Fala, leitor
Experiência gelada
Prezado leitor, muito obrigado pela grande participação. Estão chegando muitas histórias sobre participações inesquecíveis na São Silvestre, uma mais bacana que a outra. Estou dando aquela editada legal e vou começar a publicar as histórias, aos poucos, a partir de domingo.
Bom, antes disso quero apresentar a você o MARCOS SANCHES, que talvez já seja seu conhecido dos comentários que faz aqui no blog. Estatístico de profissão, ele hoje mora no Canadá, para onde foi convocado pela empresa onde trabalha. É um corredor de quatro costados, daqueles que busca o recorde pessoal a cada treino, começa uma maratona como se fosse prova de 100 metros e sai vivo...
Também é co-fundador da equipe Nossa Turma, assim como eu e mais um pequeno punhado de apaixonados por corrida. Bem, no Canadá ele está treinando em ruas frias e correndo provas mais frias ainda. Uma delas foi a Withby Waterfront Race, uma prova de dez milhas (16 km) realizada no domingo passado em torno de um lago, com temperatura abaixo de zero. Vamos ao que ele nos conta.
"Peguei meu kit, composto pelo número e pelo gorro, e
caí fora, queria andar lá fora, ver o lago, tantas coisas. Voltei já próximo do
horário da largada. Só então notei que o sujeito no microfone falava do chip.
Que chip? Eu realmente não sei o que houve. Às vezes tenho dificuldade com o
inglês, mas hoje me pareceu tão claro: "Esse é o seu número e esse é o seu
gorro! Essa fitinha embaixo do número é para participar do brunch". Não me deu
chip. Azar. Não fui atrás do chip e com isso meu resultado não deve sair na
lista. E vale uma palavrinha sobre o brunch, é uma refeição entre o breakfest e
o lunch. Fala sério, esse pessoal só pensa em comer...
A largada foi dada enquanto um vento muito frio soprava. Eu já não agüentava mais, apesar de a espera ter sido curta. E como os canadenses são diferentes da gente, parecia que ninguém queria ficar na primeira fila! Eu também não, mas foi engraçado, a largada foi dada com a galera dispersa ali na frente, muito espaço sobrando, parecia o fundão! E o sujeito da org pediu para termos cuidado, que havia gelo na ciclovia, que hoje não era dia para recorde pessoal.
A largada foi dada e o meu treino pífio não me deixou ser rápido. A trilha beirando o lago se chama Waterfront Trail, e existe aqui em Toronto, segue para leste e oeste, tem interrupções, mas parece que sempre recomeça. Withby é depois de Ajax, que fica depois de Pickering, e a trilha tá lá firme e forte.
A largada foi às 10h, e eu lembrei que no Brasil já era 1h da tarde, a galera já deveria ter terminado lá em Curitiba. E voltei a pensar em mim, uma situação diferente, sozinho, nesse mundo diferente, grande, cheio de gelo no chão.
E logo o gelo no chão não me deixou pensar em mais nada: entramos na trilha e a neve pisada derretendo vira um gelo liso, muito liso, perigoso até, você escorrega demais, pode cair muito facilmente.
Diminuí bastante o ritmo e segui, meio que tentando ir atrás de um canadense --afinal, eles devem saber correr nesse negócio. Mas até para eles era difícil. Às vezes eu saía para a grama, que também tinha neve, mas lá era neve e não gelo. O problema era que lá o terreno era irregular, perigoso ter uma torsão. Depois do km 3 ou 4, pegamos uma parte longa onde a neve tinha derretido, e então deu para rodar bem.
A corrida era um vai e volta. Lá no final, já quase na hora de voltar, muita neve novamente, pontes de madeira escorregadias, chão liso.
Os primeiros começaram a aparecer do outro lado e eu comecei a contá-los. Descobri que eu era o corredor número 29, e na volta passei cinco e não fui passado; portanto, se não errei em nada, terminei na posição 24, com tempo em torno de 1h16m.
Há que se dizer também que os lugares ali eram muito bonitos, muito mato, árvores sem folhas e pinheiros, muita natureza e às vezes dava para ver o lago lá longe. Era um lugar muito gostoso de correr, diferente de qualquer lugar no Brasil.
Na ida, eu senti calor por volta do km 5, estava com a roupa da primeira foto + luvas, e tirei as luvas, abri o zíper da blusa, estava realmente sentido calor. Mas já percebia que era porque estava correndo a favor do vento, a volta seria diferente. E foi: mal comecei a voltar, eu tive que colocar as luvas novamente e tinha lugares que o vento era forte, não só atrapalhava correr, mas judiava muito porque era muito frio. Mas eu segui sempre.
Foi bem legal, desta vez teve medalha, mas não camiseta, e nem nada mais. Teve chip, apesar de eu ter comido bola. A org no percurso era extremamente simples, teve água e isotônico. No final teve o tal brunch, eu comi um pouco e caí fora, ainda tinha que caminhar uns 3 km até a estação de trem...
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h19
Você na São Silvestre
Faltou dizer
Se você preferir mandar sua história por e-mail, mande-a para rodolfolucena.folha@uol.com.br.
O e-mail tem anti-spam, então tenha um pouco de paciência e confirme que você é mesmo uma pessoa.
Eu lerei todos e publicarei o que for possível, dentro daqueles tais critérios pessoais e arbitrários que já comentei aqui.
Aprochegue-se.
Escrito por Rodolfo Lucena às 20h53
Histórias da São Silvestre
Fala, leitor!
Há quem adore, há quem odeie. Mas o fato é que a São Silvestre está aí de novo, chamando milhares de pessoas para as ruas, atraindo milhões de espectadores por esse Brasil afora.
Esse milhões aí é chute, mas acho que qualquer coisa que passe na Globo acaba tendo uma audiência bem polpuda.
A São Silvestre faz parte da minha memória familiar. No século passado, quando toda a família Lucena e mais agregados se reuniam na casa de minha avó para a passagem do ano, a TV ficava ligada na corrida, fazia parte do ritual da noite.
Não que a família tivesse alguma vocação atlética; era vocação de telespectador mesmo, acho eu.
E também acho que ninguém dava muita bola para o que se passava lá em São Paulo (nós estávamos no Rio Grande do Sul), mas total, era o que tinha.
No primeiro ano em que participei de corridas, depois de décadas de sedentarismo, corri a São Silvestre.
Estava com a família em Florianópolis, para o feriadão, e saí da praia no dia 30 para descansar aqui antes da prova. Acordei às 6h30 da manhã, no dia 31, e fui para a academia para a aula de alongamento. Só tinha eu, o professor e mais um louco (eu, obviamente, era absolutamente normal).
Participei da aula, ainda fiz um pouco de musculação (vá saber por quê) e voltei para dormir mais um pouco, depois de um café leve.
Pontualmente às 13h comi um almoço caseiro levíssimo, com arroz, filezinho de frango e abóbora. Às 15, assisti à largada da prova feminina e, em seguida, saí de casa para ir procurar minha turma na Paulista e conseguir uma vaguinha na multidão.
O resto é igual à história de tantos milhares de outros corredores e também totalmente diferente da história deles, pois cada um de nós experimenta sensações únicas, passa por dificuldades especiais, supera desafios particulares, vive uma vida corrida excepcional, incomparável a qualquer outra.
Por isso, convido você, caro leitor, a contar sua história da São Silvestre. Pode ser sua estréia ou algum outro momento marcante. Mande pelo sistema de comentário, se for um relato curto. Ou fique à vontade para mandar relatos gigantescos por e-mail, que a tudo se dá um jeito. O melhor é que os textos não passem de 3.000 caracteres.
Se você mora fora de São Paulo, conte algo da sua região ou do país em que está vivendo. Há corridas semelhantes, de passagens de ano, por aí. Não esqueça de incluir seus dados pessoais (nome, idade, profissão, há quanto tempo corre etc.), rg e telefone para eventuais confirmações.
Olha, já vou avisando: vou fazer uma seleção. Não prometo publicar todos os textos e também não vou avisar qual texto e quando será publicado. Mas vou ler todos com o maior carinho e vou procurar mandar a todos uma resposta dizendo que a mensagem chegou. A colaboração é gratuita e a seleção, como falei, é arbitrária.
Para começar, convidei o ultramaratonista Julio Latini, conhecido por muitos como Bond, para contar sua história. Professor de educação física, ele é um entusiasta das corridas de longa distância, já tendo participado de várias ultramaratonas. Foi integrante da equipe brasileira que disputou o Mundial de 24 horas em 2006. Neste ano, foi o terceiro no Desafio Brasília-Pirinópolis -137 km, correndo por 21 horas.
Vai participar da São Silvestre pela oitava vez.
A história dele está na próxima mensagem.
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h13
Fala, leitor - Especial São Silvestre
Bolhas e desmaio
Como prometido, eis o relato de JULIO LATINO, hoje ultramaratonista. Mas, no fim do século passado, a história era outra. Vamos ao que ele nos conta.
"Até o início de novembro de 2000, não me passava pela cabeça um dia estar correndo, muito menos estar em uma São Silvestre. Pesava 96 quilos. Não parece muito, mas, quando se tem 1,62 de altura, você é um ponto de referência para os outros. "É ali do lado do gordinho..."
Consumia seis litros de refrigerante por dia, além de muita comida --uma pizza inteira, quatro ou cinco sanduíches de uma vez.
O preço de tanta gula? Acordar uma noite com dificuldade para respirar. O desespero foi grande. Minutos depois, lá estava eu parecendo uma árvore de natal na UTI do hospital Cristo Rei, que por sorte ficava a cinco minutos casa. Entubado fiquei por três dias, saí da UTI, passei mais dois dias no hospital até receber alta.
Fui para casa achando que havia comido algo estragado. Antes de chegar em casa , passei em uma churrascaria para tirar o gosto de comida de hospital da boca. A rotina voltou! Três dias depois, lá estava eu de volta ao hospital, novamente entubado.
Após alguns dias, o médico me informava que minha estada ali seria longa. Que não me daria alta enquanto não comprasse um respirador artificial pois essas paradas respiratórias podem deixar seqüelas irreversíveis ou até a morte. Me explicava que tudo o que ocorria devia-se ao excesso de peso.
Questionei qual seriam minhas outras alternativas. O médico dizia que precisava urgentemente perder peso, mudar a alimentação e fazer exercícios.
Saí em uma semana do hospital, prometendo mudar. Vendo uma propaganda na TV, a luz me acendeu: "Corrida São Silvestre, faça sua inscrição". Na minha cabeça, isso era exercício. Fiz a inscrição e quase matei meus amigos e familiares de tanto rir com a notícia.
Já estávamos no início de dezembro e o máximo de exercício que havia feito até ali eram os famosos levantamentos de garfo e caminhada até o carro.
Resolvi treinar. Mas como? Resolvi visitar a padaria que ficava a um quarteirão e meio de minha casa. Moro em uma descida, me preparei em uma manhã e lá fui, desci correndo e voltei andando. Feliz da vida. Pelas minhas contas havia corrido 1 km, fiz as contas do tempo gasto e comecei a sonhar até em chegar entre os primeiros na SS. Era só lembrar daquele trajeto por 15 vezes. Hoje sei que a padaria está a 150 metros de casa...
Não mudei drasticamente minha dieta, mas diminuí pela metade o que consumia. Passava uma fome danada. Havia perdido quatro quilos nessas idas e vindas ao hospital. Me sentia até mais leve...
No dia da prova, acordei cedo e comecei a receber ligações de parentes querendo apostar que eu não conseguiria chegar nem mesmo a Consolação. Havia outros que apostavam que eu nem largaria.
Almocei um belo prato de leitão à pururuca, arroz, feijão, farofa e refrigerante. Três horas antes da largada, lá estava eu a postos me espremendo em busca de uma melhor posição de largada.
Eu era tão atleta que não tinha short de corrida. Usei um confortável short de algodão , parte de baixo de um pijama, a camiseta da prova e tênis de tênis. Mandei plastificar o número para não estragar.
Largada! Eu estava a uns cem metros da linha, saí correndo. Quando cruzei a linha, já estava morto de cansaço. Continuei, me arrastei até a Consolação, imaginando que descendo todo santo ajuda e que lá estaria salvo. Ledo engano.
As primeiras cãibras apareceram, comecei a sentir bolhas nos pés. Estava apenas no km 5, parecia uma eternidade. No primeiro posto de água, bebi o que dei e ainda carreguei vários copos de água.
Alternei caminhada com parada para descanso. Recebia o incentivo do público que assistia a prova e de outros atletas. Via tudo me passar, Noiva, árvore, super-heróis de todos os tipos (Batman, Super-Homem, Zorro ), mas consegui chegar ao pé da Brigadeiro.
Havia colocado como meta chegar em duas horas para ganhar minha medalhinha. Tinha ainda 40 minutos para fazer três quilômetros. Já estava sem tênis, com bolhas nos pés e cãibras por tudo. Passou por mim uma senhora comendo um sorvete, caminhando. Me ofereceu um pouco de sorvete me incentivou a não parar.
Tentei fazer um esforço e acompanhá-la. Só consegui outra cãibra. Me contorcia pelo chão de dor. Mas segui mancando, tênis na mão.
A dez minutos do tempo-limite, entrei na Paulista, faltavam 800 metros. Já não conseguia mais sentir dor, eu era a própria. Procurava na multidão minha família, chorava. Noto um staff se preparando para fechar a chegada com uma rede. Grito para que ele espere, começo a trotar e dar pequenos saltos , as pernas não me obedecem, localizo ,minha família , escuto aplausos e gritos, as lágrimas descem.
Cruzo a linha de chegada. 2 horas 01 minuto 23 segundos, faltou muito pouco para ser o último colocado , mais isto não importava, eu havia dado o primeiro passo para mudar..
Peguei minha tão cobiçada medalha, coloquei no peito e apaguei.
Acordei no hospital , o médico me perguntava : "Você aqui de novo?"
E eu respondi: "Mas agora eu sou um atleta, corri a São Silvestre"."
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h02
Jornalista sai da esteira e vai para as maratonas
Mamãe maníaca

Recebi por e-mail uma história muito legal, que reconto para você. É a experiência da jornalista brasileira Taciana Yonkovich, que hoje já não exerce a profissão, mora nos EUA e acaba de se integrar ao Marathon Maniacs, um clube de fanáticos por maratona do qual também faço parte.
É melhor deixar que ela mesma conte como foi essa mudança de vida.
"Eu tenho 36 anos e comecei a correr aos vinte e poucos. Mas era sempre off and on, parava e voltava. Depois que me mudei pra cá, me casei e tive a Julia, engordei muito e decidi cuidar de mim outra vez.
"Corria basicamente na esteira da academia. Um dia, um treinador me falou de uma 10K e eu acabei participando. Mas no inverno engordei de novo porque não botava o nariz fora de casa (morava em Boston).
"Em maio de 2006, corri uma 5K empurrando minha filha no carrinho --running stroller (a corrida permitia). Cheguei em casa e me inscrevi em oito corridas naquele mesmo ano, sendo a última a minha primeira maratona, que foi Cape Cod, em Massachusetts.
"Treinei para a primeira com um técnico on-line. Era um corredor de elite que agora faz isso como meio de vida. Conheci então, pela internet, as Running Moms, que é um grupo de mulheres que correm. Aos poucos, fomos nos encontrando em pessoa. Há também homens que fazem parte do grupo.
"Depois da primeira maratona, eu já estava inscrita para a segunda e a terceira (Vermont City e Richmond). Uma amiga minha com quem tenho muito em comum (somos conhecidas como gêmeas por isso), me incentivou a me inscrever na Marine Corps porque assim poderíamos entrar para o Marathon Maniacs. Fizemos as duas juntas e entramos pro clube com numeros consecutivos. A pedido nosso, eles nos deram os numeros 698 (Alemma) e 699 (eu)."
Bem, o que ela não disse é que, no Brasil, trabalhou na Globo no Rio e em Brasília, também fez rádio e foi assessora de imprensa. Nos Estados Unidos, trabalha como gerente no escritório de uma nutricionista, cuida da filha e corre maratonas: pretende participar de 12 no ano que vem, além de uma ultra.
E vai mandar colaborações para este blog.
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h01
Começa 9ª edição dos Jogos dos Povos Indígenas
Índios em ação

Cerimônia de abertura da nona edição dos Jogos dos Povos Indígenas, realizada ontem em Olinda, Pernambuco (fotos Reuters).
Com o tema "Água é vida, direito sagrado que não se vende", o evento deve reunir aproximadamente mil indígenas de cerca de 30 etnias brasileiras, além de visitantes internacionais.
Corridas também farão parte dessa Olimpíada indígena: há provas de 100 metros, corrida de fundo e corrida de tora. Outras modalidades incluem arco e flecha, canoagem, arremesso de lança, cabo de força e natação (travessia), além de futebol masculino e feminino.
As provas serão realizadas em arena montada na praia do Bairro Novo, em Olinda (com exceção do futebol de areia, que ocorrerá no Campo da Torre).
Além das provas competitivas, haverá apresentação de práticas esportivas tradicionais de algumas etnias, como Akô, Jãmparti, Kaipy, Katukaywa, Huka-huka, Tihimore, Xikunahaty e Zarabatana.
A competição vai até 1º de dezembro. O site oficial do evento está AQUI. Ao longo da semana, vou procurar conseguir pelo menos as infromações sobre as corridas.
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h33
