Blog do Rodolfo Lucena - + corrida
 

Os últimos chegarão depois

Cruz de subida

Quando vi aquele punhadinho de gente, quase todos trotando com os dentes rilhando, tentando nao ficar encaragados com o vento frio que soprava na manhã de hoje em Florianópolis, já me anuviei todo: vou ser o último, não tem nem dúvida.

Os que não pareciam jovens e fortes pareciam velhos e fortes, todos com jeitão de muito mais bem preparados do que eu e em melhor forma física (o que também, não exige muito , diga-se de passagem).

Era o início da subida do morro da Cruz, o topo do mundo no centro de Floripa, lugar de bela vista e de ventos inclementes. Oficialmente, eram 52 corredores, mas sei lá se todos apareceram ou se outros se incorporaram.

Até o dia anterior, a quarta-feira, a largada seria nos baixios da ponte Hercílio Luz, que talvez muitos não conheçam pelo nome: é a ponte velha, velha e belíssima, cartão-postal desta também bela cidade.

Por razões do trânsito e da segurança, mudou-se a largada na última hora: estávamos, na manhã de hoje, na praça Celso Ramos, pertinho do que até pouco tempo era o único grande shopping center da cidade, em frente ao mar calmo da baía norte. Da vista, não dava para reclamar.

Com atraso de uns quinze minutos, saiu enfim a contagem regressivo. No zero, dispararam os outros, eu saí no meu trotinho de sempre, até um pouco mais rápido para tentar ficar com a turma.

Íamos correr um quilômetro e meio e voltar, para então começar a subida.

Quando vi que não ia chegar perto do penúltimo nem por força de vontade superior, tratei de me dedicar à vista mesmo, que me engolia os olhos: aquele marzão plácido, mexido de vento pouca coisa, uma gaivota voando, outra tomando banho, e eu me movendo como dava para fugir do frio.

Filosofava também, discutia comigo mesmo que esse negócio de ser o último ou o primeiro não era importante, que o bom mesmo era correr, que não fazia mal etc e tal... Mas, na curva no km e meio, novamente vi o que, para mim, era o penúltimo, e ele nem estava tão longe.

Então não ser o último passou a ser uma meta a alcançar: veja só como a gente muda de opinião, não é? Tudo bem, acabei passando o sujeito, mas continuou não sendo importante nem se tratando de grande feito, pois o grande feito viria a seguir: subir a lomba.

Pelo que me falaram, seria 420 metros subidos em cerca de três quilômetros, o que dá bem a noção da dificuldade da coisa. Antes da subida, uma providencial agüinha gelada refrescou o espírito. Também recebi o apoio na Eleonora, que ficara na praça da largada apenas para dar aquele incentivo tão necessário.

Dali ela sairia para o topo da montanha, que eu subiria a pé em seguida. Foi curva para cá, curva para lá, subida assim e subida assada. Nos trechos menos íngremes, trotava; nos mais íngremes, caminhava. E assim fui passando mais uns tantos que antes tinham corrido muito...

E aproveitava para me deliciar com Florianópolis lá embaixo. A cada curva, a cidade ficava mais distante, via-se mais dela, ela se mostrava mais. Coisa muito linda: o mar na baía norte, a ponte, a baía sul, as montanhas no continente... E a gente subindo...

Ser o último já não era problema para mim, pois não seria: tinha passado um monte na subida ao morro da Cruz, coisa muito boa. Mas ainda acho que não faz tanta diferença assim, e só corri o que posso correr, como é o que a gente costuma fazer mesmo. O bom é correr, em qualquer circunstância.

Acabou que chegamos lá cima todos, no alto do morro, com vista de 360 graus sobre a cidade. Fomos recebidos com banana, laranja, isotônico, água, uma bela medalhinha com o cartão-postal da cidade e vontade de quero mais. Muita vontade.

Quem sabe outro dia.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h28

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Equipe roda 100 km em Hong Kong

Sempre juntos

A foto da Reuters mostra um momento da Trailwalker, uma competição de caminhada/corrida realizada nos arredores de Hong Kong, na China.

Trata-se de uma das mais tradicionais provas do país e reúne milhares de atletas dispostos a enfrentar o desafio de percorrer 100 km em grupos --não há participação individual--, um desafio que pode levar até 48 horas.

Parece ser muito divertido, como você pode apreciar no vídeo abaixo, feito na competição do ano passado.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h17

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Fala, leitor

Meia molhada

Trago para você hoje o relato de VICTOR STARZYNSKI, 21, estudante de meteorologia que corre há dois anos e que acaba de fazer, em Itanhaém (litoral sul de São Paulo), sua primeira meia-maratona. Foi no na noite de sábado, dia 3 de novembro. Mas ele chegou mais cedo à praia. Vamos ao relato de Victor.

"Lá pelas quatro da tarde resolvemos almoçar em um restaurante exatamente ao lado da largada... Como o ‘sistema‘ do restaurante estava com alguns defeitos, nossos pedidos demoraram certo tempo para serem compilados e preparados.. .. Mas o tempo esperado valeu a pena, me alimentei muito bem para meus primeiros 21 km e 97 metros...

"Bom, estava chegando e a hora... e junto com a hora, a chuva! Começamos a nos preparar enquanto o meu irmão foi dar uma leve corridinha. Dez minutos antes da largada, a chuva começou a cair forte. Eu não tinha nem idéia de quanta chuva iria tomar na corrida....

"No momento da largada, o frio dominava. Começamos a dar leves pulinhos para não deixar o corpo esfriar muito. A largada foi exatamente às sete da noite.

"Nas primeiras curvas, era visível a diversão de todos os corredores ( o ser humano realmente adora a água ) tomando aquela chuvarada na cabeça e passando pelos riachos que cruzavam pelo meio das ruas.

"A diversão logo virou coisa séria, quando percebi que a parte da rua que estava reservada para os corredores estava alagada e nós éramos obrigados a ‘disputar‘ um espacinho entre os carros...

"Nos cruzamentos, sempre havia dois ‘riachos‘ que éramos obrigados a passar. A preocupação geral era o medo de alguma torção ou coisa do gênero no meio de toda aquela inundação.

"Um momento marcante foi quando um raio caiu tão próximo de onde estávamos que por alguma fração de segundos fiquei totalmente cego com o brilho! (Como meteorologista, fiquei fascinado!).

"Pouco depois da largada, tivemos que passar por um trecho de terra _que já tinha virado pura lama_ e pensei em andar. Mas, como corredor na primeira meia, eu não ia aliviar por nada: passei numa boa, seguindo os passos do corredor à frente (se ele caísse, eu pulava pro lado e tudo resolvido!).

"Depois de vários pontos de alagamento, chegamos à parte em que, apesar de perigosa, mais me diverti... A iluminação da rua era péssima e a coluna de água no chão devia bater no meio das canelas no ponto mais raso... Me senti correndo uma corrida de aventura!!! No quinto quilômetro, já tínhamos passado dois postos de água e achei que, pelo menos nesse quesito, a organização tinha mandado bem...

"No final da primeira volta, passei por um apuro. Em um desvio que nos levava para uma calçada beira-mar, percebi que o chão estava extremamente liso e pensei em correr na rua. Quando fui sair da calçada, vi que a rua não existia e no lugar havia pedregulhos e uma porrada de coisa alagada. Decidi correr pelo liso.

"Saindo da calçada, tínhamos de passar por um atoleiro e duas vezes meu pé afundou na lama até a altura do meio da canela.

"Fiz a primeira volta em ritmo bom (58min) e fiquei espantado de ver que meu relógio da banquinha estava agüentando bem a chuva ( mera ilusão ). Na segunda volta, apertei o ritmo, não sentia nem sede nem dor, e a chuva não parava nem por um minuto.

"Depois de cruzar novamente aqueles riachos todos (já tinha acostumado com eles), passei pela parte do lamaçal, agora com menos gente em volta.

"Em alguns momentos, estava sozinho e ficava receoso de errar o caminho já que a corrida estava extremamente mal sinalizada.

"O momento de atravessar novamente o atoleiro estava chegando, mas eu não via a placa para a virada em direção a praia. Estava sozinho e não via um staff sequer em volta da pista.

"Acabei passando batido por acidente na entrada da parte critica e só percebi isso quando fiz uma curva e dei de cara com o portal da chegada. Fiquei chateado e ao mesmo tempo aliviado por não ter tido que passar por lá de novo.

"Fechei a corrida muito abaixo do tempo que eu esperava (fiz em 1h52min e esperava duas horas ), dois minutos atras de meu amigo que pegou o pódium de terceiro lugar.

"Adorei fazer 21 quilômetros, e os próximos que me aguardem!"

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h09

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PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

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