Firenze-Faenza

Perfume da noite

Quando meu GPS marcou o centesimo quilometro, vi o cartaz colado em uma arvore: ULTIMO QUILOMETRO.

Sacanagem!

A ultramaratona de 100 km mais bela e mais dificil do mundo tem 101 quilometros. Quando voce pensa que esta la, ainda falta mais um tanto.

Para mim, porem, ja nao importava mais. Ela estava conquistada, domada, amarrada no meu peito, pisada passo a passo, morro a morro, sol a sol.

O sol, por sinal, voltava a brilhar, depois de uma noite fria e ventosa.

A prova comecara na tarde do dia anterior, os 100 km del Passatore, uma ultramaratona ponto a ponto, que parte de Firenze, no coracao da Toscana, e segue ate Faenza, patria da ceramica (faianca).

O inicio, as tres da tarde, foi sob um sol mortifero. Tive de me organizar para largar mais lento do que nunca, e depois ficar ainda mais lento, pois bastaram uns poucos quilometros planos e logo comecamos a subir.

Metro a metro, a altimetria prometida nos mapas era ainda mais dura sob nossos pes, e tornava-se ainda mais dificil sob o sol da Toscana.

Em compensacao, tinhamos a vista de Florenca para acompanhar a subida, a primeira de muitas, muitas, muitas.

Mas a melhor vista tive no km 18, quando finalmente a Eleonora conseguiu driblar os bloqueios de transito e me encontrou correndo. Eu estava forte, apesar de ter enfrentado o trajeto mais complicado, do ponto de vista estrat'egico, que ja tivera pela frente.

Minha tatica foi simples: seguir os mais experientes (ou que pareciam), caminhar quando subia, trotar de leve quando dava, procurar a sombra escondida.

Faltavam apenas pouco mais de 80 quilometros. Eh a maravilha da corrida: quanto mais voce corre, menos falta para correr.

Voce pode acompanhar a altimetria no site da prova, AQUI. A sequencia de lombas fortes, muito fortes e fortissimas 'e arrasadora. Mas eu me aguentei ate a noite chegar, por volta do km 50.

Com ela, veio o frio, o vento, o cheiro de mato. E forca para minhas pernas, meu corpo, meu coracao. A lembranca mais duradoura da oprova talvez nao sejam as dores, mas o perfume da noite, quando eu corria solitario no meio do campo, subindo montanhas, descendo encostas, vislumbrando apenas o cenario em volta de mim.

E um cheio de frio entrando pelas narinas, um perfume de merda de vaca, um odor de agua rolando nas pedras do rio, um pouco de vento e de suor.

Depois do 75, as coisas todas comecaram a doer. Mas por pouco tempo. A cada cinco quilometros, havia um posto di ristoro, e a cada cinco quilometros eu encontrava a Eleonorar, me incentivando, mandando beijos, ajudando a trocar de roupa (fiz varias trocas no caminho), me mantendo vivo e ativo, firme e forte.

As duas hernias nao chiaram, mas o pe mandou seu recado. Tomei conta dele. No km 80, eu sabia que iria chegar. Ja tinha mais de 12 horas de prova, poderia ter mais tres, quanto ou cinco, mas chegaria bem, inteiraco como vinha desde o inicio.

Era so segurar o guidon com a ponta dos dedos, e mandar ver.

Tratei de lembrar das minhas filhas, da presenca da Eleonora. No 90, comecei a chorar, antevendo a chegada. Mas logo me irritei com a marcacao que parecia errada.

Nao precisava mais pensar. Corria, caminhava, trotava, caminhava.

Entrei em Faenza, passei a marca dos 100 km. E engoli cada metro dos km 101 at'e chegar onde Eleonora me esperava, mais um beijo, depois de uma tarde, uma noite e uma madrugada na estrada, depois de 15h53min05. Terminei. Feliz, satisfeito, cheio de cheiro da noite no meu peito.