O que aprendi no treino de hoje
Pequenos passos
Meu treino de hoje foi uma longa e ritmada caminhada que, por mais de três horas e meia, me levou por becos, lombas, ruas ricas e remediadas, bonitas e feias dessa cidade monstruosa.
Numa esquina da Lapa, em uma rua feinha que ela só, com casas simples e descoloridas, de pequenas frentes, vi essa figura que iluminou meu dia.
Era uma senhora de seus quase 80 anos, talvez até um pouco mais, que despontava no jardim de sua casa. Ela tinha o corpo bem ereto, olhava firme para a frente e não parava de caminhar. Apoiava-se nas grades do jardim para dar passos laterais, com uma agilidade que, da calçada, me pareceu impressionante.
Era um tipo de exercício. Ela tinha começado no canto da varanda, segurando a grade para ficar tesa e firme, e seguia em direção ao outro extremo, distante uns cinco metros.
O meu ritmo de caminhada logo me levou a passar, mas pude perceber a determinação e a diligência com que a senhora, vestida em tons escuros, marrom a saia, verde-escura a blusa, dava cada um dos seus passos.
Imaginei que era uma forma de ela se apegar à vida, mostrar à vida que continuava ali, disposta a lutar, mesmo que mais frágil do que em tempos passados.
Ela me lembrou de minha vó, da luta de minha vó contra o mal de Parkinson.
Meses antes da morte, ela ainda se esforçava para fazer exercícios. Sentava numa poltrona, no vão da escada (nas casas de muito tempo atrás, as escadas dos sobrados tinham vãos; lá no cantinho extremo, ficava uma portinha para um porão onde morava a Velha Açucareira, a Cuca e o bicho papão, além de engradados de cerveja, caixas de tudo que é tipo e rejeitos em geral), erguia o braço e segurava uma tira de borracha, que ficava pregava no teto.
E ali minha vó fazia seu exercício, puxando a borrachinha, estendendo o braço, voltando a puxar. Não sei quanto tempo ficava, mas lembro que, cada vez que a via, ficava impressionado pela figura já então miúda, enfraquecida, porém determinada a continuar, a seguir, a lutar, ainda que soubesse --todos sabíamos-- que a derrota era certa.
E foi assim, num dia cinzento, treinando numa ruela da Lapa, com a imagem da velha senhora da esquina e a memória da minha vó, que descobri --ou, pelo menos, disse para mim mesmo com todas as palavras e cada uma das letras-- meu objetivo na vida.
É dar mais um passo. Meu objetivo na vida é dar mais um passo --na paixão por minha mulher, no amor por minhas filhas, no desempenho profissional, na vontade de mudar o mundo, na ultrahipersupermaratona da vida, na vida corrida.
Dar mais um passo --e ter vontade de dar outro.
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h18
Afinal, quão lento é devagar???
Seis por quilômetro
Como diz o ditado, o peixe morre pela boca. Eu, que fico blog afora defendendo que cada um corre no seu ritmo etc. e tal, fui depreciar meu treino, falando que o ritmo de seis minutos por quilômetro era lento.
Isso provocou o leitor Fábio Montarroios, que corre nessa balada com conforto e satisfação, a perguntar se vale a pena investir para acelerar o ritmo ou se essa batida confortável está prá lá de boa? O comentário dele está, na íntegra, na seqüência do post "Eta treininho bom".
Em primeiro lugar, Fábio e todos os leitores, deixem que eu me desculpe por ter usado desqualificadamente a palavra "lento" (ou lerdo, que eu também gosto de usar).
Ela não existe sozinha. Algo só é lento (ou rápido) em relação a algo, alguém ou algum objetivo. Claro que quem corre a seis por quilômetro vai mais devagar que quem corre a três por quilômetro. Mas a questão é: quem corre a seis por quilômetro (ou a sete ou a dez ou a quatro) está satisfeito com o que está fazendo?
Se estiver, beleza. Divirta-se e seja feliz.
Não se trata, acho eu, de encontrar a velocidade máxima de cada um ou de viver no conforto, mas sim de estar em paz consigo mesmo.
Há quem queira sempre correr mais rápido, faz um esforço danada para isso e fica muito feliz quando consegue --em contrapartida, fica emburradíssimo quando cai cinco segundos em relação ao tempo desejado.
Há quem corra todos os dias sem usar relógio e sem pensar em participar em prova alguma, apenas por correr ou para emagrecer ou, sei lá, para ficar quieto por um tempo, sem ninguém por perto.
Eu fico muito feliz cada vez que consigo terminar um treino. Bem ou mal, foi uma etapa cumprida.
Às vezes, sou mais rápido; em outras, as costas doem, os pés latejam, a cabeça manda contra e me arrasto, fico deprimido, nada mais no mundo vai dar certo. No outro dia, estou lá, para tentar de novo.
Enfim, meu prezado Fábio, a resposta curta para sua pergunta é: "Não sei".
Eu chutaria que você pode, sim, ficar mais rápido do que é hoje, considerando sua juventude e o pouco tempo de corrida que tem. Aliás, se você quiser investir nisso, talvez seja mais prudente deixar a maratona para mais tarde, mais para o final do próximo ano ou mesmo para 2009.
Mas só você (ou seja, só cada um de nós) é capaz de avaliar se vale a pena investir o tempo e o sofrimento necessários para tornar confortável um ritmo mais forte do que o que faz hoje. Porque tentar ficar mais rápido, qualquer que seja o ritmo em que se esteja, exige aplicação, determinação e tempo. E, se não for um processo ajustado, pode provocar lesões, tirar o corredor da rua.
É complicado, mas é uma boa complicação. Vai além do tempo e da corrida, ajuda a que nos perguntemos o que queremos de nós mesmos e da vida.
Escrito por Rodolfo Lucena às 16h01
Jogos do Sudeste Asiático
Valeu, cara!
A expressão de Yahuza Yahuza, da Indonésia, mostra tudo o que ele sofreu e o tanto que vibrou ao completar a maratona dos Jogos do Sudeste Asiático, que terminaram ontem em Nakhon Ratchasima, na Tailândia. O tempo do medalhista da foi grande coisa, apenas 2h23min46, mas lhe valeu o ouro na primeira maratona de sua vida.
Foi a primeira vitória da Indonésia na prova desde 1997, quando Nabunome Eduardus estabeleceu o recorde dos SEAG (Jogos do Sudeste Asiático, na sigla em inglês) ao correr 2h20min27.
Na prova feminina, Sunisa Sailomyen tornou-se a primeira tailandesa a conquistar a vitória na distância nos Jogos. Venceu em 2h43min33 --apesar de modesto, é o segundo melhor tempo da história dos SEAG.
Foto AP
Escrito por Rodolfo Lucena às 12h27
