MARATONANDO em Porto Alegre
Em causa própria
Como já comentei aqui, serei um dos participantes da Maratona de Porto Alegre neste domingo.
Apesar do percurso rápido, vou tentar apenas terminar inteiro, embebedando-me da beleza e da gostosura da capital gaúcha.
E vou aproveitar para participar no sábado, durante o horário da entrega dos kits, de uma informal sessão de autógrafos do MARATONANDO, o livro em que conto algumas de minhas aventuras corridas por maratonas nos cinco continentes.
Devo ficar no Ginásio da Brigada Militar até lá pelas 14h. Mas a banquinha da editora ficará lá até as 16h.
Quem puder avisar amigos, conhecidos, familiares, enfim, amantes da vida em geral e corredores em particular, será de grande valia.
A Maratona de Porto Alegre, como se sabe, é um das mais indicadas para quem vai estrear na distãncia ou para quem busca melhorar seu tempo. Em geral, o clima é agradável, ótimo para correr.
A previsão está ameaçando com vendavais no sábado; para o domingo, que é o que interessa, a meteorologia nos promete tempo dentro dos conformes. Mas vai saber, tudo pode mudar...
Já corri duas vezes essa prova, e lá consegui meu recorde pessoal. Mas o percurso agora é diferente, é como uma prova toda nova.
Pelo que vi da rota anunciada, não há maiores dificuldades. Uma ou outra subidinha, tudo compensado por boas retas. O problema é se tiver vento contra na Mauá ou quando estivermos ladeando o rio. Daí o jeito vai ser correr em grupo...
Nos anos em que corri, o abastecimento de água esteve bom, e havia pelo menos dois pontos de entrega de energético, além de um ponto em que voluntários ofereciam frutos.
Mesmo assim, sugiro que cada leve seus sachês de carboidrato ou outras formas de reposição de energia. Em geral, eu costumo tomar um sachê a cada 10 km, mais ou menos.
Para os iniciantes, a recomendação mais comum que ouço de técnicos é que procurem se conter. A turma sai voando, e agente acha que pode ir na mesma balada, acaba se estrepando logo logo.
Então "segure os alfes!", como a torcida desesperada costuma gritar para os técnicos de futebol do passado, qierendo que os homens da defesa ficassem plantados no território para evitar contra-ataques de surpresa...
Precavenha-se, acostume-se ao asfalto, ao clima, à beleza e, quando tudo estiver tranqüilo, vá largando as rédeas, apertando o ritmo, abrindo a passada. No km 41, descanse um pouco no primeira metade e se prepare para correr como nunca na vida para chegar ao final de peito estufado, suor no rosto e sorriso maior que o pôr-do-sol no Guaíba.
Escrito por Rodolfo Lucena às 11h27
Argentina faz homenagem a atletas assassinados
Sangue no asfalto
A minha amiga Sylvia Colombo, repórter da Ilustrada, maratonista das águas e parceira em provas de terra e mar, está em Buenos Aires, de onde nos manda a reportagem que você vai ler a seguir. Ela conta como o esporte também chora e homenageia seus mortos, trucidados no período da Ditadura Militar. Sem mais delongas, vamos ao texto de Sylvia.
"No mês que vem, a Argentina vai comemorar os 30 anos da conquista de sua primeira Copa do Mundo de futebol, realizada em seu próprio território. Mas tanto aquela vitória quanto seus aniversários jamais conseguiram apagar o terrível contexto político por onde a bola rolava.
O país vivia então os difíceis anos da ditadura militar que, durante os anos de 1976 e 1983, produziu o vergonhoso número de mais de 30 mil mortos e desaparecidos, segundo estimativas de entidades de direitos humanos.
A ex-refugiada política Ana Maria Careaga, hoje diretora-executiva do Instituto Espacio para la Memoria, está organizando uma homenagem às vítimas do regime. O evento acontecerá no mesmo local onde a seleção argentina comandada por César Luís Menotti levantou a taça, após vencer a Holanda por 3 a 1: o Monumental de Nuñez, estádio do River Plate.
Estão sendo convidados para participar de "La Otra Final, el Partido por la Vida y los Derechos Humanos", além dos campeões de então, jogadores estrangeiros e jovens, que representarão a geração daqueles que se foram na época.
Mas não é apenas o futebol que rende homenagem às vítimas da ditadura. Até porque também atletas de outros esportes integram as listas de desaparecidos. No último dia 30 de março, ocorreu aqui, em Buenos Aires, mais uma edição da chamada La Corsa di Miguel (A corrida de Miguel; mais informações AQUI), com a participação de 12 mil atletas.
Trata-se de uma homenagem que acontece desde 2000, na capital argentina e em Roma, para lembrar o corredor Miguel Sánchez, que participou de duas São Silvestres, em 76 e 77, antes de ser seqüestrado na noite do dia 7 de janeiro do ano seguinte, em sua casa, na província de Buenos Aires.
Ao que tudo indica, Sánchez não pôde cumprir um de seus sonhos, justamente o de ver a Argentina levantar a taça de campeã do mundo de futebol.
Nascido em Tucumán (norte do país) e integrante da JP (Juventude Peronista), Sanchéz teria sido vítima da Operação Condor, articulação entre as ditaduras de Argentina, Chile, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia para trocar informações e perseguir opositores do governo. Suas viagens ao Brasil estariam sendo monitoradas pelos serviços de inteligência.
A trágica história desse rapaz, que tinha apenas 25 anos quando caiu nas mãos da repressão, é parte do documentário "Atletas x Ditadura - A Geração Perdida", dos brasileiros Marcelo Outeiral e Marco Villalobos.
Entre os outros esportistas desaparecidos, são famosos os casos do tenista Daniel Schapira, da jogadora de hóquei sobre a grama Adriana Acosta e de parte da equipe de rugby do La Plata.
O mais conhecido entre eles, porém, segue sendo o goleiro Claudio Tamburrini, do Almagro, que ficou preso na temida Mansión Seré (um dos locais transformados em cadeia e centro de tortura). Tamburrini conseguiu fugir de modo espetacular, com um grupo de colegas de cárcere, em março de 1978, pouco antes de o mundial começar.
O goleiro contou sua fantástica e dolorosa história no livro "Pase Libre", que depois foi levado ao cinema pelo diretor argentino Adrián Caetano, com o filme "Crônica de uma Fuga" (2006). Na adaptação, o ator Rodrigo de la Serna (o mesmo que faz o companheiro de Che Guevara em ‘Diários de Motocicleta‘) encarna Tamburrini. Depois do episódio, o ex-jogador ainda ficou uns meses escondido em seu país, assistiu ao mundial pela TV, para depois fugir para a Suécia, onde estudou filosofia e hoje é professor da universidade de Gotemburgo.
Em geral, os jogadores da seleção argentina de 78 buscam evitar comentar a ditadura, pois não gostam da idéia de terem, em parte, se transformado em propaganda do regime, assim como aconteceu com a seleção brasileira campeã em 1970, em pleno governo militar do presidente Médici.
O tema é delicado, pois, se de um lado esse oportunismo político realmente aconteceu, por outro, ambos os times deram alegrias a seus países em momentos críticos de sua história. Efemérides como a que se aproxima, dos 30 anos da final do Mundial de 78, são oportunidades para trazer a discussão à tona."
Escrito por Rodolfo Lucena às 18h09
Fala, leitor
Minha primeira vez
Vários dos participantes das equipes da Folha no Revezamento Super40 estavam ali botando pela primeira vez o pé no asfalto para correr. Um deles era Nilson Bueno de Camargo, diretor-responsável do Agora, que participou do meu time. A seguir, ele nos conta como foi a estréia.
"Sabadão, bar Geni, quase meia-noite.
O clima começa a esquentar. Uma mulata escultural, dentro de uma calça mais apertada que vagão do metrô, se prepara para subir ao palco. Digo: Tchau, pessoal!
Como assim? É, tenho que acordar às seis da matina para correr na USP. Como assim? Não sabia que você corria. Nem eu! Meu amigo Rodolfo me convidou para uma prova de revezamento de 40 km e eu topei. Boa sorte!
Domingo, 7h, Cidade Universitária. Só consigo estacionar a mais de 2 km da largada. Pensamento fixo. O que estou fazendo aqui? No caminho, brinco com outra estreante da minha equipe. Acho que já deu. Caminhar quilômetros na madruga de domingo já foi uma excelente estréia.
Uma veterana nos ouve. Primeira vez? Sua vida vai mudar. Vocês vão renascer. Vão trocar de pele.
E segue sorridente com largas passadas.
Minha colega: bem que ela poderia nos dar meia dose disso que tomou no café da manhã.
Parecia que todo o pessoal tinha ingerido a dose completa do remedinho da veterana. Olhos arregalados, sorridentes, agitados. Alguns não podiam esperar a partida e davam piques pra lá e pra cá dentro da área da concentração das equipes. Quanta disposição!
Pegamos os chips, uma borboleta de plástico vermelho. E agora? Olhamos um vizinho e aprendemos a amarrar o chip nos cordões do tênis. A boca começa a ficar seca. Vamos em busca de água. Minha colega quer cerveja.
Chega o Rodolfo, o responsável, com a mulher. Ambos sorrindo. Também devem ter tomado a tal dose...Tiro quase todas as dúvidas sobre como será a corrida. Só me resta uma: o que eu estou fazendo aqui??
Convocação para a largada. Cerca de 300 pessoas --magros, gordas, jovens, idosos, feios,bonitas-- se aglomeram à frente de um portal com relógio digital na trave superior e tapetes verdes no chão que servem para marcar o tempo de cada equipe.
Minha colega, no meio delas, tenta seduzir alguns rapazes com pinta de atletas. Vocês são cavalheiros e vão correr ao meu lado, né? Uma buzina com som de corneta furada toca e os cavalheiros disparam abandonando a estreante à sua própria sorte.
Vou para o chiqueirinho onde irei receber da minha colega uma pulseira laranja para correr minha ‘perna‘. Tomara mesmo que eu tenha pernas. Corri apenas três dias na semana anterior durante 30 minutos no parque da Água Branca. E aí, vai fazer em quanto tempo, pergunta o Rodolfo. 28 minutos! Sorrio.
Dez minutos depois da largada passam pela minha frente os primeiros colocados completando as suas ‘pernas‘. E que pernas! Pareciam ter mais de três metros!
Tá chegando a minha vez. A boca seca. Cadê a minha parceira? Lá vem ela! Roxa, ofegante. Sorridente!!
Pego a pulseira. Vambora! Passo pelo portal e entro num corredor de torcedores que aplaudem e incentivam a todos. Uma atleta tropeça e se estatela no asfalto. Perigo, perigo. Concentre-se. Cuidado.
Confiro no Polar a disparada dos meus batimentos. 166 antes do primeiro quilometro. Treino é treino. Prova é prova! E dá-lhe adrenalina! Devagar, literalmente, deixo os torcedores para trás e entro na interminável ‘será que eu vou conseguir‘ fase solitária da corrida.
Antes de chegar à metade do percurso, vejo algumas que desistem e começam a andar. E eu, mesmo correndo, não consigo ultrapassá-los...Como eles conseguem dar aquelas passadas de três metros??? Tento, mas quase levo um tombo. Melhor ficar na miúda mesmo.
Água, pelo amor de Deus! Sim, tem água. Vários tambores de plástico cheios de copinhos. Pego um e tento abrir enquanto corro. Sem chance. Como eles conseguem??
Vem chegando a marca do terceiro quilometro. Meu coração a 177 por minuto. Começo a ter certeza de que vou chegar. Esboço até uma pose para os fotógrafos. Sorrio.
Me reencontro com os torcedores. Ouço a mulher do Rodolfo. Vai, Nilson! Vai! Sorrio. Dou a volta para entrar na reta final. Me esforço mais um pouco. 187 pulsações por minuto. Passo a linha de chegada. Faço as contas. Acho que consegui completar a volta em menos de 28 minutos. Sorrio. O Rodolfo me espera para receber a braçadeira. Parabéns, Nilson!!"
Nilson Camargo, 53 anos, fez seus primeiros 4 km em 27min31seg. Ficou classificado em 2.462º. entre 2.671 participantes. Foi o penúltimo colocado em sua faixa etária e não pára de sorrir.
Escrito por Rodolfo Lucena às 21h21
Corrida pelas vítimas do terremoto na China
Solidariedade ativa
O treinador Marco Antonio de Oliveira, que já dirigiu várias vezes a seleção brasileira de ultras e também orienta alguns pangas, como este que vos fala, está atualmente na China, investindo numa numa empreitada profissional em Shangai.
De lá, ele manda o relato a seguir, contando sobre a reação do povo às vítimas do terremoto, que fez dezenas de milhares de vítimas (como a menininha da foto da Reuters, que perdeu o pai na tragédia e está com a mãe internada com problemas mentais).
Bom, vamos ao texto de Oliveira.
"O terremoto de grandes proporções em Sichuam confirmou que o povo chinês é extremamente solidário e participativo. Aqui em Shangai, empresas e indivíduos estão criando formas criativas de ajudar as vítimas.
Vale tudo, a começar por simples urnas de papelão distribuídas nas esquinas da cidade e nas escolas para arrecadar donativos.
No próximo dia 21, o Restaurante e Bar Sashas, em Shangai, vai oferecer o melhor de sua cozinha pelo equivalente a US$ 20, e a arrecadação irá toda para as vítimas do terremoto.
No domingo passado, testemunhei uma "corrida instantânea", idealizada e executada por meu amigo chinês Jimmy em apenas seis dias para arrecadar fundos para os flageladas.
Peguei o trem na Shanghai Railway Station e fui confortavelmente a 240 km por hora direto, gastando duas horas para chegar à velha-moderna, histórica NanJing, antiga capital da China e onde passa o rio Yangtzé. E também é cidade-irmã de Belo Horizonte.
Meu amigo nunca tinha organizado uma corrida. Ele só corre maratona e tem participação comercial em uma rádio (Radio Citi de Nanjing). Seu objetivo principal é alcançar a marca de cem maratonas.
Arrumaram um patrocinador da área de seguro saúde, um hospital que deu apoio e ainda uma empresa de bebida energética (ich more). A mulher do maratonista montou duas urnas para arrecadar fundos para as vítimas de Sichuam.
Com 18 minutos de atraso, cerca de 2.000 corredores largaram e correram em volta do lago, num percurso de 9,5 km.
Dois banheiros químicos antigos, um palco animado instalado no meio de um laguinho dentro do parque, número e camiseta oficial e um animador foram suficientes para sacramentar a prova (abaixo, cenas do evento, fotos arquivo pessoal).
Não tinha relógio oficial e ninguém parecia se importar com o tempo de prova.
O parque é mais movimentado que o Ibirapuera, de São Paulo, com milhares de pessoas praticando várias atividades."
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h19
Folha manda ver no Super40
Velocidade jornalística

Olha, há muito tempo que eu não corria assim. Cheguei a fazer 5min12 em um dos quilômetros na manhã de hoje, na corrida de revezamento Super40, em que a Folha participou com seis equipes --que eu saiba, a maior participação do jornal em um evento do gênero.
O meu time tinha dois estreantes, que conheceram no asfalto da Cidade Universitária sua primeira corrida. E tinha também gente muito rápida, que correu a sua perna em menos de 20 minutos --as equipes podiam ter de dois a dez integrantes, cada um correndo pelo menos uma perna de quatro quilômetros. No total, a distância era de 40 km.
Até mais ou menos a metade da prova, minha equipe estava em último lugar no grupo Folha, em que dois times tinham gente muito veloz mesmo. Mas fomos recuperando e acabamos em penúltimo...
Segundo os organizadores, 5.000 pessoas participaram do evento, que foi bastante tranqüilo e bem organizado.
O problema mais grave foram as motos dos batedores, que abriam caminho para os líderes e entravam até na área de transição --um risco potencial, mas sem conseqüências, pois tudo terminou na santa paz.
Na medalha, faltaram os registros de data e local, mas imagino que ela seja a mesma para as várias edições do Super40 ao longo deste ano.
O ponto alto da prova foi a área de distribuição de água: uma das garotas que entregava as garrafinhas dava um show de empolgação e energia, animando os corredores do início ao fim.
A Fabíola Reipert, colunista do Agora, que correu na minha equipe, mandou o seguinte comentário:
"Neste domingo, participei de uma corrida pela primeira vez e posso dizer que pretendo continuar. Gostei do clima, do alto-astral, da organização.
Apesar da gripe que me pegou no fim de semana e da minha falta de experiência --afinal, não sou uma corredora (no dia-a-dia, faço mais caminhada do que corrida)--, saí de lá bem-disposta e com vontade de treinar cada vez mais para conseguir melhores resultados da próxima vez."
Escrito por Rodolfo Lucena às 21h02
