Maraton Popular de Valencia
Maioridade

Cada um com seu cada qual, é o que eu sempre digo. Pois aqui, em terras de Espanha, o povo que aplaude os maratonistas grita, sem parar, repetidas vezes, com ar de entusiasmo: "Animo, animo!"
A primeira vez que notei foi em um cartaz com que uma família amorosa saudava seu herói corredor --heroína, na verdade. Dizia: "Animo, mamá campeona!". E eu, correndo nas ruas gélidas de Valencia, sofrendo um vento que cortava cada poro da pele, pensei lá com meus alfinetes: "Será que acham que a mulher vai estar desanimada a essa altura? Se estiver, está perdida", pois ainda estávamos nos quilômetros iniciais da prova, corrida pouco depois de meus 51 anos, no domingo 17 de favereiro.
Mas não, é assim mesmo. Eles gritam "animo" como quem grita "arriba!", "fuerza", ou como os argentinos festejam os corredores com um coro bacana, dizendo "si, se puede!".
Eu ainda levaria tempo para me acostumar, e a cada vez
que alguém me gritava "animo", ficava com vontade de parar e dizer para o amigo
que não estava desanimado, minha cara era feia assim mesmo, e aquele olhar
perdido significa férrea determinação. Imagine que estaria ali, àquela altura,
se não tivesse animo.
Mas palavras são palavras e cada uma tem seu sentido, sua história, uma vida como cada um de nós, e há que aprender e reconhecer essa história para não se perder nos meandros dos significados.
Bom, são coisas que vão se pensando enquanto corre, mas o certo é que esse percurso, que começa planinho, bacana, é também cheio de meandros. Nunca havia corrido uma prova tão cheia de curvas, retornos, contornos. Será que eles se inspiraram nas formas das espanholas para montar o recorrido?
Não sei. Sei que Valencia é inspiradora. Uma das maiores cidades da Espanha, porto movimentado, ponto de partida para praias bacanas, é acima de tudo um centro de história, um museu ao ar livre.
No centro antigo, esbarramos com restos de muralhas milenares, com igrejas medievais e bastiões de fortalezas ainda mais antigas, com ruelas que serpenteiam, labirínticas, brincando de fazer com que o turista se perca e se encontre, descanse num banco de praça, que as há muitas, ou tome um café solo, pequerrucho espresso.
A maratona, como sempre, começa antes do tiro da largada. Passei a tarde de sábado me organizando para chegar na hora ao ponto de partida, o que nunca é simples em eventos com milhares de pessoas --aqui,. só de corredores são quase 4.000. Perguntei qual o melhor, se táxi, metro ou ônibus, descobri a linha certa do ônibus e em qual direção seguir, calculei o horário em que deveria estar no ponto e dei ainda mais 15 minutos de lambuja.
Fiz tudo certo. Na manhã de domingo, ainda dei mais um tempo para o ônibus se atrasar, chegando um pouquinho antes ao ponto. Pois ele começou a demorar e demorar, cada minuto contava com dois, três, cinco na minha cabeça apressada, preocupada. Enfim, aparece o 95 que tem talvez o percurso mais sensacional entre os ônibus urbanos, pois ladeia todo o tempo o que antigamente foi um rio e hoje é um parque que fica a uns cinco metros abaixo do nível da rua e se estende por quilômetros a fio.
Só tem corredor no ônibus, todos paramentados. Nos pontos seguintes, chegam outros, apressados, ainda se arrumando, aproveitando a viagem para prender o número na camiseta ou acertar o cadarço que segura seu chip de identificação. Há até alguém da organização, uma senhora enérgica, que não esconde sua irritação quando descobre que o percurso do ônibus está interrompido, vamos ter de descer e caminhar. Será que vai dar tempo, a que distância estamos da largada, sei lá eu.
A mulher argumenta que, em anos anteriores, a rua fora fechada mais tarde, mas a elegante guardinha não deixa margens a dúvidas: o ônibus vai ter de seguir por outros rumos. A senhora da organização nos lidera a todos para a calçada, diz que falta um quilômetro, e cada um segue por si, uns trotam, eu me contento em caminhar com algum grau de energia, porque não quero gastar nada que não seja preciso.
Ao mesmo tempo, o incidente dá uma certa ajuda para distensionar. Quanto menos tempo eu tiver de esperar para a largada, menos tempo terei para temer e me preocupar com o que vai acontecer. Porque ali, a poucos minutos de começar minha prova longa de número 21, que supostamente aponta para a maioridade, estou tenso como sempre, duvidando de tudo, montando na cabeça o percurso que .
me espera (atravessando uma avenida, passamos pela marca do km 5). A experiência acumulada deve servir para alguma coisa, sim, mas talvez o maior ensinamento é que cada prova é uma, e o que aconteceu na anterior não vale para a próxima.
Como na vida, há que percorrer cada passo do caminho, e ele é novo e diferente a cada instante, não importa quantas vezes tenha sido percorrido. É como um beijo bom (será que existe beijo ruim?), ou como a primeira dança nos bailes de adolescente.
Em cada baile, há uma primeira, uma moça que você olha e quer convidar. Cada vez, a perna treme, dá vontade de ir ao banheiro, você olha a garota de longe, pensa que ela não vai aceitar o convite, diz que nem adianta, se enche de coragem e atravessa o salão, mas vai em direção ao bar, fazendo uma curva que quase o deixa de frente com ela, volta, e enfim, quase sem tempo, pede a honra da parceria, às vezes no último acorde da música. Ficam os dois, ali parados, no intervalo desassossegado, até que soa a canção, dão-se os braços, vão e começa tudo de novo.
A maratona é assim, manhosa, e a gente se espreguiça e se espreme e se estica e nunca está preparado para ela. Por isso é bom não demorar muito, não pensar muito. Vai e faz, depois melhora.
CONTINUA....
Escrito por Rodolfo Lucena às 16h07
Maraton Popular de Valencia - parte2
Palhaços e samba
Eu estava pronto. O locutor chama os corredores, faltam diez minutos, faltam cinco, não podemos atrasar, vai ser filmado, haverá um programa especial na TV no final da tarde, somos muitos. Preparar, largada!.
Voam centenas de balões coloridos, menos cores do que as das camisetas que enchem a avenida Pio Baroja, e os alto-falantes jorram som que anima, anima, anima. Não são os costumeiros acordes de "Carruagens de Fogo", o som é ainda mais poderoso, é o coral triunfal de "Aída", que esquenta corações, empolga, desafia, empurra, faz pulsar o asfalto de Valencia como se fossem cavalgadas de mouros e cristãos se enfrentando na poeira ibérica.
Os primeiros quilômetros se enrodilham, passam voando, pois é ir até um ponto, voltar, circundar e passar novamente pela partida. Há muita gente em torno, aplaudindo, incentivando; até uns palhaços em pernas-de-pau festejam os corredores, que então seguimos para a primeira das grandes retas.
É uma ida e volta: vai-se até o 14 e então volta-se pela mesma avenidona, com direito a um leve desvio para incluir o km 17 (veja abaixo o percurso). Para mim, são os momentos mais duros, pois a avenida larga encana o vento gelado. Eu não quero forçar, mas já a essa altura os grupos de corredores estão dispersos, e não quero também ficar sozinho.
É o que me incentiva a correr um pouquinho mais do que deveria, talvez, para me encostar na sombra de um dupla de corredores, passar deles, encontrar outro, ficar marcando tempo para não passar tanto frio. Nuvens cinza-chumbo anunciam um temporal, e se a chuva vier antes do final da prova vai ser terrível.

Menos mal que, de quando em quando, um grupo musical anima a moçada. De longe ouço tambores conhecidos, repiniques, o ritmo é samba puro. E, quando chego mais perto, é uma turma de verde-amarelo, Sambão escrito nas camisetas.
Grito-lhes Brasil! e sigo. Agradeço a quem inventou aquele dobrinha para chegar ao 17, pois arrefece um pouco o vento. Ouço um "vale, vale campeona" e percebo uma espanhola (sabe-se lá) que vai se chegando para me passar. É morena, cabelos bem pretos, de índia, embrulhados em duas grossas tranças. "Cansado?", ela pergunta, e eu digo "um poquito", pensando que isso é lá coisa que se pergunte, ainda mais nesses momentos ainda iniciais da prova.
De começo, sim, mas que já levam para a meia-maratona, basta mais um pouquinho só e daí vai ser a contagem regressiva dos quilômetros.

CONTINUA....
Escrito por Rodolfo Lucena às 16h03
Maraton Popular de Valencia - final
Prêmio para os olhos

Agora a reta é outra: estamos ladeando o tal ex-rio, descemos um pequeno túnel, de novo um lugar mais quentinho, coisa boa, e voltamos a céu aberto. É a meia, com mais um tapete de chips. Com tanta curva e voltinha e reencontro de percurso, essa também é provavelmente a prova com mais tapetes de chip que já enfrentei. Eles estão em pontos estratégicos, sempre algumas dezenas de metros depois de locais que poderiam dar margem a trapaças. Se alguém cortar caminho, vai com certeza deixar de passar por algum tapete.
Fico monitorando o corpo, vendo as dores, sentindo os músculos. Está tudo em ordem, mas continua forte a dor na lombar, que me acompanha desde o km 10. Trato dela, respiro fundo, enreto as costas, enrijeço o abdome, faço do correr uma série de exercícios para proteger a coluna e vou seguindo, sem maiores problemas.
Vamos cruzar pelos jardins reais e depois seguir uma reta imensa, solitária, aberta, envenenada por ventos, ao lado da universidade de Valencia.
Tudo bem, pois sei que mais à frente me espera um prêmio, a visão da Cidade das Artes e da Ciência.. Mas as fotos que vira não me prepararam para a grandiosidade desse conjunto de monumentos arquitetônicos que abrigam museu, aquário, centro de música, salas de espetáculos, cinema, planetário, uma festa.
Obra do arquiteto catalão Santiago Calatrava, o grupo de edifícios enche os olhos como monstros modernos, um gigantesco olho pisca, outro está fechado, arcos e abóbadas se combinam em exóticas criações. E, no meio da avenida, a Eleonora me espera, tendo corrido a cidade de metrô para chegar ao 33 antes de mim, festejar essa explosão de energia transforma em construção (foto Eleonora de Lucena; veja outras imagens e vídeos da prova AQUI).
Agora, sim, o final está próximo. Faltam apenas oito quilômetros, seis no retão e dois voltando ao parque ex-rio (o Turia foi desviado há muitos anos, depois de uma enchente monumental; talvez a imagem abaixo ajude a entender melhor como é o parque). Ainda não deu para cansar, e os batimentos do coração estão totalmente controlados, nem sei o que acontece de tão fácil que é (confira AQUI balanço geral do desempenho cardíaco e corredístico).

Trato de forçar um pouco mais, depois descanso um pouco, no trote, mas sempre tentando passar mais alguém.
Cruzamos de novo pela avenida El Cid, herói espanhol, que capturou Valencia para os cristãos (mas houve época em que ficou do lado dos mouros). Na minha memória, é herói de filmes grandiosos, do tempo dos grandes épicos: "Cid, el Campeador", pau a pau com "Ben-Hur" e as obras de Cecil B. de Mille, que recontou a história pelos olhos da Hollywood dos anos 60.
Agora, em 2008, chega o momento mágico. Cruzo mais uma avenida e estou no 39, onde finalmente o asfalto, que dividíamos com os carros, é devolvido aos verdadeiros donos. Somos só nós, os corredores, que agora seguimos por sob as árvores. A maratona está no papo, já vejo no meu coração a chegada, pois mais distante que esteja, e de novo me vêm as lágrimas.
Vou chegar! E vou correr para a Eleonora.
Há que economizar um pouquinho para fazer bonito na entrada do estádio. Os quilômetros passam mais rápído, menos o 41. Ele é o mais gostoso, cheio de antecipação, mas também o mais longo, interminável, pois aponta o final.
O 42 é quase à porta do estádio de Turia, desço a pista correndo e vejo de imediato um pórtico laranja, quase grito de chegada, mas vejo que há ainda meia volta a fazer, a meta é do outro lado, onde as pessoas se acotovelam na arquibancada.
Aí, sim, dá para chegar chamando Brasil, cruzar a linha mandando beijos para a Eleonora, e correr para a medalha.
Com ela, vem o complemento do kit da sensacional Maratón Popular de Valencia, um dos mais ricos e completos que já recebi em prova. Duas garrafas de vinho, uma antes e uma depois da prova, um saco de laranjas de umbigo dulcíssimas, um doce propriamente dito, banana, isotônico; antes havíamos recebido também uma bolsa para carregar tênis e outros brindes bacanas, como uma caneca da prova.
Mas o que eu quero agora é meu beijo.E lá me vou, cheio de animo.
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h57
