Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Nem o câncer segura essa mulher

Vida livre

Laura Kittredge, 35, teve os dois seios retirados um dia antes da Maratona de Nova York do ano passado. Deitada, vendo na TV a prova que já tinha completado três vezes, ela fez uma promessa a si mesma: "No ano que vem, estarei lá.

A jovem mãe de duas meninas teve diagnóstico de câncer de mama no estágio 3, já espalhado para os nódulos linfáticos, mas estava decidida a não deixar barato nem abrir mão de sua promessa, mesmo durante os piores momentos do tratamento.

Fazendo quimioterapia e radioterapia, ela treinava. Perdeu todo o cabelo, pouco antes do Natal, e seguiu treinando. Passou por nova cirurgia, agora para remoção dos ovários, para prevenir outro ataque do câncer, e manteve a corrida.

"Vai ser mais difícil completar a prova", disse ela ao "The Journal News", completando: "Mas eu precisava disso para mostrar que, mesmo depois do câncer, eu ainda sou eu mesma e posso fazer as coisas fazia antes".

Ela nem vai tentar bater seu recorde de 3h28, que marcou em 1996, mas sua conquista talvez seja ainda mais esplendorosa, pois ajudou no enfrentamento à doença: "Eu reagi melhor ao tratamento porque estava em boa forma", disse ela.

E também se transformou num exemplo para as crianças da escola básica em que dá aulas de educação física e treina a equipe de atletismo.

Ela é casada há dez anos com outro lutador pela vida. Brady, o marido, também professor de educação física, já foi técnico de golfe e de hóquei. Ele precisa se submeter a duas horas diárias de tratamento por causa de uma doença genética chamada fibrose cística.

Sua condição foi diagnosticada quando ele ainda era bebê, e os médicos então disseram que ele não passaria dos três anos de vida...

Pois no domingo ele e as duas filhas estarão nas ruas de Nova York aplaudindo Laura na maratona, que nada mais é senão uma metáfora da dura e sofrida luta de cada um de nós pela vida livre, liberta e sã.

Assista AQUI a um vídeo sobre a epopéia de Laura Kittredge e sua família, que vivem em Somers, Estado de Nova York.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h21

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A maior corrida da terra - Nairobi

Começou

Largada da Maratona de Nairobi, realizada ontem no Quênia (foto Reuters).

A prova marcou o início da edição 2007/2008 da competição A Maior Corrida da Terra, que congrega quatro maratonas e é disputada em revezamento por equipes representando países.

Na primeira edição, o anfitrião saiu vencedor no masculino, mas a China papou a prova feminina.

O Brasil até que não se saiu mal na prova masculina, ficando em sexto lugar: Everton Moraes correu em 2h29min07 contra 2h21min05 do vencedor.

Na prova feminina, a história foi outra. Deve ter ocorrido algum problema com Luiza da Silva, cuja melhor marca, segundo o site da prova, é 2h37: ela terminou em último lugar, com tempo registrado de 5h30. A vencedora fechou em 2h47min37.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h13

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Maratona cruza dois continentes

Esporte e protesto

Milhares de pessoas correm da Ásia para a Europa cruzando a ponte do Bósforo, em Istambul, que une os dois continentes. A 29ª edição da Maratona da Eurásia, realizada domingo, foi também palco de manifestações políticas, com muitos corredores levando bandeiras turcas --um protesto contra a violência dos rebeldes curdos, segundo a agência de notícas AP, que mandou a foto.

Para sabe mais sobre a situação na Turquia, leia AQUI texto da Folha Online.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h13

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Nike oferece meio bilhão de dólares pela Umbro

Consolidação

 O negócio ainda precisa ser aprovado pelos acionistas da Umbro, mas está praticamente sacramentado: a Nike passará a ser a dona da marca inglesa, que fornece uniformes para a seleção de futebol da Inglaterra, da Noruega e da Suécia, entre outras.

Com a oferta de US$ 582 milhões pela empresa, a gigante norte-americana fortalece sua posição na Europa, casa de sua eterna rival Adidas. Por sinal, neste ano as duas já entraram em choque, quando a Nike tentou tomar da Adidas o contrato de fornecimento de material esportivo para a seleção da Alemanha.

Não conseguiu.

No ano passado, a Adidas deu um grande passo ao comprar a Reebok (um negócio de quase US$ 4 bilhões), que tem um portfólio de produtos mais amplo que o da Umbro.

De qualquer maneira, sem contar a aquisição da Umbro, as duas estão pau a pau no mercado futebolístico.

De um faturamento de US$ 40 milhões no segmento, no início da década passada, a empresa atingiu uma receita global de cerca de US$ 1,5 bilhão. Também nesse terreno, a Adidas anunciou faturamento de US$ 1,71 bilhão no ano passado.

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h02

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A maior corrida do planeta

Brasil neles!

Começa no próximo domingo a edição 2007/2008 da Maior Corrida da Terra, uma série de quatro maratonas que funcionam como espécie de super-revezamento. Participam equipes de quatro corredores, e cada um corre uma das provas. No final, o time vencedor é determinado pela soma dos tempos.

A primeira corrida é no Quênia, em Nairobi. Depois haverá uma prova em Cingapura, em 2 de dezembro; a seqüência fica para o ano que vem: Mumbai, na Índia, em janeiro, e Hong Kong, China em fevereiro.

O Brasil compete com times no masculino e no feminino.

A equipe masculina é integrada por Everton Luduvice Moraes, Junio Pereira, Jeovanio Braga Neres e Santiago Francisco Araujo.

O time feminino entra com Luzia Aluízio Da Silva, Rozereni Ferreira Morais, Rosangela Figueredo Silva e Elizabeth Esteves de Souza.

O prêmio é apetitoso: US$ 100 mil para a equipe vencedora em cada categoria, mais prêmios menores para campeões regionais.

Pelos tempos registrados na edição 2006/2007, porém as equipes brasileiras vão ter de correr muito para beliscar alguma coisa.

O campeão em Nairobi-06, por exemplo, fez 2h14min59; a vencedora no feminino completou em 2h32min46.

Confesso minha ignorância em relação aos nomes nacionais. Pela página da prova, Everton é quem tem o melhor tempo na vida: 2h15; os demais fizeram sua melhor maratona em 2h35. Entre as mulheres, Luzia e Rozereni têm 2h37, e Rosangela e Elizabeth, 2h40.

Conheço apenas o Santiago, que foi bicampeão da maratona da Disney, passou a vender pães especiais no Ibirapuera, e hoje dá treinos lá no parque. Pelo visto, continua correndo. Tomara que se dê bem.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h51

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Supermaratona de Nova Friburgo - a missão

Chegou

Recebi ontem, um mês e um dia depois da realização da Supermaratona de Nova Friburgo, a camiseta de concluinte, o diploma e a etiqueta com meu nome, tempo e classificação.

O material, que deveria ter sido entregue na hora, chegou pelo correio, como os organizadores tinham prometido.

Enfim, não diminui em nada a bagunça e desorganização que foi o pós-prova, mas pelo menos o material devido foi entregue.

Espero que os outros corredores prejudicados também já tenham recebido.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h31

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Zebra encontra golfinho

Quem está onde?

 

O encontro tête-à-tête parece impossível, mas aconteceu no parque Six Flags Discovery Kingdom, na Califórnia, que sofre com terríveis incêndios.

O nosso amigo Beauregard, uma jovem zebra macho, fazia sua passeio diário pelo parque quando parou perto do tanque do golfinho Brandy.

Para os fotógrafos oficiais, foi sopa no mel (Dilvugação/AP).

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h51

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EUA selecionam seus maratonistas olímpicos

Muita grana na jogada

Um prêmio de US$ 250 mil --cerca de meio milhão de reais-- será distribuído aos vencedores da prova que vai selecionar a equipe norte-americana para a maratona olímpica.

O campeão da seletiva leva US$ 60 mil, e cada um dos três selecionados ainda vai ganhar do New York Road Runnes Club uma bolsa de treinamento de US$ 20 mil, pagável após Pequim-08.

O medalhista olímpico Meb Keflezighi, nascido na Eritréia, lidera um grupo de 134 atletas que vão disputar as vagas nas ruas de Nova York no próximo dia 3 de novembro, véspera da Maratona de Nova York.

O recordista norte-americano Khalid Khannouchi (nascido no Marrocos) estará entre eles, assim como Alan Culpepper, que venceu a última seletiva.

O percurso da corrida é basicamente uma série de voltas no Central Park. A prova vai começar em frente ao Rockfeller Center, na rua 50 pertinho da Quinta Avenida.

Os corredores vão passar por marcos da cidade, como Radio City Music Hall, Times Square e Carnegie Hall, e depois entram no parque. O final será em frente ao restaurante Tavern on the Green.

A questão é: será que algum corredor efetivamente nascido nos EUA será selecionado?

A seletiva femina está marcada para abril do ano que vem, na véspera da Maratona de Boston.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h23

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Brincadeiras na Geórgia

Ai, que vontade que dá

Garoto pula de um teto a outro durante as celebrações festivas do Tbilisoba, um feriado em homenagem a Tbilisi, a capital da Geórgia. Ao fundo, na foto AP, uma igreja construída no século 13.

O nome da cidade, fundada no século 5, deriva da palavra tpili, que, no antigo idioma local, signfica quente. A cidade, portanto, seria um "local quente", referência às fontes sulfúricas da região.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h25

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Adolescentes são destaque na Maratona de Pequim

Teste olímpico

Ao que dizem as agências internacionais, tudo correu bem na maratona de Pequim, que neste domingo funcionou com uma espécie de ensaio para a Olimpíada do próximo ano.

Os corredores cruzaram a cidade em fase final de preparo para os jogos --na foto da AP, passam pelo centro Aquático Nacional, conhecido como Cubo Aquático, que vai sediar as competições de natação e saltos ornamentais.

A prova foi marcada por excepcionais performances de jovens chineses. Ren Longyun, que acaba de completar 20 anos, disputou a liderança quase até o final, mas não agüentou a arrancada do queniano Nephat Kinyanjui, que fez o melhor tempo de sua vida ao terminar em 2h08min09. Longyun fechou sete segundos depois _novo recorde nacional_, seguido pelo compatriota Han Gang (2h08min56).

Se no masculino os chineses demonstram que serão páreo duro no ano que vem, no feminino, então...

As garotas chinesas fecharam o pódio, lideradas pela adolescente Chen Rong, 19, que já está em sua quinta maratona e correu em 2h27min05. Suas companheiras de frente são também garotinhas: Zhang Yingying tem 17 anos, e Bai Xue, 18. Ambas terminaram em menos de 2h28.

Cerca de 25 mil pessoas participaram do evento.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h25

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Longuinho domingueiro

Invasão na Sumaré

A avenida Sumaré, tradicional palco de treinos dos corredores e caminhantes da zona oeste da cidade, foi invadida hoje por uma turma veloz e colorida.

De camisetas laranjas, brancas ou até cor-de-rosa, os atletas da Turma do Horto mandaram ver na alameda no que parecia ser um longuinho coletivo.

Um deles me disse que o grupo deveria ter uns 60 ou 70 atletas; de fato, não paravam de passar, alguns muito rápidos, outros num ritmo mais normal (para mim).

Eu já tinha ouvido falar da equipe, mas não tinha idéia que era tão grande.

Parabéns, pois fazer treino longo e no ritmo que muitos estavam, sob o solaço de hoje, não era fácil, não.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h58

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Menino de 13 anos faz ironman nos EUA

Ironcriança

No riquíssimo Estados Unidos, uma família de triatletas investe na continuidade da espécie levando o filho a disputar competições mais adequadas a corpos adultos.

No dia 29 de setembro passado, Hunter Lussi, de 13 anos, tornou-se o sujeito mais jovem a completar um Ironman. O garoto, que cursa a oitava série, participou do ChesapeakeMan Ultra Distance Triathlon em Cambridge, Maryland, enfrentando, tal como os adultos, 3.800 metros de natação, 180 km de pedal e uma maratona.

Inspirado por Craig e Jeannette, seus pais triatletas, Lussi fez seu primeiro triatlo quando tinha seis anos, nadando cerca de 500 metros, pedalando 16 km e correndo 4 km. Aos 10, fez seu oprimeiro tratlo olímpico e, no ano passado, tornou-se o mais jovem meio-Ironman.

Por causa da idade, não foi aceito no Mundial de meio-Ironman, no Havaí. Mas conseguiu vaga na prova de Maryland, tornando-se o mais jovem da história a completar a distância. A discutível honra era de Michael Collins desde 1979, quando o então garoto de 14 anos completon o Ironman do Havaí.

Lussi fechou em 15h27min26.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h51

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Maratona de Amsterdã

Belas estréias

O queniano Richard Limo fez hoje sua estréia no nobre terreno das maratonas. E, para não deixar barato, foi logo queimando o asfalto holandês: terminou em 2h06min45.

Mas o tempo não foi suficiente para lhe dar a vitória, pois seu compatriota Emmanuel Mutai, que até hoje não fizera mais que o limitado tempo de 2h13min06, voou para completar em 2h06min29.

Foi o segundo melhor tempo do ano, atrás apenas do novo recorde mundial, estabelecido por Haile Gebrselasssie em Berlim.

Na prova feminina, a queniana Magdaline Chemjor, 28, também debutou nos 42.195 metros. Para comemorar o feito, foi logo ao posto mais alto do pódio. Fechou em 2h28min16.

No total, 24 mil corredores participaram da Maratona de Amsterdã, estabelecendo novo recorde de presença na prova, que tem um belo final no estádio olímpico (foto Divulgação).

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h40

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Alberto Salazar sofre nova cirurgia

Coração bloqueado

O ex-campeão da maratona de Nova York Alberto Salazar, talvez o maior maratonista norte-americano da história, sofreu nova cirurgia no coração neste mês, depois de passar mal pouco antes de iniciar o treino de um de seus atletas em Eugene, Oregon.

O próprio corredor levou Salazar aos hospital, e os médicos decidiram imediatamente implantar um stent (dispositivo que facilita o fluxo sangüíneo em artérias obstruídas) ao constatarem que ele tinha 90% de uma artéria esquerda obstruídos.

Salazar, 49, já tinha passado por cirurgia semelhante neste ano, depois de ter sofrido um ataque cardíaco em junho no campus da Nike.

Ele passou um mês em recuperação e, aos poucos, retomou os exercícios. Atualmente, estava correndo cerca de sete quilômetros por dia a um ritmo de cinco minutos por quilômetro.

No período, levou seus atletas a várias competições internacionais e foi chefe de equipe no Mundial de atletismo no Japão.

Se você se interessa em saber mais sobre esse grande corredor, recomendo a leitura do livro "Duel in the Sun", que tem o longo subtítulo de "Alberto Salazar, Dick Beardsley and America’s Greatest Marathon" (Rodale Inc., 2006).

O livro do jornalista John Brant revive a disputa épica da maratona de Boston de 1982, quando Salazar e Beardsley correram a prova toda juntos, chegando ao fim com apenas um segundo de diferença.

O autor entrevista os dois atletas e utiliza registros de jornais e TVs para enriquecer o relato, mas eu gostaria mais se a palavra dos corredores estivesse mais presente. nem parece que o cara efetivamente fez as entrevistas.

O bom é que Brant conta um pouco da história pregressa dos dois e também do seu futuro. Mas fica forçando a barra para enquadrar cada um num estereótipo, quando todos sabemos que qualquer pessoa é muito mais que qualquer rótulo.

Salazar é durão, sofisticado, altivo, prepotente _enfim, o dono da bola. O outro é um sujeito simples, ingênuo, boa gente, vítima das circunstâncias.

Depois de Boston, o prodigioso Salazar passou a dar resultados aquém de sua expectativa, caiu em depressão, descambou para a religiosidade exacerbada e conseguiu voltar a ter alegria de correr na base do Prozac. Beardsley, o garotão do interior, que sempre quis ter uma vidinha rural, acabou viciado depois de sofrer um acidente de trabalho. Chegou ao crime para manter seu vício, mas conseguiu se reerguer.

Bem, de qualquer forma, o texto é razoavelmente fluente e agradável, ainda que pareça pender para um dos lados. Não conheço tradução. Várias livrarias brasileiras fazem serviço de importação, que eu utilizei e me pareceu mais confortável do que a compra direta pela Amazon (preço de capa: US$ 22,95, mas sem acha por menos), que é uma outra opção.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h08

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Foto do dia

Coisinha fofa

Garota alimenta seu belíssimo samoieda durante exposição internacional de cães em Budapeste (foto Reuters).

Esse foi apenas um intervalo nas nossas conversas sobre corrida.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h53

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7ª Maratona Internacional de Santa Catarina

Mico do Ano

A Maratona de Santa Catarina, marcada para o primeiro domingo de novembro, nem foi realizada ainda e já pode levar o título de Mico do Ano entre as provas oficiais de 42.195 metros neste país.

Isso porque a prova trocou de data várias vezes, dando oportunidade e um mundo de informações desencontradas, prejudicando os treinos e a programação de gente que, como eu e você, treina duro para tentar melhorar o desempenho ou, pelo menos, manter uma boa imagem de si mesmo ao terminar uma prova.

Não raro, o corredor planeja sua participação em uma maratona com até um ano de antecedência. São meses de treino para chegar ao ápice da forma. E, quando o sujeito chega lá, fica sabendo que a corrida trocou de data.

No ano passado, a Maratona de Santa Catarina foi realizada em agosto, no Dia dos Pais, quando o clima costuma ser agradável em Florianópolis. Não o ideal para maratonas, mas bem simpático. No ano passado, fez um calor infernal, o que, ao lado do atraso na largada, prejudicou bastante o desempenho.

Eu levei mais de 1h30 para completar meus últimos 12 quilômetros. É bem verdade que entrei na prova no vai-da-valsa, contrariando orientações de meu técnico, que queria apenas um longo com qualidade (eu deveria parar no km 30).

Bem, mas se a gente não pode fugir dos caprichos do clima, deveria, pelo menos, ter organizadores de confiança que mantivessem o planejado.

Não foi o que aconteceu com a plana e rápida prova de Floripa, que é bem bonita, mas também chatinha por conta das tantas vezes que a gente passa pelo mesmo ponto.

Neste ano, a confusão é tanta que o site da Fesporte identifica a prova deste ano como a sexta edição (é a sétima) e traz zero de informação relevante para os corredores. A falta de informações adequadas e claras também é marca do site da Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina, para onde é encaminhado quem clica no link "Visite o site do evento", no serviço de inscrições on-line.

Por essas e por outras, muita gente desistiu ou trocou para Curitiba, que é quente e tem um percurso mais desafiador, mas tem fama de acolher os corredores com carinho (eu falo de ouvir dizer, pois nunca fui nessa prova).

É uma pena. Tomara que o governo de Santa Catarina, responsável pelo evento, aprenda com os erros deste ano e melhore no ano que vem. E há muito o que melhorar.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h12

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Mesmo baixa intensidade de exercício faz bem

Pouco e bom

Se o seu interesse em exercício é melhorar sua condição física geral, saiba que não precisa temer altas doses de caminhadas aceleradas ou corridas intensas para conseguir os desejados benefícios para a saúde.

Uma recente pesquisa feita na Universidade de Ulster, na Irlanda do Norte, mostrou que meia hora de caminhada rápida, três vezes por semana, já é o suficiente para reduzir a pressão e propiciar alguma emagrecidinha.

A pesquisa envolveu cem funcionários públicos saudáveis, mas sedentários, que se engajaram em um programa de exercícios por 12 semanas. A dieta da turma, cuja idade variava de 40 a 60 anos, não foi modificada no período.

O grupo foi dividido em três pelotões: um que nada fez, outro que passou a fazer 30 minutos de caminhada rápida três vezes por semana e um que fez a mesma atividade, mas cinco vezes por semana (como é o recomendado).

A pressão e as medidas da cintura e do quadril caíram significativamente nos dois grupos de caminhantes.

"Pequenas reduções na pressão e nas medidas são suficientes para fazer uma diferença no nível de risco de morte por doença cardiovascular", afirmou o doutor Mark Tully, do Instituto de Pesquisa em Saúde e Ciências da Reabilitação da UU.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h14

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Ironman do Havaí

Salve, simpatia

Veja só o jeitão de Chrissie Wellington, da Grã-Bretanha, com as honras de campeã em Kona. Abaixo, o campeão na geral, Chris McCormack (fotos AP).

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h23

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2º Mundial de Corridas de Rua

De meião

A nova recordista mundial dos 20 km e da meia-maratona, Lornah Kiplagat, da Holanda, corre para vencer o Mundial de corridas de rua (foto AP).

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h10

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2º Mundial de Corridas de Rua

Mais pro Marílson

Ainda não há confirmação oficial, mas, a julgar pelas passagens divulgadas, o Marílson pulverizou hoje também as melhores marcas sul-americanas em corridas de rua nos 10 km, nos 15 km  e nos 20 km. Tudo no Mundial de Corridas de Rua, em Udine, onde ele bateu o recorde sul-americano de meia-maratona.

Compare as passagens com os dados informados no site da Confederação Brasileira de Atletismo.

Nos 10km, passou em 27min48 --o recorde era de Antonio Fabián Silio (ARG),  27min52 (18/08/90).

Nos 15 km, cravou 42min15, bem melhor que os 42min41 de Valdenor Pereira dos Santos (28/03/94) e Ronaldo da Costa (26/02/94)

Finalmente, nos 20 km, Marílson passou com 56min32, longe, muito longe da marca de Emerson Iser Ben (59min52 em 09/06/96).

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h00

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2º Mundial de Corridas de Rua

Marílson da América

O brasileiro Marílson Gomes dos Santos, campeão da maratona de Nova York, terminou na sétima posição no Mundial de corridas de rua, realizado hoje em Udine, Itália.

Cravando 59min33, foi o último dos sete atletas que correram a meia-maratona para menos de uma hora e estabeleceu novo recorde sul-americano. Sua melhor marca já durava sete anos (1h02min12 no Rio).

Mas a marca de Marílson é mais importante ainda como indicação de seu ótimo preparo para enfrentar a dureza de Nova York, onde ele vai defender seu título no primeiro domingo de novembro.

O ouro hoje foi para Zersenay Tadese, da Eritréia, que se sagrou bicampeão mundial depois de escapar do pelotão, aos 57min de prova, para acelerar e terminar em 58min59, melhor marca já estabelecida em Mundiais.

Tadese, 25, também é o atual campeão mundial de cross country.

O segundo colocado foi o queniano Patrick Makau Musyoki, que chegou longos três segundos mais tarde, seguido por Evans Cheruiyot (59min05).

"Parecia que toda a Eritréia estava correndo comigo", disse o campeão, que foi saudado por muitos compatriotas _em Roma, a 650 km de Udine, há uma grande comunidade de imigrantes daquele país africano.

"O apoio deles foi muito importante para mim", saudou Tadese.

Também importante foi a capacidade que o campeão demonstrou de administrar a prova, em que começou na dianteira mandando ver.

Quando chegou ao km 15, porém, decidiu que era hora de dar um tempo, pois o ritmo estava muito forte e três adversários continuavam com ele no primeiro pelotão.

"Nenhum deles queria puxar, nenhum estava em condições de me ajudar com o ritmo", disse Tadese. "Então resolvi segurar um pouco para ir para a vitória. Fui para trás deles e planejei sair quando faltasse um quilômetro".

Assim pensou e assim fez, sem que ninguém pudesse fazer nada.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h41

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2º Mundial de Corridas de Rua

Recorde no asfalto

Nascida no Quênia, a hoje holandesa Lorna Kiplagat já dizia, durante a semana, que 20 km e meia-maratona eram as distâncias que ela mais gostava de correr. E hoje, nas ruas da italiana Udine, ela mostrou que tinha razão: quebrou o recorde mundial das duas distâncias e levou o título mundial de corridas de rua, competição oficial da IAAF (federação internacional de atletismo).

Ela pulverizou sua própria marca nos 20 km, tirando 24 segundo dos tempo que estabelecera em Debrecen há um ano e cravando 1h02min57 (tempo não-oficial, a confirmar).

Daí começou a correr de verdade para levar o ouro e fechar a meia-maratona em 1h06min25. Com isso, derrubou em 19 segundos a marca que a sul-africana Elana Meyer havia estabelecido há oito anos.

Ainda que o recorde mundial oficialmente reconhecido seja agora da holandesa nascida no Quênia, a marca mais rápida continua nas mãos (e nos pés) da britânica Paula Radcliffe, que correu 1h05min40 em 2003, mas o percurso tinha inclinação acima do aceito pela IAAF.

A segunda posição foi da queniana Mary Keitany, que quebrou o recorde de seu país ao marcar 1h06min48 (um segundo abaixo da marca anterior, que já durava oito anos). Ela foi seguida por sua compatriota Pamela Chepchumba (1h08min06).

Feliz com a vitória e com os prêmios (US$ 30 mil pelo ouro e US$ 50 mil pelo recorde), ela parecia ainda mais feliz pelos cada vez melhores resultados femininos: "No Quênia, durante anos as pessoas não acreditavam que as mulheres pudessem correr tão bem", disse ela, completando: "Veja agora, estou aqui com o uniforme holandês e tenho duas garotas do Quênia comigo: isso é a demonstração do desenvolvimento das corredoras quenianas".

Kiplagat corre pela Holanda há quatro anos, desde que casou com Pieter Langerhorst, que é também seu treinador.

A brasileira mais bem colocada foi Ednalva da Silva, a Pretinha, que fechou em 1h14min23, na posição 41. Lucélia Peres terminou no 48º lugar, em 1h15min39, entre as 56 moças que completaram a meia-maratona.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h08

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Ironman do Havaí

Sorriso de campeã

Esse é um inusitado final de Ironman: a garota que dominou o terreno vem sorrindo o tempo todo desde não sei quantos quilômetros faltando para o final. O narrador chega a pedir que ela ao menos faça uma careta de vez em quando, apenas para fingir que está sendo difícil.

Quando ela estava na milha 22, já sabia que ia levar. Há poucos segundos, com mais de um quilômetro e meio para a chegada, ela pegou a bandeira da Grã-Bretanha, absolutamente segura de que venceria.

As lágrimas correm pelo seu sorriso, ela sabe que está mais do que ganhando, está fazendo história, pois será a primeira inglesa a levar o título. Essa é uma marca insuperável.

Até agora não escrevi o nome da moça. É Chrissie Wellington, que venceu na Coréia do Sul e se tornou profissional neste ano.

Foi divertido acompanhar os narradores comentando que a garota não usava meias compridas, mas mesmo assim conseguia correr bem a maratona, numa referência ao visual pouco convencional envergado por Paula Radcliffe, a britânica dona do recorde mundial da maratona.

A moça é absolutamente impressionante. Depois de mais de oito horas e meia de prova, parece completamente relaxada, descansada, sorri e vai chegando para a vitória.

Ela caminha pelo tapete, saúda o público e finalmente termina, a primeira mulher da Grã-Bretanha a vencer o Mundial de Ironman, completando o percurso em 9h08.

Disse que alguns lhe disseram que tinha uma chance, mas ela não acreditava. "Eu esperava poder agüentar a corrida". Agradeceu ao treinador e saudou o pai. Parecia mal estar suando.

"É um sonho que virou realidade. É sensacional", disse ela.

Escrito por Rodolfo Lucena às 22h05

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Ironman do Havaí

Tá rolando agora

Os homens ainda estão correndo, e a primeira mulher deve chegar dentro de alguns minutos: é o Mundial de Ironman rolando em Kona, no Havaí.

É sensacional a cobertura que faz o site oficial, com narração quase ao vivo por escrito e transmissão de vídeo ao vivo on-line em altíssima qualidade.

O campeão masculino foi Chris McCormack, que disse ao chegar: "Eu troquei meu sonho olímpico por isso. Meu pai sabe o que isso significa para mim".

Ele completou em 8h15min34 os 3.800 metros de natação, 180 km de pedal e 42,2 km de corrida. Foi recebido na linha de chegada pela mulher e pelo pai.

Até agora não apareceu nem um brasileiro.

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h42

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A confissão de Marion Jones

Há mais para devolver

Hoje o mundo tem certeza de que a superatleta norte-americana Marion Jones, que ganhou cinco medalhas (três de ouro) na Olimpíada de Sydney, não era tão super assim. Ela confessou ter usado doping e, na Justiça, aceitou acordo para revisão de todos os resultados e confisco de medalhas e prêmios a contar de primeiro de setembro do ano 2000.

O Comitê Olímpico dos Estados Unidos vai devolver ao Comitê Olímpico Internacional as medalhas de ouro que ela conquistou de forma fraudulenta nos 100 m, nos 200 m e no revezamento 4x400, mais o bronze do salto em distãncia e do 4x100 (na foto AP de 2000, Jones mostra suas glórias).

Mas Marion Jones tem mais a perder. O Comitê Olímpico norte-americano quer que ela devolva os prêmios em dinheiro que recebeu do próprio comitê, cerca de US$ 100 mil.

Segundo as regras da IAAF, a Fifa do atletismo, os atletas punidos por doping podem ser obrigados também o dinheiro recebido em prêmios e luvas por presença em competição. O velocista britânico Dwain Chambers, que admitiu ter usado drogas ilegais, teve de devolver US$ 230.615 para poder voltar a ser aceitou em competições oficiais, mesmo depois d euma suspensão de dois anos.

Os valores recebidos por Jones desde 2000 estão na casa dos milhões. Ela levou, por exemplo, uma fatia do prêmio de US$ 1 milhão da Liga de Ouro em 2001 e em 2002.

Mas, mesmo que a comunidade do atletismo internacional continua nessa cruzada antidoping, o resultado da punição da Jones pode ser a glória para outra atleta sobre quem paira uma nuvem de dúvidas.

Trata-se da grega Katerina Thanou (foto AP, Sydney-00), que levou a prata em Sydney e está na boca do ouro, se os resultados de Jones forem mesmo anulados pelo Comitê Olímpico, como deve acontecer. Thanou esteve no centro de um escândalo nos Jogos de Atenas, quando ela e seu compatriota Kostas Kenteris, também corredor, não apareceram para um exame de doping na véspera da Olimpíada. Eles disseram que tinham se envolvido em um acidente de moto e se safaram na hora, mas foram depois suspensos por dois anos.

Nas outras modalidades, os herdeiros são a Jamaica (4x400) e a França (4x100) nos revezamentos. Pauline Davis-Thompson, das Bahamas, levou a prata nos 200 m, e Tatiana Kotova, da Rússia, foi a quarta no salto em distância.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h27

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4ª Corrida Santos Dumont

Recorde pessoal

Trago para você relato do colega Adalberto Leister Filho, repórter de Esporte aqui na Folha. Ele hoje completou, com recorde pessoal, sua 11ª corrida do ano. A conquista foi na 4ª Corrida Santos Dumont, no Campo de Marte, zona norte de São Paulo. Leia a seguir o que ele nos conta.

"Na largada, às 8h, já havia um pouquinho de sol. Esse acho que foi o principal empecilho para os participantes. Não cheguei a encontrar nenhum termômetro nas avenidas que percorremos, mas creio que a temperatura deve ter alcançado ao menos os 25ºC. Vi dois corredores estirados na sarjeta, passando mal por causa do esforço. Na chegada, um posto médico atendia os mais necessitados.

"Tirando um pouco de trânsito logo após a partida, o limitado número de inscritos _creio que umas 2.000 pessoas_ fez a prova fluir bem.

"A organização prestou ótimo auxílio aos corredores, com postos de água a cada dois quilômetros, o que dava para se hidratar, refrescar e planejar o esforço.

"Ultrapassei a marca de 8 km com meu cronômetro acusando 40 minutos de corrida. Deu para dosar bem o esforço no final. Meu ritmo caiu, pois já estava um pouco cansado e o freqüencímetro às vezes me alertava para o excesso de esforço.

"Cruzei a linha em 51min29s, quase um minuto abaixo de minha melhor marca pessoal, que já durava três anos (tinha sido um 52min20s em 2004, numa das etapas do Circuito Track and Field do Shopping Villa-Lobos, com percurso também bastante plano).

"Duas garrafinhas de isotônico foram suficientes para aplacar a sede e recuperar líquidos e sais minerais perdidos. Que venha a próxima (e corridas bacanas em São Paulo até o final do ano é que não faltam!)."

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h22

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Político mexicano diz que não trapaceou em Berlim

Caminhos cortados

Continua rolando na internet a polêmica história do ex-candidato à presidência do México Roberto Madrazo, que foi desclassificado na maratona de Berlim, no dia 30 de setembro passado, acusado de cortar caminho.

Ele tinha vencido na sua faixa etária, 55+, mas perdeu o título quando foi constatado que ele cortou caminho, deixando de correr quase 15 quilômetros.

Ao longo dos dias seguintes, foi motivo de chacota e vergonha no México, e agora ele distribuiu à imprensa de seu país uma carta de sete páginas endereçada à comunidade esportiva mexicana.

Diz que não tinha intenção de fazer trapaça e que nem sequer planejara terminar a prova, até mesmo por razões médicas. "Parei no km 21 e fui direto para a chegada para pegar minhas coisas e minha medalha de participação, que é dada a todos corredores, sem exceção", afirma ele no texto.

Mas o texto não explica porque ele passou a linha de baços abertos, correndo, na maior comemoração, conforme mostra a foto acima (AP). Também não comenta porque levou tanto tempo para divulgar sua versão.

O fato é que essa bagunça joga luz sobre um problema que ocorre entre amadores: o atleta que corta caminhos. Em vários fóruns, estão sendo citados corredores de rua brasileiros conhecidos por essa prática; há até o caso de um sujeito que "correu" a maratona de Nova York usando o sistema de metrô da cidade.

Confesso que não consigo entender esses sujeitos, pois a maioria nem sequer vai disputar prêmio na categoria; trata-se apenas de chegar antes, mas sem mérito de correr a prova toda.

Já vi um caso desses na maratona de Porto Alegre, em 2000. Eram dois sujeitos correndo juntos, pouco à frente deste blogueiro. Eu tentava chegar, mas eles estavam sempre um pouco mais rápidos. Pouco antes da metade da prova, onde havia um posto de controle, eu passei os dois caras e fui em frente.

Nunca mais os vi, até lá pelo km 35, mais ou menos, quando eles voltam a aparecer na minha frente. Apesar do aparente corte de caminho, não tinham economizado muita energia, pois voltei a passá-los e terminei antes.

Talvez você também já tenha presenciado fatos semelhantes. Se achar interessante, mande a história.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h34

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3ª Maratón de Guayaquil

Palco da resistência

A unha do dedão de meu pé direito não cobre toda a carne: deixa de fora alguns milímetros, que formam uma espécie de borda protetora. A parte extrema da unha, geralmente mais esbranquiçada, está tingida por restos de hematoma e resquícios de antigos ferimentos. Do lado direito, chegando a tomar um pedacinho da linha dianteira, há uma mancha ainda mais escura, no formato do mapa da Austrália, sugerindo camadas sucessivas de tecidos machucados e reconstituídos. O resto está doloridamente cor-de-rosa.

Roxa, a unha do segundo dedo, que teima em ficar roçando seu companheiro de maior porte, apresenta diversos tons e várias camadas. A ponta parece querer desabar, mas é só impressão (espero).

A do dedo do meio, no pé direito, tem aparência normal, à primeira vista, mas uma olhada mais detida revela o tom rosáceo denunciador de sofrimento.

Todas elas ainda dóem, três dias depois de eu ter completado a maratona de Guayaquil, no Equador, que tem percurso em boa dose plano e que me devolveu ao terreno da humildade atlética de onde eu nunca deveria ter saído.

Correr uma maratona, seja qual for e seja quem você for, exige respeito, consideração, carinho, preparação. Eu não estava oferecendo a ela nada disso quando dei a primeira passada na ponte 5 de Junio, na madrugada no dia 7 de outubro.

Minutos antes, na verdade, até fazia pouco dos organizadores. É que, às 4h45, um grupo de operários ainda forcejava montando a estrutura para o pórtico de largada da prova, enquanto ao lado outros trabalhadores tratavam de encher o inflável que cobriria o esqueleto de tubos de aço.

Nunca que iria começar na hora, pensei, e logo fui desmentido pela turma que, com apitos, chamava patinadores e cadeirantes para a linha de saída, convocando em seguida os corredores.

Na hora exata, o pórtico estava montado. Em seguida, os corredores nos apertamos, naquele movimento pré-largada de tentar chegar mais perto da linha. O apito soou menos de cinco minutos depois da hora marcada, e saímos trotando pela avenida 9 de Octubre com o céu ainda escuro, o percurso iluminado pelas luzes dos postes, faróis de carros parados nas transversais e luminosos de lojas.

Guayaquil é uma cidade plana, sentada às margens do rio Guaya, pouco antes do golfo que entrega as água ao Pacífico. Maior metrópole do país, com quase 3 milhões de habitantes na região metropolitana, é também o maior porto do Equador e centro da economia nacional.

O traçado das ruas é reto, e elas são perfeitas paralelas. Do céu, a imagem é de um tabuleiro de xadrez _com variantes.

Descendo pela avenida em direção ao malecón _calçadão na beira-rio com um sem-número de atrações, de miniportos de acesso a barcos que fazem passeios turísticos a museus muito legais, parque infantil, lanchonetes e galerias comerciais_, passamos pelo parque Centenário, que homenageia a independência da cidade e onde eu queria ter dado um trotinho no dia anterior, pelo menos para soltar os músculos e aliviar a tensão pré-prova.

Agora, não dá mais para pensar no que fiz ou deixei de fazer. Como diz o ditado, "é no andar da carreta que as melacias se ajeitam". A maioria dos meus companheiros de corrida apresenta traços índios; são baixos, atarracados alguns, outros leves, de tez escura, o nariz andino, olhos puxando para o chino, cabelos pretos densos.

Perto deles uma veterana triatleta alemã parece gigante e se destaca na multidão. Ela corre com mais alguns sessõentões germânicos, que se surpreendem ao ver um brasiliani; um deles revela já ter participado da São Silvestre.

É a primeira e praticamente a única conversa que tenho ao longo de todo o percurso. Nesses minutos iniciais, dá para gastar fôlego em papo, mas é melhor observar a cidade, que despeja história de luta.

Uma área mais iluminada marca a passagem por La Rotonda, monumento em semicírculo em que são homenageados os libertadores Simon Bolivar e San Martin, que se encontraram exatamente em Guayaquil, em 26 de julho de 1822, quando supostamente acertaram táticas conjuntas na luta pela emancipação do jugo espanhol.

Pouco depois, em 9 de outubro, um cruento levante levaria a cidade à independência. Seu próprio nome, diz a lenda, estaria ligado à resistência contra a dominação. Vem da junção dos nomes do chefe índio Guayas e sua mulher Quill, que preferiram tirar a própria vida a se submeter aos invasores, nos idos de 1500.

Continua...

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h01

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3ª Maratón de Guayaquil - segunda parte

Dúvidas e reflexões

A cidade celebra sua independência, e a maratona hoje faz parte dos festejos, que enchem as ruas de um fervor cívico. Bandeiras azuis e brancas tremulam ao lado da bandeira nacional, e faixas advertem: "Si es con Guayquil es con migo".

A faixa foi a última coisa que vi antes de entrar no primeiro túnel do percurso, pouco depois do km 4. São cerca de 300 metros, calculo, pois o sinal do meu GPS se perde no espaço; é um tanto opressivo, mas não chega a dar medo. A vontade é de gritar para ovir o ribombar da voz, mas me contenho, porque sei que o grito me suga.

O túnel corta o morro onde ficam Las Peñas, colinas com casinhas pintadas, alamedas turísticas, que só conheci de ouvir falar e de ver à distância, do malecón. É uma área um pouco mais colorida na cidade de resto cinzenta, amarronzada, cor-de-burro-quando foge.

E segue o baile pela planura, na minha primeira maratona de um ano em que me dediquei a provas mais longas. Novamente passamos pelo túnel para voltar àté a avenida principal e seguir até a ponte da largada, onde termina a prova de dez quilômetros e começa a segunda parte do tripé em que a prova está desenhada.

Agora temos vista para uma região aparentemente mais pobre. Do lado de cá, uma avenido margeia o rio, há instalações militares, bairros até um pouco mais progressistas, o estádio do Barcelona, que também toma emprestadas as cores do time espanhol.

Quando fazemos o retorno, depois do estádio, temos uma visão melhor do que há do outro lardo do rio. São palafitas, casinhas que se estaqueiam no rio e se empilham umas ao lado das outras. Diferentes das favelas brasileiras, não são barracos de madeira e papelão, mas estruturas de blocos de cimento, dando um tom mortício à margem do rio.

Do meu lado, depois do estádio e subindo uma rara colina da cidade, outro favelão também nos mesmos moldes.

O dia já está no lusco-fusco, promete ser nublado, pelo menos nas primeiras horas. A temperatura continua razoável, em torno dos 20 graus celsius, mas a umidade é brutal, o suor empapa a camisa. Chegar à metade da prova, de novo na ponte 5 de Junio, é ainda mais agradável porque marca um dos raros momentos de brisa, secando e refrescando o corpo.

Até ali, fizera uma corrida tranqüila, de observação da cidade e do meu corpo, que havia apenas 15 dias tinha enfrentado, sem treino adequado, 50 quilômetros sob sol de 30 graus nas montanhas do Rio. Passara o km 10 com 1h03, a metada da prova com 2h14. Se tudo corresse bem, talvez pudesse terminar sem sofrer com 4h40, 4h45.

Descendo a ponte, uma placa aponta a direção para o km 22. Um cheiro forte toma conta, adensa o ar: são os eflúvios de uma fábrica de café (ai que vontade que dá). Ao lado dela, também na colina que olha a avenida por onde passamos, uma fábrica de chocolate não consegue vencer o perfume da vizinha.

Para mim, começa a contagem regressiva. Já corri mais do que falta para terminar, e os quilômetros serão engolidos aos poucos. Agora, minha atenção pela cidade é dividida com elocubrações sobre performance, ritmo, possibilidades: dos escaninhos mais fedidos do meu cérebro vêm ordens para relaxar, perguntas sobre as razões de tudo isso, advertências contra lesões futuras, sinais de dor extrema em um pontinho da perna, repuxes no quadril, pontadas no pé.

Tento peneirar as mensagens. O que será dor mesmo e o que será vontade de ter dor para justificar o relaxo? Quanto é culpa do calor ou culpa minha? Será mesmo que não dá para ir mais rápido?

Mas contra o ensaio de crítica vem o canto da sereia matemática, mostrando que posso caminhar quanto quiser que ainda assim conseguirei terminar a tempo de receber minha medalha. Será mesmo?

Continua...

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h00

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3ª Maratón de Guayaquil - final

Lições equatorianas

Continuo correndo e pensando, reclamando de mim mesmo, mas seguindo. O clima abafado é contrabalançado pela água gelada e bebida isotônica oferecidas com fartura, a intervalos curtos como nunca vira antes em nenhuma prova. O sofrimento, mesmo sob o céu encoberto e a temperatura abaixo da esperada, indica que, com sol a pino, dificilmente a empreitada seria levada a cabo.

Depois de uma retona interminável, mais uma pontezinha, passando o km 29 e dando vista para um templo enorme, brilhante de branco, no topo de uma pequena coxilha. É uma distração das dores, assim como o relevo um pouco diferente. Um esforcinho de subida compensado por uma descidinha leve, tudo ajuda o corpo a se mexer.

De volta para a avenida, corro ao lado do mangue, área protegida e fedorenta. Há um pequeno bosque e, depois, vegetação mais baixa, arbustiva. Festejo o dia nublado, mas me sinto esquentar só de pensar no bafo que estaria saindo do "estero", como chamam aquela área de mangue, estivesse o dia com sol aberto.

Depois do km 30, enfim me permito caminhar sem disfarces (antes, no 28 e no 29, fizera uns trotinhos sem-vergonha, de poucos metros), mas procurando manter a passada acelerada, que permita a retomada do ritmo da corrida.

Uma pontada no meio do quadril direito me faz mancar, e eu quase agradeço à dor que justifica a redução do ritmo. Os demônios perguntam qual o prazer disso tudo, e respondo voltando a correr, marcando adversários para alcançar, tentando encontrar um ritmo menos humilhante.

Mas há mesmo algum tipo de humilhação em ser mais lento, em correr menos rápido, em aceitar que há dores e que você pode se submeter a elas tanto quanto enfrentá-las? As reflexões perpassam minha corrida, me atrapalham um pouco, dão vontade de largar tudo isso, parar por ali mesmo, pois não há vantagem em fazer uma conquista que você sabe que é posssível se você se poupar.

Será? Poupar-se para a conquista também não seria uma arte? Nunca um percurso foi tão longo para permitir tantas elocubrações. Eu caminho cem metros, corro 500, caminho 200, corro mais um monte, e os quilômetros vão passando.

Depois do 36, só falta um Ibirapuera, mas é preciso corrê-lo. As retas são infindáveis e vão na direção errada: você sabe que haverá um ponto de retorno lá longe, mas não consegue vê-lo. Maldito 38 que não chega!

Tenho dores, mas não são nada perto das que parecem atingir outros corredores. Um sujeito que me passou várias vezes e que foi por mim ultrapassado outras tantas leva apoiadores particulares, que lhe fazem massagem a cada cinco ou dez quilômetros, sei lá. Quando cruzo com ele, o cheiro de arnica empesta o ar.

Outro, que vinha alternando caminhada e corrida com paradas para alongar agora aparece estirado na caçamba de um caminhão que vai recolhendo as mesas dos postos de água. A prova ainda está longe da hora final, mas as estações de abastecimento estão sendo reduzidas.

O que mais me dói é a consciência. Busco a alegria da corrida, mas encontro em mim filosofias sobre administração das capacidades físicas e mentais. É bem verdade que os pés também latejam a cada passo, mas as pernas já não me assustam mais.

Esparsos pela avenida, os corredores dividem o terreno com o trânsito matutino. Mesmo nesse bairro mais afastado, há movimento forte a essa altura da manhã. Nosso terreno é deliminado não por cones, faixas ou tinta, mas por recrutas da Infantaria da Marinha, centenas deles dispostos ao longo do percurso. Orientam o trânsito e incentivam os atletas.

Agora, no 41, um deles ergue os braços, incentiva, "si, se puede", falta pouco, fuerza, fuerza. Eu revejo a colina que observa a avenida. Primeiro, a fábrica de chocolate; depois, o cheiro forte, denso, do café equatoriano.

Com filosofia, dores verdadeiras ou planejadas, sofrimento, cansaço ou acúmulo de confiança injustificada, vou terminar essa prova. Talvez tenha sido, se é posssível a comparação, a mais difícil e desgastante em um ano em que fiz um 100 km, um 60 km e um 50 km, todos em condições adversas de clima e terreno.

É a reta final mesmo e enfim posso gritar: "Eleonora, eu tô chegando!". Mas não a vejo no pórtico nem noto suas roupas vermelhas na multidão cinza, pastel.

Corro e procuro por ela, que avisto afinal no alto de uma passarela, além do pórtico de chegada. O relógio quebrado só tem restos dos sinais digitais, marcando 3 98 88. Eu passo com 4h56 para abraçar Eleonora.

Estou inteiro, mas não estou pronto. Ainda vou precisar de tempo para entender o que essa maratona me ensinou, para saber, afinal, o que aprendi em Guayaquil.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h58

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Maratona é interrompida por causa do calor

Morte em Chicago

 

Um corredor morreu ontem, durante a maratona de Chicago, que ocorreu sob forte calor, incomum na cidade nesse período.

Chad Schieber, 35, era policial em Michigan. Ele passou mal na altura da milha 19 (pouco depois do km 30) e morreu ao chegar ao hospital, que ainda não informou a causa da morte. Na foto da AP, ele leva um banho ainda durante a prova, mas não adiantou.

Por causa do calor, que chegou a 31 graus, a maratona foi suspensa cerca de três horas e meia depois da largada.

Segundo os bombeiros, cerca de 315 corredores foram atendidos por ambulâncias por causa de males relacionados ao calor. Ainda hoje, pelo menos 25 pessoas continuavam hospitalizadas, nove delas em situação séria ou crítica.

Houve muita reclamação de falta de água no percurso em uma das cinco grandes maratonas do mundo, que teve a participação de cerca de 35 mil pessoas.

O vencedor foi o queniano Patrick Ivuti, com 2h11min11; no feminino, a etíope Berhane Adere levou a taça com 2h33min49.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h45

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Fala o ultra Carlos Dias - parte 1

A conquista do Brasil

Na semana passada, o administrador de empresas Carlos Dias estreou em seu novo emprego em uma empresa de recursos humanos _área da pós-graduação desse paulista de São Bernardo do Campo.

O trabalho foi um dos resultados concretos da última empreitada do ultramaratonista Carlos Dias, 34, que correu solitário de um extremo ao outro do Brasil, percorrendo 9.000 km do Oiapoque ao Chuí em cem dias. Seu espírito e suas conquistas se tornaram mais conhecidos, e ele, que tem atuado na organização de provas de longa distância, foi convidado para essa nova atividade.

Mais que ultramaratonista, ele é especialista em enfrentar a adversidade. Aos dois anos, perdeu o pai, morto a tiros por assaltantes que atacaram a empresa em que ele trabalhava como vigia.

A mãe, então analfabeta e faxineira na mesma empresa em São Bernado, tratou de cuidar dos três filhos --Carlos tem duas irmãs mais velhas. "Ela conseguiu", diz Carlos. "Os três têm faculdade, trabalham, e ela consegue ler uma notícia de jornal, uma revista. Ela é a maior vencedora de tudo."

Cada um trilho seu caminho. Aos 20 anos, ele fez sua primeira corrida, uma prova de 10 km na vila Prudente, em São Paulo. Desde então, correu mais de 60 maratonas e enfrentou grandes desafios no Grécia e na Holanda. Aqui no Brasil, correu três vezes a Maratona da Selva, além de completar o Desafio Mil Milhas.

Nesta entrevista exclusiva, Carlos Dias conta um pouco de sua trajetória do Oiapoque ao Chuí.

Folha - Como foi o trajeto de sua corrida?

Carlos Dias - Comecei lá no Oiapoque, Estado da Amapá, no dia 27 de maio, às 10h. Corrida por 11 Estados. Do Amapá, fui para o Pará, depois cruzei todo o Tocantins, entrei em Goiás, cruzei todo o sertão baiano, depois Chapada Diamantina, saí lá em Feira de Santana. Aí peguei a BR 101 direto até Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, depois Paraná, Santa Catarina e, finalmente, cheguei ao Chuí, lá no Rio Grande do Sul.

Folha - Terminou na fronteira.

Dias - Na fronteira com o Uruguai, no marco inicial do Brasil. Para mim, foi o marco final. No total foram 9.000 quilômetros. Dá um pouquinho a mais, mas eu arredondei para 9.000 quilômetros, em cem dias, 90 km a média geral. Terminei no dia 3 de setembro, às 4h45 da tarde. Eu pretendia terminar esse desafio em 110 dias, coloquei no site 120 para ter uma margem de segurança, se acontecesse uma coisa muito grave, que eu tivesse que ficar muito tempo parado...

Folha - E como você fez para se manter?

Carlos - Eu tinha um projeto programado para R$ 80 mil, incluindo gastos com equipe, levando cinegrafista, médico, custo de combustível, custo de hotel, salário, tudo. Trabalhei quase dois anos em cima disso para conseguir patrocínio. Mandei 400 propostas de patrocínio, para todas a resposta foi ‘Não‘.

Folha - Quatrocentas é o número mesmo que você mandou ou é força de expressão?

Dias - Número que eu mandei. Por telefone, por e-mail. No final, consegui R$ 10 mil de uma empresa, R$ 3.000 de outra, e fiz parcerias para divulgar o projeto, para conseguir apoio médico, roupas, a mochila, as coisas essenciais para que eu pudesse enfrentar a estrada sozinho.

Folha - O que você levava na mochila?

Dias - Na minha mochila, tinha um kit de primeiros socorros, um par extra de calçados, muda de roupa extra (eu lavava a roupa todos os dias), óculos, protetor solar, soro, barra de cereal, purê de batata e comida desidratada. Então, no início, no primeiro dia de prova, eu estava com 9,5 kg na mochila, que tinha um saco impermeável especial, onde eu colocava o celular e a máquina fotográfica.

Folha - E o celular funcionou?

Dias - Nenhuma empresa telefônica fez parceria comigo, então comprar cartões telefônicos para eu ligar para o pessoal, porque, se eu fosse dar uma entrevista e alguém me ligasse, era eu que pagava. Então, a comunicação foi muito por e-mail. Em todo o lugar que eu chegava que tinha uma LAN house eu ia lá e mandava notícias para o site. Esse meu projeto, além de tentar ser o primeiro brasileiro a fazer 9.000 km em cem dias, era de eternizar tudo isso aí num livro, colocando as dificuldades que o brasileiro enfrenta, em cada região, por exemplo, na parte ambiental, social, a violência que existe em cada local brasileiro, a parte cultural, não é?

Folha - E o que você viu de mais legal?

Dias - Ah, de mais bacana foi a cultura, como das aldeias indígenas em que eu fiquei, no Pará. A receptividade do povo, como o povo é solidário. Sem mesmo me conhecer, muitas pessoas que me cederam a casa. Abriram suas casas para me receber, para eu passar uma noite, me deram a comida, com todo carinho. Isso foi o que mais me surpreendeu. A própria natureza, também, que todo dia eu aprendia. Eu estava conversando com a natureza todos os dias. Eu virei parceiro do vento, ouvia o conselho das árvores, buscava inspiração, às vezes, na lua, quando corria à noite, nas estrelas. Então, quer dizer, a minha comunicação com a natureza foi constante, não é?

Continua...

Escrito por Rodolfo Lucena às 08h10

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Fala o ultra Carlos Dias - parte 2

Medo do escuro

Folha - Como você conseguiu apoio ao longo do caminho?

Dias - No início, a Prefeitura de Oiapoque me deu hospedagem lá, toda alimentação e me apresentou ao comandante do Exército lá do 1º BIS - Batalhão de Infantaria de Selva, onde eu dei uma palestra para os soldados. Eles se comprometeram a entrar em contato com algumas aldeias que eles conheciam, com as pessoas, sítios, lugares mais próximos lá e também me mandaram um batedor de moto, mias o secretário de Esportes do Oiapoque, também, me acompanhou durante sete dias, de moto, na estrada mais precária de lá, que ligava o Oiapoque a Macapá.

Era só lama, eu peguei época de chuva, justamente para não pegar aquele calor forte da Amazônia, mas havia bastante lama.

Nessa parte, eu tinha a escolta dessas duas pessoas, era um soldado do Exército e o secretário de Esportes, que parou praticamente a vida dele para me acompanhar durante sete dias.

Em cada cidade em que eu chegava, eu procurava a prefeitura, procurava a rádio, ligava para as TVs. Saía reportagem na imprensa local. Aí surgia um parceiro de hotel, restaurante, casas que ofereciam, a Polícia Rodoviária Federal, alguns comandantes pegavam a responsabilidade para ele e eles falavam: "Vou te escoltar durante dois dias, durante três dias".

O próprio Exército foi informando algumas bases e também fazendo escolta em alguns pontos, em alguns horários, assim, às vezes um pouquinho à noite. Quer dizer, coisas que foram surgindo, a partir do momento que eu dei o primeiro passo lá no Oiapoque.

Folha - Como você traçou seu percurso?

Dias - Eu queria fazer um trajeto diferente, pois o ultramaratonista Alexandre Sartorato já fez do Oiapoque ao Chuí pelo meio do Brasil, deu 7.000 km, uma reta só. Eu queria fazer um percurso com muitos lugares que, normalmente, as pessoas não passavam, por ser muito isolado ou muito violento. Queria conhecer um pouquinho de cada clima brasileiro, pegar a floresta tropical, pegar um pouco do cerrado, um pouco do sertão, um pouco do litoral, semi-árido, pegar um pouquinho de cada coisa.

No Nordeste, não peguei todos os Estados, só a Bahia, onde eu peguei o sertão e o sul, que é uma diferença de clima bem grande. O Tocantins, que é o cerrado, quente e seco, e a Amazônia, que é quente e úmida e de repente o Rio Grande do Sul que é frio e seco, não é? Então, você pega todo tipo de clima. Então, o traçar do mapa, do pensamento para passar à ação foram três anos.

Folha - Como era cada dia?

Dias - Eu programei as cidades, calculei isso no mapa. Mas, por mais planejamento que você faça, sempre tem as surpresas. Mas tinha cidade que era 10 km uma da outra, e tinha distâncias de 200 km. Em oito noites eu dormi à beira da estrada mesmo, e em outras cidades eu dormia em hotel cinco estrelas e em outras eu dormia num posto de gasolina. Normalmente, quando eu não tinha escolta, 4h eu estava levantando, usava a lanterna de cabeça, tinha que enfrentar o medo do escuro mesmo e corria até quase escurecer.

Folha - Mas você não fazia isso todos os dias.

Dias - Tinha cidades distante 70 km, outras 115, 120 km. Em média, corri 90 km por dia. Mas, na região norte, fiquei 20 dias, por exemplo, correndo a média de 115 a 120 km, mas teve dias, no final, em que eu corri 48 a 50 km.

Folha - A distância máxima qual foi?

Dias - No Amapá, foi 120 km. Lá eu corria em média 19 horas, com escolta. Quando não tinha escolta eu fazia, no máximo 75 km, no máximo 80, para chegar à cidade antes do anoitecer. Então, eu saía mais cedo para não correr muito tempo no escuro. Mas, em Santa Catarina mesmo, teve dias que eu fiquei na rodovia correndo durante à noite. Faltava 15 km para chegar na cidade, já era 6h30 da tarde e já estava noite. Então você tinha que fazer aquele esforço final para chegar na cidade, vencer o medo. Você corria mais assustado, você corria mais assombrado ali...

Folha - Mas medo do quê, exatamente?

Dias - Ah, o medo maior da gente: de repente você se assusta com um cachorro. Você não sabe o que você vai encontrar na frente, se é um bandido, não é? No escuro, você tem medo de tudo, é igual criança, não é? Você volta à sua infância. Então, eu tive que superar esse medo para conseguir buscar meu objetivo.

Teve alguns momentos tristes, como na Transamazônica, na cidade de Tacajá, eu parei ao meio-dia, para fazer a comida desidratada, o meu purê de batata, tinha que colocar água quente. Então, arranjei um ranchinho, um local que tinha água quente, pedi para a mulher água quente e tudo. A minha mochila, eu tinha que colocar uma capa preta, porque tinha muita poeira na estrada, na Transamazônica.

Coloquei a mochila embaixo de uma mesa e estou arrumando as coisas, colocando os panos na garrafa, fazendo o meu purê e tudo. Aí chegaram duas pessoas, com faca na mão. Um colocou a faca no meu pescoço e o outro na minha barriga. Acharam que eu era gringo.

Falei que não, disse que era brasileiro. Eles falaram que não gostavam muito de gente estranha, que o negócio deles era na faca, aquele temor, não é? Aí acabaram levando boneca, camiseta, levaram R$ 100, levaram um tênis, óculos, não é? Quer dizer, assim, levaram as coisas que eles visualizaram, mas o terror que eles fizeram ali na hora, eu fiquei sentindo por cinco dias, não é? Ficava em estado de alerta todo o tempo. Qualquer coisa era motivo de achar que ia ser assaltado. Então, esse foi um fato triste, lá na região norte.

Folha - Em que Estado foi isso?

Dias - No Pará. Tacajá fica a 108 km de Anapu, onde mataram aquela missionária americana. É considerada Grande Anapu. É um lugar de muita violência, muito conflito, tem muito foragido, tem muito grileiro, tem lugar, aqueles fornos com trabalho infantil, crianças trabalhando. Então, uma simples foto que você tire do lugar, as pessoas já ficam desconfiadas pensando que você é jornalista ou é polícia, qualquer coisa assim. Então, você corre o tempo todo em estado de alerta, você não sabe o que pode acontecer.

Continua...

Escrito por Rodolfo Lucena às 08h07

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Fala o ultra Carlos Dias - final

Derrotando os ‘nãos’

Folha - E como foi correr nas estradas?

Dias - Corria nas rodovias, pelo acostamento. Mas na região sul da Bahia e na 101 aqui na região de Santa Catarina até a divisa do Rio Grande do Sul não tinha acostamento. Você tem que estar em estado de alerta todo o tempo, dando o braço para os motoristas, para eles desviarem. E corria sempre na contramão. Só corria na mão ou no meio da estrada no Amapá e no Pará que não tinha carro. Lá no Pará você via um carro às 7,00 da manhã, você ia ver outro às 3h00 da tarde. Não tinha carro, era você e a estrada, só.

Folha - Quanto você acha que gastou nesse projeto todo?

Dias - Olha, foi mais de R$ 15 mil, foi quase R$ 17 mil. E teve algumas cidades que me deram apoio como Itabuna, Feira de Santana, Joinville, Florianópolis, Criciúma, que me deram apoio de hospedagem. E, por exemplo, eu pegava em posto de gasolina caminhoneiro, que me davam alimentação ou me davam ajuda de custo R$ 50, R$ 100, de alguma forma alguém me ajudava em alguma coisa. Outras pessoas me viam na TV, porque saia na TV aberta, o pessoal via no outro dia de manhã, virava uma festa, todo mundo buzinando, querendo tirar foto, ganhava muito santinho. Então, era um negócio assim impressionante na estrada, não é? Só que o isolamento e a distância da família eram muito forte. Eu tenho um filho que hoje está com oito meses, quando eu saí de São Paulo, ele estava com quatro meses, quando eu passei por São Paulo, que eu o revi, passei uma noite na minha casa, ele estava com seis e eu terminei o projeto e vim revê-lo com oito meses. Então, você imagina a saudade e o quanto é difícil você ficar longe dessas pessoas que você ama, não é? Mas, é necessário fazer um projeto desses, fazer uma coisa, realizar um sonho mesmo...

 

Folha - Necessário por quê?

Dias - Eu queria eternizar tudo isso em um livro. Acho que a adversidade é boa para o ser humano, faz com que ele cresça, que ele aprenda, que ele vá em frente. O fato de eu não ter uma equipe na estrada, o fato de eu não ter uma estrutura me acompanhando na estrada não foi motivo para que eu desistisse. Acho que até me motivou mais, porque a raiva, você cria uma certa raiva, mas só que uma raiva positiva, aquela raiva que você começa a correr de manhã e quer chegar, quer ir, sabe? Provar para você mesmo que você tem condições, tem capacidade.

Eu usei psicologicamente todos esses fatores negativos a meu favor. Não fiquei abaixando a cabeça e achando que eu era o coitadinho do mundo, não é? Então, acho que, na vida, a gente tem que agir desse jeito, porque é uma reação.

Acho que todo atleta é assim. Todo corredor, se um cara tiver que correr 5 km acho que ele tem uma coisa dentro dele, lá no íntimo dele, de buscar, de não desistir fácil. Então, essas corridas só me trouxeram coisas boas.

A corrida foi algo que transformou minha vida mesmo, onde sou respeitado por outros atletas e até por profissionais de outras áreas pelo fato de eu estar correndo. Então, hoje eu estou feliz por ter cumprido esse desafio, ter colocado no papel e ter me surpreendido, porque pelos acordos que eu tive na estrada, eu consegui fazer em cem dias, terminou dez dias antes do meu projeto inicial, do meu objetivo oficial, por ter corrido, às vezes, à noite.

A sensação é a de que qualquer pessoa pode fazer isso. Não é uma coisa, assim, fechada só para um grande atleta. Não. Qualquer pessoa pode fazer, mas ela tem que ter um ingrediente que não pode faltar: ela tem que ter entusiasmo, tem que amar o que ela vai fazer e tem que ser determinada. Aprender a lidar com os "nãos", que é uma coisa que derruba muito as pessoas, se elas não souberem trabalhar isso. Aceitar os "nãos" como algo que vai fazê-la crescer mais. Então, eu aprendi a lidar com esses "nãos" e cheguei lá, consegui e posso falar hoje que valeu a pena.

Escrito por Rodolfo Lucena às 08h04

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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