Blog do Rodolfo Lucena - + corrida
 

Surpresas e decepções na Golden League em Roma

Pequim ainda distante

 

O duplo amputado Oscar Pistorius, campeão paraolímpico que está tentando obter uma vaga na Olimpíada de Pequim, não conseguiu carimbar o passaporte ontem, em Roma. Ele disputou os 400 m, mas ficou longe do índice B; aliás, não foi possível sequer melhorar seu recorde pessoal, como esperava.

Pistorius, também conhecido como Blade Runner, por causa de suas próteses em lâminas, conquistou na Justiça o direito de competir por uma vaga olímpica, e vem trabalhando duro para isso. Ontem chegou em antepenúltimo na corrida 2, marcando 46s62 (foto Reuters).

Foi a primeira vez que o vi correr ao vivo, na transmissão da TV italiana. Por causa das lâminas, ele tem uma largada mais lenta que a dos outros corredores, mas, aos poucos, ganha ritmo e consegue se aproximar do grupo.

Enfim, não me parece que as lâminas lhe dêem algum tipo de vantagem. Ontem, Lauter Nogueira comentava sobre a resposta mais rápida das prótese e sobre o fato de que o corredor não sentiria dor nas pernas... Mas é preciso ver também todos os outros problemas que ele teve de superar e precisa enfrentar a cada prova...

Pelo desempenho ontem, parece difícil que venha a atingir o índice, mas sua trajetória e determinação devem ser inspiradoras para todos.

Falando em determinação, foi o que pareceu faltar para o ex-recordista mundial Asafa Powell na prova classificatória dos 100 m. Ele começou mais ou menos, mas logo dominou o terreno e, nos 80 m, parecia claro que iria ganhar e com muita folga. Foi quando desacelerou e foi engolido pela turma que vinha atrás.

A impressão que deu foi de excesso de confiança, de que ele tinha achado que estava no papo e relaxou, em vez de continuar. Afinal, em certas competições, não basta vencer, é preciso brilhar...

Mais tarde, ele mesmo informou que tinha sofrido uma câimbra na virilha. E, obviamente, ficou de fora da final.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h34

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Russa detona mais uma vez seu recorde

Meninos, eu vi

Foi sensacional! O feito, em si, não me deu muita emoção, pois é, basicamente, apenas um pulo (sem desrespeito a ninguém, por favor). Mas a expressão da russa Yelena Isinbayeva ao erguer a cabeça do colchão, depois de passar a barra colocada na altura de 5,03 m, vitoriosa, exultante, é inesquecível --mesmo que vista de tão longe, apenas pelos olhos das câmeras da TV italiana.

A russa é um dos mitos do atletismo moderno: nos últimos anos, vem derrubando marcas como se estivesse em um jogo de boliche. Em 2005, foram mais de dez quebras de recorde (todas marcas dela mesma).

Além disso, bela tanto ou mais que as musas eslavas do tênis, cria toda uma aura em torno de si a cada vez que compete, chamando os cliques dos fotógrafos e os olhares das câmeras (foto do alto Divulgação/IAAF; ao lado, da Reuters).

Na ponta da pista, antes de iniciar sua corrida para vôos jamais experimentados por outras mulheres, ela se concentra. Fala consigo mesma em palavras pronunciadas rapidamente, como se fosse parte de uma oração, de uma advertência, de uma chamada à concentração.

O ritual também se passa à relação dela com a vara. Passa nas mãos um preparado para evitar deslizes; a vara também recebe o preparado. Ela equilibra seu instrumento de trabalho, faz movimentos amplos com os braços, larga novamente seu aparelho propulsor, está quase pronta.

Vai iniciar a corrida, a explosão. Antes, prende a correntinha por dentro de seu top, para que a medalha não balance. E parte quase aos saltos, numa corrida toda especial, que logo ganha impressionante velocidade.

Ela já tinha derrubado a barra uma vez, nos 4,95 m, provavelmente por falta de velocidade na corrida: superara o obstáculo com folga, mas na descendente, ficou perto demais. Ou seja, na vertical foi ótima, mas na horizontal deixou a desejar. Falha que corrigiu logo em seguida, quando acertou o ponto de partida para a corrida e fez alguma modificação de estilo sugerida por seu técnico. Tinha, portanto, a experiência necessária para saber quando saltar e como superar o obstáculo colocado em altura recorde.

E assim fez, literalmente no apagar das luzes da terceira edição da Liga de Ouro deste ano, ontem à noite, no estádio olímpico de Roma. Ela superou por dois centímetros sua marca anterior, de 5,01 m, estabelecida de 9 de agosto de 2005. E foi com folga, deixando claro que novas alturas vêm por aí e respondendo na pista aos que achavam que sua carreira tinha estagnado e que ela, aos 26 anos, partia para o descenso inelutável.

O encontro italiano da Liga de Ouro também serviu para reduzir ainda mais o seleto grupo de atletas em condições de disputar o prêmio máximo de US$ 1 milhão, reservado a quem consiga vencer, em sua modalidade, em todas as seis etapas da série de competições.

O americano Bershawn Jackson, dos 400 m com barreiras, não conseguiu se manter entre os competidores. Também frente às barreiras, mas nos 100m, Josephine Onya, naturalizada espanhola, viu desparecer sua chance de levar o prêmio.

Ao final da competição, restaram apenas duas atletas em condições de alcançar o prêmio. No salto em altura, a croata Blanka Vlasik passou com folga os 2 m para ganhar o ouro e ficar na disputa milionária. A outra desafiante é a jovem queniana Pamela Jelimo, 18, que bateu o recorde com evento ao vencer os 800 m em 1min55.69.

Escrito por Rodolfo Lucena às 08h00

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Fala, leitor - ainda a maratona do Rio

Abstinência de chocolate

Não costumo publicar mais de um relato sobre o mesmo evento, mas, quando vi a foto da alegria do engenheiro RODRIGO LUCCHESI por ter completado sua primeira maratona, achei que você também ia gostar de conhecer a história. Lucchesi, de 29 anos, corre há seis anos, parando e voltando, e promete se firmar agora, planejando vir a fazer uma maratona por ano, já que entrou no clube. Acompanhe o relato de sua estréia.

"No dia 29 de fevereiro, quando faltavam exatos quatro meses para a maratona do Rio, resolvi que havia chegado a hora de escrever um capítulo importante na minha vida. Que livro, que árvore, que nada... Eu ia para a maratona!

Ao longo dos quatro meses, teve de tudo para eu parar de treinar: lesão na planta do pé (fiquei uma semana sem correr), viagens de trabalho, provas no mestrado, a famosa preguiça naquele dia chuvoso... Aos trancos e barrancos, consegui treinar uma média de três vezes por semana. E meu longo mais longo foi de ‘apenas‘ 30 km.

Na véspera da prova, a parte mais difícil da maratona: DORMIR! Deitei às 11h da noite, e foi um tal de vira pra cá, vira pra lá e nada... Quando adormeci, comecei a sonhar que não estava conseguindo dormir (?!) e acordei às 4h da manhã.

Resumindo: dormi um tempo líquido de 3 horas. O que me deixou mais tranqüilo foi que já me disseram que o sono mais importante é o da noite anterior à véspera, e nesse eu havia caprichado...

Comecei em um ritmo confortável (6 min/km), o tempo não estava tão quente, consegui fazer os primeiros 21 km em 2h05min. A segunda parte da prova é que era pra valer: elevado do Joá, subida da Niemeyer, calor do Aterro. Ainda bem que levei comigo duas aspirinas que consumi para diminuir as dores que sentia nas pernas. Sem elas, teria sido bem mais difícil.

O trecho entre a av. Princesa Isabel e o Aterro é o mais difícil, é quando as pernas começam a pedir arrego, não existe mais a platéia das praias que dava aquela força, o calor aumenta.

Ao entrar no Aterro, a maioria das pessoas caminhava, como se fossem soldados voltando da guerra, trôpegos. Fiz questão de não parar de trotar nesse trecho porque sabia que voltar a correr depois iria ser muito doloroso. Então continuei no meu trote devagar e sempre.

Reta final! Vejo enfim as barracas das equipes e o pórtico de chegada: meus últimos quatro meses passam em flashback pela minha frente, lembro dos treinamentos mais pesados, da dificuldade em acordar cedo, da abstinência de chocolate nas últimas semanas...

O coração acelera, meus olhos se enchem de água, penso na minha família e nos meus amigos que me apoiaram, começo a gritar, minhas pernas dão aquele último gás, abro os braços, vejo minha esposa na linha de chegada e, literalmente, corro pro abraço!!!

Fim de prova! Tempo líquido de 4h47min, meta cumprida (e comprida!) e sonho realizado! Ano que vem vou de novo!"

Escrito por Rodolfo Lucena às 20h16

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Correndo no frio - dicas de treinamento

Aquecer e alongar

Na seqüência do material especial sobre treinos no período do inverno, apresento a seguir uma entrevista com Mário Sergio Andrade Silva, diretor técnico da assessoria esportiva Run&Fun.

FOLHA - Quais são os riscos de correr no frio?

MÁRIO SERGIO - O maior risco é o aparecimento de lesões, principalmente as musculares, por falta de um aquecimento inadequado. O outro é a desidratação, porque no frio temos menos vontade de hidratar, o que pode nos levar a beber água menos do que o necessário. Finalizando: quando acabamos de treinar, estamos ainda bem molhados por conta da transpiração; a secagem e o uso de roupas secas nos protegem da chance de gripes e resfriados.

FOLHA - Como o corredor deve se precaver para diminuir esses riscos?

MÁRIO SERGIO - No caso do risco de lesões, a melhor maneira é fazer um bom alongamento antes e depois dos treinos. Após esse alongamento, aquecer bem devagar por de 15 a 20 minutos antes de aumentar a velocidade ou mesmo enfrentar subidas. Dessa maneira, aquecemos bem e recrutamos fibras antes de exigi-las.

No caso da desidratação, o negócio é beber água antes, durante e depois dos treinos mesmo sem sentir vontade. De fato, quando sentimos sede é que já estamos em débito. Uma boa maneira de ir acompanhando isso é olhar a coloração da urina: quanto mais clara melhor.

Para evitar gripes e resfriados ou coisa pior (pneumonia), é sempre bom ter roupas secas para colocar após o treino e não ficar conversando ou demorando antes de trocá-las.

FOLHA - Há algum tipo de alimentação especial?

MÁRIO SERGIO - Não. O principal é a hidratação, mas a dica de nunca treinar em jejum continua valendo.

FOLHA - Há risco se o corredor usar muita roupa?

MÁRIO SERGIO - Sim. Usar roupas que o mantenha aquecido é uma boa, mas não adianta se encher de agasalho, pois pode ajudar no processo de aumento da transpiração. As roupas devem possibilitar a troca de calor dos nossos vasos capilares com o ambiente. Assim, saco plastico, muitos agasalhos ou mesmo várias camisetas não são indicados. Um bom agasalho, que não deixe entrar o vento frio, calças de material elástico, que não tiram os movimentos, luvas e gorros acabam sendo mais indicados.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h18

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Fala, leitor - Desafrio Urubici

Bolha, lágrimas e alegria

O leitor Bethoven Soares Darcie, de 42 anos, sem nunca ter sequer participado de uma maratona, resolveu enfrentar o Desafrio de Urubici, uma corrida de 50 km nas montanhas de Santa Catarina. São trilhas e asfalto, frio, abastecimento irregular, exigência de que você carregue materiais de primeiros socorros e um percurso que chega ao topo do Morro da Igreja, o ponto mais alto do Sul do país. É lindo, eu adoro aquela região, mas nunca fiz essa corrida, que está na minha lista de planos futuros. Com uma ponta de inveja, coloco a seguir a história de Bethoven, nascido em Goiãnia, funcionário público, apaixonado por um futebolzinho de fim de semana e, desde o último dia 28 de junho, ultramaratonista.

"Poucos minutos depois da largada, no centro da cidade, já corríamos em uma estrada de terra. A temperatura estava boa, cerca de 10 graus. A paisagem era linda: fazendas rústicas, pastos verdes com algumas araucárias ao pé da serra, riachos com suas corredeiras e por trás os morros, como se estivesse abraçando todo aquele cenário.

Os primeiros dez quilômetros foram bem, não fossem os pés já totalmente molhados por causa da umidade do terreno, encharcado depois de vários dias de chuva. O contato deles com o solo fazia splash, splash.

Logo chegamos ao trecho considerado perigoso pelos organizadores. Olhei para cima e pensei "não é tão difícil assim." O maior problema era manter o equilíbrio, pois a forte inclinação do terreno, a lama e as várias pedras soltas conspiravam contra nós, os corredores.

Após vencer as primeiras subidas, com os pés e as pernas cheios de lama, e chegar ao asfalto pensei comigo mesmo: "Foi cansativo, mas nem tanto, esse povo exagera nas dificuldades" pobre coitado, não tinha idéia do que me esperava.

Já no negro caminho construído, que contrastava com o verde da paisagem lateral, rumo ao topo do Morro da Igreja, com seus mais 1.800 metros, a temperatura ia despencando.

Uma cerração dificultava a visibilidade, eu não enxergava mais que cinco metros à frente. Após uma subida forte, veio outra, mais inclinada ainda, depois, mais uma para variar, outra, idem, ibidem... As pernas já começavam a doer pelo esforço de vencer os incomensuráveis aclives.

Finalmente, após pouco mais de três horas, cheguei ao topo. O frio era intenso, 0º, e a sensação térmica muito mais baixa, pois o vento e a chuva dificultavam o corpo a se manter aquecido. As finas gotas de água pareciam adentrar a pele de meu rosto única parte de meu corpo desprotegida devido à força do vento.

Ainda no topo, me servi da sopa e de vários pedaços de pão distribuídos pela organização e me encostei atrás de um carro, protegido do vento e da chuva. Lá fiquei por cerca de 20 minutos, criando coragem para enfrentar o retorno e, principalmente, o frio. Aí em lembrei do cobertor de sobrevivência. Uma garota da organização me ajudou a abri-lo pois o tremor das mãos dificultava, cobri meu corpo e peguei a estrada novamente.

Para os que pensam que "para baixo todo santo ajuda", ledo engano. O impacto do corpo na descida é muito maior, podendo provocar sérios danos às articulações. Ademais, não era uma descida qualquer, mas sim mais de 20 km de declives.

Com o passar do tempo, já nas trilhas, a planta do pé começa a doer. Não conseguia me lembrar por que desistira de usar a palmilha de silicone que tanto havia me ajudado durante os longões. Senti na pele --ou melhor, nos pés-- o ditado de que "qualquer erro de estratégia a ultramaratona te cobrará na metade final".

Eu cometera dois: não havia colocado as palmilhas e forçara demais em algumas subidas. Após mais de 40 km corridos, meus pés doíam. Ao final ficou como recordação uma bolha de sangue em meu pé esquerdo.

Os últimos quilômetros pareciam não ter fim. Meus pés estavam em brasas, a coxa direita começava a doer também e, por mais que eu me esforçasse, seguia lentamente.

Até que vi o local da chegada, um alívio tomou conta de meu corpo. O que era temor de não conseguir passou a ser alegria. A dor desaparece e as lembranças do esforço, das belezas e da emoção de chegar até ali tomam conta de mim, algumas lágrimas descem, é uma sensação incrível.

São recordações inesquecíveis. Por isso eu amo correr, por isso estou sempre em busca de novos limites, novos desafios, novas emoções, pois, a meu ver, essa é uma das partes mais gratificante da vida."

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h56

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PERFIL

Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 51, é editor de Informática da Folha, ultramaratonista, autor de "Maratonando, Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record).

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