Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Notícias vindas da mama África

Caminhos de Benguela

O André Choma, 31, é um engenheiro civil que atualmente trabalha em um projeto para auxiliar o governo de Benguela (um dos Estados de Angola) a fazer seu planejamento de longo prazo. Nas horas de folga, treina sob o sol africano e até já participou de uma corrida por lá, relatada aqui neste blog. A gente de vez em quando troca umas idéias por e-mail, e ele conta um pouco sobre o que vê nesse sensacional país, berço de nossos antepassados. Em uma das mensagens mais recentes, ele traça um quadro do momento vivido hoje em Benguela em particular e em Angola em geral. Achei muito bacana e, com autorização do André, compartilho a seguir o relato dele com você.

"Aqui em Angola, a política ainda está polarizada, entre o MPLA (esquerda) e a UNITA (direita), cada um teve o financiamento de um lado no período da guerra fria, o que levou esse país ao caos que é hoje.

Sabemos que em um período de guerra não há lado certo, na verdade cada um tenta defender o seu lado, com interesses sempre econômicos e não ideológicos.

Quem sofreu com tudo isso foi o povo angolano, que hoje vive em um país sem infra-estrutura, sem um amplo abastecimento de energia elétrica, com uma pequena rede de água potável. Além disso, existem as milhares de minas espalhadas pelo interior --pelo menos as áreas estão todas identificadas, e a desminagem vem acontecendo regularmente há anos.

O nosso projeto aqui é contratado pelo governo do MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), mas nós nos mantemos isentos de qualquer vertente política. O objetivo final é levar Angola ao IDH (Índice de desenvolvimento Humano) de Médio Desenvolvimento Humano até 2025, segundo acordo realizado com a ONU na Cimeira do Milênio em 2000.

Aqui conseguimos acompanhar de perto as movimentações políticas, porque trabalhamos diretamente para o governo de um dos Estados (Benguela). O país está entrando em ebulição, porque irão ocorrer as eleições legislativas em setembro. É claro que o MPLA está preocupado com as eleições, porque ninguém sabe o resultado que virá das urnas. De qualquer forma, como qualquer governo, todos se movimentam para garantir a sua parte...

Para nós, que estamos tentando auxiliar o governo a planejar e controlar melhor os projetos, é difícil concorrer com as vontades políticas, que quase sempre vão contra a lógica do que deveria ser executado. Mas espero que o nosso trabalho possa auxiliar esse país a melhorar um pouco, pelo menos, a sua condição.

Não é fácil ver a realidade local, onde a taxa de mortalidade até os 5 anos é de 355 para cada 1.000 nascimentos!!! Vemos muita miséria por aqui, e é triste ver o que a guerra fez com esse país (e com a África em geral).

Na área cultural, conhecemos o modo de vida das populações do interior por conta das nossas conversas com pessoas daqui. Nas aldeias ainda se preservam as leis antigas, onde os mais velhos decidem a "lei" local e fiscalizam todos os acontecimentos. Ainda falta uma valorização maior dessa cultura e da música local.

Os projetos da área de educação são o nosso principal desafio aqui! São onde traçamos, junto ao governo, as metas mais arrojadas de construção de escolas e formação de professores.

A maioria dos alunos estuda em escolas provisórias, que vão desde escolas em escombros até aulas embaixo de árvores. Todos os dias vemos crianças indo para a escola carregando cadeiras de plástico, porque na sala não há lugar para sentar...

Angola ainda vai levar muito tempo para encontrar o seu caminho, e a democratização (real, que ainda vai levar algum tempo) será fundamental para isso. A sorte do país é ser exportador de petróleo, diferentemente de outros países africanos, que não possuem melhores fontes de renda.

Depois de um ano aqui, foi uma experiência que valeu muito a pena. Conheci o que podia desse pedaço do país. No meu blog tem muitas fotos daqui, com as paisagens do interior."

Para visitar o blog do André, clique AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h49

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Uma avaliação de tênis de amortecimento (neutros)

Balanço geral

Já disponível à venda em diversos sites estrangeiros e também abiscoitando vários prêmios de melhor isso e melhor aquilo, o Nimbus 10 me dá um gancho para fazer uma rápida avaliação dessa linha da Asics e, de quebra, comentar outros modelos de tênis de amortecimento, para corredores com pisada neutra ou supinada, que usei ou testei nos últimos anos.

Vou começar pela Asics, que é onde encontro as maiores decepções porque foi onde encontrei o que foi talvez um dos melhores tênis de amortecimento que já testei. A linha Nimbus, premiada e elogiada em tudo quanto é site especializado e revista de corrida, de fato traz muito conforto e amortecimento.

Mas a exigência de lançamentos anuais para manter o preço lá no alto tem prejudicado o produto e os corredores que o usam. Às vezes, mudanças perfunctórias trazem efeitos deletérios significativos.

O Nimbus 7 era muito bom. Usei até o talo pelo menos três pares dele, que por cerca de dois anos foi meu tênis de escolha para correr maratonas. Mas o modelo 8 veio com aquele batoquinho na biqueira e passei longe. Quando vi o 9, com cores mais bacanas e design mais agressivo, comprei sem pensar. Resumo da ópera: está mais fino na parte da frente. Não consigo ficar com ele no pé mais de uma hora, uma hora e meia, que fica desconfortável.

Outra fabricante com bons tênis de amortecimento é a New Balance, que desenvolveu um sistema muito confortável de proteção ao calcanhar e ainda oferece seus modelos em várias larguras. O 1060 era muito duro, mas o 1061 ganhou fofura e manteve a ótima estabilidade. Vi no exterior o 1062, que me pareceu tal e qual o antepassado, sem grandes mudanças (há uma troca no sistema de amarração, por exemplo, e uma placa de estabilidade ou coisa que o valha ficou maiorzinha). Enquanto for posssível, darei preferência ao modelo mais antigo, ainda mais que provavelmente dá para encontrar boas ofertas na internet.

A Mizuno melhora, mas não acerta. Na sua boa linha Creation, experimentei bastante os modelos 8 e 7. O 8 melhorou no amortecimento, em relação ao modelo anterior, mas manteve a certa rigidez que caracteriza os modelos com a placa Wave. Para mim, o problema maior nos dois modelos, o 7 e o 8, é o solado, que não me deu confiança. No asfalto molhado, sempre foi muito escorregadio.

A Nike tem excelente design, combina cores como ninguém, mas pára por aí. Usei os modelos 2005 e 2006 do superpremiado Pegasus. Foi o melhor modelo da Nike que já experimentei, o único com alguma largura decente na parte da frente. Mas também era para usar não mais de uma hora e meia. Cheguei a comprar o Pegasus Air, muito mais bonito que a linha tradicional, rodei uns 20 e tantos quilômetros com ele e devolvi. A palmilha interna era muito alta e firme na parte do arco, saí do treino com bolha no meio do pé, coisa que nunca tinha acontecido.

Ultimamente, usei o Vomero em alguns testes. É um tênis maravilhoso para caminhadas, você o coloca no pé e parece estar nas nuvens. Para correr, não dá, a não ser que você seja um sujeito muito leve (e daí provavelmente vai achar o tênis muito pesado). Ao rodar em rimo mais intenso ou ao descer lombas, quando o choque com o solo é mais forte, dá para sentir o calcanhar amassar a borracha, parecendo tocar no asfalto.

Bom, essas são algumas impressões de uso de alguns modelos que experimentei ou com os quais rodei bastante. Não são sugestões de compra nem recomendação. Lembro que o tênis é algo muito individual: um modelo que, para mim, é ótimo, para você pode ser uma porcaria.

E acho que as lojas especializadas deveriam permitir que o comprador experimentasse o novo modelo por mais do que rápidas passadas. Nos EUA, como já contei neste blog, pude trocar um tênis depois de ter corrido mais de 20 km com ele pelas ruas de Seattle.

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h27

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Ressonância magnética dá medo, mas ajuda

Entrei pelo cano

Na madrugada de hoje, enfrentei mais um de meus temores, que até há pouco nem sabia que tinha: a claustrofobia ou coisa que o valha.

Começo do começo: aquelas dores nas costas, durante a maratona de Porto Alegre, me fizeram não só renguear, mas também voltar ao ortopedista, revisitar a maldita hérnia que me acompanha há vários anos.

Já estou caminhando quase normalmente, até trotando de leve, e o médico me trouxe alvíssaras: a coluna continua inteira, o problema é a falta de alongamento, sou mais tosco que dedão destroncado, como se diz na minha terra.

Mesmo assim, o médico pediu a tal RM da coluna para ver em que pé estão os discos...

A ressonância magnética é um método de diagnóstico por imagem que dá mais informações que a radiografia. Por exemplo: uma fratura por estresse identificada por RM nem sempre aparece no raio-X.

Já fiz várias vezes esse exame, desde que tive o diagnóstico de hérnia, mas parece que o envelhecimento vai deixando a gente mais bobo ou mais temeroso.

É que a gente tem de entrar num tubo justinho --parece que estamos presos num caixão de defunto... O tubo é o magneto, cujo altíssimo campo magnético ajuda a produzir as imagens.

Na vez anterior, eu já tinha quase passado mal ao viajar pelo interior do aparelho (a gente é colocado numa cama, que desliza para dentro do tubo). E avisei que tinha sido ruim.

Pois me colocaram com os pés em direção ao magneto, facilitando a minha vida. Mesmo assim, antes do início do exame quase tive um "5 minutos", mas acabei me acalmando.

Quando começou a barulheira, sinal de captura de imagens, já estava mais tranqüilo.

Entrei pelo cano, mas saí dele. Não vai dar para correr os 10k no domingo, durante a maratona de São Paulo. Mas um trotinho pela grama acho que vai ser possível.

Semana que vem, se tudo der certo, volto a correr direito.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h36

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25ª Maratona Internacional de Porto Alegre

Terra natal

Quando dobrei a esquina, a contagem regressiva já tinha começado. As mulheres iriam largar em segundos.

Tudo bem. Para mim, dava tempo de ainda circular um pouquinho, andar de um lado para o outro, esfregar as mãos, tentando espantar o friozinho da manhã porto-alegrense, minutos antes da largada geral da 25ª Maratona Internacional de Porto Alegre, nove anos depois de minha primeira maratona, exatamente aí na minha terra natal.

Desta vez, a saída não é no Parcão velho de guerra, mas na região central, que era bem diferente quando saí de lá para vir morar em São Paulo, há 27 anos. Hoje, um grande parque margeia o rio, a área do Gasômetro foi recuperada, há largas avenidas nesse complexo viário.

Soa a corneta e lá vamos nós. Nos primeiros passos, já sinto uma pontada nas costas, aviso que que não vem coisa boa por aí. Mas, no vai da valsa, saio rápido para meu tradicional nível de lerdeza e vou acelerando.

O dia está cinzento, frio, tudo em riba para correr bem. Guardo no coração o carinho do dia anterior, durante a sessão de autógrafos de meu livro "Maratonando". É bem verdade que outros podem ter começado a prova irritados com a véspera, pois houve reclamação de confusão e demora na entrega dos kits.

Para mim, tudo funcionou a contento. E já passava, quase sem sentir, pelo Mercado Público, prédio mais que centenário, repleto de memórias da infância, da profissão e de lutas políticas. Ali tomei salada de fruta com nata e sorvete na banca 40, participei de campanhas comunitárias, dirigi lançamento de jornais alternativos, fiquei paradão, observando os acontecimentos e os personagens para reportagens especiais na "Zero Hora".

Seguimos em frente mais um pouco apenas para tomar mais uma curva e voltar pela Mauá, costeando o cais do porto, hoje murado. Os grandes armazéns também mudaram de função, foram de certa forma devolvidos à cidade, abrigando exposições como a Bienal do Mercosul.

Depois vem o Gasômetro, sua imensa chaminé, a vista do Guaíba e o sentimento de que um oitavo da prova está completo. A maratona se come assim, como o mel, aos (f)avos. O primeiro quilômetro não conta; no segundo, já cobrimos um vinte-e-um avos. Com mais dois, já temos um décimo, praticamente. E o quinto é o começo do fim...

No domingo, no quinto quilômetro começava a primeira de menos de meia dúzia de subidinhas leves incorporadas ao percurso, que foi modificado neste ano por causa de obras na zona sul da cidade. Os mais jovens que sobem por ali nem desconfiam que aquele sofisticado complexo viário de asfalto e cimento armado tomou o lugar de espaço de lutas e revolução.

Era a Esquina Maldita, o encontro de Oswaldo Aranha e Sarmento Leite, endereço do boteco mais freqüentado, nos anos 60 e 70, pelo pessoal da esquerda universitária, da intelectualidade rebelde. Ali mudamos o mundo, fizemos a revolução, escrevemos contos e arquitetamos filosofias, sempre atendidos pelo garçom Isaac e sua bandeja repletas de copos de chope e caipirinha mais pratarrões de batatas fritas, que comíamos encharcadas de mostarda.

Se foi, não tem mais, não sobrou nem pó.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h39

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25ª Maratona Internacional de Porto Alegre - final

Galo manco

Vamos em frente, que agora é uma descida, e a dorzinha do início volta. Acho que é resto de uma dor que ficou da ultra da Irlanda, mas sigo correndo, aproveitando que um sujeito me passa e eu tento defender minha posição, aperto o passo, fico naquele vai não vai.

Ele também não sai muito e seguimos nessa pelos próximos quilômetros, chegando à Goethe, onde gremistas e colorados costumam festejar suas vitórias e as derrotas do adversário. Dali é uma reta só subindo o viaduto sobre a Protásio, onde, na última vez que corri Porto Alegre, era o km 41 e a gente já ouvia o roncar da multidão, via a festa no Parcão e ganhava forças para uma arrancada final.

Agora é só caminho para seguir até o ginásio da Brigada e entrar na Ipiranga para o trecho mais chato da prova, um retãozão até o final dessa avenida e o retorno pelo outro lado da rua.

É quando começa uma chuvinha rala, garoa fina, com pinguinhos milimétricos, que ajudam a apertar o passo. Eu já não sei se devo seguir. Começo a pensar em desistir no km 21, talvez seja o melhor para a minha saúde e, com certeza, vai deixar mais feliz o meu treinador.

Mas, quando passo o 21, penso que as dores vão continuar comigo de qualquer jeito e, total, só falta meia-maratona, isso não serve para assustar ninguém...

Meio que por vingança, acelero e faço bons tempos por mais uns três quilômetros, apesar do vento contra.

Nova surpresa no percurso: não seguimos até o rio, mas entramos à esquerda para mais uns volteios pelos bairros. Menos mal que, no 27, tangenciamos o Olímpico Monumental, mando meu grito de guerra para o Grêmio --no sábado, fora dia de vitória tricolor e show de sua sensacional torcida (e eu estava lá!!).

Finalmente, na Praia de Belas, encontro a Eleonora. O coração esquenta e as pernas se fortalecem, faço graça e abro sorriso, mas por dentro estou me mordendo, o cérebro se esforça para calcular quanto falta, já fico pensando se minha decisão de continuar vai prejudicar minhas próximas provas (tinha um 10 k para o final de semana seguinte, uma maratona em um mês...).

Azar e caverocas, como costumava dizer minha mãe. O jeito é marcar adversários e xingar quem eu puder, especialmente os caras que desenharam a parte final do percurso.

É que, a partir do km 30, a gente passa de volta perto da largada (pelo menos, não tem a visão do pórtico) e segue mais uma vez em direção ao Gasômetro. Faz a volta e daí margeia o rio em direção à zona sul, passando pelo estádio do Internacional e seguindo mais um pouco para então retornar pelos mesmos passos e, no final, embicar para a direita.

Viu que confusão? Isso que não descrevi o trajeto detalhadamente. Para completar, naquele trecho mais perto do Gasômetro acontecia a prova de revezamento, que teve grande contingente de participantes (no total, o evento reuniu cerca de 4.000 pessoas).

Eu gostei. Vinha sozinho ou com poucos adversários e, de repente, vi-me em meio a uma turma alegre e bem disposta, correndo rápido, o que serviu até de incentivo. Talvez os maratonistas mais rápidos tenham encontrado um bololô que, para eles, tenha sido fator de irritação, como já vi em comentários aqui mesmo no blog. Enfim, as áreas podiam ter sido mais bem delimitadas.

Eu, por mim, estava chegando ao limite. No 36, resolvi caminhar um pouquinho para ver se aliviava os costados. Não estava cansado nem resfolegava, minhas pernas me levariam por mais uma maratona inteira sem sentir, mas o quadril me obrigava a renguear que nem galo manco.

Caminhar era pior. Não consegui seguir nem 30 metros. Correr doía menos e correr rápido (para meus padrões), menos ainda. Foi o que fiz.

Meia-volta no 38, mais uma subidinha (ali era mais ou menos o km 30 na minha primeira maratona de Porto Alegre, em 1999) e a reta final.

Passei um sujeito que tinha me passado, ele se recuperou, eu me recuperei e assim fomos, eu um pouquinho para trás, ele parecendo mais forte, até o 42. Então abri a passada e ninguém mais me viu.

Voei.

Depois de cruzar a linha, iniciar a caminhada foi muito dolorido. Saí mancando, pensando nos dias seguintes, imaginando quando poderia correr de novo.

Mas isso seria para mais tarde. Agora eu tinha um churrascão para festejar...

 

PS.: As fotos da maratona e do lançamento do "Maratonando" são da sensacional Eleonora. Confira outras imagens AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h36

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Maratona de Porto Alegre - antes

Obrigado, tchurma

 

A recepção que tive em Porto Alegre foi sensacional.

Começou antes mesmo de eu chegar com o MARATONANDO: a turma da Zero Hora, que estava com um blog totalmente dedicado à maratona e ao revezamento, em que muitos jornalistas de lá participaram, colocou no ar um texto que fiz convidando para a sessão informal de autógrafos (leia AQUI; é preciso rolar a página).

No sábado, chegamos às dez em ponto ao ginásio da Brigada Militar, onde há 32 anos fiz meu juramento à bandeira como reservista do Exército brasileiro. Já havia uma grande fila esperando a abertura de portões.

Lá dentro, o pessoal da organização se preparava, e a turma dos estandes dava os últimos retoques nas bancas de tênis, roupas esportivas, alimentos de corredor e publicações especializadas. A Santucci, distribuidora local da editora Record, dizia presente com o MARATONANDO.

Demorou um pouco para engrenar, mas, quando começou, foi muito bacana (no foto, um momento do dia).

As manifestações de carinho dos leitores, o encontro com internautas que só conhecia dos comentários deixados neste blog, o rever amigos de longa data --tudo isso aquece o coração de um jeito tal que só dizendo obrigado, muito obrigado a cada um que lá esteve, que aqui visita esse blog, que corre pelas ruas e trilhas do Brasil e do mundo.

Para completar, depois de tudo acabado, ainda deu tempo para aproveitar o fim de tarde e ir ao glorioso estádio Olímpico assistir ao Grêmio.

De fato, porém, a maior delícia foi ver a torcida que, da Geral, cantava e pulava sem parar, entoando musiquinhas (algumas vergonhosamente racistas, diga-se de passagem). O time ganhou, mas está mal das pernas, a torcida é melhor que a equipe...

Bem, aí já era quase hora de dormir e torcer para que viesse o prometido frio...

Escrito por Rodolfo Lucena às 09h28

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Se deixarem, Haile vai a Pequim

Melhor de quatro

 

O recordista mundial da maratona, Haile Gebrselassie, fez no sábado seu melhor tempo nos 10.000 m nos últimos quatro anos. Ele quer mostrar aos dirigentes do atletismo etíope que está em condições de ir a Pequim, se os cartolas concordarem.

Depois que Haile, 35, desistiu da maratona, alegando temer sofrer problemas por causa da poluição de Pequim, disse que poderia correr a prova em pista. Então surgiu um quiproquó com os dirigentes, que falaram que o atleta não escolhe prova, eles é que determinam quem vai correr onde.

Bem, o certo é que o recordista (na frente, na foto AP no alto), correu como gente grande em Hengelo, na Holanda. Fez abaixo da marca que desejava para mostrar aos cartolas que pode competir na elite também na prova mais curta.

Completou os 10.000 m em 26min51,10 --apenas 67 centésimos de segundo atrás de seu compatriota Sileshi Sihine. Terminou sorrindo, polegares erguidos em sinal de bons tempos (ou, pelo menos, esperança de bonança).

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h17

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MARATONANDO em Porto Alegre

Em causa própria

Como já comentei aqui, serei um dos participantes da Maratona de Porto Alegre neste domingo.

Apesar do percurso rápido, vou tentar apenas terminar inteiro, embebedando-me da beleza e da gostosura da capital gaúcha.

E vou aproveitar para participar no sábado, durante o horário da entrega dos kits, de uma informal sessão de autógrafos do MARATONANDO, o livro em que conto algumas de minhas aventuras corridas por maratonas nos cinco continentes.

Devo ficar no Ginásio da Brigada Militar até lá pelas 14h. Mas a banquinha da editora ficará lá até as 16h.

Quem puder avisar amigos, conhecidos, familiares, enfim, amantes da vida em geral e corredores em particular, será de grande valia.

A Maratona de Porto Alegre, como se sabe, é um das mais indicadas para quem vai estrear na distãncia ou para quem busca melhorar seu tempo. Em geral, o clima é agradável, ótimo para correr.

A previsão está ameaçando com vendavais no sábado; para o domingo, que é o que interessa, a meteorologia nos promete tempo dentro dos conformes. Mas vai saber, tudo pode mudar...

Já corri duas vezes essa prova, e lá consegui meu recorde pessoal. Mas o percurso agora é diferente, é como uma prova toda nova.

Pelo que vi da rota anunciada, não há maiores dificuldades. Uma ou outra subidinha, tudo compensado por boas retas. O problema é se tiver vento contra na Mauá ou quando estivermos ladeando o rio. Daí o jeito vai ser correr em grupo...

Nos anos em que corri, o abastecimento de água esteve bom, e havia pelo menos dois pontos de entrega de energético, além de um ponto em que voluntários ofereciam frutos.

Mesmo assim, sugiro que cada leve seus sachês de carboidrato ou outras formas de reposição de energia. Em geral, eu costumo tomar um sachê a cada 10 km, mais ou menos.

Para os iniciantes, a recomendação mais comum que ouço de técnicos é que procurem se conter. A turma sai voando, e agente acha que pode ir na mesma balada, acaba se estrepando logo logo.

Então "segure os alfes!", como a torcida desesperada costuma gritar para os técnicos de futebol do passado, qierendo que os homens da defesa ficassem plantados no território para evitar contra-ataques de surpresa...

Precavenha-se, acostume-se ao asfalto, ao clima, à beleza e, quando tudo estiver tranqüilo, vá largando as rédeas, apertando o ritmo, abrindo a passada. No km 41, descanse um pouco no primeira metade e se prepare para correr como nunca na vida para chegar ao final de peito estufado, suor no rosto e sorriso maior que o pôr-do-sol no Guaíba.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h27

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Argentina faz homenagem a atletas assassinados

Sangue no asfalto 

A minha amiga Sylvia Colombo, repórter da Ilustrada, maratonista das águas e parceira em provas de terra e mar, está em Buenos Aires, de onde nos manda a reportagem que você vai ler a seguir. Ela conta como o esporte também chora e homenageia seus mortos, trucidados no período da Ditadura Militar. Sem mais delongas, vamos ao texto de Sylvia.

"No mês que vem, a Argentina vai comemorar os 30 anos da conquista de sua primeira Copa do Mundo de futebol, realizada em seu próprio território. Mas tanto aquela vitória quanto seus aniversários jamais conseguiram apagar o terrível contexto político por onde a bola rolava.

O país vivia então os difíceis anos da ditadura militar que, durante os anos de 1976 e 1983, produziu o vergonhoso número de mais de 30 mil mortos e desaparecidos, segundo estimativas de entidades de direitos humanos.

A ex-refugiada política Ana Maria Careaga, hoje diretora-executiva do Instituto Espacio para la Memoria, está organizando uma homenagem às vítimas do regime. O evento acontecerá no mesmo local onde a seleção argentina comandada por César Luís Menotti levantou a taça, após vencer a Holanda por 3 a 1: o Monumental de Nuñez, estádio do River Plate.

Estão sendo convidados para participar de "La Otra Final, el Partido por la Vida y los Derechos Humanos", além dos campeões de então, jogadores estrangeiros e jovens, que representarão a geração daqueles que se foram na época.

Mas não é apenas o futebol que rende homenagem às vítimas da ditadura. Até porque também atletas de outros esportes integram as listas de desaparecidos. No último dia 30 de março, ocorreu aqui, em Buenos Aires, mais uma edição da chamada La Corsa di Miguel (A corrida de Miguel; mais informações AQUI), com a participação de 12 mil atletas.

Trata-se de uma homenagem que acontece desde 2000, na capital argentina e em Roma, para lembrar o corredor Miguel Sánchez, que participou de duas São Silvestres, em 76 e 77, antes de ser seqüestrado na noite do dia 7 de janeiro do ano seguinte, em sua casa, na província de Buenos Aires.

Ao que tudo indica, Sánchez não pôde cumprir um de seus sonhos, justamente o de ver a Argentina levantar a taça de campeã do mundo de futebol.

Nascido em Tucumán (norte do país) e integrante da JP (Juventude Peronista), Sanchéz teria sido vítima da Operação Condor, articulação entre as ditaduras de Argentina, Chile, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia para trocar informações e perseguir opositores do governo. Suas viagens ao Brasil estariam sendo monitoradas pelos serviços de inteligência.

A trágica história desse rapaz, que tinha apenas 25 anos quando caiu nas mãos da repressão, é parte do documentário "Atletas x Ditadura - A Geração Perdida", dos brasileiros Marcelo Outeiral e Marco Villalobos.

Entre os outros esportistas desaparecidos, são famosos os casos do tenista Daniel Schapira, da jogadora de hóquei sobre a grama Adriana Acosta e de parte da equipe de rugby do La Plata.

O mais conhecido entre eles, porém, segue sendo o goleiro Claudio Tamburrini, do Almagro, que ficou preso na temida Mansión Seré (um dos locais transformados em cadeia e centro de tortura). Tamburrini conseguiu fugir de modo espetacular, com um grupo de colegas de cárcere, em março de 1978, pouco antes de o mundial começar.

O goleiro contou sua fantástica e dolorosa história no livro "Pase Libre", que depois foi levado ao cinema pelo diretor argentino Adrián Caetano, com o filme "Crônica de uma Fuga" (2006). Na adaptação, o ator Rodrigo de la Serna (o mesmo que faz o companheiro de Che Guevara em ‘Diários de Motocicleta‘) encarna Tamburrini. Depois do episódio, o ex-jogador ainda ficou uns meses escondido em seu país, assistiu ao mundial pela TV, para depois fugir para a Suécia, onde estudou filosofia e hoje é professor da universidade de Gotemburgo.

Em geral, os jogadores da seleção argentina de 78 buscam evitar comentar a ditadura, pois não gostam da idéia de terem, em parte, se transformado em propaganda do regime, assim como aconteceu com a seleção brasileira campeã em 1970, em pleno governo militar do presidente Médici.

O tema é delicado, pois, se de um lado esse oportunismo político realmente aconteceu, por outro, ambos os times deram alegrias a seus países em momentos críticos de sua história. Efemérides como a que se aproxima, dos 30 anos da final do Mundial de 78, são oportunidades para trazer a discussão à tona."

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h09

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Fala, leitor

Minha primeira vez

Vários dos participantes das equipes da Folha no Revezamento Super40 estavam ali botando pela primeira vez o pé no asfalto para correr. Um deles era Nilson Bueno de Camargo, diretor-responsável do Agora, que participou do meu time. A seguir, ele nos conta como foi a estréia.

"Sabadão, bar Geni, quase meia-noite.

O clima começa a esquentar. Uma mulata escultural, dentro de uma calça mais apertada que vagão do metrô, se prepara para subir ao palco. Digo: Tchau, pessoal!

Como assim? É, tenho que acordar às seis da matina para correr na USP. Como assim? Não sabia que você corria. Nem eu! Meu amigo Rodolfo me convidou para uma prova de revezamento de 40 km e eu topei. Boa sorte!

Domingo, 7h, Cidade Universitária. Só consigo estacionar a mais de 2 km da largada. Pensamento fixo. O que estou fazendo aqui? No caminho, brinco com outra estreante da minha equipe. Acho que já deu. Caminhar quilômetros na madruga de domingo já foi uma excelente estréia.

Uma veterana nos ouve. Primeira vez? Sua vida vai mudar. Vocês vão renascer. Vão trocar de pele.

E segue sorridente com largas passadas.

Minha colega: bem que ela poderia nos dar meia dose disso que tomou no café da manhã.

Parecia que todo o pessoal tinha ingerido a dose completa do remedinho da veterana. Olhos arregalados, sorridentes, agitados. Alguns não podiam esperar a partida e davam piques pra lá e pra cá dentro da área da concentração das equipes. Quanta disposição!

Pegamos os chips, uma borboleta de plástico vermelho. E agora? Olhamos um vizinho e aprendemos a amarrar o chip nos cordões do tênis. A boca começa a ficar seca. Vamos em busca de água. Minha colega quer cerveja.

Chega o Rodolfo, o responsável, com a mulher. Ambos sorrindo. Também devem ter tomado a tal dose...Tiro quase todas as dúvidas sobre como será a corrida. Só me resta uma: o que eu estou fazendo aqui??

Convocação para a largada. Cerca de 300 pessoas --magros, gordas, jovens, idosos, feios,bonitas-- se aglomeram à frente de um portal com relógio digital na trave superior e tapetes verdes no chão que servem para marcar o tempo de cada equipe.

Minha colega, no meio delas, tenta seduzir alguns rapazes com pinta de atletas. Vocês são cavalheiros e vão correr ao meu lado, né? Uma buzina com som de corneta furada toca e os cavalheiros disparam abandonando a estreante à sua própria sorte.

Vou para o chiqueirinho onde irei receber da minha colega uma pulseira laranja para correr minha ‘perna‘. Tomara mesmo que eu tenha pernas. Corri apenas três dias na semana anterior durante 30 minutos no parque da Água Branca. E aí, vai fazer em quanto tempo, pergunta o Rodolfo. 28 minutos! Sorrio.

Dez minutos depois da largada passam pela minha frente os primeiros colocados completando as suas ‘pernas‘. E que pernas! Pareciam ter mais de três metros!

Tá chegando a minha vez. A boca seca. Cadê a minha parceira? Lá vem ela! Roxa, ofegante. Sorridente!!

Pego a pulseira. Vambora! Passo pelo portal e entro num corredor de torcedores que aplaudem e incentivam a todos. Uma atleta tropeça e se estatela no asfalto. Perigo, perigo. Concentre-se. Cuidado.

Confiro no Polar a disparada dos meus batimentos. 166 antes do primeiro quilometro. Treino é treino. Prova é prova! E dá-lhe adrenalina! Devagar, literalmente, deixo os torcedores para trás e entro na interminável ‘será que eu vou conseguir‘ fase solitária da corrida.

Antes de chegar à metade do percurso, vejo algumas que desistem e começam a andar. E eu, mesmo correndo, não consigo ultrapassá-los...Como eles conseguem dar aquelas passadas de três metros??? Tento, mas quase levo um tombo. Melhor ficar na miúda mesmo.

Água, pelo amor de Deus! Sim, tem água. Vários tambores de plástico cheios de copinhos. Pego um e tento abrir enquanto corro. Sem chance. Como eles conseguem??

Vem chegando a marca do terceiro quilometro. Meu coração a 177 por minuto. Começo a ter certeza de que vou chegar. Esboço até uma pose para os fotógrafos. Sorrio.

Me reencontro com os torcedores. Ouço a mulher do Rodolfo. Vai, Nilson! Vai! Sorrio. Dou a volta para entrar na reta final. Me esforço mais um pouco. 187 pulsações por minuto. Passo a linha de chegada. Faço as contas. Acho que consegui completar a volta em menos de 28 minutos. Sorrio. O Rodolfo me espera para receber a braçadeira. Parabéns, Nilson!!"

Nilson Camargo, 53 anos, fez seus primeiros 4 km em 27min31seg. Ficou classificado em 2.462º. entre 2.671 participantes. Foi o penúltimo colocado em sua faixa etária e não pára de sorrir.

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h21

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Corrida pelas vítimas do terremoto na China

Solidariedade ativa

 

O treinador Marco Antonio de Oliveira, que já dirigiu várias vezes a seleção brasileira de ultras e também orienta alguns pangas, como este que vos fala, está atualmente na China, investindo numa numa empreitada profissional em Shangai.

De lá, ele manda o relato a seguir, contando sobre a reação do povo às vítimas do terremoto, que fez dezenas de milhares de vítimas (como a menininha da foto da Reuters, que perdeu o pai na tragédia e está com a mãe internada com problemas mentais).

Bom, vamos ao texto de Oliveira.

"O terremoto de grandes proporções em Sichuam confirmou que o povo chinês é extremamente solidário e participativo. Aqui em Shangai, empresas e indivíduos estão criando formas criativas de ajudar as vítimas.

Vale tudo, a começar por simples urnas de papelão distribuídas nas esquinas da cidade e nas escolas para arrecadar donativos.

No próximo dia 21, o Restaurante e Bar Sashas, em Shangai, vai oferecer o melhor de sua cozinha pelo equivalente a US$ 20, e a arrecadação irá toda para as vítimas do terremoto.

No domingo passado, testemunhei uma "corrida instantânea", idealizada e executada por meu amigo chinês Jimmy em apenas seis dias para arrecadar fundos para os flageladas.

Peguei o trem na Shanghai Railway Station e fui confortavelmente a 240 km por hora direto, gastando duas horas para chegar à velha-moderna, histórica NanJing, antiga capital da China e onde passa o rio Yangtzé. E também é cidade-irmã de Belo Horizonte.

Meu amigo nunca tinha organizado uma corrida. Ele só corre maratona e tem participação comercial em uma rádio (Radio Citi de Nanjing). Seu objetivo principal é alcançar a marca de cem maratonas.

Arrumaram um patrocinador da área de seguro saúde, um hospital que deu apoio e ainda uma empresa de bebida energética (ich more). A mulher do maratonista montou duas urnas para arrecadar fundos para as vítimas de Sichuam.

Com 18 minutos de atraso, cerca de 2.000 corredores largaram e correram em volta do lago, num percurso de 9,5 km.

Dois banheiros químicos antigos, um palco animado instalado no meio de um laguinho dentro do parque, número e camiseta oficial e um animador foram suficientes para sacramentar a prova (abaixo, cenas do evento, fotos arquivo pessoal).

Não tinha relógio oficial e ninguém parecia se importar com o tempo de prova.

O parque é mais movimentado que o Ibirapuera, de São Paulo, com milhares de pessoas praticando várias atividades."

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h19

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Folha manda ver no Super40

Velocidade jornalística

Olha, há muito tempo que eu não corria assim. Cheguei a fazer 5min12 em um dos quilômetros na manhã de hoje, na corrida de revezamento Super40, em que a Folha participou com seis equipes --que eu saiba, a maior participação do jornal em um evento do gênero.

O meu time tinha dois estreantes, que conheceram no asfalto da Cidade Universitária sua primeira corrida. E tinha também gente muito rápida, que correu a sua perna em menos de 20 minutos --as equipes podiam ter de dois a dez integrantes, cada um correndo pelo menos uma perna de quatro quilômetros. No total, a distância era de 40 km.

Até mais ou menos a metade da prova, minha equipe estava em último lugar no grupo Folha, em que dois times tinham gente muito veloz mesmo. Mas fomos recuperando e acabamos em penúltimo... 

Segundo os organizadores, 5.000 pessoas participaram do evento, que foi bastante tranqüilo e bem organizado.

O problema mais grave foram as motos dos batedores, que abriam caminho para os líderes e entravam até na área de transição --um risco potencial, mas sem conseqüências, pois tudo terminou na santa paz.

Na medalha, faltaram os registros de data e local, mas imagino que ela seja a mesma para as várias edições do Super40 ao longo deste ano.

O ponto alto da prova foi a área de distribuição de água: uma das garotas que entregava as garrafinhas dava um show de empolgação e energia, animando os corredores do início ao fim.

A Fabíola Reipert, colunista do Agora, que correu na minha equipe, mandou o seguinte comentário:

"Neste domingo, participei de uma corrida pela primeira vez e posso dizer que pretendo continuar. Gostei do clima, do alto-astral, da organização.

Apesar da gripe que me pegou no fim de semana e da minha falta de experiência --afinal, não sou uma corredora (no dia-a-dia, faço mais caminhada do que corrida)--, saí de lá bem-disposta e com vontade de treinar cada vez mais para conseguir melhores resultados da próxima vez."

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h02

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Folha corre no Super40 neste domingo

Jornal no asfalto

Seis equipes da Folha participam amanhã da corrida de revezamento Super40, na Cidade Universitária (zona oeste de São Paulo).

Que eu saiba, é a mais massiva participação da Folha em corridas. A gente costuma dizer presente em revezamentos, mas apenas com uma ou outra equipe. Desta vez, foi um agito geral.

São times bem ecléticos, com iniciantes e experientes, velozes e não tão rápidos (como este que vos fala), funcionários das mais diversas áreas da empresa.

O meu time tem atletas do Esporte, da Economia e da Ilustrada da Folha (além da Informática, é claro), mais a participação de jornalistas do Agora.

Foi muito legal a mobilização da turma, e espero que todos se divirtam bastante.

Depois eu conto como foi.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h44

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Duplo amputado disputa vaga olímpica

Primeira vitória

O atleta paraolímpico sul-africano Oscar Pistorius, que usa lâminas de fibra de carbono para conseguir correr, vai poder disputar uma vaga na Olimpíada de Pequim.

A decisão foi anunciada hoje pela Corte Arbitral do Esporte, derrubando uma decisão da IAAF (a Fifa do atletismo), que considerou que a prótese dava ao atleta uma vantagem competitiva.

Mais alta instância da Justiça esportiva, a Corte Arbitral tomou a decisão por unanimidade, e a nova regra passa a valer imediatamente. A IAAF já anunciou que aceita o resultado do pleito de Pistorius,21.

Agora, o campeão paraolímpico vai ter de correr para conseguir seu lugar nas pistas. Ele almeja uma vaga na prova de 400 m, para a qual o tempo mínimo de qualificação é de 45s95. Até hoje, o melhor tempo de Pistorius nessa distância é de 46s46.

Assista abaixo a um vídeo da participação dele no Golden Gala, em Roma, no ano passado, onde foi feita a foto do alto (arquivo AP).

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h10

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Epifania na Maratona da Grande Muralha

Revolução na vida

Neste sábado será realizada mais uma edição de uma das mais belas, desafiadoras e impactantes corridas do mundo, a Maratona da Grande Muralha, em que os atletas correm um bom trecho na própria Grande Muralha, maior obra já feita pelo homem.

A participação no evento é uma verdadeira epifania, você se descobre e redescobre o mundo, como contei no meu livro MARATONANDO e também relatei no meu antigo site, que você pode visitar AQUI.

Naquele ano, fui o único brasileiro a participar do evento, mas, desde então, muitos outros já estiveram lá, enfrentando os milhares de degraus da gigantesca construção. Um deles foi a fonoaudióloga Nara Elisa Welles Cardoso, que fez na China, no ano passado, sua primeira maratona.

Gaúcha de Pelotas, Nara, 39, entrou no mundo das corridas exatamente por causa da Maratona da Grande Muralha, que provocou um grande revolução na sua vida. Conheça, nesta entrevista, a história dessa atleta.

Folha - Como e quando você começou a correr?

Nara - Foi em um projeto da empresa em que eu trabalho, a Widex, que é especializada em produtos para deficientes auditivos e criou um projeto de integração do surdo à sociedade através do esporte. O esporte escolhido foi a corrida. Percebi que, estando à frente daquele projeto, atendendo os pacientes, sendo formadora de opinião, tinha de, no mínimo, tentar fazer igual. Dar o exemplo. Então, com 36 anos, decidi começar a correr dentro desse projeto. Ia ver se conseguia, porque eu tinha 103 quilos...

Folha - Até então você não praticava esporte?

Nara - Eu pratiquei esporte desde pequena até 19 anos para 20 anos, fui atleta de vôlei, cheguei a treinar aeróbica seis horas por dia, fiz ciclismo. Quando tinha 19 anos, sofri um acidente de carro e fiquei um ano parada. Tive fissura de costela, quebrei a mão, o pé, tive perda de pele no rosto, fiz cirurgia plástica. Tomei muito corticóide e cortisona. Quando sofri o acidente, pesava 59 quilos; quando tive alta, já estava com 90 e tantos quilos. Com a auto-estima baixa, nunca mais tinha conseguido recuperar o peso e nem voltara a praticar esporte. Aí chegou esse projeto da empresa, que resolveu patrocinar a maratona de revezamento Ayrton Senna, em 12 de outubro de 2005. Na prova, tinha umas 6.000 pessoas, 1.500 atletas com a camiseta da Widex. Desses, 406 eram deficientes auditivos. Eu fui de Porto Alegre a São Paulo, participei do evento o dia inteiro. O Marcelo, meu chefe, me colocou num grupo de revezamento para correr 5 km. Chegou na hora, eu amarelei. Disse não, que estava gorda, não ia conseguir, e passei meu número para outra pessoa. Aqui foi uma coisa...

Folha - E aí?

Nara - Aquilo me doeu muito, viver toda uma história de ex-atleta, de frustração por ter engordado. Aí eu pensei: ‘Bom, a hora é agora, vou tentar‘. Mas demorei meses para começar de fato. Foi quando a empresa resolveu fazer um projeto para engajar os funcionários numa campanha para levantar fundos para patrocinar os surdos que vão agora participar da Paraolimpíada. A empresa levaria à Maratona da Grande Muralha um grupo de funcionários selecionados entre suas unidades no mundo, e cada funcionário estaria angariando três euros por quilômetro percorrido e cinco euros por minuto corrido. Em 2006, o Marcelo me fala desse projeto, me convida para participar, coloca o desafio de eu ficar em condições para correr a Grande Muralha em 19 de maio de 2007. Eu topei e treinei oito meses para fazer minha primeira maratona, a Maratona da Grande Muralha.

Folha - Como foi o treinamento?

Nara - Comecei de fato o treinamento no dia 11 de setembro de 2006. Eu estava com 103 quilos. Pela primeira vez, depois do acidente, corri cem metros para valer. Durante 20 minutos, corria um minuto, caminhava um minuto, foi o meu primeiro treino. Odiei. Doeu tudo, uma coisa horrível. Aquele um minuto correndo era um desespero. Daí fui superando a dor, fui superando o cansaço. Quando fechou um mês, eu já estava correndo direto 15 minutos e enlouquecida, cada vez querendo mais, correr mais, mais, e eu não parei desde então.

Folha - Finalmente chegou a hora de ir para a China...

Nara - Eu ainda era dúvida. Tinha emagrecido 32 quilos em oito meses, mas estava ainda 12 quilos acima do peso ideal para correr uma maratona. O pessoal estava preocupado, porque eu tive um problema viral e dois resfriados.

No início, o Morten Fenger, o treinador da Widex mundial, que fez toda a nossa preparação, me orientou para correr até o km 21 conforme eu fazia nos treinos. Na meia-maratona, ele iria me alcançar e ver como seria, se daria tempo para completar, porque tem um limite de oito horas.

Cada passo era uma vitória, uma conquista. Quando cheguei no km 22, o Morten me alcançou e disse: ‘Nara, se tu continuares nesse ritmo até o fim da prova a gente completa a prova no tempo. Eu vou correr do teu lado para a gente ter certeza que tu vais conseguir. Só me obedece. Não pára, não diminui, vamos conversando que eu vou tentando te fazer manter o ritmo‘.

E foi assim que eu consegui completar. Ele me acompanhou do km 22 até o 42,195 km lado a lado. Eu corri 7h49m30s para conseguir completar a prova

Uma coisa que me marcou muito, assim, durante o trajeto, na corrida, era o olhar das pessoas, uma coisa muito incrível, como tu tiras força do olhar das pessoas, que estão ali te incentivando. Eu ganhei tantas flores, Rodolfo. Cada criancinha que eu passava, me dava uma florzinha, essas florzinhas de campo, sabes? Às vezes, assim, um raminho verde, uma coisinha.

E o olhar daquelas pessoas. O povo chinês é extremamente fechado, mas eu não sei se porque eu era uma das últimas ou porque eu era mulher ou porque ainda estava gordinha, todo mundo me recebia, me aplaudia, me incentivava, falando coisas que a gente não entendia, mas ficava a expressão, o sentimento, o olhar.

Eu tive uma sensação de superação, terminando a prova. Sensação de conquista, de vitória, de superação, de que não existe nada que tu não possas fazer te determinando. É só ter a pura intenção de fazer, a vontade real e verdadeira e ter disciplina e seguir à risca. Foi uma virada na minha vida. Eu entrei uma pessoa, uma mulher nesse treinamento da China e eu terminei outra.

Folha - Quem é essa outra pessoa?

Nara - Eu melhorei em todos os aspectos da minha vida. Eu me tornei uma pessoa muito mais positiva, uma pessoa muito mais tranqüila, mais segura de mim. A sensação que eu tive, com esse entrar na corrida, foi de um resgate de mim mesma. Fazia muito tempo que eu estava me escondendo de mim mesma, desde lá do acidente de carro, da frustração da mudança física, radical de vida. Participar do projeto, ter aceitado fazer e levar a sério me fez resgatar a minha essência assim. Como se eu tivesse voltado a ser eu mesma. Uma Nara que ficou escondida, durante muitos anos.

Hoje, quando eu me olho no espelho, eu me enxergo. Antes, era como se eu não conseguisse me ver. Melhorou a vida do meu matrimônio, melhorou a vida do casal, melhorou a vida sexual, melhorou tudo o que você possa imaginar.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h52

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Quanto custa o seu quilômetro rodado

Muito ou pouco?

Quando se aproxima a hora da maratona (ou de alguma outra corrida-alvo), a gente vai ficando cada vez mais neurótico.

Revê os treinos, calcula o ritmo que fez na meia-maratona de Quinquinhas, extrapola para o dia mesmo da corrida, lembra daquele longão não terminado, festeja algum recorde obtido no período, planeja o que vai fazer no dia da prova, estabelece metas, reavalia essas metas, constrói uma plano B, um C, um D...

Um amigo meu, além de fazer tudo isso, ainda aproveitou um momento de lazer para calcular quanto gastava por quilômetro rodado com cada um dos seis pares de calçados que usa para treinar.

Como ele colocou as informações em uma lista fechada, não cito o nome. E como o objetivo não é comparar durabilidade de tênis, em que muitos fatores estão envolvidos, não informo abaixo as marcas e modelos que ele usa. O restante está tal e qual.

Veja o resultado:

Tênis A, comprado em 06/2007 = 1.088,7 km = 0,46 R$/km

Tênis B, comprado em 03/2007 = 1.011,7 km = 0,49 R$/km

Tênis C, comprado em 10/2006 = 710,6 km = 0,43 R$/km

Tênis D, comprado em 02/2008 = 648,3 km = 0,46 R$/km

Tênis E, comprado em 04/2008 = 242,7km = 1,65 R$/km

Tênis F, comprado em 11/2007 = 215,8km = 1,39 R$/km

Ele simplesmente dividiu o preço do calçado pelos quilômetros rodados em treinos ou corridas, não levando em consideração eventual uso diário (trabalho, academia, passeios etc.)

O que achei mais impressionante não foi ele saber a quilometragem exata de cada par --isso eu e a torcida do Corinthians também temos. Mas saber quanto pagou pelo dito cujo...

De qualquer forma, não sei se adianta muita coisa fazer esses cálculos, pois eles comprovam que a gente paga muito caro pelos tênis. Como já falei aqui, um tênis de primeira linha custa nos Estados Unidos, na loja --portanto, com todos os lucros e impostos já embutidos--, US$ 120 mais o imposto sobre vendas. Que seja 10%, dá US$ 132 (R$ 220). No Brasil, sai por R$ 499...

As lojas reclamam dos impostos, choram isso e aquilo, mas lembre-se que estou falando de valor de face, final, ao consumidor. Claro que a importadora não paga aqueles US$ 132

Bom, mas voltando à vaca fria: você já calculou o custo por quilômetro de seu parceiro de treinos? Compartilhe com a gente...

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h43

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"Primeiro-casal" diz presente na maratona de Praga

Lula lá

 

Fantasiado de Lula e Marisa Letícia, casal de corredores participa da maratona de Praga, realizada hoje nas ruas da capital da República Tcheca (foto Efe). O homem vestido de Lula está usando número de mulher.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h41

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Não deu para a Sirlene

Parabéns, guerreira

Sirlene do Pinho lutou até o último momento, abraçou a derradeira oportunidade para tentar conquistar uma vaga na maratona olímpica, mas não deu.

Ela correu hoje a maratona de Praga em busca de sub-2h37, que é o índice A para mulheres, mas, a julgar pelo que já vi pelos sites, parece que nem completou a prova (não tenho ainda confirmação disso).

O certo é que, de acordo com as informações disponibilizadas no site da prova, apenas duas mulheres correram abaixo de 2h37, num dia relativamente quente para os padrões locais (quando os primeiros da elite chegaram, os termômetros marcavam 18 graus).

A campeã do ano passado, a russa Nailya Yulamanova, defendeu seu título com galhardia, fechando em 2h31min43, melhorando em quase 90 segundos seu tempo de 2007. A queniana Emily Kimuria chegou em segundo, com 2h35min55), e sua compatriota Caroline Kwambai , campeã da meia-maratona de Praga em 2006, veio depois, com 2h37min51.

O queniano Kenneth Mburu foi o vencedor no masculino, com 2h11min06.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h16

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Honra e glória ao maratonista derrotado

Herói bigodudo

A cidade italiana de Carpi prepara homenagem para o centenário do feito de um de seus mais ilustre cidadãos, o maratonista Dorando Pietri. Em breve, vai inaugurar uma estátua em homenagem ao corredor (na foto da Reuters, operário trabalha na obra).

Pietri foi o não-vencedor da primeira maratona de 42.195, distância que faz cem anos agora. Na prova realizada em Londres, nos Jogos de 1908, o percurso foi esticado para que os atletas terminassem em frente aos camarotes reais.

Conta a lenda que, em 1904, o bigodudo Pietri trabalhava tranqüilamente quando corredores disputando uma prova de 10 km passaram em frente à loja. Ele não teve dúvida: tirou seu avental e saiu a perseguir o líder da corrida. Os dois terminaram lado a lado, e Pietri ficou fissurado.

No ano seguinte, venceu uma prova de 30 km em Paris; foi campeão italiano em 1907 e conseguiu sua classificação para a maratona de Londres-08 depois de correr em 2h38 uma prova de 40 km em Carpi.

No dia 24 de julho de1908, ele e mais 55 atletas largaram na maratona olímpica, num dia anormalmente quente para os padrões londrinos.

O italiano começou na boa, mas resolveu atacar depois da meia-maratona, alcançando o segundo posto na altura do km 32.

Aos poucos, foi percebendo que o líder, o sul-africano Charles Hefferon, fraquejava. Ligou o turbo e mandou ver, conquistando a liderança a cerca de dois quilômetros do estádio olímpico.

Quando chegou ao estádio, a massa o aclamou. Mas o esforço cobrou seu preço: ele estava meio baleado, e pegou a direção errada. Foi auxiliado por oficiais da prova, e caiu pela primeira vez.

Com ajuda, levantou e seguiu, em frente a 75 mil espectadores emocionados. Ele ainda caiu várias vezes e cruzou a linha de chegada nos braços de auxiliares (imagem abaixo). De seu tempo oficial de 2h54min46, dez minutos foram usados nos últimos 350 metros.

A medalha de prata foi para o americano Johnny Hayes, mas a equipe dos EUA entrou com reclamção contra o resultado e conseguiu reverter o quadro: Pietri foi desclassificado por ter terminado a prova com ajuda de terceiros.

Mas, no coração de todos, foi o vencedor. Ganhou da rainha Alexandra uma taça de prata, com placa dourada. A homenagem teria sido sugerida pelo escritor Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes, que trabalhava como jornalista cobrindo o evento.

Pietri se tornou uma celebridade. O compositor Irving Berlin criou uma música, "Dorando", em homenagem ao atleta, que foi convidado para se apresentar em corridas nos EUA.

Em novembro de 1908, enfrentou um desafio contra Hayes, no Madison Square Garden, em Nova York, e deu um pau no americano. Para não deixar dúvidas, ganhou de novo em outro desafio semelhante, em março do ano seguinte.

Ainda fez sucesso e ganhou muito dinheiro em corridas, considerando os padrões da época. Virou empresário, mas não teve muita sorte. Acabou dono de uma oficina de automóveis em Sanremo, onde morreu em 1941, aos 56 anos.

Seu feito está hoje nos anais da história olímpica.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h45

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A primeira vitória ninguém esquece

Pódio e grana

 

Supervisora de vendas de profissão, Patrícia Maria Resende Pinto corre há quatro anos apenas, mas já guarda muitas medalhas e a memória recheada de conquistas. Rápida, costuma correr na frente e já foi várias vezes premiada na faixa etária _tem hoje 31 anos. Mas ser a primeirona, no geral, nunca.

Quer dizer, até agora: em uma corrida promovida pela empresa em que trabalha, disparou e subiu ao mais alto do pódio, no geral, categoria colaboradores (foto no alto, arquivo pessoal) _havia ainda uma categoria especial, de corredores de elite.

Patrícia participou pela primeira vez de uma corrida em dezembro de 2004, na prova de revezamento Ayrton Senna racing Day ("Fiz 5.280 metros em 34 minutos e pouco e quase morri", diz ela). Picada pelo bichinho das corridas, passou a treinar regularmente a partir de fevereiro do ano seguinte.

Bom, leia a seguir a história da corrida da vitória tal e qual Patrícia contou. Antes, saiba que a prova, num percurso de 6 km, foi realizada no domingo passado, em Anapólis, Goiás, sede da Neo Química, que organizou a prova para comemorar seu aniversário. Agora, sim, leia o texto da vencedora.

"Hoje sou só sorrisos: fiquei em primeiríssimo lugar na corrida que a empresa organizou neste final de semana.

Melhor ainda: o primeiro lugar valia o prêmio de R$ 3.000. Uhu-uhu-hhu!! Levei pra casa!

Foi a única vez que eu vi entrar algum dinheiro em corridas. De costume, é só gastar. Nem acredito. Ainda estou muito motivada pelo $$$$ e pelo brilho que eu teria ontem naquele momento.

Fiz meu melhor tempo em prova oficial de 6 km, 27min38. Corri dando o meu melhor e só tive coragem de olhar pra trás no km 5, quando sabia que, se alguém ameaçasse, eu não perdia mesmo.

A segunda colocada eu nem conseguia ver.

Só na largada que duas doidas saíram desembestadas, mas antes da placa do primeiro km eu já tinha passado as duas. Depois nem vi fumaça delas ... Foi maravilhoso!

A empresa possui aproximadamente 3.000 colaboradores e se inscreveram 460, sendo 80 mulheres.

Logo de cara, as meninas da empresa já diziam que eu tinha mais chance porque eu já treinava, mas eu nem quis saber. Cada um corre atrás do que gosta e por sorte a empresa promoveu uma corrida --se promovesse um jogo de futebol, eu não teria chance alguma.

Eu nunca tinha tido nenhum incentivo ou ajuda da empresa para treinar, então a mesma chance que eu tinha, todas tinham...

Havia premiação para o feminino e masculino do 1º ao 5º lugar para colaboradores e para atletas de elite (que eram aproximadamente 50).

Pasmem: a premiação do 1º da elite era 2.500,00 e para colaboradores era 3.000.

Os caras da elite não acreditavam. Eu nem ligava, pela primeira vez eu via algum benefício pra mim."

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h02

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Anote agora e confira depois

Vai dar China

Pelo menos, é o que diz um estudo divulgado hoje em Londres. Segundo o professor Simon Shibli, da Sheffield Hallam University, que realizou a pesquisa, a China deverá conquistar 46 ouros em Pequim-08 e superar os Estados Unidos.

Shibi afirmou que esse seria o nível máximo que o país-sede teria condições de atingir, exatamente porque embalado pelo apoio da torcida. Em condições normais (sabe-se lá o que isso é), o potencial chinês é de 39 ouros, de acordo com o estudo.

Mesmo esse número já é algo impressionante, assim como é sem precedentes o progresso da China no quadro de medalhas olímpicas.

O país conquistou 16 ouros em Barcelona-92, quando ficou em quarto lugar, mesmo posto obtido em Atlanta-96. Foi terceiro em Sydney-00 e segundo em Atenas-04, com 32 ouros.

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h14

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Última chance para ir a Pequim

Sonhos em Praga

No próximo domingo termina o prazo para a qualificação de maratonistas brasileiros para a Olímpiada.

O Brasil pode levar até três corredores com índice A ou um com índice B.

No masculino, o país tem "A" em pencas. Por enquanto, os integrantes da seleção são Marilson Gomes dos Santos, José Telles e Franck Caldeira.

No feminino, apenas Marily dos Santos, como você viu neste blog, tem o índice A.

Mas tem mais gente de olho nas vagas.

Sirlene do Pinho corre no domingo nas ruas de Praga, na República Tcheca, tentando marcar menos de 2h37. Vanderlei Cordeiro de Lima também pretendia participar, mas acabou desistindo por causa de uma lesão que ainda provoca dores.

Aproveito o ensejo para lembrar que cada país tem o direito de fazer a seleção de seus atletas como bem entender, desde que os escolhidos tenham o desempenho exigido pelo Comitê Olímpico Internacional.

O Brasil oferece esse prazo para a qualificação, e o índice pode ser obtido em qualquer maratona oficial, com percurso aferido.

Já os Estados Unidos fazem uma prova seletiva, na qual participam os atletas que obtiveram o índice. A seletiva masculina foi realizada em novembro passado, na véspera da maratona de Nova York; a feminina, agora em abril, na véspera da maratona de Boston. Os três primeiros ganham as vagas.

O leitor Gino Genaro mandou uma mensagem elogiando o método norte-americano, que considera melhor do que o Brasileiro. Ele lembra que, no caso brasileiro, "o atleta que possui condições para disputar uma prova mais rápida do outro lado do planeta geralmente acaba levando vantagem sobre aqueles que tentam obter o índice em provas locais mais difíceis".

É um argumento.

Mas há que lembrar, por exemplo, que Marily cravou o A em uma prova com chuva e vento em terras brasileiras, na bela Floripa.

E, contra o método norte-americano, há o fato de que arrisca a deixar de fora um atleta de desempenho consistentemente melhor do que o dos rivais, mas que teve uma dor de barriga no dia da seletiva...

O que você acha?

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h28

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Leitura de fim de domingo

Há que mudar

O artigo do presidente do Ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Márcio Pochmann, é uma das boas coisas da edição da Folha deste domingo. Pode não ter nada a ver com corrida, mas tem tudo a ver com todos que vivemos neste mundo velho sem porteira.

O texto todo está AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL.

Para não dizer que não falei das flores, copio a seguir a conclusão do artigo.

Depois de apresentar dados sobre a gritante desigualdade econômica e social que grassa no mundo e sobre os problemas ambientais que a sanha exploratória acarreta, ameaçando a própria vida do planeta, Pochmann afirma:

"Outro padrão civilizatório precisa ser constituído no mundo. O ser humano e o ambiente não podem permanecer em segundo plano. A organização da economia deve ser o meio necessário para o atendimento do desenvolvimento humano sustentável, o que significa dizer que os bens não devem ser valorizados intrinsecamente, mas em conformidade com a sua capacidade de produzir o avanço do bem-estar de toda a humanidade com a menor agressão possível ao ambiente. Do contrário, prevalecerão as duas categorias básicas de homens a se manterem no porão do navio: os pobres excluídos da dignidade humana e os ricos condenados à solidão e à lógica da rivalidade."

Escrito por Rodolfo Lucena às 20h43

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Meninas da maratona aquática garantem vaga

Saudações, garotas!

Tudo bem, elas não correm, mas têm resistência, força, garra e determinação de fazer inveja a qualquer maratonista de terra firme.

Especialistas em ficar na água por muito tempo e nadando velozmente, as brasileiras Poliana Okimoto e Ana Marcela Cunha garantiram suas vagas na maratona aquática em Pequim, prova de 10 quilômetros.

Elas carimbaram o passaporte no Mundial da modalidade, realizado sábado em Sevilha.

As dez primeiras teriam classificação garantida para a Olimpíada, o que fez com que as 51 garotas enchessem de marolas as águas do rio Gualdaquivir.

A competição esteve tão acirrada que a diferença entre a primeira e a décima colocada ficou em apenas 14 segundos. A décima, por sinal, foi a adolescente Ana Marcela, 16, que fechou em 2h02min16. Poliana (foto AP, no alto), com 2h02min13, conquistou o sexto lugar. A vencedora foi a russa Larissa Ilchenko.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h52

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Palestinos fogem de tiros e foguetes para treinar

Orgulho nacional

"Quero erguer a bandeira palestina e mostrar ao mundo orgulho por minha cidade e meu país", diz Nader al-Masri, único atleta da Faixa da Gaza que vai estar presente em Pequim.

Ataques aéreos e foguetes foram alguns dos "pequenos" problemas a se intrometer no treino de Masri, 28, que corre com tênis baratos e teve de superar também problemas burocráticos para conseguir autorização de Israel para sair do território ocupado.

Ele nem dá bola. Armado de "fé e confiança", como disse à agência Reuters, o corredor treina diariamente entre prédios bombardeados e casas com marcas de tiros. Roda por campos que, vez que outra, são atingidos por mísseis israelenses.

Na sua cidade, é muito conhecido: "Run, Nader, run", dizem as crianças, em incentivo, enquanto os adultos acenam para o fundista --ele vai correr a prova de 5.000 metros em Pequim (na foto da Reuters, ele treina em sua cidade, Beit Hanoun).

Não é exatamente o mais veloz do mundo --seu melhor tempo é quase dois minutos pior que o recorde mundial. Mas o atleta palestino acredita que pode melhorar bastante até a Olimpíada.

É o que também espera a outra corredora da delegação palestina, a jovem Ghadeer Ghroof, de Jericho. Hoje com 17 anos, ela teve de superar problemas ortopédicos de infância para se transformar numa velocista de nível internacional.

"Ela é especial, extraordinária", diz o treinador do time palestino, Yusef Hamadna. "Até pouco tempo atrás, caminhava como se fosse Charles Chaplin, com os pés para fora, mas ela teve determinação, força de vontade. A nação palestina deve se orgulhar dela."

Ghroof (foto Reuters) começou a correr aos 11 anos. Em Pequim, vai participar das competições de 100 e 200 metros. "Estou muito feliz de chegar lá. Eu não estou indo pela medalha, mas sim para dar um orgulho para a Palestina e mostrar que nós ainda existimos."

A delegação é integrada ainda por dois outros atletas, ambos da natação.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h22

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Entrevista com Marily dos Santos - parte 1

Índice A

Marily dos Santos, a guerreira das Alagoas, chacoalhou o mundo das maratonistas brasileiras ao obter o índice A de classificação para a maratona olímpica, tornando-se, por enquanto, a única representante do Brasil na maratona feminina em Pequim-08. No dia 20 de abril passado, um domingo de frio e chuva forte, ela correu 42.195 metros nas ruas de Florianópolis em 2h36min21. Nesta entrevista exclusiva, feita por telefone na semana passada, Marily conta um pouco da emoções da conquista e relembra sua trajetória.

Folha - Você acaba de obter o índice. Quais são seus planos, a partir de agora?

Marily dos Santos - Vou dar um descansozinho só nesta semana, só trotezinho leve na água da piscina e na grama. Depois, vou treinar sério mesmo para a maratona para a gente tentar correr bem lá. Procurar fazer um tempo bom na maratona, independente da colocação que chegue, porque todo mundo sabe que lá estão as melhores do mundo. A semana que vem, o treinamento sério que eu digo é treinar mais forte. Eu treino em dois turnos, de manhã e à tarde. Faço tiros de velocidade na terça, na quinta e no sábado. E rodo uns 120 quilômetros por semana.

Folha - Mas, por enquanto, você está só festejando o índice. Como foi a prova em Florianópolis?

Marily - Eu fiquei tão feliz que fiquei só ajoelhada e orando. Eu esperava de mim, mas no dia mesmo fiquei muito preocupada. O treinador ficou mais preocupado do que eu, dizendo assim: ‘Acho que hoje não vai conseguir fazer tempo para o índice olímpico, mas vamos tentar ganhar a maratona‘. Aí eu fiquei um pouco desgostosa. No meio do caminho, eu falei: ‘Vou embora antes do 21‘. Ele falou: ‘Vá no 21, na metade da prova‘, mas só que eu me desesperei e vim embora desde o 16.

Aí ele viu que eu estava querendo mesmo, ficou emocionado, lá, gritando, me dando força: ‘Você pode, você pode, vai que você pode!‘. Aí eu achei que conseguia, era uma emoção só.

Ele confia muito em mim, mas no dia da prova estava chovendo muito, tinha muitas poças d‘água, ele ficou com medo que eu me machucasse. Estava um rio tão grande de água de um meio-fio para o outro. A gente ficava procurando aquele local que tinha menos água, porque não é brincadeira a gente largar numa maratona, saber que o asfalto está livre para a gente e a água ficar tomando conta, a gente ficar com medo de pisar numa pedra, numa boca-de-lobo e ainda fazer tempo.

Eu achei assim, inesquecível, nunca mais vou esquecer. Ele mesmo ficou muito feliz, porque ele achou que se chovesse mais do que aquilo não ia dar em nada mesmo. Ele achou que eu fui uma guerreira mesmo.

Folha - Esse foi o seu melhor tempo em maratona?

Marily - Meu melhor tempo, essa foi minha quinta maratona. A primeira foi só para brincar mesmo, estrear, foi em 2003, em São Paulo, fui a sétima. Foi uma estréia sem compromisso de subir no pódio nem de correr na frente, porque eu só corria meia-maratona e 10 km, não tinha aquela responsabilidade de chegar entre as três, de enfrentar outras maratonistas que já tinham mais experiência do que eu.

Folha - A experiência que você ganhou ajudou em Florianópolis?

Marily - Claro, a gente fica ali, uma estudando a outra, olhando o relógio, mas eu não gosto de correr muito com relógio. O carro-madrinha estava na minha frente com aquele cronômetro, mas chovia tanto que estava embaçando o cronômetro. Eu perguntei para a Márcia [Narloch] e para a outra menina que estava ao lado, como é que estava o tempo. Elas disseram que já era, o negócio era tentar ganhar a prova. Eu sou muito insistente, falei: ‘Não, eu quero mais do que ganhar a prova‘. Isso foi no km 14. No km 15 km, eu olhei para o meu treinador, ele olhou para mim, disse que estava cedo. Quando chegou no 16 eu falei: ‘Ele pode brigar comigo, falar o que quiser, mas eu vou embora é agora‘. Aí eu vi a placa do 16 dei logo uma pancada.

Comecei a liderar a prova, com aquela coragem, sabendo que eu ia fazer um tempo bom, que eu ia chegar em primeiro lugar ou que eu ia fazer o tempo para Pequim. Só sei que eu estava com coragem e confiando muito em mim. Ai o treinador viu que eu estava com coragem, ficou calado, olhando para mim. Ele estava mais me dando força, olhando para mim e mandando eu ir embora. No retorno, lá no 23, quando eu retornei eu já tinha 500 metros de frente, já. Eu digo ‘já era, mesmo que eu não faça o tempo, mas aqui eu vou segurar, não vou deixar ninguém mais passar na minha frente‘. Eu corri 26 km sozinha na frente.

Folha - É muito difícil correr sozinha na frente?

Marily - É difícil, mas, quando a gente está querendo a coisa, quando a gente tem coragem, a gente vai em frente. Eu fiquei conversando comigo mesma correndo. Resolvi fazer de conta que tinha uma menina aqui no meu pé e não queria me largar de jeito nenhum. E fui correndo assim: faz de conta que ela quer me passar e eu não vou deixar. Eu me concentrei assim, aí eu corri assim, como gente grande mesmo. O treinador gritando, gritando para eu baixar o tempo. Não sei o que passava pela minha cabeça, minha cabeça não estava obedecendo, nem minhas pernas, nem nada. Eu sei que eu queria era correr.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 23h12

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Entrevista com Marily dos Santos - parte 2

Primeira corrida

Folha - Conte um pouco sobre sua vida, onde você nasceu, como era sua família...

Marily - Eu nasci num sítio perto de Joaquim Gomes, é uma cidadezinha em Alagoas, onde a gente fazia as compras e vendia as coisas que a gente plantava. E, vivia muito, assim, saudável, eu corria muito na época de criança. Tinha uma bodega, lá, minha mãe dizia: ‘Marily, vá lá comprar isso aqui‘. Dava o dinheiro. Eu pensava que era só aquele dinheiro, pagava, não pegava nem o troco, saía correndo de volta. O pessoal gritava: ‘Volta, menina‘, mas eu pensava que era brincadeira, vinha embora correndo. Eu cuidava de minha avó, levava as compras dela, porque ela era aposentada. Aí toda semana eu levava as compras dela na cabeça. Só que dava uns 8 km da minha casa para a casa da minha avó. Aí eu ia correndo e caminhando com o saquinho na cabeça.

Folha - Isso com quantos anos?

Marily - Isso aí com oito anos até os 15 anos, 16 anos até a época quase de eu vir embora. Aí eu ia correndo e caminhando. Agora, na volta tirava de uma carreira só, não gostava de parar de jeito nenhum. Eu vinha vazia, sem nada. Quando ela me dava uma jaca lá do sítio para trazer, eu chegava com a cabeça toda furada. Teve uma vez, era uma jaca mole, minha cabeça quase entrava dentro da jaca, de tão mole que estava. Apanhava, tomava uma surrinha assim, umas chineladinhas só para aprender, mas eu não me importava, eu queria era correr. Tomava aquele carão de menino mesmo. ‘Ah, por que você fez isso e não sei o que e tal. Ah! Duas horas depois eu estava fazendo de novo.

Folha - E ao mesmo tempo você trabalhava na roça?

Marily - Assim, a gente plantava abacaxi, mandioca, muito feijão. Aí meu pai dizia: ‘Olha, a gente está com muito feijão aqui dentro de casa, vamos vender‘. Algumas pessoas lá encomendavam para a gente. Aí, eu ia avisar, na casa das pessoas, que estava tendo um cento de abacaxi lá para ele. Tinha 300 abacaxis, tinha jaca, tinha feijão, para eles virem comprar. Eu tinha que passar na casa de todas essas pessoas. Até chegar na última casa dava mais ou menos uns 10 km. Aí eu ia correndo e tinha que voltar correndo. Tanto que, às vezes, o pessoal passava carão em mim, porque eu não conseguia nem dar o recado direito, eu falava gaguejando de vir correndo assim um pouco cansada, ofegante.

Meu pai dizia assim: ‘Eu vou cuspir no chão, se esse cuspe estiver seco quando você voltar, eu vou puxar a sua orelha‘.

Aí eu ia correndo, eu tinha um medo de apanhar já depois de grande, de vergonha das minhas coleguinhas, assim, do pessoal. Aí eu ia correndo, ia num pé e voltava no outro, correndo mesmo. Tanto que eu não conseguia dar o recado direito. Eles entendiam porque já sabiam, já conheciam. Eu chegava: ‘Tem um cento de abacaxi lá para o senhor. Vá buscar. Três horas da tarde‘. E saía correndo de novo.

Eu demorava um pouquinho na última casa, tomava uma água e voltava correndo de novo. Aí dava uma dorzinha de facão no meio do caminho, eu parava para caminhar, dois minutos depois a dor passava, voltava a correr. Isso quando não era subindo nos cajueiros, nas jaqueiras, derrubando jaca. Subia nas árvores, assim, aí acho que tipo uma academia, não é?

Folha - E qual foi a primeira corrida em que você participou?

Marily - Foi lá em Alagoas. Foi lá em Maceió, a Corrida do Trabalhador. Meu primo que me levou. Meu primo é tricampeão da Maratona do Rio, foi medalha de prata no Pan-americano, perdendo para o cubano dentro do estádio (Cuba-1961). Foi segundo em Boston, ganhou várias maratonas. O nome dele é José Carlos Santana. Ele foi passar as férias lá nesse sítio, que era um local tranqüilo. A nossa vida lá era assim: não tinha energia de jeito nenhum, lá a gente não via televisão, rádio tinha que comprar a pilha, quando a pilha acabava a gente colocava no pé do pote para ficar fria para colocar no rádio de novo. E, às vezes, sinto até saudade desse tempo.

Aí esse meu primo me conheceu e perguntou se eu queria ver a praia pela primeira vez. Me levou para Maceió, chegou lá disse que tinha uma corrida, perguntou se podia me inscrever. Eu disse: ‘Pode, eu vou correr‘. E corri, fui quarta colocada no geral. Era uma corrida de 10 km, foi quando eu tinha 18 anos.

Folha - Você ganhou algum prêmio?

Marily - Tinha premiação para as três primeiras. Aí acharam tão assim, eu correr a primeira vez, que me deram uma medalha. Deram a medalha e eu fui com essa medalha direto no peito, mostrar para o pessoal e tal. Aí eu falei: ‘Acho que eu não vou querer correr mais não‘.

Folha - Mas você não tinha ficado alegre com o resultado, por que você pensou em não mais correr?

Marily - Ah, porque eu sofri demais. Eu sofri demais, eu queria correr na frente dos homens. Meu primo disse que eu poderia ter chegado entre as três, eu corri muito forte no final, já fiquei toda dolorida. Aí, depois de dois dias já queria correr de novo. Aí ele me trouxe para uma outra corrida de Maceió, e fui a terceira no geral. Aí ganhei dinheiro, R$ 300, eu fiquei tão feliz, que eu não sabia onde botava tanto dinheiro. Então tive que continuar correndo.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 23h10

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Entrevista com Marily dos Santos - final

Osso duro de roer

Folha - Na época, você trabalha com sua família, não tinha salário...

Marily - Não, a gente trabalhava para a gente mesmo. Meu pai comprava as coisas para a gente. Ia comprar junto. A gente dizia: ‘Eu quero isso‘, e ele ia lá e pagava. O primeiro dinheiro que ganhei foi aquele da corrida, mas prêmio mesmo foi um ventilador. Eu vendi por R$ 30. Foi numa corridinha, uma brincadeira que teve na comunidade, em Joaquim Gomes. O povo soube que eu tinha corrido em Maceió, aí tinha essa corridinha, falaram: ‘Olha, aquela menina daquele sítio corre‘. Aí eu soube e vim correr, não é? Depois de Maceió, tinha a corrida de Juazeiro (BA), meia-maratona. Eu sofri mais ainda e ganhei dinheiro, também. Eu fui quarta no geral. E decidir ir morar em Juazeiro, fiquei dois anos lá, morando com a família daquele meu primo e também na casa do meu tio. Treinava, corria e estudava lá, em Juazeiro, no colégio Jutahi Magalhães.

Folha - Você fazia o segundo grau?

Marily - O segundo grau, eu tinha muita vontade, mas não dava, não, porque lá onde eu nasci não tinha escola. Tinha uma professora lá que ensinava só até a quarta série. Só pegava criança a partir de 7 anos. E criança hoje em dia com 7 anos, já sabe ler e escrever, e eu não sabia. Não só eu, todas as crianças de lá. Aí comecei a estudar, estava na quarta série, aí o colégio caiu, lá nesse sítio. Até fazer um outro eu já estava com 16 anos. Em Juazeiro, fiz a quarta e quinta junto, mas não passei, porque o estudo era muito fraco lá no sítio. Mas no outro ano eu passei. Depois fui para Salvador e continuei os estudos.

Folha - Por que essa mudança?

Marily - O meu primo me trouxe para Salvador, e disse: ‘Olha, Marily, eu vou te apresentar um treinador, porque eu sou maratonista, não tenho como passar treinamento para juvenil, para pessoa iniciante, que está começando‘. Ele não encontrou o que estava procurando, ams encontro esse com quem estou treinando agora, o Gilmário Mendes. Aí deu tudo certo com esse.

Folha - Tão certo que vocês casaram...

Marily - É, foi isso mesmo, depois de dois anos de treino a gente começou a namorar e casou.

Folha - Todo atleta tem algum atrito com o treinador, de vez em quando. E como fica no caso de vocês?

Marily - Claro que tem, porque nem todo mundo é santo, mas a gente não mistura muito as coisas não. A gente não mistura porque profissional é profissional, você tem que ter o lado ali do trabalho sério e o lado de esposa e marido em casa, não é? O que a gente vê ali, a gente conversa depois. E nada para interferir, assim, em treinamento, viagem, essas coisas. Se a gente quer conversar mais alto, deixa para casa ou lá no interior. Tem, sim, aquelas briguinhas bestas, mas a gente chega num acordo. Meu treinador se preocupa muito comigo. Ele cuida. Se eu estiver com alguma coisa e não falar para ele, aí ele se chateia, mas eu acho que é para o meu bem.

Folha - Desde quando você se considera profissional?

Marily - Corredora profissional desde os 20 anos já. Desde que eu comecei a ter treinador, porque eu comecei a treinar com um treinador muito profissional, então me achei profissional também. Nós também temos um trabalho nosso, uma equipe de corredores, a MultSport Clube de Corredores. Mas patrocinadores daqui, nada. Se eu não fosse, assim, persistente, não tivesse disciplina de pegar meu dinheiro de corrida, que eu ganhava aqui, e ir correr nas competições de São Paulo, Rio, aparecer na Globo, hoje em dia não teria não. Eu comecei a aparecer na São Silvestre. Mesmo que não ganhasse a corrida, eu sou osso duro de roer, ia lá para a frente, comecei a aparecer na televisão, as pessoas acharam que eu tinha talento para isso. Começaram me dar apoio, comecei a ganhar material esportivo, depois a Mizuno me chamou num acordo e estou recebendo salário da Mizuno e da Caixa (Marily é bicampeã do circuito Caixa de corridas de rua).

Folha - Por tudo isso, a corrida é muito importante na sua vida...

Marily - A importância da corrida é ter me tirado de um local que não tem futuro. Foi uma escola para mim. Aprendi muitas coisas importantes. Viajar, já fui para fora do Brasil sozinha. Já fui, já voltei, aprendi bastante coisa, também. Minha mãe está vendo o que eu era, o que eu estou sendo agora, acho isso muito importante. Meu pai, também, não é? Ele não entendia o que eram as corridas e agora já está entendendo, sabe muito bem o que é que eu quis na minha vida, isso é muito importante. Eles me apóiam bastantes. Meus pais são assim, sabe, muito meus amigos.

Folha - Você falou de viagens para o exterior. Qual a mais legal?

Marily - Já corri o Campeonato de Cross, na Bolívia. Já corri a Corrida de São Fernando, no Uruguai. Já corri em Portugal o Mundial de Meia-Maratona. Apesar de ter sido muito longe mesmo, eu gostei muito de ter ido para a Tailândia. Gostei mesmo. Até acho que eu não tenho coragem mais de ir para lá, mas eu gostei muito. Fui com mais três colegas, foi um prêmio da Corrida Contra o Câncer de Mama. Fui a segunda no geral, eu perdi só para a queniana. Fui a primeira brasileira. Aí eles falaram que davam a passagem para a gente para a Tailândia. Eu não achei que ia sair, mas, depois de um ano chegou essa passagem. A Fabiana [Cristina da Silva] também ganhou a passagem, foi em 2002 [A queniana Tegla Loroupe venceu, Fabiana foi a quinta colocada e Marily, a sexta].

Folha - Lá é quente, úmido, poluído, como deverá ser em Pequim...

Marily - Quanto a isso eu não me preocupo não, quando mais quente estiver, para mim é melhor. Eu corri muito bem na chuva, mas eu sou do calor.

Escrito por Rodolfo Lucena às 23h08

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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