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Valmir campeonakos
Deu dobradinha brasileira no Segundo Festival Helênico de Ultramaratonas, que terminou hoje na Grécia. Na prova de 24 horas, Valmir Nunes deu um verdadeiro banho de bola, e Adeluci Moraes, de Londrina, também não deixou por menos no feminino.
O evento incluiu também uma prova de sete dias, vencida pelo alemão Wolfgang Schwerk, um cantor de óperas que, ao longo da disputa, aproveitou para bater o recorde mundial das 48 horas (como você viu neste blog).
Ao completar a oitava hora, Valmir Nunes estava a um quilômetro do então líder, o suíço Eusebio Bochons. Foi quando o brasileiro iniciou sua arrancada, assumindo a liderança antes do final da décima hora e não abandonando mais o posto.
A superioridade de Nunes era tamanha que, mesmo se tivesse parado na vigésima-segunda hora, teria completado mais quilometragem que os dois gregos que acabaram em segundo e terceiro lugares (o suíço desapareceu na poeira).
Mas Nunes seguiu e fechou a prova com 222 mil metros, com uma vantagem de mais de 12 quilômetros sobre o segundo colocado.
Já Adeluci Moraes começou arrasando e nunca chegou a ter sua liderança ameaçada. Apesar do cansaço que se abateu na segunda parte da prova (evidente pela redução do ritmo), ela segurou sempre uma diferença confortável em relação à segunda colocada. Acabou completando 174.394 metros, com uma vantagem de quase dez voltas sobre a finlandesa Maria Tachavuori.
Na prova de sete dias, o alemão correu nada menos que 1.011 quilômetros (quase a distância que separa São Paulo de Porto Alegre). A mulher mais rápida foi uma conterrânea do campeão, Cornelia Bullig, que rodou 811 quilômetros e terminou em quinto no geral.
PS.: Antes que alguém venha me corrigir: que eu saiba, a palavra campeonakos não existe; é apenas uma brincadeira.
Escrito por Rodolfo Lucena às 20h22
Cada coisa é uma coisa
Fui atrás de informações sobre os recordes em corridas de 48 horas e, de fato, há registros diferentes para provas em pista e provas de estrada/ruas.
Na primeira modalidade, Yiannis Kouros tem mais de 473 quilômetros, mas a distância percorrida por ele na estrada é bem menor e foi efetivamente batida agora na Grécia.
Os dados que consultei foram os fornecidos pela American Ultrarunning Association.
Se você leu esta nota e não entendeu nata, role a página mais um pouco. Estou falando de marcas estabelecidas em um festival de ultramaratonas que está em andamento na Grécia.
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h27
Voltas e mais voltas
O brasileiro Valmir Nunes está, neste momento, em segundo lugar em uma ultramaratona de 24 horas que está se desenrolando na Grécia.
Ao cabo das primeiras oito horas de prova, ele havia percorrido 96 quilômetros, um a menos que o primeiro colocado, o suíço Eusebio Bochons.
Valmir já foi campeão mundial dos 100 km e atualmente é o recordista das Américas em prova de 24 horas.
Você pode acompanhar o andamento da prova AQUI.
Além disso, o evento inclui também uma ultramaratona de sete dias, que está sendo liderada pelo corredor alemão Wolfgang Schwerk. Até o último registro (sexto dia), o corredor alemão havia percorrido um total de 936 quilômetros.
No site da prova, afirma-se que o alemão quebrou, ao longo da prova, o recorde mundial de 48 horas em corrida de rua, com 420 quilômetros. A marca anterior, segundo o site, seria de 413,5 quilômetros, estabelecida pelo superhipermegaultramaratonista Yiannis Kouros.
Ocorre que, na Wikipedia, a marca de Kouros para 48 horas é mais de 470 quilômetros. A discrepância pode se dever ao fato que uma é em estrada e outra em pista, mas vou procurar mais informações a respeito.
Escrito por Rodolfo Lucena às 18h54
Bob Dolphin
Enfim, a quadricentésima
Cinco horas, 39 minutos e 27 segundos. Esse foi o tempo que Robert Dolphin levou para completar a Yakima River Canyon Marathon no sábado passado, em Washington. Dolphin tem 78 anos e essa foi sua maratona de número 400, num evento que ele mesmo organiza com sua mulher e que acabou de completar sua sétima edição.
O veterano corredor começou a enfrentar as provas de 42.195 metros aos 51 anos. Desde então, chegou a trafegar pelas ultramaratonas, mas agora está totalmente dedicado às provas "curtas": no ano passado, correu 24 maratonas.
Já sofreu vários contratempos. Um dos mais doloridos talvez tenha sido o recente problema de saúde da mulher, Lenore, que o acompanha pelo mundo nas corridas e que é responsável pela distribuição dos relatos que Dolphin faz acerca da provas que participa.
Os dois superaram as dificuldades (Lenore ainda se recupera de uma angioplastia...) e chegaram juntos à linha de largada em Yakima, Washington, no frio noroeste dos Estados Unidos. Dolphin foi correr, Lenore tinha como missão incentivar a ele a a todos os outros lá presentes.
Depois da prova, troquei e-mails com com Bob. A "conversa" completou uma entrevista que fiz com ele em outubro do ano passado. Leia a seguir os principais trechos.
Folha - Qual é a importância de completar sua maratona de número 400?
ROBERT DOLPHIN - Os maratonistas contam cada uma de suas maratonas porque é muito difícil completar essa prova, que é tão exigente e especial. Marcos como a maratona 400 são objetivos que merecem uma celebração, e daí partimos para a próxima meta (a 500ª, no meu caso). A mensagem é que você pode se colocar objetivos difíceis de alcançar e, mesmo assim, alcançá-los. Eu queria ser o primeiro corredor do Noroeste do Pacífico (dos EUA) a completar a maratona 400; agora, quero ser o primeiro do Oeste dos EUA a correr 500 maratonas.
A minha maratona 400 foi muito boa. As coisas funcionaram bem, e minha corrida foi melhor do que eu esperava. Eu estava sob muita pressão, mas CONSEGUI! Essa foi a primeira vez, em três anos, que terminei a maratona de Yakima em menos de seis horas. O tempo estava ideal, e tive apenas leves caimbras nos últimos cinco quilômetros.
Na chegada, fui tratado como um rei, com beijos e abraços da Lenore, champanhe, fotos, parabéns. Havia mais de 200 balões coloridos com o desenho de um golfinho (dolphin) e a inscrição "Bob’s 400th" (a 400ª de Bob), e muitos amigos correram comigo a parte final da prova. Meu filho Jeff e sua família vieram para a festa, assim como a milha filha Ellen e seu marido. Uma sobrinha-neta correu a maratona, e outros parentes também ajudaram na organização e nos trabalhos de apoio aos corredores.
Folha - Quem era você antes de começar a correr?
ROBERT DOLPHIN - Tenho doutorado em entomologia. Trabalhei como entomologista por 26 anos. Trabalhei na área de controle de mosquitos do Estado da Califórnia, e depois no Departamento de Agricultura dos EUA, onde fiquei por 23 anos. Minhas pesquisas incluíram trabalhos na área de controle biológico de pragas, o uso de inimigos naturais, insetos contra insetos.
Folha - Paralelamente à sua vida profissional, o senhor já tinha, naquela época, uma vida esportiva?
Dolphin - Eu pratiquei atletismo quando estava no segundo grau: salto em distância, algumas provas curtas de corrida e até uma prova de três milhas. Quando eu estive no Marine Corps, participei por um pequeno período de tempo da equipe de corridas da unidade em que estava. Depois, voltei à universidade e também ao trabalho na área civil. Todo esse tempo eu tive uma vida ativa, mas não pratiquei nada de esportes porque estava simplesmente muito ocupado: tinha uma família para cuidar, o trabalho, os estudos... E as corridas só se tornaram tornaram populares nos Estados Unidos em meados da década de 70. Eu comecei a correr em 1979, quando tinha 49 anos. No ano seguinte eu corri uma prova de dez quilômetros (Human Race, em maio, em Columbia, MO). Daí eu entrei num clube de corridas e passei a participar de provas curtas. Em 1981, corri minha primeira maratona, e não parei mais.
Folha - O que fez com que o senhor passasse das provas curtas para a maratona?
DOLPHIN - Nesse clube de corrida, vários dos colegas corriam maratonas, e eu fiquei tentado a fazer uma também. Então fiquei treinando. Nesses dois anos em que corria, de 79 a 81, eu fui aumentando as distâncias. Corri a minha primeira maratona na cidade onde eu estava morando na época, em Columbia, Missouri, e foi a Heart of America Marathon, 1º de setembro de 1981, Dia do Trabalho nos EUA. Fiz esse difícil percurso em 3h50. Algumas semanas, depois corri uma outra em Kansas City, num tempo parecido. Mais algumas semanas e corri em Saint Louis, em 4h15. E fui indo. No ano seguinte, corri oito maratonas. Nos primeiros dez anos em que corri maratonas, fiz em média dez provas por ano. Não há muito problema, desde que faça em fim de semanas seguidos, desde que você deixe algum intervalo entre as provas.
Folha -E por que tantas? A maioria dos treinadores de corrida e médicos do esporte recomendam no máximo duas provas por ano...
DOLPHIN - Eu não gosto muito de fazer treinos longos. Tentei algumas vezes, e descobri que prefiro correr logo uma maratona do que fazer um treino de 20 milhas (a maratona tem 26,2 milhas). Eu gosto do clima das maratonas, do esporte, das viagens, dos amigos que você faz, gosto do desafio que envolve. Então, assim como quem gosta de sair para jogar golfe ou jogar tênis num fim de semana, eu saio para correr uma maratona.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h51
Bob Dolphin - parte 2
"Eu corro maratonas"
Segunda parte da entrevista com Bob Dolphin,
entomologista aposentado de 78 anos que acaba de completar sua maratona de
número 400.
Folha - Isso não lhe parece uma espécie de
vício?
DOLPHIN - Acho que sim, até um certo ponto. Mas
não mais do que o caso de alguém que gosta de jogar golfe todos os finais de
semana. É um vício saudável. Eu gosto do desafio, gosto da competição. Eu gosto
muito da competição nas faixas etárias. Eu sempre me saí muito bem na minha
faixa etária. Pertenço a um grupo chamado Marathon Maniacs (Maníacos por
Maratonas), e todos lá correm muitas maratonas porque eles gostam. É uma maneira
de ficar em forma, de fazer muitos amigos e de conhecer o país. Não é incomum,
hoje em dia, ter pessoas correndo muitas maratonas. Minha mulher e eu somos
diretores do Clube das 100
Maratonas. Nós temos 175 membros, e há gente se associando a toda a hora.
Nós não estamos tentando ganhar as corridas, mas tentamos nos sair bem, competir
na faixa etária. Você pode correr um grande número de maratonas. Você não perde
seu treinos. Você pode usar cada maratona como um treino longo para a próxima
maratona.
Folha - O senhor tem um médico que o acompanha ou um
técnico? Imagino que eles digam que fazer tantas maratonas não é bom para a
saúde...
DOLPHIN - Bem, eu estou com 77 anos (na época
da entrevista; hoje ele está com 78 anos) e me considero em bom estado de saúde.
Não tenho problemas de articulações, passo muito bem nos meus exames anuais,
estou em muito boa forma. Alguns médicos admiram o que eu faço... Isso está se
tornando uma tendência, em que mais pessoas correm maratonas mais
freqüentemente. Eu costumava fazer também ultramaratonas, mas parei quando fui
ficando mais velho. Agora me especializei em maratonas.
Folha - Qual é o impacto da corrida em seu cotidiano? O
senhor treina muitas horas?
DOLPHIN - Às vezes, na primavera e no outono,
eu corro maratonas em seis fins de semana seguidos. E se eu for fazer uma
maratona a cada final de semana, não faço nenhum outro exercício especial. Corto
a grama, faço algumas pequenas caminhadas, mantenho-me ativo, mas não treino
corridas. Em outros períodos, em que as maratonas estão mais espaçadas no tempo,
daí, sim, eu faço alguns treinos curtos de corrida, de cinco a dez milhas. Mas a
maior parte das minhas corridas é mesmo em competições. Participo de provas
curtas, especialmente no inverno, e faço parte de times que participam de duas
corridas de revezamento, o Hood to Coast (www.hoodtocoast.com/dev/) e Mt.
Rainier to the Pacific Relay. Faço muitas corridas curtas também, que funcionam
como treinos de velocidade _elas me dão velocidade, acho. Enfim, eu me considero
um afortunado por ser capaz de , na minha idade, fazer uma maratona a cada final
de semana ou a cada quinze dias.
Folha - E o que o senhor me diz sobre suas atividades
que não envolvem a corrida?
DOLPHIN - Meu objetivo na vida é correr o
máximo que eu puder. À medida em que vou ficando mais velho, tenho de caminhar
mais durante as corridas. Caminho nas subidas, nos postos de hidratação, nas
últimas milhas, quando a prova fica difícil. Mas eu ainda corro cerca de 80% da
distância total e caminho apenas para completar, quando sinto que é necessário.
Já caminhei maratonas inteiras, do começo ao fim, e já fiz caminhadas de 24
horas algumas vezes. Então eu sei que, quando eu não puder corrê-las mais, ainda
poderei caminhar as maratonas. Um amigo meu, de 85 anos, já correu 700 maratonas
_começou mais cedo do que eu. Ele já não consegue correr a maratona, mas
consegue caminhar. Então ele começa a prova antes, quando isso é permitido, e
ele caminha a maratona inteira. Ele faz muito mais maratonas do que eu faço por
ano. Só conheço umas poucas pessoas no país que fazem isso, e ele é uma
delas.
Folha - Então eu volto à pergunta: por que fazer isso? O
senhor disse que gosta da competição. Mas o que correr faz ou traz de bom para a
pessoa?
DOLPHIN - Nas faixas etárias, seu competidores
vão envelhecendo assim como você, então você tem chances de se manter
competitivo. Às vezes, um ou outro cai fora, e a competição fica mais fácil à
medida que você fica mais velho. Alguns sujeitos que, há 20
anos, costumavam correr comigo e me vencer não estão mais correndo.
Foram para outros esportes ou sofreram cirurgias, então a competição já não está
mais tão dura como foi. É simplesmente um estilo de vida, é uma identidade. É
quem eu sou. Se me perguntam o que eu sou, o que eu faço, eu respondo: "Eu corro
maratonas".
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h45
Bob Dolphin - parte 3
Dançando para o amor
Terceira parte da entrevista com Bob Dolphin,
entomologista aposentado de 78 anos que acaba de completar sua maratona de
número 400.
Folha - Como é o trabalho com sua
mulher?
DOLPHIN - Lenore e eu, nós formamos uma dupla.
Nós somos co-diretores da Yakima River Canyon Marathon. Minha mulher toma conta
das coisas e eu corro. As pessoas gostam de nossa prova e voltam ano após
ano...
Folha - E ela o acompanha em provas pelo
país.
DOLPHIN - Ela é muito ativa. É uma excelente
diretora de prova, muito conhecedora. Ela tem uma deficiência física e não pode
caminhar muito bem, quanto mais fazer outras coisas, por causa de dores nas
costas e tudo isso... Mas ela é uma entusiasta e atua como voluntária em
diversas provas. E ele e eu vamos a encontros e seminários de diretores de
provas, e ela é bem conhecida na comunidade de corredores, tem boa fama como
diretora de prova. E ela me dá muito apoio. Toma conta de todos os detalhes das
viagens. Quando eu escrevo um artigo, ela digita e edita o texto. Nós somos um
time.
Folha - Você estão casados há quantos
anos?
DOLPHIN - Vamos completar 12 anos no mês que
vem (novembro 2006). É por isso que nós temos duas casas. Ela morava perto de
Seattle, em Renton, e eu tinha essa casa em Yakima, onde eu estava alocado pelo
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Nós mantivemos nossas
casas.
Folha - O senhor tem filhos, netos?
DOLPHIN - Tenho uma filha casada, em Yakima, e
ela tem uma filha casada em Renton, e ela tem outros filhos que moram na
Califórnia e no Estado de Washington. Eu tenho outra filha casada que mora em
Illinois. Nós juntamos nossas famílias. Nós já somos bisavôs e provavelmente
somos os mais velhos diretores de prova nos Estados Unidos.
Folha - Como vocês se conheceram?
DOLPHIN - Eu voltava de uma competição de
atletismo, e a gente se encontrou em Ellensburg, que é cerca de 35 milhas ao
norte de Yakima. Eu estava solteiro, era viúvo, minha primeira mulher já tinha
morrido, e eu fui a um clube, Eagle Club, e ela estava lá com algumas amigas,
colegas de escola. Eu dancei com várias daquelas senhoras, e ela e eu nos demos
muito bem, trocamos números de telefone, passamos a nos encontrar e casamos um
ano e pouco depois.
Folha - O que seus familiares pensam de sua
corrida?
DOLPHIN - Minha mãe ainda está viva, mora numa
casa de repouso para idosos _ela está com 95 anos. Até alguns anos atrás, ela
costumava dizer que eu iria prejudicar minha saúde, mas acho que acabou
aceitando. E meus filhos, netos e bisnetos, todos eles me dão muito apoio, eles
acham que é muito bom. E meus filhos adotivos também dão muito apoio. Acho até
que eles têm um pouco de orgulho de minhas realizações. E ninguém tenta me
convencer a parar de correr.
Folha - O senhor acha que teriam sucesso se
tentassem?
DOLPHIN - Acho que não. É uma coisa que eu
gosto de fazer, e espero continuar fazendo enquanto durar minha saúde. Pretendo
continuar competindo enquanto não tiver dores, enquanto não sofrer. Eu já tive
muitas lesões, mas tudo já passou, nunca tive nada crônico. E também nunca tive
de sofrer uma operação.
Folha - Bem, hoje o senhor está aposentado, como é que o
senhor vive?
DOLPHIN - Já estou aposentado há quase 20 anos,
eu me aposentei com 58 anos. Tive uma boa aposentadoria, uma boa pensão. Minha
esposa trabalha para o filho dela, cuida de sua contabilidade, e também ganha
algum. E nós fazemos muitas maratonas em locais próximos, que não exigem grandes
viagens nem grandes gastos. Nós não vamos muito freqüentemente a outros Estados,
e a única viagem que fizemos à Europa foi para fazer a maratona de Londres _foi
minha maratona de número 200. Nós tentamos economizar. Nas viagens, ficamos com
amigos ou parentes sempre que possível, e até agora estamos nos dando muito
bem.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h40
Bob Dolphin - parte 4
"Tento não exagerar"
Última parte da entrevista com Bob Dolphin, entomologista aposentado de 78 anos que acaba de completar sua maratona de número 400.
Folha - Qual a maratona que o senhor mais gostou e qual foi a pior?
DOLPHIN - Minha favorita é a Yakima River Canyon Marathon (foto), que nós organizamos. É um lindo cenário, bem organizada, nós gostamos. A segunda é a Royal Victoria Marathon, em Vancouver. É uma prova muito bonita, muito bem organizada. Foi lá que fiz minha maratona de número 300, alguns anos atrás, e eles me deram inscrição gratuita vitalícia, e eles sempre me tratam muito bem, saúdam minhas realizações.
Também tive meus momentos difíceis, especialmente no calor. Corri a Crater Lake Marathon no ano passado, a altitude chega a quase 2.000 metros e estava muito quente, quase nos 30 graus, levei 7h30 e quase não consegui completar. Eu fiz a Pikes Peak Marathon uma vez. Lá você sobe a mais de 4.500 metros, dá a volta e desce tudo de novo. Levei cerca de oito horas e meia e tive o mal de altitude.
Tive minhas dificuldades, mas eu tive sorte: fui obrigado a parar em apenas uma maratona e em uma ultramaratona. A maratona foi há um ano e meio, tive uma lesão que não me permitiu ir além da milha 15. Anos atrás, tive de abandonar uma prova de cem quilômetros na milha 12 porque eu estava com uma lesão à qual não dei bola. Eu não deveria ter nem sequer entrado na prova, mas fui assim mesmo e me dei mal.
Folha - O senhor tem algum tipo especial de dieta?
DOLPHIN - Não, nada em especial. Eu não como muita carne. Gosto de peixe, saladas, frutas, vegetais, massa. Minha alimentação tende a ser mais carboidratos. Não bebo muito, apenas um pouquinho de cerveja, um pouco de vinho, mas é só. Acho que minha dieta é muito saudável...
Folha - E as sobremesas?
DOLPHIN - Adoro sorvetes. São minha fonte de cálcio (risos)... Tento não exagerar.
Folha - O senhor falou que usa as provas curtas como treinos de velocidade. E como são seus treinos de força? Faz musculação?
DOLPHIN - Eu gosto de fazer caminhadas e hiking, é o meu segundo esporte. Já fiz um pouco de musculação, mas não fui muito religioso. Tenho de voltar a fazer, pois sinto falta, vejo que estou perdendo massa muscular. Mas eu gosto mesmo é de longas caminhadas, de cortar grama, essas coisas. Eu cheguei a fazer triatlos, cheguei a fazer uns 15, mas eu não era muito bom, acabei desistindo. Acho que, fora das corridas, as caminhadas são meu outro esporte. Eu descanso bastante entre as maratonas, tento dormir e relaxar. Eu gosto de treinar, mas tento não exagerar. Então, talvez na maioria das vezes eu esteja subtreinado do que treinado em excesso. Eu já tive lesões no passado, então eu tento não exagerar para não me machucar novamente.
Folha - Que conselhos o senhor daria para quem está começando a correr?
DOLPHIN - Quem gosta de correr deveria ser encorajado a continuar. Correr pode ser cansativo, você pode se machucar, e você deve fazer o melhor possível para evitar lesões ou aprender a conviver com os problemas. Eu nunca corri uma maratona que fosse fácil, especialmente nas últimas seis milhas (cerca de dez quilômetros). É realmente muito desconfortável, mas é o desafio que você tem de enfrentar. É uma questão de resistência, de persistência.
Folha - O senhor tem uma lista de coisas que se devem e que não se devem fazer?
DOLPHIN - Eu tento não começar a prova muito rapidamente, procuro guardar alguma energia para as últimas milhas e tento não me cansar exageradamente por correr subidas fortes -vou mais devagar ou caminho para economizar energia. Tomo líquidos constantemente e também uso carboidrato em gel, provavelmente na maratona eu como e bebo mais do que a maioria das pessoas costuma. Também consumo essas cápsulas com três tipos de sal, pois tenho tendência a ler câimbras nas pernas. Enfim, procuro encontrar formas para completar a maratona confortavelmente.
Troco de tênis periodicamente para não ter lesões por causa de tênis muito gastos, e tento usar roupas apropriadas para o clima, e sempre tenho roupas extras, em caos de o tempo mudar durante a prova e eu tenha de me proteger contra o vento ou a chuva. Tento ter tudo o que preciso comigo, numa pochete, com minhas cápsulas, meus sachês de gel e outras coisas.
Com a experiência, você acaba aprendendo o que funciona para você. Eu tenho de usar protetor solar para não ter câncer de pele, eu já tive melanomas removidos. Eu tenho tendência a desenvolver câncer de pele, então preciso me cuidar.
Folha - Depois de tantas maratonas, o senhor ainda fica nervoso antes da prova?
DOLPHIN - A gente sempre tem alguma preocupação, especialmente com o clima: se vai ser muito quente, se vai chover... A gente sempre quer fazer o melhor. Cada vez que vou fazer uma maratona, fico um pouco apreensivo um ou dois dias antes, desejando me sair bem, esperando não ter muito problemas. Há sempre algum grau de excitação, de entusiasmo e de preocupação. Você nunca pode ter certeza de que vai completar a maratona até que você veja a linha de chegada. Nada é garantido. Às vezes, surgem lesões ou outros problemas que te impedem de continuar. Nada é garantido. Simplesmente tente fazer o melhor.
Escrito por Rodolfo Lucena às 07h37
O fator 7
Essa questão dos preços dos tênis no Brasil remete para uma discussão que venho tendo, no jornalismo de informática, desde que comecei a atuar no segmento, já lá se vão muitos anos: como as empresas justificam os preços que praticam no país?
Por dedução, vários jornalistas chegaram a um resultado que, na falta de outo nome, chamamos de "fator 7".
Ou seja: para estabelecer o preço final de qualquer bem de informática no Brasil, as empresas simplesmente multiplicam por sete o seu valor de face no mercado de origem, mormentemente o norte-americano.
Parece que outros segmentos se apropriaram do modelo. É por isso, por exemplo, que um tênis de US$ 70 é vendido por R$ 499 no Brasil, com uma esticadinha no fator 7.
Sabe-se lá qual a razão para isso, e obviamente que você poderá encontrar não poucas exceções, dado que essa não é uma "lei", mas simplesmente uma dedução baseada na observação de uma certa quantidade de preços.
Quando, em reportagens, alguma empresa é instada a justificar o preço que pratica, tão distante do original, em geral o executivo argumenta com os impostos brasileiros.
Trata-se, evidentemente, de uma falácia, como bem calculou o caro leitor Nishi, em comentário publicado neste blog, que trago de novo à baila:
"Considerando o câmbio a mais ou menos R$ 2,05, um tênis de US$ 70 custaria uns R$ 150,00. Existe o imposto de importação, que encareceria esse valor em 60%, o que daria mais R$ 90,00, totalizando R$ 240,00. Lógico que tem também o frete, mas duvido que isso custaria mais do que R$ 100. Chutando, no limite uns R$ 340,00, o valor já compensaria a importação. Talvez o meu cálculo tenha esquecido de algum outro fator, mas, mesmo assim, ainda estamos longe dos R$ 500,00 cobrados pelas boas lojas do ramo."
Para deixar ainda mais clara a falácia, lembre-se de que o valor original com que estamos trabalhando é o preço ao consumidor final. Portanto, já embute os custos e lucros dos envolvidos no processo produtivo.
Ocorre, porém, que há muito tempo que o custo de produção e outros custos agregados deixaram de ser o critério para a formação do preço de um produto. O preço, como nós, consumidores, estamos carecas de sofrer, é o valor mais alto que o mercado aceita pagar. Em suma, de certa forma, somos nós, os pagantes, os responsáveis pelos preços que pagamos.
Isso é ainda mais verdade no mercado de elite, como o que estamos tratando aqui. Faz parte do fetiche de "ser elite" a característica "ser caro". E por aí vai.
Para completar, lembro a sabedoria de Shakeaspeare, que ensinou: "Há mais coisas entre o céu e a terra que nossa vã filosofia pode alcançar".
Escrito por Rodolfo Lucena às 18h41
Variedade limitada
Uma das melhores marcas de tênis de corrida chega ao mercado brasilerio com mais força. Trata-se da Brooks, cujos produtos vêm sendo encontrados no país de forma muito irregular. Há uns cinco anos, o modelo Vapor, para corredores com pisada neutra, estava disponível até em algumas lojas de shopping em Porto Alegre e Florianópolis. Hoje em dia, a oferta continua incerta e aleatória.
A loja Velocita, de São Paulo, parece querer mudar um pouco essa história e vem propagandeando a disponibilidade de tênis de corridas Brooks.
É muito bom que os corredores possam analisar essa outra opção, mas a variedade disponível é bem limitada. E, para variar, os preços estão lá no alto.
Mesmo assim, há pelo menos dois modelos de alta qualidade, que recomendo para análise de eventuais interessados.
O primeiro é o Brooks Beast. Trata-se de um tênis para pronadores severos e pesados. É também pesado, largão e tem um superamortecimento (apesar de ser de controle de movimento). Infelizmente, a Velocita não traz a linha Addiction, que é mais barata um pouco, não é tão rígida e tem excelente amortecimento. Quando eu usava tênis de pronação, o Addiction 4 e o Addiction 5 estiveram entre os mais confortáveis.
A mesma falha de oferta se verifica na linha de tênis para corredores com pisada neutra. Está disponível o Glycerin 5, que é um tênis muito bom (um dos que uso é o Glycerin 4), mas mais rígido e com menos amortecimento que seu irmão menor, o Radius, que é muuuito mais confortável e bem mais barato. No ano passado, comprei o Radius 4 por US$ 40 (!!) numa promoção; no início deste ano, o Glycerin me saiu US$ 75.
E aí volto a tocar na questão preço. São abusivos. O Glycerin 5, por exemplo, você encontra por US$ 80 na internet; na loja, está R$ 499,99. O Beast, que custa o mesmo em reais, é encontrável por US$ 70 na internet. Claro que é difícil fazer a compra pela internet ou você vai gastar tempo extra, quando em viagem ao exterior, se quiser aproveitar promoções. Mas repito: quem puder comprar no exterior deve fazê-lo, pois a diferença é enorme.
Escrito por Rodolfo Lucena às 10h25
Gêmeos em ação
Apesar de não aparecer muito nos calendários de revistas e sites especializados, o Nordeste brasileiro oferece uma rica e intensa programação de corridas. E circuitos nacionais também abrem etapas no nordeste, como é o caso do Circuito Nacional dos Carteiros, que teve no último sábado uma prova em Maceió. Bem que eu gostaria de participar em cada uma delas, com direito a banho de mar depois da corrida, mas nem sempre a vida leva a gente como a gente quer. Em compensação, trago o bem-humorado texto de Gilmário Mendes Madureira, treinador de atletas de elite e orientador de corredores amadores, mentor do clube de corridas baiano Multsport. Ele nos conta um pouco como foram os dez quilômetros de Maceió. Vamos ao texto de Gilmário.
"Na prova dos Circuito Nacional dos Carteiros de sábado passado (dia 31), em Maceió (Alagoas), algumas coisas ficaram evidentes e uma até hoje causa dúvida.
"A prova se desenrolou como qualquer outra bem disputada corrida de dez quilômetros: pelotão da frente largando forte, alguns permanecendo na disputa até o sprint final (diferença de 12 segundos entre o primeiro e o quarto colocalos na geral) e bons tempos registrados.
"Até agora, porém, muitos que assistiram e correram a prova estão a perguntar: "Quem venceu foi Cosme ou Damião?"
"Brincadeiras à parte, a semelhança entre os dois jovens atletas alagoanos é tão grande que não dá chance de saber quem está na frente _ainda mais considerando que vestiam uniformes iguais.
"Pelo resultado oficial, o vencedor foi Cosme Anselmo, com 30min06; seu irmão gêmeo, Damião, chegou em terceiro, oito segundos mais tarde. Entre os dois, a apenas três segundos do vencedor, ficou Antonio Marcos, de Garanhuns.
"No feminino, não havia dúvidas. Aqui, só o uniforme era igual (as duas que disputavam a liderança eram da equipe Multsport, de Salvador), mas Marluce Queiroz e Reneide Sacramento eram bem diferentes, coincidindo apenas a vontade de vencer.
"O Circuito Nacional dos Carteiros ocorre em todo o Brasil, mas já tem tradição no Nordeste, com boas disputas regionais e bons prêmios em cada etapa.
"Todas as capitais nordestinas são brindadas com as etapas respectivas. A próxima será em Aracaju (10 de junho) e, se você do Sul estiver "de bobeira" viajando pelo Nordeste, pode coincidir de estar numa cidade com esse organizado circuito.
"Além das belas e famosas praias, todos podem conhecer eventos com sotaque regional e tempero nordestino."
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h38
Nova Friburgo - RJ
Dolorida ecologia
Em preparação para sua primeira maratona, Marcus
Vinícius Pinheiro correu ontem os 30 quilômetros de Friburgo, no Rio de
Janeiro, uma das belas provas fora do asfalto que o Brasil nos oferece. Analista
de sistemas, Marcus era praticamente um sedentário te metade do ano passado. Em
seis meses, saiu da mesa do computador com 92 kg para as corridas nas ruas,
agora com 74 kg. Aos 38 anos, treina de cinco a seis vezes por semana e nos
brinda com um belo relato. Leia a seguir o texto de Pinheiro, que pretende
estrear na maratona do Rio, em junho próximo.
"A 83 dias da maratona, as distâncias devem aumentar. Com esse
pensamento fui a Friburgo realizar os 30 km Ecológicos, uma dureza onde 15 km
são da mais pura subida, culminando em uma altitude de dar vertigens.
"Mas com uma coisa eu não contava: a dor na lateral do joelho
esquerdo proporcionada por um recente deslocamento da "cabeça" do perônio. Sim,
aquele osso mais fino da parte inferior da perna que, não sei por que motivo,
saiu do lugar há duas semanas. A discussão filosófica é: "Dói mais quando sai ou
quando coloca no lugar ?"
"Lá estava eu em um ritmo excelente morro acima. Mas, no km 6, o pior
dos meus pesadelos aconteceu. Uma superdor na lateral do joelho esquerdo,
tornando impossível não mancar.
"Não acreditava: km 6, em uma prova de 30 km? O que fazer? Não
conseguia imaginar ter que suportar aquela dor por mais 24 km. Comecei a pensar
e agir. E em um procedimento repetitivo fazia: "Esfrega, caminha e corre
..."
"No km 8, não via perspectiva de melhora ...
"Meus colegas de equipe, ao passarem por mim, gritavam: "É
melhor não forçar ... "Mas como iria abandonar? Não era a simples perda da
medalha, e sim minha última grande prova antes da maratona.
"Fiquei no meu mantra: "Esfrega, caminha e corre ..."
"Um motoqueiro da organização parou ao meu lado e perguntou:
"Quer abandonar? Eu te levo de volta ..."
"Respondi que iria tentar mais um pouco.
"Eu lembrava dos telefonemas que recebi essa semana, de minha
treinadora, de amigos, todos dizendo: "Você é capaz". Lembrava do meu atual
livro e cabeceira, "Portões de Fogo", o conto de Heródoto que deu origem ao
filme "Os 300 de Sparta". Eles eram Guerreiros! Não desistiam nunca, sua glória
era morrer lutando ...
"Esfrega, caminha e corre ..."
"E a dor foi diminuindo. Era milagre! Só podia ser: km 11 e o
joelho a estabilizado. A dor não sumira completamente, mas já era
suportável.
"O mantra mudou: "Corre, agradece e corre ..."
"Meu plano de terminar a prova em menos de três horas foi para o
espaço. Mas àquela altura do campeonato terminar era lucro!
"E dá-lhe ladeira acima. Cheguei à metade. Agora é tudo morro
abaixo ...ou quase isso.
"Lá vou eu tentando recuperar o tempo perdido. Km 21, 25, 28. Só
faltam dois!
"E enfim a chegada !!!
"Ao entrar na rua, vi um corredor de 50 e poucos anos, de minha
equipe, e sua comemoração com o filho por estar chegando.
"Faltando cerca de seis metros para a chegada, ele percebeu
minha aproximação e chegou para o lado para que eu o passasse.
"Eu o cutuquei e disse : "O senhor merece essa chegada " Ele
retrucou: "Não! Você está mais rápido! Cruze você."
"Acabamos cruzando junto. O tempo valeu como treino:
3h17min35.
"E que venha a Maratonaaaaaaaaaa !!!!"
Escrito por Rodolfo Lucena às 09h43
Chip cheio de complicações
Hoje conto com a colaboração de meu colega de Redação e vizinho de blog Fábio Seixas, que correu a primeira prova do Circuito das estações deste ano e nos traz seu relato. Sem mais delongas, vamos ao belo texto do Seixas.
"Não, você não está no blog errado. O texto é meu, Fábio, mas o blog é o do Rodolfo. É que hoje pela manhã deixei de lado os antiecológicos motores e pneus e resolvi me aventurar na seara do meu vizinho de blog. Tênis, shorts, camiseta vermelha, cronômetro no pulso, lá fui eu, cedo, cedo, para a prova de outuno do Circuito das Estações Adidas.
"Foi a terceira ou quarta vez que disputei uma prova de 10 km. Não sou exatamente um fanático por corridas, mas gosto dessa distância. É o ideal para manter o equilíbrio entre os excessos dos bares e restaurantes e uma certa tranqüilidade na consciência.
"A prova, na verdade, começou na véspera. Para alguns, ainda antes. Sexta e sábado eram os dias para buscar o kit da corrida, basicamente a tal camiseta vermelha e o número de peito. "Mas e o chip?", era a pergunta mais ouvida ali no balcão da Bayard do Shopping Ibirapuera, onde escolhi buscar o meu. "O chip, só amanhã", era a resposta.
"O que já me deixou encafifado. Por que, afinal, não entregar tudo junto, como nas provas anteriores que fiz?
"Pois hoje pela manhã, ouvi a mesma pergunta dezenas e dezenas de vezes nos mais variados tons de voz e de nervosismo. O que fizeram (ou não fizeram) na entrega dos chips foi digno de comédia pastelão. Desorganização das grossas.
"A entrega acontecia numa tenda montada na Praça Charles Miller. A cada 300 ou 350 números, havia uma fila. O "probleminha" é que esqueceram de sinalizar qual fila era referente a qual espectro de números. Na verdade, até fizeram uma sinalização. Mas parecia piada. As caixinhas onde os envelopes com os chips eram guardados tinham uma indicação. Agora, tente enxergar isso com centenas de pessoas à sua frente...
"No improviso, os pobres dos atendentes levantavam as plaquinhas vez ou outra. "Pobres", escrevi, porque foram eles que ouviram os desabafos e xingamentos de quem ficou por muito tempo na fila e perdeu, por exemplo, a chance de fazer um alongamento decente.
"Foi meu caso. Não falo do xingamento, mas sim da preparação para a prova. Cheguei ao estádio às 7h20 e só consegui pegar meu chip, depois de duas filas erradas, às 7h50.
"Pelas conversas com amigos que correram o circuito no ano passado, a impressão é que a prova cresceu muito desde a última edição, mas que a organização não acompanhou o ritmo. Chato.
"Apesar da confusão, a largada aconteceu com pouquíssimo atraso. E ali estava eu, 8h05 de um domingo, correndo pela avenida Pacaembu. Que Gordo, Bigão, Bibi, Garrafa, Jureba, Silveta e outros marginais da cerveja tentem me entender...
"Os dois quilômetros iniciais são tranqüilos: terreno plano, árvores proporcionando boas sombras, todo mundo animado. As dificuldades começam após o túnel. Uma subida leva até o Minhocão. E é sobre o mais horrendo monstrengo arquitetônico da cidade de São Paulo que se desenrolam seis quilômetros da prova.
"A primeira constatação é óbvia: não há árvores, portanto não há sombras. E embora os dizeres na minha camiseta insistissem em lembrar que estamos no outono, o clima nesta manhã era do mais brasileiro verão.
"No Minhocão, pelo menos, dá para se distrair vendo muita coisa que passa despercebida quando estamos acelerando o carro.
"Vi pichações no asfalto. Vi um sujeito, ao lado de uma criança, jogando lixo pela janela do apartamento. Vi senhoras curiosas, apoiadas no parapeito. Vi uma moça lavando a sacada. Vi camisinhas no meio-fio. Vi um senhor passeando com seu poodle em meio à correria. Vi aquele outdoor da Cicarelli _ah, sim, esse eu vejo mesmo de carro.
"As distrações ajudaram a fazer o tempo passar. Sim, o último quilômetro de Minhocão é terrível, mas o sorriso ressurge no rosto assim que o declive começa.
"De volta à Pacaembu, só alegria. Os derradeiros dois quilômetros são percorridos exatamente no mesmo trajeto do início da prova.
"Fechei a corrida em 53min14s, segundo meu cronômetro. E, se faltou organização antes da prova, não há motivos para queixas do pós-corrida: bela medalha e distribuição farta de isotônico, frutas, água.
"Ganhei até um chinelo, devidamente calçado ainda no estádio. Será ele meu companheiro até amanhã de manhã, quando, se as bolhas deixarem, tentarei dar uma corridinha no parque."
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h44
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PERFIL
Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).
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