Blog do Rodolfo Lucena - + corrida
 

Ironman do Havaí

Sorriso de campeã

Esse é um inusitado final de Ironman: a garota que dominou o terreno vem sorrindo o tempo todo desde não sei quantos quilômetros faltando para o final. O narrador chega a pedir que ela ao menos faça uma careta de vez em quando, apenas para fingir que está sendo difícil.

Quando ela estava na milha 22, já sabia que ia levar. Há poucos segundos, com mais de um quilômetro e meio para a chegada, ela pegou a bandeira da Grã-Bretanha, absolutamente segura de que venceria.

As lágrimas correm pelo seu sorriso, ela sabe que está mais do que ganhando, está fazendo história, pois será a primeira inglesa a levar o título. Essa é uma marca insuperável.

Até agora não escrevi o nome da moça. É Chrissie Wellington, que venceu na Coréia do Sul e se tornou profissional neste ano.

Foi divertido acompanhar os narradores comentando que a garota não usava meias compridas, mas mesmo assim conseguia correr bem a maratona, numa referência ao visual pouco convencional envergado por Paula Radcliffe, a britânica dona do recorde mundial da maratona.

A moça é absolutamente impressionante. Depois de mais de oito horas e meia de prova, parece completamente relaxada, descansada, sorri e vai chegando para a vitória.

Ela caminha pelo tapete, saúda o público e finalmente termina, a primeira mulher da Grã-Bretanha a vencer o Mundial de Ironman, completando o percurso em 9h08.

Disse que alguns lhe disseram que tinha uma chance, mas ela não acreditava. "Eu esperava poder agüentar a corrida". Agradeceu ao treinador e saudou o pai. Parecia mal estar suando.

"É um sonho que virou realidade. É sensacional", disse ela.

Escrito por Rodolfo Lucena às 22h05

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Ironman do Havaí

Tá rolando agora

Os homens ainda estão correndo, e a primeira mulher deve chegar dentro de alguns minutos: é o Mundial de Ironman rolando em Kona, no Havaí.

É sensacional a cobertura que faz o site oficial, com narração quase ao vivo por escrito e transmissão de vídeo ao vivo on-line em altíssima qualidade.

O campeão masculino foi Chris McCormack, que disse ao chegar: "Eu troquei meu sonho olímpico por isso. Meu pai sabe o que isso significa para mim".

Ele completou em 8h15min34 os 3.800 metros de natação, 180 km de pedal e 42,2 km de corrida. Foi recebido na linha de chegada pela mulher e pelo pai.

Até agora não apareceu nem um brasileiro.

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h42

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A confissão de Marion Jones

Há mais para devolver

Hoje o mundo tem certeza de que a superatleta norte-americana Marion Jones, que ganhou cinco medalhas (três de ouro) na Olimpíada de Sydney, não era tão super assim. Ela confessou ter usado doping e, na Justiça, aceitou acordo para revisão de todos os resultados e confisco de medalhas e prêmios a contar de primeiro de setembro do ano 2000.

O Comitê Olímpico dos Estados Unidos vai devolver ao Comitê Olímpico Internacional as medalhas de ouro que ela conquistou de forma fraudulenta nos 100 m, nos 200 m e no revezamento 4x400, mais o bronze do salto em distãncia e do 4x100 (na foto AP de 2000, Jones mostra suas glórias).

Mas Marion Jones tem mais a perder. O Comitê Olímpico norte-americano quer que ela devolva os prêmios em dinheiro que recebeu do próprio comitê, cerca de US$ 100 mil.

Segundo as regras da IAAF, a Fifa do atletismo, os atletas punidos por doping podem ser obrigados também o dinheiro recebido em prêmios e luvas por presença em competição. O velocista britânico Dwain Chambers, que admitiu ter usado drogas ilegais, teve de devolver US$ 230.615 para poder voltar a ser aceitou em competições oficiais, mesmo depois d euma suspensão de dois anos.

Os valores recebidos por Jones desde 2000 estão na casa dos milhões. Ela levou, por exemplo, uma fatia do prêmio de US$ 1 milhão da Liga de Ouro em 2001 e em 2002.

Mas, mesmo que a comunidade do atletismo internacional continua nessa cruzada antidoping, o resultado da punição da Jones pode ser a glória para outra atleta sobre quem paira uma nuvem de dúvidas.

Trata-se da grega Katerina Thanou (foto AP, Sydney-00), que levou a prata em Sydney e está na boca do ouro, se os resultados de Jones forem mesmo anulados pelo Comitê Olímpico, como deve acontecer. Thanou esteve no centro de um escândalo nos Jogos de Atenas, quando ela e seu compatriota Kostas Kenteris, também corredor, não apareceram para um exame de doping na véspera da Olimpíada. Eles disseram que tinham se envolvido em um acidente de moto e se safaram na hora, mas foram depois suspensos por dois anos.

Nas outras modalidades, os herdeiros são a Jamaica (4x400) e a França (4x100) nos revezamentos. Pauline Davis-Thompson, das Bahamas, levou a prata nos 200 m, e Tatiana Kotova, da Rússia, foi a quarta no salto em distância.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h27

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4ª Corrida Santos Dumont

Recorde pessoal

Trago para você relato do colega Adalberto Leister Filho, repórter de Esporte aqui na Folha. Ele hoje completou, com recorde pessoal, sua 11ª corrida do ano. A conquista foi na 4ª Corrida Santos Dumont, no Campo de Marte, zona norte de São Paulo. Leia a seguir o que ele nos conta.

"Na largada, às 8h, já havia um pouquinho de sol. Esse acho que foi o principal empecilho para os participantes. Não cheguei a encontrar nenhum termômetro nas avenidas que percorremos, mas creio que a temperatura deve ter alcançado ao menos os 25ºC. Vi dois corredores estirados na sarjeta, passando mal por causa do esforço. Na chegada, um posto médico atendia os mais necessitados.

"Tirando um pouco de trânsito logo após a partida, o limitado número de inscritos _creio que umas 2.000 pessoas_ fez a prova fluir bem.

"A organização prestou ótimo auxílio aos corredores, com postos de água a cada dois quilômetros, o que dava para se hidratar, refrescar e planejar o esforço.

"Ultrapassei a marca de 8 km com meu cronômetro acusando 40 minutos de corrida. Deu para dosar bem o esforço no final. Meu ritmo caiu, pois já estava um pouco cansado e o freqüencímetro às vezes me alertava para o excesso de esforço.

"Cruzei a linha em 51min29s, quase um minuto abaixo de minha melhor marca pessoal, que já durava três anos (tinha sido um 52min20s em 2004, numa das etapas do Circuito Track and Field do Shopping Villa-Lobos, com percurso também bastante plano).

"Duas garrafinhas de isotônico foram suficientes para aplacar a sede e recuperar líquidos e sais minerais perdidos. Que venha a próxima (e corridas bacanas em São Paulo até o final do ano é que não faltam!)."

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h22

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Político mexicano diz que não trapaceou em Berlim

Caminhos cortados

Continua rolando na internet a polêmica história do ex-candidato à presidência do México Roberto Madrazo, que foi desclassificado na maratona de Berlim, no dia 30 de setembro passado, acusado de cortar caminho.

Ele tinha vencido na sua faixa etária, 55+, mas perdeu o título quando foi constatado que ele cortou caminho, deixando de correr quase 15 quilômetros.

Ao longo dos dias seguintes, foi motivo de chacota e vergonha no México, e agora ele distribuiu à imprensa de seu país uma carta de sete páginas endereçada à comunidade esportiva mexicana.

Diz que não tinha intenção de fazer trapaça e que nem sequer planejara terminar a prova, até mesmo por razões médicas. "Parei no km 21 e fui direto para a chegada para pegar minhas coisas e minha medalha de participação, que é dada a todos corredores, sem exceção", afirma ele no texto.

Mas o texto não explica porque ele passou a linha de baços abertos, correndo, na maior comemoração, conforme mostra a foto acima (AP). Também não comenta porque levou tanto tempo para divulgar sua versão.

O fato é que essa bagunça joga luz sobre um problema que ocorre entre amadores: o atleta que corta caminhos. Em vários fóruns, estão sendo citados corredores de rua brasileiros conhecidos por essa prática; há até o caso de um sujeito que "correu" a maratona de Nova York usando o sistema de metrô da cidade.

Confesso que não consigo entender esses sujeitos, pois a maioria nem sequer vai disputar prêmio na categoria; trata-se apenas de chegar antes, mas sem mérito de correr a prova toda.

Já vi um caso desses na maratona de Porto Alegre, em 2000. Eram dois sujeitos correndo juntos, pouco à frente deste blogueiro. Eu tentava chegar, mas eles estavam sempre um pouco mais rápidos. Pouco antes da metade da prova, onde havia um posto de controle, eu passei os dois caras e fui em frente.

Nunca mais os vi, até lá pelo km 35, mais ou menos, quando eles voltam a aparecer na minha frente. Apesar do aparente corte de caminho, não tinham economizado muita energia, pois voltei a passá-los e terminei antes.

Talvez você também já tenha presenciado fatos semelhantes. Se achar interessante, mande a história.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h34

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3ª Maratón de Guayaquil

Palco da resistência

A unha do dedão de meu pé direito não cobre toda a carne: deixa de fora alguns milímetros, que formam uma espécie de borda protetora. A parte extrema da unha, geralmente mais esbranquiçada, está tingida por restos de hematoma e resquícios de antigos ferimentos. Do lado direito, chegando a tomar um pedacinho da linha dianteira, há uma mancha ainda mais escura, no formato do mapa da Austrália, sugerindo camadas sucessivas de tecidos machucados e reconstituídos. O resto está doloridamente cor-de-rosa.

Roxa, a unha do segundo dedo, que teima em ficar roçando seu companheiro de maior porte, apresenta diversos tons e várias camadas. A ponta parece querer desabar, mas é só impressão (espero).

A do dedo do meio, no pé direito, tem aparência normal, à primeira vista, mas uma olhada mais detida revela o tom rosáceo denunciador de sofrimento.

Todas elas ainda dóem, três dias depois de eu ter completado a maratona de Guayaquil, no Equador, que tem percurso em boa dose plano e que me devolveu ao terreno da humildade atlética de onde eu nunca deveria ter saído.

Correr uma maratona, seja qual for e seja quem você for, exige respeito, consideração, carinho, preparação. Eu não estava oferecendo a ela nada disso quando dei a primeira passada na ponte 5 de Junio, na madrugada no dia 7 de outubro.

Minutos antes, na verdade, até fazia pouco dos organizadores. É que, às 4h45, um grupo de operários ainda forcejava montando a estrutura para o pórtico de largada da prova, enquanto ao lado outros trabalhadores tratavam de encher o inflável que cobriria o esqueleto de tubos de aço.

Nunca que iria começar na hora, pensei, e logo fui desmentido pela turma que, com apitos, chamava patinadores e cadeirantes para a linha de saída, convocando em seguida os corredores.

Na hora exata, o pórtico estava montado. Em seguida, os corredores nos apertamos, naquele movimento pré-largada de tentar chegar mais perto da linha. O apito soou menos de cinco minutos depois da hora marcada, e saímos trotando pela avenida 9 de Octubre com o céu ainda escuro, o percurso iluminado pelas luzes dos postes, faróis de carros parados nas transversais e luminosos de lojas.

Guayaquil é uma cidade plana, sentada às margens do rio Guaya, pouco antes do golfo que entrega as água ao Pacífico. Maior metrópole do país, com quase 3 milhões de habitantes na região metropolitana, é também o maior porto do Equador e centro da economia nacional.

O traçado das ruas é reto, e elas são perfeitas paralelas. Do céu, a imagem é de um tabuleiro de xadrez _com variantes.

Descendo pela avenida em direção ao malecón _calçadão na beira-rio com um sem-número de atrações, de miniportos de acesso a barcos que fazem passeios turísticos a museus muito legais, parque infantil, lanchonetes e galerias comerciais_, passamos pelo parque Centenário, que homenageia a independência da cidade e onde eu queria ter dado um trotinho no dia anterior, pelo menos para soltar os músculos e aliviar a tensão pré-prova.

Agora, não dá mais para pensar no que fiz ou deixei de fazer. Como diz o ditado, "é no andar da carreta que as melacias se ajeitam". A maioria dos meus companheiros de corrida apresenta traços índios; são baixos, atarracados alguns, outros leves, de tez escura, o nariz andino, olhos puxando para o chino, cabelos pretos densos.

Perto deles uma veterana triatleta alemã parece gigante e se destaca na multidão. Ela corre com mais alguns sessõentões germânicos, que se surpreendem ao ver um brasiliani; um deles revela já ter participado da São Silvestre.

É a primeira e praticamente a única conversa que tenho ao longo de todo o percurso. Nesses minutos iniciais, dá para gastar fôlego em papo, mas é melhor observar a cidade, que despeja história de luta.

Uma área mais iluminada marca a passagem por La Rotonda, monumento em semicírculo em que são homenageados os libertadores Simon Bolivar e San Martin, que se encontraram exatamente em Guayaquil, em 26 de julho de 1822, quando supostamente acertaram táticas conjuntas na luta pela emancipação do jugo espanhol.

Pouco depois, em 9 de outubro, um cruento levante levaria a cidade à independência. Seu próprio nome, diz a lenda, estaria ligado à resistência contra a dominação. Vem da junção dos nomes do chefe índio Guayas e sua mulher Quill, que preferiram tirar a própria vida a se submeter aos invasores, nos idos de 1500.

Continua...

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h01

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3ª Maratón de Guayaquil - segunda parte

Dúvidas e reflexões

A cidade celebra sua independência, e a maratona hoje faz parte dos festejos, que enchem as ruas de um fervor cívico. Bandeiras azuis e brancas tremulam ao lado da bandeira nacional, e faixas advertem: "Si es con Guayquil es con migo".

A faixa foi a última coisa que vi antes de entrar no primeiro túnel do percurso, pouco depois do km 4. São cerca de 300 metros, calculo, pois o sinal do meu GPS se perde no espaço; é um tanto opressivo, mas não chega a dar medo. A vontade é de gritar para ovir o ribombar da voz, mas me contenho, porque sei que o grito me suga.

O túnel corta o morro onde ficam Las Peñas, colinas com casinhas pintadas, alamedas turísticas, que só conheci de ouvir falar e de ver à distância, do malecón. É uma área um pouco mais colorida na cidade de resto cinzenta, amarronzada, cor-de-burro-quando foge.

E segue o baile pela planura, na minha primeira maratona de um ano em que me dediquei a provas mais longas. Novamente passamos pelo túnel para voltar àté a avenida principal e seguir até a ponte da largada, onde termina a prova de dez quilômetros e começa a segunda parte do tripé em que a prova está desenhada.

Agora temos vista para uma região aparentemente mais pobre. Do lado de cá, uma avenido margeia o rio, há instalações militares, bairros até um pouco mais progressistas, o estádio do Barcelona, que também toma emprestadas as cores do time espanhol.

Quando fazemos o retorno, depois do estádio, temos uma visão melhor do que há do outro lardo do rio. São palafitas, casinhas que se estaqueiam no rio e se empilham umas ao lado das outras. Diferentes das favelas brasileiras, não são barracos de madeira e papelão, mas estruturas de blocos de cimento, dando um tom mortício à margem do rio.

Do meu lado, depois do estádio e subindo uma rara colina da cidade, outro favelão também nos mesmos moldes.

O dia já está no lusco-fusco, promete ser nublado, pelo menos nas primeiras horas. A temperatura continua razoável, em torno dos 20 graus celsius, mas a umidade é brutal, o suor empapa a camisa. Chegar à metade da prova, de novo na ponte 5 de Junio, é ainda mais agradável porque marca um dos raros momentos de brisa, secando e refrescando o corpo.

Até ali, fizera uma corrida tranqüila, de observação da cidade e do meu corpo, que havia apenas 15 dias tinha enfrentado, sem treino adequado, 50 quilômetros sob sol de 30 graus nas montanhas do Rio. Passara o km 10 com 1h03, a metada da prova com 2h14. Se tudo corresse bem, talvez pudesse terminar sem sofrer com 4h40, 4h45.

Descendo a ponte, uma placa aponta a direção para o km 22. Um cheiro forte toma conta, adensa o ar: são os eflúvios de uma fábrica de café (ai que vontade que dá). Ao lado dela, também na colina que olha a avenida por onde passamos, uma fábrica de chocolate não consegue vencer o perfume da vizinha.

Para mim, começa a contagem regressiva. Já corri mais do que falta para terminar, e os quilômetros serão engolidos aos poucos. Agora, minha atenção pela cidade é dividida com elocubrações sobre performance, ritmo, possibilidades: dos escaninhos mais fedidos do meu cérebro vêm ordens para relaxar, perguntas sobre as razões de tudo isso, advertências contra lesões futuras, sinais de dor extrema em um pontinho da perna, repuxes no quadril, pontadas no pé.

Tento peneirar as mensagens. O que será dor mesmo e o que será vontade de ter dor para justificar o relaxo? Quanto é culpa do calor ou culpa minha? Será mesmo que não dá para ir mais rápido?

Mas contra o ensaio de crítica vem o canto da sereia matemática, mostrando que posso caminhar quanto quiser que ainda assim conseguirei terminar a tempo de receber minha medalha. Será mesmo?

Continua...

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h00

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3ª Maratón de Guayaquil - final

Lições equatorianas

Continuo correndo e pensando, reclamando de mim mesmo, mas seguindo. O clima abafado é contrabalançado pela água gelada e bebida isotônica oferecidas com fartura, a intervalos curtos como nunca vira antes em nenhuma prova. O sofrimento, mesmo sob o céu encoberto e a temperatura abaixo da esperada, indica que, com sol a pino, dificilmente a empreitada seria levada a cabo.

Depois de uma retona interminável, mais uma pontezinha, passando o km 29 e dando vista para um templo enorme, brilhante de branco, no topo de uma pequena coxilha. É uma distração das dores, assim como o relevo um pouco diferente. Um esforcinho de subida compensado por uma descidinha leve, tudo ajuda o corpo a se mexer.

De volta para a avenida, corro ao lado do mangue, área protegida e fedorenta. Há um pequeno bosque e, depois, vegetação mais baixa, arbustiva. Festejo o dia nublado, mas me sinto esquentar só de pensar no bafo que estaria saindo do "estero", como chamam aquela área de mangue, estivesse o dia com sol aberto.

Depois do km 30, enfim me permito caminhar sem disfarces (antes, no 28 e no 29, fizera uns trotinhos sem-vergonha, de poucos metros), mas procurando manter a passada acelerada, que permita a retomada do ritmo da corrida.

Uma pontada no meio do quadril direito me faz mancar, e eu quase agradeço à dor que justifica a redução do ritmo. Os demônios perguntam qual o prazer disso tudo, e respondo voltando a correr, marcando adversários para alcançar, tentando encontrar um ritmo menos humilhante.

Mas há mesmo algum tipo de humilhação em ser mais lento, em correr menos rápido, em aceitar que há dores e que você pode se submeter a elas tanto quanto enfrentá-las? As reflexões perpassam minha corrida, me atrapalham um pouco, dão vontade de largar tudo isso, parar por ali mesmo, pois não há vantagem em fazer uma conquista que você sabe que é posssível se você se poupar.

Será? Poupar-se para a conquista também não seria uma arte? Nunca um percurso foi tão longo para permitir tantas elocubrações. Eu caminho cem metros, corro 500, caminho 200, corro mais um monte, e os quilômetros vão passando.

Depois do 36, só falta um Ibirapuera, mas é preciso corrê-lo. As retas são infindáveis e vão na direção errada: você sabe que haverá um ponto de retorno lá longe, mas não consegue vê-lo. Maldito 38 que não chega!

Tenho dores, mas não são nada perto das que parecem atingir outros corredores. Um sujeito que me passou várias vezes e que foi por mim ultrapassado outras tantas leva apoiadores particulares, que lhe fazem massagem a cada cinco ou dez quilômetros, sei lá. Quando cruzo com ele, o cheiro de arnica empesta o ar.

Outro, que vinha alternando caminhada e corrida com paradas para alongar agora aparece estirado na caçamba de um caminhão que vai recolhendo as mesas dos postos de água. A prova ainda está longe da hora final, mas as estações de abastecimento estão sendo reduzidas.

O que mais me dói é a consciência. Busco a alegria da corrida, mas encontro em mim filosofias sobre administração das capacidades físicas e mentais. É bem verdade que os pés também latejam a cada passo, mas as pernas já não me assustam mais.

Esparsos pela avenida, os corredores dividem o terreno com o trânsito matutino. Mesmo nesse bairro mais afastado, há movimento forte a essa altura da manhã. Nosso terreno é deliminado não por cones, faixas ou tinta, mas por recrutas da Infantaria da Marinha, centenas deles dispostos ao longo do percurso. Orientam o trânsito e incentivam os atletas.

Agora, no 41, um deles ergue os braços, incentiva, "si, se puede", falta pouco, fuerza, fuerza. Eu revejo a colina que observa a avenida. Primeiro, a fábrica de chocolate; depois, o cheiro forte, denso, do café equatoriano.

Com filosofia, dores verdadeiras ou planejadas, sofrimento, cansaço ou acúmulo de confiança injustificada, vou terminar essa prova. Talvez tenha sido, se é posssível a comparação, a mais difícil e desgastante em um ano em que fiz um 100 km, um 60 km e um 50 km, todos em condições adversas de clima e terreno.

É a reta final mesmo e enfim posso gritar: "Eleonora, eu tô chegando!". Mas não a vejo no pórtico nem noto suas roupas vermelhas na multidão cinza, pastel.

Corro e procuro por ela, que avisto afinal no alto de uma passarela, além do pórtico de chegada. O relógio quebrado só tem restos dos sinais digitais, marcando 3 98 88. Eu passo com 4h56 para abraçar Eleonora.

Estou inteiro, mas não estou pronto. Ainda vou precisar de tempo para entender o que essa maratona me ensinou, para saber, afinal, o que aprendi em Guayaquil.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h58

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Maratona é interrompida por causa do calor

Morte em Chicago

 

Um corredor morreu ontem, durante a maratona de Chicago, que ocorreu sob forte calor, incomum na cidade nesse período.

Chad Schieber, 35, era policial em Michigan. Ele passou mal na altura da milha 19 (pouco depois do km 30) e morreu ao chegar ao hospital, que ainda não informou a causa da morte. Na foto da AP, ele leva um banho ainda durante a prova, mas não adiantou.

Por causa do calor, que chegou a 31 graus, a maratona foi suspensa cerca de três horas e meia depois da largada.

Segundo os bombeiros, cerca de 315 corredores foram atendidos por ambulâncias por causa de males relacionados ao calor. Ainda hoje, pelo menos 25 pessoas continuavam hospitalizadas, nove delas em situação séria ou crítica.

Houve muita reclamação de falta de água no percurso em uma das cinco grandes maratonas do mundo, que teve a participação de cerca de 35 mil pessoas.

O vencedor foi o queniano Patrick Ivuti, com 2h11min11; no feminino, a etíope Berhane Adere levou a taça com 2h33min49.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h45

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PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

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