Blog do Rodolfo Lucena - + corrida
 

Maratón Ciudad de Sevilla

Disparada no telão

Meninos, eu vi. Depois de dez anos correndo, assisti enfim à largada de uma maratona, da minha maratona. Faltavam menos de dois minutos para a saída, estávamos quase 3.000 corredores nos aprontando na pista de atletismo do Estádio Olímpico de Sevilha, quando notei os anúncios do locutor, vi o brilho por sobre as arquibancadas.

Dois telões, um em cada lado do estádio, mostravam a massa nos seus movimentos finais, prévios à explosão. Movíamo-nos como gado, em círculos, pequenos círculos em que cada um era o próprio eixo. Alguns saltitavam, outros, como eu, aguardavam, olhando, pensando.

As câmeras se voltaram para a tribuna, percebi alguns engravatados. Um sujeito de marrom, parecia estar de terno e gravata, mas já as imagens se confundem na memória, ergueu o braço. Tinha um revólver na mão.

Pensei: "Não acredito!. Vou ver a minha largada!". Ele apertou o gatilho, vi a explosão do disparo, caiu a fita que manietava a energia dos atletas, a massa disparou no telão, liderada por esguios quenianos, etíopes, marroquinos, tal como se vê nos Jogos Olímpicos, na Maratona de Nova York, nas emissoras de TV que tão raramente cobrem eventos como esse.

E eu estava lá, parecia mesmo um deles, um atleta que vai aparecer na televisão. Mas tinha tempo para observar, pensar e vagarosamente mover as pernas, pois correr era para os da frente. Do meu ponto, quase no fim da fila, a massa seguia compacta: os quenianos já ganhavam o túnel que os levaria para fora do estádio, nós nem sequer tínhamos chegado ao pórtico de largada, na reta oposta da pista.

A cantoria dos chips passando sobre os tapetes parecia a balbúrdia de caturritas ensandecidas na primavera, voejando de um lado para outro. Deu para distender as pernas, sentir a pista fofa, profissional, sensacional. Olhar para as câmeras, abanar, gritar, já sem saber o que passava nos enormes telões do estádio.

Importava era seguir.

Ainda uma última diversão, lenta e gradual. No escuro túnel, cheio de ecos, gritávamos todos, explodindo em expectativa, saudando a partida, soltando demônios, escondendo medos ou simplesmente imitando o que os outros faziam. Dei também um berro, mas me contive, segurei, parei. Queria guardar comigo toda a energia que tivesse, pois iniciava, na minha maratona de número 22, um desafio inédito para mim: completar duas provas de 42.195 metros no intervalo de apenas uma semana.

No domingo anterior, fizera a magnífica prova da cidade de Valencia, terra que El Cid conquistou dos mouros com sua cavalaria (leio o relato neste blog, em mensagens anteriores). Agora estava em Sevilha, onde Carmen enfeitiçou o soldado José e acabou perdida nos braços de um toureiro, na maior saga de amor enlouquecido, enlouquecedor que a ópera já cantou.

O dia nublado, com temperatura de 12 graus na largada, estava ótimo para a corrida, apesar de um ventinho que ameaçava cortar ânimos e ritmo. Nuvens de cinza mais forte, chumbo mesmo, também eram prenúncio de eventuais dificuldades, mas isso teríamos de ver ao longo do percurso.

O dia anterior fora de chuva. Começou pela manhã, piorou à tarde, apertou à noite, virou tormenta e temporal que me acordou algumas vezes, não sei se pelo ruído ou se por minha expectativa. De manhã, o asfalto de Sevilha ainda estava úmido, escorregadio em alguns pontos, com poças renitentes em outros, mas o clima era perfeito.

Eu também parecia estar em ordem na primeira checagem, algumas centenas de metros depois da largada, já na reta que me levaria até o quarto quilômetro. Não tinha dores vindas do domingo anterior, os quadríceps não gemiam, os joelhos não rangiam. O posterior da coxa estava meio agastado, encurtado, reclamento, mas isso faz parte de mim: queria ter uma pílula mágica da flexibilidade, quem sabe um suco de látex que me livrasse da obrigação de alongar, alongar, alongar, alongar mais um pouco e nunca estar no ponto.

Aqui há pouco o que ver, nessa área na cidade que é uma quase ilha, abraçada por uma espécie de nó feito pelo rio Guadalquivir, que banha Sevilha e lhe dá mais um espaço para o esporte e o lazer _pensar no Tietê paulistano dá tristeza e inveja dos espanhóis. Aqui há um superparque de diversões, o Estádio Olímpico, hotéis, uma área para feiras, grandes espaços vazios, avenidas largas por onde passamos.

Como na largada, continuo entre os últimos nesses primeiros quilômetros. A Maratón Ciudad de Sevilla, que completou neste ano sua edição número 24, não é exatamente para as massas: com limite de cinco horas, exige atletas preparados e coloca sobre gente mais lenta, como eu, a ameaça de não chegar a tempo de receber a medalha.

Isso não estava em meus planos. Tinha corrido Valencia em menos de 4h30 sem nenhum sofrimento mais notável, pretendia hoje fazer dentro do limite do tempo, talvez com uma folga de 15 minutos, enfim, o que meu corpo permitisse.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h00

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Maratón Ciudad de Sevilla - segunda parte

Espanha heróica

Ainda nos primeiros passos, descobri não ser o único a tentar ampliar as limites do possível: um sujeito gordinho emparelhou comigo e perguntou se eu não tinha corrido em Valencia na semana anterior. Ele tinha me reconhecido pela camiseta, em que trago os nomes da minha vida: mulher, filhas, pais, irmãos, pátria, time, cachorros, músicas...

Ele e um amigo também estavam a ver o que o destino lhes reservava para uma seqüência de maratonas. O outr já estava lá na frente, ele corria mais forte do que eu pretendia. Seguimos na troca de amabilidades por umas poucas centenas de metros, e o sujeito se foi: o peso maior não parecia comprometer sua velocidade.

Isso me deixou um pouco triste e me fez matutar acerca de meu desempenho, que já foi de quatro horas e por ali, está agora em quatro horas e por lá, e eu gostaria muito que fosse abaixo. São as contradições do corredor: quer se divertir, não deseja sofrer, mas sonha com mais velocidade, que só vem com algum sofrimento, uma dedicação a mais que nem sempre pode ser dada ou se quer dar.

Dizem que tenho de emagrecer para ficar mais rápido. Eu corto na sobremesa, deixo para lá os chocolates, afino cintura, derrubo gramas, num esforço que muito pouco conquista ao longo de muito tempo. Entro no asfalto e tomo pau de um monte de gente mais velha e mais pesada do que eu. Vai saber...

Claro que nem sempre quem corre mais no início chega ao fim correndo: a maratona tem 42.195 metros, nem unzinho a menos, e só acaba quando termina. Como na vida, nem sempre quem está mais preparado se dá melhor: é preciso saber administrar o que se tem, guardar, soltar, relaxar, tensionar, num exercício que cobra tanto do cérebro quanto dos músculos.

Por enquanto, há que relaxar, aproveitar a festa das ruas de Sevilha. Numa esquina, um grupo de rapazes seminus faz uma gritaria que alegra os corredores. Estão todos vestidos para nadar, completos com touca e óculos de natação, e levam um cartaz dedicada por certo a um de seus amigos de clube, mas aproveitam para "desincentivar" a todos, gritando para que larguemos essa vida, bom mesmo é cair na piscina...

No frio que está, é melhor acelerar um pouquinho, chegando já de volta ao estádio, onde mais gente se concentra para aplaudir a turma. Mulheres, maridos, crianças, avós, amigos, não são exatamente uma multidão, mas estão muito entusiasmados. Gritam "animo!", "animo!", "vale, vale". Para mim, de vez em quando, um grito de "Rodolfo campeón!".

E seguimos para mais solidão, mas essa no verde: cortamos o parque do Alamillo, que é uma coisa linda, cheia de árvores, esculturas em alguns jardins, grama verdinha bem cortada, dá vontade de sair pastando.

Pouca gente, mas alguns também gritam meu nome, o que aparentemente vai deixando curioso um outro corredor, que vem pouco atrás e fica brincando: "Rodolfo campeón", "Rodolfo campeón". O sujeito emparelha comigo e quer saber se sou algum artista, cantor, sabe-se lá o quê, pois tantos festejam. Eu mostro minha camiseta, em que está escrito meu nome, e ele dá risada.

Vemos chegar à primeira ponte do percurso, e eu acelero. O sujeito sai aos gritos atrás, dizendo que estopu muito forte, alertando para cuidar. "É só para sair bonito na foto", grito de volta e mando um beijo para a Eleonora, que está a postos no km 10, com sua câmera e sua alegria, me ajudando a correr (são dela todas as fotos que publico neste relato).

Logo volto a cair no ritmo, e seguimos juntos, eu e o novo amigo, mais uma moça que vinha com ele, Jess (estava escrito na camiseta dela). Às vezes, me incomoda o ritmo, que é um pouquinho mais lento do que eu gostaria, mas é melhor para me ajudar a economizar. A conversa, no final das contas, ajuda a passar o tempo, e eu vou aprendendo coisas sobre a cidade.

Estamos em grandes avenidas contornando a região mais agitada da cidade. Primeiro seguimos num retão ao lado do rio, o que só me faz pensar no quanto São Paulo poderia ser diferente, como maltratamos nossa terra. Uma enorme bandeira verde, ao longe, traz ainda mais lembranças da pátria, e conto ao colega de ritmo como é a brasileira, o verde mais escuro, as linhas retas do ouro, o azul do céu.

A Sevilha que percorremos é elétrica, de trânsito forte mesmo na manhã cinzenta de domingo. Diferente da que visitei no dia anterior, trotando pelo centro de ruelas labirínticas, pela "juderia", o antigo bairro judeu que foi um dos pontos de partida da comunidade.

A Espanha que vou conhecendo nessa curta viagem é rica, afluente, multifacetada, multicolorida. Mas guarda resquícios de um passado que, se foi vibrante, heróico, majestoso, também foi cruel, racista, de guerra sem quartel.

Os mouros invadiram a região a partir do século 6 e foram conquistando terreno aos católicos, empurrando os então donos da terra para o norte e encampando a seu serviço muitas das comunidades de judeus que proliferavam em terras ibéricas.

Posições se consolidam, mas as batalhas continuam ao longo dos séculos, para culminar na vitória completa dos reinos de Aragão e Castela em 1492. Os derrotados muçulmanos e os judeus que com eles conviviam em paz são expulsos ou forçados à conversão. Em muitas comunidades, simplesmente desaparecem, seguindo para o Novo Mundo.

Mas deixaram de herança o desenho intestinal de dezenas de cidades, estilo arquitetônico todo especial, lembranças, memórias, ciência _um mundo que ainda hoje é estudado e não cabe nessas grosseiras linhas, mas permeia o trajeto que percorro em terras de Espanha.

CONTINUA....

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h58

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Maratón Ciudade de Sevilla - terceira parte

O prazer da ultrapassagem

Neste domingo de corrida, a Espanha está prestes a voltar às urnas para escolher seu dirigente maior. Nas televisões, todos se voltam para o grande debate prometido para a noite seguinte, quando vão se enfrentar o líder socialista, no poder, e o chefe dos conservadores, de oposição. É tema também no asfalto, e Manolo, que corre comigo, prevê que a vitória será dos socialistas, tanto em Sevilha quanto no país.

Pequeno empresário, dono de uma farmácia onde trabalham também sua mulher e uma das filhas, reclama dos impostos, diz que a Espanha está recebendo muitos imigrantes, fala que há gente que prefere viver do beneplácito do Estado a trabalhar, mas prefere não arriscar com os conservadores. Para ele, "é tudo igual".

Para mim, tudo é diferente. Estou impressionado comigo mesmo, com meu bem-estar. Doem as costas, é verdade, mas não parece ser um alerta de que coisa pior virá. Ao contrário, a dor é quase para marcar posição: diz que está lá, que eu preciso enfrentá-la, mas reage e diminui quando me aprumo.

O que me incomoda, mesmo, é o coração. Desde o início da prova, o freqüencímetro vem mandando sinais estranhos, parece louco: os batimentos cardíacos sobem alucinadamente em momentos em que mal corro, estabilizam-se no alto e de repente caem. Se forço o ritmo, a freqüência vai lá para baixo, normalzinha, normalzinha...

As sensações também não combinam com as mensagens que aparecem no mostrador: eu estou bem, descansado. É quase a metade da prova, e a musculatura nem parece ter sido testada, a respiração é tranqüila, o ritmo é bom mesmo com a tagarelice.

Decido que o relógio é que não está bem das pernas. Mando um abraço para meu parceiro Manolo, despeço-me de Jess, garota londrina que foi também parceira intermitente nessa primeira parte da jornada, e vou buscar meu ritmo logo depois de passar a meia-maratona. Agora é a hora de testar o espírito.

Sou uma explosão de alegria. Sozinho, abro a passada, melhoro em dez segundos por quilômetro, em 15 segundos, mas nada que seja suficiente para me transformar em perseguidor de algum retardatário. Talvez pelo restrito limite de tempo, parece não haver lentos nessa prova. O asfalto é meu, divido o território talvez com um sujeito que mal vejo, lá longe.

É ele meu adversário, meu inimigo, meu alvo, meta, sei lá o quê.

Saio em perseguição, mas em minutos já me pergunto: "Que merda é essa?", com o perdão de meu francês. Mesmo que eu corresse como se fossem cem metros, não chegaria tão logo ao sujeito da frente. É melhor ficar na minha, voltar ao ritmo e então melhorar um bocadinho, "despacito no más", como se diz nessa plagas e também lá nas terras gaúchas.

Assim, sim, dá para apreciar o movimento e os quilômetros que passam: há cada vez menos pela frente, no que é o grande mistério e maravilha da maratona, pois quanto mais se corre, menos há para correr, mas também há mais que enfrentar.

Saio de uma avenida e posso apreciar um predião com certeza histórico, amarelão, chefiando um conjunto de edifícios semelhantes. O casarão principal é encimado pela inscrição "Matadero", o local foi um abatedouro nos tempos de antanho, hoje abriga um centro cultural.

Os próximos quilômetros são de alegria competitiva: passo muitos que foram mais rápidos e não agüentaram, encontro quem caminha, quem pára, e eu sigo no meu ritmo.

Correr é uma alegria, um prazer, uma conquista pessoal, em que a gente encontra o melhor de si mesmo e ainda consegue festejar essa alegria. Mas também nos revela o mesquinho, o invejoso, o competidor implacável que muitos de nós escondemos.

Parece que o corredor, eu-corredor encarno na mesma pessoa os muitos que são comentados em um poema de Fernando Pessoa: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil..." A gente é campeão, "Rodolfo campeón", cantam de vez em quando nas calçadas de Sevilha, mas não perde a dura humanidade, às vezes para surpresa própria.

Me encantei ao ver o Pabellón Brasil, a pátria homenageada em um dos prédios da universidade de Sevilha, em uma reta que ganhamos logo depois de ter passado pelo estádio do Betis _uma curiosidade: o time herda o nome que foi do rio, nos tempos romanos, e que também batiza a região (Bética).

Poucas centenas de metros depois, meu orgulho nacionalista se transforma em raiva estúpida, inveja boba: o prédio dedicado à Argentina era muito mais bonito que o "brasileiro" _até nisso eu queria ganhar. Fiquei brigando comigo mesmo, dizendo que os argentinos são gente boa e que a Argentina merece muito mais, mas não sei se estava sendo muito honesto...

Logo depois do km 30, o capítulo competitividade se engalana, pois um sujeito altão, que há muito vinha correndo à minha frente e às vezes dava umas caminhadas, agora corre de costas, para se dar um descanso, e faz a maior cara de surpresa ao me ver chegar para alcançá-lo _quem sabe, superá-lo.

Antes, ficamos conversando. O grandalhão é de Florença e, como eu, fizera no ano anterior os cem quilômetros do Passatore, maravilhosa ultramaratona nas montanhas da generosa Toscana (o relato está AQUI). Completadas as gentilezas, saio para deixá-lo para trás para sempre.

Ledo engano. Só lidero enquanto ele caminha. Quando corre, me ultrapassa, mas não consegue manter o vigor por muito tempo. Eu já o alcanço e sigo, ele volta a me superar. Parece que estamos os dois a competir. Estamos mesmo, mas também não, pois não importa o que o outra faça, cada um só vai ter o resultado que puder ter.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h53

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Maratón Ciudad de Sevilla - final

A última ponte

É bom que, nessa hora tardia, já no km 33, quando o sol enfim venceu as nuvens e os termômetros da rua marcam 19 graus, quando eu começo a sentir o suor pela primeira vez e a temer que o calor vá me derrubar, tenho aquela disputa, que pode ser boba, mesquinha, mas me segura inteiro.

O sujeito enfim alcança um outro que foi mais rápido e agora caminha. O superado se sente desafiado, volta a um ritmo forte, os dois parecem se ajustar e vão longe. Foi-se o meu coelho, e agora estou de novo em ritmo de cruzeiro. Miro na dupla, mas me contento em não diminuir o ritmo, o que me ajuda a passar mais alguns.

O maior movimento nas ruas também colabora. Muita gente nas calçadas, parece saída de igreja, as pessoas aproveitam para saudar os corredores. É simpático o povo de Sevilha: talvez alguns tenham vindo às ruas para saudar um amigo, parente, conhecido, mas ficam e nos alegram a todos. Não é uma multidão, mas são entusiasmados, confiantes, sempre nos dizem que falta pouco, que acreditam que a gente vai chegar.

Ali estão engalanados, roupas domingueiras, ternos e vestidos longos, até um que outro chapéu nas mulheres (depois descubro que saíam mesmo da igreja, há uma grandona naquela área). Tenho de rir do nome da praça, que homenageia San Martin de Porres. Só estando de porre mesmo, brinco com o falso cognato, para querer correr uma maratona...

E eis que mais à frente o italiano e sua dupla estão em marcha lenta: faço, agora, sim, a ultrapassagem definitiva e encho de orgulho o peito, mais alegre ainda com a certeza de que vou chegar bem, muito bem. Faltam apenas uma ponte e mais outra, menos que a distância de uma volta na avenida Sumaré, em terras paulistanas.

O sol está de novo escondido, um ventinho gela o que havia suado, mas é bem-vindo. A musculatura das pernas enfim está avisando que os quilômetros foram muitos, dá vontade de descansar, pelo menos receber um bálsamo rápido nas estações de atendimento que parecem estar colocadas mais amiúde.

Posso fazer caminhando o que resta que, mesmo assim, chegarei no prazo. Talvez deva fazer isso, para garantir recuperação mais rápida no pós-prova, proteger o esqueleto e deixar tudo em ponto de bala para o treinamento que vai continuar duro no mês seguinte, que é o período final de preparação para a minha ultramaratona do ano...

A idéia passa na minha cabeça, é verdade, mas o que eu faço é ainda mais uma vez tentar aumentar o ritmo. Vem aí a última ponte, que me levará de volta para a Isla Magica, para as cercanias do Estádio Olímpico, para o final, para o beijo da Eleonora.

Na entrada da ponte, a "nossa ponte", como a apelidamos Eleonora e eu, pois dá quase reto na avenida que leva ao hotel em que ficamos, está a marca do km 37. E está também um dos postos de abastecimento mais bacanas (foto no alto), em que os jovens que nos oferecem água também cantam para cada um, vibram com nossa passagem como se fosse um gol, "vale, vale".

Vale mesmo, porque agora é só na raiva da própria fraqueza que eu tento aumentar ainda o ritmo. Minha sensação é de estar veloz como uma flecha, mas o incorruptível relógio mostra que fiz o km 39 em sete minutos e um segundo _foi meu quarto pior quilômetro na prova. Mais um, estou de volta ao parque Alamillo, à grama verde. Outro, encosto no estádio, festejo a placa que se orgulha: "Estadio Olimpico, Estadio 5 Estrellas".

Para mim, poderia ser 10 mil, 100 milhões de estrelas, é quase tão inatingível quanto o espaço. Vejo a curva que leva ao estádio pelo túnel Sur, "igual que Abel Anton en el Mundial de 1999", diz a revista oficial da corrida, lembrando o herói espanhol que venceu em Sevilha para se tornar bicampeão mundial da maratona.

Mas não é aquela curva que faremos. Há que ir ainda um pouco mais longe para completar a distância, num trajeto que parece ter sido elaborado por alma mesquinha, que se alegra em ver a ansiedade insatisfeita.

Muitos caminham, cabisbaixos, naquelas centenas de metros que faltam para chegar ao estádio. A maratona é um esforço monumental, cobra cada músculo do corpo, cada fiapo de força de vontade. Demanda controle, fortaleza mental, é fruto do desejo e do prazer como da dor, do desespero, do descaminho.

Já vi disso tantas vezes, e sempre me pergunto por quê, o que faz com que deixem faltar o gás, a garra e a paixão na hora de fazer a conquista, de dar o golpe final, cruzar a meta e festejar.

Já chorava, segurava o corpo para não tropeçar no túnel escuro, uma descida forte que deixava ver a luz na pista, a mesma da largada, que agora eu iria correr no sentido "correto", anti-horário como nas competições. Seriam 195 metros, pois a marca de 42 km me mandou um beijo logo que eu saí ao sol. Eu ia correr.

Abri a passada, ganhando ritmo até a primeira curva, superando duas, três pessoas. Reduzi para preparar a entrada na reta final, acelerei na última curva e me fui.

Já não era eu, era a pista, a passada, o vento, o choro. Corria reto, cabeça erguida, rindo, gargalhando por dentro. Olhava as arquibancadas que aplaudiam, vi a Eleonora pulando, ainda gritei seu nome, terminei.

Agora eu sei como é correr duas maratonas em dois domingos seguidos. É muito bom.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h51

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Fala, leitor

Ilha amazônica

O corredor sempre busca dar um jeito de fazer seu treino, esteja onde estiver. Uma bom exemplo disso é a história do economista CARLYLE VILARINHO, 49, que corre há quatro anos. Morador de Brasília, ele visitou a reserva Xixuaú-Xiparanã , na Amazônia. No meio daquela água toda, foi procurar chão firme. Acompanhe o relato que ele mandou especialmente para este blog.

"Enquanto o Lucena estava na Espanha, eu estava na Amazônia.

Viajei a trabalho para o sul de Roraima, mais precisamente uma reserva extrativista na divisa sul, entre Roraima e Amazonas: Igarapé Xixuau, no rio Jaupere, afluente do rio Negro.

Quando me disseram que eu tinha que ir até la fiquei meio triste, pois imaginei que seria obrigado a interromper meu treinamento, quase duas semanas sem treinar... Imagina, é o rio que não tem fim e a mata, e o calor; onde correr?

Uma amiga me disse que quando o rio está vazio tem uma prainha, pequena, mas talvez suficiente

Por via das duvidas, levei um par de tênis. Lá chegando, depois de 14 horas de barco, encontrei uma ilhazinha, de fato bem pequeninha...

Na manhã seguinte, enquanto os outros dormiam, peguei uma canoinha e depois de 15 minutos de remo, lá estava eu correndo na ilhazinha. Gastei 5min15 para completar uma volta e imaginei que devia ter um quilômetro.

Lugar fantástico, pássaros diferentes, uma manhã fresca e bastante úmida. Inesquecível.

Voltei nas manhas seguintes. Acordava, pegava minha canoa, remava 15 minutos e lá estava eu.

Mas, porque chovia nas cabeceiras dos afluentes do rio Negro, a cada dia a ilha ficava mais estreita e curta... Na última manha era na base do zigue-zague. Imagino que hoje já esteja submersa.

Correr tem me mostrado caminhos perfeitos."

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h17

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Mulheres da Córeia do Norte dão show

Igualdade

Na maratona de Hong-Kong, no último dia 17, as norte-coreanas Kim Kum-ok (esq.) and Jong Yong-ok se deram as mãos pouco antes de cruzarem lado a lado a linha de chegada (foto Reuters). A vitória ficou com Kim.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h36

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Suíço bate queniano no Japão

A caminho de Pequim

 

O suíço Viktor Rothlin já tinha se dado bem em terras japonesas: no ano passado, foi terceiro no Mundial de maratona em Osaka. Agora, no último dia 17, ganhou o primeiro posto, derrotando o queniano Julius Gitahi (terceiro) e o japonês Arata Fujiwara, que terminou em segundo (foto AP).

O suíço de 34 anos vem melhorando seus tempos consistentemente; agora, quebrou seu recorde pessoal e a melhor marca de seu país ao fechar em 2h07min23. Para os japoneses, porém, o mais sensacional foi a recuperação de Fujiwara, que fez sua segunda maratona.

Na primeira, foi muito bem até o km 30, mas desandou geral nos últimos 12,195 km, que fez em mais de 1h05 (até eu já fiz melhor do que isso, 1h02 no calor de São Paulo; claro que eu não tinha corrido 30 km antes...). No domingo retrasado, cobriu a mesma distância em 37min51, fechando em 2h08min40, o que pode lhe dar uma vaga em Pequim.

No feminino, a alemã Claudia Dreher foi a primeira nas ruas de Tóquio, que abrigaram mais de 30 mil corredores, muitos vestidos com belas fantasias (fotos Reuters).

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h19

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Escritor japonês fala sobre sua vida de maratonista

Poderoso antídoto

Acho que já falei a você sobre meu amigo Fábio Shiro Monteiro, mas não custa relembrar. É um samurai brasileiro, como o nome indica, e foi meu colega na quarta série do ginásio, lá no glorioso Pio XII ("Pio XII, colégio querido, eis aqui o meu brado comovido...", começava o hino). Desde então, nunca mais nos vimos até o ano passado, graças a este blog.

Fábio é compositor e professor de violão em uma pequena cidade da Alemanha, onde vive com sua esposa brasileira e seus talentosos filhos, todos também com habilidade musical. De vez em quando, manda notícias do mundo das corridas, contando o que descobre na imprensa alemã.

Na semana passada, deu-se ao trabalho de traduzir para o português uma entrevista com o escritor japonês Haruki Murakami, 59, que também se dedica às corridas de longa distância, tema de um de seus mais recentes livros. A entrevista foi publicada na revista "Der Spiegel" do último dia 18, e é muito bacana.

Por questões de direito autoral, infelizmente não posso reproduzir aqui a íntegra da tradução tão gentilmente feita pelo Fábio, mas posso colocar algumas frases do autor (foto).

Ele começou a correr para emagrecer, como muitos de nós. Nos seus primeiros anos como escritor, fumava muito, até 60 cigarros por dia, e viu que aquilo o estava prejudicando demais. Então decidiu parar com o cigarro, mas acabou engordando um tanto, o que o levou ao esporte.

À pergunta "dá mais trabalho escrever um romance ou correr uma maratona?", ele respondeu:

"Escrever é uma diversão, em geral. Eu escrevo quatro horas diariamente. Depois faço jogging, 10 km em média. Isso dá a minha conta. Já correr 42.195 metros de uma vez só é duro, mas essa dureza eu a busco. Uma tortura inevitável a que me submeto conscientemente. Para mim, esse é o aspecto mais importante de correr uma maratona."

Como se motivar para correr foi outra questão. A resposta do autor:

"Às vezes faz muito calor; outras, frio. Ou nublado demais. Mesmo assim corro. Se não o fizesse, tampouco correria no dia seguinte. Não é da natureza humana fazer sacrifícios desnecessários, o corpo se desacostuma. Mas não quero isso. Escrevendo, é a mesma coisa. Escrevo todo dia, para não desacostumar o espírito. Para poder colocar a minha marca literária pessoal cada dia um pouco mais alta, assim como os músculos se fortalecem aos poucos pela corrida constante."

Murakami diz o que aprendeu com a corrida:

"A certeza de chegar ao final. Correndo, aprendi a confiar na minha capacidade. Aprendi a discernir o que posso suportar, quando preciso de uma pausa, e a partir de quando a pausa é longa demais."

E uma última palhinha da longa entrevista, onde o autor diz que, "seguramente", correr fez dele um escritor melhor:

"Quanto mais fortes meus músculos, mais claro fica meu espírito. Estou convencido de que artistas se apagam logo, quando não levam uma vida saudável. Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, heróis de minha juventude, morreram jovens sem tê-lo merecido. A morte prematura, só gênios como Mozart ou Puschkin a merecem. Jimi Hendrix era bom, mas não muito esperto, porque tomava drogas. O trabalho em arte não é saudável, os artistas deveriam portanto cuidar mais da saúde.

"Quando um escritor desenvolve uma história, ele se confronta com seu próprio veneno. Se você não tem esse veneno, falta inspiração na sua história. É como o baiacu: sua carne é deliciosíssima, mas as ovas, fígado e vísceras podem matar. Minhas histórias localizam-se num canto escuro e perigoso de minha consciência, eu sinto o veneno no meu ser, mas posso suportar uma dose elevada, devido ao meu corpo treinado. Quando jovem, você tem força suficiente pra derrotar o veneno sem treino. Aos 40, sua força diminui. Sem uma vida saudável, você não agüenta mais o veneno."

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h07

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PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

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