Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Etiópia ganha tudo no Mundial de cross-country

Marilson fica para trás

A Etiópia levou todos os ouros disputados no Mundial de cross-country realizado hoje em Edimburgo, na Escócia. Atletas do país chegaram em primeiro nas provas masculina e feminina, na categoria júnior, e repetiram o feito na categoria principal.

Liderando a esquadra esmeraldina esteve o lendário Kenenisa Bekele, 23, que provavelmente já perdeu a conta de quantos títulos mundiais já levou para casa. Só no cross, essa é sua sexta vitória na competição. Ele tem ainda cinco ouros no Mundial de distância curta, um no Júnior e quatro por equipe; incluindo as conquistas de prata e bronze, Bekele tem o número recorde de 27 medalhas. 

Ele hoje cozinhou o galo, ficando lá atrás até a metade da prova de 12 km, encostado no pelotão dos dez primeiros. Daí foi melhorando, só para um calor nos adversários. Na penúltima volta, estava fungando na nuca do líder, que não resistiu ao assédio e entregou o ouro na volta final.

O ex-campeão da maratona de Nova York e esperança nacional de luta por medalha em Pequim Marilson Gomes dos Santos foi o melhor brasileiro na competição. Terminou 2min39 depois do líder, ficando na 54ª colocação.

No feminino, a barreirista Zenaide Vieira foi a melhor brasileira. Ela completou os 8 km em 28min45, pouco mais de três minutos e meio depois da vencedora, a etíope Tirunesh Dibaba, o que lhe valeu o lugar de número 70 entre as 90 concluintes. Maria Zeferina Baldaia chegou seis posições depois, fechando em 28min59.

Diraba agora é a corredora de maior sucesso no Mundial de cross, com cinco ouros. mas a etíope de 22 anos festeja ainda mais a vitória de sua irmã, Genzebe, 17, na categoria júnior.

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h33

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Jornalista da Globo também corre

Brasileiros em Praga

Menos de uma dúzia de brasileiros disse presente à meia-maratona de Praga, realizada ontem nas ruas da belíssima capital da República Tcheca (na última vez que a visitei, ainda era Tchecoeslováquia).

O mais bem colocado foi Sérgio Alves, da minha faixa etária, que terminou em 1h42. O jornalista da Globo Carlos Tramotina, que também aprecia o pedestrianismo e também é da mesma faixa etária, completou em 2h09min41.

O vencedor foi o queniano Eliah Muturi Karanja, que fechou em 1h02min08, o que não dá camisa a ninguém, mas impressiona a nós outros, que fazemos o dobro do tempo.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h06

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Participe do Mundial de meia-maratona

Inscrições abertas

Como você sabe, neste ano o Mundial de meia-maratona será no Brasil. E, pela primeira vez na história, os pangas de todas as idades, velocidades, pesos e tamanhos poderemos enfrentar, de igual para igual (tá bom não tão igual assim), a nata da elite internacional.

Isso porque a IAAF (a Fifa do atletismo) aprovou a meia internacional do Rio de Janeiro como cenário da disputa oficial.

Bom, tudo isso já é notícia velha, que recupero aqui só para dizer que, finalmente, abriram as inscrições para a prova.

No Brasil, não há muita tradição de as inscrições acabarem com muita rapidez, com exceção da São Silvestre e de algumas corridas da Corpore, mas é bom você ficar esperto se quiser enfrentar quenianos, etíopes e marroquinos no asfalto carioca.

A prova será realizada no Dia da Criança, 12 de outubro, e o site oficial está cheio de informações sobre o evento. É lá também que você pode se inscrever.

Os primeiros pagam menos: até 10 de abril a vaga custa R$ 45; depois, vai aumentando. Há 15 mil lugares (no ano passaram, houve 14 mil inscritos).

A prova é muito bonita, mas o calor costuma ser infernal, ainda mais por causa do horário tardio da largada, 9h15 (a elite feminina sai meia hora antes). E, como é prova da Globo, nem sempre sai no horário. Vamos ver se, neste ano, a coisa melhora.

Escrito por Rodolfo Lucena às 08h59

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30 km - Corrida Ecológica de Nova Friburgo

Show depois da chuva

Demorou um pouco, mas finalmente trago para você um relato da Corrida Ecológica de Nova Friburgo, um interessante desafio de 30 km nas montanhas do Rio de Janeiro. O engenheiro de produção Alexandre Issao Minamihara, 25, paulista perdido no Rio, participou do evento, realizado no dia 16 passado, e nos traz seu depoimento.

"Chuva. Muita chuva. Chuva que não acabava mais. Era esse o cenário que me aguardava em Friburgo às vésperas da Corrida Ecológica.

O dia amanheceu frio e uma névoa densa cobria a cidade. Provavelmente o percurso, predominantemente em estrada de terra, estaria cheio de lama. E provavelmente o tênis para pista seca que eu levei não ajudaria muito.

Estava mais frio do que eu gostaria, pensei até em correr com duas camisetas. Depois de um bom café da manhã no hotel, fomos para o local da largada, um ginásio em Conselheiro Paulino, distrito de Friburgo. A chuva havia parado e o sol ameaçava sair, portanto abandonei a idéia das duas camisetas. Er a minha primeira prova do ano (a última fora a maratona de Curitiba, em novembro), então todas as sensações eram amplificadas pela ansiedade e pela adrenalina que antecedem uma corrida.

Largada. O percurso dos 30 km é bastante peculiar: uma subida relativamente leve mas constante nos primeiros 15 km, e a volta pelo mesmo percurso (ou seja, uma descida constante).

Segundo o site da organização, o desnível é de apenas 115 m entre a largada e o km 15. Porém as subidas e descidas no meio do caminho vão aos poucos minando as energias dos corredores.

Os primeiros 6 km são em paralelepípedo e asfalto e os 9 km restantes em estrada de terra. Optei por uma estatégia baseada na freqüência cardíaca, estabilizando-a entre 155-158 bpm e indo embora. Se eu não estivesse enganado, essa FC resultaria num ritmo entre 4:30/km e 4:35/km.

A marcação de km foi um dos pontos negativos da prova, pois as placas estavam localizadas em pontos aleatórios (em geral no poste mais próximo da distância indicada pela placa). As únicas marcações exatas foram a dos 15 km e a dos 30 km.

Passei os 15 km em 1h06min31 (média de 4:26/km e 155 bpm). Excelente até então.

Felizmente a lama que eu esperava encontrar não apareceu, apenas algumas poças d’água facilmente contornáveis.

Na volta, porém, as coisas começaram a ficar complicadas. Acho que, para descer bem, é preciso fazer treinos de velocidade focando na velocidade das passadas e na coordenação motora, para conseguir descer rápido sem se desgastar muito.

Eu ainda não fizera um intervalado sequer em 2008. Minhas passadas estão cadenciadas, o que ajuda a correr longas distâncias, mas atrapalha na hora de encarar uma descida.

No km 19 um sujeito que corria na minha frente parou para atender um chamado da natureza (aka número 1) e voltou a correr no momento em que passei por ele.

Fomos alternando posições por um bom tempo, eu respondia à todas as acelerações do cara e ele acompanhava todas as minhas tentativas de correr isolado. Isso até o km 28, quando eu disparei (na verdade foi o cara que diminuiu).

No km 29, senti uma dor abdominal muito forte, que me fez correr todo torto e desengonçado até a chegada, mas apesar desse contratempo não fui ultrapassado por ninguém.

Fechei os 30 km em 2h11min06 (4:22/km e 154 bpm). Por 15min33, RECORDE PESSOAL nos 30 km!!! Fiquei realmente muito satisfeito com esse tempo, deu confiança para seguir em frente com o tipo de treino que estou fazendo e a certeza que estou no caminho certo para conseguir o sub-3h30 na maratona de Porto Alegre."

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h32

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Causa da morte na maratona pré-olímpica

Alguém errou

Na semana passada, finalmente saiu o resultado da perícia médica sobre o caso de Ryan Shay, um promissor atleta norte-americano que morreu em novembro passado, em Nova York, durante a maratona em que foi selecionada a equipe que vai representar aquele país em Pequim-08.

A morte foi por causa de uma arritmia cardíaca provocada pela hipertrofia (aumento do tamanho) do coração. A hipertrofia do músculo cardíaco é comum em maratonistas, razão pelo qual os médicos sempre o liberaram para participar do esporte. Mas acontece que o caso dele era patogênico e já havia sido diagnosticado quando Shay tinha 14 anos.

demorei um pouco para colocar a história aqui no blog porque queria ouvir comentários mais técnicos a respeito do caso.

O cardiologista Nabil Ghorayeb, especialista em medicina esportiva, afirma: "Esse caso não difere de TODOS de morte súbita durante a atividade esportiva ou mesmo física intensa. Não se morre por praticar esporte, quem morreu tinha alguma doença (em 90% cardíaca ) que não foi diagnosticada ou não foi valorizada."

Ele também aventa a hipótese de erro de avaliação: "O fato de ter antecedentes de cardiomegalia ( ou hipertrofia cardíaca ) nos conduzem a pensar que algo errado aconteceu. Será que erraram no diagnóstico de que essa hipertrofia era patológica e foi considerada apenas coração de atleta?"

Ghorayeb diz: "A lição que se tira é a de que alterações devem ser investigadas profundamente, com todos os exames possíveis, coisa que é absolutamente condenada nos EUA. As avaliações americanas são precárias, não se fazem exames, apenas consulta clínica, sem sequer um eletrocardiograma e isso tem sido criticado por especialistas".

Ele adverte que, no Brasil, não é obrigatória a avaliação de atletas, e que federações e clubes os enviam para exames por livre arbítrio. Segundo o médico, "nas avaliações e exames dos atletas do PAN , 60% disseram ser a primeira vez que passavam num clínico! Só estiveram com ortopedistas, que os mandavam a fisioterapeutas para tratamento".

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h24

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A que horas você corre?

Quando e por quê?

Já várias vezes me perguntaram qual é a melhor hora para correr, do ponto de vista fisiológico.

Já li alguns textos a respeito, mas, cá para mim, a melhor hora é aquela que é posssível, ainda mais em nossas vidas cada vez mais cheias de trabalho e de espera no trânsito.

Eu prefiro correr pela manhã. A cada final de dia, dou uma pensada nos compromissos do dia seguinte, no treino que pretendo fazer e daí decido a que horas acordar para que tudo funcione.

Muita gente, por motivos profissionais ou por gosto mesmo, prefere correr à noite.

Tem quemaproveite o intervalo do almoço, apesar do calorão.

E você, quando corre? E por quê? E que tipo de ginástica tem de fazer  com o seu dia para conseguir encaixar o treino?

Conte sua história no comentário ou, se preferir, mande e-mail. Aos poucos eu irei selecionando algumas para eventual publicação, ok.

Abs e boa Páscoa!

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 20h08

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Vitoriosas, gêmeas idênticas fazem tempos iguais

Que gracinha

De roupinhas iguais e de mãos dadas, as gêmeas idênticas Maria e Catharina Schilder foram as primeiras mulheres a cruzar a linha de chegada na 2008 Antarctica Marathon, realizada no início deste mês na ilha King George, ao largo da península Antártica.

As garotas holandesas completaram o percurso em 4h21min22. As gêmeas, que têm 37 anos, correram juntas a prova toda. No km 27, passaram a norte-americana Denise Sauriol, que liderava a corrida, e se mantiveram firmes e fortes até o final.

O evento, que incluiu uma meia-maratona, teve a participação de 173 corredores de 17 países.

"Foi uma experiência inesquecível, mas não pretendo repetir isso tão cedo", disse Catharina. "Foi um sonho transformado em realidade", completou a outra gêmea.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h18

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Bagunça em meia-maratona na Inglaterra

Lá como cá

Para quem gosta de reclamar das nossas provas, dizendo de boca cheia que "isso é coisa de brasileiro", conto agora uma educativa história ocorrida em Bath, cidade localizada a cerca de 160 km a oeste de Londres.

Trata-se de um prova sem fins lucrativos, que arrecada fundos para obras de caridade.

No domingo passado, segundo registra a BBC, cerca de 20 mil corredores apareceram para participar do evento, mas a largada atrasou por mais de uma hora, deixando o povaréu mal acomodado e irritado.

A culpa foi das péssimas condições de tempo, dizem os organizadores. Segundo um dos responsáveis, Andrew Taylor, todos os ônibus disponíveis foram colocados à disposição, mas o tempo impediu que a circulação fosse como o planejado.

No final, faltou medalha para alguns corredores. Taylor daí botou a culpa nos corredores, dizendo que alguns pegaram mais de uma...

Com o que surge a pergunta que não quer calar: os organizadores não deveriam estar organizados para evitar isso?

Menos mal que, no site do evento, há um pedido de desculpas formal logo na abertura da página. O que, se não compensa os danos, pelo menos mantém tudo dentro de um adequado nível de civilidade, que é sempre bem-vindo.

Ah, antes de terminar e só para deixar claro: o fato de que existam no exterior provas bagunçadas (e não são poucas, pode acreditar...) não livra a cara de nenhum organizador aqui no Brasil.

Eles têm de cumprir o prometido, devem ser cobrados por isso e deveriam ser punidos quando não entregam o que prometem. Não pode faltar água em prova, não pode faltar medalha, e os corredores precisam ser mantidos em segurança.

Outra coisa: os organizadores de provas no Brasil deveriam pensar mais na saúde e até na performance dos corredores, marcando para mais cedo o início das provas.

O que nem sempre refresca: outro dia, saí para treinar às 5 da manhã com 23 graus...

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h05

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Maratona da Esperança é realizada em Cuba

Solidariedade

Vestindo roupas tradicionais chinesas, um corredor participa na Maratona da Esperança, que foi realizada no sábado em Havana, Cuba. Ao fundo, atletas com necessidades especiais que também disputaram a prova (foto AP).

A prova é realizada anualmente para arrecadar fundos para a pesquisa de combate ao câncer e homenageia o garoto canadense Terry Fox.

Com câncer e a perna direita parcialmente amputada, Fox fex uma longa corrida pelo Canadá, rodando 5.373 quiklômetros para arrecadar fundos para o combate à doença. Ele morreu aos 22 anos, em 2001, e sua história inspira atletas no mundo todo. Sua luta já foi tema de filme, comentando neste blog (leia AQUI).

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h12

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Foto do dia

Céu de chumbo

Não, não são as ameaçadoras nuvens paulistanas, que enfim se transformaram em chuva.

A assustadora cena foi captada por L. Todd Spencer (foto AP/The Virginian-Pilot) na parte final da meia-maratona Shamrock, realizada domingo em Virginia Beach, nos EUA.

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h08

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Impressões sobre o Sul-americano de Natação

Aprendendo com os outros

Tive oportunidade de assistir, na manhã de hoje, à transmissão ao vivo de algumas da competições do Sul-americano de natação que está rolando na piscina do Pinheiros, em São Paulo.

Além de saber que as moças são lindas, os rapazes são fortões e que eu quase me afogo cada vez que tento passar dos 2.000 m, pouco conheço do mundo da natação. Por isso, não vou me arriscar aqui a falar de resultados nem a citar nomes de atletas nem memória.

Em contrapartida, deu para rever coisa semelhantes ao mundo das corridas.

A mais importante é que os atletas fazem uma periodização tão rigorosa quanto a da elite do atletismo.

Periodização é a divisão do treinamento em períodos com o objetivo de chegar à melhor forma possível na hora da competição-alvo. Você tem períodos de alta rodagem, de fortalecimento, de transição, de polimento e por aí vai (eu adoro os períodos de descanso...).

Fiquei muito impressionado com a competição de 1.500 metros, em que o índice para chegar a Pequim é de pouco mais de 15 minutos (ou seja, 1min e pouquíssimo a cada 100 metros).

O brasileiro ficou em quinto e quase uma piscina longe do índice, mas não estava nem aí. Quando foi entrevistado e interrogado sobre o tempo, explicou que estava em período de treinamento forte, "visando o Maria Lenk". Esse "o" aí, para a Maria, é porque se trata do Brasileiro.

O nome homenageia uma das maiores nadadoras brasileiras de todos os tempos, a pioneira Maria Lenk, primeira sul-americana a competir na natação olímpica --morreu no ano passado, aos 92 anos, quando ainda costumava nadar seus 1.500 m...

Bueno, voltando à piscina, o cara não estava nem aí. Disse que nem tinha raspado, referindo-se à depilação que os nadadores fazem. E esclareceu que não dá para nadar forte todo dia nem para quebrar recorde a cada competição. É preciso treinar, focar o trabalho e daí ir para a disputa com tudo.

Na seqüência, vi ainda duas entrevistas de brasileiros (uma de uma garota que venceu nos 200 m peito), e o discurso foi semelhante, mesmo da menina que levou o ouro.

É isso aí, gente: em qualquer área, há que o fazer treinos inteligentes, organizados, que ajudem a gente a dar o melhor na hora que for preciso.

Ah, se você quiser saber mais sobre o Sul-americano, é difícil. Tal como no atletismo, a cobertura da mídia é pequena e, pelo que percebi, os sites especializados são esforçados, mas não funcionam em tempo real.

Gostei do Swim it up, apesar do estrangeirismo, que não aprecio nem um pouco. Tive a impressão de ser em tempo real, mas é uma espécie de colagem de notícias. de qualquer forma, é interessante. O da Federação Aquática Paulista também é informativa, ainda que não muito noticioso. E visito, talvez por causa do nome, o Maratona Aquática, em que hoje a última notícia era do dia 7 passado...

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h39

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Fala, leitor

Ídolo gelado

 

O engenheiro brasileiro FÁBIO TESTTE, 31, vive na gélida Montreal, no Canadá, mas não abre mão de correr, mesmo em condições as mais adversas. Ele já compartilhou conosco algumas de suas aventuras na gringa. Leia a seguir a história quentíssima de um evento geladérrimo, contada pelo leitor. As fotos são de cenas gerais da corrida, o Fábio não aparece...

"No dia 16 de Fevereiro, corri a Hypothermic Half Marathon aqui em Montreal. Hypothermic significa hipotérmica e, pra ficar mais claro ainda, nessa época do ano as médias de temperatura no Canadá são de 10 graus Celsius negativos a 30 graus Celsius negativos.

A parte de preparação foi interessante, combinei treinos na esteira, onde fiz intervalados e sessões de ritmo, com treinos na rua, onde fiz os longos, para me acostumar com a temparatura.

Um dos grandes incentivos pra mim foi minha esposa Eliane, pois ela sempre dizia: "Você é meu ídolo. Sair pra correr nesse frio de -10º C tem que gostar muito de correr."

Nada melhor do que um incentivo desses, além é claro de manter o ritmo de treino durante o longo e tenebroso inverno canadense.

Para os treinos no frio (e não digo frio paulista de +8ºC, mas sim o daqui, por volta de -15ºC), precisei adquirir calça, jaqueta, luvas, gorro, protetor de pescoço etc...

Numa loja especializada, encontrei tudo o que precisava. Fiquei apreensivo quanto ao tênis, pois não sabia se poderia correr com meu típico tenis de corrida em solo totalmente atípico.

Os primeiros treinos nas ruas me aliviaram um pouco, pois vi que, dependendo de onde pisar, você não corre risco de escorregar no gelo ou torcer o tornozelo no desnível que a neve causa.

Passados os treinos, chega o dia da prova. A temperatura, que vinha numa média de -5ºC, parece que pregou uma peça na gente. No sábado, caiu para -20ºC.

Isso mesmo, céu azul, sol de deixar cego e vinte graus negativos. Simplesmente congelando.

A prova se deu no parque Jean Drapeau, onde fica o circuito de F1 do GP do Canadá. Nesse mesmo parque, existe um complexo aquático, onde ficou a base da organização da prova.

Todos os corredores, cerca de 400 malucos, ficamos dentro desse lugar até poucos minutos antes do início. A organização nos convidou a ir para a largada, que era poucos metros fora desse local, e logo começamos a prova.

Iniciei numa boa, para pegar o ritmo e ao mesmo tempo ir aquecendo. Depois de uns três quilômetros, o corpá ja estava mais aquecido e isso fez com que eu me acostumasse mais com a temperatura.

O percurso consistia em três voltas num circuito de 7 km. O piso foi bem interessante. Haviam trechos em que a neve estava batida, onde é fácil correr _o piso absorve o impacto das passadas. É como se corrêssemos sobre um tapete. Muito bom.

Em outros trechos, havia gelo no asfalto (da pista de F1) e isso fazia a gente ter que prestar muito mais atenção, pois escorregava bastante. Haviam outros trechos que a neve estava fofa, e a sensação é semelhante à de correr na areia. Nessas horas cansava bastante, e ainda por cima tinha o perigo de um entorse, o que nos fazia diminuir o ritmo.

Planejei com meu treinador para usar o gel de carbohidrato no km 7 e no km 14. Nem precisava calcular, era um ao término de cada volta. Tive medo que o gel congelasse, mas ele estava apenas bem gelado, um pouco mais duro que o normal, mas mastigável.

Havia três postos de água e bebida isotônica, tudo muito gelado... Percebi que teria que diminuir bastante o ritmo para tomar a água, para que não espirrasse no rosto. Imagine correr com o rosto todo molhado a uma temperatura de -20ºC. A parte da boca e do queixo ficavam congelados, e o protetor de pescoço, que era de lã, por molhar, ficou duro e congelado também.

Mesmo assim, eu o mantive pois bloqueava o vento gelado no pescoço.

No segundo gel, complicou. Não sei por quê, minha mão esquerda já estava mais fria que a direita. Tentei abrir o ziper da blusa aonde estava o gel, mas não consegui.

Aí eu resolvi tirar a luva pra abrir o ziper. Estava tão frio que eu perdi a sensibilidade na mão. Não conseguia mais abrir e fechar a mão. Por dentro, a mão doía muito.

Nem sei como, eu consegui pegar o gel e comi num gole só. Aí coloquei a mão fechada na luva, para tentar esquentar mais rápido, e continuei correndo. Depois de uns três quilômetros, a mão voltou a ter sensibilidade e eu segui numa boa.

Daí pro km 21 foi um pulo. Mantive o ritmo programado e terminei em 1h58min, apesar do frio que fazia...

Corri pra dentro do abrigo onde ficava a organização, ganhei uma medalha bonitona e fui pra fila da comida, que estava muito boa. Tinha pizza, sanduba de metro, croisant etc...

Com certeza, essa prova vai entrar pra minha lista de Grand Slam. Show de bola a organização..."

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h35

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Engenheiro cinqüentão começa corrida de Paris a Pequim

Passadas curtas

Philippe Fuchs, um engenheiro de minas de 57 anos, começou em Paris um périplo de cerca de 10 mil quilômetros em direção a Pequim. Ele pretende chegar à capital da China no mês de agosto, na época dos Jogos Olímpicos. Para isso, planeja correr me média 85 quilômetros por dia durante 20 semanas.

Fuchs já tem no seu currículo façanhas como os percursos Paris-Barcelona e Paris-Atenas. Com essas experiências, ele afirma que não teme o cansaço. "Isso pode parecer surpreendente, mas o esforço que terei de fazer não será tão intenso como vocês imaginam. Se vocês pensarem no que fazia um mineiro ou um agricultor há um século e meio, antes da mecanização do trabalho, eles tinham que se esforçar muito mais do que nós", declarou Fuchs à agência Reuters antes de sua partida, em Paris, na sexta-feira passada (foto).

"Tenho uma passada bem curta, perto do chão, muito econômica e uma grande facilidade de recuperação", acrescentou.

Patrocinado pela Dassault Systémes, o desafio a ser enfrentado por Fuchs servirá também para estudos científicos. Seu pé será acompanhado em três dmensões e serão observadas as conseqüências da fadiga e das contrações físicas durante uma corrida de longa distância.

A análise dos resultados poderá ajudar a melhorar a concepção de próteses, o desenvolvimento de novos modelos de sapatos esportivos ou a elaboração de programas de treinamento para esportistas de alto nível.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h48

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Haile desiste da maratona olímpica

Estrela fora

O recordista mundial da maratona, Haile Gebrselassie confirmou hoje que não vai participar da prova na Olimpíada de Pequim. Segundo o atleta etíope, a poluição da capital chinesa é o motivo para a sua desistência.

"A poluição é uma ameaça para a minha saúde e será difícil correr 42 km nessas condições", afirmou o corredor, que sofre de asma. Ele planeja correr os 10.000 m.

Recordista mundial da maratona no feminino e também asmática, a inglesa Paula Radcliffe por enquanto está firmemente direcionada a Pequim. Mas sua trajetória sofre alguns problemas: acaba de anunciar que não participará da maratona de Londres por causa de problema em um pé.

Uma das fortes adversárias de Radcliffe será a equipe japonesa, capitaneada pela medalhista olímpica Mizuki Noguchi (ouro em Atenas-2004) e também integrada pela medalhista no Mundial da distância, Reiko Tosa.

A seleção ficou completa neste domingo, com a vencedora da maratona feminina de Nagoya, Yurika Nakamura. A prova também viu o que parece ser a decadência da ex-recordista mundial e ex-campeã olímpica (Sydney-2000), a simpaticíssima Naoko Takahashi, que amargou o 29º lugar.

Mas parece que as fichas estão sendo apostadas em Noguchi, que já mostrou ser capaz de enfrentar as condições adversas de forte calor e alta umidade. Atualmente, ela faz sua preparação na China, na região das montanhas Kunming.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h22

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Velhinho da pá virada corre pela glória

Ultracentenário

Buster Martin diz ser o mais velho trabalhador da Grã-Bretanha. Com 101 anos declarados, ele mantém uma vida ativa e não abre mão de suas corridas.

Na foto, por exemplo, ele posa com a medalha de participação na meia-maratona de Roding Valley, em Woodford Green, leste de Londres, no último dia 2 (foto Divulgação/Reuters). Seu tempo na prova foi de 5h13.

Ele pretende se tornar o homem mais velho do mundo a completar uma maratona: vai correr a maratona de Londres, em abril, e promete festejar tomando cerveja e fumando um cigarrinho.

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h35

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Cena domingueira - maratona na Suíça

Corrida na neve

Vista aérea de esquiadores passando pelo lago gelado Sils durante a Engadin Ski Marathon, ontem, na Suíça. Mais de 10.500 esquiadores participaram da prova de 42,2 km entre Maloja and S-Chanf (foto Reuters).

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h10

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Maurren Maggi conquista prata em Valencia

De novo a sorrir

 

A imagem acima revela a alegria de Maurren Maggi, que parece estar no bom caminho para chegar em forma a Pequim. Ela saltou 6,89 m no Mundial Indoor, hoje, em Valencia, estabelcendo novo recorde sul-americano indoor.

Maurren, 31, liderava a disputa na Espanha até a quinta rodada de saltos, quando a portuguesa Naide Gomes fez 7 m. A brasileira (foto Reuters) não conseguiu dar o troco: passou em branco sua sexta e última tentativa.

No salto com vara, Fabiana Murer, que completa 27 anos no próximo dia 16, conquistou ontem a medalha de bronze. Ela saltou 4,70 m na primeira tentativa e dividiu o terceiro lugar com a polonesa Monika Pyrek.

Além da inédita medalha para o Brasil, Fabiana (foto Efe) estabeleceu novo recorde sul-americano _a marca anterior, 4,66 m também era dela.

As duas ganharão um bom dinheiro, além da glória. Maurren leva US$ 20 mil da IAAF pela medalha de prata. Da CBAt, ganhará R$ 7.000 pela colocação e R$ 2.000 pelo recorde. O bronze garante a Fabiana US$ 10 mil dólares da IAAF e R$ 5.000 da CBAt, que também premia o recorde com R$ 2.000.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h50

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Vanderlei chega em segundo na meia de São Paulo

Ainda é pouco

O medalhista olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima foi o brasileiro mais bem colocado na meia-maratona de São Paulo, realizada hoje de manhã na capital. A participação fez parte de seus treinos para a maratona de Turim, na Itália, quando pretende carimbar seu passaporte para a Olimpíada de Pequim.

Apesar da boa colocação, porém, o tempo de Vanderlei foi apenas razoável, como ele mesmo reconheceu: "Lamento não ter conseguido manter a velocidade", disse. Mas há que considerar que ele ainda não está 100% do ponto de vista físico, segundo afirmou.

Na pura matemática das fórmulas engendradas nos laboratórios de atletismo, o tempo de 1h04min10 de Vanderlei significa que, na maratona, ele faria mais de 2h14, tempo insuficiente para dar camisa na elite.

Hoje, o medalhista (foto Publius Vergilius/Divulgação Caixa) tem o pior tempo dos três brasileiros por enquanto qualificados para Pequim. Com 2h08min37, dificilmente Marilson Gomes da Silva fica de fora. Depois dele, porém, há um bololô.

José Telles e Vanderlei estão na casa de 2h13, assim como Clodoaldo Gomes da Silva. No encalço deles, Franck Caldeira tem 2h14min03. Claro que a experiência de Vanderlei lhe dá alguma vantagem, mas na hora do vamos ver o que conta é a marca estabelecida no asfalto.

Voltando à prova de hoje, os vencedores Kiprono Mutai e Eunice Kirwa, ambos do Quênia, estabeleceram novos recordes para o percurso, com 1h04min02 e 1h15min08. A melhor brasileira foi Maria Zeferina Baldaia, que chegou em terceiro.

Ela disse estar feliz com o desempenho e se considera em condições de sonhar com a presença em Pequim.

Com todo o respeito aos resultados e à história de Baldaia, a marca de hoje não permite muitos sonhos não. De novo, volto às fórmulas de predição de resultado, que indicam uma maratona de mais de 2h40 para quem faz 1h16min22 na meia.

É bem verdade, porém, que a concorrência também está fraca. Nenhuma brasileira tem índice A para a maratona. Das três com índice B, as melhores são Marizete Moreira dos Santos e Sirlene Sousa de Pinho, ambas com 2h39min08.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h21

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Tênis tenta mudar passada do corredor

O segredo do batoquinho

No final do ano passado, conheci os tênis da Newton Running, uma empresa supernovinha, que lançou seus primeiros calçados em 2007 mesmo. Em janeiro, numa viagem aos Estados Unidos, resolvi comprar para experimentar. A compra foi pela internet, sem maiores problemas. Acabei fazendo uma reportagem sobre o tal tênis supostamente revolucionário, que saiu no caderno Vitrine, da Folha. Por razões de espaço, os textos foram editados, condensados etc. Publico agora a versão integral da reportagem, que consta de três textos, editados aqui em seqüência.

As cores vibrantes, elétricas, contrastantes são a primeira coisa que se nota no calçado de corrida da Newton Running, uma jovem empresa norte-americana que pretende tomar uma fatia do mercado dominado por gigantes como Nike, Adidas e Asics.

Chegando mais perto, porém, outros destaques aparecem. O design é agressivo e o solado é muito diferente do costumeiro: na parte da frente, traz dois conjuntos de quatro batoquinhos ou almofadinhas, que são o segredo da inovação prometida pela empresa.

Por causa do design do solado e dos materiais especiais usados nas almofadinhas, patenteado pela empresa, você acaba pisando primeiro com a parte da frente do pé, para só depois cair com o calcanhar e iniciar o processo de propulsão.

A membrana flexível empregada nos batoquinhos, diz a Newton Running, propicia "maior absorção de impacto e maior propulsão", e a pisada iniciada na parte da frente do pé torna mais eficiente a mecânica da corrida. O que, por sua vez, aumenta o desempenho e diminui o risco de lesões.

A empresa cobra bastante pelo que oferece: o modelo Gravity, para uso em treinos, custa US$ 175. Mais de 45% mais caro que o Asics Nimbus 9, eleito o melhor tênis de corrida de 2007 pela revista especializada "Runner’s World".

Os calçados da Newton foram anunciados e começaram a ser vendidos em março do ano passado. Com design diferente para homens e mulheres, há modelos de amortecimento e de controle de movimento, cada um com versão para treino e para competição.

Curioso, acabei comprando o tal Gravity janeiro último para experimentar. Na pior das hipóteses, teria pelo menos um tênis bacana para ir ao cinema, pagando menos do que é cobrado no Brasil por calçados de qualidade mediana.

Fiz a compra pela internet, e o tênis chegou em um pacote que tinha ainda um par de meias de corrida de boa qualidade, uma sacolinha para o calçado e um CD com informações técnicas.

O Gravity, apesar de ser "de amortecimento", é bem leve: pesa 289 gramas, contra 351 do Nimbus 9, por exemplo. E o solado no calcanhar é pouco massivo; parece mais um tênis para ser usado por macérrimos quenianos em corridas curtas do que para uso em longos treinos por sujeitos lerdos e pesados.

O fato é que ele cumpre o prometido _pelo menos, uma parte da promessa. Já no primeiro treino que fiz, foi clara a mudança da passada: a parte da frente do pé passou a bater primeiro no chão, e eu tive de ficar mais ereto.

Supostamente, esse é o jeito natural, semelhante aos movimentos que você faz quando corre descalço. Há muitos treinadores que defendem esse tipo de passada, e você encontra várias teses a respeito na internet. Um dos grupos mais articulados é o do pesquisador russo Nicholas Romanov, que desenvolveu o método Pose _o nome tem a ver com postura (saiba mais AQUI).

Claro que isso provocou alguma confusão em um sujeito habituado a aproveitar o acolchoado dos tênis e acertar o solo primeiro com a parte de trás do pé _como fazem, por sinal, 80% dos corredores, segundo estudo de......

Nos dois primeiros treinos, sofri com dores nas panturrilhas, que ficam mais estendidas. Depois, fui acostumando _aliás, a empresa diz que o iniciante deve rodar uns 40 quilômetros para se adaptar à nova forma e passar a ter os supostos benefícios de melhora na performance.

Até escrever este comentário, corri pouco mais de 60 quilômetros nas ruas de São Paulo e fiz uns 15 quilômetros de caminhadas. Em geral, foi confortável; senti o tal movimento na pisa e a mudança na biomecânica da corrida.

Um inconveniente é a fôrma estreita do calçado, que não é oferecido em diferentes larguras; o tecido cede um pouco, mas dá um certo incômodo (e tem uma costurinha chata bem em cima do dedo mingo...).

Apesar da pouca borracha no calcanhar, não houve grande impacto, por causa da mudança da passada. Em ritmos mais fortes, porém, deu para sentir a batida. Como estou em treinamento para uma ultramaratona, preferi não fazer treinos de mais de 15 quilômetros no novo estilo, que agora só voltarei a usar depois da corrida.

Aliás, fica aqui uma sugestão para quem se interessar pelo tênis: procure experimentá-lo quando não estiver com um treinamento organizado para uma determinada prova, pois as mudanças podem provocar algum desconforto.

Pois mudanças há, sem dúvida. Se elas ajudam no desempenho, é impossível avaliar apenas com base nos treinos que fiz.

Pela minha experiência, duvido. Mesmo que haja algum ganho, será insignificante no caso de atletas medianos, que correm uma maratona em ritmo de cinco ou seis minutos por quilômetro.

Até agora, a empresa não atraiu corredores de nome, mas conta com vários triatletas de elite _Danny Abshire, um dos co-fundadores da empresa, é treinador de triatletas profissionais há mais de 15, e uma da primeiras investidoras na Newton foi Paula Newby Fraser, oito vezes campeão mundial.

Segundo sua assessoria de imprensa, neste ano a Newton pretende aparecer mais no mundo das maratonas e até patrocinar corredores de elite. E planeja também levar seus calçados às lojas.

Pois até agora as vendas são basicamente pela internet. No site, está listada apenas uma loja física, Active Imprints, do próprio Abshire. Ela fica em Boulder, Colorado.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h22

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Laboratório compara calçados de corrida

Diferença é pequena

Além de correr por cerca de 60 quilômetros com o Gravity, também coloquei o tênis à prova em laboratório, para ver se acontece efetivamente alguma mudança.

O resultado é que as diferenças, se efetivamente existirem, são pequenas. Esse resultado era esperado, uma vez que a amostra para comparação foi muito pequena.

A maior vantagem _uma pequena redução do impacto usando o calçado_ poderia ser obtida com um tênis convencional, bastando para isso mudar a passada, segundo avaliação do mestre em biodinâmica do movimento humano Reginaldo Fukuchi, do Laboratório de Análise do Movimento do Instituto Vita, onde foram feitos os testes.

Para efeito de comparação, usei um tênis de amortecimento, o Brooks Dyad 4.

A análise biomecânica da corrida foi feita utilizando câmeras de vídeo de alta velocidade, plataforma de força (que mede o impacto com o solo solo) e palmilhas com sensores para medir a pressão na planta dos pés.

Os resultados, analisados por Fukuchi e Marcos Duarte, coordenador do laboratório do Vita, mostraram que o calçado Newton provocou "uma anteriorização do centro de pressão no contato inicial" _o que significa que, no momento de o pé tocar no chão, há uma tendência de colocar a parte mais da frente do calçado.

Outra alteração aparente foi o impacto menor com o Newton. Para Fukuchi, isso era esperado, pois a batida no chão com a parte da frente do pé faz com que músculos e tendões também atenuem a carga.

Os esforços das articulações do joelho e do tornozelo foram similares.

Fukuchi conclui que "essas diferenças também poderiam ser vistas caso o atleta fosse instruído a correr na ponta dos pés utilizando qualquer calçado".

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h18

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Concorrente enfrenta entidade de atletismo

Evoluir com a tecnologia

A Newton Running está longe de ser a primeira fabricante a buscar oferecer aos corredores calçados que sigam a biomecânica que consideram "natural" ou a tentar criar calçados que efetivamente auxiliem na performance do atleta. A gigante Nike, por exemplo, tem a linha Free, que daria ao esportista a sensação de correr descalço. E a pequena Spira desenvolveu um calçado com molas (veja ilustração) _recurso que a entidade que governa o atletismo norte-americano condena por supostamente ser um auxílio irregular ao desempenho.

Leia a seguir entrevista exclusiva com Andrew B. Krafsur, co-fundador da Spira Footwear.

FOLHA - O que os tênis da Spira têm de diferente?

ANDREW B. KRAFSUR - Acreditamos que nossa tecnologia oferece quatro grandes benefícios: a) ela se baseia em um sistema chamado deflexão, diferente dos materiais tradicionais usados na entresola, que se baseiam na compressão; nosso sistema não cede nunca, e o tênis sempre parece novo; b) o sistema WaveSpring devolve cerca de 90% da energia, permitindo ao atleta correr mais rapidamente e por mais tempo com menos estresse. O tempo de recuperação é menor e o sistema ajuda a prevenir lesões; c) a tecnologia reduz o impacto máximo em até 20%; é como se um corredor de 100 kg passasse a pesar 80 kg no que se refere ao estresse no corpo; d) a WaveSpring é ajustável e adaptável a diversas configurações. Nós produzimos diferentes tamanhos de molas de acordo com o tamanho do calçado e a atividade envolvida. Nenhum material de compressão permite isso.

FOLHA - Vocês ganharam muita publicidade dizendo que o calçado foi banido pela USATF, mas na verdade não houve essa proibição...

KRAFSUR - A decisão da USA Track and Field (entidade norte-americana de atletismo) é clara e inequívoca. As regras 143 e 144 proíbem o uso de tecnologia de molas em calçados de competição. A entidade exige que os calçados sejam examinados para receber aprovação. Nós apresentamos nosso calçado em setembro de 2006, mas eles até agora não nos deram uma resposta.

É verdade que nenhum competidor foi desclassificado por usar nossos calçados, mas, na nosso visão, isso corre não porque os tênis não violam a lei, mas porque as entidades não querem chamar ainda mais a atenção para nossa empresa.

Mas, em algum momento, alguém que chegar atrás de um atleta que use nosso calçado vai reclamar. E com razão. Mas o fato é que a tecnologia muda, avança, e as regras do esporte deveriam se atualizar de acordo com a evolução tecnológica.

FOLHA - Quando surgiu sua empresa e que novidade ela trouxe?

KRAFSUR - Começamos nossa empresa em 2002. Eu era advogado na época, e meu irmão deu a idéia para mim e minha esposa, Holly. Nós imediatamente percebemos o que poderia significar e acabamos conseguindo o apoio de cerca de 250 amigos, que investiram no projeto. No ano passado, compramos a parte de meu irmão.

Há vários corredores da elite que usam nosso tênis, mas provavelmente o mais conhecido é David Cheruiyot, que estabeleceu o recorde da maratona de Ottawa e venceu as maratonas de Istambul e de Houston.

Nós somos uma empresa pequena. Esperamos faturar US$ 10 milhões neste ano.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h16

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Entrevista com Angélica de Almeida

Dura trajetória

Angélica de Almeida nasceu em Itapeva, em 1965, mas com menos de dois anos já estava na capital.

Sem condições financeiras para criá-la, a família a colocou numa creche, no Ipiranga, bairro da zona sul de São Paulo.

Aos 12 anos, já não podia ficar aos cuidados das religiosas: foi transferida para uma unidade de Febem, na Casa Verde. Lá, as brincadeiras de menina, o pega-pega, o pula-corda, viraram competições, e ela começou a se destacar.

Apesar das dificuldades que todos podemos imaginar, recebeu apoio, incentivo, cresceu na vida esportiva. Resumo da ópera: foi a primeira brasileira a participar em um Mundial de maratonas (Roma, 1987). E disse presente, com fé e orgulho, na suarenta Olimpíada de Seul, no ano seguinte.

A trajetória de Angélica é marcada por muita luta, sofrimento, superação --coisas sobre as quais nem sempre ela fala, mas que talvez tenham contribuído para seu jeito desabrido de encarar a vida.

Falei dela na minha coluna no caderno Equilíbrio desta quinta-feira, na Folha. E trago agora um resumo de uma conversa que tivemos, por telefone, na semana passada.

FOLHA - Como sua aptidão para o esporte foi descoberta?

ANGÉLICA DE ALMEIDA - Quando fui transferida para a Febem, comecei a praticar esportes. Fui para lá com 12 anos e havia atividade física, jogos. Eu me interessei e me inscrevi. Num dos campeonatos de atletismo, eu me destaquei, e o professor se interessou, perguntou se eu não gostaria de praticar corrida, assim, de 50 metros, cem metros. Aí eu comecei a competir nos campeonatos da Febem e comecei a me destacar nos 50 metros, que era infantil, mirim, em salto em distância, 400 metros e aí o coordenador-geral lá dos professores se interessou e me indicou para ir no Centro Olímpico aqui em São Paulo.

FOLHA - Quem foi esse seu descobridor?

ANGÉLICA - Eu lembro, foi o Sérgio Luís Zamelato. Nós morávamos na unidade 3, na casa Verde, e iria ter uma prova de São Silvestre ali perto, no Imirim. Era no dia 31 de dezembro, três quilômetros. Um grupo da Febem se inscreveu, acho que mais ou menos umas 15 meninas. Eu nunca tinha corrido três quilômetros diretos, mas, nessa prova, fui a segunda colocada. A primeira foi uma moça da Polícia Militar, só que ela já competia, tinha experiência.

FOLHA - Com o resultado, você se destacou ainda mais....

ANGÉLICA - Então, aí teve um coordenador-geral dos professores, Dietrich Gerner, que foi técnico do Ademar Ferreira da Silva, o professor disse a ele que eu tinha habilidade para correr e tal e aí ele disse: ‘Ah, então, vamos levá-la ao Centro Olímpico, não é?‘. Isso foi em torno de 79. Aí eu conheci o Carlão, o Carlos Gomes Ventura, que treinava o pessoal lá. Mas mas só que o objetivo lá era de eu correr os 400 metros. Imagina. Aí eu comecei a correr os 400, os 800 metros. Isso foi já no infantil para o juvenil e comecei a me destacar nas provas de meio fundo da Seleção Paulista, do Campeonato Paulista e algumas provas que tinha a Prova da Penha, do Espéria, lá em São Miguel, da Nitroquímica.

FOLHA - E isso garantia o seu sustento?

ANGÉLICA - Não, era o projeto Adote um Atleta, a gente recebia uma ajuda de custo. Na época, eu treinava lá e estudava.

FOLHA - Tinha alojamento lá também?

ANGÉLICA - Não. Eu morava na Febem. Então, nessa época, eu saía da Febem, ia treinar, voltava, e à noite eu ia estudar.

FOLHA - E tinha que ficar dando resultado, não é? Ou não era uma coisa tão forçada?

ANGÉLICA - É, como é até hoje, não é? Porque, vamos supor, se o atleta não apresenta resultado, o patrocínio não se interessa, não é? Na época era mais ou menos isso, também. Se a meninada lá não fizesse o resultado, ninguém ia se interessar, não é? Mas os resultados surgiram de forma natural, não foi assim aquela pressão que eu tinha que fazer o resultado para ter alguma coisa.

FOLHA - E como você virou profissional?

ANGÉLICA - Na época, para competir, era preciso ser de algum clube. Como o Carlão treinava o Pinheiros, eu competi pelo Pinheiros por um ano. Aí, o Carlão foi convidado para treinar o pessoal do São Paulo F.C. e me levou junto. Aí eu comecei a competir pelo São Paulo. Eu tinha 14, 15 anos, não sabia nada de nada. Ia lá e corria, não é? Então, aí eu passei a fazer resultados mais expressivos. Aí eu comecei a competir com adultos, a me destacar, cheguei a fazer meia-maratona. E, em 82, fiz a 1ª Maratona de São Paulo, que saiu lá do Shopping Iguatemi. Nessa época eu não competia fundo. Fazia, no máximo, o quê? Meia-maratona, 15 km. Aí tinha um pessoal do Centro Olímpico que ia correr e falou, assim, vai, corre até onde você puder. O máximo que eu tinha conseguido era fazer 25 km nos treinos, assim, não é? Num treino ou outro. Aí a gente fez sem compromisso. Aí eu fui, passei os 10 km, 15 km os 25 km, me senti bem, terminei a prova. Nessa prova eu fui a primeira colocada.

FOLHA - Assim, sem maiores dificuldades?

ANGÉLICA - Então, foi sem compromisso e aí eu falei: vou indo, não é? Até o Carlão talvez achasse que eu não ia nem terminar a prova, porque eu não estava treinando específico para a maratona. E, na época, eu tinha 16 anos. Eu terminei a prova, e o Carlão também ficou surpreso. Todo mundo ficou. Foi no dia 25 de janeiro, fiz 3h17. E com essa prova eu ganhei uma passagem para Nova York.

FOLHA -E como foi a viagem?

ANGÉLICA - Era a primeira vez que eu tinha saído do país, que eu andava de avião. Para mim, era tudo novidade. Eu treinei, assim, não específico para maratona e sem compromisso. Como eu tinha ganho a passagem, o Carlão falou: ‘Vai sem compromisso, para ver como é‘. E era tudo novidade. Na largada, eu não sabia de que lado ficar, porque são duas pistas, não é... E aí tinha aquelas placas para o pessoal se encaixar, eu fui para lá, fiquei na placa das cinco horas. Aí deu uma largada lá, um tiro de canhão, e o pessoal começou a se mexer, assim, mas quase andar, não é? Eu falei: ‘Meu Deus do Céu!‘ Comecei a ficar meio desesperada e comecei a fazer ziguezague para sair do pessoal não é? Mas aí eu terminei a prova, assim, foi quase um passeio e baixei mais meu tempo, fiz em 2h59 e fui a segunda na categoria juvenil.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h23

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Entrevista com Angélica de Almeida - final

Momento único

FOLHA - Esse resultado abriu as portas no Brasil, não?

ANGÉLICA - É, então, aí é que começou tudo, não é? Depois dessa maratona. Aí o São Paulo se interessou em patrocinar. Foi também quando eu saí da Febem. na primeira maratona em Nova York, eu ainda estava lá, mas depois a doutora Maria (Maria Marli Kecorius), que trabalhava no Centro Olímpico, ela era também médica da seleção feminina de basquete, ela me convidou para morar com ela. Fiquei acho que uns quatro anos. Foi aí que eu comecei a me manter com o esporte, só treinar e competir.

FOLHA - Mas você não continuava com os estudos, também?

ANGÉLICA - Eu parei de estudar. Não dava para fazer tudo de uma vez, porque eu tinha que treinar, aí eu saía do treino ia estudar e depois dos estudos ia para o curso de inglês. Eu falei: ah, não dá. Aí acabei abandonando e só indo para o lado do esporte.

FOLHA - E continuou investindo nas maratonas...

ANGÉLICA - Depois dessa maratona, no ano seguinte, eu voltei a correr Nova York. Foi em 83, e eu fui a primeira colocada, na categoria Júnior, e bati o recorde da prova da Cidade de Nova York, porque eu consegui fazer em 2h49, competindo pelo São paulo, que pagou a viagem. Continuei a fazer provas de fundo, em pista, e a São Silvestre. Minha primeira São Silvestre, eu fui a 25ª colocada. depois, melhorei: fui sétima, quarta, quinta... Minha melhor colocação foi em 87, quando eu fui a vice-campeã, e a Marta Tenório ganhou.

FOLHA - Foi também o ano do Mundial. Como você foi escolhida?

ANGÉLICA - Eles viram pela melhor performance do ano. Mas no Mundial, eu não estava bem, pensei até em não aceitar, mas tem aquela pressão, você é convocado e não aceita, não fica bem. Acabei indo, mas caí no 10 km com dores musculares.

FOLHA - Isso prejudicou em relação aos dirigentes?

ANGÉLICA - É, aí o pessoal já fica meio com um pé na frente e outro atrás, não é? Fala: "Puxa, ela vai lá e pára..." Eles não querem saber se você está bem fisicamente ou psicologicamente. Eles querem que você vá lá, corra e termine. E Maratona é assim, se você não está bem você não vai conseguir terminar de jeito nenhum. E, na época, acho que, também, teve um Pan-americano e eles acabaram não me convocando, entendeu?

FOLHA - Você guarda uma certa mágoa disso?

ANGÉLICA - Ah, eu acho que sim, porque eles deviam olhar tudo o que eu tinha feito. Não apenas uma coisa que eu não consegui terminar. Tinham de levar outras provas em consideração...

FOLHA - Mesmo assim, você voltou a representar o Brasil. Conquistou uma vaga em Seul.

ANGÉLICA - Então, aí em 88, eu estava vetada pela Confederação, tinha de fazer o índice para a Olimpíada, não é? Eu ia tentar em Munique, mas não deu certo. Dois meses e meio só treinando, e não consegui ir. Então sobrou apenas a maratona do Rio de Janeiro, no calor e tudo. E eu consegui fazer 2h37, consegui o índice. porque a Janete Mayal tinha feito 2h42 em Munique, até então ela é que tinha a vaga. Mas foi um ano muito bom para mim. Antes da Olimpíada, teve o Primeiro GP do Brasil, que foi em Curitiba. Eu fiz os 5.000, fui a segunda bati o recorde brasileiro e sul-americano em 16m34s. E aí duas semanas depois eu fiz os 10 mil, no Brasileiro adulto, que eu também bati o recorde sul-americano e brasileiro.

FOLHA - Você ainda estava no São Paulo?

ANGÉLICA - Não, foi um ano perturbado. Eu saí do São paulo em 88, quando eu passei a treinar com o marcão (marco Antonio de Oliveira). Eu saí do São Paulo, não tinha patrocínio, eu que estava bancando com o que eu tinha guardado. Justamente, eu fui fazer a Maratona do Rio, porque, como não tinha patrocínio, nada, não tinha como ir para fora. O Marcão falou: "É a única chance que você tem, vai lá e arrisca". E ainda bem que deu tudo certo, porque eu estava bem, tinha treinado muito...

FOLHA - Você foi então convocada. E como foi a Olimpíada?

ANGÉLICA - Fui com o melhor tempo, na época, e aí eles não tinham como não me convocar. Depois de três resultados. E acabei indo para a Olimpíada. Tive de esperar um pouco para voltar a treinar, mas eu fui bem. O Marcão me disse: "Olha, você terminando a prova está ótimo". O objetivo era esse, terminar a prova. E eu terminei, fiz 2h43 e fui a 44ª e acho que tinha umas 80 atletas.

FOLHA - Esse é um momento muito especial para o atleta...

ANGÉLICA - É diferente de competir num Brasileiro, num Sul-americano. Ali estão os melhores do mundo. Só de estar lá significa que você é das melhores do mundo. E, aí via o pessoal que eu gostava, que eu admirava. Tinha a Rosa Mota, o Ben Johnson, o Carl Lewis. Ah, quer dizer, é um momento único, não é?

FOLHA - Na volta, continuou sem patrocínio...

ANGÉLICA - Isso foi em 88, não é? Em 89, eu fiquei aqui no Brasil e aí eu decidi ir para os Estados Unidos. O objetivo era ir para lá, fazer provas e viver do atletismo. E, aí um amigo que veio para o Brasil me convidou e acabei indo para a casa dele, na Califórnia. O nome dele é Odílio Correia Lima. Mas tive muitos problemas, físicos e pessoais. Não conseguia completar as provas e acabou não dando certo o que eu queria. Mas fiquei até 91, voltei, e em 1992 fiz a maratona de Londres. Corri em 2h37 e fui a décima colocada.

FOLHA - Isso trouxe benefícios? Você já estava se preparando para quando não pudesse mais competir?

ANGÉLICA - Consegui algum patrocínio. Não foi aquela coisa, mas deu para sobreviver. E eu fiz o curso do Crefi, de Educação Física, e passei a dar aula, personal training. E hoje trabalho na Básica, a assessoria esportiva da Silvana Cole, que sempre foi muito amiga minha, seguiu minha carreira...

FOLHA - Como corredora, ao longo desses anos todos, você sentiu algum preconceito?

ANGÉLICA - Antigamente, quando eu comecei, na década de 80 e até acho que 91, 92 acho que tinha. Hoje em dia, não, mas na época acho que sim, inclusive. Aqui no Brasil, imagine, a mulherada correndo na rua, eles gritavam: "Vai lavar louça! Vai pilotar fogão!" Nas provas, também, agora está melhor, mas assim, você passa um corredor e ele querer vir atrás, entendeu? Não admitir que você passe ele .Houve provas em que na largada, assim, o pessoal masculino tentava empurrar para cair... Mas, agora está bem melhor, nossa, a corrida de rua cresceu muito...

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h21

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Algumas dicas para treinar melhor

 

Melhore seu desempenho

Volta e meia, alguém manda comentário ou e-mail solicitando comentário sobre os treinos que faz, alguma dica ou orientação.

Não sou médico nem técnico; mesmo que fosse, acho que dificilmente é sensato alguém sugerir algo a outrem que não conhece.

O que tenho feito, aqui no blog, é contar um pouco acerca de minha experiência, que pode valer para alguns e pode não funcionar para outros.

Sou um sujeito de físico mais ou menos comum, altura média, um pouco mais pesado que as exigências do atletismo recomendam. Tento manter meus treinos da melhor forma possível para conseguir participar sem lesão de provas longas, sem grande preocupação com o tempo.

Então, para mim, ter um bom desempenho significa completar uma prova em boas condições físicas. Claro que eu procuro sempre fazer no menor tempo possível a cada momento, mas essa é uma questão secundária.

Neste ano, fiz uma maratona em 4h17, outra em 4h25 e a terceira em 4h35. Cada uma teve problemas e prazeres diferentes, mas talvez tenha tido mais alegria ao completar a mais lenta.

Bom, seguem alguma dicas que aprendi com meus treinos, conversando com treinadores e lendo a respeito de organização de treinos. São orientações gerais, em nenhuma ordem específica.

1. O descanso faz parte do treino. Se você treina cinco, seis, sete dias por semana, sempre na mesma intensidade, vai acabar se machucando, sem conseguir seu objetivo. É importante intercalar treinos fortes e treinos de recuperação, mais leves. Um, dois ou mesmo três dias de descanso, conforme seu estágio de treinamento, também são recomendados por especialistas. Se você não agüenta ficar parado, experimente algum outro esporte em um dia (eu gosto de natação).

2. Comer e beber faz parte do treino. Em geral, costumo beber o equivalente a um copo pequeno de água a cada 20 ou 30 minutos de treino, dependendo da duração prevista. Em treinos de mais de uma hora, é bom tomar um repositor energético a cada 50 minutos/uma hora. Cuide também da hidratação e alimentação ao longo do resto do dia. Beba pelo menos dois litros de água (há quem recomende três e até quatro; eu bebo uns três litros por dia, em média).

3. Se você fizer sempre a mesma coisa, vai aprender a fazer sempre a mesma coisa. Portanto, procure variar os treinos. Se sempre correr 12 km em 1h10, experimente dividir esse treino, um dia, em grupos menores, alternando ritmos mais fortes e mais fracos. Ou tire um dia para correr um pouco mais, em ritmo mais descansado. O que leva para a outra dica...

4. Os longos são leves. O treino mais longo da semana deve ser em um ritmo mais leve que os outros. Há muita polêmica sobre o tal LSD (long slow distance, longão lento), mas a orientação que tenho recebido de meu treinador é de procurar fazer esses treinos, que fortalecem a resistência, em ritmo em torno de um minuto mais lento que o ritmo de prova.

5. Mantenha registro de seus treinos. Assim você pode acompanhar sua evolução, seu desempenho, seus eventuais erros, os padrões que dão certo. Eu adoro registrar tudo.

Bom, são algumas idéias. Como sempre, sinta-se à vontade para mandar comentários. Conte o tipo de treino que mais gosta ou que regime de treinamento funciona para você.

Boas corridas.

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h10

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Exercícios de baixa intensidade reduzem fadiga

Cansar descansa

Fazer exercício, dentro dos limites que o corpo de cada um possibilita, é sempre muito bom para a saúde e o bem-estar geral.

E funciona mesmo se for uma coisinha maneira, só no sapatinho, como se diz.

Pessoas sedentárias que costumam reclamar de cansaço podem melhorar seus níveis de energia em 20% e reduzir a fadiga em 65% se fizerem exercícios de baixa intensidade, de forma regular (aí é que está a dificuldade, é claro).

Esse é o resultado de um estudo realizado na Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.

"Muitas vezes, a gente pensa que vai ficar esgotado se for malhar um pouco, especialmente se já estamos cansados, mas é o contrário: demonstramos que o exercício pode ajudar muito para aumentar o nível de energia, especialmente em pessoas sedentárias", disse o professor Patrick O’Connor, co-diretor do UGA Exercise Psychology Laboratory.

Ele lembra que estudos anteriores já haviam apresentado resultados semelhantes, mas trabalhavam com pacientes com problemas graves de saúde (câncer, doenças cardíacas, problemas mentais). O trabalho deles avaliou pessoas saudáveis, que reclamavam de cansaço mas não se enquadravam, por exemplo, como casos de fadiga crônica.

"Essas pessoas trabalham demais e dormem muito pouco", disse O’Connor. "Fazer exercícios é uma forma de eles se sentirem mais energizados e vantagens sobre o uso de bebidas energéticas ou doses enormes de café."

Eu senti os efeitos na prática. Ontem, cheguei em casa depois de mais de 12 horas direto no fechamento do caderno informática, podrão, só queria comer e ver TV. Mas resolvi comer menos e fazer um pouquinho de musculação e alongamento. Foram 20 minutos que, se não me deixaram novo, pelo menos me tiraram da esbórnia completa.

E quem de nós não trabalha demais, dorme de menos e se alimenta pior do que deveria?

Escrito por Rodolfo Lucena às 08h04

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Maratón Ciudad de Sevilla

Disparada no telão

Meninos, eu vi. Depois de dez anos correndo, assisti enfim à largada de uma maratona, da minha maratona. Faltavam menos de dois minutos para a saída, estávamos quase 3.000 corredores nos aprontando na pista de atletismo do Estádio Olímpico de Sevilha, quando notei os anúncios do locutor, vi o brilho por sobre as arquibancadas.

Dois telões, um em cada lado do estádio, mostravam a massa nos seus movimentos finais, prévios à explosão. Movíamo-nos como gado, em círculos, pequenos círculos em que cada um era o próprio eixo. Alguns saltitavam, outros, como eu, aguardavam, olhando, pensando.

As câmeras se voltaram para a tribuna, percebi alguns engravatados. Um sujeito de marrom, parecia estar de terno e gravata, mas já as imagens se confundem na memória, ergueu o braço. Tinha um revólver na mão.

Pensei: "Não acredito!. Vou ver a minha largada!". Ele apertou o gatilho, vi a explosão do disparo, caiu a fita que manietava a energia dos atletas, a massa disparou no telão, liderada por esguios quenianos, etíopes, marroquinos, tal como se vê nos Jogos Olímpicos, na Maratona de Nova York, nas emissoras de TV que tão raramente cobrem eventos como esse.

E eu estava lá, parecia mesmo um deles, um atleta que vai aparecer na televisão. Mas tinha tempo para observar, pensar e vagarosamente mover as pernas, pois correr era para os da frente. Do meu ponto, quase no fim da fila, a massa seguia compacta: os quenianos já ganhavam o túnel que os levaria para fora do estádio, nós nem sequer tínhamos chegado ao pórtico de largada, na reta oposta da pista.

A cantoria dos chips passando sobre os tapetes parecia a balbúrdia de caturritas ensandecidas na primavera, voejando de um lado para outro. Deu para distender as pernas, sentir a pista fofa, profissional, sensacional. Olhar para as câmeras, abanar, gritar, já sem saber o que passava nos enormes telões do estádio.

Importava era seguir.

Ainda uma última diversão, lenta e gradual. No escuro túnel, cheio de ecos, gritávamos todos, explodindo em expectativa, saudando a partida, soltando demônios, escondendo medos ou simplesmente imitando o que os outros faziam. Dei também um berro, mas me contive, segurei, parei. Queria guardar comigo toda a energia que tivesse, pois iniciava, na minha maratona de número 22, um desafio inédito para mim: completar duas provas de 42.195 metros no intervalo de apenas uma semana.

No domingo anterior, fizera a magnífica prova da cidade de Valencia, terra que El Cid conquistou dos mouros com sua cavalaria (leio o relato neste blog, em mensagens anteriores). Agora estava em Sevilha, onde Carmen enfeitiçou o soldado José e acabou perdida nos braços de um toureiro, na maior saga de amor enlouquecido, enlouquecedor que a ópera já cantou.

O dia nublado, com temperatura de 12 graus na largada, estava ótimo para a corrida, apesar de um ventinho que ameaçava cortar ânimos e ritmo. Nuvens de cinza mais forte, chumbo mesmo, também eram prenúncio de eventuais dificuldades, mas isso teríamos de ver ao longo do percurso.

O dia anterior fora de chuva. Começou pela manhã, piorou à tarde, apertou à noite, virou tormenta e temporal que me acordou algumas vezes, não sei se pelo ruído ou se por minha expectativa. De manhã, o asfalto de Sevilha ainda estava úmido, escorregadio em alguns pontos, com poças renitentes em outros, mas o clima era perfeito.

Eu também parecia estar em ordem na primeira checagem, algumas centenas de metros depois da largada, já na reta que me levaria até o quarto quilômetro. Não tinha dores vindas do domingo anterior, os quadríceps não gemiam, os joelhos não rangiam. O posterior da coxa estava meio agastado, encurtado, reclamento, mas isso faz parte de mim: queria ter uma pílula mágica da flexibilidade, quem sabe um suco de látex que me livrasse da obrigação de alongar, alongar, alongar, alongar mais um pouco e nunca estar no ponto.

Aqui há pouco o que ver, nessa área na cidade que é uma quase ilha, abraçada por uma espécie de nó feito pelo rio Guadalquivir, que banha Sevilha e lhe dá mais um espaço para o esporte e o lazer _pensar no Tietê paulistano dá tristeza e inveja dos espanhóis. Aqui há um superparque de diversões, o Estádio Olímpico, hotéis, uma área para feiras, grandes espaços vazios, avenidas largas por onde passamos.

Como na largada, continuo entre os últimos nesses primeiros quilômetros. A Maratón Ciudad de Sevilla, que completou neste ano sua edição número 24, não é exatamente para as massas: com limite de cinco horas, exige atletas preparados e coloca sobre gente mais lenta, como eu, a ameaça de não chegar a tempo de receber a medalha.

Isso não estava em meus planos. Tinha corrido Valencia em menos de 4h30 sem nenhum sofrimento mais notável, pretendia hoje fazer dentro do limite do tempo, talvez com uma folga de 15 minutos, enfim, o que meu corpo permitisse.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h00

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Maratón Ciudad de Sevilla - segunda parte

Espanha heróica

Ainda nos primeiros passos, descobri não ser o único a tentar ampliar as limites do possível: um sujeito gordinho emparelhou comigo e perguntou se eu não tinha corrido em Valencia na semana anterior. Ele tinha me reconhecido pela camiseta, em que trago os nomes da minha vida: mulher, filhas, pais, irmãos, pátria, time, cachorros, músicas...

Ele e um amigo também estavam a ver o que o destino lhes reservava para uma seqüência de maratonas. O outr já estava lá na frente, ele corria mais forte do que eu pretendia. Seguimos na troca de amabilidades por umas poucas centenas de metros, e o sujeito se foi: o peso maior não parecia comprometer sua velocidade.

Isso me deixou um pouco triste e me fez matutar acerca de meu desempenho, que já foi de quatro horas e por ali, está agora em quatro horas e por lá, e eu gostaria muito que fosse abaixo. São as contradições do corredor: quer se divertir, não deseja sofrer, mas sonha com mais velocidade, que só vem com algum sofrimento, uma dedicação a mais que nem sempre pode ser dada ou se quer dar.

Dizem que tenho de emagrecer para ficar mais rápido. Eu corto na sobremesa, deixo para lá os chocolates, afino cintura, derrubo gramas, num esforço que muito pouco conquista ao longo de muito tempo. Entro no asfalto e tomo pau de um monte de gente mais velha e mais pesada do que eu. Vai saber...

Claro que nem sempre quem corre mais no início chega ao fim correndo: a maratona tem 42.195 metros, nem unzinho a menos, e só acaba quando termina. Como na vida, nem sempre quem está mais preparado se dá melhor: é preciso saber administrar o que se tem, guardar, soltar, relaxar, tensionar, num exercício que cobra tanto do cérebro quanto dos músculos.

Por enquanto, há que relaxar, aproveitar a festa das ruas de Sevilha. Numa esquina, um grupo de rapazes seminus faz uma gritaria que alegra os corredores. Estão todos vestidos para nadar, completos com touca e óculos de natação, e levam um cartaz dedicada por certo a um de seus amigos de clube, mas aproveitam para "desincentivar" a todos, gritando para que larguemos essa vida, bom mesmo é cair na piscina...

No frio que está, é melhor acelerar um pouquinho, chegando já de volta ao estádio, onde mais gente se concentra para aplaudir a turma. Mulheres, maridos, crianças, avós, amigos, não são exatamente uma multidão, mas estão muito entusiasmados. Gritam "animo!", "animo!", "vale, vale". Para mim, de vez em quando, um grito de "Rodolfo campeón!".

E seguimos para mais solidão, mas essa no verde: cortamos o parque do Alamillo, que é uma coisa linda, cheia de árvores, esculturas em alguns jardins, grama verdinha bem cortada, dá vontade de sair pastando.

Pouca gente, mas alguns também gritam meu nome, o que aparentemente vai deixando curioso um outro corredor, que vem pouco atrás e fica brincando: "Rodolfo campeón", "Rodolfo campeón". O sujeito emparelha comigo e quer saber se sou algum artista, cantor, sabe-se lá o quê, pois tantos festejam. Eu mostro minha camiseta, em que está escrito meu nome, e ele dá risada.

Vemos chegar à primeira ponte do percurso, e eu acelero. O sujeito sai aos gritos atrás, dizendo que estopu muito forte, alertando para cuidar. "É só para sair bonito na foto", grito de volta e mando um beijo para a Eleonora, que está a postos no km 10, com sua câmera e sua alegria, me ajudando a correr (são dela todas as fotos que publico neste relato).

Logo volto a cair no ritmo, e seguimos juntos, eu e o novo amigo, mais uma moça que vinha com ele, Jess (estava escrito na camiseta dela). Às vezes, me incomoda o ritmo, que é um pouquinho mais lento do que eu gostaria, mas é melhor para me ajudar a economizar. A conversa, no final das contas, ajuda a passar o tempo, e eu vou aprendendo coisas sobre a cidade.

Estamos em grandes avenidas contornando a região mais agitada da cidade. Primeiro seguimos num retão ao lado do rio, o que só me faz pensar no quanto São Paulo poderia ser diferente, como maltratamos nossa terra. Uma enorme bandeira verde, ao longe, traz ainda mais lembranças da pátria, e conto ao colega de ritmo como é a brasileira, o verde mais escuro, as linhas retas do ouro, o azul do céu.

A Sevilha que percorremos é elétrica, de trânsito forte mesmo na manhã cinzenta de domingo. Diferente da que visitei no dia anterior, trotando pelo centro de ruelas labirínticas, pela "juderia", o antigo bairro judeu que foi um dos pontos de partida da comunidade.

A Espanha que vou conhecendo nessa curta viagem é rica, afluente, multifacetada, multicolorida. Mas guarda resquícios de um passado que, se foi vibrante, heróico, majestoso, também foi cruel, racista, de guerra sem quartel.

Os mouros invadiram a região a partir do século 6 e foram conquistando terreno aos católicos, empurrando os então donos da terra para o norte e encampando a seu serviço muitas das comunidades de judeus que proliferavam em terras ibéricas.

Posições se consolidam, mas as batalhas continuam ao longo dos séculos, para culminar na vitória completa dos reinos de Aragão e Castela em 1492. Os derrotados muçulmanos e os judeus que com eles conviviam em paz são expulsos ou forçados à conversão. Em muitas comunidades, simplesmente desaparecem, seguindo para o Novo Mundo.

Mas deixaram de herança o desenho intestinal de dezenas de cidades, estilo arquitetônico todo especial, lembranças, memórias, ciência _um mundo que ainda hoje é estudado e não cabe nessas grosseiras linhas, mas permeia o trajeto que percorro em terras de Espanha.

CONTINUA....

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h58

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Maratón Ciudade de Sevilla - terceira parte

O prazer da ultrapassagem

Neste domingo de corrida, a Espanha está prestes a voltar às urnas para escolher seu dirigente maior. Nas televisões, todos se voltam para o grande debate prometido para a noite seguinte, quando vão se enfrentar o líder socialista, no poder, e o chefe dos conservadores, de oposição. É tema também no asfalto, e Manolo, que corre comigo, prevê que a vitória será dos socialistas, tanto em Sevilha quanto no país.

Pequeno empresário, dono de uma farmácia onde trabalham também sua mulher e uma das filhas, reclama dos impostos, diz que a Espanha está recebendo muitos imigrantes, fala que há gente que prefere viver do beneplácito do Estado a trabalhar, mas prefere não arriscar com os conservadores. Para ele, "é tudo igual".

Para mim, tudo é diferente. Estou impressionado comigo mesmo, com meu bem-estar. Doem as costas, é verdade, mas não parece ser um alerta de que coisa pior virá. Ao contrário, a dor é quase para marcar posição: diz que está lá, que eu preciso enfrentá-la, mas reage e diminui quando me aprumo.

O que me incomoda, mesmo, é o coração. Desde o início da prova, o freqüencímetro vem mandando sinais estranhos, parece louco: os batimentos cardíacos sobem alucinadamente em momentos em que mal corro, estabilizam-se no alto e de repente caem. Se forço o ritmo, a freqüência vai lá para baixo, normalzinha, normalzinha...

As sensações também não combinam com as mensagens que aparecem no mostrador: eu estou bem, descansado. É quase a metade da prova, e a musculatura nem parece ter sido testada, a respiração é tranqüila, o ritmo é bom mesmo com a tagarelice.

Decido que o relógio é que não está bem das pernas. Mando um abraço para meu parceiro Manolo, despeço-me de Jess, garota londrina que foi também parceira intermitente nessa primeira parte da jornada, e vou buscar meu ritmo logo depois de passar a meia-maratona. Agora é a hora de testar o espírito.

Sou uma explosão de alegria. Sozinho, abro a passada, melhoro em dez segundos por quilômetro, em 15 segundos, mas nada que seja suficiente para me transformar em perseguidor de algum retardatário. Talvez pelo restrito limite de tempo, parece não haver lentos nessa prova. O asfalto é meu, divido o território talvez com um sujeito que mal vejo, lá longe.

É ele meu adversário, meu inimigo, meu alvo, meta, sei lá o quê.

Saio em perseguição, mas em minutos já me pergunto: "Que merda é essa?", com o perdão de meu francês. Mesmo que eu corresse como se fossem cem metros, não chegaria tão logo ao sujeito da frente. É melhor ficar na minha, voltar ao ritmo e então melhorar um bocadinho, "despacito no más", como se diz nessa plagas e também lá nas terras gaúchas.

Assim, sim, dá para apreciar o movimento e os quilômetros que passam: há cada vez menos pela frente, no que é o grande mistério e maravilha da maratona, pois quanto mais se corre, menos há para correr, mas também há mais que enfrentar.

Saio de uma avenida e posso apreciar um predião com certeza histórico, amarelão, chefiando um conjunto de edifícios semelhantes. O casarão principal é encimado pela inscrição "Matadero", o local foi um abatedouro nos tempos de antanho, hoje abriga um centro cultural.

Os próximos quilômetros são de alegria competitiva: passo muitos que foram mais rápidos e não agüentaram, encontro quem caminha, quem pára, e eu sigo no meu ritmo.

Correr é uma alegria, um prazer, uma conquista pessoal, em que a gente encontra o melhor de si mesmo e ainda consegue festejar essa alegria. Mas também nos revela o mesquinho, o invejoso, o competidor implacável que muitos de nós escondemos.

Parece que o corredor, eu-corredor encarno na mesma pessoa os muitos que são comentados em um poema de Fernando Pessoa: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil..." A gente é campeão, "Rodolfo campeón", cantam de vez em quando nas calçadas de Sevilha, mas não perde a dura humanidade, às vezes para surpresa própria.

Me encantei ao ver o Pabellón Brasil, a pátria homenageada em um dos prédios da universidade de Sevilha, em uma reta que ganhamos logo depois de ter passado pelo estádio do Betis _uma curiosidade: o time herda o nome que foi do rio, nos tempos romanos, e que também batiza a região (Bética).

Poucas centenas de metros depois, meu orgulho nacionalista se transforma em raiva estúpida, inveja boba: o prédio dedicado à Argentina era muito mais bonito que o "brasileiro" _até nisso eu queria ganhar. Fiquei brigando comigo mesmo, dizendo que os argentinos são gente boa e que a Argentina merece muito mais, mas não sei se estava sendo muito honesto...

Logo depois do km 30, o capítulo competitividade se engalana, pois um sujeito altão, que há muito vinha correndo à minha frente e às vezes dava umas caminhadas, agora corre de costas, para se dar um descanso, e faz a maior cara de surpresa ao me ver chegar para alcançá-lo _quem sabe, superá-lo.

Antes, ficamos conversando. O grandalhão é de Florença e, como eu, fizera no ano anterior os cem quilômetros do Passatore, maravilhosa ultramaratona nas montanhas da generosa Toscana (o relato está AQUI). Completadas as gentilezas, saio para deixá-lo para trás para sempre.

Ledo engano. Só lidero enquanto ele caminha. Quando corre, me ultrapassa, mas não consegue manter o vigor por muito tempo. Eu já o alcanço e sigo, ele volta a me superar. Parece que estamos os dois a competir. Estamos mesmo, mas também não, pois não importa o que o outra faça, cada um só vai ter o resultado que puder ter.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h53

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Maratón Ciudad de Sevilla - final

A última ponte

É bom que, nessa hora tardia, já no km 33, quando o sol enfim venceu as nuvens e os termômetros da rua marcam 19 graus, quando eu começo a sentir o suor pela primeira vez e a temer que o calor vá me derrubar, tenho aquela disputa, que pode ser boba, mesquinha, mas me segura inteiro.

O sujeito enfim alcança um outro que foi mais rápido e agora caminha. O superado se sente desafiado, volta a um ritmo forte, os dois parecem se ajustar e vão longe. Foi-se o meu coelho, e agora estou de novo em ritmo de cruzeiro. Miro na dupla, mas me contento em não diminuir o ritmo, o que me ajuda a passar mais alguns.

O maior movimento nas ruas também colabora. Muita gente nas calçadas, parece saída de igreja, as pessoas aproveitam para saudar os corredores. É simpático o povo de Sevilha: talvez alguns tenham vindo às ruas para saudar um amigo, parente, conhecido, mas ficam e nos alegram a todos. Não é uma multidão, mas são entusiasmados, confiantes, sempre nos dizem que falta pouco, que acreditam que a gente vai chegar.

Ali estão engalanados, roupas domingueiras, ternos e vestidos longos, até um que outro chapéu nas mulheres (depois descubro que saíam mesmo da igreja, há uma grandona naquela área). Tenho de rir do nome da praça, que homenageia San Martin de Porres. Só estando de porre mesmo, brinco com o falso cognato, para querer correr uma maratona...

E eis que mais à frente o italiano e sua dupla estão em marcha lenta: faço, agora, sim, a ultrapassagem definitiva e encho de orgulho o peito, mais alegre ainda com a certeza de que vou chegar bem, muito bem. Faltam apenas uma ponte e mais outra, menos que a distância de uma volta na avenida Sumaré, em terras paulistanas.

O sol está de novo escondido, um ventinho gela o que havia suado, mas é bem-vindo. A musculatura das pernas enfim está avisando que os quilômetros foram muitos, dá vontade de descansar, pelo menos receber um bálsamo rápido nas estações de atendimento que parecem estar colocadas mais amiúde.

Posso fazer caminhando o que resta que, mesmo assim, chegarei no prazo. Talvez deva fazer isso, para garantir recuperação mais rápida no pós-prova, proteger o esqueleto e deixar tudo em ponto de bala para o treinamento que vai continuar duro no mês seguinte, que é o período final de preparação para a minha ultramaratona do ano...

A idéia passa na minha cabeça, é verdade, mas o que eu faço é ainda mais uma vez tentar aumentar o ritmo. Vem aí a última ponte, que me levará de volta para a Isla Magica, para as cercanias do Estádio Olímpico, para o final, para o beijo da Eleonora.

Na entrada da ponte, a "nossa ponte", como a apelidamos Eleonora e eu, pois dá quase reto na avenida que leva ao hotel em que ficamos, está a marca do km 37. E está também um dos postos de abastecimento mais bacanas (foto no alto), em que os jovens que nos oferecem água também cantam para cada um, vibram com nossa passagem como se fosse um gol, "vale, vale".

Vale mesmo, porque agora é só na raiva da própria fraqueza que eu tento aumentar ainda o ritmo. Minha sensação é de estar veloz como uma flecha, mas o incorruptível relógio mostra que fiz o km 39 em sete minutos e um segundo _foi meu quarto pior quilômetro na prova. Mais um, estou de volta ao parque Alamillo, à grama verde. Outro, encosto no estádio, festejo a placa que se orgulha: "Estadio Olimpico, Estadio 5 Estrellas".

Para mim, poderia ser 10 mil, 100 milhões de estrelas, é quase tão inatingível quanto o espaço. Vejo a curva que leva ao estádio pelo túnel Sur, "igual que Abel Anton en el Mundial de 1999", diz a revista oficial da corrida, lembrando o herói espanhol que venceu em Sevilha para se tornar bicampeão mundial da maratona.

Mas não é aquela curva que faremos. Há que ir ainda um pouco mais longe para completar a distância, num trajeto que parece ter sido elaborado por alma mesquinha, que se alegra em ver a ansiedade insatisfeita.

Muitos caminham, cabisbaixos, naquelas centenas de metros que faltam para chegar ao estádio. A maratona é um esforço monumental, cobra cada músculo do corpo, cada fiapo de força de vontade. Demanda controle, fortaleza mental, é fruto do desejo e do prazer como da dor, do desespero, do descaminho.

Já vi disso tantas vezes, e sempre me pergunto por quê, o que faz com que deixem faltar o gás, a garra e a paixão na hora de fazer a conquista, de dar o golpe final, cruzar a meta e festejar.

Já chorava, segurava o corpo para não tropeçar no túnel escuro, uma descida forte que deixava ver a luz na pista, a mesma da largada, que agora eu iria correr no sentido "correto", anti-horário como nas competições. Seriam 195 metros, pois a marca de 42 km me mandou um beijo logo que eu saí ao sol. Eu ia correr.

Abri a passada, ganhando ritmo até a primeira curva, superando duas, três pessoas. Reduzi para preparar a entrada na reta final, acelerei na última curva e me fui.

Já não era eu, era a pista, a passada, o vento, o choro. Corria reto, cabeça erguida, rindo, gargalhando por dentro. Olhava as arquibancadas que aplaudiam, vi a Eleonora pulando, ainda gritei seu nome, terminei.

Agora eu sei como é correr duas maratonas em dois domingos seguidos. É muito bom.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h51

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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