Violência no Quênia atinge Paul Tergat
Recordistas isolados
Os centros de treinamento dos grandes corredores de longa distância do Quênia também já foram atacados durante a onda de violência que sangra o país africano.
O presidente do Comité Olímpico Internacional, Jaques Rogge, pediu às autoridades quenianas que reforcem as medidas de segurança dos centros de treino em altitude.
Entre os cerca de 600 mortos e 250 mil desalojados encontram-se inúmeros atletas quenianos de elite que foram surpreendidos nos locais de treino pelos conflitos que se sucederam às eleições presidenciais e gerais de 27 de Dezembro.
Paul Tergat, ex-recordista mundial da maratona, e Tegla Loroupe, primeira africana a vencer a maratona de Nova Iorque (1994), estão entre os atletas em dificuldades para deixar os locais de treino, segundo informações do jornal português "Diário de Notícias". Os seus empresários não sabem quando é que poderão sair do país.
O Centro de Treino de Iten, subsidiado por Lornah Kiplagat (nascida no Quênia e hoje naturalizada holandesa), recordista mundial da meia-maratona, também foi atacado. O local fica a meia hora de Eldoret, um dos principais pontos de confronto no Quénia, onde 50 pessoas foram queimadas vivas dentro de uma igreja no primeiro dia de Janeiro.
Escrito por Rodolfo Lucena às 22h03
Fala, leitor - De olho na SS 2008
Sonho de criança
O caro leitor JOÃO SVIDZINSKI, 20, estuda música na USP e faz da corrida uma amiga nos momentos mais difíceis e também nos mais felizes. Apesar de muito jovem, já passou por várias experiências em que o esporte lhe serviu como apoio e farol. Ele compartilha conosco sua história, que você lê agora.
"Tudo começou quando eu tinha mais ou menos dez, em uma
corrida muito tradicional da cidade de Maringá, interior do Paraná, a Prova
Rústica Tiradentes.
Naquela época, minha alimentação era precária, tinha uma vida sedentária e vários quilos acima do ideal. Tudo indicava que eu seria um adulto pouco saudável, com uma bela barriga.
Mesmo sem praticar esportes, eu gostava muito de assistir. Lembro de mim criança assistindo à São Silvestre pela TV e brincando de corrida. Decidi então dar um basta na vida pouco saudável e participar da Tiradentes; para a minha idade, a distância era de 2,5 km.
Meus pais me proibiram, pois temiam a minha falta de preparo. Isso foi uma grande frustração para mim.
Muita gente tentava me incentivar, dizendo para eu treinar um ano e participar da prova no ano seguinte. Mas, com 11 anos, eu entraria em outra categoria, com percurso de 5 km, o que me parecia impossível na época.
Meu sonho tinha acabado, pensei que jamais participaria de uma corrida.
Quando eu tinha por volta de 14 anos, fui ver meu irmão menor participar da mesma corrida em que eu não pudera entrar, proibido pelos meus pais.
Fiquei sabendo que um amigo do meu irmão tinha duas inscrições e não pensei duas vezes: peguei o numero e fui para o funil de largada, mesmo se fosse só para ter o gostinho de participar.
Acabei correndo os 5 km até o fim, me sentindo glorificado mesmo morrendo de cansaço e com um tempo lamentável..
Aquilo provou que eu era capaz.
Nas semanas seguintes, comecei a treinar para corridas futuras. Mas meu ânimo não durou muito: parei de treinar. Mesmo assim, continuei correndo a Rústica Tiradentes todos os anos, sem levar muito a sério.
No ano retrasado, aos 18 anos, tive uma das minhas maiores crises pessoais e profissionais, tirando o ânimo para realizar qualquer atividade, mas fiquei empenhado em tentar correr todos os dias.
Foi o que me levantou do desânimo. Acordava muito sedo, já que meu único horário livre era das 5h30 à as 6h. Participei de duas provas no ano e, por motivos profissionais, tive de ir morar em São Paulo.
Foi uma época complicada, pois não conhecia praticamente ninguém e tinha de estudar muito para conquistar meus objetivos.
Continuei correndo, já que essa era uma atividade que me fazia muito feliz. Participei de varias corridas nessa nova cidade e resolvi disputar a São Silvestre de 2006.
Peguei uma das ultimas vagas. Eu não acreditava, parecia um sonho prestes a se realizar.
Em meio a várias provas e concursos, eu me preparava para essa corrida, porém quase tive meu sonho adiado por conta de uma infecção alimentar que me atingiu no Natal. Consegui me recuperar, mesmo ainda longe dos 100%.
A corrida foi uma das coisas mais felizes da minha vida. Percebi que o sonho de uma criança pode se tornar realidade, mesmo com tudo parecendo estar contra.
Hoje moro em Ribeirão Preto e continuo participando de corridas. Não corri a última São Silvestre por morar em outra cidade. Mas não há pressa, tenho muitos anos ainda para sentir o mesmo gostinho que senti em 2006."
Escrito por Rodolfo Lucena às 12h37
1998-2008 - Dez anos de corrida
Memória no asfalto
O leitor Claudio Dundes fez a gentileza de perguntar se estou festejando meus dez anos de corrida. Agradeço a lembrança, que me dá a oportunidade para colocar aqui histórias que há algum tempo queria compartilhar com você.
Pouco antes do Natal, fiz o meu último longão para uma maratona que devo correr neste próximo final de semana. Mais que um treino de ótima qualidade, por ladeiras, sob sol inclemente, foi uma visita, uma revisita a meus momentos mais gostosos --e também alguns bem complicados-- na minha querida Porto Alegre.
Como você vê no mapa acima, abracei a cidade com minhas passadas. Mas o mapa não mostra a corrida pela memória, os caminhos que trilhei no tempo e que o treino avivou de forma profunda, como só fazem esses momentos de solidão e introspecção e desafio.
Meu treino começou na rua onde morei quando tinha cinco anos, perto da casa de minha já então velha avó materna. Foi lá que brinquei de jogar pandorga, que desbravei os terrenos baldios, trepei em árvores e escalei telhados, furei o pé em pregos expostos e fui perseguido e ferroado por enxame de marimbondos.
Lá também conheci, ainda guri, a morte, acompanhando o velório da vó Alzira, o caixão no centro da sala que me parecia imensa; na varanda, o livro para registrar os visitantes; castiçais mais altos do que eu faziam a guarda do caixão.
Subi o morro do cemitério onde ela está enterrada, assim como outros parentes, e fui para territórios menos sombrios, trilhando pela nova perimetral de Porto Alegre, uma obra de engenharia muito bacana, que corta a cidade de norte a sul, do aeroporto ao Partenon, um bairro que para mim foi sempre muito distante.
Subi para as alturas de Petrópolis e me embrenhei por um favelão, lugar em que talvez nunca fosse entrar se não correndo. A favela ainda dormia, mas senti o cheiro de pão assando em uma solitária padaria da região. Me perdi pelas vielas, mas enfim voltei à avenida e redescobri meu caminho.
Cruzei pela rua onde vivi minha lua-de-mel. Sem dinheiro, não há melhor forma de curtir aquele momento do que simplesmente ficando com a amada, de portas fechadas para o resto do mundo. Foi o que fizemos na nossa primeira casinha, num conjunto habitacional que ainda hoje sobrevive.
Passei pela PUC, fui até o fim de Porto Alegre, o acesso para Viamão, que quando eu era guri, apontava o caminho para as praias do litoral sul, Pinhal e Cidreira, locais família, simples, ventosos como qualquer praia gaúcha. Voltei para cumprimentar o quartel onde me alistei, mas não servi; aliás, quilômetros depois passei também pelo ginásio em que fiz o juramento à bandeira, como reservista.
O passeio por Porto Alegre me levou ao meu colégio de adolescente, à faculdade de jornalismo, ao está Olímpico, glória do mundo, e me fez subir ao morro da televisão, onde se descortina a cidade em sua plenitude, de onde se vê o mais belo pôr-do-sol do mundo, onde os namorados se amassam e os trombadinhas fazem a festa.
Corri, trotei, suei, cheguei a ficar emocionando em vários momentos, revivendo na corrida a minha Porto Alegre, que é um jeito de pensar o mundo e a vida.
Deu tempo para pensar nesses dez anos, que foram de muita alegria e conquistas, de descobertas de gente, de lugares, de mundos, mas, principalmente, de um encontro comigo e com os outros que é maravilhoso.
A corrida é introspectiva, sim, mas é expositiva também. Você sai na rua de calção e camiseta, às vezes nem isso, e se mostra para o mundo sem máscara, sem proteção. Você vai lá e dá o que tem: não há como enganar o asfalto, ali não valem dinheiro nem poder nem nada além de sua força, resistência, coragem, amor e carinho.
No asfalto, você mostra o que tem para dar ao mundo e, ao mesmo tempo, diz aos outros que está ali para participar, aberto e sem máscara, cheio de si mesmo e trazendo na memória e no coração as vidas de todos que você ama e que são a sua vida.
Correr é amar um pouco mais cada um que você ama. Tomara que eu consiga viver ainda um montão para seguir correndo. E amando o mundo.
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h43
