Blog do Rodolfo Lucena - + corrida
 

Ultramaratona gelada na Irlanda

Frio, dor, medo

No quilômetro dez, o osso do quadril pareceu resvalar, lançou um raio no piriforme, bem no meio da bunda esquerda, que desceu ardendo por trás da coxa. O joelho bambeou.

"Não vou parar, não vou parar", me disse, sabendo que ia ter de parar, e ainda faltavam mais de 50 quilômetros para o final da ultramaratona de Connemara, em uma das mais belas regiões da Irlanda, a ilha esmeralda, onde gnomos brincalhões se escondem no final do arco-íris, tentando encontrar um tesouro.

Pois meu prêmio parecia ir embora já nos primórdios da corrida. Tratei de caminhar um pouco, para ver se conseguia manter a perna firme no chão, quando vi, lá longe, a Eleonora esperando para o primeiro abastecimento de água. Saí para o trote, vi que dava para segurar e segui fazendo cara de feliz.

Pois estava mesmo muito contente. À minha volta, um dos cenários mais deslumbrantes que já percorri nas minhas voltas pelas maratonas do mundo. Montanhas, lagos, campos, ovelhas, casas cinzentas, severas com as dos chuvarentos filmes ambientados na Irlanda. Pois aqui chove.

Na noite anterior, aliás, o organizador da prova, durante a reunião com os ultramaratonistas, alertou para a gente não se entusiasmar com algum solzinho que aparecesse. O clima previsto era de borrasca: chuva, vento, frio e até neve.

Amanheceu chuviscando, mas nada terrível. Quando a turma que estava em Clifden, uns vinte dos cerca de cem ultras que participariam do evento, saiu para a largada, em Maam Cross, a 35 quilômetros dali, o tempo tinha até melhorado um pouco.

O diretor do evento tinha prometido largada pontual, às 9h, sem choro nem vela. Nós chegamos pouquinha coisa antes, foi o tempo de aliviar a bexiga e vi que a turma já estava se reunindo. A Eleonora me acompanhou correndo até o ponto, um lugar qualquer no meio da estrada. Meio de susto, avisei: "Eles vão largar!". E o cara acionou a corneta.

Foi o sinal para a chuva recomeçar, dessa vez para valer. Saímos os cem, impulsionados pelo vento, pelo frio e pela chuva, para fazer um quilômetro rápido e mais outro e mais outro. Sorte que logo a Eleonora me alcançou e pôde entregar a capa de chuva, pouca coisa mais que um plástico com design, digamos assim, mas o suficiente para proteger das intempéries. Por causa do vento, o capuz não ficava, mas eu tinha o glorioso gorro de lã do Grêmio para proteger minhas idéias.

Eu vestia calça comprida de lycra com uma bermuda de corrida por cima, camisa de manga longa de corrida e camiseta por cima; usava luvas, faixa na cabeça e o gorro. No carro, a Eleonora levava uma troca completa, do tênis ao capuz.

Ao longo da semana, tinha mudado 500 vezes minha estratégia: sair com mais ou menos roupa, camisa longa por baixo ou por cima e por aí vai. Decidi ir com tudo e ver o que acontecia.

Afinal, quaisquer que fossem as condições, eu ia correr --e muito. Pois um fantasma rondava meu espírito: tinha de passar a meia-maratona em duas horas e meia e completar a maratona em até cinco horas. Se não fizesse isso, estava fora. Se fizesse, estava limpo: não havia limite de tempo para o final, poderia fazer a última meia-maratona em quanto tempo quisesse ou conseguisse.

Em resumo. tinha de fazer cada quilômetro em até sete minutos, coisa que fizera com tranqüilidade nas últimas três maratonas que completara desde janeiro. Essa era minha quarta corrida longa em pouco mais de dois meses e meio.

Aqui, porém, havia subidas, descidas, frio de lascar e vento, muito vento. Mesmo assim, até o quilômetro dez eu estava a cavaleiro da situação, com boa vantagem contra o relógio e sem nenhum cansaço. Foi quando a lombar gemeu e a perna esquerda bambeou.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h57

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Ultramaratona gelada na Irlanda - parte 2

Revisão de metas

 

A partir dali, começou uma nova corrida, em que eu precisava cuidar mais da coluna, manter o corpo mais ereto, disfarçar a dor de mim mesmo e correr alongando, sem deixar de enrijecer o abdome e manter firmes os músculos da lombar. Tinha aprendido tudo isso no treinamento com os fisioterapeutas e professores do Instituto Vita, que me acompanham há muitos anos e me ajudam a ficar na estrada apesar de duas hérnias e mais uma lista de defeitos outros.

Vou dizer uma coisa: até que não foi tão difícil quanto eu pensava. Isso porque as terras da Irlanda te apresentam tantas novidades que é fácil esquecer de si mesmo. E surgem tantas e tão repentinas dificuldades que uma dor é superada pela outra, e um sofrimento perde o lugar ante a nova ameaça.

Os quilômetros já lá se vão derrubando a memória, mas ouso dizer que não passei mais de 30 minutos com o mesmo clima, ao longo da prova inteira. A chuva do início logo caiu para chuvisco, fraco, mas gelado e molhado.

Depois, não abriu o sol, mas também não ficou caindo água. Você passa uma meia hora assim e já começa a pensar que é hora de tirar a capa, pois você se arrisca a fazer com que seu corpo, em vez de fonte de calor, se transforme em uma geladeira.

É que a capa de plástico impede ou dificulta a troca de calor (na Irlanda, é melhor dizer troca de frio) com o ambiente. E o suor, em vez de evaporar, fica na roupa, criando um efeito estufa ou, no caso, um efeito congelador. Mas, e se você tirar a capa cedo demais? Volta a chuva ou o vento gélido quebra o seu espírito...

Graças à Eleonora, que passava o maior sufoco para me acompanhar de carro pelas estradas irlandeses, onde todo mundo dirige do lado errado, esse era um problema não tão grave: eu podia errar, passar para ela a capa e pegar depois, se tivesse feito uma má escolha.

Fiquei mais tempo com a capa, pois a chuvinha, do nada, virou granizo, pedrinhas, pedras e pedriscos de gelo batendo no corpo, no rosto, entrando pela meia, molhando o tênis. Uma que outra, conseguia pescar com a língua, para sentir o gosto amargo do gelo.

Eram diversões turbulentas que faziam os quilômetros passarem, assim como a vista das montanhas, que nos olhavam de longe, com os cocurutos nevados, enquanto seguíamos pela estrada principal, uma rodovia nacional que mais lembrava uma estrada vicinal das brasileiras, tão apertadinha era.

Das montanhas também vinha o vento gelado, que não chegava a atrapalhar tanto porque pegava de lado, era até um incentivo para correr mais e fugir de tanto frio.

Enquanto eu pensava isso sobre o vento, chegou a primeira curva importante, quando o percurso abandona a rodovia nacional e passa para uma estrada secundária que, essa sim, parece ir reto em frente para as montanhas. De cada lado, descampado, coxilhas no máximo, terreno marrom, acinzentado, inóspito, rigoroso como o clima. E vindo de frente, de cara, sem disfarce, sem máscara, sem perdão, o vento gelado das montanhas.

Quando soprava forte, fazia que meu ritmo diminuísse instantaneamente. Se ia a 6min40, passava em segundos a 7min30 e tinha de redobrar esforços para manter a velocidade desejada.

Corria um, dois, três quilômetros forçando para ficar quente e derrotar o vento (nada nem ninguém derrota o vento), torcendo para que chovesse, viesse granizo e eu tivesse de colocar a capa, pois ela esquentava muito mais que as roupas que estava usando...

E assim passei com folga de quase quinze minutos a primeira meia-maratona das três que integravam a prova. O evento é muito criativo. Trata-se de uma grande volta em que são realizadas três provas. A maratona começa na primeira meia da ultra, e o início da meia é onde os ultras completamos uma maratona. Todos terminam no mesmo ponto, o que dá exatas 39,3 milhas de percurso para os ultras, 63.292 metros de desafios constantes.

Com aquela folga, já podia encarar com mais alegria as belezas do caminho, apesar da dor que se mantinha firme. Não sabia se era pior a da coxa ou a das costas, mas o certo é que dava para controlar as duas, segurar firme, e nenhuma delas, naquele momento, me impedia de continuar dentro de um ritmo razoável.

Depois do km 35, porém, a situação foi ficando pior. Os músculos estavam fortes, eu estava forte, não sentia cansaço, mas enfrentava tensões que parecia querer me derrubar, fazendo dupla com o vento e o granizo, sem falar nas rampas, nas lombadas e nos desníveis da estrada (essa, sim, uma estradinha local, que não chegava a ser esburacada, mas que tinha mais imperfeições, especialmente nas laterais, onde corríamos).

Eu só queria completar a maratona dentro do tempo. Depois era mais tarde.

 

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h54

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Ultramaratona gelada na Irlanda - parte 3

Vendaval na ventania

 

A cada quilômetro, calculava os minutos que me sobravam. Aquela folga conquistada na meia já tinha se reduzido à metade, mas tudo bem, eu não ia fazer nenhum quilômetro em menos de oito minutos...

Pois fiz um em nove. É certo que incluiu uma parada para aliviar a bexiga, tomar água e me abastecer de carboidrato em gel, mas foram nove minutos de qualquer forma, e ainda mais alguns segundos.

O km 40 veio com chuva e o 41, com granizo. Margeava um lago, talvez o maior que até então tinha passado, quando numa curva, escondidos como se fossem guardas de trânsito prontos para multar, vi duas pessoas anotando os números dos que passavam.

Não era exatamente a maratona, mas quase. Fiquei pensando se aquele era o controle --devia ser , porque, apesar de usarmos chip nos tênis, não houvera tapete na largada nem em nenhum outro ponto. Por ali, passei com cinco minutos de folga e, na maratona mesmo, segundo meu GPS, com 4h58 e mais umas porcariazinhas.

Agora viria uma longa, enorme, dolorosa subida. Para mim, porém, era uma chamada, um coro de anjos, uma caminha doce e quentinha. Desde que decidira correr essa prova, desde que me inscrevera sabendo do maldito e apavorante tempo de corte, sonhava com aquele momento: se passasse a maratona abaixo do tempo de corte, ali seria o meu descanso.

Parei de correr. O corpo cansado agradeceu o início da caminhada, com passos lentos, doloridos. A inclinação do terreno foi me obrigando a tomar prumo, e eu sabia que as passadas deviam ser maiores, mais fortes, mais enérgicas para descansar a musculatura sem perder o entusiasmo.

Ao longo do percurso, tinha ultrapassado uns três ou quatro corredores. De resto, corria sempre sozinho, pajeado pela Eleonora e, de vez em quando, ouvindo um "well done!", incentivo gritado pelo único cadeirante que enfrentava a ultra. Ele me passava nas descidas, mas quilômetros e quilômetros depois nos encontrávamos. Num certo momento muito ondulado, ficamos pari passu por quase meia hora.

Na subidona pós-mararatona, porém, consegui vislumbrar, quilômetros acima, outros corredores. Alguns trotavam outros caminhavam, parecendo dar sinais de cansaço. Eu me alegrei, pensando que talvez pudesse alcançá-los ou, pelo menos, chegar mais perto.

A idéia me fez trotar, para ir mais rápido, mas vi que era bobagem. O melhor era seguir na caminhada, restabelecer as forças e depois mandar ver.

O problema é que a musculatura que anda é diferente da que corre. E andar fazia doer mais o piriforme, fazia com que a coxa gritasse. O remédio era andar mais rápido, segurar mais as costas e o abdome. Quanto mais elegante e aprumado você estiver, menos suscetível a essas dores ficará (pelo menos, assim ocorre comigo).

No topo do morro, iniciei um trote vacilante, que logo ganhou ritmo, chegou a ficar a menos de seis minutos por quilômetro, tão alegre eu estava de ter descansado, me reconfortado, de ter passado a maratona e poder terminar quando pudesse, em termos razoáveis... (sabe-se lá o que é razoável).

Com mais granizo e chuva, um pouquinho de sol e um tantão de vento, passei o km 50. E só instantes depois me dei conta que superara aquela marca em 6h06, estabelecendo um novo recorde pessoal para a distância.

Nunca correra tanto em uma prova de 50 quilômetros. Agora estava em uma de quase 64 e passava batido pela marca. E só faltavam 14 para final, que beleza!

Explodi de alegria! Gritei, beijei a Eleonora, tomei conta daquela estrada vazia, daquelas campos gelados, fui vendaval naquela ventania.

 

CONTINUA....

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h52

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Ultramaratona gelada na Irlanda - final

Explode, coração!

Aquilo me empurrou mais quilômetros, mais quilômetros, até que de novo as costas gemessem. Não fazia mal. Se corria a oito por quilômetro, estava bom, se fossem dez, também não me importava. Logo conseguia reduzir para sete.

O importante era não correr e caminhar, caminhar e correr. As caminhadas precisavam ser longas, de pelo menos vinte minutos, para dar forças para um novo estirão, que fazia volta à minha memória o mapa do percurso, transformava meu cérebro em computador calculando o que faltava, quanto deveria fazer, para onde ir, como ir.

Tudo que eu queria agora era trocar de tênis. Meus pés já tinham batucado o chão mais de 50 mil vezes, e aquele calçado já vinha de três maratonas. Tinha outro novo, igualzinho, confortável e quentinho, que iria fazer com que diminuíssem as dores do impacto. Mas lá eu ia parar? Sentar? Cruzar as pernas, alcançar os pés, tirar o tênis, colocar outro, amarrar, trocar o chip de lugar?

Melhor era deixar de besteira e correr mais.

Tinha combinado comigo que, se o terreno levemente lembrasse um subida, eu iria caminhar. Mas agora as milhas e quilômetros estavam sendo comidos quase sem mastigar. O bom da corrida é que quanto mais você corre menos resta para correr. Mas tem o perverso revés: quanto menos quilômetros faltam mais compridos eles ficam.

Por isso e também para me dizer que eu estava muito forte, esperto e bem disposto, decidir correr a enorme subida que vinha pela frente.

Trotei no primeiro patamar, apertei mais um pouco no segundo, vi que a lombona iria terminar depois da curva e, quando passei a curva, percebi que tinha ainda mais lomba. E depois tinha mais. Foram quase três quilômetros subindo sem parar, e também não parei de correr.

Porque depois veio a descida e depois viria uma curva mais ao longe e depois viria outra e depois viria uma reta e depois eu chegaria ao final.

Faltavam 28 minutos para oito horas de prova, eu tinha ainda 2,2 milhas para percorrer, pouco menos de três quilômetros e meio. No computador, era fácil. Um ritmozinho de comadre e chegaria lá. Mas vai fazer esse ritmo depois de sete horas e meia correndo, com dores nas costas, nas pernas, nos pés...

O que vale é que a musculatura estava firmona, e o cansaço parecia desaparecer a cada vez que eu olhava para o relógio e me mentia que ia dar.

Quer saber de uma coisa? Dane-se o relógio! A Eleonora já tinha me mandando o penúltimo beijo, dizendo que me esperaria no final, eu só precisava chegar no tempo que fosse.

Mas bem que gostaria de superar aquele último desafio.

Nos carros que vinham na contramão (minha, eles achavam que estavam corretos, mas esse povo é estranho mesmo), as pessoas buzinavam, aplaudiam, faziam sinal de positivo. E eu ficava apavorado vendo o sujeito na direção a bater palmas. Pensava comigo: "Segura o volante, cara!", mas claro que era o carona, o motorista estava do outro lado, o errado, que é certo para eles.

Com tanto incentivo, eu só podia correr. Passei a marca da milha 26 da maratona, a minha 39,1, faltava só o tal ponto dois, os 195 metros, e eu não via o pórtico de chegada.

É que ainda tinha uma curva, eu ia começar a gritar, mas não, Rodolfo, segura as forças e corre.

Agora, sim, grita, chama Brasil, manda beijo para a Eleonora e vai!.

E veio a neve, justo quando eu gritava, corria, passava o pórtico, beijava a Eleonora.

Terminei em 7h59min46.

....  .....  ....

PS.: As maravilhosas fotos que abrilhantam estas maltraçadas linhas foram todas feitas pela Eleonora. Você pode ver AQUI a cobertura fotográfica completa

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h50

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PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

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