Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Fala, leitor

Ilha amazônica

O corredor sempre busca dar um jeito de fazer seu treino, esteja onde estiver. Uma bom exemplo disso é a história do economista CARLYLE VILARINHO, 49, que corre há quatro anos. Morador de Brasília, ele visitou a reserva Xixuaú-Xiparanã , na Amazônia. No meio daquela água toda, foi procurar chão firme. Acompanhe o relato que ele mandou especialmente para este blog.

"Enquanto o Lucena estava na Espanha, eu estava na Amazônia.

Viajei a trabalho para o sul de Roraima, mais precisamente uma reserva extrativista na divisa sul, entre Roraima e Amazonas: Igarapé Xixuau, no rio Jaupere, afluente do rio Negro.

Quando me disseram que eu tinha que ir até la fiquei meio triste, pois imaginei que seria obrigado a interromper meu treinamento, quase duas semanas sem treinar... Imagina, é o rio que não tem fim e a mata, e o calor; onde correr?

Uma amiga me disse que quando o rio está vazio tem uma prainha, pequena, mas talvez suficiente

Por via das duvidas, levei um par de tênis. Lá chegando, depois de 14 horas de barco, encontrei uma ilhazinha, de fato bem pequeninha...

Na manhã seguinte, enquanto os outros dormiam, peguei uma canoinha e depois de 15 minutos de remo, lá estava eu correndo na ilhazinha. Gastei 5min15 para completar uma volta e imaginei que devia ter um quilômetro.

Lugar fantástico, pássaros diferentes, uma manhã fresca e bastante úmida. Inesquecível.

Voltei nas manhas seguintes. Acordava, pegava minha canoa, remava 15 minutos e lá estava eu.

Mas, porque chovia nas cabeceiras dos afluentes do rio Negro, a cada dia a ilha ficava mais estreita e curta... Na última manha era na base do zigue-zague. Imagino que hoje já esteja submersa.

Correr tem me mostrado caminhos perfeitos."

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h17

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Mulheres da Córeia do Norte dão show

Igualdade

Na maratona de Hong-Kong, no último dia 17, as norte-coreanas Kim Kum-ok (esq.) and Jong Yong-ok se deram as mãos pouco antes de cruzarem lado a lado a linha de chegada (foto Reuters). A vitória ficou com Kim.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h36

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Suíço bate queniano no Japão

A caminho de Pequim

 

O suíço Viktor Rothlin já tinha se dado bem em terras japonesas: no ano passado, foi terceiro no Mundial de maratona em Osaka. Agora, no último dia 17, ganhou o primeiro posto, derrotando o queniano Julius Gitahi (terceiro) e o japonês Arata Fujiwara, que terminou em segundo (foto AP).

O suíço de 34 anos vem melhorando seus tempos consistentemente; agora, quebrou seu recorde pessoal e a melhor marca de seu país ao fechar em 2h07min23. Para os japoneses, porém, o mais sensacional foi a recuperação de Fujiwara, que fez sua segunda maratona.

Na primeira, foi muito bem até o km 30, mas desandou geral nos últimos 12,195 km, que fez em mais de 1h05 (até eu já fiz melhor do que isso, 1h02 no calor de São Paulo; claro que eu não tinha corrido 30 km antes...). No domingo retrasado, cobriu a mesma distância em 37min51, fechando em 2h08min40, o que pode lhe dar uma vaga em Pequim.

No feminino, a alemã Claudia Dreher foi a primeira nas ruas de Tóquio, que abrigaram mais de 30 mil corredores, muitos vestidos com belas fantasias (fotos Reuters).

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h19

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Escritor japonês fala sobre sua vida de maratonista

Poderoso antídoto

Acho que já falei a você sobre meu amigo Fábio Shiro Monteiro, mas não custa relembrar. É um samurai brasileiro, como o nome indica, e foi meu colega na quarta série do ginásio, lá no glorioso Pio XII ("Pio XII, colégio querido, eis aqui o meu brado comovido...", começava o hino). Desde então, nunca mais nos vimos até o ano passado, graças a este blog.

Fábio é compositor e professor de violão em uma pequena cidade da Alemanha, onde vive com sua esposa brasileira e seus talentosos filhos, todos também com habilidade musical. De vez em quando, manda notícias do mundo das corridas, contando o que descobre na imprensa alemã.

Na semana passada, deu-se ao trabalho de traduzir para o português uma entrevista com o escritor japonês Haruki Murakami, 59, que também se dedica às corridas de longa distância, tema de um de seus mais recentes livros. A entrevista foi publicada na revista "Der Spiegel" do último dia 18, e é muito bacana.

Por questões de direito autoral, infelizmente não posso reproduzir aqui a íntegra da tradução tão gentilmente feita pelo Fábio, mas posso colocar algumas frases do autor (foto).

Ele começou a correr para emagrecer, como muitos de nós. Nos seus primeiros anos como escritor, fumava muito, até 60 cigarros por dia, e viu que aquilo o estava prejudicando demais. Então decidiu parar com o cigarro, mas acabou engordando um tanto, o que o levou ao esporte.

À pergunta "dá mais trabalho escrever um romance ou correr uma maratona?", ele respondeu:

"Escrever é uma diversão, em geral. Eu escrevo quatro horas diariamente. Depois faço jogging, 10 km em média. Isso dá a minha conta. Já correr 42.195 metros de uma vez só é duro, mas essa dureza eu a busco. Uma tortura inevitável a que me submeto conscientemente. Para mim, esse é o aspecto mais importante de correr uma maratona."

Como se motivar para correr foi outra questão. A resposta do autor:

"Às vezes faz muito calor; outras, frio. Ou nublado demais. Mesmo assim corro. Se não o fizesse, tampouco correria no dia seguinte. Não é da natureza humana fazer sacrifícios desnecessários, o corpo se desacostuma. Mas não quero isso. Escrevendo, é a mesma coisa. Escrevo todo dia, para não desacostumar o espírito. Para poder colocar a minha marca literária pessoal cada dia um pouco mais alta, assim como os músculos se fortalecem aos poucos pela corrida constante."

Murakami diz o que aprendeu com a corrida:

"A certeza de chegar ao final. Correndo, aprendi a confiar na minha capacidade. Aprendi a discernir o que posso suportar, quando preciso de uma pausa, e a partir de quando a pausa é longa demais."

E uma última palhinha da longa entrevista, onde o autor diz que, "seguramente", correr fez dele um escritor melhor:

"Quanto mais fortes meus músculos, mais claro fica meu espírito. Estou convencido de que artistas se apagam logo, quando não levam uma vida saudável. Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, heróis de minha juventude, morreram jovens sem tê-lo merecido. A morte prematura, só gênios como Mozart ou Puschkin a merecem. Jimi Hendrix era bom, mas não muito esperto, porque tomava drogas. O trabalho em arte não é saudável, os artistas deveriam portanto cuidar mais da saúde.

"Quando um escritor desenvolve uma história, ele se confronta com seu próprio veneno. Se você não tem esse veneno, falta inspiração na sua história. É como o baiacu: sua carne é deliciosíssima, mas as ovas, fígado e vísceras podem matar. Minhas histórias localizam-se num canto escuro e perigoso de minha consciência, eu sinto o veneno no meu ser, mas posso suportar uma dose elevada, devido ao meu corpo treinado. Quando jovem, você tem força suficiente pra derrotar o veneno sem treino. Aos 40, sua força diminui. Sem uma vida saudável, você não agüenta mais o veneno."

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h07

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Maraton Popular de Valencia

Maioridade

Cada um com seu cada qual, é o que eu sempre digo. Pois aqui, em terras de Espanha, o povo que aplaude os maratonistas grita, sem parar, repetidas vezes, com ar de entusiasmo: "Animo, animo!"

A primeira vez que notei foi em um cartaz com que uma família amorosa saudava seu herói corredor --heroína, na verdade. Dizia: "Animo, mamá campeona!". E eu, correndo nas ruas gélidas de Valencia, sofrendo um vento que cortava cada poro da pele, pensei lá com meus alfinetes: "Será que acham que a mulher vai estar desanimada a essa altura? Se estiver, está perdida", pois ainda estávamos nos quilômetros iniciais da prova, corrida pouco depois de meus 51 anos, no domingo 17 de favereiro.

Mas não, é assim mesmo. Eles gritam "animo" como quem grita "arriba!", "fuerza", ou como os argentinos festejam os corredores com um coro bacana, dizendo "si, se puede!".

Eu ainda levaria tempo para me acostumar, e a cada vez que alguém me gritava "animo", ficava com vontade de parar e dizer para o amigo que não estava desanimado, minha cara era feia assim mesmo, e aquele olhar perdido significa férrea determinação. Imagine que estaria ali, àquela altura, se não tivesse animo.

Mas palavras são palavras e cada uma tem seu sentido, sua história, uma vida como cada um de nós, e há que aprender e reconhecer essa história para não se perder nos meandros dos significados.

Bom, são coisas que vão se pensando enquanto corre, mas o certo é que esse percurso, que começa planinho, bacana, é também cheio de meandros. Nunca havia corrido uma prova tão cheia de curvas, retornos, contornos. Será que eles se inspiraram nas formas das espanholas para montar o recorrido?

Não sei. Sei que Valencia é inspiradora. Uma das maiores cidades da Espanha, porto movimentado, ponto de partida para praias bacanas, é acima de tudo um centro de história, um museu ao ar livre.

No centro antigo, esbarramos com restos de muralhas milenares, com igrejas medievais e bastiões de fortalezas ainda mais antigas, com ruelas que serpenteiam, labirínticas, brincando de fazer com que o turista se perca e se encontre, descanse num banco de praça, que as há muitas, ou tome um café solo, pequerrucho espresso.

A maratona, como sempre, começa antes do tiro da largada. Passei a tarde de sábado me organizando para chegar na hora ao ponto de partida, o que nunca é simples em eventos com milhares de pessoas --aqui,. só de corredores são quase 4.000. Perguntei qual o melhor, se táxi, metro ou ônibus, descobri a linha certa do ônibus e em qual direção seguir, calculei o horário em que deveria estar no ponto e dei ainda mais 15 minutos de lambuja.

Fiz tudo certo. Na manhã de domingo, ainda dei mais um tempo para o ônibus se atrasar, chegando um pouquinho antes ao ponto. Pois ele começou a demorar e demorar, cada minuto contava com dois, três, cinco na minha cabeça apressada, preocupada. Enfim, aparece o 95 que tem talvez o percurso mais sensacional entre os ônibus urbanos, pois ladeia todo o tempo o que antigamente foi um rio e hoje é um parque que fica a uns cinco metros abaixo do nível da rua e se estende por quilômetros a fio.

Só tem corredor no ônibus, todos paramentados. Nos pontos seguintes, chegam outros, apressados, ainda se arrumando, aproveitando a viagem para prender o número na camiseta ou acertar o cadarço que segura seu chip de identificação. Há até alguém da organização, uma senhora enérgica, que não esconde sua irritação quando descobre que o percurso do ônibus está interrompido, vamos ter de descer e caminhar. Será que vai dar tempo, a que distância estamos da largada, sei lá eu.

A mulher argumenta que, em anos anteriores, a rua fora fechada mais tarde, mas a elegante guardinha não deixa margens a dúvidas: o ônibus vai ter de seguir por outros rumos. A senhora da organização nos lidera a todos para a calçada, diz que falta um quilômetro, e cada um segue por si, uns trotam, eu me contento em caminhar com algum grau de energia, porque não quero gastar nada que não seja preciso.

Ao mesmo tempo, o incidente dá uma certa ajuda para distensionar. Quanto menos tempo eu tiver de esperar para a largada, menos tempo terei para temer e me preocupar com o que vai acontecer. Porque ali, a poucos minutos de começar minha prova longa de número 21, que supostamente aponta para a maioridade, estou tenso como sempre, duvidando de tudo, montando na cabeça o percurso que .

me espera (atravessando uma avenida, passamos pela marca do km 5). A experiência acumulada deve servir para alguma coisa, sim, mas talvez o maior ensinamento é que cada prova é uma, e o que aconteceu na anterior não vale para a próxima.

Como na vida, há que percorrer cada passo do caminho, e ele é novo e diferente a cada instante, não importa quantas vezes tenha sido percorrido. É como um beijo bom (será que existe beijo ruim?), ou como a primeira dança nos bailes de adolescente.

Em cada baile, há uma primeira, uma moça que você olha e quer convidar. Cada vez, a perna treme, dá vontade de ir ao banheiro, você olha a garota de longe, pensa que ela não vai aceitar o convite, diz que nem adianta, se enche de coragem e atravessa o salão, mas vai em direção ao bar, fazendo uma curva que quase o deixa de frente com ela, volta, e enfim, quase sem tempo, pede a honra da parceria, às vezes no último acorde da música. Ficam os dois, ali parados, no intervalo desassossegado, até que soa a canção, dão-se os braços, vão e começa tudo de novo.

A maratona é assim, manhosa, e a gente se espreguiça e se espreme e se estica e nunca está preparado para ela. Por isso é bom não demorar muito, não pensar muito. Vai e faz, depois melhora.

 

CONTINUA....

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h07

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Maraton Popular de Valencia - parte2

Palhaços e samba

Eu estava pronto. O locutor chama os corredores, faltam diez minutos, faltam cinco, não podemos atrasar, vai ser filmado, haverá um programa especial na TV no final da tarde, somos muitos. Preparar, largada!.

Voam centenas de balões coloridos, menos cores do que as das camisetas que enchem a avenida Pio Baroja, e os alto-falantes jorram som que anima, anima, anima. Não são os costumeiros acordes de "Carruagens de Fogo", o som é ainda mais poderoso, é o coral triunfal de "Aída", que esquenta corações, empolga, desafia, empurra, faz pulsar o asfalto de Valencia como se fossem cavalgadas de mouros e cristãos se enfrentando na poeira ibérica.

Os primeiros quilômetros se enrodilham, passam voando, pois é ir até um ponto, voltar, circundar e passar novamente pela partida. Há muita gente em torno, aplaudindo, incentivando; até uns palhaços em pernas-de-pau festejam os corredores, que então seguimos para a primeira das grandes retas.

É uma ida e volta: vai-se até o 14 e então volta-se pela mesma avenidona, com direito a um leve desvio para incluir o km 17 (veja abaixo o percurso). Para mim, são os momentos mais duros, pois a avenida larga encana o vento gelado. Eu não quero forçar, mas já a essa altura os grupos de corredores estão dispersos, e não quero também ficar sozinho.

É o que me incentiva a correr um pouquinho mais do que deveria, talvez, para me encostar na sombra de um dupla de corredores, passar deles, encontrar outro, ficar marcando tempo para não passar tanto frio. Nuvens cinza-chumbo anunciam um temporal, e se a chuva vier antes do final da prova vai ser terrível.

Menos mal que, de quando em quando, um grupo musical anima a moçada. De longe ouço tambores conhecidos, repiniques, o ritmo é samba puro. E, quando chego mais perto, é uma turma de verde-amarelo, Sambão escrito nas camisetas.

Grito-lhes Brasil! e sigo. Agradeço a quem inventou aquele dobrinha para chegar ao 17, pois arrefece um pouco o vento. Ouço um "vale, vale campeona" e percebo uma espanhola (sabe-se lá) que vai se chegando para me passar. É morena, cabelos bem pretos, de índia, embrulhados em duas grossas tranças. "Cansado?", ela pergunta, e eu digo "um poquito", pensando que isso é lá coisa que se pergunte, ainda mais nesses momentos ainda iniciais da prova.

De começo, sim, mas que já levam para a meia-maratona, basta mais um pouquinho só e daí vai ser a contagem regressiva dos quilômetros.

 

CONTINUA....

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h03

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Maraton Popular de Valencia - final

Prêmio para os olhos

 

Agora a reta é outra: estamos ladeando o tal ex-rio, descemos um pequeno túnel, de novo um lugar mais quentinho, coisa boa, e voltamos a céu aberto. É a meia, com mais um tapete de chips. Com tanta curva e voltinha e reencontro de percurso, essa também é provavelmente a prova com mais tapetes de chip que já enfrentei. Eles estão em pontos estratégicos, sempre algumas dezenas de metros depois de locais que poderiam dar margem a trapaças. Se alguém cortar caminho, vai com certeza deixar de passar por algum tapete.

Fico monitorando o corpo, vendo as dores, sentindo os músculos. Está tudo em ordem, mas continua forte a dor na lombar, que me acompanha desde o km 10. Trato dela, respiro fundo, enreto as costas, enrijeço o abdome, faço do correr uma série de exercícios para proteger a coluna e vou seguindo, sem maiores problemas.

Vamos cruzar pelos jardins reais e depois seguir uma reta imensa, solitária, aberta, envenenada por ventos, ao lado da universidade de Valencia.

Tudo bem, pois sei que mais à frente me espera um prêmio, a visão da Cidade das Artes e da Ciência.. Mas as fotos que vira não me prepararam para a grandiosidade desse conjunto de monumentos arquitetônicos que abrigam museu, aquário, centro de música, salas de espetáculos, cinema, planetário, uma festa.

Obra do arquiteto catalão Santiago Calatrava, o grupo de edifícios enche os olhos como monstros modernos, um gigantesco olho pisca, outro está fechado, arcos e abóbadas se combinam em exóticas criações. E, no meio da avenida, a Eleonora me espera, tendo corrido a cidade de metrô para chegar ao 33 antes de mim, festejar essa explosão de energia transforma em construção (foto Eleonora de Lucena; veja outras imagens e vídeos da prova AQUI).

Agora, sim, o final está próximo. Faltam apenas oito quilômetros, seis no retão e dois voltando ao parque ex-rio (o Turia foi desviado há muitos anos, depois de uma enchente monumental; talvez a imagem abaixo ajude a entender melhor como é o parque). Ainda não deu para cansar, e os batimentos do coração estão totalmente controlados, nem sei o que acontece de tão fácil que é (confira AQUI balanço geral do desempenho cardíaco e corredístico).

Trato de forçar um pouco mais, depois descanso um pouco, no trote, mas sempre tentando passar mais alguém.

Cruzamos de novo pela avenida El Cid, herói espanhol, que capturou Valencia para os cristãos (mas houve época em que ficou do lado dos mouros). Na minha memória, é herói de filmes grandiosos, do tempo dos grandes épicos: "Cid, el Campeador", pau a pau com "Ben-Hur" e as obras de Cecil B. de Mille, que recontou a história pelos olhos da Hollywood dos anos 60.

Agora, em 2008, chega o momento mágico. Cruzo mais uma avenida e estou no 39, onde finalmente o asfalto, que dividíamos com os carros, é devolvido aos verdadeiros donos. Somos só nós, os corredores, que agora seguimos por sob as árvores. A maratona está no papo, já vejo no meu coração a chegada, pois mais distante que esteja, e de novo me vêm as lágrimas.

Vou chegar! E vou correr para a Eleonora.

Há que economizar um pouquinho para fazer bonito na entrada do estádio. Os quilômetros passam mais rápído, menos o 41. Ele é o mais gostoso, cheio de antecipação, mas também o mais longo, interminável, pois aponta o final.

O 42 é quase à porta do estádio de Turia, desço a pista correndo e vejo de imediato um pórtico laranja, quase grito de chegada, mas vejo que há ainda meia volta a fazer, a meta é do outro lado, onde as pessoas se acotovelam na arquibancada.

Aí, sim, dá para chegar chamando Brasil, cruzar a linha mandando beijos para a Eleonora, e correr para a medalha.

Com ela, vem o complemento do kit da sensacional Maratón Popular de Valencia, um dos mais ricos e completos que já recebi em prova. Duas garrafas de vinho, uma antes e uma depois da prova, um saco de laranjas de umbigo dulcíssimas, um doce propriamente dito, banana, isotônico; antes havíamos recebido também uma bolsa para carregar tênis e outros brindes bacanas, como uma caneca da prova.

Mas o que eu quero agora é meu beijo.E lá me vou, cheio de animo.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h57

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Foto de maratona ganha prêmio internacional

Esforço recompensado

O corredor pode não ter levado nada, mas o fotógrafo que captou o momento da chegada desse atleta, sob forte chuva, na maratona de Copenhague, se deu muito bem.

A foto acima ganhou o primeiro prêmio do World Press Photo 2007 na categoria reportagem esportiva. Ela foi feita em 18 de maio de 2007 pelo fotógrafo dinamarquês Erik Refner _veja o site dele AQUI.

O prêmio foi anunciado ontem, e você pode ver AQUI outras fotos feitas por Refner na chegada da maratona. Se surgir problema no link, o site do prêmio está AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h09

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Entrevista com a ultramaratonista Pam Reed

Até o fim e mais um pouco

Livros que inspiram pensamentos corredísticos ou fazem meditar sobre a vida em si foram são o tema de minha coluna de hoje no caderno Equilíbrio, da FOlha (AQUI, exclusivo para assinantes da Folha e/ou do UOL).

Em uma nota, comento o lançamento da autobiografia de Pam Reed, primeira mulher --única, até agora-- a vencer a dificílima ultramaratona de Badwater, 217 quilômetros de sofrimento e superação. Estou com o livro da minha estante, aguardando sua vez, mas posso garantir que é absolutamente inspiradora a história dessa mulher, que hoje já está mais perto dos 50 que dos 40 anos e cuida de cinco filhos.

A milha a mais do título se refere ao percurso que ela fez quando se tornou a primeira pessoa a correr 300 milhas de uma tacada só --para garantir, no finalzinho Reed ainda foi mais um pouco.

Leia a seguir um pequeno trecho de uma entrevista que fiz com ela pouco quando estava nos preparativos finais da produção do livro. O texto completo foi publicado na Folha em outubro de 2005, AQUI (para assinantes da Folha e/ou do UOL).

Folha - Você começou a correr maratonas em 1988. O que a fez passar para as ultras?

Reed - Acho que foi apenas um processo progressivo... Naquela época, eu não tinha nem corrido corrido 13 milhas [meia maratona]. Então corri uma meia maratona. Daí foi uma progressão. Eu fazia triatlos, fazia a distância olímpica [1.500 metros de natação, 40 quilômetros de bicicleta, dez quilômetros de corrida] e levava mais ou menos duas horas e meia, duas e quarenta. Então eu pensei: "Bem, acho que consigo correr uma maratona". Então simplesmente fui lá e corri. Deu um clique, caiu a ficha.

Foi uma coisa de que eu realmente gostei muito. Adoro maratonas, a distância é ótima. Como já tinha uma maratona, acabei fazendo várias outras.

Então fui ao Canadá, onde fiz um ironman [3.800 metros de natação, 180 km de bicicleta, 42,2 km de corrida]. Isso foi em 1990, e eu me saí muito bem -fiquei em nono lugar no feminino, foi uma experiência muito boa. Depois disso, começaram as ultramaratonas. Minha primeira ultra foi uma prova de cem quilômetros em Elkhorn, em 1990, com meu marido -terminamos em último lugar.

Folha - Como são seus treinos?

Reed - Eu corro três ou quatro vezes por dia e faço minhas tarefas domésticas no meio tempo. Por exemplo: se eu acordo às cinco, corro até as seis. Quando voltou, preparo meu filho menor para ir a escola e enquanto isso lavo alguma roupa ou lavo os pratos. Depois que ele vai para a escola, faço outras coisas -agora tenho trabalhado no meu livro. Depois cuido do e-mail e então vou correr novamente. No total, corro umas 15 ou 20 milhas por dia, todos os dias. Quando chega a época de alguma prova, eu tendo a descansar um pouco. Quando corri minha prova de 300 milhas, tirei quatro dias de folga.

Escrito por Rodolfo Lucena às 08h54

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

De calcinha na maratona de Londres

Promessa é dívida

Talvez você nunca tenha ouvido falar dela antes (eu nunca tinha ouvido...), mas a celebridade televisiva britânica Kate Lawler prometeu correr a maratona de Londres só de roupa de baixo se --e somente se-- conseguir arrecadar 20 mil libras para uma obra de caridade.

Lawler trabalhava na área de informática quando participou do "Big Brother" britânico, em 2002. A vitória foi o caminho para nova carreira: hoje é modelo (foto divulgação) e atriz. Também atua como DJ.

Nas horas vagas, corre. Pelo menos, é o que dá a entender a promessa que fez no seu site, em que diz que vai participar da prova em Londres no dia 13 de abril. A data está marcadinha no calendário de atividades que ela publica em seu site.

Não tenho certeza, mas a impressão é de que a tal celebridade está para o público londrino assim como Grazielli Massafera está para o brasileiro.

Escrito por Rodolfo Lucena às 20h44

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O que reaprendi de novo com o treino de hoje

Experiência só não basta

Na verdade, foi com o treino de ontem, sábado.

Eu mais uma vez reaprendi de novo que, definitivamente, não sou o Super-Homem.

Essa ilusão, aliás, talvez não seja apenas minha: a ver os treinos de alguns colegas, parece que muitos de nós, corredores, acreditamos poder ir além e fazer mais do que efetivamente é sensato.

O pior é que muitos de nós, como este que aqui escreve, sabemos perfeitamente que não se deve abusar do corpo nem da boa vontade do espírito corredor. Ao longo dos anos, treinos e mais treinos, erros e mais erros, ensinaram, reensinaram e treensinaram as lições básicas, mas a gente é ainda mais teimoso do que acredita ser.

Devo dizer, antes de passar aos problemas concretos, que meu treino foi muito legal e meu desempenho esteve melhor do que o pedido pelo treinador (outra coisa que não necessariamente é positiva: Por que não fazer exatamente o pedido? Por que ir além?).

Não só fiquei a primeira hora absolutamente abaixo dos 7min/km solicitados como também passei nela por percurso extremamente encabritado, o que valoriza ainda mais o desempenho.

Segui pelas escarpas de Pinheiros, que ainda estava se espreguiçando da noite maldormida pelas aventuras carnavalescas, e cheguei lépido e fagueiro à USP, onde tomei caminhos inusuais. Em vez da tradicional volta de 10 km com rampa da Biologia, iniciei a rodagem na contramão e fui logo subir a rampona que leva á rua do Matão e mais além.

Mas não direto: peguei cada saída à esquerda, desci e subi com força aquelas rampas meio escondidas e continuei para passar pela Veterinária e fazer a volta por trás do bosque. Enfim, quando cheguei à primeira água, no dito bosque, estava com 13 km, exatamente a metade do meu treino previsto.

E o sol agora já estava mostrando que vinha para ficar, como quem lá esteve sentiu no lombo.

Bem, o treino seguiu sem incidentes, e meu ritmo até melhorou nos dez quilômetros seguintes. Os últimos três é que foram de lascar.

Não perdi o ritmo, apesar da vontade, mas fui ficando mais cansado, de saco cheio, incomodado, com os batimentos cardíacos subindo mesmo na velocidade costumeira. Acabei encerrando com 25 km, dentro do previsto (aliás, quase dez minutos melhor do que o previsto, mas nem por isso satisfeito).

E foi a única coisa inteligente que fiz, porque com certeza perderia ritmo, velocidade e ficaria triste, cansado e dolorido naquele último quilômetro.

Tudo por causa de erros e de não respeitar a minha própria programação de treino.

Vou repetir aqui o que todos sabemos, mas nem todos cumprimos: se você for correr por mais de uma hora, planeje seu reabastecimento (gel ou isotônico) a cada hora e procure beber água a cada meia hora.

É básico, ainda mais no calor.

Eu até planejei meu percurso para fazer isso, mas, ao chegar no ponto de beber, achei que faltava tão pouco (três quilômetros), que não seria necessário. Ledo e ivo engano.

Reabastecer e reidratar são medidas que não só melhoram seu treino mas ajudam na recuperação. Isso, na verdade, é o mais importante, ainda mais para quem, como eu, já há muito passou dos 30.

Mas prometo que da próxima vez faço direito. Ou não. 

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h18

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Maratona de Chicago já está com as inscrições abertas

Corrida por vaga

Palco de cenas deprimentes e revoltantes em 2007, com demonstração de incapacidade da organização de reagir a tempo aos efeitos do calor excessivo e incomum para a época, a maratona de Chicago muda para tentar continuar um dos melhores eventos do gênero no mundo.

Agora tem novo patrocinador, que provocou até mudança no nome oficial da prova e no logo. É que o Bank of America comprou o LaSalle Bank, que era o "dono" da prova.

Bom, mais isso é lá com eles. O que interessa para os corredores é que a maratona já tem data anunciada: será no domingo 12 de outubro, Dia da Criança e da descoberta da América.

E as inscrições para as 45 mil vagas abriram hoje no site oficial, que você pode conferir AQUI, em inglês.

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h03

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.