Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Como se prevenir da fratura por estresse

Cautela e caldo de galinha

Ontem conversei com um colega aqui da Redação que vem se dedicando às corridas já há algum tempo. Ele está de molho desde o início do ano, proibido de correr: fratura por estresse nas duas tíbias. Não pode correr, não pode bicicletar, não pode rodar na máquina elíptica, nada.

Imagine: daqui a pouco o cara fica com síndrome de abstinência de corrida, coisa que muitos de nós já sentimos.

Brincadeiras à parte, é preocupante ver o número de pessoas com problemas graves ou mais ou menos graves decorrentes da corrida. Eu, que sou assíduo freqüentador de consultórios de ortopedia e clínica de fisioterapia, tenho visto gente de todo tipo com as mais diversas lesões, não raro decorrentes do exagero.

Minha primeira fratura por estresse tive depois de dois anos correndo. Aprendi (acho) e, desde então, sofri outros males, mas não decorrentes do chamado "uso excessivo" (do inglês "overuse").

Como evitar isso?

Treinar sob a orientação de algum especialista é um caminho, mas nem todos (ou a grande parte) podem bancar e, além disso, não é garantia nenhuma _na já citada lesão, eu seguia fielmente planilhas de até 110 quilômetros semanais, o que pode ser pouco para alguns, mas foi demais para este corpinho velho e cansado...

Bom, eu diria que o principal caminho é ter cautela, calma, paciência. Coisas que, em geral, não estão no nosso cardápio quando descobrimos a corrida. Ao contrário, queremos mais: mais rápido, mais distância, mais tempo correndo.

O resultado acaba sendo o menos, porque a lesão está logo ali depois da curva, no tropeço e no exagero.

Uma boa forma de controlar é acompanhar graficamente, metodicamente, o que a gente faz: registrar os treinos e então seguir algumas regras básicas.

De modo geral, a receita é seguinte:

1. Procure alternar dias de treino mais forte e mais fraco.

2. Evite aumentar em mais de 10% a distância total corrida a cada semana.

3. Insira, a cada duas ou três semanas, uma semana mais fraca.

4. Descanse, beba água, alimente-se direito.

Bueno, para fazer os tais controles, vale o que você achar melhor. No passado (e talvez até hoje em dia), havia quem enchesse cadernos e cadernos com os registros, fazendo uma espécie de diário.

Acho que não precisa chegar a tanto. Você pode montar uma tabelinha no seu editor de textos ou na sua planilha eletrônica, de modo a permitir a inclusão da quilometragem percorrida a cada dia e a soma da semana.

Eu ainda monto uma tabela em editor de texto on-line, para poder acessá-la de qualquer computador.

Se preferir, há vários serviços on-line que fazem isso de graça e ainda calculam a quilometragem dos tênis, apresentam gráficos, o diabo. Já usei o da revista "Runner’s World", depois achei melhor o CoolRunning e, atualmente, uso o WinningStats. De modo geral, basta um registro rápido, e você já pode usar o serviço.

Mais recentemente, surgiram alguns em português, mas não testei nenhum. Vários leitores já comentaram aqui o da revista "O2", por exemplo.

Enfim, é uma forma de cuidar um pouco mais e melhor de seus treinos e de você mesmo. Boas corridas.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h01

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900 quilômetros depois...

Despedida

Não dá mais. Hoje foi a gota d’água: corri pela última vez com esse tênis, que tantas alegrias me deu, mas começa a ameaçar trazer problemas.

Correndo lentinho, deu dor nas costas.

Se ia mais rápido, o calcanhar parecia bater direto no asfalto.

Tudo bem, eu já sabia que ele estava pelas tabelas, mas queria tentar ainda. Afinal, nas caminhadas, é uma maravilha. Até corri com ele a São Silvestre, numa espécie de despedida antecipada.

Hoje foi para valer. Antes dos dez quilômetros, já tinha até uma bolha, coisa que não aparece há muitos e muitos quilômetros.

Povavelmente, não foi culpa dele, mas entrou no pacote, para ajudar a justificar a aposentadoria.

Que nem é tão precoce assim: ao final do treino dos 26 quilômetros de hoje, esse tênis contabilizava 918 quilômetros corridos, sem contar as caminhadas e as saídas na vida civil...

E olha que, nessa conta, estão percursos muito especiais: com ele percorri 80 dos 100 quilômetros de minha aventura na Itália, os 100 Km del Passatore, além de outras provas mais curtas...

Mas, enfim, chegou a hora. Tchau, companheiro de corridas.

E você? Calcula a quilometragem de seus calçados de corrida? Quão longe vai com cada um?

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h48

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Corredores enfrentam água, fogo e arame farpado

Coisa de macho

 

Um corredor atravessa uma área em chamas durante a Tough Guy Challenge (Desafio dos Machões, em tradução livre), uma prova totalmente doidona que é realizada na Inglaterra e inclui atletas como o que aparece na foto menor (todas as imagens são da AP).  

Segundo noticiário que encontrei em um site inglês, "milhares" de fanáticos atletas heavy-metal peregrinam até Staffordshire para participar do desafio, mas, pelas fotos, o número de participantes deve ser menor. Apesar do nome, há mulheres que participam da competição.

Os organizadores afirmam ser o maior desafio à resistência humana (confira AQUI o site da prova): envolve uma prova cross-country de 13 quilômetros e mais uma série de obstáculos, como fogo, arame farpado, túneis sob a água, riachos e precipícios.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h59

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Britânica vence a dona da casa

Coisa de mulher

Mara Yamauchi festeja ao cruzar em primeiro lugar a linha de chegada da maratona feminina de Osaka, no Japão (foto Reuters). Ela passou uma das apostas da casa, Kayoko Fukushi, pouco antes do km 35, e correu para fazer a melhor marca de sua vida, fechando em 2h2510.

A japonesa havia corrido na frente, sozinha, até o km 33. Depois começou a ser atacada mais duramente e cedeu espaço.

Foi a primeira vitória de Yamauchi, que é casada com um japonês e vive no Japão: "Eu esperava ser mais rápida, mas uma vitória é uma vitória, e eu estou muito feliz", disse ela.

No total, 13 atletas fecharam em menos de 2h30, o que já dá um bom indicador do nível que pode ser esperado para a prova olímpica.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h37

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Foto do dia - Maratona de Miami, 27.jan.2008

Reflexos milionários

Imagem de corredores que participam da maratona de Miami é refletida no capô de um Rolls Royce estacionado em frente à mansão em que viveu Gianni Versace (foto AP). A prova foi vencida por Jose Garcia, da Guatemala, em 2h17min43, deixando para trás o queniano Samuel Kiprotich e o etíope Demesse Tafera, who finished at 2:18:29. No feminino, Kelly Lijleblad foi a campeã, com 2h47min33. Mais de 10,4 mil corredores participaram do evento.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h35

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Meus cumprimentos à locomotiva do Brasil

Cinza e sangue

Já na hora do lusco-fusco, quase no apagar das luzes deste dia festivo, apresento meus parabéns a São Paulo, terra que acolheu tantos milhões de imigrantes, palco de violência, fogão em que se aquecem as melhores iguarias, território sem dono, asfalto de trânsito infernal, cama convidativa, vitrine para o mundo.

Não gosto de São Paulo, de como maltrata quem aqui vive, mas tenho de gostar de São Paulo, que tanto oferece a quem mora aqui e tanto produz para o Brasil.

Não é como Porto Alegre, onduladinha, rosada como seu pôr-do-sol; é angulosa como seus prédios, espinhosa, cinzenta. Mas também vermelha, movida a sangue e suor, gerando prazer, destilando energia vital.

Ela acolhe meus passos, e eu corto seu território, deixando aqui marcado um pedaço de minha história, como o mapa que risquei correndo, rasgando veias e construindo caminhos no asfalto.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h14

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Haile Gebrselassie está de olho no Rio

Sede de títulos

As festas de fim de ano não seduziram o etíope Haile Gebrselassie, 34, que treinou forte em dezembro, para a Maratona de Dubai, na última sexta. O objetivo de tanta aplicação era superar o recorde mundial dos 42,195 km (2h04min26s), obtido pelo atleta em setembro, em Berlim. Se conseguisse o feito, arrebataria uma premiação total de US$ 1,25 milhão, a maior já dada a um competidor do atletismo.

Ao final da prova, Gebrselassie só perdeu para ele mesmo: fracassou na empreitada, mas obteve o segundo melhor tempo da história da prova, 2h04min53s (foto EFE). Depois, lançou dúvidas sobre sua participação na maratona olímpica, por causa da poluição em Pequim.

A entrevista que você vai ler a seguir foi realizada por e-mail pelo repórter ADALBERTO LEISTER FILHO. Ocorreu nos dias finais de preparação do atleta para a prova de Dubai e serviu de base para texto publicado na Folha na semana passada.

FOLHA - Há uma história famosa que diz que você corria até a escola quando era criança. É verdade?

HAILE GEBRSELASSIE - Eu me lembro bem. Isso realmente é verdade. Tinha que correr 10 km até a escola e, então, mais 10 km para voltar para casa.

FOLHA - Em Berlim, você atingiu uma marca considerável na maratona. Qual é o próximo passo? É possível, para o homem, correr essa prova em menos de duas horas?

GEBRSELASSIE - Acho que algum dia isso será possível. Sobre mim, correrei ao menos até 2012. Acho que 2h03min é possível para mim. No futuro, pessoas poderão correr em 2 horas ou talvez menos.

FOLHA - Qual é seu próximo objetivo no atletismo? Você pretende correr a maratona da Olimpíada de Pequim?

GEBRSELASSIE - Correrei a Maratona de Dubai no dia 18 de janeiro onde tentarei superar o recorde mundial novamente. Não correrei nenhuma outra maratona no primeiro semestre, então terei uma longa preparação pra Pequim. A prioridade na preparação será treinos de velocidade e farei algumas distâncias curtas em competições, provavelmente os 10.000 m na pista, em Hengelo, em maio, e a Meia-Maratona de Lisboa, em 16 de março.

FOLHA - Teme um mau desempenho por causa da poluição do ar da cidade?

GEBRSELASSIE - Quero correr rápido a meia-maratona porque será importante para a preparação para as circunstâncias de Pequim. Tenho feito um programa especial para ajustar minha preparação às condições de Pequim.

FOLHA - Como foi superar a marca de Paul Tergat?

GEBRSELASSIE - Fiquei muito feliz de quebrar o recorde em Berlim, no mesmo percurso onde Paul havia obtido sua marca.

FOLHA - Em sua carreira, Tergat é seu maior rival? O que acha dele?

GEBRSELASSIE - Sim. Eu estimo muito o Paul, especialmente por causa de nossos duelos em Atlanta e Sydney.

FOLHA - Quando você pretende parar de competir?

GEBRSELASSIE - Quero continuar correndo ao menos até os Jogos de Londres, em 2012. Estarei com 39 anos. Minha motivação é muito alta, não corro por dinheiro, mas pelo próprio atletismo. Tomo muito cuidado com o corpo. Se Deus quiser, meu objetivo é estar bem em Londres. Ainda quero vencer campeonatos e bater recordes mundiais na rua.

FOLHA - O que quer fazer depois disso?

GEBRSELASSIE - Tenho várias empresas na Etiópia e sou muito preocupado com o desenvolvimento de meu país. Quando parar de correr, terei mais tempo para servir a Etiópia e ajudar a melhorar a situação econômica e a educação de lá. Tenho tido sorte de viajar pelo planeta e me tornar um cidadão do mundo. Quero ajudar dando a muitos etíopes uma boa educação e uma vida mais razoável.

FOLHA - Você pretende desenvolver programas sociais na Etiópia? Dizem que seu nome é bem cotado à presidência...

GEBRSELASSIE - Alguns dizem que eu deveria ser presidente da Etiópia. Eu não sei se algum dia serei, mas darei algo para meu país. Tenho já algumas escolas e programas sociais. Quero ser um exemplo para a juventude e mostrar a ela o que você pode fazer mesmo se tiver muita dificuldade na vida. Com trabalho pesado e dedicação, você pode chegar longe!

FOLHA - Gostaria de treinar outros corredores no futuro?

GEBRSELASSIE - Não tenho ambição de me tornar treinador, mas com certeza quero fazer alguma coisa por meu povo.

FOLHA - Você conhece alguns corredores brasileiros, como Marílson dos Santos e Vanderlei Cordeiro de Lima?

GEBRSELASSIE - Sim, conheço ambos. O Vanderlei trabalha com a mesma empresa de agenciamento de atletas que eu. Tive o prazer de encontrá-lo algumas vezes. Ele é um bom atleta e um grande exemplo para a juventude. Treina duro, usa seu talento e mostra que você pode conseguir boas coisas na vida.

FOLHA - Qual é o futuro do atletismo na Etiópia?

GEBRSELASSIE - Sim, há grandes talentos na Etiópia. Kenenisa Bekele, Sileshi Sihine, Telete Burka e muitos outros atletas têm grandes possibilidades. Na maratona, tenho muita expectativa no Deriba Merga. Ele correu sua segunda maratona com o tempo de 2h06min.

FOLHA - O que você acha de Kenenisa Bekele? É possível que ele supere suas glórias no atletismo?

GEBRSELASSIE - Bekele está seguindo meus passos. Mas, claro, tentarei fazer com que esses passos sejam os mais difíceis possíveis.

FOLHA - Neste ano, o Rio de Janeiro será sede do Mundial de Meia-Maratona. Você pretende correr no Brasil?

GEBRSELASSIE - Não sei ainda, depende de como irei me recuperar da Olimpíada. Tenho muito interesse em ir ao Rio de Janeiro. Gostaria de vencer [essa competição]. Meu objetivo é vencer o maior número de campeonatos mundiais, mas isso dependerá muito do que acontecer em Pequim.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h57

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Mais um corredor de elite é morto no Quênia

Flecha envenenada

Atingido por uma flecha envenenada, foi assassinado na última segunda-feira o maratonista queniano Wesley Ngetich, o segundo atleta de elite do país a morrer nos conflitos incendeiam a nação africana desde as últimas eleições, cujo resultado foi contestado pela oposição.

Segundo informações divulgadas nos Estados Unidos por Hussein Makke, treinador do atleta, Ngetich foi morto na sua cidade natal, Trans Mara, próximo à reserva de caça Maasai Mara.

O corredor queniano, que aparece acima (foto AP) cruzando a linha de chegada como vencedor da Grandma’s Marathon, em junho passado, estava escalado para participar em uma série de provas nos Estados Unidos nas próximas semanas.

Morto aos 34 anos, o maratonista deixa mulher e três filhos (8, 6 e 1 ano).

Além dele, também foi vítima da violência o velocista Lucas Sang, morto na véspera do Ano Novo.

Outro atleta de elite, o maratonista Luke Kibet, foi atingido por pedrada, mas sobreviveu.

Cerca de 650 pessoas já morreram e 250 mil foram desalojadas nos conflitos no Quênia, o pior período de violência no país desde a independência, em 1963.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h56

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Seminus, coreanos correm na neve

Pelados gelados

 

Mantendo a tradição do Festival da Neve Daegwallyeong, em Pyeongchang, cerca de 200 pessoas participam, sem camisa, de provas de 5km e 10 km.

Encontrei vários sites a respeito do evento, que termina nesta segunda-feira. O mais informativo, porém, é de 2003. Está em inglês e você pode consultá-lo AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h49

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Velhinha maratonista dá um pau em ladrão

Corredora carateca

Margo Foster, uma simpática e atlética senhora moradora da pacata localidade de Lighthouse Point, na Flórida, chegou em casa na sexta-feira de manhã, depois de seu treino de tênis, para encontrar a sala revirada e uma ladrão mexendo nas suas coisas, no quarto.

A velhinha (para os padrões da mocidade moderna) nem pensou duas vezes e se atirou no ladrão, que, surpreso com o ataque, saiu correndo levando uma mochila da própria Foster, carregada com propriedades da atleta amadora.

Maratonista, a vítima transformada em caçadora saiu atrás do ladrãozinho e o perseguiu por sete quarteirões.

Já cansado, o garoto tentou escalar uma cerca para escapar. Então Foster, 53, que também é faixa-preta em caratê, agarrou-o pela camisa, deu-lhe uns pára-te-quieto e recuperou a mochila roubada.

Na confusão, o moleque se mandou de novo, e a senhora ficou na dela: "Pode fugir que eu vou te pegar, eu corro há 40 anos". Seguiu atrás, só cozinhando o galo e, no caminho, pediu para um motorista que chamasse a polícia.

Resumo da ópera: o cara, de 24 anos, acabou preso, a polícia elogiou a coragem da corredora, mas reafirmou que não recomenda que ninguém reaja a ladrões, que podem estar armados, e a maratonista simplesmente disse: "Eu corri mais. Ele não tinha nenhuma resistência cardiorrespiratória".

Cai o pano.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h34

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Perdão, leitores

De volta à casa

 

Prezado leitor, estimada leitora, este é um pedido de desculpas: nos últimos 15 dias, mais ou menos, dediquei a este blog menos tempo do que você merece. Está certo, publiquei algumas coisinhas e você até gostou, a julgar pelos comentários, mas a atualização não foi tão amiúde como de costume.

Deixei de comentar, por exemplo, a condenação da ex-supervelocista Marion Jones a seis meses d cadeia, não pelo doping, mas por mentir à Justiça.

Também passou o desempenho de Haile na maratona de Dubai, onde ele mais uma vez correu na casa das 2h04, mas não conseguiu baixar seu recorde e deixou escapar o prometido prêmio de US$ 1 milhão oferecido pelos magnatas do petróleo.

Para ele, não faz mal. Ele corre atrás de marca ainda mais exclusiva: "Acho que ainda posso correr em 2h03min. No futuro, creio que os atletas poderão cumprir a distância em duas horas. Talvez menos", disse ele em entrevista ao repórter Adalberto Leister, da Folha (leia AQUI, exclusivo para assinantes da Folha e/ou do UOL).

Quero dizer, porém, que não se tratou de desleixo nem de descaso por esse blog e por seus maravilhosos leitores, por quem tenho o maior carinho. Foi, sim, superconcentração em outras atividades.

Estive por quase 15 dias nos Estados Unidos, a serviço da Folha, fazendo cobertura de dois supereventos de informática. Um em Las Vegas, a CES, maior feira de eletrônica de consumo do mundo. O outro foi em San Francisco, a MacWorld, em que a Apple apresentou o que chama de o notebook mais fino do mundo.

O resultado da cobertura saiu no caderno Informática e também no blog de tecnologia que edito, o Circuito Integrado, também aqui na Folha Online. Dê uma olhada por lá.

Mas claro que aproveitei o pouco tempo livre para dar umas corridinhas. Aliás, nos dois finais de semana em que lá estive, participei mesmo de provas oficiais, uma meia-maratona e uma maratona, que outra hora conto em detalhes.

Falando sobre os treinos, porém, posso dizer que correr em Las Vegas é tão ruim ou tão bom quanto correr em qualquer outra cidade absolutamente plana e com calçadas largas. É bem verdade que, quando você sai da avenida principal, apelidada de Strip, o espaço para pedestres não é tão generoso. E as obras dominam o terreno.

Meu primeiro treininho, uma corrida de recuperação que deveria ser de uns sete ou oito quilômetros, me levou direto à ladeira da memória (em Vegas, ladeira só na mente mesmo ou nas rampas de hotel). Fui em direção ao lugar ande ficava o primeiro hotel em que me hospedei na cidade, já lá se vão uns dez ou 15 anos, sei lá.

Era o Stardust, que marcou uma época e participou dos cenários de uma grande quantidade de filmes, pois ficava bem em uma ponta do Strip. Suas proporções monumentais e o néon rosa e roxo do logotipo eram o emblema de uma Vegas breguíssima e farta, como continua hoje, cada vez mais farta, rica, decadente.

O hotel foi implodido há alguns anos, e no local há obras. Outro também famoso era o Frontier, cujos funcionários estavam em longuíssima greve quando lá estive no início da década de 1990. Hoje é uma terreno baldio, ainda com os restos da destruição do prédio. Sabe-se lá o que vai surgir.

A última vez que lá estive, o Bellagio, que hoje aparece em tantos filmes, era apenas uma promessa. Trata-se de um complexo gigante, de cassino, hotel, centro de convenções, spa e ainda agora abriga obras de um supercondomínio.

Essas obras, por sinal, me derrubaram: eu queria fazer uma voltinha e acabei passando por trás da construção. Daí, como retornar á avenida principal e ao meu hotel, que estava do outro lado?

No way, como dizem os gringos. Tive de contornar o terrenão, levando meu treino para mais de 14 quilômetros e já botando caraminholas na minha cabeça, me deixando a perguntar se não tinha exagerado tão perto de uma maratona.

Mas isso é assunto para outra conversa. Por aqui, deixo as fotos. Lá no alto, uma cena de Vegas fotografada por este que vos fala. Cá embaixo, um mapinha mostrando o hotel em que estive e, em frente, a gigantesca área em construção. Alia será feito um novo centro cívico, com shoppings, hotéis, centro de convenções, teatros, cassino e ainda, mais para trás, a expansão do Bellagio a que me referi.

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h31

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Brasileiro é pentacampeão na Maratona da Disney

Colorido e divertido

Ele foi a estrela na foto de abertura da revista "Runner’s World" que está nas bancas aqui nos Estados Unidos, onde estou em uma viagem a trabalho. E o destaque parece ter sido premonitório, pois Adriano Bastos voltou a vencer a maratona da Disney.

O coloridérrimo brasileiro, que gosta de competir usando cortes de cabelo especiais, agora é dono do inédito título de pentacampeão da prova.

Neste ano, a coisa foi fácil. Ele completou em 2h20min56, mais de 14 minutos à frente do segundo colocado --ou seja, cerca de quatro quilômetros de distância.

Ele já foi convidado para a próxima edição e já começa a se preparar para o hexa.

Saiba mais sobre o atleta clicando AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h16

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Violência no Quênia atinge Paul Tergat

Recordistas isolados

Os centros de treinamento dos grandes corredores de longa distância do Quênia também já foram atacados durante a onda de violência que sangra o país africano.

O presidente do Comité Olímpico Internacional, Jaques Rogge, pediu às autoridades quenianas que reforcem as medidas de segurança dos centros de treino em altitude.

Entre os cerca de 600 mortos e 250 mil desalojados encontram-se inúmeros atletas quenianos de elite que foram surpreendidos nos locais de treino pelos conflitos que se sucederam às eleições presidenciais e gerais de 27 de Dezembro.

Paul Tergat, ex-recordista mundial da maratona, e Tegla Loroupe, primeira africana a vencer a maratona de Nova Iorque (1994), estão entre os atletas em dificuldades para deixar os locais de treino, segundo informações do jornal português "Diário de Notícias". Os seus empresários não sabem quando é que poderão sair do país.

O Centro de Treino de Iten, subsidiado por Lornah Kiplagat (nascida no Quênia e hoje naturalizada holandesa), recordista mundial da meia-maratona, também foi atacado. O local fica a meia hora de Eldoret, um dos principais pontos de confronto no Quénia, onde 50 pessoas foram queimadas vivas dentro de uma igreja no primeiro dia de Janeiro.

Escrito por Rodolfo Lucena às 22h03

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Fala, leitor - De olho na SS 2008

Sonho de criança

O caro leitor JOÃO SVIDZINSKI, 20, estuda música na USP e faz da corrida uma amiga nos momentos mais difíceis e também nos mais felizes. Apesar de muito jovem, já passou por várias experiências em que o esporte lhe serviu como apoio e farol. Ele compartilha conosco sua história, que você lê agora.

 

"Tudo começou quando eu tinha mais ou menos dez, em uma corrida muito tradicional da cidade de Maringá, interior do Paraná, a Prova Rústica Tiradentes.

Naquela época, minha alimentação era precária, tinha uma vida sedentária e vários quilos acima do ideal. Tudo indicava que eu seria um adulto pouco saudável, com uma bela barriga.

Mesmo sem praticar esportes, eu gostava muito de assistir. Lembro de mim criança assistindo à São Silvestre pela TV e brincando de corrida. Decidi então dar um basta na vida pouco saudável e participar da Tiradentes; para a minha idade, a distância era de 2,5 km.

Meus pais me proibiram, pois temiam a minha falta de preparo. Isso foi uma grande frustração para mim.

Muita gente tentava me incentivar, dizendo para eu treinar um ano e participar da prova no ano seguinte. Mas, com 11 anos, eu entraria em outra categoria, com percurso de 5 km, o que me parecia impossível na época.

Meu sonho tinha acabado, pensei que jamais participaria de uma corrida.

Quando eu tinha por volta de 14 anos, fui ver meu irmão menor participar da mesma corrida em que eu não pudera entrar, proibido pelos meus pais.

Fiquei sabendo que um amigo do meu irmão tinha duas inscrições e não pensei duas vezes: peguei o numero e fui para o funil de largada, mesmo se fosse só para ter o gostinho de participar.

Acabei correndo os 5 km até o fim, me sentindo glorificado mesmo morrendo de cansaço e com um tempo lamentável..

Aquilo provou que eu era capaz.

Nas semanas seguintes, comecei a treinar para corridas futuras. Mas meu ânimo não durou muito: parei de treinar. Mesmo assim, continuei correndo a Rústica Tiradentes todos os anos, sem levar muito a sério.

No ano retrasado, aos 18 anos, tive uma das minhas maiores crises pessoais e profissionais, tirando o ânimo para realizar qualquer atividade, mas fiquei empenhado em tentar correr todos os dias.

Foi o que me levantou do desânimo. Acordava muito sedo, já que meu único horário livre era das 5h30 à as 6h. Participei de duas provas no ano e, por motivos profissionais, tive de ir morar em São Paulo.

Foi uma época complicada, pois não conhecia praticamente ninguém e tinha de estudar muito para conquistar meus objetivos.

Continuei correndo, já que essa era uma atividade que me fazia muito feliz. Participei de varias corridas nessa nova cidade e resolvi disputar a São Silvestre de 2006.

Peguei uma das ultimas vagas. Eu não acreditava, parecia um sonho prestes a se realizar.

Em meio a várias provas e concursos, eu me preparava para essa corrida, porém quase tive meu sonho adiado por conta de uma infecção alimentar que me atingiu no Natal. Consegui me recuperar, mesmo ainda longe dos 100%.

A corrida foi uma das coisas mais felizes da minha vida. Percebi que o sonho de uma criança pode se tornar realidade, mesmo com tudo parecendo estar contra.

Hoje moro em Ribeirão Preto e continuo participando de corridas. Não corri a última São Silvestre por morar em outra cidade. Mas não há pressa, tenho muitos anos ainda para sentir o mesmo gostinho que senti em 2006."

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h37

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1998-2008 - Dez anos de corrida

Memória no asfalto

O leitor Claudio Dundes fez a gentileza de perguntar se estou festejando meus dez anos de corrida. Agradeço a lembrança, que me dá a oportunidade para colocar aqui histórias que há algum tempo queria compartilhar com você.

Pouco antes do Natal, fiz o meu último longão para uma maratona que devo correr neste próximo final de semana. Mais que um treino de ótima qualidade, por ladeiras, sob sol inclemente, foi uma visita, uma revisita a meus momentos mais gostosos --e também alguns bem complicados-- na minha querida Porto Alegre.

Como você vê no mapa acima, abracei a cidade com minhas passadas. Mas o mapa não mostra a corrida pela memória, os caminhos que trilhei no tempo e que o treino avivou de forma profunda, como só fazem esses momentos de solidão e introspecção e desafio.

Meu treino começou na rua onde morei quando tinha cinco anos, perto da casa de minha já então velha avó materna. Foi lá que brinquei de jogar pandorga, que desbravei os terrenos baldios, trepei em árvores e escalei telhados, furei o pé em pregos expostos e fui perseguido e ferroado por enxame de marimbondos.

Lá também conheci, ainda guri, a morte, acompanhando o velório da vó Alzira, o caixão no centro da sala que me parecia imensa; na varanda, o livro para registrar os visitantes; castiçais mais altos do que eu faziam a guarda do caixão.

Subi o morro do cemitério onde ela está enterrada, assim como outros parentes, e fui para territórios menos sombrios, trilhando pela nova perimetral de Porto Alegre, uma obra de engenharia muito bacana, que corta a cidade de norte a sul, do aeroporto ao Partenon, um bairro que para mim foi sempre muito distante.

Subi para as alturas de Petrópolis e me embrenhei por um favelão, lugar em que talvez nunca fosse entrar se não correndo. A favela ainda dormia, mas senti o cheiro de pão assando em uma solitária padaria da região. Me perdi pelas vielas, mas enfim voltei à avenida e redescobri meu caminho.

Cruzei pela rua onde vivi minha lua-de-mel. Sem dinheiro, não há melhor forma de curtir aquele momento do que simplesmente ficando com a amada, de portas fechadas para o resto do mundo. Foi o que fizemos na nossa primeira casinha, num conjunto habitacional que ainda hoje sobrevive.

Passei pela PUC, fui até o fim de Porto Alegre, o acesso para Viamão, que quando eu era guri, apontava o caminho para as praias do litoral sul, Pinhal e Cidreira, locais família, simples, ventosos como qualquer praia gaúcha. Voltei para cumprimentar o quartel onde me alistei, mas não servi; aliás, quilômetros depois passei também pelo ginásio em que fiz o juramento à bandeira, como reservista.

O passeio por Porto Alegre me levou ao meu colégio de adolescente, à faculdade de jornalismo, ao está Olímpico, glória do mundo, e me fez subir ao morro da televisão, onde se descortina a cidade em sua plenitude, de onde se vê o mais belo pôr-do-sol do mundo, onde os namorados se amassam e os trombadinhas fazem a festa.

Corri, trotei, suei, cheguei a ficar emocionando em vários momentos, revivendo na corrida a minha Porto Alegre, que é um jeito de pensar o mundo e a vida.

Deu tempo para pensar nesses dez anos, que foram de muita alegria e conquistas, de descobertas de gente, de lugares, de mundos, mas, principalmente, de um encontro comigo e com os outros que é maravilhoso.

A corrida é introspectiva, sim, mas é expositiva também. Você sai na rua de calção e camiseta, às vezes nem isso, e se mostra para o mundo sem máscara, sem proteção. Você vai lá e dá o que tem: não há como enganar o asfalto, ali não valem dinheiro nem poder nem nada além de sua força, resistência, coragem, amor e carinho.

No asfalto, você mostra o que tem para dar ao mundo e, ao mesmo tempo, diz aos outros que está ali para participar, aberto e sem máscara, cheio de si mesmo e trazendo na memória e no coração as vidas de todos que você ama e que são a sua vida.

Correr é amar um pouco mais cada um que você ama. Tomara que eu consiga viver ainda um montão para seguir correndo. E amando o mundo.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h43

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Guerra sangrenta na pátria dos corredores

Destruição e morte

Mais de 300 pessoas já morreram nos conflitos que tomam conta do Quênia desde domingo. Estre as vítimas estava o ex-atleta de elite Lucas Sang, que participou do time nacional no revezamento 4x400 em Seoul-98. Ele foi atacado e morto quando ia para sua casa, em Eldoret, onde cerca de 50 pessoas foram queimadas vivas em uma igreja.

Sang passou dos 400 para os 800 metros e acabou trabalhando como coelho para quenianos e estrangeiros. Ele estava aposentado das corridas, trabalhando como fazendeiro na sua cidade.

A onda de violência que destrói o Quênia (foto AP) desde a divulgação do resultado oficial das eleições presidenciais pode virar um novo caso de limpeza étnica como os que marcaram os piores episódios da história da África.

Na violência política, as maiores vítimas têm sido quenianos do grupo étnico kikuyu, o maior do país e do qual o presidente Mwai Kibaki faz parte. Lojas e casas dos kikuyus, assim como igrejas da região central do país _reduto kikuyu_ têm sido atacados.

A revolta de parte da população tem como base acusações de fraude nas eleições que deram uma vitória apertada a Kibaki. As imagens da posse de Kibaki em meio às acusacões de fraudes revoltaram os eleitores do rival, Raila Odinga.

Aqui no Brasil, o vencedor da São Silvestre, Robert Cheruiyot, disse ao jornal "O Globo" que estava muito ansioso, preocupado com sua família e com seu país. "Quero voltar logo", disse ele.

Escrito por Rodolfo Lucena às 20h06

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A São Silvestre dos outros

Somos todos iguais

 

Festa nas ruas de Madri: fantasiados, corredores participam da 30ª edição da tradicional corrida popular San Silvestre Vallecana.

A capital espanhola por pouco não abrigou outra prova no último dia do ano. Seria muito legal: a San Silvestre Substerránea, anunciada como a primeira do mundo.

O percurso pelos túneis do metrô foi apresentado com pompa e circunstância logo depois do Natal. Mas, no sábado passado, os organizadores decidiram suspender a prova por causa de uma greve de funcionários do serviço de limpeza do Metrô.

 

Que bela foto, não? É de David de La Paz, da EFE (agência que mandou também as outras imagens desta página), e mostra um corredor na San Silvestre do México, que teve a participação de cerca de 10 mil atletas.

Fantasiado de toureiro, corredor diz presente da 24ª edição da San Silvestre Popular, em Valencia, Espanha.

Cerca de 4.000 atletas participaram da 38ª edição da San Silvestre de Gijón, Espanha.

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h51

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Cenas da São Silvestre - 2

Imagem em ação

 

Foto EFE

 

Foto AP

foto Eduardo Knapp/Folha Imagem

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h13

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Cenas da São Silvestre

Sem palavras

Fotos Raimundo Pacco/Folha Imagem

Fotos Fernando Donasci/Folha Imagem

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h09

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O último pôr-do-sol de 2007

Céu escaldante

 

Bela imagem obtida por Ulises Ruiz, da agência EFE, mostra o entardecer do último dia do ano passado em Puebla, no leste do México.

Abaixo, um pássaro singra os céus tingidos pelo pôr-do sol sobre as montanhas de Oman, perto de Mascate, capital desse país da Península Árabe (foto EFE).

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h52

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SS mista, 20 mil na Paulista, o balanço da muvuca

Show de civilidade

Que beleza a massa de corredores descendo a Consolação, invadindo a São João, acotovelando-se para alcançar o Elevado, esparramando-se pelo Minhocão, arrastando-se pela Rudge, negociando os viadutos, tropeçando pelo largo do Paissandu, admirando o Municipal, rolando pelo viaduto do Chá, sofrendo na Líbero Badaró, tomando fôlego no largo São Francisco, tremendo na descida da Cristóvão Colombo, olhando o que vinha pela frente, trotando na montanha, combatendo na Brigadeiro e se acabando na Paulista.

A São Silvestre 2007 (foto acima de Tuca Vieira, Folha Imagem), 83ª edição dessa prova que, no Brasil, condensa as emoções, as esperanças, as dores, os prazeres e as glórias de ser um corredor de rua, entra para a história pelo número de participantes e pelo fato de homens e mulheres correrem juntos, apertados, muvucados, espremidos, acalorados, suados, semipelados e na mais santa paz, respeito e companheirismo.

Foi um show de civilidade e cidadania que deveria servir de exemplo para muita gente que deveria dar exemplo, mas não dá.

Para mim, que não corria a prova desde 2003 e até meio que desdenhava dessa confusão calorenta e fedida que toma conta da Paulista, foi tudo uma grata surpresa.

Cheguei de metrô e fiquei numa sombrinha a cerca de dois quarteirões da largada. Ali já não dava para entrar no asfalto, de tão apertado, mas no primeiro quarteirão a coisa deveria estar brabíssima, a julgar pelo chão encharcado e pelo cheiro de xixi que perdurou mesmo quando passei de novo por lá quase duas horas mais tarde...

A largada foi no horário. Quando a sirene tocou e começaram os acordes do tema de "Carruagens de Fogo", calmamente saí da sombrinha e, metido na multidão, caminhei até a largada, quando já foi possível começar um trote contido.

Claro que eu xingava a organização pelo maldito horário, mas cada um de nós que lá estávamos sabia que o calor seria terrível.

A Paulista toda foi um negociar de ombros, joelhos e cotovelos. Imagine que eu deveria estar lá pela segunda metade da multidão e, de vez em quando, alguém aparecia correndo em desabalado sprint como se estivesse quase no pódio...

Muita gente nas calçadas, saudando os corredores. Retribuíamos com gritos de Feliz Ano Novo! e, os mais descontraídos, com suas fantasias que alegravam a multidão.

Tem de tudo.

Na Rudge, um sujeito equilibrava na cabeça uma garrafa de isotônico. Corria uns metros, recebia aplausos, bebia, corria e depois voltava a dar seu showzinho para quem estava nos pontos de ônibus.

Havia Batman, Chapolin Colorado, Rei (foto Sérgio Alberti/Folha Imagem), Chaplin, Chacrinha (esse acho que deu um jeito de terminar antes...), "Noiva".... Só que agora, pela primeira vez (acho) na mesma prova, as fantasias femininas engalanaram as ruas paulistanas: das que vi, as que mais chamaram a atenção do público foi uma simpática Emília e uma poderosa guerreira Valquíria, munida de elmo e espada, que muitos no público chamaram de rainha...

No mais, foi correr no calorão, cumprimentar os leitores do "Maratonando" e deste blog (amigos desconhecidos, textos que viram rostos, muito obrigado), saudar o público, economizar forças, largar o pé, queimar o chão.

Alguns, por sinal, foram com muita sede ao pote e se estreparam feio. Vi pelo menos cinco caídos, recebendo atendimento médico de urgência, e um atirado no chão, no viaduto Rudge, aguardando a chegada da ambulância (naquele local, o atendimento deve ter sido complicado, até que os postos não estavam longe, mas a comunicação me pareceu falha e, pelo que vi, o cara teve de esperar o que, para ele, deve ter sido uma eternidade e, com certeza, foi mais do que o recomendável).

A água estava quente, apesar das pedras de gelo espalhadas pelos tabuleiros e da disposição das pessoas que entregavam os copinhos e garrafinhas. Esse serviço foi falho e pode melhorar muito. Claro que é difícil, considerando a multidão e o calor, mas os organizadores deveriam tomar como ponto de honra o bom atendimento; ontem, esteve de médio para baixo.

Mas, quando enfim descemos a Cristóvão segurando as forças que vão ser soltas na Brigadeiro, nada disso importa.

 "É a glória", disse uma mulher. "Vocês são uns guerreiros", gritou alguém do público. E nós assim nos sentimos, guerreiros da paz e do prazer, suados e vitoriosos, caminhantes e corredores, ombros curvados ou empinados, jovens, maduros ou vovocops, todos escalando o último obstáculo antes da conquista do topo.

Cada um dos 20 mil que lá estávamos sabe, por si, o quanto fez para conseguir dominar o asfalto. Agora, é hora de aproveitar. Chegou a Paulista. Corra, vibra e pule que esse chão é seu.

Beleza pura.

Feliz Ano Novo, um 2008 cheio de dias para todos nós.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h53

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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