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Mamilos em sangue
Trago hoje para a você a experiência do leitor Carlos Alberto Diógenes Yazlle, 30, que enfrentou o frio norte-americano para obter o melhor tempo de sua vida na maratona. Para esse sociólogo, que corre há apenas cinco anos e já contabiliza a partipação em 108 provas, foi a quarta maratona. Vamos ao texto do Carlos.
"Às seis da manhã do dia 21 de abril, com dez graus e escuridão, eu estava meio preocupado com o que poderia acontecer nessa maratona de Charlottesville.
"Não era para menos: havia chegado aos EUA no dia 13 e, desde então, já tinha ficado bêbado duas vezes, comido fast-food todos os dias e treinado apenas uma vez _um trotezinho de 40 minutos em que eu quase morri de frio.
"Bem, agora não tinha mais o que fazer. Fui pela última vez ao banheiro _as instalações químicas têm o mesmo cheiro característico das ‘casinhas‘ das provas brasileiras.
"Às 6h30, deram a largada. Saí tranqüilo, tentando encontrar o meu ritmo, não acelerar demais nem ir muito devagar, observando os outros corredores, vendo a cidade, apreciando a vista. Passei a primeira milha com 8min44 e passei a segunda milha tentando calcular qual seria esse ritmo em minutos por quilômetro _enfim, devia ser uns 5min30/km, estava bom.
"Na terceira milha, primeiro posto de água e isotônico, começamos a sair da cidade e ir para a zona rural _várias fazendas, as árvores ainda sem folhas, paisagem de filme americano...
"Eu havia largado com um casaco e começou a esquentar. Abaixei um pouco o zíper do casaco para pegar um pouco de vento frio. Quando esfriava demais, eu subia o zíper; quando esquentava de novo,abaixava o zíper _estava feliz por poder controlar a minha própria temperatura ...
"Na sexta milha (são 26,2 no total), o pessoal da meia-maratona virava à direita, e nós íamos em frente. Pensei: ‘Agora que vai começar’. Na décima milha (1h23+ou-), fomos para uma estrada de terra batida, e muitas pedrinhas, poucas casas. Em determinados momentos, eu ficava sozinho.
"Na milha 13, aproximadamente a metade da prova, passei com 1h51m+ou-. Projetava completar em 3h42/43 (uau! fiquei feliz), mas sabia que a segunda metade é onde as coisas acontecem. Fui presenteado com a primeira subidona de respeito: a panturrilha começou a avisar que ela estava lá e que ia doer.
"Na milha 17, voltamos ao asfalto, começando a refazer o caminho de vinda: cada passo dado, era um passo mais perto da chegada!
"Na milha 20, estávamos no alto de um morrinho, vi uma descida e depois uma subida maior ainda na frente. Pensei: ‘Xi, ferrô!’ Para a minha sorte, no final da descida, viramos à direita, mas não refrescou muito, pois na milha seguinte começou ‘A Subida‘. Leve no começo, mas foi aumentando. No meio dessa rampa, tinha um banquinho, com um radio solitário tocando musica pra gente.
"Na milha 22, a subidona começou a ficar absurda: xinguei o percurso com todos os palavrões que conhecia, em português e inglês. Não agüentei e caminhei um pouquinho, só para recuperar o fôlego e voltar a correr.
"Na milha 23, entramos de volta na cidade. Nas ruas, várias pessoas aplaudindo, gritando ‘Nice run’, ‘Good job’. A adrenalina do ‘tá-quase-acabando!’ subiu, e comecei a acelerar.
"Fui estabelecendo metas _passar o próximo corredor. Passava um e mirava no outro. No final da descida, havia uma rotatória: era só contorná-la, virar a esquerda e cruzar a linha de chegada.
"Ufa! Acabou!
"Peguei a medalhinha _feinha. Era a mesma, assim como a camiseta, para a maratona e para ameia-maratona! No final, o lanchinho era um banquete: tinha maçã, banana, pão, MMs, batata frita, isotônico, pizza!!
"Acabei sem nenhuma bolha ou unha preta nova no pé. O pior foram os mamilos, que sangraram _durante a corrida, não senti muita dor, mas depois...
"Completei em 3h45m47! Novo recorde pessoal! Média de 8:38 por milha ou 5min29 por quilômetro.A minha melhor milha foi a ultima: 7min39. Fiquei em 77º lugar dos 361 que completaram a maratona!"
Escrito por Rodolfo Lucena às 16h31
Ação benemérita

A atriz Drew Barrymore, dona, quando criança, do maior grito da história do cinema (em "ET"), abraça o corredor Paul Tergat, dono, já adulto, do menor tempo já registrado para um humano completar 42,2 quilômetros.
O encontro foi numa cerimônia em Washington, ontem,quando a atriz foi nomeada embaixadora contra a fome pelas Nações Unidas, função que Tergat também exerce. Ambos pretendem concentrar seus esforços para apoiar programas de alimentação escolar.
E o amor a que se refere o antetítulo desta mensagem é dos dois pela humanidade, não entre eles _pelo menos, que eu saiba.
A foto é de Molly Riley/Reuters.
Escrito por Rodolfo Lucena às 16h58
Estiloso

Repare no estilo da corrida do ator Robert Carlyle, que foge de seres infectados pelo vírus da raiva no filme de horror "28 Weeks Later" (28 semanas depois), da Fox Atomic (foto de divulgação distribuída pela AP). Pelo jeito, o filme não é grande coisa, mas que o rapaz faz um esforço para correr, lá isso faz.
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h23
Molly Tucker
Pequena notável
Molly Tucker venceu com facilidade a prova de cinco quilômetros de Dragon’s Fire, no sábado passado, deixando a segunda colocada mais de dois minutos atrás.
Essa informação, publicada em um jornal local do interior do Texas, não teria razão para ser repetida em nenhum outro lugar do planeta, virtual ou concreto, não fosse o fato de a senhora Tucker ter apenas dez anos de idade.
A garota vem se provando um fenômeno na região, ganhando na sua faixa etária, é claro, mas especialmente competindo com adultos e tendo ótimo desempenho na geral em provas de cinco quilômetros.
"Correr é minha paixão. Um dia eu quero ser uma corredora olímpica", diz ela, completando: "Meu modelo e ídolo é Flo-Jo".
Ela se refere à corredora norte-americana Florence Griffith Joyner, que conquistou três ouros em Seoul-88 e morreu de problemas cardíacos aos 38 anos, em 1998.
Como treino, a garota corre cerce de 30 quilômetros por semana, acompanhada pelo pai na bicicleta.
Em recente provas na região, ela se classificou em primeiro lugar entre as mulheres, todas as idades, em quatro corridas.
Imagino que você, como eu, já esteja se perguntando se isso é bom para uma criança tão jovem.
Em geral, a resposta de médicos, ortopedistas, pediatras e terapeutas é contra a participação de crianças em esportes competitivos, ainda mais tão exigentes quanto a corrida.
Mas vá dizer isso para a feliz texanazinha...
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h48
Ela usa óculos
Marcela Summers é uma criação do ilustrador André Leal, que já deu início à maratona de Patrícia Carla pela blogosfera (como você já viu aqui). Sobre Summers, André conta a seguinte história:
"Existe um brilho especial nos olhos da estudante Marcela Lúcia Summers, por isso ela está sempre de óculos escuros. Quando lhe pedem para tirar os óculos, ela responde que tem um brilho especial nos olhos e que é melhor a pessoa tomar um pouco de cuidado.
"Uma vez, na esteira da academia onde ela criou e mantém duas pernas bem torneadas, seus óculos caíram! Foi o maior fuzuê, todo mundo correndo pra todo lado, aquela gritaria e os professores da academia tentando acalmar a multidão de alunos.
"Ninguém se feriu, mas alguns se apaixonaram gravemente por ela.
"Por causa desse incidente, um dos funcionários de lá providenciou elásticos para as pernas pouco torneadas dos óculos escuros que Marcela Lúcia usa. Graças a esta sacada genial, o tal funcionário ganhou um aumento de salário e um quadro de ‘funcionário do mês’, que ele olha com orgulho todos os dias, na recepção da academia."
Escrito por Rodolfo Lucena às 14h41
Tudo contra as drogas
A Grandma’s Marathon, uma das corridas mais festejadas pelos atletas amadores nos EUA, reafirmou uma política firme de combate ao doping, anunciada na semana passada.
Qualquer atleta que der positivo no antidoping será desclassificado. Aliás, no ano passado, a vencedora do feminino, Halina Karnatsevich, testou positivo para um esteróide anabolizante e teve de devolver os US$ 8.000 do prêmio, além de ser banida da prova por dois anos.
Outra medida anunciada é que a prova não vai contratar atletas de elite que testaram positivo e vai cortar relações com técnicos e agentes de qualquer atleta suspenso por uso de droga.
E os atletas de elite devem assinar um documento dizendo que estão limpos.
Em agosto passado, os diretores das maratonas de Boston, Londres, Berlim, Chicago e Nova York decidiram banir para a vida toda atletas condenados por uso de doping.
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h55
Missão fotográfica
Fiquei conhecendo, por e-mail, um casal de corredores que se diverte fazendo fotos de corridas e transforma seu hobby em um bom serviço para a comunidade.
Marinete, 54, começou a correr aos 50 anos, na esteira de seu marido, Roberval de Mello, 54, hoje aposentado, que já participa de corridas há mais de dez anos.
Combinando corridas, turismo e fotografia, montam álbuns mostrando os percursos das provas em que participam e os amigos que lá correram.
Como eles tomam o cuidado de colocar legenda em cada imagem, o resultado são fotorreportagens de provas como a Meia Trilheira de Ribeirão Pires (foto) e a 8 Km São Sebastião, ambas nas edições deste ano.
Além dos álbuns dedicados às corridas, há também um álbum intitulado "Família", com cenas do mundo mais particular dos dois corredores
O acesso é gratuito e não há linha d’água ou proteção especial para as imagens _se você aparecer em uma foto e quiser copiá-la, não há problema. Mas a definição, como acontece nas fotos para internet, é baixa.
E o site está AQUI.
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h19
Bertioga

A derrota do GPS
O vermelhão que tomava conta do céu, do final da madrugada, já anunciava que o dia tinha dono: o sol iria mandar, dominar, esquentar, soltar fogo pelas ventas. E foi o que aconteceu hoje em Bertioga, no litoral norte de São Paulo, onde algumas centenas de corredores se dispuseram a enfrentar 25 quilômetros de praia livre, areia firme e calor para ninguém botar defeito.
A Interpraias deste ano começou muito melhor do que a primeira edição em que participei, quando eram ainda 30 quilômetros e a largada atrasou mais de 15 minutos. Hoje, a corneta soou na hora certa, com a temperatura ainda amena. Melhor ainda: no primeiro posto de abastecimento efetivamente havia água.
Há três anos, corremos quase a praia inteira sem água e sem saber direito em que altura estávamos, pois a marcação da quilometragem era muito irregular e difícil de ser vista. Hoje, havia postos de água em todos os pontos prometidos pelos organizadores; em alguns, estava até geladinha.
Isso não é dizer pouco, pois o erro no abastecimento é um dos maiores problemas das corridas fora da capital. Ao que parece, os organizadores da Interpraias aprenderam um pouco com as falhas do passado. Tomara que o serviço adequado se repita nas outras provas programadas para o litoral.
Mas, se não tínhamos de lutar contra a falta de água, enfrentávamos outro adversário, ainda mais temível: o todo-poderoso solzão.
Eu saí razoavelmente bem, para meu padrão de lentidão, rodando a pouco mais de seis minutos por quilômetro até o km 6; depois me perdi um pouco na jogada, não marquei direito as passagens dos quilômetros e, irritado, deixei a peteca cair.
Estava correndo sem o prezado apoio de meu superGPS, que se revelou bem pouco super nessa prova. Como cheguei em cima do laço para o começo da prova, não consegui dar ao aparelhinho o tempo necessário para ele se localizar, encontrar o satélite e se transformar em uma traquitana útil.
Deixei-o só no cronômetro, mas, acostumado à marcação automática, acabei sem bater a cada quilômetro. Azar, fui fazendo quando percebia. Só que, a tantas horas, o GPS enfim localizou o satélite e daí começou sua marcação própria, que engoliu parte do que eu havia feito. Enfim uma zona.
Bem, melhor apreciar a paisagem. Praia deserta, gostosa, mar com poucas ondas, de vez em quando um ventinho contra ou de ladinho, só para disfarçar o calor, montanhas à frente.
A perna de ida termina num paredão de montanha, no final mesmo da praia. Daí, dá-se uma voltinha, passa-se por estradinhas de chão batido e, três quilômetros depois, volta-se à praia. É o trecho com piso mais gostoso, melhor que a areia dura da praia, mas também perigoso, porque cheio de costeletas traiçoeiras, prontas para um tropicão.
Na praia, enfim, foi só alegria. Apesar do trambolhão no meu pulso, corria como se estivesse sem relógio: só o sentimento do corpo, diminuindo um pouco aqui, aumentando um pouco lá, mirando corredores que estavam á frente e, aos poucos, chegando perto e passando (ou, se mirasse errado, nem chegando perto).
Às vezes, me deixava abater pelo calor, mas recuperava o ânimo de olho no próximo posto de água. Segui num trote bem razoável que me permitiu até acelerar no último quilômetro e soltar a passada nas centenas finais para terminar em 2h49min33, o que não é nenhuma marca para recorde, mas foi a que meu corpo permitiu hoje.
Ao final da prova, um bom kit com frutas, barrinha, água e uma bebida venenosa de tão doce; o gosto da mistura de açaí com guaraná e ginseng (acho que é isso) até que não é ruim, mas precisava ter um centésimo do açúcar ou adoçante para ficar bebível. A medalha é mais ou menos; não traz a data. E a camiseta também é feinha para meu gosto (alguns até correram com ela, donde se conclui que de gustibus non discutambus, numa adaptação sem-vergonha da citação latina).
Mas essas coisas valem menos. Importa que a prova é agradável, o circuito é bonitinho, o abastecimento foi adequado e, de modo geral, os corredores foram respeitados. Só o meu GPS que não foi muito respeitador.
PS.: A foto do alto, mostrando cena da Interpraias em Bertioga, é de Fausto Ferrarias / Runnersp
Escrito por Rodolfo Lucena às 18h06
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PERFIL
Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).
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