Guerra sangrenta na pátria dos corredores
Destruição e morte
Escrito por Rodolfo Lucena às 20h06
A São Silvestre dos outros
Somos todos iguais
Festa nas ruas de Madri: fantasiados, corredores participam da 30ª edição da tradicional corrida popular San Silvestre Vallecana.
A capital espanhola por pouco não abrigou outra prova no último dia do ano. Seria muito legal: a San Silvestre Substerránea, anunciada como a primeira do mundo.
O percurso pelos túneis do metrô foi apresentado com pompa e circunstância logo depois do Natal. Mas, no sábado passado, os organizadores decidiram suspender a prova por causa de uma greve de funcionários do serviço de limpeza do Metrô.
Que bela foto, não? É de David de La Paz, da EFE (agência que mandou também as outras imagens desta página), e mostra um corredor na San Silvestre do México, que teve a participação de cerca de 10 mil atletas.
Fantasiado de toureiro, corredor diz presente da 24ª edição da San Silvestre Popular, em Valencia, Espanha.
Cerca de 4.000 atletas participaram da 38ª edição da San Silvestre de Gijón, Espanha.
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h51
Cenas da São Silvestre - 2
Imagem em ação
Foto EFE
Foto AP
foto Eduardo Knapp/Folha Imagem
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h13
Cenas da São Silvestre
Sem palavras
Fotos Raimundo Pacco/Folha Imagem
Fotos Fernando Donasci/Folha Imagem
Escrito por Rodolfo Lucena às 19h09
O último pôr-do-sol de 2007
Céu escaldante
Bela imagem obtida por Ulises Ruiz, da agência EFE, mostra o entardecer do último dia do ano passado em Puebla, no leste do México.
Abaixo, um pássaro singra os céus tingidos pelo pôr-do sol sobre as montanhas de Oman, perto de Mascate, capital desse país da Península Árabe (foto EFE).
Escrito por Rodolfo Lucena às 17h52
SS mista, 20 mil na Paulista, o balanço da muvuca
Show de civilidade
Que beleza a massa de corredores descendo a Consolação, invadindo a São João, acotovelando-se para alcançar o Elevado, esparramando-se pelo Minhocão, arrastando-se pela Rudge, negociando os viadutos, tropeçando pelo largo do Paissandu, admirando o Municipal, rolando pelo viaduto do Chá, sofrendo na Líbero Badaró, tomando fôlego no largo São Francisco, tremendo na descida da Cristóvão Colombo, olhando o que vinha pela frente, trotando na montanha, combatendo na Brigadeiro e se acabando na Paulista.
A São Silvestre 2007 (foto acima de Tuca Vieira, Folha Imagem), 83ª edição dessa prova que, no Brasil, condensa as emoções, as esperanças, as dores, os prazeres e as glórias de ser um corredor de rua, entra para a história pelo número de participantes e pelo fato de homens e mulheres correrem juntos, apertados, muvucados, espremidos, acalorados, suados, semipelados e na mais santa paz, respeito e companheirismo.
Foi um show de civilidade e cidadania que deveria servir de exemplo para muita gente que deveria dar exemplo, mas não dá.
Para mim, que não corria a prova desde 2003 e até meio que desdenhava dessa confusão calorenta e fedida que toma conta da Paulista, foi tudo uma grata surpresa.
Cheguei de metrô e fiquei numa sombrinha a cerca de dois quarteirões da largada. Ali já não dava para entrar no asfalto, de tão apertado, mas no primeiro quarteirão a coisa deveria estar brabíssima, a julgar pelo chão encharcado e pelo cheiro de xixi que perdurou mesmo quando passei de novo por lá quase duas horas mais tarde...
A largada foi no horário. Quando a sirene tocou e começaram os acordes do tema de "Carruagens de Fogo", calmamente saí da sombrinha e, metido na multidão, caminhei até a largada, quando já foi possível começar um trote contido.
Claro que eu xingava a organização pelo maldito horário, mas cada um de nós que lá estávamos sabia que o calor seria terrível.
A Paulista toda foi um negociar de ombros, joelhos e cotovelos. Imagine que eu deveria estar lá pela segunda metade da multidão e, de vez em quando, alguém aparecia correndo em desabalado sprint como se estivesse quase no pódio...
Muita gente nas calçadas, saudando os corredores. Retribuíamos com gritos de Feliz Ano Novo! e, os mais descontraídos, com suas fantasias que alegravam a multidão.
Tem de tudo.
Na Rudge, um sujeito equilibrava na cabeça uma garrafa de isotônico. Corria uns metros, recebia aplausos, bebia, corria e depois voltava a dar seu showzinho para quem estava nos pontos de ônibus.
Havia Batman, Chapolin Colorado, Rei (foto Sérgio
Alberti/Folha Imagem), Chaplin, Chacrinha (esse acho que deu um jeito de
terminar antes...), "Noiva".... Só que agora, pela primeira vez (acho) na mesma
prova, as fantasias femininas engalanaram as ruas paulistanas: das que vi, as
que mais chamaram a atenção do público foi uma simpática Emília e uma poderosa
guerreira Valquíria, munida de elmo e espada, que muitos no público chamaram de
rainha...
No mais, foi correr no calorão, cumprimentar os leitores do "Maratonando" e deste blog (amigos desconhecidos, textos que viram rostos, muito obrigado), saudar o público, economizar forças, largar o pé, queimar o chão.
Alguns, por sinal, foram com muita sede ao pote e se estreparam feio. Vi pelo menos cinco caídos, recebendo atendimento médico de urgência, e um atirado no chão, no viaduto Rudge, aguardando a chegada da ambulância (naquele local, o atendimento deve ter sido complicado, até que os postos não estavam longe, mas a comunicação me pareceu falha e, pelo que vi, o cara teve de esperar o que, para ele, deve ter sido uma eternidade e, com certeza, foi mais do que o recomendável).
A água estava quente, apesar das pedras de gelo espalhadas pelos tabuleiros e da disposição das pessoas que entregavam os copinhos e garrafinhas. Esse serviço foi falho e pode melhorar muito. Claro que é difícil, considerando a multidão e o calor, mas os organizadores deveriam tomar como ponto de honra o bom atendimento; ontem, esteve de médio para baixo.
Mas, quando enfim descemos a Cristóvão segurando as forças que vão ser soltas na Brigadeiro, nada disso importa.
"É a glória", disse uma mulher. "Vocês são uns guerreiros", gritou alguém do público. E nós assim nos sentimos, guerreiros da paz e do prazer, suados e vitoriosos, caminhantes e corredores, ombros curvados ou empinados, jovens, maduros ou vovocops, todos escalando o último obstáculo antes da conquista do topo.
Cada um dos 20 mil que lá estávamos sabe, por si, o quanto fez para conseguir dominar o asfalto. Agora, é hora de aproveitar. Chegou a Paulista. Corra, vibra e pule que esse chão é seu.
Beleza pura.
Feliz Ano Novo, um 2008 cheio de dias para todos nós.
Escrito por Rodolfo Lucena às 13h53
Velhinhos da pá virada
Velozes sessentões
Somente os corredores de mais de 60 anos tiveram melhora significativa no seu desempenho na São Silvestre, comparando-se os tempos médios de 1998 com os do ano passado.
É o que mostra reportagem publicada hoje na Folha (AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL). Em 98, a média dos mais de 60 era de 1h36min56; caiu para 1h33min44 no ano passado. As mulheres mandaram ainda melhor, passando de 1h55min35 para 1h47min39.
Outras categorias, como a de 50 a 59 anos e a dos jovens até 19 anos, também tiveram melhoras, mas menos significativas.
Bem, saúdo todos os de mais de 60 e espero que, quando chegar lá (não falta muito, não), eu também consiga baixar meu tempo.
Aliás, aproveito e saúdo todo mundo, parabéns ao campeão da São Silvestre, ao último colocado e a todos entre um e outro.
E feliz Ano Novo!!!
Escrito por Rodolfo Lucena às 10h15
ESPECIAL - Entrevista com o Atleta do Século 20 da Costa Rica
Em paz com a vida
Prezado leitor, você deve lembrar do nosso visitante e colaborador ANDRÉ DIAS, brasileiro que hoje vive na Costa Rica. Há alguns dias, publiquei relato dele sobre sua experiência na São Silvestre. Pois continuamos a conversar por e-mail, e sugeri que ele procurasse conversar com Rafael Angel Pérez, atleta da Costa Rica que venceu a São Silvestre em 1974. A idéia deu um fruto sensacional, a entrevista que você vai ler a seguir, com texto de ANDRÉ especialmente para este blog.
O carro diminuiu a velocidade, e uma senhora aproveitou que três rapazes conversavam na calçada para pedir uma informação. A conversa foi interrompida, um deles deu a resposta, a mulher agradeceu, fechou o vidro e seguiu seu caminho.
Como um dos três que ali estava naquela manhã de domingo em San José, Costa Rica, vi que seguramente essa senhora não sabia que acabara de falar com Rafael Angel Pérez (na foto, com o entrevistador). Eleito o Atleta do Século 20 em seu país por sua trajetória e suas conquistas no atletismo, colecionando vitórias e recordes entre 1964 e 1983, Rafael esteve em duas Olimpíadas e correu em mais de 220 competições internacionais em 45 países. Como ele mesmo diz, sua vitória na São Silvestre de 1974 foi a mais famosa e a que mais repercutiu em sua carreira, mas não a mais dura e brilhante.
Tive a oportunidade de conhecê-lo por meio de amigos
corredores que tenho aqui na Costa Rica, um pequeno e lindo país da América
Central com pouco mais de 4 milhões de habitantes. Esse senhor de 59 anos,
formado em educação física, doutor em educação curricular, professor
universitário aposentado, casado e pai de três filhos, aceitou o convite para
participar de um almoço de confraternização de meu grupo de corredores.
Ainda quando nos acomodávamos para a conversa, perguntei, se a partir de sua experiência, podia dizer se algum dos presentes tinha pinta de corredor. Éramos mais ou menos 25 pessoas, entre corredores amadores e familiares. Levantou a sobrancelha como quem diz ‘tá difícil‘ e respondeu: ‘Esse aqui eu conheço bem, corremos juntos, é bom corredor. Você tem pinta de corredor, ele também (apontando para nosso treinador). Mas o que faz um balão é o ar, então o que vale mesmo é o que o corredor tem por dentro‘. A conversa prometia ser boa. E eu já havia ganho minha medalha...
Em uma conversa informal, respondeu com paciência a todas às perguntas do grupo. A impressão que ficou foi de um homem em paz com a vida e que não ficou parado no tempo.
Pergunta - A vitória na São Silvestre em 1974 é
considerada a maior conquista do atletismo costarriquenho. Você
concorda?
Rafael Angel Pérez - Foi a corrida mais famosa que eu venci e a que teve mais repercussão na minha carreira. Podem até não se lembrar mais de mim, mas da São Silvestre (foto) muita gente lembra neste país.
Mas, se você me perguntar se foi a mais brilhante, eu diria que não. A mais brilhante foi a Meia Maratona de San Blas, em Coamo, Porto Rico (foto na próxima mensagem). Eu venci em 71 e em 76. Era ano de Olimpíada (76) e em ano olímpico as corridas eram duríssimas, todo mundo querendo alcançar marcas para se garantir nos Jogos. Nessa corrida estavam os grandes do atletismo mundial na época, como o colombiano Víctor Mora (vencedor da São Silvestre em 72,73,75 e 81), o finlandes Lasse Viren (campeão olímpico dos 5.000 e 10 mil metros em 72 e 76), os etíopes Mirus Yifter e Gabre Gurmu e o inglês Ron Hill. Então eu acho que esta foi minha vitória mais brilhante. Ganhei do Mora com uns 200 metros de vantagem. Fiz em 1h03.
Na São Silvestre, tinha gente muito boa também, como Roelants (vencedor da São Silvestre em 64,65,67 e 68), Palomares (vencedor em 71), o alemão Detlef Uhlemann, o colombiano Jairo Correa, o finlandés Kantanen. Mas em Coamo foi mais duro.
Ganhei a São Silvestre, que na época era de 8 km (na verdade 8,9 km) com o tempo de 23min58. Quando a gente corre, sabe mais ou menos a distância que percorreu, e eu acho que não tinha tudo isso lá. Pelo tempo que fiz acho que a corrida tinha um pouco menos. Era comum na minha época isto acontecer, não existiam os recursos de hoje para medição.
Pergunta - E como foi sua chegada aqui na Costa Rica depois da vitória na São Silvestre?
Rafael Angel Pérez - O ministro da Cultura e Esportes foi contra, mas acabou que fizeram uma grande festa. No aeroporto estavam o presidente e 14 ministros de Estado. Foi até feriado em San José.
Veja, eu tive muitos problemas com a imprensa durante a minha carreira, e eles acabaram fazendo uma imagem de que eu era polêmico, uma pessoa difícil. Por isto o ministro da Cultura foi contra.
Pergunta - Que tipo de problema?
Rafael Angel Pérez - Eu sempre disse o que pensava, e isso não agradava todo mundo. Lembro que a imprensa tentou fazer uma rivalidade minha com o (colombiano) Victor Mora, criar fatos, a imprensa gosta dessas coisas. Mas não existia nada. Eu e o Mora corremos juntos várias vezes e nunca houve rivalidade fora das pistas. Quando eu desmentia, eles não gostavam.
CONTINUA...
Escrito por Rodolfo Lucena às 22h00
ESPECIAL - Entrevista com Rafael Angel Pérez, segunda parte
Experiência vivida
Pergunta - Eu li que o senhor teve de vender
sua medalha ganha na São Silvestre em 1974 para poder seguir competindo. É
verdade?
Rafael Angel Pérez - Eu vendi sim, mas não era a medalha. Não tinha nada escrito. Veja, naquela época os corredores não podiam receber prêmios em dinheiro, o COI não permitia. Para correr na Olimpíada, não poderia ser profissional. Então o que os organizadores das corridas faziam era dar ao vencedor uma medalha ou algo assim em ouro. Na São Silvestre, eu ganhei um troféu e essa medalha, que não tinha nada escrito. Era como uma barra de ouro, com um laço. E era de muito bom quilate.
Quando voltei para a Costa Rica, logo depois desta vitória, um clube na Espanha me chamou para correr por eles em um circuito de corridas nos meses de fevereiro a maio. Era o Celta de Vigo. Eles pagavam tudo, passagem, hospedagem e ainda tinha prêmio pelas corridas, que eram de US$ 1.000, US$ 1.500. Como eu queria levar minha mulher comigo, tive que vender minha medalha, ou seja, a barra de ouro para fazer dinheiro.
Lembro que o primeiro carro que comprei foi quando voltei da Espanha. Ganhei um bom dinheiro lá.
Pergunta - Para quem vendeu?
Rafael Angel Pérez - Vendi para um joalheiro aqui mesmo em San José. O ouro era muito bom e valeu uns US$ 6 mil na época. Depois sei que esse joalheiro vendeu pro Banco Central e está lá até hoje. Tem um projeto para devolver a medalha para mim. (Em 2006 um deputado elaborou um projeto de lei prevendo a devolução dessa medalha a Rafael).
Pergunta - A medalha faz falta para o senhor? Digo, como valor histórico e sentimental?
Rafael Angel Pérez - Não, era feito para isso mesmo. Não tem nada escrito nela. Eu vendi porque quis. Se você for à minha casa, todos os meus troféus estão lá para quem quiser ver. Está tudo lá. Quando me pedem emprestado para uma exposição, por exemplo, eu empresto sem problemas.
Eu corri em mais de 45 países, só não corri na África. Tenho esse lado, o de viajar e conhecer um monte de coisa bem satisfeito. O mais importante são as recordações, a experiência vivida, e isso eu tenho tudo aqui (apontando para a cabeça).
Pergunta - E tem alguma outra corrida que o senhor se lembra de ter sofrido, tido dor, aquela corrida que foi ganha na raça mesmo?
Rafael Angel Pérez - Lembro de uma que venci na Guatemala e que foi muito, muito dura, sofri bastante. Acho que isto foi em 80 ou 81, era uma corrida sem importância internacional, a meia-maratona de Coban. Fomos três corredores daqui, e estávamos divididos, não havia espírito de grupo entre nós.
Eu já estava perto do fim de minha carreira, e muitos corredores do país não aceitavam que eu continuasse ganhando. Um desses que também foi à Guatemala me disse antes da prova que já estava na hora de eu parar de ganhar, que assim era melhor para o atletismo na Costa Rica e propôs que revezássemos algumas vitórias. Eu disse que achava ótimo que houvesse outros vencedores ticos (apelido de quem é nascido na Costa Rica), mas que não faria nenhum acerto deste tipo. Fiquei muito bravo com aquilo.
O fato é que depois de cinco quilômetros o grupo da frente já estava a mais de 200 metros na minha frente. Mas eu não queria perder aquela corrida de jeito nenhum. Depois foi chegando uma parte com mais subida e percebi que os da frente iam ficando mais para trás e eu fui chegando. No começo de uma subida forte cheguei no grupo e um deles me disse para acompanhá-lo na subida. Forcei mais ainda, intimidando o cara mentalmente. Ganhei a corrida na raça, foi muito forte.
Outra corrida que acho que corri bem foi no Tenesse, nos EUA. Ganhei e bati o recorde nacional dos 10 mil metros que dura até hoje (28min48), então acho que foi uma boa corrida.
Pergunta - O senhor disse que é posssível intimidar o adversário para derrotá-lo mentalmente. Como é isto entre os corredores da elite?
Rafael Angel Pérez - Essa é uma das coisas que estou escrevendo para meu livro que deve ficar pronto em maio do ano que vem. Essa intimidação começava antes mesmo da corrida, já no hotel ou outro lugar onde os corredores se encontravam. Tinha um pouco de espionagem, um pergunta ao outro como vão as coisas, que provas e tempos tem feito, já para saber como o cara está. Durante a corrida, você usa seu ritmo para testar o adversário e dizer do que é capaz. No atletismo não tem muita enganação não, pelo menos na minha época. Era jogo limpo, chegou na frente, ganhou.
CONTINUA....
Escrito por Rodolfo Lucena às 21h54
ESPECIAL - Entrevista com Rafael Angel Pérez, terceira parte
Mulheres de valor
Pergunta - Quantas maratonas o senhor venceu?
Rafael Angel Pérez - Eu nunca fui um maratonista, não era minha prova mais forte. Acho que corri cinco maratonas. Ganhei duas (Bracos, El Salvador, 1982 e Long Island, Nova York, 1983), mas não era uma corrida que eu era muito bom. Meu melhor tempo foi 2h16. (Todos começam a rir, imaginando o tempo que faria se fosse bom).
Pergunta - Se o senhor tivesse poder e condição para mudar alguma coisa no atletismo da Costa Rica, o que faria para melhorar?
Rafael Angel Pérez - Pergunta difícil porque se trata de uma hipótese. Mas eu acho que a Federação perdeu muito de seu prestígio e poder. Tinha que ser mais forte, ter condições de fazer aqui um ambiente competitivo para nossos atletas. Eu vejo o Roy Vargas (corredor local que há três anos é o primeiro no ranking nacional de corridas de rua) ganhar um monte de corridas todos os meses por aqui. É um desperdício o que estão fazendo com esse jovem. Não sei quão competitivo ele seria lá fora, mas tem potencial. No entanto fica aqui participando de corridas inexpressivas porque precisa do dinheiro dos prêmios. É uma pena.
Outra coisa que eu faria seria organizar corridas por categoria, para que todos tenham seu reconhecimento social. Vocês muitas vezes batem seu recorde de categoria e ninguém fica sabendo. Todo corredor deveria se sentir um pouco vencedor, o que de fato é. Não importa se são dez quilômetros em 28 minutos ou em uma hora. É uma vitória para o corredor e, no entanto, ele não é reconhecido.
Pergunta - Qual a importância que sua família teve na sua vida de corredor?
Rafael Angel Pérez - Olha, minha mãe me incentivou muito. Sou filho de mãe solteira, éramos muito pobres e ela sempre me incentivou a estudar. Eu até que fui um aluno bem regular, sem maiores sustos. Quando ela viu que eu gostava de correr, me apoiou muito, porque antes eu gostava mesmo era de jogar futebol. Jogava de goleiro e então sempre estava com machucados nas pernas. Por isso minha mãe gostou quando fui correr.
Minha mulher também foi muito importante na minha carreira. Lembro que, quando nos casamos, fomos de lua-de-mel para a Praia do Côco (aqui na Costa Rica). Minha mulher conta que acordou às 5 da manhã e não me encontrou na cama. Quando viu pela janela havia alguém correndo na praia. Ela logo soube que era eu. E isso na nossa primeira noite de casados. E ela não ficou brava, não.
Nunca fui a um baile de 31 de dezembro enquanto era corredor. Isso minha mulher reclamava. Não dava para ficar acordado até de madrugada e treinar cedo no dia seguinte. Eu ia dormir às 8 da noite para poder treinar.
Quando decidi que iria para a São Silvestre de 74, tive que passar a trabalhar meio período para treinar duas vezes por dia. Eu dava aula de educação física em tempo integral. Minha mulher então teve que passar a trabalhar meio período para poder complementar o dinheiro para manter a casa.
Portanto, minha família foi muito importante na minha carreira. Sem essas mulheres na minha vida, eu não chegaria aonde cheguei.
CONTINUA....
Escrito por Rodolfo Lucena às 21h51
ESPECIAL - Entrevista com Rafael Angel Pérez, conclusão
Tenacidade é importante
Pergunta - Hoje em dia há tênis, roupa, relógio e outros
equipamentos específicos para corredores. Na sua época como
era?
Rafael Angel Pérez - Eu ainda tenho a camisa que utilizei na corrida de São Silvestre em 74. O tecido é grosso, pesado, muito diferente do que se vê hoje em dia. Lembro-me que quando comecei a correr ainda na adolescência, aqui na Costa Rica, não havia nenhum tênis adequado para o atletismo, talvez em poucos lugares como EUA e Europa houvesse alguma coisa. O primeiro tênis Nike que eu usei foi em 69. Era outra coisa, supermacio.
Pergunta - Toda essa tecnologia faz diferença na performance do corredor?
Rafael Angel Pérez - Eu acho que não. Não faz o corredor vencer. É importante para evitar lesões, dar conforto. Mas vence quem está mais bem preparado. Eu sempre digo que quem vence uma corrida não é quem acelera mais, mas sim quem desacelera menos. O importante é o que está dentro do corredor.
Pergunta - O senhor fala que o que o corredor tem por dentro faz a diferença na pista. Que valores são importantes no caráter de um corredor que o faz vencedor?
Rafael Angel Pérez - Nós somos todos iguais, quase igualzinho uns aos outros. A diferença genética entre nós é muito pouca. E, claro, isso ajuda na hora de definir quem será um bom corredor de quem não será. Mas não é o mais importante.
Eu acho que a tenacidade é muito importante. Ser capaz de manter seu objetivo por muito tempo e ter um sonho. Manter esse sonho. E suar muito. Vejo muita gente com sonhos bonitos. Mas são poucos os que suam para alcançá-los. No atletismo, se você não suar muito não vai estar lá na frente.
Pergunta - E o senhor ainda tem sonhos? Depois de suas conquistas no esporte, o senhor ainda tem sonhos em sua vida pessoal e profissional?
Rafael Angel Pérez - Pouca gente sabe, mas tenho doutorado em educação, sou aposentado como professor universitário. Nas últimas décadas, trabalhamos em um projeto de reforma curricular para o país e não foi possível implementá-la como gostaríamos. Erramos, é verdade, teve muita coisa que afinal não ficou bem elaborada e eu sigo trabalhando para poder aperfeiçoar a educação.
Eu não conquistei tudo o que queria no atletismo. Eu tive o sonho de ser campeão olímpico e não consegui. Participei de duas Olimpíadas, quando ainda estava muito cru para o atletismo. Estive no México e na Alemanha.
Pergunta - O que lhe faltou para conseguir o sonho olímpico?
Rafael Angel Pérez - Em 1976 houve uma disputa política no Comitê daqui, e eu fiquei do lado da oposição e não fui à Olimpíada. Mas naquele ano tive meu melhor desempenho, ganhei em Coamo e meu tempo de 10 mil era de 29min baixo. O vencedor em Montreal fez 28min e pouco (na realidade o vencedor, o finlandês Lasse Viren, fez 27min e 40 seg).
Não digo que eu seria o vencedor, mas poderia estar lá na frente disputando medalha. Claro, poderia ser que no dia desse tudo errado, mas eu estava mais forte, mais rápido.
Eu não deveria ter ficado aqui, deveria ter ido viver fora, em um ambiente mais competitivo. Aqui nunca tivemos centros de treinamento que realmente preparassem atletas para competições de alto nível. Na minha época, os grandes corredores já iam para centro de treinamento na altitude, como lá no Colorado nos EUA, no México também. Aqui nunca teve disso.
Pergunta - O senhor ainda corre?
Rafael Angel Pérez - Não, agora só caminhada. Gastei toda minha cota quando era corredor. Depois que parei de competir em 1983, tive asma. Caminho regularmente para manter a saúde, coisa que faço duas ou três vezes por semana.
Escrito por Rodolfo Lucena às 21h49
