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Lama endiabrada
No domingo passado, ocorreu a corrida da lama de Holambra, que chegou até a tela da Globo. Não fui, mas este blog teve um competente repórter improvisado na figura de Angel Domingos Zaccaro Conesa, economista de 52 anos que participa de corridas de rua há cerca de cinco anos. Ele não trouxe fotos, mas nos dá um vivo relato dos momentos emocionantes e divertidos que por lá passou. Vamos ao texto do Angel.
"Ninguém falou que seria moleza. CORRIDA DA LAMA! Também não falaram que seria assim. Nunca me diverti tanto em corridas. Essa foi a de numero 95 (oficial) da minha carreira e desde já eleita Top 10.
"O preço da inscrição, R$ 10,00, não prometia muito, mas decidi conhecer o tal circuito e mandei bala na inscrição. O mais correto seria: mandei barro.
"O ambiente soava familiar pois estávamos em uma pista de cavalos, com uma enorme piscina de lama vermelha no centro da pista. Uma "escada" de sacos de areia levava até o barral.
"Houve um pequeno atraso devido à brincadeira com as crianças, mas enfim tocou a corneta. Primeiro a turma dos 5K: percebi que a tal piscina de lama não só era grande como funda pois os caras vinham com barro até o peito.
"Depois de 20 minutos largou a turma dos 10 km (eu estava lá). Pouco antes da largada uma moça muito simpática chegou para mim e, depois de perguntar se era minha primeira vez, sugeriu que eu fosse sem óculos. Quando aleguei que não enxergava sem eles, ela advertiu: "Enxergarás menos com eles" .
'Larguei sem óculos.
"Primeiro, você corre mais ou menos 800m para então atravessar a piscina na frente da platéia. É o maior mico !
"A prova continua e você sai da vista da platéia para entrar numa fria, pois à sua frente surge uma fila indiana (parece coisa de guerrilha), que são os atletas andando com água pela cintura dentro de um lago com mais ou menos 100m e com solo arenoso misturado com barro.
"Continua a trilha de chão, sobe uma ladeirinha ao lado de uma parreira e aparece um fosso com mais de 1,5 m de profundidade. É água até o pescoço (ou quase).
"Agora desce um pequeno trecho de asfalto que parece o céu. Como é bom correr sem nada prendendo os pés.
"Acabou.
"Tome barro preto (parece chocolate), depois tome mais barro (parece tutu de feijão). Eu estou com fome, que passa ao ver o tamanho do nabo que nos espera: correr, melhor, andar por um rio que ao entrar tem até salva vidas com bóia amarrada em corda, parece coisa de cinema.
"Olho para o lado, dou uma risada e pulo. Afundei. Sobrevivi e atravessei entre troncos e lama e buracos aquáticos e cheiro de vaca e sei lá mais o quê.
"Mas ninguém reclamava. Todo mundo ria e se divertia.
"Eu briguei particularmente com um VETERANO B de Leme (esta foi a classificação dada pela organização para a minha faixa, embora eu achasse MASTER mais simpático) e um outro não sei da onde e foi nesse ponto, na segunda volta, que decidi ultrapassá-lo e consegui. Foi muito bom.
"Mais água suja, mais lama e um cara da organização com uma camiseta branquinha, limpinha, que observava os outros voluntários da organização que ajudavam os atletas a transporem os trechos mais complicados. Olhei para o voluntário e, pingando de lama, dei uma abraço, "carimbando" o peito do sujeito".
"Mais barro e, após passar três vezes pela piscina, completei os 10 km em 01h26. Foi incrível. Para completar, tinha ducha de água fria que, com o forte calor e a necessidade de tirar a lama do corpo, era muito convidativa.
"Tudo ia bem até que uma garota começou literalmente a tomar banho com sabonete e emperrou a fila. A galera começou a chiar, e a coisa ficou preta pois a jovem senhora começou a intencionalmente demorar. Teve que ouvir alguma gracinhas, que culminaram com gritos de "Limpinha! Limpinha!", quando se retirou do recinto.
"Dada a situação, tomei uma ducha rápida e corri para a chácara, onde, com escova, bucha e xampu tentei tirar os vestígios da lama vermelha.
"Só para o ouvido foram mais de dez cotonetes.
"Ano que vem, estarei de volta."
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h10
Eleonora Mendonça
A desbravadora
Ela conta nos dedos os dias em que ficou sem correr, desde os idos
de 1972. E seus passos fizeram história, das ruas do Rio à pista do Coliseu de
Los Angeles. Eleonora Mendonça foi a representante do Brasil na primeira
maratona olímpica feminina, que ela, como corredora e militante, havia ajudado a
tornar realidade (na foto, acena depois de participar da prova, em Los
Angeles-84). Como empresária, fez deslanchar a maratona no Rio de Janeiro e
organizou, em São paulo, a até então maior corrida feminina do mundo.
Hoje, aos 57 anos, está aposentada de sua vida de atleta e
mestra (foi técnica e professora em universidades dos EUA por 20 anos), mas
continua correndo diariamente pelas ruas e trilhas da praiana Cape Cod, nos EUA,
de onde concedeu, por telefone, esta entrevista exclusiva.
Para melhor apresentação, dividi o texto em quatro trechos
colocados em seqüência. No final, não deixem de ver também um anúncio dos anos
80, que ajuda a dar a dimensão da importância dessa militante do esporte e do
feminismo, que neste mês é merecidamente homenageado.
Folha - Como você começou sua vida
esportiva?
Eleonora - O esporte, para mim, foi, sempre foi
e continua sendo uma parte importantíssima na minha vida, desde pequena, com
apoio dos meus pais. Depois, sempre fui atleta do Fluminense. Nas escolas,
sempre participei em esportes e na universidade também. Meu esporte foi muito
diversificado: fiz voleibol, nadei, mas tênis foi aquela dedicação maior,
primeira. Fui vice-campeã brasileira, participei de Sul-Americanos de Tênis. Foi
uma curta, porém muito importante fase da minha vida.
Folha - Isso com que idade?
Eleonora - Joguei tênis desde os 12, 13 anos.
Joguei muito aí em São Paulo, no Pinheiros. Foi uma época muito feliz. Até no
meu último ano de universidade estava ativamente jogando tênis. Mas tive um
acidente na universidade, estava fazendo educação física e ‘ferrei‘ o meu
joelho. Naquela época, 40 anos atrás, não tinha muitos recursos. Então, fiquei
debilitada para continuar naquele nível alto que eu estava buscando no tênis. Na
mesma ocasião, quando eu estava terminando a faculdade, ganhei uma bolsa para os
Estados Unidos para fazer mestrado em educação física. Isso foi em
1971/72.
Folha - E aí que você começou no mundo da
corrida?
Eleonora - Em 1972, foi a época da Olimpíada de
Munique. Eu acompanhei, fiquei muito impressionada com o evento, a ação
terrorista. Ao mesmo tempo, por estar nos Estados Unidos, foi um evento muito
glorioso para o país porque o Frank Shorter tinha ganho a medalha de ouro na
maratona. Foi o início, como se diz, o estopim para o ‘boom‘ de corridas aqui
nos Estados Unidos. Como eu estava aqui, comecei a correr.
Estava buscando uma alternativa para continuar envolvida no
esporte. Quando você tem 22, 23 anos, a natação já não é uma alternativa, pois é
uma idade em que a maioria dos nadadores está se aposentando. Mas, na corrida, o
Frank Shorter naquela época tinha 25 anos. Eu falei: ‘Poxa, talvez seja o
esporte em que eu possa buscar uma carreira‘.
Comecei a correr. Retornei ao Brasil depois de terminar o
mestrado e continuei minhas corridas. No Fluminense, o técnico de atletismo
Frederico Hottstacher, que foi durante muitos anos técnico de atletismo no
Fluminense e da seleção brasileira, me chamou para correr. Ele iria me treinar
para o sul-Americano de atletismo, onde iria haver pela primeira vez a prova de
1.500 metros feminino. Até então, 800 metros era a distância máxima para as
moças.
Aceitei treinar e, após quatro meses, participei das
eliminatórias em São Paulo, no clube Pinheiros. Foram alguns meses, dois, três,
quatro meses e competi nessa prova, venci a prova abaixo de cinco minutos. Como
estava sendo corrida pela primeira vez, a prova passou a ter minha marca como
recorde brasileiro, com 4min58.
Gostei dessa experiência, corri mais um ano no Brasil a prova de
1.500 metros, depois retornei, em 74, aos Estados Unidos para retornar aos
estudos em Direito e, ao mesmo tempo, tive uma oferta de trabalho.
Folha - Foi quando você começou na
maratona?
Eleonora - Fui para Boston e, como você sabe,
Boston é a meca de corridas, principalmente, corridas de longa distância,
maratona. Comecei a expandir a minha experiência, o meu treinamento, além da
pista, além dos 1.500 e 3.000 metros.
Comecei a treinar e competir em cross e, eventualmente, a pensar
em correr a maratona.
Minha primeira experiência na maratona foi em 76 aqui mesmo em
Boston. E, naquela época, como ainda acontece hoje, para participar da maratona
de Boston tinha que se qualificar. Corri uma maratona três ou quatro meses
anteriormente, aqui mesmo perto de Boston e corria maratona de Boston. Foi uma
experiência excepcional...
Folha - Excepcional por quê? O que a maratona
tinha?
Eleonora - Ah, porque eu estava treinando havia
três, quatro, cinco anos em provas mistas, em provas de curta distância, e de
repente entrei nesse treinamento e uma competição totalmente diferente. Para
mim, marcou muito. Eu falei: ‘É aqui que eu quero ficar: treinando em maratona‘.
Eu me encontrei em corridas de longa distância e corridas mais longas, como a
maratona.
Folha - E como foi seu desempenho na
prova?
Eleonora - Foi bom, foi muito bom. Eu cheguei,
não me lembro agora, imagino nos dez primeiros lugares. Corri novamente em 77 e
em 78. Este talvez, tenha sido o ano mais glorioso, eu não sei se é a palavra
certa para mim, quando eu cheguei em sétimo lugar na maratona de Boston e em
quinto lugar na maratona de Nova York. Esse quinto lugar em Nova York é ainda a
melhor colocação de uma brasileira, com 2h48min45.
Esse tempo, naquela época, me colocou entre as 15 melhores do
mundo e me levou a outros eventos na Europa, no Japão.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h46
Eleonora Mendonça - parte 2
Quebrando tabus

Folha - Nesse período, você estava competindo profissionalmente?
Eleonora - Naquela época, eu estava trabalhando na fábrica de calçados esportivos New Balance. Naquela época, a empresa estava sentindo que a corrida estava tendo um boom. Numa atitude muito capitalista, muito empresarial dos Estados Unidos em geral, e, principalmente, de Boston, as firmas davam esse apoio para quem tinha talento. Ofereciam a oportunidade para o atleta trabalhar e, ao mesmo tempo, ajudar essas firmas a se desenvolverem nesse mercado. Ofereciam tempo para viagens, competições e treinamentos. Então, foram três anos de desenvolvimento muito fértil.
Folha - Você conseguia até competir no Brasil...
Eleonora - Em 76, fiquei ciente de que a São Silvestre, no ano anterior, em 75, tinha aberto para corredoras. Eu entrei em contato com a organização da São Silvestre e fui competir. Foi o primeiro ano que eu competi na São Silvestre e continuei competindo até 88. Tirei em segundo lugar em 78, quinto, lugar, sétimo lugar, subi duas ou três vezes ao pódio, naqueles primeiros anos.
Nessa época, eu via uma diferença muito grande no desenvolvimento que estava ocorrendo nos Estados Unidos e a falta de desenvolvimento ou então essa parada, essa estagnação no Brasil em relação à corrida. Então, eu resolvi trabalhar, iniciar um movimento de base, para ver se o povo, eu pudesse ajudar esse movimento de corrida no Brasil.
Soube que, no Rio, havia uma corrida de veteranos e, como eu estava trabalhando ainda para a New Balance, levei para o Brasil alguns calçados, algumas roupas da New Balance para oferecer como prêmio e foi muito bem recebido. O Yllen Kerr, eu o Paulo César Teixeira resolvemos abrir uma firma para tocar esse movimento para frente e o nome da firma era Printer.
Folha - Printer?
Eleonora - Printer - Promoções Internacionais. Em 78, nós fizemos a primeira corrida, em junho de 78, a Corrida de Copacabana. Depois o movimento começou a crescer, fizemos corridas para veteranos, corridas para crianças.
Entrei em contato com a Avon, que, naquela época, nos Estados Unidos estava fazendo o circuito de corridas femininas. Convenci a Avon a estender o circuito feminino para o Brasil e levamos esse circuito para o Brasil (na foto, Eleonora no segundo lugar, no pódio, em uma corrida Avon no Brasil).
Começamos pelo Rio de Janeiro e dois anos depois fizemos a maior corrida feminina do mundo. Foi realizada aí no Ibirapuera, em 1984, com mais de 5.000 atletas. Foi um sucesso incrível.
Além de corridas, confeccionamos roupas de corridas que, naquela época, não existiam no Brasil. E começamos a publicação da primeira revista de corrida no Brasil, chamada ‘A Corrida‘.
Creio eu que esse passo inicial que nós demos ajudou a despertar nas pessoas esse gosto, essa forma de viver, de integrar a atividade física no dia-a-dia de cada um.
Ao mesmo tempo que eu estava trabalhando nesse programa de desenvolvimento, eu continuava competindo nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, mas estava faltando uma coisa.
Eu estava bem resolvida na maratona, que foi uma experiência muito valiosa e onde eu estava concentrando minhas energias, mas faltava a maratona nas Olimpíadas. O sonho de todo atleta é almejar aquela competição máxima. Quando você é tenista você almeja jogar em Wimbledom. Você é um atleta, sonha com as Olimpíadas e não havia maratona olímpica feminina.
Folha - Qual era a justificativa para que não houvesse?
Eleonora - Havia uma mentalidade antiga no Comitê Olímpico Internacional, que achava que as mulheres não tinham capacidade. Aqueles tabus de que a corrida longa, essa batida, essa pressão traria danos para o sistema interno feminino.
Foi por isso que nós, da comunidade intelectual não só americana mas também internacional, estávamos tentando mudar um pouco essa mentalidade do Comitê Olímpico.
No final dos anos 70, foi criado o IRC - International Runners Committee, com representantes do mundo inteiro, não só na área de atletismo mas esportistas em geral, especialistas da área médica, da psicológica, para fazer estudos e levar ao Comitê Olímpico para mostrar que o que eles pensavam não era exatamente a realidade. Em 79, eu fui eleita presidente desse comitê.
Nós lutamos muito, buscando dados e estudos para provar que a mulher tinha condição de correr a prova de longa distância.
Em 81, o Comitê Olímpico, finalmente, aprovou não só a maratona mas também os 3.000 metros feminino na Olimpíada.
Para mim, foi uma vitória muito grande, através do esforço não só meu mas de vários colegas na parte do esporte, na parte médica, psicológica, de várias áreas, foi uma vitória muito significativa.
A primeira maratona olímpica seria a de 84, em Los Angeles. Então, desse marco de 81, comecei a redirecionar minhas energias, meu tempo para ver se eu conseguia fazer a marca para participar.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h40
Eleonora Mendonça - parte 3
Caminho suado
Folha - Como o Brasil selecionou seu
representante?
Eleonora - Acho que a decisão pegou o Brasil
muito despreparado. A CBAt, creio eu, não tinha uma norma de como iria se
exibir, iria representar. Eles, inclusive, ficaram muito vagos se, realmente,
iam mandar uma representante para as Olimpíadas. Em 1983, haveria o Campeonato
Mundial, e dentro dos meus planos era me qualificar para o Mundial, já em
preparação para a Olimpíada, que seria realizada no ano seguinte.
Entrei em contato com a CBAt para saber qual seria o critério
para eu me qualificar para o Mundial, e eles também não tinham estabelecido
nenhum critério.
Por causa dessa atitude vaga, eu participei da eliminatória para
o Campeonato Mundial nos Estados Unidos, tentando, pelo menos, se eu me
qualificasse e fizesse um bom tempo aqui nos Estados unidos, talvez,
demonstrasse para eles que eu tinha as qualidades para poder representar o
Brasil. A eliminatória foi em Los Angeles fiz abaixo de três horas.
Dois dias depois de participar dessa maratona, recebo uma
comunicação de Hélio Babo, presidente da CBAt, dizendo que a seletiva brasileira
seria a maratona Atlântica Boa Vista, no Rio de Janeiro, um mês
depois...
Folha - Você teria apenas uma mês...
Eleonora - Naquela altura, eu não podia nem
questionar, acho que as energias eram mais para poder me recuperar. Fui para o
Rio, corri a maratona, venci a maratona, mas...
Naquela época, não tinha ninguém assim de muito nome, porque em
83 ainda estão começando, a maratona era um nenê, principalmente, na parte
feminina. Eu corri, mas, infelizmente, apesar dos dois resultados, eles acharam
uma forma e aleatoriamente disseram que com o meu tempo eles não iriam me
enviar.
Folha - Eles decidiram não mandar representante para o
Mundial de Helsinque, foi isso?
Eleonora - Exatamente. Fiquei muito
decepcionada. Quando a CBAt não oficializou, foi uma decepção. Foi, talvez, uma
das maiores decepções que eu tive, mas não foi por isso que eu parei, que eu
deixei de lutar. Acho que aí me deu mais forças ainda para continuar
lutando.
Folha - O que você fez?
Eleonora - A maratona que serviu como
eliminatória tinha apoio do "Jornal do Brasil", que, apesar de eu ter sido
recusada, me enviou para Helsinque para, pelo menos, eu fazer parte desse
evento. Infelizmente, não como atleta, como eu gostaria.
No correr do ano, fiquei em contato com a CBAt para saber qual
seria o critério de seleção para a Olimpíada. Finalmente, em abril de 1984 (os
Jogos seriam em julho/agosto), eles disseram que, novamente, a Atlântica-Boa
Vista, com o apoio do ‘JB‘, seria eliminatória. Então, eu fui, participei da
corrida, venci em 2h54, se não me engano, ou 56min. O Elói Schleder venceu na
parte masculina. Mesmo assim, a CBAt ficou muito indecisa de me
enviar.
Folha - Ela ficou indecisa com base em
quê?
Eleonora - A única razão que pode ser é que o
papel deles não estava sendo cumprido e sim, através da Printer, que eu estava
levando. E o "Jornal do Brasil", vendo que já era a segunda vez que a CBAt não
endossava uma competição em que eles tinham investido muito dinheiro, eles
estavam se sentindo, também, prejudicados. Fizeram pressão para a CBAt tomar uma
decisão e, finalmente, duas semanas depois dessa prova, eles levaram a vencedora
da eliminatória para a Olimpíada. Então, foi suado, foi suado esse caminho todo
para chegar até Los Angeles.
Folha - E como foi Los Angeles?
Eleonora - Foi uma vitória profissional,
pessoal e desportiva enorme, foi uma realização magnífica. Uma experiência
indescritível (na foto, a chegada no Coliseu de Los Angeles).
Folha - O que você lembra do dia da maratona
olímpica?
Eleonora - O dia em si foi um dia muito quente
e úmido também. Creio que eram 60 as participantes, mas de 12 a 15 desistiram da
prova. As condições em Los Angeles, naquele dia, estavam muito
desfavoráveis...
Folha - Todos se lembram da figura de Grabriela Andersen
chegando...
Eleonora - Ela já tinha tido problemas
semelhantes anteriormente, uma questão dela mesma. São pessoas que são assim
mais suscetíveis a temperaturas mais baixas ou temperaturas mais altas. Naquela
época, ela estava morando Idaho, que é um Estado do norte dos Estados Unidos,
muito frio e muito bonito. Ela já tinha tido esse problema em outros eventos,
não vou dizer exatamente a maratona.
Eu estive com ela naquela tarde mesmo porque o Brasil ficou no
mesmo alojamento da Suíça. Nos ficamos no campus da Ucla, a Universidade da
Califórnia em Los Angeles, onde ficaram as delegações menores. As maiores, como
EUA e Canadá, ficaram no campus da U.S. University of California.
Então, eu já a conhecia e conversei com ela depois, ela já
estava bem. É sempre um momento para impressionar, mesmo para quem não conhece.
É um momento assim meio terrível, mas, graças a Deus, ela se recuperou
bem.
Folha - E como você se sentiu?
Eleonora - Foram duas semanas de emoções. Não
posso nem descrever o momento. O que eu estava sentindo ali era o fruto de
trabalhos de anos não só como atleta, mas como uma pessoa que lutou para que
esse evento pudesse ser realizado.
Não tem uma maneira de descrever. São sentimentos, sentimentos
são difíceis de descrever. Quanto mais profundo, mais difícil fica. Mas, não
resta dúvida que foi o clímax, os dias mais gloriosos...
O que vale é a competição, vale aquele evento, aquela corrida,
mas a maior satisfação é o treinamento que veio por trás, o esforço todo. É essa
parte que vai te levar à frente. Então, valeu o movimento. Quando eu atravessei
a linha de chegada, foi aquela alegria, entendeu? Estou em felicidade
total.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h29
Eleonora Mendonça - final
Corrida, eu recomendo
Folha - A participação olímpica teve algum impacto
posterior na sua carreira ou na sua atividade esportiva de modo
geral?
Eleonora - Teve. Logo após a Olímpiada, não só
eu como todas as outras mulheres abriram um caminho muito grande. Os eventos
aumentaram, os convites também, por causa das firmas, as empresas, estavam vendo
que abriu uma outra visibilidade., Até os telespectadores, as pessoas estavam
muito cientes de que esse evento é um evento bonito, um evento diferente, e as
mulheres estão agora correndo como os homens.
Folha - Depois disso, você continuou
competindo?
Eleonora - Continuei participando de outras
provas, não só de maratonas, mas corridas de meia distância. Sempre meia
distância e longa distância e nunca mais voltei para a pista.
Eu fiquei de olho para a Olimpíada de 88, em Seul.
No ano anterior, teve o Mundial em Roma. A CBAt já estava um
pouco mais organizada e o critério era o melhor tempo brasileiro em qualquer
maratona até 30 de junho.
Eu participei de uma maratona aqui nos Estados Unidos, fiz o
melhor tempo de uma brasileira naquele ano, mas no dia seguinte baixaram meu
tempo, nem me lembro quem foi (NR.: A representante brasileira na maratona do
Mundial de 1987 foi Angélica de Almeida, que não completou a prova).
Aí eu voltei, bom, como atleta: levanta, sacode a poeira, dá a
volta por cima. Tratei de treinar mais, treinar mais forte.
Em abril de 88, papai faleceu. Foi uma passagem muito difícil
para mim porque os dois, meu pai e minha mãe, deram uma força muito grande na
minha vida profissional, atlética, mas muito próxima. E daí eu deixei de almejar
a Olimpíada.
Continuei treinando, mas aos poucos fui deixando a parte de
competição atlética. Comecei a me dedicar à parte profissional, deixei a Printer
também e comecei a passar mais tempo aqui nos Estados Unidos. Fui técnica de
atletismo numa universidade, a Simmons, passei 20 anos como técnica. Também dei
aulas em Cambridge, então é isso.
Folha - E hoje?
Eleonora - Hoje corro todos os dias. Eu posso
contar, acho que nas duas mãos quantos dias eu deixei de correr desde 1972. Há
uns anos atrás eu diria uma mão só, mas agora... Foram poucos os dias, uns dois
ou três dias na época da morte do meu pai e mais alguns. Antigamente, a gente
corria no próprio aeroporto. A corrida faz parte e creio eu vai sempre fazer
parte do meu dia-a-dia (na foto, ela corre com o logotipo de sua empresa de
então, em uma prova em Copacaba, em 1983).
Folha - Você faz parte de um clube de corridas?
Eleonora - Exato. Esse clube foi o primeiro com
que eu entrei em contato quando eu cheguei a Boston, em 1974. É o CSU, Cambridge Sports Union. Eles me
acolheram de forma excepcional, me deram uma força incrível. Logo que eu comecei
a despontar como atleta, eles me enviaram para a Alemanha, na primeira maratona
feminina internacional.
Folha - Em Waldniel...
Eleonora - Exatamente, ela foi organizada pelo
Dr. Van Aaken. Ele era um corredor e sofreu um acidente. Quando estava
treinando, numa noite, foi atropelado por um carro e ficou paralítico. Com o
dinheiro do seguro, ele organizou essa corrida. Ele sempre foi um grande
apoiador do esporte e das mulheres. Foi o treinador da Christa Valensieck, que
venceu a primeira São Silvestre feminina, em 75.
Bem, hoje continuo sócia do clube. Em 2002, eles me colocaram no
Hall da Fama, foi uma homenagem muito bacana.
Folha - E profissionalmente?
Eleonora - Bom, agora, depois de 20 anos, me
aposentei lá de Cambridge, da universidade. A palavra aposentada significa
deixar um trabalho do qual você depende para fazer um trabalho que você gosta.
Então, eu estou trabalhando com investimentos imobiliários e no meu tempo livre
eu sou voluntária da Cruz Vermelha americana e de outras instituições aqui.
Folha - Para terminar: que mensagem você daria a
mulheres que estão pensando em começar a correr ou fazer algum tipo de atividade
física?
Eleonora - Eu acho que todo início de atividade
física é um pouco difícil, mas os valores, os resultados são tão grandes, que
nós, ainda agora, não temos idéia da extensão desses benefícios atléticos.
As mulheres de 20, 30 anos, que participam ativamente da vida
profissional, para elas a atividade física é importantíssima para manter uma
qualidade de vida saudável.
Não só para as mulheres, para os homens também. Mas os homens já
tiveram essa oportunidade e já têm essa oportunidade há muito mais tempo. Eu
acho que as mulheres deveriam tentar incorporar qualquer atividade física, não
precisa ser a corrida.
A corrida, logicamente, é muito mais livre, muito mais
independente, você não depende de ninguém e de nada. Você coloca o tênis, não
importa qual a roupa que você vista.
Coloca o tênis e é só abrir a porta, a qualquer hora do dia, em
qualquer lugar. Essa independência ajuda muito na escolha da corrida como
atividade física. Eu recomendo as pessoas tentarem.
Não é fácil, é preciso uma orientação profissional para
facilitar esse trânsito para uma atividade não mais confortável, mas mais bem
recebida porque os benefícios são enormes, são imensuráveis.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h24
Eleonora Mendonça
Memória

Esse anúncio, publicado nos anos 80 nos Estados Unidos, ajuda a dar uma dimensão do trabalho realizado pelo Comitê Internacional de Corredores (IRC, na sigla em inglês), que foi presidido por Eleonora Mendonça.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h17
Que multidão!!!

De novo, a notícia é velha, mas, como você lembra, eu estava em férias e só hoje vi a foto. E ela vale a pena.
A imagem da AP (Kazuhiro Nogi) mostra o formigueiro que foi a largada da maratona de Tóquio, no domingo retrasado, dia 18.
Apesar da chuva e do frio, cerca de 25 mil corredores participaram do evento.
Para quem não lembra, o medalhista olímpico brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima terminou a prova em sexto lugar, com 2h16min08.
O vencedor foi o queniano Daniel Njenga, que disparou no km 25 e correu sozinho para fechar em 2h09min45.
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h54
Pau no racismo
As páginas de Masters Athletics com os rankings dos veteranos, que comentei aqui, trazem mais ensinamentos que o já falado exemplo de vida.
Vez que outra, herdeiros de idéias racistas brandem os resultados de corredores quenianos, em particular, e negros, em geral, tentando engordar argumentos para suas teorias ultrapassadas.
Uma vista geral e rápida das listas dos veteranos e veteranas nas maratonas pode ajudar a embasar outra tese: o que manda é a economia.
Vemos que os rankings de maratonistas longevos são recheados por competidores e competidoras de países ricos (ou que pretendem sê-lo, como as nações eslavas). O sujeito não vive do esporte, mas pratica o esporte por diversão, por prazer. E tem como sustentar seu hobby.
Confesso que não chequei um por um, mas talvez muitos dos que estão hoje nas listas dos maiores de 50 anos não tenham freqüentado os rankings dos melhores do mundo quando na juventude.
Talvez porque os que lá disseram presente preferem pendurar as chuteiras quando chegam à idade madura. Viveram para o esporte e querem, na sua aposentadoria (muitas vezes precoce), com razão, que o esporte lhes dê a vida.
Além disso, quem corre 200 a 300 quilômetros por semana para competir duas vezes por ano quer descansar quando não consegue mais obter as riquezas e as glórias reservadas ao pódio.
Enquanto os veteranos ranqueados talvez tenham tido (e ainda levem) uma vida de trabalho, realizações e conquistas em outros setores, e agora podem mais tranqüilamente sustentar sua diversão.
Enfim, veja lá as estatísticas e mande sua opinião.
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h14
Os reis do deserto
Ok, foi na semana passada, mas, como eu estava fora, só fiquei
sabendo agora e conto tudinho para vocês.
Três ultramaratonistas doidos de pedra passaram a ser, na
terça-feira passada, os primeiros seres humanos a cruzarem a pé, correndo, as
4.000 milhas do deserto do Saara.
Os mais de 6.400 quilômetros foram percorridos em 111 dias, numa
aventura que foi acompanhada passo a passo por cinegrafistas. O projeto Running the
Sahara vai virar um filme que, muito provavelmente, todos nós adoraremos
ver.
O projeto inicial previa fazer a travessia em 100 dias, mas a
jornada se provou ainda mais dura do que parecia ser.
"Vai demorar bastante para cair a ficha", disse o
ultramaratonista norte-americano Charlie
Engle, 44. "Isso é algo para fazer uma vez na vida e aproveitar. Dizem que a
ignorância é uma benção. Agora que eu sei quão difícil é a travessia, eu jamais
pensaria em fazer isso novamente", completou.
Junto com ele, correram o canandense Ray Zahab, 38, e Kevin Lin, 30, de Taiwan (veja os três
nessa foto da AP, no dia número 109 de sua corrida).
Depois de cruzarem seis países (Senegal, Mauritânia, Mali,
Niger, Líbia e Egito), eles finalmente chegaram ao mar Vermelho, deitaram no
chão e tocaram a água, como havia feito no dia inicial da jornada, no
Senegal.
No meio tempo, enfrentaram temperaturas de fritar ovo nas dunas,
durante o dia, e de enregelar o sangue à noite. Tiveram tendinite, diarréia,
câimbras e problemas nos joelhos.
Cada dia começava às quatro da matina. Uma hora depois, já
alimentados e banhados, começavam a correr. Almoço, sesta e mais corrida. O
jantar acontecia por volta das 21h30 e depois, cama.
E cada um deles, secretamente, em algum momento se perguntou,
exatamente como fazemos todos, em algum instante privado, durante uma maratona:
"O que eu estou fazendo aqui?".
Ninguém sabe. Claro que a corrida também tinha um elemento
benemerente, para divulgar uma ONG. Mas
o fato é que eles queriam correr e estavam correndo. Que sejam
felizes.
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h15
Exemplo de vida
Está no ar, atualizado, o ranking dos maratonistas veteranos de todo o mundo (e também dos experientes competidores de todas as demais modalidades do atletismo).
As listas são publicadas pelo Masters Athletics, espécie de Fifa do atletismo entre os "velhinhos".
Muitos brasileiros aparecem nas faixas mais jovens, a começar pelo medalhista Vanderlei Cordeiro de Lima.
O que eu mais gostei foi ver os maravilhosos desempenhos do pessoal de mais de 60 anos.
No dia 21 de maio do ano passado, o senhor Bill Boudreau, norte-americano que compete na faixa etária de 85 a 89 anos, completou a maratona de Green Bay em 4h00min48.
O resultado é surpreendente, mas pense no esforço e na disposição do sujeito para treinar para chegar a esse resultado. Isso, sim, que é determinação.
Entre as mulheres, a piorzinha da lista, na faixa dos 70 aos 74 anos, foi a japonesa Yoshiko Takahasi, que completou a maratona de Nova York em 4h19min32.
Sai de baixo!
Escrito por Rodolfo Lucena às 09h37
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PERFIL
Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).
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