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Qual é o máximo?
Até agora o trabalho ainda não foi aceito em publicações científicas especializadas, mas o artigo final já rola na internet. Falo de um estudo de dois professores de econometria da Tilburg University, da Noruega, que se dedicaram a calcular até onde os recordes atuais podem chegar.
Os homens e as mulheres não se cansam de superar e jogar no ralo previsões e mais previsões de especialistas dos mais variados ramos, mas mesmo assim as especulações continuam. São, no mínimo, um exercício matemático interessante.
E um bom assunto para seu próximo papo de boteco com corredores.
Não vou entrar na matemática da coisa, que está bem explicada no artigo dos professores John Einmahl e Jan Magnus, que se chama "Records in Athletics Through Extreme-Value Theory" (em inglês, AQUI).
Basicamente, os caras pegaram resultados de competições olímpicas e melhores performances mundiais de homens e mulheres em 14 modalidades de atletismo (depois reduzidas para 13). E calcularam onde os recordes podem chegar, dentro das atuais regras de competição.
Pelo modelo desenhado, ainda dá para reduzir um pouco o tempo da maratona. Eles consideram que o máximo possível é 2h04min06, ou 49 segundos a menos que o recorde atual, de Paul Tergat. Quem sabe o Haile não dá uma testada nessa medida?
Para os 100 metros, eles acreditam que a evolução possa ser bem maior, uns 5% (na maratona, a diferença entre o recorde existente e o máximo previsto é de 0,1%).
Na tabela abaixo, pode ser visto um balanço geral das previsões dos caras. Para cada modalidade, estão informados o melhor resultado de hoje e máximo possível (endepoint).
Faça a sua aposta.

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h24
Pegasus Air
Palmilha incômoda
Ao longo de meus anos de corredor, raramente usei tênis da Nike. Talvez uma espécie de vingança, pois meus primeiros calçados de corrida foram da empresa e destruíram minha unha do dedão...
É porque a forma mais afilada não casa com os meus pés meus largos e altos.
Isso começou a mudar com o lançamento da linha Pegasus. É um bom modelo de tênis neutro, comparativamente leve e um pouco mais largo que o estilo que caracteriza a Nike.
Já testei pelo menos duas gerações, com algum sucesso e também decepções. Basicamente, servem, no meu caso, para treinos curtos, de até uma hora e meia. Mais do que isso, há risco de bolhas e de desconforto.
Apesar de saber disso, bateu o olho grande quando vi numa loja aqui nos EUA o Pegasus Air, que eu não conhecia. Para meu gosto, é muito mais bonito que o Pegasus comum, tem menos jeito de mangolão, um ar mais agressivo.
Experimentei e já saí da loja com ele. Superconfortável, larguinho e bem mais leve que os tênis com que estou acostumado, sem perda de amortecimento.
Bom, mas nada poderia ser tão perfeito assim.
Na manhã seguinte, quando fui amarrar os tênis para valer, para enfrentar um longuinho que durou quase três horas, já me incomodei com os cadarços. São cilíndricos, e não chatos, o que é comum, mas deixa a amarração menos segura. O pior é o tecido, que acho que tem muito nylon ou coisa que o valha, pois é bem escorregadio. Em suma, o nó duplo é obrigatório, e não uma simples recomendação de segurança.
Os primeiros quilômetros foram uma beleza, mas depois de uma meia hora comecei a sentir um repuxado bem no meio do pé. Percebi que podia se tornar um problema grave, bolhas no arco dos pés no meio de um longo...
Não ia parar mesmo, então fui correndo e ajeitando os pés. Quando sentia a dor, movia um pouco, tentava evitar de deixar o pé sempre no mesmo ponto dentro do tênis.
Resumo da ópera: depois da corrida percebi que a palmilha do Pegasus tem um arco que avança um pouco na lateral. É isso que provoca o incômodo (não chegou a dar bolhas).
Pensei que seria apenas uma questão de adaptação e rodei mais um dia com ele, mas sem sucesso. Acho que até poderia agüentar, mas nunca teria confiança de usar o tênis em uma prova.
Em suma, o produto pode ser uma beleza, mas não deu certo para mim. Talvez corredores com arco do pé um pouco mais alto se dêem melhor.
O mais legal é que a loja aceitou receber o tênis de volta, mesmo com 32 quilômetros nos costados (ou no solado, no caso). Talvez porque seja uma loja de corredores para corredores (os caras organizam treinos gratuitos na comunidade e fazem promoções para equipes; eu ganhei desconto por ser do Marathon Maniacs), mas as lojas brasileiras especializadas também poderiam aprender com isso. Tênis de corrida se testa correndo, e a loja deveria ser parceira do cliente nessa experiência.
Escrito por Rodolfo Lucena às 21h57

Chuva de granizo
Ela começou quando eu estava a exatos 12 quilômetros de meu ponto de partida, correndo já havia mais de uma hora e um pouquinho, entrouxado em gorro e luvas de lã, calça e camiseta de manga comprida.
Mas o que podia eu esperar: já estava mais de um quilômetro dentro dos limites de Seattle, o "Portal do Pacífico", e em todos aqueles minutos não havia chovido. Como se sabe, não chove em Seattle em alguns momentos do dia, nunca aqueles em que você está protegido.
Também não era algo de assustar. Uma chuvinha assim, fraquinha, garoazinha. Mas com pedras.
Está bem: pedras, não; pedrinhas. Na verdade, não senti no rosto ou nas mão, mal via os bloquinhos de granizo no ar; só percebia mesmo quando batiam e rolavam no chão. De qualquer forma, acrescentavam mais alguma dificuldade ao meu trajeto, agora com chão beeem escorregadio.
Eu saíra do hotel com o objetivo de encontrar o caminho para Seattle, um caminho corrível, já que Bellevue e a cidade grande estão separadas pelo lago Washington e ainda há uma ilha no meio do caminho. E as pontes que as ligam são auto-estradas.
Mas havia a trilha, me garantiam, e eu fui ver onde começava. Corria com um tênis recém-comprado, levíssimo, e parecia até veloz, considerando minhas parcas habilidades como corredor.
Embestei por essa avenida até chegar a um parque que parecia abandonado, mas era na verdade uma fazenda alugada pela cidade (imagino) e abrigava o início de várias trilhas (na verdade, caminhos asfaltados para bicicletas e pedestres.
Disse para mim mesmo que iria só até aquele ponto em frente para ver como seguia a trilha. E nessa conversa de me engana que eu gosto, acabei chegando a uma ponte. Eu adoro cruzar pontes, então não ia largar dessa.
Cheguei a Mercer Island, a tal ilha entre Bellevue e Seattle. Bom, teria de pelo menos atravessá-la, e agora já estava muito longe para pensar em voltar. Minhas visitas aos sites de mapas indicavam um percurso de pouco mais de 10 km, então tá (saiba que esses mapas também podem ser enganosos).
No final da ilha, uma agradável surpresa. Assim como temos campinhos de futebol, aqui eles têm de beisebol. Um gramado lindo, que dava vontade de sair pastando. Mas o melhor de tudo é que tinha um bebedouro e um banheiro. Com 55 minutos de corrida, pude me hidratar, tomar um gel e me aprontar para o resto do percurso.
A próxima ponte é enorme e tem uma parte que pode ser erguida. Ali era a solidão total. Água geladérrima lá embaixo, vento assobiando nos ouvidos (protegidos, ainda bem), e carros zunindo na parte deles, mal me vendo, assim como eu mais os escutava, sentia, que via, pois estava focado no outro lado, na visão de Seattle, enfim.
Toda a passagem, até então tinha sido por locais ricos, belos. Marinas perto das pontes, aquela coisa toda. Agora, não era diferente. Eu só não via, porém, a tal de Space Needle, a torre que marca Seattle em filmes e que era meu destino desejado.
A ponte termina num caminho que desemboca em um túnel, mas dá para seguir pelo lado, subir uma superlomba tão super que termina em uma escadaria para chegar ao topo verdadeiramente final. Adivinhe qual escolhi.
Estava num bairro, o centro ficava longe. Era bom ver as caras de admiração das pessoas que eu abordava perguntando sobre como chegar à Space Needle. "É muito longe", "Você quer ir a pé?", "Falta muito..."
O certo é que eu não via a dita cuja, e a chuva me incomodava. Pelo menos, via o Pacífico, e sabia que estava na avenida 30; tinha de chegar à 1. No problema. Apenas subidas e descidas, uma escorregada.
No centro, enfim, vi o tal Pike Market, mercado público bem bacana, também figurante em vários filmes. Mas só no km 19,5 vi de longe a Space Needle.
Daí não precisa mais pedir dicas para ninguém. Era só correr no frio, agora sem chuva, e chegar.
No destino, dei uma volta em torno da torre, para que ela me reconhecesse e para fechar 21,1 km em pouco mais de 2h30, e fui procurar um bar para secar um pouco, tomar um chocolate quente e pensar em como voltar ao hotel.

A foto do alto é do Google Maps e mostra como ir do meu hotel à Space Needle de carro. O caminho que fiz é o oposto, beem mais comprido, pelas pontes da parte de baixo da imagem. Detalhe da travessia de Bellevue para a ilha Mercer você vê na foto acima, do Microsoft Virtual Earth.
Escrito por Rodolfo Lucena às 21h38
Privatizacao do publico
Estou em Bellevue, microcidade ao lado de Seattle e Redmond, cobrindo um evento para o caderno informatica da Folha (saiba mais no meu outro blog, o Circuito Integrado).
Bom, mas, como em qualquer lugar do mundo, dah para correr antes de comecar o expediente, o trabalho.
Sai do hotel aas 6h30, com ceu ainda azul-escuro e temperatura de ZERO grau. Mas nao estava frio, se voce conseguia correr por lugares menos ventosos (como se isso fosse facil).
Fui de calca de corrida , uma camiseta com tecido tecnologico sensacional bem apertada e uma camisetona do Gremio de manga longa, tambem tecido tecnologico. Ainda luvas e gorro.
No treino, em si, nao sofri muito, mas, quando cheguei ao hotel e tirei a roupa, notei que o peito estava todo vermelho, como se tivesse queimado. Deve ser efeito do frio, nao sei.
Mas conto sobre o treino. Foram 12 km por ruas movimentadas, mas com poucos carros. Ou muitos, so que passavam rapidamente e nao dava para perceber a quantidade.
Com menos de um quilometro longe do hotel, jah estava em meio a ruas arborizadas, uma beleza de ambiente. Depois de corer pelas alamedas, resolvi enveredar para meu objetivo: correr em volta de um lago que tinha visto da janela do hotel.
DECEPCAO. O lago eh lindo, sensacional, mas NAO ha um lakefront walk way ou coisa que o valha, ou seja, nao ha uma trilha ou caminho ou ruela ou avenidade beira-mar (no caso, beira-lago). As ruas estao aquem e acima. Entre o povo e olago, ha casas, clubes, condominios, marinas. Vc ate consegue chegar QUASE ate a beira, mas nao da para rodar em volta.
Eh tudo lindo, mas tudo particular. Rodei pelo bulevard Lake Washington, que eh uma linda estrada, mas sem acostamento, soh uma faixinha pintada num cantinho do asfalto. Mas nao tive problemas de seguranca
Desculpem a falta de acentos e eventuais erros de digitacao. mais tarde poderia blogar em melhores condicos. Com corte, coloc link para o mapa de meu treino de hoje.
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h18
Que romântico!
Fazendo meu treininho básico hoje pela manhã, na Sumaré (zona oeste de São Paulo), notei uma novidade na demografia dos corredores da avenida.
Nos dias de semana, o mais comum é que homens e mulheres, jovens e veteranos corram sozinhos, isolados, cuidando do próprio nariz.
Aliás, essa costuma ser a regra nos fins de semana também, seja na Sumaré seja no Ibirapuera ou mesmo na USP (que não serve de parâmetro, pois é ponto de encontro de equipes).
A novidade que notei hoje foi um grande número de casais correndo juntos, homem na batida da mulher, mulher na passada do marido, namorado ou coisa que o valha.
Ao longo dos quilometrozinhos de ida e volta, foram uns dez casais, acho eu (não estava contando, depois é que percebi a raridade estatística do fato).
Muito legal, tomara que cada vez mais casais incorporem a corrida a suas atividades em comum.
Não é bom apenas para a saúde, para a diversão ou para colocar em dia a conversa atrasada: acertar o passo com o outro, no treino, é um exercício de compreensão, desprendimento e, principalmente, carinho. Amor, pois, pois.
Divirtam-se todos.
Escrito por Rodolfo Lucena às 16h48
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PERFIL
Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).
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