Blog do Rodolfo Lucena - + corrida
 

Tênis tenta mudar passada do corredor

O segredo do batoquinho

No final do ano passado, conheci os tênis da Newton Running, uma empresa supernovinha, que lançou seus primeiros calçados em 2007 mesmo. Em janeiro, numa viagem aos Estados Unidos, resolvi comprar para experimentar. A compra foi pela internet, sem maiores problemas. Acabei fazendo uma reportagem sobre o tal tênis supostamente revolucionário, que saiu no caderno Vitrine, da Folha. Por razões de espaço, os textos foram editados, condensados etc. Publico agora a versão integral da reportagem, que consta de três textos, editados aqui em seqüência.

As cores vibrantes, elétricas, contrastantes são a primeira coisa que se nota no calçado de corrida da Newton Running, uma jovem empresa norte-americana que pretende tomar uma fatia do mercado dominado por gigantes como Nike, Adidas e Asics.

Chegando mais perto, porém, outros destaques aparecem. O design é agressivo e o solado é muito diferente do costumeiro: na parte da frente, traz dois conjuntos de quatro batoquinhos ou almofadinhas, que são o segredo da inovação prometida pela empresa.

Por causa do design do solado e dos materiais especiais usados nas almofadinhas, patenteado pela empresa, você acaba pisando primeiro com a parte da frente do pé, para só depois cair com o calcanhar e iniciar o processo de propulsão.

A membrana flexível empregada nos batoquinhos, diz a Newton Running, propicia "maior absorção de impacto e maior propulsão", e a pisada iniciada na parte da frente do pé torna mais eficiente a mecânica da corrida. O que, por sua vez, aumenta o desempenho e diminui o risco de lesões.

A empresa cobra bastante pelo que oferece: o modelo Gravity, para uso em treinos, custa US$ 175. Mais de 45% mais caro que o Asics Nimbus 9, eleito o melhor tênis de corrida de 2007 pela revista especializada "Runner’s World".

Os calçados da Newton foram anunciados e começaram a ser vendidos em março do ano passado. Com design diferente para homens e mulheres, há modelos de amortecimento e de controle de movimento, cada um com versão para treino e para competição.

Curioso, acabei comprando o tal Gravity janeiro último para experimentar. Na pior das hipóteses, teria pelo menos um tênis bacana para ir ao cinema, pagando menos do que é cobrado no Brasil por calçados de qualidade mediana.

Fiz a compra pela internet, e o tênis chegou em um pacote que tinha ainda um par de meias de corrida de boa qualidade, uma sacolinha para o calçado e um CD com informações técnicas.

O Gravity, apesar de ser "de amortecimento", é bem leve: pesa 289 gramas, contra 351 do Nimbus 9, por exemplo. E o solado no calcanhar é pouco massivo; parece mais um tênis para ser usado por macérrimos quenianos em corridas curtas do que para uso em longos treinos por sujeitos lerdos e pesados.

O fato é que ele cumpre o prometido _pelo menos, uma parte da promessa. Já no primeiro treino que fiz, foi clara a mudança da passada: a parte da frente do pé passou a bater primeiro no chão, e eu tive de ficar mais ereto.

Supostamente, esse é o jeito natural, semelhante aos movimentos que você faz quando corre descalço. Há muitos treinadores que defendem esse tipo de passada, e você encontra várias teses a respeito na internet. Um dos grupos mais articulados é o do pesquisador russo Nicholas Romanov, que desenvolveu o método Pose _o nome tem a ver com postura (saiba mais AQUI).

Claro que isso provocou alguma confusão em um sujeito habituado a aproveitar o acolchoado dos tênis e acertar o solo primeiro com a parte de trás do pé _como fazem, por sinal, 80% dos corredores, segundo estudo de......

Nos dois primeiros treinos, sofri com dores nas panturrilhas, que ficam mais estendidas. Depois, fui acostumando _aliás, a empresa diz que o iniciante deve rodar uns 40 quilômetros para se adaptar à nova forma e passar a ter os supostos benefícios de melhora na performance.

Até escrever este comentário, corri pouco mais de 60 quilômetros nas ruas de São Paulo e fiz uns 15 quilômetros de caminhadas. Em geral, foi confortável; senti o tal movimento na pisa e a mudança na biomecânica da corrida.

Um inconveniente é a fôrma estreita do calçado, que não é oferecido em diferentes larguras; o tecido cede um pouco, mas dá um certo incômodo (e tem uma costurinha chata bem em cima do dedo mingo...).

Apesar da pouca borracha no calcanhar, não houve grande impacto, por causa da mudança da passada. Em ritmos mais fortes, porém, deu para sentir a batida. Como estou em treinamento para uma ultramaratona, preferi não fazer treinos de mais de 15 quilômetros no novo estilo, que agora só voltarei a usar depois da corrida.

Aliás, fica aqui uma sugestão para quem se interessar pelo tênis: procure experimentá-lo quando não estiver com um treinamento organizado para uma determinada prova, pois as mudanças podem provocar algum desconforto.

Pois mudanças há, sem dúvida. Se elas ajudam no desempenho, é impossível avaliar apenas com base nos treinos que fiz.

Pela minha experiência, duvido. Mesmo que haja algum ganho, será insignificante no caso de atletas medianos, que correm uma maratona em ritmo de cinco ou seis minutos por quilômetro.

Até agora, a empresa não atraiu corredores de nome, mas conta com vários triatletas de elite _Danny Abshire, um dos co-fundadores da empresa, é treinador de triatletas profissionais há mais de 15, e uma da primeiras investidoras na Newton foi Paula Newby Fraser, oito vezes campeão mundial.

Segundo sua assessoria de imprensa, neste ano a Newton pretende aparecer mais no mundo das maratonas e até patrocinar corredores de elite. E planeja também levar seus calçados às lojas.

Pois até agora as vendas são basicamente pela internet. No site, está listada apenas uma loja física, Active Imprints, do próprio Abshire. Ela fica em Boulder, Colorado.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h22

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Laboratório compara calçados de corrida

Diferença é pequena

Além de correr por cerca de 60 quilômetros com o Gravity, também coloquei o tênis à prova em laboratório, para ver se acontece efetivamente alguma mudança.

O resultado é que as diferenças, se efetivamente existirem, são pequenas. Esse resultado era esperado, uma vez que a amostra para comparação foi muito pequena.

A maior vantagem _uma pequena redução do impacto usando o calçado_ poderia ser obtida com um tênis convencional, bastando para isso mudar a passada, segundo avaliação do mestre em biodinâmica do movimento humano Reginaldo Fukuchi, do Laboratório de Análise do Movimento do Instituto Vita, onde foram feitos os testes.

Para efeito de comparação, usei um tênis de amortecimento, o Brooks Dyad 4.

A análise biomecânica da corrida foi feita utilizando câmeras de vídeo de alta velocidade, plataforma de força (que mede o impacto com o solo solo) e palmilhas com sensores para medir a pressão na planta dos pés.

Os resultados, analisados por Fukuchi e Marcos Duarte, coordenador do laboratório do Vita, mostraram que o calçado Newton provocou "uma anteriorização do centro de pressão no contato inicial" _o que significa que, no momento de o pé tocar no chão, há uma tendência de colocar a parte mais da frente do calçado.

Outra alteração aparente foi o impacto menor com o Newton. Para Fukuchi, isso era esperado, pois a batida no chão com a parte da frente do pé faz com que músculos e tendões também atenuem a carga.

Os esforços das articulações do joelho e do tornozelo foram similares.

Fukuchi conclui que "essas diferenças também poderiam ser vistas caso o atleta fosse instruído a correr na ponta dos pés utilizando qualquer calçado".

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h18

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Concorrente enfrenta entidade de atletismo

Evoluir com a tecnologia

A Newton Running está longe de ser a primeira fabricante a buscar oferecer aos corredores calçados que sigam a biomecânica que consideram "natural" ou a tentar criar calçados que efetivamente auxiliem na performance do atleta. A gigante Nike, por exemplo, tem a linha Free, que daria ao esportista a sensação de correr descalço. E a pequena Spira desenvolveu um calçado com molas (veja ilustração) _recurso que a entidade que governa o atletismo norte-americano condena por supostamente ser um auxílio irregular ao desempenho.

Leia a seguir entrevista exclusiva com Andrew B. Krafsur, co-fundador da Spira Footwear.

FOLHA - O que os tênis da Spira têm de diferente?

ANDREW B. KRAFSUR - Acreditamos que nossa tecnologia oferece quatro grandes benefícios: a) ela se baseia em um sistema chamado deflexão, diferente dos materiais tradicionais usados na entresola, que se baseiam na compressão; nosso sistema não cede nunca, e o tênis sempre parece novo; b) o sistema WaveSpring devolve cerca de 90% da energia, permitindo ao atleta correr mais rapidamente e por mais tempo com menos estresse. O tempo de recuperação é menor e o sistema ajuda a prevenir lesões; c) a tecnologia reduz o impacto máximo em até 20%; é como se um corredor de 100 kg passasse a pesar 80 kg no que se refere ao estresse no corpo; d) a WaveSpring é ajustável e adaptável a diversas configurações. Nós produzimos diferentes tamanhos de molas de acordo com o tamanho do calçado e a atividade envolvida. Nenhum material de compressão permite isso.

FOLHA - Vocês ganharam muita publicidade dizendo que o calçado foi banido pela USATF, mas na verdade não houve essa proibição...

KRAFSUR - A decisão da USA Track and Field (entidade norte-americana de atletismo) é clara e inequívoca. As regras 143 e 144 proíbem o uso de tecnologia de molas em calçados de competição. A entidade exige que os calçados sejam examinados para receber aprovação. Nós apresentamos nosso calçado em setembro de 2006, mas eles até agora não nos deram uma resposta.

É verdade que nenhum competidor foi desclassificado por usar nossos calçados, mas, na nosso visão, isso corre não porque os tênis não violam a lei, mas porque as entidades não querem chamar ainda mais a atenção para nossa empresa.

Mas, em algum momento, alguém que chegar atrás de um atleta que use nosso calçado vai reclamar. E com razão. Mas o fato é que a tecnologia muda, avança, e as regras do esporte deveriam se atualizar de acordo com a evolução tecnológica.

FOLHA - Quando surgiu sua empresa e que novidade ela trouxe?

KRAFSUR - Começamos nossa empresa em 2002. Eu era advogado na época, e meu irmão deu a idéia para mim e minha esposa, Holly. Nós imediatamente percebemos o que poderia significar e acabamos conseguindo o apoio de cerca de 250 amigos, que investiram no projeto. No ano passado, compramos a parte de meu irmão.

Há vários corredores da elite que usam nosso tênis, mas provavelmente o mais conhecido é David Cheruiyot, que estabeleceu o recorde da maratona de Ottawa e venceu as maratonas de Istambul e de Houston.

Nós somos uma empresa pequena. Esperamos faturar US$ 10 milhões neste ano.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h16

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Entrevista com Angélica de Almeida

Dura trajetória

Angélica de Almeida nasceu em Itapeva, em 1965, mas com menos de dois anos já estava na capital.

Sem condições financeiras para criá-la, a família a colocou numa creche, no Ipiranga, bairro da zona sul de São Paulo.

Aos 12 anos, já não podia ficar aos cuidados das religiosas: foi transferida para uma unidade de Febem, na Casa Verde. Lá, as brincadeiras de menina, o pega-pega, o pula-corda, viraram competições, e ela começou a se destacar.

Apesar das dificuldades que todos podemos imaginar, recebeu apoio, incentivo, cresceu na vida esportiva. Resumo da ópera: foi a primeira brasileira a participar em um Mundial de maratonas (Roma, 1987). E disse presente, com fé e orgulho, na suarenta Olimpíada de Seul, no ano seguinte.

A trajetória de Angélica é marcada por muita luta, sofrimento, superação --coisas sobre as quais nem sempre ela fala, mas que talvez tenham contribuído para seu jeito desabrido de encarar a vida.

Falei dela na minha coluna no caderno Equilíbrio desta quinta-feira, na Folha. E trago agora um resumo de uma conversa que tivemos, por telefone, na semana passada.

FOLHA - Como sua aptidão para o esporte foi descoberta?

ANGÉLICA DE ALMEIDA - Quando fui transferida para a Febem, comecei a praticar esportes. Fui para lá com 12 anos e havia atividade física, jogos. Eu me interessei e me inscrevi. Num dos campeonatos de atletismo, eu me destaquei, e o professor se interessou, perguntou se eu não gostaria de praticar corrida, assim, de 50 metros, cem metros. Aí eu comecei a competir nos campeonatos da Febem e comecei a me destacar nos 50 metros, que era infantil, mirim, em salto em distância, 400 metros e aí o coordenador-geral lá dos professores se interessou e me indicou para ir no Centro Olímpico aqui em São Paulo.

FOLHA - Quem foi esse seu descobridor?

ANGÉLICA - Eu lembro, foi o Sérgio Luís Zamelato. Nós morávamos na unidade 3, na casa Verde, e iria ter uma prova de São Silvestre ali perto, no Imirim. Era no dia 31 de dezembro, três quilômetros. Um grupo da Febem se inscreveu, acho que mais ou menos umas 15 meninas. Eu nunca tinha corrido três quilômetros diretos, mas, nessa prova, fui a segunda colocada. A primeira foi uma moça da Polícia Militar, só que ela já competia, tinha experiência.

FOLHA - Com o resultado, você se destacou ainda mais....

ANGÉLICA - Então, aí teve um coordenador-geral dos professores, Dietrich Gerner, que foi técnico do Ademar Ferreira da Silva, o professor disse a ele que eu tinha habilidade para correr e tal e aí ele disse: ‘Ah, então, vamos levá-la ao Centro Olímpico, não é?‘. Isso foi em torno de 79. Aí eu conheci o Carlão, o Carlos Gomes Ventura, que treinava o pessoal lá. Mas mas só que o objetivo lá era de eu correr os 400 metros. Imagina. Aí eu comecei a correr os 400, os 800 metros. Isso foi já no infantil para o juvenil e comecei a me destacar nas provas de meio fundo da Seleção Paulista, do Campeonato Paulista e algumas provas que tinha a Prova da Penha, do Espéria, lá em São Miguel, da Nitroquímica.

FOLHA - E isso garantia o seu sustento?

ANGÉLICA - Não, era o projeto Adote um Atleta, a gente recebia uma ajuda de custo. Na época, eu treinava lá e estudava.

FOLHA - Tinha alojamento lá também?

ANGÉLICA - Não. Eu morava na Febem. Então, nessa época, eu saía da Febem, ia treinar, voltava, e à noite eu ia estudar.

FOLHA - E tinha que ficar dando resultado, não é? Ou não era uma coisa tão forçada?

ANGÉLICA - É, como é até hoje, não é? Porque, vamos supor, se o atleta não apresenta resultado, o patrocínio não se interessa, não é? Na época era mais ou menos isso, também. Se a meninada lá não fizesse o resultado, ninguém ia se interessar, não é? Mas os resultados surgiram de forma natural, não foi assim aquela pressão que eu tinha que fazer o resultado para ter alguma coisa.

FOLHA - E como você virou profissional?

ANGÉLICA - Na época, para competir, era preciso ser de algum clube. Como o Carlão treinava o Pinheiros, eu competi pelo Pinheiros por um ano. Aí, o Carlão foi convidado para treinar o pessoal do São Paulo F.C. e me levou junto. Aí eu comecei a competir pelo São Paulo. Eu tinha 14, 15 anos, não sabia nada de nada. Ia lá e corria, não é? Então, aí eu passei a fazer resultados mais expressivos. Aí eu comecei a competir com adultos, a me destacar, cheguei a fazer meia-maratona. E, em 82, fiz a 1ª Maratona de São Paulo, que saiu lá do Shopping Iguatemi. Nessa época eu não competia fundo. Fazia, no máximo, o quê? Meia-maratona, 15 km. Aí tinha um pessoal do Centro Olímpico que ia correr e falou, assim, vai, corre até onde você puder. O máximo que eu tinha conseguido era fazer 25 km nos treinos, assim, não é? Num treino ou outro. Aí a gente fez sem compromisso. Aí eu fui, passei os 10 km, 15 km os 25 km, me senti bem, terminei a prova. Nessa prova eu fui a primeira colocada.

FOLHA - Assim, sem maiores dificuldades?

ANGÉLICA - Então, foi sem compromisso e aí eu falei: vou indo, não é? Até o Carlão talvez achasse que eu não ia nem terminar a prova, porque eu não estava treinando específico para a maratona. E, na época, eu tinha 16 anos. Eu terminei a prova, e o Carlão também ficou surpreso. Todo mundo ficou. Foi no dia 25 de janeiro, fiz 3h17. E com essa prova eu ganhei uma passagem para Nova York.

FOLHA -E como foi a viagem?

ANGÉLICA - Era a primeira vez que eu tinha saído do país, que eu andava de avião. Para mim, era tudo novidade. Eu treinei, assim, não específico para maratona e sem compromisso. Como eu tinha ganho a passagem, o Carlão falou: ‘Vai sem compromisso, para ver como é‘. E era tudo novidade. Na largada, eu não sabia de que lado ficar, porque são duas pistas, não é... E aí tinha aquelas placas para o pessoal se encaixar, eu fui para lá, fiquei na placa das cinco horas. Aí deu uma largada lá, um tiro de canhão, e o pessoal começou a se mexer, assim, mas quase andar, não é? Eu falei: ‘Meu Deus do Céu!‘ Comecei a ficar meio desesperada e comecei a fazer ziguezague para sair do pessoal não é? Mas aí eu terminei a prova, assim, foi quase um passeio e baixei mais meu tempo, fiz em 2h59 e fui a segunda na categoria juvenil.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h23

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Entrevista com Angélica de Almeida - final

Momento único

FOLHA - Esse resultado abriu as portas no Brasil, não?

ANGÉLICA - É, então, aí é que começou tudo, não é? Depois dessa maratona. Aí o São Paulo se interessou em patrocinar. Foi também quando eu saí da Febem. na primeira maratona em Nova York, eu ainda estava lá, mas depois a doutora Maria (Maria Marli Kecorius), que trabalhava no Centro Olímpico, ela era também médica da seleção feminina de basquete, ela me convidou para morar com ela. Fiquei acho que uns quatro anos. Foi aí que eu comecei a me manter com o esporte, só treinar e competir.

FOLHA - Mas você não continuava com os estudos, também?

ANGÉLICA - Eu parei de estudar. Não dava para fazer tudo de uma vez, porque eu tinha que treinar, aí eu saía do treino ia estudar e depois dos estudos ia para o curso de inglês. Eu falei: ah, não dá. Aí acabei abandonando e só indo para o lado do esporte.

FOLHA - E continuou investindo nas maratonas...

ANGÉLICA - Depois dessa maratona, no ano seguinte, eu voltei a correr Nova York. Foi em 83, e eu fui a primeira colocada, na categoria Júnior, e bati o recorde da prova da Cidade de Nova York, porque eu consegui fazer em 2h49, competindo pelo São paulo, que pagou a viagem. Continuei a fazer provas de fundo, em pista, e a São Silvestre. Minha primeira São Silvestre, eu fui a 25ª colocada. depois, melhorei: fui sétima, quarta, quinta... Minha melhor colocação foi em 87, quando eu fui a vice-campeã, e a Marta Tenório ganhou.

FOLHA - Foi também o ano do Mundial. Como você foi escolhida?

ANGÉLICA - Eles viram pela melhor performance do ano. Mas no Mundial, eu não estava bem, pensei até em não aceitar, mas tem aquela pressão, você é convocado e não aceita, não fica bem. Acabei indo, mas caí no 10 km com dores musculares.

FOLHA - Isso prejudicou em relação aos dirigentes?

ANGÉLICA - É, aí o pessoal já fica meio com um pé na frente e outro atrás, não é? Fala: "Puxa, ela vai lá e pára..." Eles não querem saber se você está bem fisicamente ou psicologicamente. Eles querem que você vá lá, corra e termine. E Maratona é assim, se você não está bem você não vai conseguir terminar de jeito nenhum. E, na época, acho que, também, teve um Pan-americano e eles acabaram não me convocando, entendeu?

FOLHA - Você guarda uma certa mágoa disso?

ANGÉLICA - Ah, eu acho que sim, porque eles deviam olhar tudo o que eu tinha feito. Não apenas uma coisa que eu não consegui terminar. Tinham de levar outras provas em consideração...

FOLHA - Mesmo assim, você voltou a representar o Brasil. Conquistou uma vaga em Seul.

ANGÉLICA - Então, aí em 88, eu estava vetada pela Confederação, tinha de fazer o índice para a Olimpíada, não é? Eu ia tentar em Munique, mas não deu certo. Dois meses e meio só treinando, e não consegui ir. Então sobrou apenas a maratona do Rio de Janeiro, no calor e tudo. E eu consegui fazer 2h37, consegui o índice. porque a Janete Mayal tinha feito 2h42 em Munique, até então ela é que tinha a vaga. Mas foi um ano muito bom para mim. Antes da Olimpíada, teve o Primeiro GP do Brasil, que foi em Curitiba. Eu fiz os 5.000, fui a segunda bati o recorde brasileiro e sul-americano em 16m34s. E aí duas semanas depois eu fiz os 10 mil, no Brasileiro adulto, que eu também bati o recorde sul-americano e brasileiro.

FOLHA - Você ainda estava no São Paulo?

ANGÉLICA - Não, foi um ano perturbado. Eu saí do São paulo em 88, quando eu passei a treinar com o marcão (marco Antonio de Oliveira). Eu saí do São Paulo, não tinha patrocínio, eu que estava bancando com o que eu tinha guardado. Justamente, eu fui fazer a Maratona do Rio, porque, como não tinha patrocínio, nada, não tinha como ir para fora. O Marcão falou: "É a única chance que você tem, vai lá e arrisca". E ainda bem que deu tudo certo, porque eu estava bem, tinha treinado muito...

FOLHA - Você foi então convocada. E como foi a Olimpíada?

ANGÉLICA - Fui com o melhor tempo, na época, e aí eles não tinham como não me convocar. Depois de três resultados. E acabei indo para a Olimpíada. Tive de esperar um pouco para voltar a treinar, mas eu fui bem. O Marcão me disse: "Olha, você terminando a prova está ótimo". O objetivo era esse, terminar a prova. E eu terminei, fiz 2h43 e fui a 44ª e acho que tinha umas 80 atletas.

FOLHA - Esse é um momento muito especial para o atleta...

ANGÉLICA - É diferente de competir num Brasileiro, num Sul-americano. Ali estão os melhores do mundo. Só de estar lá significa que você é das melhores do mundo. E, aí via o pessoal que eu gostava, que eu admirava. Tinha a Rosa Mota, o Ben Johnson, o Carl Lewis. Ah, quer dizer, é um momento único, não é?

FOLHA - Na volta, continuou sem patrocínio...

ANGÉLICA - Isso foi em 88, não é? Em 89, eu fiquei aqui no Brasil e aí eu decidi ir para os Estados Unidos. O objetivo era ir para lá, fazer provas e viver do atletismo. E, aí um amigo que veio para o Brasil me convidou e acabei indo para a casa dele, na Califórnia. O nome dele é Odílio Correia Lima. Mas tive muitos problemas, físicos e pessoais. Não conseguia completar as provas e acabou não dando certo o que eu queria. Mas fiquei até 91, voltei, e em 1992 fiz a maratona de Londres. Corri em 2h37 e fui a décima colocada.

FOLHA - Isso trouxe benefícios? Você já estava se preparando para quando não pudesse mais competir?

ANGÉLICA - Consegui algum patrocínio. Não foi aquela coisa, mas deu para sobreviver. E eu fiz o curso do Crefi, de Educação Física, e passei a dar aula, personal training. E hoje trabalho na Básica, a assessoria esportiva da Silvana Cole, que sempre foi muito amiga minha, seguiu minha carreira...

FOLHA - Como corredora, ao longo desses anos todos, você sentiu algum preconceito?

ANGÉLICA - Antigamente, quando eu comecei, na década de 80 e até acho que 91, 92 acho que tinha. Hoje em dia, não, mas na época acho que sim, inclusive. Aqui no Brasil, imagine, a mulherada correndo na rua, eles gritavam: "Vai lavar louça! Vai pilotar fogão!" Nas provas, também, agora está melhor, mas assim, você passa um corredor e ele querer vir atrás, entendeu? Não admitir que você passe ele .Houve provas em que na largada, assim, o pessoal masculino tentava empurrar para cair... Mas, agora está bem melhor, nossa, a corrida de rua cresceu muito...

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h21

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Algumas dicas para treinar melhor

 

Melhore seu desempenho

Volta e meia, alguém manda comentário ou e-mail solicitando comentário sobre os treinos que faz, alguma dica ou orientação.

Não sou médico nem técnico; mesmo que fosse, acho que dificilmente é sensato alguém sugerir algo a outrem que não conhece.

O que tenho feito, aqui no blog, é contar um pouco acerca de minha experiência, que pode valer para alguns e pode não funcionar para outros.

Sou um sujeito de físico mais ou menos comum, altura média, um pouco mais pesado que as exigências do atletismo recomendam. Tento manter meus treinos da melhor forma possível para conseguir participar sem lesão de provas longas, sem grande preocupação com o tempo.

Então, para mim, ter um bom desempenho significa completar uma prova em boas condições físicas. Claro que eu procuro sempre fazer no menor tempo possível a cada momento, mas essa é uma questão secundária.

Neste ano, fiz uma maratona em 4h17, outra em 4h25 e a terceira em 4h35. Cada uma teve problemas e prazeres diferentes, mas talvez tenha tido mais alegria ao completar a mais lenta.

Bom, seguem alguma dicas que aprendi com meus treinos, conversando com treinadores e lendo a respeito de organização de treinos. São orientações gerais, em nenhuma ordem específica.

1. O descanso faz parte do treino. Se você treina cinco, seis, sete dias por semana, sempre na mesma intensidade, vai acabar se machucando, sem conseguir seu objetivo. É importante intercalar treinos fortes e treinos de recuperação, mais leves. Um, dois ou mesmo três dias de descanso, conforme seu estágio de treinamento, também são recomendados por especialistas. Se você não agüenta ficar parado, experimente algum outro esporte em um dia (eu gosto de natação).

2. Comer e beber faz parte do treino. Em geral, costumo beber o equivalente a um copo pequeno de água a cada 20 ou 30 minutos de treino, dependendo da duração prevista. Em treinos de mais de uma hora, é bom tomar um repositor energético a cada 50 minutos/uma hora. Cuide também da hidratação e alimentação ao longo do resto do dia. Beba pelo menos dois litros de água (há quem recomende três e até quatro; eu bebo uns três litros por dia, em média).

3. Se você fizer sempre a mesma coisa, vai aprender a fazer sempre a mesma coisa. Portanto, procure variar os treinos. Se sempre correr 12 km em 1h10, experimente dividir esse treino, um dia, em grupos menores, alternando ritmos mais fortes e mais fracos. Ou tire um dia para correr um pouco mais, em ritmo mais descansado. O que leva para a outra dica...

4. Os longos são leves. O treino mais longo da semana deve ser em um ritmo mais leve que os outros. Há muita polêmica sobre o tal LSD (long slow distance, longão lento), mas a orientação que tenho recebido de meu treinador é de procurar fazer esses treinos, que fortalecem a resistência, em ritmo em torno de um minuto mais lento que o ritmo de prova.

5. Mantenha registro de seus treinos. Assim você pode acompanhar sua evolução, seu desempenho, seus eventuais erros, os padrões que dão certo. Eu adoro registrar tudo.

Bom, são algumas idéias. Como sempre, sinta-se à vontade para mandar comentários. Conte o tipo de treino que mais gosta ou que regime de treinamento funciona para você.

Boas corridas.

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h10

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Exercícios de baixa intensidade reduzem fadiga

Cansar descansa

Fazer exercício, dentro dos limites que o corpo de cada um possibilita, é sempre muito bom para a saúde e o bem-estar geral.

E funciona mesmo se for uma coisinha maneira, só no sapatinho, como se diz.

Pessoas sedentárias que costumam reclamar de cansaço podem melhorar seus níveis de energia em 20% e reduzir a fadiga em 65% se fizerem exercícios de baixa intensidade, de forma regular (aí é que está a dificuldade, é claro).

Esse é o resultado de um estudo realizado na Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.

"Muitas vezes, a gente pensa que vai ficar esgotado se for malhar um pouco, especialmente se já estamos cansados, mas é o contrário: demonstramos que o exercício pode ajudar muito para aumentar o nível de energia, especialmente em pessoas sedentárias", disse o professor Patrick O’Connor, co-diretor do UGA Exercise Psychology Laboratory.

Ele lembra que estudos anteriores já haviam apresentado resultados semelhantes, mas trabalhavam com pacientes com problemas graves de saúde (câncer, doenças cardíacas, problemas mentais). O trabalho deles avaliou pessoas saudáveis, que reclamavam de cansaço mas não se enquadravam, por exemplo, como casos de fadiga crônica.

"Essas pessoas trabalham demais e dormem muito pouco", disse O’Connor. "Fazer exercícios é uma forma de eles se sentirem mais energizados e vantagens sobre o uso de bebidas energéticas ou doses enormes de café."

Eu senti os efeitos na prática. Ontem, cheguei em casa depois de mais de 12 horas direto no fechamento do caderno informática, podrão, só queria comer e ver TV. Mas resolvi comer menos e fazer um pouquinho de musculação e alongamento. Foram 20 minutos que, se não me deixaram novo, pelo menos me tiraram da esbórnia completa.

E quem de nós não trabalha demais, dorme de menos e se alimenta pior do que deveria?

Escrito por Rodolfo Lucena às 08h04

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PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

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