Blog do Rodolfo Lucena - + corrida
 

Foto do dia

Vivo e nas ruas

Elvis está vivo e correndo pelas ruas de Minneapolis, nos Estados Unidos. Pelo menos, lá estão fãs que se vestem como o cantor Elvis Presley.

Eles participaram hoje da primeira Running of the Elvises, uma corrida para fantasiados que faz parte das homenagens ao artista, que morreu há 30 anos (o aniversário da morte foi ontem).

O percurso da prova tinha impressionantes e desafiadores dois quarteirões (foto AP).

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h40

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Movimento estudantil

Correndo na chuva

 

Para fugir do calorão que está fazendo na Carolina do Sul, a estudante Lauren Jaynes aproveitou a chuva para um treininho básico na pista da The University of South Carolina, em Columbia (foto AP).

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h38

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Entrevista com Monica Otero

Entrevista com Monica Otero

A conquista de Badwater

A paulista Monica Otero é a primeira mulher da América do Sul a completar a ultramaratona de Badwater, que percorre 217 quilômetros e cruza o o deserto de Mojave, na Califórnia. Mãe de dois filhos, essa sobrevivente a um câncer de intestino começou sua vida de peregrina no primeiro ano deste século, percorrendo parte do Caminho de Santiago. E agora, aos 51 anos, fez sua maior aventura, que ela conta nesta entrevista, que foi a base de reportagem publicada hoje no caderno Equilíbrio da Folha (AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL).

Folha - Como você define a Badwater?

Monica - Sacrifício. Exige muito treino. Ela é considerada a corrida a pé mais difícil do mundo. Não pela topografia nem pela quilometragem, mas pelas condições do tempo. Você correr sob uma temperatura acima de 50º não é fácil. E quando me diziam que a maioria dos atletas, durante a corrida, perdia o paladar, eu falava: ‘Gente o que é isso, perder o paladar?‘, e eu experimentei isso.

Folha - E como é perder o paladar?

Monica - Qualquer coisa que você vá mastigar vira uma pasta seca e você não consegue engolir. Tudo resseca, você não consegue engolir nada. Eu tinha fome, mas não conseguia comer. Então, um pedacinho de pão, um pedacinho de batata, um pedacinho de maça, você mastiga, mastiga, mastiga e não adianta. Para engolir aquilo, você tem que ter muita força de vontade e tomar alguma coisa junto, porque senão não desce.

Folha - E como você chegou a participar da prova?

Monica - Você tem que ser qualificado. Porque mais de 2.000 se inscrevem. Atletas do mundo inteiro se inscrevem para fazer essa ultramaratona, mas só 90 podem participar a cada ano. Eles selecionam por currículo, mas há um número de atletas que eles escolhem a critério deles. Eu acredito que eu tenha sido escolhida não pelo currículo, mas a critério deles, porque eu acho que eles têm que dar chance para novos atletas, tem que dar essa abertura. E, quando eu terminei a Brazil 135 em 67 horas, o Mário Lacerda, que é o grande organizador de tudo isso, me chamou.

Folha - Como foi isso?

Monica - Ele falou: ‘Monica, eu gostaria que você se inscrevesse para a Badwater. Eu gostaria muito que uma mulher fosse, e eu não conheço no Brasil alguém que tenha feito uma prova de 135 milhas e que já tenha estado na Badwater como pacer‘. Eu tinha ido no ano passado como pacer do Manuel Mendes, e ser marcador de ritmo é um pré-requisito, já é uma qualificação. Eu me inscrevi no último dia, em janeiro, e no dia 15 de fevereiro recebi o e-mail. Eu falei: ‘Gente do céu, fui escolhida‘. Eu comecei a tremer, eu comecei a chorar, as pernas bambearam. Aí eu falei: não tem o que fazer: agora é treinar e treinar muito. Aí eu comecei a ser orientada pelo Mário Lacerda...

Folha - Como eram os treinos?

Monica - Eu já estava treinando, fazendo musculação em uma academia em Alphaville. E comecei a treinar em piscina, corra dentro d‘água para diminuir o impacto. Então, duas vezes por semana, eu fazia uma hora na piscina, depois eu saía e fazia hidroginástica na piscina, logo em seguida. Depois eu corria, no mínimo, três horas aqui no residencial...

Folha - Você não tirava folga?

Monica - Treinava seis dias por semana. À noite, eu fazia sauna, eu fazia step dentro da sauna, isso duas vezes por semana. O único dia que eu tinha descanso era aos sábados. De treino, porque eu trabalhava. Eu tinha uma cafeteria, que vendi agora em maio, uns dias antes de eu viajar. Eu trabalhava no comércio, mas abandonei o comércio na parte da manhã, para eu poder fazer meus treinos. Eu trabalhava à tarde; à noite, ia para a academia. Sábado era o único dia que eu não treinava, porque era o dia que eu fazia as compras para o café. E no domingo eu treinava o dia inteirinho: eu saía às seis, sete da manhã e só voltava às sete, oito da noite andando.

Folha - Como você se alimentava nessas longas caminhadas?

Monica - A minha história é um pouco diferente. Eu não tenho perfil de atleta, sou gorda... Eu tenho um problema muito sério com alimentação. Há dez anos, eu tive um câncer de intestino. Tive um, não, tive recidiva, aí eu fiz colostomia, passei por todo processo de quimioterapia, então eu tenho muitas restrições alimentares. Muita. Eu não como nada que tenha fibra. Eu não tomo leite. Eu não tomo iogurte nem nada que tenha grão, tirando arroz. A única fruta que eu como é a maçã, sem a casca. Agora, eu estou introduzindo a banana, depois de dez anos... Existe, assim, uma dificuldade muito grande...

Folha - Sua alimentação é mais líquida?

Monica - Olha, é muito complicada minha alimentação, porque tem dia que eu estou bem e aí como pão. Eu gosto de pão integral, mas tudo que tem muita fibra, eu não posso. Tem dia que eu como arroz e uma carne grelhada. Nada com gordura, nada com pimenta, nada com molho. Então, para mim é difícil. A Badwater, eu fiz praticamente em jejum, comendo azeitona, massa e um suplemento de chocolate. Teve uma hora que me deu diarréia, eu não consegui tomar mais. Então, a minha condição de atleta é uma condição diferente. Não é nada daquilo que é comum nas pessoas.

CONTINUA....

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h37

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Entrevista com Monica Otero - segunda parte

Peregrinações

 

Folha - Só em fevereiro você começou os treinos para Badwater?

Monica - Na realidade, foi depois que eu recebi o e-mail dizendo que eu tinha sido aceita, mas eu já tinha uma base, o treino que eu tinha feito para a Brazil 135. Mas foi mais uma musculação, uma coisa leve, não foi nada como esse treino para a Badwater. Eu já tenho uma característica de resistência, porque eu já andava muito. Meu processo de andar é desde menina. Minha mãe falava que eu dava muito trabalho para ir para a escola. Quando chegava a hora de ir para a escola e ela falava: ‘Cadê a Monica?‘, eu estava andando. Então, eu vivia dando volta. ‘Ah, mãe, vou dar uma voltinha antes de ir para a escola‘. Então, essa história de andar, para mim, já é de muito tempo. E, eu fiz em 2001, cinco anos depois de todo esse processo que eu passei, de quimioterapia, eu comecei a fazer, assim, umas caminhadas oficiais. Eu fiz uma parte do Caminho de Santiago, daí eu fiz o Caminho do Sol.

Folha - Foi o início de suas peregrinações...

Monica - Eu participei da primeira turma do Caminho do Sol. Depois, eu voltei e refiz o caminho, e foi quando eu conheci o Mário Lacerda, que também era peregrino. Depois, eu fiz o Caminho da Luz, o Caminho das Missões, fiz o Caminho da Fé, que é onde acontece a Brasil 135. Então eu já tinha assim experiência de caminhadas longas, porque eu já fiz quase todas.

Folha - E quanto duravam essas caminhadas?

Monica - Eu não tinha nenhum propósito de tempo. Mas notei que, enquanto as pessoas chegavam ao albergue cansadas depois de 20, 25 quilômetros, eu chegava inteira. Comecei a notar que esse negócio de andar, para mim, era muito fácil. Eu acho que já é até uma questão de genética, não é? Eu andava e chegava bem. E, o Mário notou isso em mim. Então, quando ele organizou a Brazil 135, houve uma prova-teste, antes da prova oficial.

Folha - Quando foi isso?

Monica - A Brazil 135 foi em janeiro deste ano, e a prova teste foi no ano passado. Alguns atletas foram, e eu fiz 160 quilômetros em 36 horas. Eu tinha uma equipe de duas pessoas como apoio, mas eles estavam muito cansados e resolveram parar. Daí, como não podia ir sem apoio, eu também parei.

Folha - Isso você fez, principalmente, caminhando?

Monica - É, foi, eu não sou muito de correr, não. Eu tenho um passo firme e não paro. A minha característica é andar, por exemplo, 80 quilômetros sem parar. Tem gente que anda, corre, corre, e depois pára para descansar. Eu vou num ritmo mais lento, mas não paro.

Folha - Daí aconteceu a Brazil 135...

Monica - Em janeiro deste ano teve a prova oficial e aí, além de ajudar na organização, eu corri. Mas essa prova foi muito difícil para mim. A pessoa que iria comigo, como apoio, não pode participar. Daí, de última hora, eu arrumei um outro pacer, que eu não conhecia, o Eber Valentim. Mas, quando ele chegou e eu vi o currículo dele, eu falei para o Mário (organizador): ‘Esse rapaz é muito bom, eu não vou tirar um talento desses só para andar comigo à noite. Vamos inscrevê-lo como atleta‘. Ele aceitou, e o Eber acabou conquistando o quarto lugar na prova. Com isso, eu fiz o percurso sozinha.

Folha - Por que é preciso ter marcador de ritmo nessa prova?

Monica - O pacer não é só isso. É quem dá total apoio ao atleta, porque o atleta não pode levar nada, a finalidade dele é correr. É aquele que cuida de tudo. Água? A água está na mão. Estou quente, joga uma água no meu rosto. Vai lá e joga. Quero comer isso. Toma, tudo na mão. Por isso que é difícil você fazer sem o pacer. Mas eu decidi pegar uma mochila, colocar tudo o que eu iria precisar...

Folha - O que o você levava?

Monica - Água, material de pronto-socorro, faixa, agulha, linha, uma tesoura para furar se tivesse bolha, meia, coloquei um segundo tênis, comida, as lanternas, uma de cabeça, uma de mão, pilhas extras, uma capa de chuva. Eu sei que eu pesei a minha mochila dava seis quilos.

Folha - Você pesa quanto?

Monica - Eu estava com 63 quilos.

Folha - Quase dez por cento do seu peso...

Monica - É, exatamente. É muito. Para uma corrida desse tipo é muito peso. Aliás, não era nem para correr com mochila, no máximo, uma garrafinha de água. E aí a gente teve, também, um problema que choveu o tempo inteirinho. A chuva não deu trégua. E correr no barro, não dá. Tinha horas, assim, que eu enfiava o meu pé, o pé saía e o tênis ficava. Eu tinha que parar, pegar o tênis. Então eu levei mais tempo que o necessário, porque eu não conseguia correr com aquele barro, aquela lama

Eu vi que eu estava me atrasando, que eu não ia conseguir terminar a prova no limite do tempo. Eu sempre era a última a passar nos postos de controle. Teve horas que eu pensei em desistir da prova. Aí eu levei por birra, eu falei: ‘Não, independente do tempo de prova, eu vou continuar, agora é por marra. Nem que eu termine em quatro dias‘. Aí eu mandei um recado para o Mário, pedindo para ele mas esperar mesmo depois do prazo porque eu ia chegar.

Ah, eu só queria terminar aquilo, gente, eu queria. Eu queria terminar, porque eu tinha prometido para os meus filhos que eu iria terminar.

CONTINUA...

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h33

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Entrevista com Monica Otero - terceira parte

Entrevista com Monica Otero - terceira parte

Reviravolta na vida

 

Folha - Quantos filhos você tem?

Monica - Eu tenho dois, mas eu não moro com nenhum. Um mora com o pai, que até eu me separei neste ano.

Folha - Agora, antes de Badwater?

Monica - É, foi assim: 28 anos de casamento, virgem, primeiro namorado. No início foi legal, mas foi um casamento meio tumultuado, porque eu queria fazer as minhas corridas, as minhas caminhadas, e ele muito ciumento. E, sempre a gente estava brigando por causa disso. Aí quando foi neste ano, nós entramos num acordo, e ele aceitou. Eu já estava querendo me separar há mais tempo, mas ele não queria. Aí, quando foi este ano, ele resolveu: ‘Ah, com você não tem jeito, então...‘ Mas foi um ano muito sofrido para mim, porque ele fez uma exigência, que para mim foi muito dura. Ele só aceitava a separação se ele ficasse com o meu filho. Eu tenho dois, um já mora sozinho, ele vai fazer 27 anos, mora sozinho, e eu tenho um de 15 anos. Então, foi assim uma exigência dele: ‘Você quer? Está bom, só que o filho é meu‘. E para mim foi muito difícil, mas muito. Tanto é que, durante os meus treinos aqui, eu só treinava chorando. Gente, como foi difícil este ano.

Interiormente, eu não aceitava, tanto é que eu treinava, eu subia aqui essas ladeiras, gente, eu subia chorando. Como eu chorei, como eu chorei Rodolfo, mas eu chorava, assim, desesperadamente. O pessoal até pensava que era suor, mas não era suor não, eu estava chorando. Então, foi um ano assim, foi uma reviravolta na minha vida, porque eu fui aceita para fazer essa prova, acabou um casamento de 28 anos, eu vendi o comércio que eu tinha...

Folha - Por que vendeu?

Monica - Eu falei: ‘Bom, agora vai ter que ser uma virada‘. O comércio me tomava muito tempo. Mas eu consegui dar a volta por cima e consegui meu objetivo, que era terminar a prova desde o início. Não era ganhar a prova, não era nada, era a conclusão da prova. Eu treinei para terminar a prova em 60 horas.

Folha - Por que?

Monica - É aquela sensação assim: olha, Rodolfo, tem uma coisa na minha vida, que eu acho que eu nasci para andar. É uma coisa, assim, bem interior, bem. Você sabe que quando eu era menina, que eu devia ter mais ou menos cinco ou seis anos, eu tive um sonho. Eu nunca revelei esse sonho para ninguém. Eu guardei esse sonho comigo muitos anos e esse sonho tem tudo a ver com a minha história, mas só agora eu estou ligando isso.

Nesse sonho, eu estava num barco, que tinha várias redes penduradas e eu estava numa dessas redes. Eu estava deitada numa dessas redes e como bagagem, eu tinha um saco de estopa. Eu não sei o que tinha dentro daquele saco de estopa, mas tudo o que eu tinha era aquele saco de estopa e eu cuidava daquele saco de estopa. Eu não me lembro se eu tinha pai, se eu tinha mãe, se eu tinha irmão, eu não me lembro. E, eu estava deitada nessa rede e esse barco partiu e eu lembro até hoje do mato e eu sinto o cheiro do mato. Eu estou falando para você e eu estou sentindo esse cheiro do mato. Eu olho, eu vejo o céu, eu vejo o sol, isso tudo no sonho. Eu ouço até hoje o barulhinho da água do barco, entendeu? E eu fiquei muito tempo nesse barco.

De repente, o barco parou, eu desci e eu comecei a andar. Gente, mas eu andava, como eu andava. Eu andava tanto, tanto, que só de falar eu fico cansada.

Folha - Acordou cansada?

Monica - Mas eu era tão feliz. Era uma felicidade tão grande que não tem palavras. Isso eu sonhei quando eu era menina e eu guardei esse sonho. Nunca contei a ninguém até pouco tempo atrás. Por isso, analisando agora, depois de tudo isso, eu estava pensando, gente, será que tem alguma coisa a ver com meu sonho? Acho que meu destino é andar. E era andar muito, muito, muito, muito.

Folha - Bem, em Badwater você andou muito. Quando você chegou lá?

Monica - Eu cheguei a Stovepipe Wells, no deserto de Mojave (Califórnia), uns 20 dias antes da prova, para fazer a aclimatação. Ali foi minha base, num hotel que é um dos pontos de parada da prova. É o primeiro ponto de checagem. É mais ou menos a 80 km da largada. Sem internet, porque a internet não chegou lá, fiquei lá todos esses dias.

Folha - E como era a sua equipe?

Monica - Levei o Márcio Villar, que tinha me ajudado a terminar a Brasil 135, e mais cinco pessoas de lá, dois carros. Eu banquei tudo, gasolina, alimentação, tudo. Não saiu por menos de R$ 20 mil... Tinha esses quatro ultramaratonistas, que não tinham muita chance de serem escolhidos, mas resolveram ir como pacers. E o Márcio e a Marta Harato.

Folha - A Marta você já conhecia?

Monica - A Marta eu conheci fazendo o Caminho da Luz. Ela organizou para o Mário Lacerda a prova-teste para a Brasil 135. Depois, nós duas fomos ser pacers do Manuel Mendes na Badwater, no ano passado.

CONTINUA....

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h26

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Entrevista com Monica Otero - final

Entrevista com Monica Otero - final

Dever cumprido

Folha - Na prova, qual foi o momento mais complicado? Você terminou em 55 horas, não é isso?

Monica - Cinqüenta e quatro horas e vinte e seis minutos. Eu acredito que teria condições de terminar em menos tempo se não fosse a alimentação, porque eu não comia nada lá, eu não conseguia comer.

Folha - Alguma coisa você comeu...

Monica - É, eu tomei muita bebida isotônica, mais um suplemento alimentar de chocolate, comi azeitonas....

Folha - E ir ao banheiro?

Monica - Lá não tem banheiro, a prova é no deserto mesmo, você tem todo o deserto para ir ao banheiro.

Folha - E dormir?

Monica - Ah, dormir, eu descansei quando eu cheguei em Stovepipe Wells. Eu cheguei lá no deserto no dia 02 de julho para me aclimatar e logo no primeiro dia eu peguei 54º de calor. O meu primeiro treino foi às 10 da manhã e às 15h eu ia ter outro. Eu treinava 12 horas por dia lá.

Mas eu parei uma semana antes o treino por causa dos meus pés, porque o calor era tão grande, que começou a fazer bolhas nos pés, nos últimos treinos. Então, meu pé virou uma placa de bolha e eu tive que parar o treino. Mas, isso uma semana antes.

Folha - O que de certa forma, do ponto de vista do seu físico foi até bom, não é?

Monica - Foi, porque eu tinha que descansar. Eu tinha que descansar, mas eu fui tão alucinada que eu tinha que terminar essa prova, porque se eu não terminasse para mim seria assim uma decepção muito grande, porque todos falavam: ‘Monica, você é a primeira brasileira a se inscrever para essa prova‘. Então, eu alucinei naquele deserto, eu puxava pneu naquele deserto. Eu amarrava um pneu na cintura e saía puxando, para ganhar resistência.

Folha - Mas isso era um treino que tinham te sugerido fazer ou você resolveu fazer da sua cabeça?

Monica - É, o Mário achou que esse treino tinha que ser feito antes, mas, como eu sou louca, eles falam que eu não bato muito bem. Se fosse muito quente, eu treinava 40, 50 minutos com o pneu. À noite, sem sol, eu andava um pouco mais com o pneu..

Folha - E você sentiu o resultado desses treinos?

Monica - Olha, tudo foi válido. Lá é o seguinte: quando está muito calor, você toma tanta água, tanta água que daí o corpo não consegue eliminar, pára aquele líquido no estômago e quando você corre faz chilap, chilap, você não consegue correr. Então, o grande segredo é a aclimatação. O Mário me ligava, instruía para eu tomar três, quatro litros de água por hora, adaptar o seu corpo a isso.

Lá do deserto, então, o que eu fazia? Eu saía com quatro litros d‘água, eu saía com o camel back, gelo na cabeça, um spray e eu ia andar. Então, eu andava assim até onde eu consumia um camel back e depois voltava porque eu não podia ficar sem água no deserto. Então, eu sempre levando gelo, quando eu chegava, aquela água já estava fervendo.

Folha - E como você escolheu a roupa?

Monica - Eu tinha planejado correr de bermuda, porque eu sempre gostei de correr sem nada que me prenda as pernas, tinha que ser um short, uma coisa assim. Mas, onde o sol batia, aquilo queimava de forma assim impressionante. Falei, bom, acho que eu vou ter que usar uma canga. Aí a Marta, que estava em San Diego, me mandou a canga pelo correio, porque lá no deserto não tinha nada. Só que em alguns trechos da corrida ventava tanto, tanto, tanto, que aquilo atrapalhava a perna. Então não dava.

Eu pedi para ela me mandar uma calça fusô. Eu tinha comprado uma roupa especial com fotor de proteção solar 60, mas ela evapora muito rápido a água, e eu queria algo que permanecesse molhado nas minhas pernas. Aquela roupa, que é especial, tem aquele tecido que, em três minutos, evapora a água e seca, daí ela ficava quente na minha perna. A roupa queimava a perna. O sol batia, esquentava e queimava a perna. Não dava.

Então quem sabe um fusô de algodão? Antes de treinar, a primeira vez, eu entrei na piscina de roupa e tudo, depois enxuguei os pés, pus as meias e os tênis e saí andando. Falei: ‘Gente, descobri a América. É isso que eu preciso. É isso o que eu quero‘. Uma roupa molhada no corpo, porque, além de tudo, eu ainda sou hipertensa. Eu tomo remédio...

Folha - Apesar de todas essas caminhadas?

Monica - Ainda sou hipertensa. Então tinha que ser o tempo inteiro uma roupa molhada no meu corpo, para baixar a minha temperatura. Um boné, a cabeça sempre cheia, até eu brincava que eu brincava que o boné era o meu cooler porque embaixo do boné tinha sempre muito gelo. E os meus apoiadores jogavam água em mim com aqueles aparelhos de jogar inseticida em plantas... Cada atleta tem uma forma, eu achei que para mim era essa a melhor forma na hora do sol, assim, mais quente, eu tinha que estar com a roupa o tempo inteiro molhada.

Folha - Enfim, você conseguiu. O que você ganhou com isso?

Monica - O que eu ganhei? Uma medalha, muitos amigos e uma satisfação interior tão grande. Parece, assim, sabe? O dever cumprido. Eu estou feliz. Eu estou feliz.

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h17

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Parapan

Exemplo de vida

 

Os Jogos Parapan-Americanos, que estão sendo realizados no Rio e vão até o próximo domingo, são um show de exemplos de superação, de conquista, de alegria de viver.

Gentes de todos os cantos de Nuestra America mostram que a cegueira, a perda de um braço ou de uma perna ou problemas mentais não conseguem impedir que homens e mulheres vivam intensamente, interajam com os outros e dêem sua contribuição à sociedade.

Só o fato de essas pessoas estarem lá, competindo e se apresentando para o mundo, vale muito mais que qualquer marca que porventura venham a estabelecer --e é bom que se diga que vários recordes têm caído nesta edição do Parapan (veja informações AQUI, no site oficial, e AQUI).

As imagens mandadas pelos fotógrafos da Folha e das agências de notícias são emocionantes.

Depois de alguns dias de competição, selecionei algumas relativas ao mundo das corridas.

No alto, um momento da competição dos 5.000 m (Reuters). Abaixo, Lucas Prado, 22, que ontem bateu o recorde mundial dos 100 m rasos ontem no Engenhão (foto AP). Com o tempo de 11s29, ele ficou com a medalha de ouro na categoria T11 (deficientes visuais totais) (leia AQUI reportagem completa sobre a vitória).

Na seqüência, a alegria do também velocista Yohansson Ferreira e, completando a página, momento da disputa dos cadeirantes nos 200 m (fotos Reuters).

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h40

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Suíça

Corrida dos garçons

 

Com a bandeja lotada, garçons participam de uma corrida tradicional em Genebra. Mais de 80 homens e mulheres participaram ontem da Corrida dos Garçons, em que tinham de carregar a badeja com duas garrafas e dois copos por 1.500 metros (foto Reuters).

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h04

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Treinador de menino maratonista é preso

Tortura infantil

O treinador do menino indiano que ficou famoso por correr maratonas foi preso hoje sob a acusação de torturar o garoto.

O menino tinha cicatrizes que revelam maus-tratos, segundo sua mãe denunciou. Hoje com seis anos, Budhia Singh começou a correr aos três anos; no ano passou, tornou-se uma celebridade internacional ao correr 65 km em cerca de sete horas.

Em entrevista à TV, o garoto afirmou que sofria castigos violentos. O técnico Biranchi Das chegou a deixar o menino trancado num quarto por dois dias sem comida. O garoto também mostrou marcas de queimadura com ferro quente.

Das negou tudo e disse que as acusações são armação da mãe do menino e do governo.

A participação do menino (na foto da AP, em um treino em 2006) em maratonas já havia sido considerada "uma tortura" por um órgão governamental indiano de defesa dos direitos das crianças.

Filho de um pedinte e de uma lavadora de pratos, o garota nasceu em uma favela em Bhubaneswar, capital de Orissa. Depois que seus talentos foram descobertos, ele passou a viver com o técnico. Agora, foi devolvido à mãe.

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h45

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Fala, leitor

Noitada e madrugada

Adalberto Leister Filho, 33, repórter de Esporte da Folha, disputou neste ano sua primeira meia-maratona. Após essa experiência e a que vai relatar a seguir, amadurece a idéia de superar os 42,195 km.

"Quando voltei da cobertura do Pan, um dos desejos mais prementes, depois de rever família e amigos, era retomar as provas de rua.

"Por isso me inscrevi atabalhoadamente para todas as corridas bacanas que pintaram no meu e-mail. Mal notei que duas delas eram em dias seguidos.

"Quando percebi que correria a Reebok Night Run, no sábado à noite, e largaria na Corrida do Centro Histórico Corpore, no domingo pela manhã, já era tarde.

"Em menos de 12 horas cobriria um percurso de 19 km. Para completar, tinha pouco mais de uma semana para a preparação (havia ficado parado durante a maior parte do Pan). Por sorte, tive companhia de um amigo nas duas empreitadas.

"Encarei a minimaratona como se estivesse me preparando para a São Silvestre. Reforcei a dieta com carboidratos, fugi das bebedeiras de confraternização, enchi a cara de chá verde (li outro dia que faz bem a corredores e não custa nada experimentar) e principalmente, corri todos os dias, mas sem forçar.

"Gostei de participar da prova da Reebok (ainda não havia disputado esse circuito). É bem organizada, o pessoal é animado e há um clima de balada entre os participantes.

"O ruim foi se aquecer: a temperatura na largada era de 10 C. Em quatro anos em corridas de rua, foi a prova mais "fria" que participei.

"O percurso foi plano em sua maior parte. Mesmo assim, não forcei o ritmo. Tanto por minha inatividade quanto pensando em me preservar. No final, uma subidinha mais íngreme. Nada que quebrasse os participantes. Forcei na reta final e terminei em 56min28s. Mas o principal foi ter chegado bem.

"Não fiquei muito tempo no evento. A preocupação era voltar para casa o mais rápido possível e repor a energia perdida. Devorei um pratão de macarronada ao pesto que havia deixado pré-pronto. Tomei quase um litro de água de coco. Fui dormir pouco antes da meia-noite.

"Acordei às 6h. Pela manhã, mais meio litro de água de coco, vitamina C, dois croissants grandes recheados e frutas.

"A Corrida do Centro Histórico teve um pouco de muvuca na saída. A largada da Líbero Badaró é por demais estreita. Por conta da multidão, diminuí bastante o ritmo na largada. Isso não foi de todo ruim, já que guardava energia para terminar.

"Larguei com dois amigos, mas logo nos perdemos na multidão.

"O charme dessa prova é, sem dúvida, o passeio rápido pelo Centrão, passando por Teatro Municipal, Praça da Sé, Viaduto do Chá, Largo São Bento... O percurso, cheio de idas e vindas, subidas e descidas, viradas e retas, não deixa ninguém enfadado.

"Dessa vez só forcei o ritmo quando vi o sinal de que faltavam 200 m para a chegada. A bateria já estava quase toda descarregada. A idéia inicial, de terminar em 50 minutos, foi logo superada pelos fatos. Ultrapassei a linha de chegada em 53min58s. Havia cumprido os 19 km em pouco mais de 1h50min. E, afora leves dores musculares, sobrevivi à experiência."

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h40

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PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

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