e uma enormidade de caminhos de chão batido.

Então pegamos a estrada em direção a Rio Grande, o porto do Mercosul, cidade que foi o berço da pátria gaúcha e que neste fevereiro completou 270 anos de orgulho.

É o trajeto mais complicado do ponto de vista da segurança, único aspecto mais problemático da prova neste ano. Os corredores dividem a estrada apertada com motoristas nervosos, apressados, e ônibus beligerantes, nem sempre dispostos a aguardar com tranqüilidade o momento para ultrapassar.

Em 2005, houve mesmo um acidente. Desta vez, não ouvi comentários, mas o comportamento do povo motorizado me pareceu até mais agressivo e irritadiço.

CONTINUA...

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h48

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Cassino, Rio Grande

Cassino, Rio Grande

Bendita praia

A metade da prova se completa no seio da cidade, passando por ruelas, praças, monumentos, tudo vazio. O povo dorme naquele calorão; os poucos que desafiam o sol aplaudem e incentivam os corredores que passamos, também nós meia dúzia de gatos pingados.

Para ser exato, 263 largaram no evento, que teve ainda uma prova de 10 km, a maior parte dela na areia da praia, uma caminhada e uma corrida para a gurizada, numa confraternização bem bacana da comunidade. Segundo os registros que vi publicados no jornal, apenas 206 completaram. Ou seja , uma queda de mais de 20%, o que já dá uma idéia da dificuldade da prova.

Não sei se, nesses que não completaram, eu e mais uns tantos que acabaram o percurso um pouco antes e muito depois de mim, estamos incluídos. É que a prova tem limite de tempo de 6h15.

Quando terminei, havia gente da organização por lá esperando os corredores. Uma senhora meu deu minha medalha e logo outro sujeito da organização veio oferecendo mais uma. Eu agradeci, pois a primeira já seria o suficiente.

Também havia gente acompanhando o último atleta, que terminou os 50 km cerca de meia hora depois de mim (calculo no olhômetro), num exemplo de sujeito que não se entrega por nada.

E olha que não faltou vontade de se entregar. E havia razão para isso. Apesar de as condições estarem bem melhores que há dois anos, isso não significa que estavam adequadas para a prática esportiva, para dizer o mínimo.

O calor é algo que faz parte da Super, todos sabemos disso, mas o fato de saber não significa que não se sofra com ele. E os quilômetros? E os asfalto? E as retas? E o vento?

Para alegria de meus médicos e fisioterapeutas, não tive dores nas costas, as hérnias se comportaram direito. A fasciite plantar também não incomodou, mas os pobres pés sofreram. Chegou uma hora, lá pelo km 30 (que, para mim, era 40), que eu só queria na vida uma bacia com salmoura para largar os pés.

Mas daí já estava ali mesmo, era um treinão, reduzi a marcha e segui em frente. O que me valia era a companhia salvadora da Eleonora, que desta vez me acompanhou todo o percurso, desde a prévia da madrugada.

Ela se encarregou da minha água e de todo o abastecimento, porque, como diz o ditado "gato escaldado tem medo de água fria", e eu não ia me arriscar de novo a ficar sem bebida e alimento nesse trajetão. Mais do que abastecer, incentivou, chamou, deu forças ao meu espírito corredor.

E olha que os espírito fraquejou um tanto, pau a pau com as pernas, as panturrilhas e os coitados dos pés.

O ritmo foi caindo com o calor, que também machucava o ânimo, perdido naquele retão: quando se sai do centro da cidade, vai-se para o porto, sozinho. São 3.200 metros ao longo dos armazéns, depois uma curva para a direita, outra para a esquerda e se chega ao km 30 e à maior reta que já vi em uma prova. Vai até o 42, e claro que não é absolutamente reta, mas é totalmente plana, e a paisagem quase não muda: campo e mar parado, um ou outro corredor que se avista na distância.

O que eu avistei foi um sujeito vestido de corredor, mas sem número, vindo em minha direção. Para encurtar a história, era um conhecido com que já conversara lá em Rio Grande, em outras oportunidades, e que veio bater papo, falar das corridas pelo mundo e contar também belas histórias da terra.

O certo é que corremos e caminhamos juntos os últimos 15 km, que ficaram mais leves por causa de tanta história.

Leves e alegres, pois a última etapa do desafio é, só ela e finalmente, na querida praia do Cassino. Lá pelo km 40,5 se avistam as dunas, depois as perdemos. E só no 42 se põe finalmente o pé na areia (para você ter uma idéia do meu desempenho, clique AQUI; se você tiver Google Earth, poderá acompanhar todo o percurso).

Chãozinho batido, vento gostoso, as famílias na praia, a carne assando, o mate rolando, e a gente vai no trote. Está mais de 30 graus, com certeza. meus ombros e braços estão totalmente vermelhos, apesar do protetor solar, mas a sensação é de quase euforia, mesmo com a dor e o cansaço: sei que vou chegar.

No km 48, a Eleonora entrega a água pela última vez, e dá um tchau que me deixa todo emocionado: "Te vejo na chegada".

E lá fui, para ela, até a chegada.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h45

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PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

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