Corredor desaparecido na ditadura argentina é tema de filme
Desespero sem fim
Em dezembro de 1977, o bancário argentino Miguel Sánchez
sai de sua casa para realizar um sonho: fazer sua terceira participação na São
Silvestre. Treinado pelo mito argentino Osvaldo Suárez, tricampeão da prova no
final da década de 1950, Sánchez (foto) está em sua melhor forma.
Carrega consigo a bandeira nacional, que leva com orgulho a todas as provas em que participa. Depois da São Silvestre, em São Paulo, emenda um passeio a Montevidéu, onde participa da tradicional corrida de San Fernando.
Feliz e satisfeito, volta para casa, em Villa España, região metropolitana de Buenos Aires, no dia 7 de janeiro. Na manhã seguinte, sua casa é invadida por agentes da ditadura militar argentina, Miguel é levado embora. Nunca mais apareceu.
A história de Miguel foi a primeira a ser conhecido pelo grande público de uma leva de atletas desaparecidos no país irmão durante o período mais negro da ditadura. Há pelo menos três dezenas de jovens jogadores de rugbi, hóquei, tênis e praticantes de outros esportes que nunca mais foram vistos depois de terem sido seqüestrados por forças militares ou paramilitares. São uma porção emblemática da tragédia argentina, que contabiliza cerca de 30 mil desaparecidos.
O drama de Miguel e de seus parentes, que buscam saber o que aconteceu com ele, é um dos aspectos tratados em "Atletas x Ditadura - A Geração Perdida", um documentário produzido por dois jornalistas gaúchos, Marcelo Outeiral,35, e Marco Villalobos, 47, que será apresentado hoje em uma sessão especial em Porto Alegre (às 19h, com entrada franca, no Memorial do Rio Grande do Sul, rua Sete de Setembro 1.020).
Se você se recorda, o filme, produzido de forma quase amadora, já foi abordado neste blog, em texto produzido pela colega Sylvia Colombo, maratonista das águas. Agora, fiz uma reportagem sobre o documentário, que foi publicada hoje na Ilustrada (AQUI, para assinantes da Folha e ou do UOL), mas a entrevista com Marcelo foi muito mais rica, e apresento a seguir os principais trechos dela.
FOLHA - Por que fazer esse documentário, de onde veio a
idéia?
OUTEIRAL - Começou, primeiro, com o interesse pelos temas, assim, do nosso continente, América do Sul, principalmente, essas questões que envolvem direitos humanos, não é? Pesquisando e buscando pautas nessa área, cheguei à história do Miguel Sanchez, que é o corredor do filme, e então intensifiquei a investigação sobre esse tema.
FOLHA - Como você descobriu a história dele?
OUTEIRAL - Eu li uma nota num jornal argentino. Aí consegui o contato da irmã dele e de um jornalista argentino, que também investiga essa questão de atletas que desapareceram, isso me ampliou um pouco esse campo. Comecei a pesquisar esse tema em 2006. Fiquei mais ou menos um ano procurando casos de atletas desaparecidos durante as ditaduras militares.
FOLHA - O que você descobriu?
OUTEIRAL - Essa situação da Argentina deu para constatar que aconteceu, também, em quase todos os países: Uruguai, Chile, Bolívia e até mesmo no Brasil. Aqui, militantes, guerrilheiros, que pouca gente sabe, mas tiveram uma história ligada ao esporte, também, na juventude. E, quando a gente percebeu a quantidade de material que a gente tinha, vimos que daria mais do que uma reportagem, não é?
FOLHA - O seu objetivo e do Marco era uma reportagem? Ou não havia ainda um planejamento?
OUTEIRAL - Não, havia um foco claro. Mas havia sempre essa idéia de transformar numa matéria ou num livro ou numa reportagem. E, aí a gente conseguiu fazer um mapeamento de toda a situação na América do Sul. Mas, aquela questão de verba, da dificuldade que é fazer um documentário, a gente acabou focando na Argentina, porque em número de vítimas no esporte. Ela tem maior número de vítimas no esporte, não é?
FOLHA - Você conseguiram fazer um balanço dos desaparecidos? Lá e cá?
OUTEIRAL - Olha, a Argentina posso dizer que tenha aproximadamente uns 30 atletas dos mais diferentes níveis, que desapareceram durante os anos da ditadura lá. De 2004, 2005 para cá lá, eles começaram, também, a resgatar essas histórias. A Argentina está dando um valor muito mais generoso e mais justo para os atletas desaparecidos do que nos outros países.
Aqui no Brasil, por exemplo, há uma diferença em relação à Argentina. Enquanto na Argentina os atletas estavam mais assim desenvolvidos do ponto de vista da competição, mais atuantes, no Brasil, jovens deixaram a competição mais cedo para ir para a militância.
Na Argentina foi o contrário: na maioria dos casos, houve uma participação política mais leve, digamos assim, de entregar panfletos, de protestos, mas, conseguiram, ao mesmo tempo, levar mais longe a carreira esportiva, não é?
FOLHA - No Brasil, vocês conseguiram ver quantos casos?
OUTEIRAL - Aproximadamente, uns dez casos. Alguns são mais conhecidos, como Stuart Angel (militante do MR-8), que até no filme ["Zuzu Angel"] aparece remando. Tem o Osvaldo da Costa, o Oswaldão, que morreu na guerrilha do Araguaia e que foi campeão de boxe, Há alguns casos de militantes, guerrilheiros, que não se sabe exatamente a participação esportiva que eles tiveram. Há, nesse sentido, apenas uma linha na biografia. A Helenira Resende, que foi uma guerrilheira superatuante do Araguaia, teve uma participação destacada, ela foi jogadora de basquete na adolescência, em Assis, no interior de São Paulo. E tivemos remadores, jovens campeões estaduais de judô. Mas, como eu te falei, em relação à Argentina, pararam mais cedo com o esporte e entraram na militância com mais força, digamos assim.
CONTINUA...
Escrito por Rodolfo Lucena às 06h55
Corredor desaparecido - parte 2
La corsa di Miguel
Continuação da entrevista com o jornalista Marcelo Outeiral, co-diretor do documentário "Atletas x Ditadura - A Geração Perdida", que aborda quatro casos de atletas desaparecidos durante a ditadura argentina.

FOLHA - Você falou que a história de Miguel Sánchez, o corredor, foi a que desencadeou o seu trabalho. Por que?
OUTEIRAL - Foi o primeiro caso que veio à tona na Argentina, por ter desaparecido depois de uma viagem ao Brasil, o que indica um possível envolvimento das polícias políticas dos dois países, talvez uma ação da chamada Operação Condor. Também pela forma como o caso dele veio à tona, com o envolvimento de um jornalista italiano, que leu algo sobre ele e foi atrás. A participação da irmã dele, da Elvira, que é bem efetiva assim nessa questão de levar o nome dele ao maior número de pessoas. E também há uma corrida em homenagem a Miguel, que tem edições na Itália e na Argentina, em várias cidades. O sonho da irmã dele é trazer a corrida para o Brasil, não é?
FOLHA - Ele era militante político mesmo?
OUTEIRAL - Miguel Sánchez é um militante da Juventude Peronista, corredor, poeta e funcionário de um banco em Buenos Aires. Era uma pessoa de vários talento. A militância dele, pelos depoimentos de amigos e outros integrantes da Juventude Peronista, se limitava mesmo a panfletar e a ajudar em alguma outra coisa. Não foi alguém que pegou em armas. Era um cara, segundo os amigos, apaixonado pelo esporte, pelas coisas que envolvia corrida, o equipamento, de estar ao ar livre, da energia que tinha entre os atletas, das pessoas se conhecerem em cada lugar que iam correr. Essa troca de informações, pela amizade que foram fazendo. Ele era um cara que sempre onde ele ia levava a bandeira argentina. Sánchez era um sujeito muito determinado, disposto a sacrifício e que poderia, se não chegasse a um supercampeão a ter bons resultados. Ele ganhou, inclusive, algumas provas na categoria dele na Argentina e tal, representando o Banco da Província de Buenos Aires.
FOLHA - Por que a suspeita do envolvimento da Operação Condor no desaparecimento dele?
OUTEIRAL - Teve esse tour final dele, por Brasil, Uruguai e de volta à Argentina. Pode ser um indicativo de que estava havendo uma troca de informações, não é? E por que ele estaria levantando suspeitas? Porque a Juventude Peronista era um braço dos Montoneros (grupo de oposição à ditadura que teve ação armada).
Os Montoneros tinham uma ação forte no Brasil, tinham um núcleo no Brasil e, por ele não ser um campeão, não ter patrocínio, não ter resultados expressivos, isso pode ter levantado nos militares, nos agentes, a hipótese de que ele vinha ao Brasil para trazer dinheiro ou informação. Era comum grupo de guerrilheiros na Argentina bancarem uma parte, assim, de músicos, artistas, na viagem e, nesse trajeto, eles levarem alguma informação, alguma coisa. Então, ele teria sido uma vítima e errada, não é? Porque ele não era Montonero. Isso é certo, ele não era Montonero.
FOLHA - E como começaram essas homenagens a ele, as corridas de Miguel?
OUTEIRAL - Começou na Itália, em 2000, pelo envolvimento, pela atração que um jornalista italiano, Vitorio Piccioni, teve pela história dele. Ele é um cara que tem esse dom de botar as coisas em pé, sabe? Há outras provas, para cadeirantes, e várias distâncias. Normalmente, essas provas estão associadas a uma outra atividade cultural como música, exibição de algum filme, alguma coisa assim. Dificilmente é a corrida isolada, justamente, para marcar o que aconteceu, para as pessoas saberem a quem a corrida está sendo dedicada, não é?
FOLHA - E na Argentina, é mais recente, não é?
OUTEIRAL - Mais recente, na Argentina, acho que, se não me engano, começou em 2001 ou 2002. Quem toca assim é a irmã dele (de Miguel), a Elvira. Agora, já tem a ajuda de outras pessoas e tal. esse ano teve a participação de 10 mil pessoas. [Para saber mais, visite o site da prova, AQUI, que está em italiano e não é o mais atualizado do mundo, mas traz bastante informação].
CONTINUA....
Escrito por Rodolfo Lucena às 06h50
Corredor desaparecido - final
Nunca mais
Final da entrevista com o jornalista Marcelo Outeiral, co-diretor do documentário "Atletas x Ditadura - A Geração Perdida", que aborda quatro casos de atletas desaparecidos durante a ditadura argentina. O filme será apresentado hoje em uma sessão especial em Porto Alegre, e seus realizadores negociação a futura exibição em canais da TV paga.

FOLHA - Esse trabalho de pesquisa você fez em férias, folgas? O que vocês investiram nisso, de tempo, dinheiro?
OUTEIRAL - Folgas, dinheiro do próprio bolso. É um interesse, um gosto por esse tema e, também, por tentar de alguma forma fazer com que essas histórias cheguem ao conhecimento das pessoas. Porque por mais que se fale na brutalidade das ditaduras, acho que nunca é suficiente para que se tenha a dimensão da barbaridade que foi, não é? Então, é legal se um estudante de jornalismo ou se algum atleta, se algum jovem atleta ficar sabendo dessas histórias, se isso ajudar a criar neles uma consciência ou um alerta de tudo o que aconteceu, já vai ser uma recompensa.
E, também, por uma questão mais pessoal minha de tentar buscar dentro do esporte outras pautas que fujam um pouco daquela rotina da competição, sabe? Quem ganhou? Quem perdeu? Quem jogou melhor? Quem jogou pior? Então, estou sempre buscando, dentro do esporte, pautas que fujam um pouco do campo restrito da competição.
Há muitos casos. No Chile, por exemplo, o campeão nacional de ciclismo foi seqüestrado, aí depois o irmão dele venceu uma prova e dedicou ao irmão, o anúncio ao vivo foi censurado. Então, esses casos agora estou trabalhando para uma possível tese de mestrado. Devo começar em outubro um mestrado nessa área para tentar levar adiante esses outros casos que a gente levantou.
FOLHA - E daí você vai focar na história específica desse atleta chileno?
OUTEIRAL - Não, vou tentar ampliar e mostrar o que aconteceu no nosso continente, em relação aos atletas. E, aí tentar aprofundar mais, se é possível traçar uma comparação entre, se algum país teve um envolvimento maior ou menor, porque tudo o que eu te falei ainda são impressões iniciais, pode ser uma coisa mais aprofundada, um mestrado, quem sabe um livro no futuro, não é? Porque o plano de fazer um documentário e ir a todos esses países foi por água abaixo no momento em que a gente não teve nenhum patrocínio, nenhuma lei de incentivo, nada.
FOLHA - Como é que vocês fizeram o documentário?
OUTEIRAL - Nós nos reunimos, eu, o Marco Villalobos, com um cinegrafista, diretor de fotografia, também de Porto Alegre, com um equipamento emprestado, passagens do nosso bolso, algumas milhas, alugamos um apartamento quarto e sala em Buenos Aires, ficamos lá oito dias, fazendo entrevistas, captando imagens, pesquisando, aí fomos a La Plata e rodamos lá por Buenos Aires. Foi algo, assim, muito gratificante do ponto de vista não só jornalístico, mas também pessoal, entrar em contato com essas pessoas. Você viu os depoimentos são muito fortes.
É o nosso primeiro trabalho, como documentário. A gente sabe que tem falhas, tem problemas, mas foi o que a gente celebra, assim, que ele foi o filme possível, feito com muita garra. O retorno tem sido bem legal das pessoas que assistem e todas com o mesmo sentimento de que essas histórias têm mesmo que serem divulgadas para que não se repitam mais, essas barbaridades...
Escrito por Rodolfo Lucena às 06h47
Correndo no frio - dicas de alimentação
Metabolismo acelerado
Está certo que o inverno brasileiro não se compara com as temperaturas de outras plagas, no hemisfério norte ou mais ao sul do Chuí. Mesmo assim, há dias em que a gente só quer ficar na cama, protegido por cobertas quentinhas.
Mas o espírito guerreiro do corredor se manifesta, e vamos para a friaca de calçãozinho e regata. Depois, o atleta vira um Taz famélico e ataca o que vier pela frente.
Calma, gente, é preciso equilíbrio mesmo no inverno. Aliás, correr no inverno é o tema de minha coluna de hoje no caderno equilíbrio, da Folha (AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL). Para escrevê-la, ouvi várias pessoas. Uma delas foi a nutricionista Tânia Rodrigues, da RGNutri, que conversou comigo por e-mail.
Na entrevista, ela dá algumas dicas para a gente conhecer melhor nosso corpo no período invernal. Eu adorei a frase "Não há comidas que os atletas não possam consumir"...
FOLHA - No frio, a gente engorda? Por que? O que fazer para não engordar?
TÂNIA RODRIGUES - No inverno, nosso organismo acelera o metabolismo para proteger-se do frio. Com isso, há uma maior necessidade de energia para manter a temperatura normal do corpo. A vontade de consumir alimentos mais calóricos, como chocolates, fondues e massas também aumenta. Esse efeito, associado a uma fome maior, pode contribuir para o ganho de peso.
Para evitar os indesejáveis quilinhos a mais, é importante manter uma alimentação equilibrada, realizar de cinco a seis refeições ao dia e praticar uma atividade física regularmente.
Os alimentos típicos dessa época do ano, como chocolate quente e fondues, devem ser consumidos com moderação e vale abusar da criatividade para elaborar preparações com ingredientes mais saudáveis.
FOLHA - Há comidas especiais para o frio?
TÂNIA RODRIGUES - Não existem comidas especiais para o frio. Mas boas opções para essa época do ano são as sopas preparadas com ingredientes frescos e nutritivos, como uma sopa de legumes com frango. Os chás, além de saborosos e pouco calóricos, também ajudam a aquecer o corpo e são uma ótima alternativa para os lanches.
FOLHA - Há comidas que parecem ótimas para o frio, mas que não são recomendadas para atletas?
TÂNIA RODRIGUES - Não há comidas que os atletas não possam consumir. A preocupação é apenas com a quantidade de alimentos ricos em gordura e calorias e com a freqüência com que eles são consumidos. Nesse caso, para os atletas valem as mesmas recomendações que para os indivíduos sedentários: o uso da moderação no consumo de alimentos mais calóricos e menos saudáveis, para manter a alimentação equilibrada.
FOLHA -No frio, o corredor deve mudar seu regime alimentar?
TÂNIA RODRIGUES - O corredor não precisa mudar seu regime alimentar no inverno. Se houver fome, uma dica é fracionar bastante as refeições. Comer em intervalos de duas ou três horas ajuda o corpo a se sentir saciado e ainda por cima o mantém ativo.
Se as saladas não parecerem atrativas nessa época do ano, aumente o consumo de legumes cozidos ou assados. As frutas também podem ser consumidas assadas ou cozidas e são ótimas opções para os lanches.
FOLHA - Para mim, a hidratação no frio é um problema. Os tais três litros de
água por dia me fazem sentir congelado. Dá para substituir por chá
quente, por exemplo? E chocolate quente?
TÂNIA RODRIGUES - A quantidade de líquidos a ser ingerida por dia varia de acordo com as características indivíduo e do tipo de exercício que ele pratica. O chá quente pode ser consumido no lugar da água ou sucos para manter o corpo hidratado. A substituição por chocolate quente, no entanto, não é ideal, pois sua composição é bastante diferente da água. Ao tomar chocolate quente para hidratar, há um consumo elevado de açúcar, gordura e, conseqüentemente, calorias.
Escrito por Rodolfo Lucena às 15h11
Leitor relata estréia na maratona do Rio
Com câimbras, mas no clube
FÁBIO ROGÉRIO SILVEIRA NAMIUTI, 37, analista programador que já freqüentou estas páginas, volta agora com o relato de sua primeira vez nos 42.195 metros. Foi no deslumbrante cenário da orla carioca, mas nem toda a beleza cura algumas dores. Vamos ao texto dele.
"O domingo passado custou a chegar, e o caminho até ele não foi nada fácil. Para ter o direito de estar na largada da Maratona Internacional do Rio de Janeiro, investi muito suor e disciplina. Pretendia estrear na distância em porto Alegre, mas uma contusão me obrigou a mudar os planos. Os treinos, ao longo de 15 semana, foram duros, ainda mais para alguém que, até então, nunca tinha passado dos 25 km.
O dia estava bonito, o calor até veio, mas a temperatura felizmente não atingiu as alturas previstas. A largada foi na hora prevista, seguindo do Recreio no sentido à praia à Praia da Macumba, só uma voltinha rápida e estreita para aquecer e preparar para o retão, esse, sim, de responsa: um trecho de 18 km em belo cenário, mas igual o tempo todo. Inóspito, tão deserto que até cacto tem. Ainda bem que com vários oásis de água gelada.
O ritmo estava fácil de manter. Na Barra, começaram a aparecer alguns espectadores, raros no trecho anterior. Passamos a dividir o espaço com carros, mas, tirando os motoqueiros invadindo a área dos corredores, nenhum incidente.
A metade da prova foi bem recebida, ainda mais que representava mudança no percurso. Não sou maníaco por subidas, mas, depois de tanta planície, uma ladeirinha não caía mal. A subida no Joá, que na altimetria parecia considerável, não passou de um mero viaduto. A outra era minha velha conhecida. A Niemeyer, na Meia do Rio, tem mais nome do que dificuldade. É longa, mas suave. Mas, na Meia, é no início, quando estamos todos cheios de gás. Como seria agora, já com 27 km de prova?
A subida foi gratificante. Após ter perdido colocações no plano, recuperei outras tantas ultrapassando corredores transformados em caminhantes. A massa se arrastando assustava, mas subi com tranqüilidade. Quase no fim, comecei a sentir uma ardência nos pés e achei que molhar aliviaria.
Não estava errado, mas a parada custou caro. No que voltei a correr, surgiram câimbras na coxa e panturrilha. E estava apenas no km 29!
Andei o resto da subida e tentei retomar o ritmo na descida para o Leblon, mas o estrago estava feito. Acabaria a corrida e começaria o meu rastejar em direção à chegada.
Num dia bonito, praias lotadas; a maioria ignorou a prova. Em uns lugares, me senti transparente; em outros, obstáculo entre prédios chiques e praia. Em momentos difíceis, um incentivo pode tornar um km mais curto. Vou preferir correr no Rio em dias nublados.
A orla foi longa, ainda mais na velocidade que me era possível, mas passou. Cada vez que tentava aumentar, a panturrilha me limitava.
Quando finalmente mudou a direção, os túneis-estufas desta vez foram bem-vindos por esconderem o sol. Avisto o Pão de Açúcar, que indica o final mais próximo.
Torcedores reapareceram, em pequeno número, mas mais animados. Com eles, voltou a empolgação, que, se não me fazia correr mais, ao menos me impedia de andar.
Pela primeira vez vi, uma placa com 42 escrito e ela me abriu o apetite. Os 195 m finais foram em sprint.
Dei um grito, cheguei ao final. Não como gostaria (4h50min para quem treinara para 4h), mas faço parte do clube também. Não sou sócio VIP, vou tentar virar um nas próximas oportunidades."
Escrito por Rodolfo Lucena às 18h44
Maratonistas perdem o ônibus para a largada
Ah, se fosse no Brasil....
Imagine só o que a gente não iria xingar: cerca de 400 corredores perderam os ônibus gratuitos que os levariam ontem para a largada na Seafair Marathon, em Seattle, EUA, e não puderam participar da corrida.
Os organizadores perceberam que havia um problema no transporte e atrasaram a largada em 15 minutos, mas, mesmo assim, esse povo todo que treinou como você sabe ficou a ver navios.
Os organizadores colocaram 30 ônibus escolares rodando a partir da cinco da manhã entre o parque Bellevue e o estádio onde seria dada a partida da competição. Cada um faria quatro viagens, levando 50 pessoas a cada vez, o que, em tese, daria para colocar todo mundo na largada antes das 7h.
Mas o povo resolveu chegar para os ônibus mais tardios, e filas imensas se formaram para a viagem das 6h45. A prova não podia ser atrasada por mais tempo por causa de exigências das autoridades controladoras de trânsito.
Mas que fique claro: os corredores chegaram dentro do tempo previsto para as saídas dos ônibus.
Cerca de 5.000 pessoas estavam inscritas para a prova, e aproximadamente 4.600 conseguiram participar do evento, segundo cálculos não-oficiais.
A organização prometeu entrar em contato com cada um dos maratonistas frustrados. "Queremos que eles fiquem satifeitos", disse um porta-voz dos patrocinadores.
Você ficaria?
Escrito por Rodolfo Lucena às 12h03
