Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Dicas de última hora para a São Silvestre

Relaxe e aproveite

Pelo título, você já pode prever o tom do que vem por aqui. Mas, mesmo assim, vou falar: agora não há mais nada que você possa fazer para melhorar o ritmo, reforçar a musculatura ou aumentar sua resistência. Se você vai correr a São Silvestre, esqueça treinos por estes dias e dê um tempo ao corpo e à mente.

Descansar bem, alimentar-se adequadamente e beber bastante água é o caminho para estar em boa forma na hora da largada. O que você treinou está treinado, às cinco da tarde do dia 31 é queimar o chão e ver o que dá.

Mas sempre há erros que a gente pode evitar, se estiver atento.

Agora não é hora de inventar nada. Não use roupas novas nem experimente comidas especiais. Fique na sua alimentação normal, beba água varias vezes por dia e, durante a prova, tome alguns goles em cada posto de água. Eu uso um sache de carbo-hidrato no km 10, mais ou menos.

Não precisa chegar muito cedo.O risco é ficar exposto ao sol, à balbúrdia e ao fedor de xixi que toma conta da avenida. Na minha primeira São Silvestre, cheguei à Paulista pouco depois das 14h30, fui procurar lugar, aquela coisa toda, fiquei quase duas horas quarando ao sol... No ano passado, cheguei às 16h30 de metrô, fui para uma sombra, esperei a hora da largada e calmamente caminhei até o pórtico.

Talvez tenha sido um pouco exagerado, mas a mensagem é: clama, não é preciso afobação. Use o metrô, desça na estação Trianon/Masp, que você vai ficar bem posicionado.

Uma vez dada a partida, contenha seu espírito competitivo durante o primeiro quilômetro. A Paulista estará lotada mesmo, tentar correr ali é só causa de estresse. Ou você atropela alguém ou alguém o atropela ou alguma outra confusão acontece. Aproveite que o trecho é repleto de público entusiasmado, abane para os espectadores, pense que você pode aparecer na TV e siga em frente.

Ao dobrar a esquina e entrar na Consolação, a coisa muda de figura. Já dá para aumentar o ritmo, a multidão chama por seus heróis, seu corpo pede raia... De novo, cuidado. É aqui que você pode se estrepar. Se descer muito forte, a musculatura pode chiar mais tarde. Então calma, que logo logo você vai poder queimar o chão.

Beba um gole de água no primeiro posto, aproveite também o precioso líquido na avenida São João e, em seguida, dê um tirinho mais forte para subir brioso a alça de acesso ao elevado, Se você economizou antes, ali já estará passando outros corredores de língua de fora...

Agora, sim, solte a perna no elevado. É um dos pontos mais gostosos, com muita gente nas janelas dos prédios vizinhos gritando incentivo ou fazendo piada. Se estiver muito sol, busque as áreas de sombra.

Saindo do elevado, há um monte de voltinhas por uma área mais feia do percurso. É também onde costuma ficar um chuveiro para refrescar a turma; eu prefiro evitar, mas há quem goste. Molha os tênis, aquela coisa toda. Mas, do jeito que a coisa está na cidade, é bem possível que a prova seja sob chuva.

Tudo bem. Eu já corri umas três vezes sob temporais de várias intensidades e sempre foi melhor do que nos dias de calor intenso, solaço infernal. Claro que há um certo desconforto, mas, pelo menos para mim, o calor intenso é bem pior que a chuva forte.

Bom, cruzando o viaduto Antártida, você passou a metade da prova. Agora solte o pé. Vem aquele maldito retão, em que é preciso se concentrar para não entrar em alfa e perder o ritmo.

Depois, aproveite a turma de bebados e gente da rua que fica nos bares no largo do Paissandu. Há sempre alguém dizendo piada...

Renda homenagens ao teatro municipal e dê uma leve diminuída de ritmo no viaduto do Chá. Essa redução é apenas um preparo para subir com tudo a Libero Badaró e entrar forte no largo de São Francisco. Eu gosto de fazer isso porque é outro ponto em que muita gente já está de cabeça baixa, e a lomba ali é bem inclemente.

Além disso, o esforço extra é recompensado por uma leve descida na Cristóvão Colombo, que vai se transformar em Brigadeiro.

Sim, ela, a temida Brigadeiro Luiz Antonio, com sua assustadora subida. Olha, vou lhe dizer de uma vez: ela é grande, mas não é duas. Então, aperte o cinto, acalme-se e suba com fé e esperança, que o Ano Novo está logo ali, depois da curva da Paulista.

Dá para subir forte a maior parte dela, depois desacelerar pouca coisa a partir do viaduto, apenas para tomar fôlego e engatar um segunda a partir da igreja, recomeçando o processo de aceleração.

Você está quase lá. Faça a curva com o coração na boca, lágrimas nos olhos. Acene para o povo, mande beijinhos e corra que alguém vem logo atrás para tentar lhe tomar o posto. Corra e passe o pórtico de chegada de sua São Silvestre.

Parabéns!

E feliz 2010 para você que vai correr ou que não vai correr, para quem já correu ou para quem sonha com o dia de estar na avenida.

Um grande abraço.

Divirta-se..

Escrito por Rodolfo Lucena às 00h36

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Julia Roberts corre meia maratona com o Papai Noel

Coisa de cinema

 Imagine que você está participando de uma provinha na praia, coisa simples, uns 400, 600 corredores no máximo e, de repente, percebe que Sonia Braga está correndo por ali. Você de fato passa ao lado da mais eterna Gabriela que Jorge Amado jamais pensou em imaginar. O que você faz?

Guarda aquilo na memória de suas mais sensacionais experiências de vida, é claro, mas trata também de dar um jeito de registrar fisicamente aquele momento para a posteridade, não é? Se não levou seu celular ou câmera de bolso, arranja alguém mais prevenido e trata de dar aquela da fã sem noção, pedindo para tirar uma foto ao lado da ídala agora corredora, praticamente uma colega sua, parceirona. Qualquer coisa, vocês saem dali e vão tomar uma cerveja que está limpo.

Pois saiba, prezado leitor, que mais de 600 corredores dos Estados Unidos tiveram uma chance semelhante e nem unzinho de Deus se deu ao trabalho de fazer o registro. Minto. Com certeza, alguns fizeram as imagens, mas, pelo menos na rápida busca que fiz pela rede, elas não estão encontráveis.

Mesmo assim, vou contar a história, e juro que é verdadeira. Eu não vi, mas há quem diga que viu: Julia Roberts correu uma meia maratona na Califórnia, partindo em disparada (como todos os outros corredores) depois que Papai Noel deu o sinal de largada.

Talvez você seja muito novo para saber quem é Julia Roberts, pois então lhe digo. Ela é uma atriz de cinema, estrela de Hollywood, e durante anos foi A mais bem paga do mercado, o que pode não importar muito para nós, simples mortais, mas é uma indicação da importância dela para o pessoal do celulóide (será que as fitas de cinema ainda são em celulóide? Acho que hoje é tudo digital, mas vá lá, isso mostra que eu sou daqueles tempos).

Ela ganhou os corações e mentes e as fantasias libidinosas de homens e mulheres pelo mundo afora quando estrelou a comédia romântica "Uma Linda Mulher", em que fez o papel de uma acompanhante de luxo. Bueno, também correu muito no cinema, como a noiva que sempre fugia do altar na hora exata do casório --o cartaz desse filme era a dita cuja carregando seus tênis...

Pois há dois domingos ela calçou novamente os tênis para enfrentar 21.097 metros numa corrida em uma cidadezinha da Califórnia, a Santa to the Sea Half Marathon, em Oxnard.

A prova leva o nome pois começa próximo a uma gigantesca estátua do Papai Noel, e muitos corredores usam fantasias do bom velhinho no circuito até o porto. É uma corrida pequena, que reuniu 630 participantes nesta sua segunda edição. Nem todos fizeram os 21,1 km, pois havia ainda uma provinha de 5 km e a meia em revezamento...

Pois não é que os caras não perceberam que a atrizona estava lá. Tudo bem que ela estivesse pouco reconhecível em roupas menos glamurosas, mas aquela bocona é sua marca registrada. de qualquer forma, ao longo da prova a turma foi se dando conta, e a história se espalhou.

"Passei dela no km 18", disse um garotão de 18 anos à sua mãe, com quem dividiu o percurso. E os dois mais uma montoeira de gente ficaram esperando Julia chegar.

Ela completou o trajeto e foi saudada por seus três filhos, naquele estilo "minha mãe é uma heroína!", e ainda teve simpatia suficiente para aceitar tirar fotos com fãs.

Imagens que ainda não achei. Se você tiver a pachorra de destinar à busca mais tempo do que , provavelmente encontrará os tais registros. Mande notícias, se isso ocorrer.

Mas o que vale é lembrar que Julia Roberts está por aí, correndo. Encontrá-la numa dessas pode ser um bom presente de Papai Noel para os corredores simples deste mundo.

 

PS.: Como eu não me canso de dizer, os leitores deste blog são fabulosos, e vários encontraram fotos da JR corredora. Confira nos comentários, ok.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h44

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Feliz Natal, pessoal!!!

Ho, ho, ho!

Este é o terceiro Natal deste blog, e cada passagem tem sido mais gostosa e cálida que a anterior.

Tudo graças a você, sua leitura, seus comentários, críticas e sugestões (bom, espero também ter dado meu quinhão de contribuição).

Aqui temos um espaço para compartilhar nossa alegria e diversão, também chorar as pitangas quando for o caso, mas não chorar pelo leite derramado, que por esse não adianta verter lágrimas...

Lágrimas que... Ih, meu caro, já ia engatar uma segunda e mandar ver num texto poético, dramático, aquelas coisas de fim de ano.

Mas não carece.

Por nossa amizade, dê cá um abraço e leve outro.

Tenha saúde, vele pelos seus e se divirta por muitos e muitos outros natais.

Hõ, hô, ho!!!

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h41

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As melhores corridas de 2009

Balanço parcial

Entidades do mundo esportivo, associações de atletismo e publicações da área já divulgaram seu tradicional balanço do ano, avaliando quem foi o melhor atleta, a melhor prova, o mais desejado produto e por aí vai.

Tenho a dizer que, na íntegra, não concordo com nenhuma das listas que vi. São parciais, pouco inclusivas e pouco transparentes.

Pois resolvi então fazer uma pequena lista totalmente transparente, ainda que também total parcial.

Transparente porque você, sua excelência, o leitor, sabe de antemão quais são os critérios de eleição e quem são os eleitores.

Trata-se de apenas um juiz, este blogueiro, e os critérios são os de minhas gostanças, totalmente arbitrários e, quiçá, até volúveis, pois podem valer para uma coisa e não para outra categoria votada. Também que fique claro que falo apenas do que vivi, vi ou acompanhei de perto.

Começo elegendo a melhor prova do ano neste Brasilzão de sol, amor e confusão. Neste ano, corri por esta plagas três maratonas, algumas meias e um bom número de provas de distâncias outras, de dia, à noite, nos centros urbanos, em praias e no hinterland nacional.

Pois minha eleita como melhor prova do ano é a Interpraias, uma corrida de 18 km em Camboriú, que margeia um rosário de belas praias catarinenses, oferece morrões para subir e ainda nos brinda com trechos planos para queimar o asfalto. Ao longo do percurso, água em abundância e até postos de frutas.

Como se isso fosse pouco, os organizadores ainda se esmeram em dar muita atenção a cada corredor, além de muito valor pelo preço da inscrição: há uma mesa de bolos e frutos durante a tarde da retirada dos kits, ônibus gratuitos levam os atletas até o barco, que gratuitamente transporta a turma até a praia da largada. Antes da partida, um lauto café da manhã e, depois da chegada, generoso almoço. Tudo incluído, o que mostra que, mesmo com poucos recursos e cobrando pouco, dá para fazer uma prova rica, bonita e divertida. Ah, faltou dizer que há troféus para as categorias, o que faz com que boa parte dos atletas saia de lá com mais um bibelô para enfeitar sua sala.

Em segundo lugar, elejo a meia maratona internacional de Uruguaiana, que atravessa a fronteira com a Argentina e oferece um percurso bastante rápido e agradável.. Neste ano, faltou água em alguns postos no trecho argentino, mas houve bebida farta na parte brasileira. Depois da prova, churrasco e apresentação artística de danças gauchescas. Tudo incluído na inscrição, assim como o ótimo jantar de massas (que foi um tanto bagunçado, mas estava bem gostoso).

No exterior, não fiz muitas corridas neste ano, o que torna a eleição um tanto viciada. Mas, mesmo assim, vou destacar a estupenda meia maratona de Maraussan, na França. O povo lá é de uma gentileza sem par, em que pese a fama de rudeza dos franceses. Há muita comida, bebida e hospitalidade na histórica cidade, onde foi criada a primeira cooperativa de vitivinicultores que se tem notícia neste mundo velho sem porteira.

O atleta do ano, em 2009, é uma atleta. Ninguém resume mais o espírito de luta do corredor que Lucina Ratinho, um simpática senhora que não se intimida diante de corridas de 24 horas e que fez 62 km na prova do Rio, no apagar das luzes deste 2009 ((ih, errei!!! Ela fez 62 km numa ultra noturna quando estava com 62 anos; na prova do Rio, mais experiente, fez 105 km. E já se prepara para aumentar a quilometragem nas 24 da Aman, em março). Sobre ela, leia AQUI o perfil feito por outro ultra da pá virada, o Carlos Dias, que cruzou os Estados Unidos de leste a oeste em empreitada beneficente, para arrecadar fundos para o Graacc, que atende crianças com câncer.

Entre os profissionais que vi em ação, também as mulheres foram destaque, começando pela guerreira Marily dos Santos e chegando às duas Marizetes, a Moreira e a Resende, merecedoras ambas de admiração. No masculino, gostei do espírito de luta de José Telles e da alegria de Adriano Bastos.

No plano internacional, pude ver pela TV várias maratonas. O queniano Wanjiru e o multirrecordista Haile são sensacionais, é claro, mas o que eu mais gostei de ver foi a garra de uma russa quarentona, Ludmila Petrova, que não deixou a peteca cair nas ruas de Nova York, mesmo acabando a prova em segundo lugar. Mostrou que é possível ser longevo na alta performance, o que é inspirador e bom augúrio até mesmo para os amadores.

O contraponto negativo do ano foram os aumentos dos preços das provas e a chegada de corridas com custo de inscrição que considero exorbitantes, levando em conta a realidade brasileira. Claro que isso é um negócio como qualquer outro e vivemos no capitalismo, onde o preço justo é o mais alto que o mercado aceite pagar --e as organizações de corridas estão praticando esse princípio com perfeição.

O que não nos impede de lamentar, pois é sabido que qualquer aumento de preços, por pequeno que seja, é um elemento limitante para grande número de pessoas. O que dizer então de reajustes de 40% e mais, ou de provas dujo preço de inscrição passa dos R$ 200?

Mas não quero terminar este balanço em tom reclamativo. Concluo, então, elegendo a revelação do ano. Para este escriba, vindo do mundo da tecnologia, foi o Twitter e seu criativo uso por uma boa parcela de corredores, que fez do microblog um ponto de encontro e comunicação, uma ferramenta de construção de amizades reais, concretas. Se você não conhece o grupo, entre no Twitter e faça uma busca por twittersrun, que vai logo descobrir uma turma alegre e divertida. Como devem ser as corridas...

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h28

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Maratona em teatro de Londres completa cem anos

Para inglês ver

 

Funcionário do teatro londrino Royal Albert Hall corre no palco especialmente preparado para receber uma corrida, recriando a primeira maratona corrida em ambiente fechado, que aconteceu em 18 de dezembro de 1909 ali mesmo, na casa da Royal Philarmonic.

Hoje, cem anos depois, dois corredores tomaram conta do território em que o britânico Charlie Gardiner e o italiano Dorando Pietri se enfrentaram no século passado.

Gardiner venceu a disputa, completando a façanha em 2h37. Já Pietri, que tinha conquistado o mundo no ano anterior, quando chegou em primeiro lugar na maratona olímpica, mas foi desclassificado apesar de sua heróica luta para completar, mais uma vez não aguentou o tranco. O vencedor ganhou 100 libras e Pietri, 50.

Naquela época, os agentes do britânico queria fazer o desafio em um parque, mas o irmão de Pietri bateu pé, dizendo que o corredor italiano não iria correr em terreno aberto entre os meses de outubro e abril, que são os mais frios na Inglaterra, onde o inverno começa em poucos dias.

A celebração de hoje (fotos EFE) foi um evento festivo, aberto pelos netos do corredor britânico e com a participação do diretor da Orquestra Filarmônica Real, Ian Maclay.

Foi também uma espécie de preparação para um evento que está sendo planejado para as festividades olímpicas, em 2012. Trata-se de uma maratona de revezamento orquestral, digamos assim, em que a batuta do maestro será o bastão a ser passado de uma orquestra a outra...

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h47

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Corpore aumenta preços de inscrições em 40%

Muito além da inflação

Que as provas de rua estão ficando cada vez mais elitistas, não há dúvida. Basta ver a expansão de circuitos conhecidos por seus preços muito acima da média.

Pois a Corpore, que programa a realização de mais de 20 provas no ano que vem, também anuncia novos preços. O reajuste vai muito além da mera recuperação das perdas provocadas pela inflação.

Veja.

No dia 21 de março, será realizada a prova de abertura do Circuito Corpore de Corridas. Com 11 km, a prova acontece na Cidade Universitária e as inscrições já estão abertas.

Os preços são os seguintes: até o dia 20 de fevereiro, associados pagam R$ 50 e não sócios R$ 65; após essa data, os preços sobre para R$ 55 para sócios e R$ 70 para não sócios.

Compare com os preços praticados no ano passado, nas inscrições para a meia maratona da Corpore, que aconteceu em abril (11 meses de diferença, portanto, em relação à abertura do circuito de 2010): sócios Corpore, inscrições até dia 31/01/2009, R$ 30, depois R$ 40; não associados Corpore - R$ 50.

O preço da inscrição tardia, para não sócios, subiu 40%!

Mas os sócios foram ainda mais prejudicados: o preço da inscrição antecipada, para associados da entidade, subiu 66,6% (de R$ 30 para R$ 50)!

E veja que estou comparando apenas o valor de face da inscrição. Se fosse comparar o preço por quilômetro, as diferenças seriam quase o dobro das citadas, pois a prova que usei como base foi a meia maratona da Corpore.

Bom, claro que a organização deve ter lá suas razões. É uma entidade privada e faz o que bem entender, dentro dos limites da lei.

E claro que só paga quem quer. Mas também é claro que é cada vez menor o número das pessoas que não podem pagar isso, mesmo se quiserem. Tomara que, para esse público, continue em operação o circuito de corridas das subprefeituras, que teve bastante sucesso neste ano em São Paulo.

Só para lembrar: a inflação deste ano, acumulada até novembro, foi de 3,93%. Ou seja, a inflação acumulada em 11 meses é menos de um décimo do reajuste do preço da inscrição tardia para não sócio da Corpore.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h53

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Ultra corre contra o câncer

Apoio na esteira

Às 10h de amanhã, o ultramaratonista Carlos Dias começa um novo desafio beneficente.

Vai correr 24 horas em esteira, vendendo quilômetros para arrecadar fundos para o Graacc - Grupo de Apoio à Criança com Câncer, divulgando também a ação da entidade.

Até agora, já vendeu dois blocos de 50 km cada um para dois patrocinadores, mas quem quiser pode comprar quilômetros no varejo mesmo.

Para mais informações sobre o projeto, clique AQUI.

O desafio será realizado na academia Ecofit, na rua Cerro Corá, 580 (zona oeste de São Paulo) e você pode aparecer apenas parar assistir ou dar aquela palavra amiga de incentivo.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h40

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Diretor de ‘Cidadão Boilesen‘ dá entrevista exclusiva

Ligações perigosas

O documentário ‘Cidadão Boilesen‘ foi um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. É um trabalho sério e corajoso, que traz para o debate um dos tantos episódios escondidos durante o período da ditadura militar brasileira, a colaboração estreita entre o empresariado e o aparato repressivo.

Henning Boilesen, cidadão dinamarquês e alto executivo do grupo Ultra, foi executado em 1971 por militantes esquerdistas, condenado por seu envolvimento com a Operação Bandeirante, um dos pilares da tortura a oposicionistas durante a ditadura.

O filme conta a história de Boilesen com um admirável distanciamento crítico, ouvindo apoiadores do empresário, do regime militar e da tortura, entrevistando militantes da esquerda e estudiosos do período, além de políticos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Do ponto de vista cinematográfico, é tudo muito simples e limpo, ainda que, às vezes, surpreendente. Tanto que, depois de ver o filme, no início deste mês, logo me deu a maior vontade de conversar com os realizadores do documentário, para saber como foi o processo de produção, tão semelhante à produção jornalística.

Acabei conseguindo entrevistar o roteirista, produtor e diretor Chaim Litewski, com quem falei por telefone e troquei e-mails na semana passada. Tudo isso resultou em uma entrevista publicada nesta quinta-feira na Ilustrada. No jornal, só deu para colocar um resumão de nossa conversa.

Por isso, trago para você aqui a íntegra da entrevista, já limpa de repetições e com algumas fotos do filme e de Litewski (abaixo). Deixo-a tal como fiz, acrescentando apenas, em certos pontos, trechos de nossa conversa por e-mail.

Não tem a ver com corrida, mas garanto que a tentativa de rever e entender o passado é uma maratona das mais difíceis, complexas e, à sua maneira, gloriosas.

Que siga o baile.

MAIS CORRIDA - O senhor nasceu onde e quando. Como era sua família?

CHAIM LITEWSKI - Nasci no Rio de Janeiro, em 1954 e cresci na Baixada Fluminense, em Nilópolis. Sou filho de imigrantes, meu pai era da Polônia, minha mãe era da Lituânia, da capital Vilna. Chegaram ao Brasil em 1947, sobreviventes do holocausto, de campos de concentração. Mamãe era professora numa escola judaica, em Nilópolis, por isso meus pais foram parar lá. Cresci lá e, enfim, aos 20 anos saí do Brasil para a Inglaterra. Fui aceito numa universidade, em um curso de cinema, em Londres e lá passei 11 anos. Em 1985 voltei ao Brasil e, no começo de 91, fui convidado para trabalhar na ONU, onde estou desde então.

MAIS CORRIDA - Quando o senhor percebeu que queria fazer cinema?

LITEWSKI - Acho que desde os 11 anos de idade. Eu ganhei uma Super-8, então eu fazia algumas filmagens lá em Nilópolis. Eu editava, tinha gosto pela coisa, e papai e mamãe admiravam muito cinema. Naquela época, nos anos 1960, lá em Nilópolis havia três cinemas, e a programação era de segunda a quinta de cada cinema e eram dois filmes, e a gente ia religiosamente nos cinemas 12 vezes, por semana. De segunda a quinta, a gente ia a seis, dois em cada cinema, e nos fins de semana a gente ia a mais seis. Era também uma forma de fugir da falta de luz. Durante uma época grande, a luz era racionada por duas horas, mas todos os cinemas de Nilópolis tinha gerador.

Papai e mamãe gostavam muito dos filmes europeus, filmes japoneses, filmes americanos, brasileiros. Então, a gente via muita, muita coisa. Essa foi a minha apresentação, meu primeiro contato com o audiovisual.

A gente, também, teve televisão muito cedo. Eu me lembro, tivemos televisão na minha casa, a partir de 60, era bastante cedo. E, eu gostava muito de assistir as coisas de drama, noticiário, documentários. Meus pais liam muito, a gente assinava muitas revistas e jornais em casa e tal. Era uma família que conversava e era razoavelmente bem informada.

Então, a minha vontade de ter alguma relação com esse meio, vamos dizer assim, de formação, não é? Rolava muita conversa, a gente ouvia muito rádio, a gente ouvia a BBC, ondas curtas, o noticiário, principalmente, depois da época da censura, enfim, a gente tinha um relativo acesso à informação.

MAIS CORRIDA - Seu primeiro contato com a história de Boilesen foi em 68. O senhor tinha, então, 14 anos. Estava no movimento estudantil, fazia política? Por que isso chamou a sua atenção?..

LITEWSKI - Eu não participava de movimento nenhum. A gente era liberal. Não tinha ninguém de direita na minha família, entre os meus amigos, as pessoas com quem eu convivia, mas também não havia ninguém engajado, assim, em uma coisa mais contundente. Olha, imagino que eu estava assitindo à TV Tupi e vi o dinamarquês, o Boilesen, cercado de militares. E, não entendi muito bem, porque sabia que a Dinamarca era um país liberal e as pessoas tinha cabeça boa e não sei o quê? E a gente não entendeu muito bem o fato desse dinamarquês estar ao lado desses militares, altas patentes militares. Não se tinha nenhuma idéia, naquela época, de qual era a relação entre ele e autoridades militares e policiais. Eu vi, estranhei, talvez, a gente tenha conversado isso na família, mas não me chamou muito a atenção.

O impacto, realmente, se dá com o assassinato dele, porque ai eu já tinha 17 anos. Eu me lembro do panfleto que havia sido deixado chamando-o de colaborador da Oban. Eu me lembro, inclusive, de recortar reportagens e obituários e guardar já pensando em fazer alguma coisa no futuro. Já se falava, nessa época, em 71, à boca-pequena e mesmo os próprios jornais já davam a entender essa relação próxima entre os empresários e grupos paramilitares de repressão política no Brasil. Não era nenhum grande segredo.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 23h19

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Diretor de ‘Cidadão Boilesen‘ dá entrevista exclusiva - parte 2

Trabalho de formiguinha

 

MAIS CORRIDA - Quando começou efetivamente a empreitada?

LITEWSKI - Um pouco antes do Natal de 1993, eu estava num bar, aqui em Nova York, com um grande amigo dinamarquês. Um olhando para a cara do outro, estava frio, estava escuro, e a gente pensa: ‘Puxa, seria legal a gente fazer alguma coisa que, realmente, valesse a pena. Seria superlegal’.

Esse dinamarquês é um jornalista, Niels Kohl. E falei para ele de um dinamarquês assssinado no Brasil, que eu adoraria fazer um filme sobre ele, acho tão interessante. Ele vem de supetão e fala: ‘É o Boilesen?’. Ele havia trabalhado na cobertura da morte do empresário. E a gente então decide fazer um documentário. Trabalhamos juntos por um ano e meio, mais ou menos, começamos a falar com as pessoas, ele contatando algumas pessoas na Dinamarca, eu no Brasil, ambos contatando pessoas aqui nos Estados Unidos.

A gente chegou a fazer umas duas sinopses do que poderia vir a ser o documentário, com base do que já tínhamos conseguido levantar. Mas depois a vida dele tomou outro rumo, a mulher dele se mudou para a Romênia, a trabalho, e ele foi junto...

Nessa época, quando o Niels estava trabalhando comigo nessa história, a gente, obviamente, estava pensando em levantar dinheiro. Falei sobre isso com uma produtora alemã, que havia se interessado pela história, e com a própria televisão dinamarquesa para fazer, pelo menos para dar início à filmagem.

Mas eles começaram a querer impor muitas condições. Eles queriam que um europeu ou dinamarquês fosse o produtor. Eles queriam ditar as normas, da maneira que eles produzem esse tipo de documentário. Ai eu não quis isso, porque, realmente, estava interferindo nas minhas ideias, eu queria fazer uma coisa muito mais livre, leve. Uma coisa que refletisse as minhas visões do que é história e memória.

Na minha vida acadêmica lá na Inglaterra, eu fazia essa coisa dessas ligações históricas com audiovisuais, propaganda política, propaganda em conflitos, era a minha área acadêmica, e eu queria fazer isso em relação ao documentário do Boilesen (foto), e eles não queriam. Eles queriam uma coisa muito mais tradicional.

Aí eu decidi que não ia mais negociar e resolvi fazer com meu dinheiro, aos poucos, sem deadline. Então, foi a partir dai, a partir, se diria, de meados de 95, que eu começo, ai sim, aquele trabalho de formiguinha, devagarinho, contatando as pessoas e organizando entrevistas em vários países.

MAIS CORRIDA - O senhor começa sozinho? Na produção aparecem, também, os nomes de José Carlos e Pedro Asbeg...

LITEWSKI - O José Carlos é o dono da Palmares, uma produtora do Rio de Janeiro, que me ajudou a produzir isso no Brasil. Eu sou padrinho do Pedro, filho dele, que editou e foi o cara que fez a finalização e a produção final. Então, desde 1995, o José Carlos se engajou, mas quem sustentava o projeto era eu, do meu bolso. Nunca pedi dinheiro para ninguém, mas o Zé Carlos me ajudou muitíssimo com equipamento, filmagem, isso foi importante à beça para mim, sou eternamente grato a ele. Fui contratando pessoas, em vários lugares, que me ajudaram na pesquisa de material iconográfico, a encontrar pessoas. Eu trabalhei com muitas pessoas por curto períodos de tempo. Pagava para elas por dois, três meses de trabalho. Elas faziam coisas assim, que eu pedia para elas e, bom, ai que a gente realizava. Quando eu não tinha mais dinheiros e economizava mais um pouquinho.

MAIS CORRIDA - Quanto isso custou?

LITEWSKI - Nao tenho a menor ideia de quanto realmente custou o documentário. Nunca fiz um orçamento, nunca paguei o meu próprio trabalho. Se fosse chutar, diria em torno de uns US$ 100 mil dolares. Os custos da filmagem na Dinamarca foram altos porque Dinamarca é um pais caro. A compra de materiais de arquivo no Brasil foi relativamente cara. O custo de edição e finalização foram altos, mas nunca tive que vender nada para realizar o documentário. Simplesmente economizava aqui e ali. Nunca deixei minha familia em falta, nunca deixei de pagar minhas contas em dia.

MAIS CORRIDA - Como começou? Qual foi a a primeira entrevista?

LITEWSKI - Ah, foi com o Clemente... [NR.: codinome de Carlos Eugênio da Paz, militante da ALN que diz no filme ter dado o tiro de misericórdia em Boilesen]. Quando ele falou as coisas que você ouviu que ele falou. É óbvio que isso me ajudou bastante. Uma das pessoas que estava trabalhando para mim naquela época, uma pesquisadora, tinha acesso a gente que o conhecia. Obviamente, ele deve ter me checado, ele viu que eu era uma pessoa idônea. À medida que a gente foi conversando, acho que ele foi ganhando _pelo menos é isso que ele diz para mim, hoje em dia_ confiança em mim, e aí ele foi se abrindo. Quer dizer, não foi problemático, a gente conversou. Fiz assim com todas as pessoas. Sempre falei o que eu estava fazendo, que era uma pseudobiografia do Boilisen, porque biografia é uma coisa muito mais profunda. Não se faz uma biografia em 93 minutos. Era o Boilesen e a Operação Bandeirante. E acho que as pessoas que deram entrevista confiaram na gente.

MAIS CORRIDA - Vocês usaram várias câmeras?

LITEWSKI - A gente usou o que tinha na mão, o que tinha disponível. A gente não se preocupou muito com isso até mesmo porque isso era um hobby para mim, eu colecionava essas coisas. Nunca pensei pensei em fazer um documentário. Eu me interessava pelo assunto e fui devagar construindo. Nunca achei que ia sair um documentário de uma hora e meia, uma coisa comercial.

MAIS CORRIDA - Não houve um roteiro predefinido...

LITEWSKI - A gente nunca teve um roteiro. A estrutura foi construída à medida que a gente ia entrevistando e eu sacava e de certa maneira puxava para fora determinadas falas que eu ouvia, que eu achava significativas. Então, fui construindo, através dessas falas. As entrevistas foram todas transcritas, a gente pagou pessoas no Brasil para fazer isso. E escolhia certas coisas que de alguma maneira faziam sentido e fui guardando essas coisas, então fui construindo em torno disso.

CONTINUA....

Escrito por Rodolfo Lucena às 23h14

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Diretor de ‘Cidadão Boilesen‘ dá entrevista exclusiva - final

Exorcismo

 

MAIS CORRIDA - Qual foi a entrevista mais difícil?

LITEWSKI - A mais difícil, talvez, a com o Brilhante Ulstra [NR.: Carlos Alberto Brilhante Ulstra, militar que comando o DOi-CODI, um dos centros de tortura do regime militar]. Ele pediu as perguntas à priori, a gente enviou e depois ele leu as respostas. Ele respondeu a tudo o que a gente perguntou, mas teve muita, muita negociação. Imagino que ele tenha feito uma pesquisa para ver quem a gente era. A gente não escondeu nada. A gente fez isso através de vários intermediários, pessoas que o conheciam. Essa foi a mais difícil, eu acho e, talvez, uma das mais legais. Também, obviamente, a do filho de Boilesen, que também exigiu bastante negociação. Demorou muito tempo, talvez uns dois anos, para a gente conseguir. Fizemos a entrevista na casa dele. Foi uma entrevista longa, acho que demorou duas horas e 45. Em geral, as entrevistas duravam entre uma hora e meia e duas horas.

MAIS CORRIDA - E elas foram mostradas para os entrevistados? Algum deles exigiu ver a versão editada?

LITEWSKI - Não, nenhum exigiu. Todos assinaram a autorização para que a gente utilizasse as imagens. Por uma questão de cavalheirismo, a gente enviou o DVD para o filho, antes de o filme ser exibido em qualquer lugar. Eu conversei longamente com o filho, dizendo para ele que tinha feito o possível de fazer uma coisa balanceada e dando voz a todas as pessoas. A gente deu o DVD para ele e a gente nunca mais ouviu dele.

MAIS CORRIDA - No filme, o ex-ministro Delfim Neto aparece em foto ao lado de Boilesen (acima). Ele não quis dar entrevista?

LITEWSKI - Não. Mas, houve muitas pessoas que se recusaram. Eu devo ter contatado, talvez, duzentas pessoas. Um terço não quis conversa, um terço falou em off e um terço aceitou gravar entrevista...

MAIS CORRIDA - Alguma coisa que o senhor lamenta ter deixado de fora?

LITEWSKI - Olha, muita coisa que eu gosto não entrou, porque a gente teve que trabalhar dentro de um certo limite de tempo. Espero que eu consiga botar muito mais coisas, por exemplo, no DVD. Claro, que eu queria ter posto muito mais documentos históricos, mas também não queria fazer de forma muito exagerada. mas quero incluir no DVD os documentos históricos na íntegra.

MAIS CORRIDA - O DVD já tem data de lançamento?

LITEWSKI - Não, não tem, não estamos ainda nesse patamar. Ele, eventualmente, vai sair. Vamos botar mais informações no DVD, para que ele sirva como ponto de partida de discussão. Ele de maneira alguma é obra definitiva sobre esse tema, eu acho que tem muita coisa a ser dita, escrita, filmada, falada. Mas gostaria muito que ele servisse como o pontapé inicial de uma discussão um pouco mais profunda sobre o que, realmente, aconteceu, qual era a razão dessa relação tão profunda entre empresas e aparatos de repressão.

MAIS CORRIDA - O filme é dedicado aos seus filhos e aos seus pais. O que representou para o senhor a produção desse filme?

LITEWSKI - Olha, a palavra que eu gosto de dizer é quase um exorcismo, não é? Porque eu estava com essas coisas dentro de mim, esse conhecimento, que eu fui adquirindo ao longo dos anos e eu queria botar para fora. Então, serviu para mim quase como um exorcismo. A dedicatória aos meus pais e aos meus filhos, porque foram as pessoas com quem eu mais aprendi na vida, meus pais e meus filhos. São as pessoas que mais me ensinaram. Tudo o que eu sou, de certa maneira, eu devo ou aos meus pais ou aos meus filhos.

MAIS CORRIDA - Depois do filme, o que mudou na sua vida?

LITEWSKI - Nada. Eu estou, talvez, com um pouco mais de leveza, não é? Sem a responsabilidade de fazer alguma coisa. E, um alívio, certamente, uma satisfação. Eu fico muito orgulhoso quando penso em todas as pessoas com quem eu conversei, os arquivos que pesquisei, isso me dá um certo prazer, uma satisfação. Mas a minha vida continua, aqui na ONU fazendo as pesquisas.

MAIS CORRIDA - Qual é o seu trabalho na ONU?

LITEWSKI - Eu sou chefe do Departamento de Televisão. Cuido de parte de reportagens, notícias, cobertura de coisas que acontecem aqui dentro. A ONU tem um canal de cabo, que eu, também, sou responsável por ele. Enfim, sou o chefe dessa parte de produção e televisão aqui. Por muitos anos fui produtor, viajei, fiz reportagens em várias partes do mundo, cobrindo exatamente conflitos, emergências humanitárias, enfim, cobri muita coisa ai. Fiz centenas de reportagens para a ONU, literalmente, centenas e fui ascendendo, eu tive uma uma carreira aqui.

MAIS CORRIDA - Nesse trabalho, algum momento de mais destaque?

LITEWSKI - Minha vida se divide basicamente entre antes e depois do genocídio em Ruanda em 1994. Coincidentemente estava filmando, naquela época, no leste da Africa (Moçambique, Zimbabue e Tanzânia), e acabei indo para Ruanda com altos funcionários da ONU no sentido de tentar conseguir dar um basta naquela tragédia. Fiquei muitíssimo afetado pelo que vi. Nunca consegui apagar isso da minha memória. Tive alguma ajuda profissional após o evento --mas o trauma realmente ficou. Lembro de, depois de sair de Kigali, já em Nairobi, ter ligado para os meus pais no Rio para dizer-lhes onde estava (obviamente não disse a ninguém da família que estava no meio do genocídio). Disse pra minha mãe: ‘Agora, finalmente, consegui entender tudo o que vocês passaram...‘ .

Escrito por Rodolfo Lucena às 23h11

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Maratona de Lake Tahoe é uma delícia

Esmeralda das montanhas

No último domingo, saiu na Revista da Folha uma reportagem de minha lavra sobre a belíssima cidade de South Lake Tahoe, que visitei em 2006, para correr uma maratona. Na volta, fiz um longo relato, que acabou ficando inédito (este blog ainda não existia). Agora, aproveito a reportagem publicada na Revista (AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL) para apresentar o relato da Lake Tahoe Maratthon tal como a vivi há pouco mais de três anos. O texto está em quatro partes. Espero que você aproveite.

Coberta de pinheiros, a colina do Inferno se ergue do lago Tahoe altiva e orgulhosa nos seus mais de dois mil metros, pronta para dar lições de humildade aos que se atrevem a desafiá-la. Há quem pragueje, sue, pare, caminhe, deite no chão ou desista. E há os que correm, metro a metro, passadas mais rápidas ou mais lentas, mas ritmo sempre intenso, até ganhar o topo.

Na madrugada gelada do último sábado de setembro, eu não tinha nem ideia se ia conseguir chegar até a base do morro maldito, quanto mais galgar o asfalto envolto no ar rarefeito.

A maratona do Lago Tahoe, na fronteira da Califórnia dourada com a Nevada da jogatina, seria minha primeira experiência correndo na altitude. Nada que lembre os picos himalaios, mas o triplo da São Paulo onde estou acostumado a treinar, com ar mais fino, que leva mais tempo para ser transformado em energia pelo corpo e provoca o cansaço mais rapidamente naqueles que não estão acostumados -basta ver o desempenho dos times brasileiros nos campos bolivianos.

Lake Tahoe, o nome, o mito, designa uma região de terreno bravio, montanhoso, transformado em paraíso dos muito ricos ou simples destino de multidões atrás principalmente de cassinos mas também de esportes de inverno, de trilhas desafiadoras, de brincadeiras aquáticas.

As áreas urbanas são tomadas por um rosário de hotéis equipados com todo o maquinário da jogatina, com caça-níqueis das mais variadas espécies, mesas de carteado, roleta, os indefectíveis gigantescos bufês com seus preços irrisórios e enormes pratos de bisteca e batatas fritas. No cair da noite, ônibus despejam hordas de velhinhos e velhinhas empetecados que vão fazer sua fezinha por algumas horas, tomar uns tragos e depois voltar para o cargueiro que os devolverá, no meio da madrugada, a seus hotéis espalhados pelas cidadezinhas da região.

Fora do mundo das apostas, há resorts para quem quer ficar de papo pro ar no meio do verde, pousadas ecoaventureiras aos montes e campings em profusão. Enganosamente simples marinas são ladeadas por lojas que oferecem lanchinhas, botes, barquinhos, caiaques, lanchas e iates. Outras portas abrem para o território dos esportes invernais, com suas roupas carésimas e apetrechos ainda mais dispendiosos. Os mais econômicos fazem apenas um trekking, mas precisam ser durões para aguentar o terreno montanhoso, o vento cortante e o sol ardente. Até corrida tem por lá.

Na Maratona do Lago Tahoe, a maratona propriamente dita é apenas mais um evento. É o carro-chefe para a divulgação de uma semana de esportes espetaculares, mas o último de uma lista que tem triatlos dos mais diversos tipos (uma modalidade diferente por dia, as três no mesmo dia, mas trocando a natação pelo caiaque, e até o tradicional, na distância olímpica ou na curta), competições de ciclismo, corridas em que participam diretores de corridas, provinhas de cinco quilômetros para a família, diversão para a criançada no domingo de manhã, natação em água gelada e ultramaratonas de diferentes sabores.

A mais facilzinha é a tripla maratona, em que o sujeito faz a volta completa ao lago, cumprindo 42.195 metros por dia. Os dois primeiros, faz sozinho, sem proteção contra o trânsito nem água oferecida pelos organizadores _precisa ter apoio próprio. O último corre ao lado da turma de tradicionalistas. Há também os que encaram a tripla maratona de uma vez só, começando à zero hora de sábado para chegar ao início da terceira etapa com o pelotão conservador. Quem acha essa brincadeira moleza pode escolher correr uma maratona na quinta, outra na sexta e fazer a tripla no sábado _ou seja, corre 211 quilômetros de morro.

Mesmo a maratona não é simplesmente uma prova de 42,2 quilômetros. O chamado evento principal é acompanhado por meia maratona, caminhada de 20 milhas, corridas de 10k e cinco quilômetros e ainda revezamento na distância completa. Dos três mil inscritos para a sabatina, pouco mais de um quarto vai percorrer a distância que dá nome ao festival esportivo do lago Tahoe. A prova principal tem três largadas: a primeira para um punhadinho de mulheres da elite, que têm como missão e desafio manter sua luz de vinte minutos sobre os ponteiros masculinos; a outra para um solitário cadeirante; e a última, dois minutos depois, para essa turma de americanos de todos os tamanhões e uma meia dúzia de estrangeiros, vindos da Europa, da África do Sul e do Brasil.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h06

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Maratona de Lake Tahoe é uma delícia - parte 2

Velhinhos viciados

Para chegar a Lake Tahoe, parti de San Francisco em um voo que, em dia de sol e céu limpo, é um verdadeiro passeio panorâmico por um diversificado cardápio de paisagens. Pouco depois da decolagem, deixando a cidade grande, avistam-se planícies imensas, campos plantados de diferentes culturas. Nesta época do ano, a cor dominante é o marrom, com suas variantes: avermelhado, escurão, clarinho, amarelado, dourado, soturno. Rios serpenteiam pelo terreno, desenham figuras que cortam o traçado geométrico das plantações, criam pequenas praias, abrindo espaço para atracadouros e marinas.

Se você desvia o olhar por alguns minutos, pestaneja e dormita um tantinho, quando abre o olho já encontra paisagem diferente. Subindo para o nordeste da Califórnia, o marrom do solo agricultável dá lugar ao verde das montanhas, cobertas de pinheirais enormes. A serra esconde lagos aqui e acolá, numa caprichosa combinação de cores, de frio e calor, azul e verde, marrom e gelo.

Será que aquele é o Tahoe?, me pergunto, ao ver um lago maior. Logo outro lago, no topo de um morro ainda mais impotente, captura minha vista: este, sim, parece ser o tal. Mas que nada, ainda estamos longe, o avião passa pela serra, cruza a fronteira e inicia sua descida para a Nevada dos desertos, das cidades construídas nas planuras secas e poeirentas. O terreno final que se vê ao chegar ao aeroporto internacional de Reno-South Tahoe é plano, chapado, seco. Do alto, a cidade é feita de linhas retas, a mesmice das casas só quebrada pelo gigantismo dos cassinos. A visão traz à memória trilhas sonoras de filmes de bangue-bangue, música assoviada marcando a entrada do pistoleiro no saloon.

No saguão, o espírito da terra se apresenta nas faiscantes máquinas de caça-níqueis, agrupadas em estações e atraindo apostas já na entrada da cidade. Um pouco desalentador para quem viajou quilômetros atrás de um encontro profundo com a natureza e com seus demônios interiores.

Mais desalentador é saber que o ônibus que leva até os hotéis de South Lake Tahoe é pago pelos viajantes, não pelos hotéis, o trajeto leva mais de uma hora e meia e o próximo ônibus sai em quinze minutos. Esta última seria uma boa notícia, se minha mala já tivesse chegado. Mas as perspectivas eram perder o transporte imediato e ficar uma hora e tanto de bobeira.

Dei sorte e parti. Entre os quinze passageiros, este gaúcho cinquentão era o caçula. Havia uma turma de descendentes de asiáticos, talvez chineses, um grupo de americanões. Duas velhinhas superpintadas, embonecadas, de colar e brinco, foram as últimas a entrar. A conversa das duas, sentadas lá no fundão, se ouvia por todo o ônibus. Quando não estavam trocando ideias e contando histórias de parentes, falavam ao celular com impressionante vigor.

A autoestrada corta o centro de Reno, mais conhecida por seus cassinos mas também, segundo prometem os folhetos de propaganda turística, destino de aventureiros que percorrem trilhas na região. Vista do alto, a planura chatinha e marronzada não parecia oferecer grandes terrenos para descobertas, mas que seja...

Seguindo pelo deserto, com desinteressante paisagem de vegetação rasteira e poeirenta, a rodovia cruza outras cidadezinhas que parecem uma réplica da outra, com suas construções baixas, quadradonas, o néon vermelho, as ruas que parecem traçadas a régua num caderno escolar. A maior é Carson City, quem tem prédios históricos e até um museu na casa de um governador de antigamente.

O que vale é que vejo as montanhas ao longe, cobertas de pinheiros, desenhadas no horizonte como uma sucessão de MMMMMMs desemparelhados. E o ônibus parece estar, enfim, saindo da planura. Com cerca de uma hora de viagem, uma placa na estrada anuncia a altitude de 5.000 pés (cerca de 1.700 metros). Quinze minutos depois, já estamos num patamar bem superior, a 7.000 pés (2.100 metros). Cruzamos pela floresta, vemos afinal o lago, uma sucessão de lagos que as montanhas escondem, avistamos picos ainda com restos de neve neste outono. Em algum ponto, o ônibus cruzou a fronteira entre Nevada e a Califórnia; na cidade, a linha divisória imaginária acompanha uma transversal da maior avenida de South Lake Tahoe, que é, portanto, uma cidade de dois Estados.

Tem mesmo dupla personalidade. De um lado da divisa, o jogo é permitido e bordéis funcionam livremente _na internet, você encontra até um guia de boas maneiras orientando o turista sobre como se comportar nos prostíbulos de Reno/Lake Tahoe e informando sobre suas diferenças com as casas de tolerância de Las Vegas. Do outro lado, lojas de lembrancinhas, roupas de esportes invernais, hotéis/spa, pousadas e um sensacional teleférico que leva até o alto de uma montanha que, no inverno, é uma superhiperestação de esqui.

Na madrugada gelada de sábado, os que nos destinamos à praia ponto de partida da prova estamos em Nevada, no estacionamento de um grande hotel, de onde sairão os ônibus com os corredores. Embarcam primeiro as mulheres da elite e os que vão caminhar ou correr distâncias menores. Às 6h40, como prometido, com os termômetros marcando menos de 10 graus Celsius, os maratonistas começamos a encher o comboio.

Até chegar a Commons Beach, a praia em Tahoe City onde será dada a largada, o ônibus cruza a fronteira umas duas ou três vezes, pelo que pude percebi. Perto de mim, sentou um dos sujeitos que orgulhosamente ostentavam sobre a roupa uma regata azul: era um dos ultras que estavam prestes a iniciar a terceira etapa de seus três dias de maratona.

Esse meu vizinho era um pouco mais velho, mais alto e mais pesado do que eu. Ele reclamou dos morros do primeiro dia da prova, xingou os motoristas que não respeitavam uma distância segura dos corredores solitários e contou que, se tudo der certo, vai participar neste ano em 24 maratonas e ultras. Haja saúde!

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h02

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Maratona de Lake Tahoe é uma delícia - parte 3

Natureza e alegria

Melhor ficar quieto, guardar as energias. Ao chegar à praia, o sol já brilha, mas não esquenta quase nada. As filas para os banheiros estão imensas, mas é a melhor maneira de esperar a meia hora que ainda vai se arrastar até o tiro de largada.

Fico pronto bem na hora em que uma senhora da cidade começa a cantar o hino norte-americano. Sempre estranho ver um hino interpretado solo; os hinos são cantos de guerra, de massa, de união ("até a pé nos iremos", dizemos os gremistas, "verás que um filho teu não foge à luta", prometemos os brasileiros). Ali, era a dama loira ao microfone e a massa em silêncio reverente.

Enquanto eles batiam palmas, larguei meu agasalho, o gorro e as luvas no ônibus das roupas e corri para me juntar ao grupo. Já tinha soado o tiro para a largada de Chris Fuller, o cadeirante que iria completar o percurso em 2h03. Agora seria a nossa vez: o diretor da prova puxou de sua espingarda (ou rifle ou sei lá o quê, uma arma longa), e o disparo soou surdo, oco, seco (tum!).

Saio mais forte do que deveria e logo me vejo bufando na subidinha que vai nos tirar da praia e levar para a estrada que será o leito principal do percurso. Fico mais dono de mim, lembrando que estamos numa altitude em que nunca corri, que o cansaço virá mais rápido do que a nível do mar, que portanto devo me cansar menos para seguir estável por mais tempo. Minha meta é ficar com os batimentos cardíacos em torno de 145 por minuto e rodar relaxado, sem maiores esforços.

Só temos vista à frente, da estrada que se enrodilha pela montanha. O lago fica escondido pelo pinheiral, que também abriga chalés sensacionais e até pequenas vilas. Vale a pena, então, aproveitar os primeiros quilômetros para checar minha situação, verificar que tudo está nos conformes.

O melhor de tudo: não tenho dores. A fasciite plantar no pé esquerdo, que incomodara durante a semana, parece ter cedido às massagens e aos alongamentos. As costas estão firmes e o resto está inteiro. Só não dá para se entusiasmar, pois vem muito morro pela frente.

O que entusiasma é o clima geral, de alegria, bom humor, natureza feliz. O primeiro posto de água só confirma esse espírito. Os voluntários oferecem muito mais que a bebida: incentivam, aplaudem, parecem ver em cada um de nós heróis que tentam conquistar algo sobre-humano.

De certa forma, qualquer maratona oferece esse desafio. Mais: dão a sujeitos comuns a oportunidade de realizar algo que lhes parece grandioso, raro, incomum. E somos mesmo poucos: até nessa prova miliardária, apenas 386 homens e mulheres vão completar o percurso. Isso não tem nenhuma importância para os destinos da humanidade, mas faz com que cada um se emocione às lágrimas pela conquista.

A gente corre porque pode. Não busca razões nem explica, como não conseguem dar justificativas os corredores que envergam a tal regata azul. Apesar de o ar rarefeito não recomendar muitas conversas, procuro observar um ou outro dessa trupe seleta, tento imitar ritmos, estudo as passadas, vejo que caminham e correm a intervalos.

Uma senhora da minha faixa etária ou da seguinte mede uns dez centímetros a menos do que eu e deve pesar mais ou menos a mesma coisa _ou seja, é um tanquezinho, baixa, socada, forte. Um tiozinho baixo e seco, correndo de bandana no pescoço e chapéu, parece representar melhor o biotipo dos ultras. Lego engano: mais para a frente, um japonês altão, superforte, de cabelos pintados de loiro oxigenado, também luta para completar sua terceira maratona em três dias seguidos, e não dá mostras de estar sofrendo muito.

É com ele que converso um pouco. Imagino que seja um corredor experiente, como imaginava que fossem os outros ultras. Que nada! O sujeito começou a correr em janeiro de 2004, fez a primeira maratona seis meses depois e desandou a correr provas em trilhas, ultras e o que viesse pela frente. Nunca falou com um médico e faz pouco caso da tradicional recomendação de não disputar mais de duas maratonas por ano.

Deixo os azuizinhos para trás, sigo o meu caminho. Vislumbro o lago entre os pinheiros, economizo nas subidas, solto no plano, bebo a paisagem, obedeço ao frequencímetro, respiro fundo. E ouço um "tum!". Ao longo dos quilômetros, mais dois ou três, até que percebo: são pinhas secas que desabam do alto das árvores. É melhor não ficar muito na beira da estrada, mas também não dá para ir muito para o meio, pois os carros seguem passando, ainda que o trânsito seja controlado.

Os postos de hidratação não tem bandas, mas os voluntários são de grupos locais, que se exibem e ajudam a arrecadar fundos para obras assistenciais. Numa das paradas, apenas moças de um grupo de dança oferecem as bebidas; em outra, rapazes alegres vestidos de mulher e com muitas cores fazem mesuras e dão gritinhos quando passamos. Numa sombra, escolares fantasiados festejam antecipadamente o Dia das Bruxas, enquanto noutra senhoras e senhores saúdam os heroicos desbravadores do lago Tahoe.

Eu caminho ao longo dos postos e mantenho o trote na estrada, morro abaixo ou morro acima, terreno plano ou ondulado. Assim, consigo manter um ritmo razoável: não sofro, mas também não vagabundeio pela pista.

Há, porém, que se arraste. Depois da metade da prova, começam as subidas mais fortes. E também se somam ao percurso os meiomaratonistas _na verdade, caminhantes, quase todos os que vi com o número vermelho (o nosso era azul).

Havia gente de todo o tipo: senhoras que seguiam em grupo num passinho acelerado, conversando sem parar; duplas concentradas em trotar e caminhar; e pelo menos dois gigantes, um casal enorme que devia somar mais de 300 quilos. Esses, sim, que suavam e mostravam os rostos vermelhos com o esforço de ainda poucos quilômetros, eram exemplo de disposição e determinação.

As visões de montanhas com escarpas geladas, trilhas de esqui, o lago, casinhas de sonho, tudo vai me carregando pela distância. Esquilos mortos na beira da estrada são sinal de que há vida selvagem nos pinheirais: na internet, um relato da prova diz que a turma do fundão, que completou em mais de seis horas e meia, encontrou uma mamãe ursa com dois filhotes no sopé da Colina do Inferno.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h00

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Maratona de Lake Tahoe é uma delícia - final

Epifania

Cheguei enfim ao sopé da encosta. Tomei água ao lado da placa que indicava o início da escalada e me disse que iria trotar qualquer que fosse o tamanho da encrenca. O desafio é grande, cerca de 200 metros de subida ao longo de uns dois quilômetros _a temida escalada da Brigadeiro, na prova paulistana de São Silvestre, não passa de 70 metros ao longos de uma distância parecida.

Mas a diversão tira um pouco do sacrifício. Placas bem-humoradas informam, a intervalos, a altitude alcançada. Depois do inferno, chega-se ao purgatório e, a partir dali, anunciam que você está prestes a chegar ao céu.

"Voe com os anjos!", comemora o cartaz que festeja o topo da montanha. O local é meio anticlimático, pois só se veem a estrada e os paredões de cada lado da pista. É preciso subir ainda um tantinho e daí dá para relaxar, largar a musculatura e mandar bala morro abaixo.

Faltam cerca de 15 quilômetros, nada está garantido e qualquer esforço extra pode cobrar seu preço mais tarde. Então, depois de um trote mais forte, comemorando a subida sem paradas, voltei ao meu devagar-e-sempre, que também me ajudava a apreciar a paisagem.

Para variar, também nesta prova o mapa da altimetria publicado no site escondia o verdadeiro perigo. A subidona era destacada, mas e a morreira que vinha depois? Estava perdida numa indicação de que era tudo morro abaixo.

Não era. Depois de sair dos infernos e subir aos céus, descemos para subir de novo. E então, meus senhores e minha senhoras, chegamos a Emerald Bay.

Perco o fôlego, paro, não acredito. É uma maravilha. A cor da água lá embaixo, a baía, a ilha de pedras que parece um castelo, o fio de praia de areia branca, um barquinho solito fazendo marolas, os morros lá longe, o pinheiral ladeando a cena. Tudo aquilo é muito mais precioso que qualquer esmeralda que tenha servido de inspiração para o nome do lugar. A maratona podia terminar ali, o mundo podia terminar ali, você poderia criar asas e mergulhar nas águas geladas, buscar uma rede para ficar de papo pro ar ou sentar no chão e ficar ouvindo a grama crescer, acompanhar o movimento dos grãos de areia, o farfalhar da água, o vento nas ramas.

Dói estar sozinho, sem a Eleonora. Aqui passa um pouco só do km 30, em que lhe dei um beijo na maratona de Santa Catarina, me arrastando no asfalto fervente. Aqui estou forte, sem dor nem cansaço, guardando tudo o que tenho para lhe entregar quando for a hora.

A minha hora é já. Vou comer os quilômetros que me restam. Aqui, a distância é contada em milhas _cada uma tem 1.609 metros_, o que dá impressão de menos terreno a percorrer. No marco da milha 22, por exemplo, faltam apenas quatro para o final, e não sete quilômetros e mais um tanto.

Bobagem pura. O que vale é que a descida continua, mas, em contrapartida, o cenário fica menos luxuriante. Nos aproximamos de volta à praia. Há mais campo à nossa volta, as montanhas próximas não passam de encostas, a serra altaneira é vista só no horizonte.

E o sol, agora, queima. Quase uma da tarde, a temperatura chega aos 25 graus, mas o vento leve e o clima seco não fazem disso um sofrimento. Eu quero terminar logo, já sinto o cansaço tomar conta, as costas anunciam que vão reclamar, é preciso segurar firme, endurecer o abdômen, lembrar as recomendações das fisioterapeutas, tirar das costas o estresse, apoiar o corpo na musculatura, respirar bem e ainda descansar um pouquinho.

Depois da milha 24, faço um pit-stop num banheiro que, apesar do adiantado da hora, está em surpreendentes boas condições de uso. Logo depois, mais um ponto de hidratação e chega de enrolação.

Estamos numa trilha de bicicletas e há mais gente no caminho: os maratonistas mais lentos, o pessoal retardatário dos 10 k, da meia maratona das 20 milhas. Vou me dizendo que estou inteiro e vou passando por eles. Sem nem me dar conta, estou na milha 25.

Foi curta demais, me adverti e confirmei a impressão conferindo os dados de meu recém-comprado GPS de pulso. Por isso que a 26 não chegava nunca, naquela trilhazinha de asfalto de um metro de largura.

Passo um indiano que há pouco tinha sido saudado pelos pais, a família acompanhando o orgulho do clã, quem sabe um engenheiro de software que ganhava a vida no Vale do Silício. Vejo os ônibus que vão nos levar de volta, mas cadê o fim dessa prova?

Aqui, os tão falados 195 metros que matam, as 200 jardas finais, são mesmo mortíferos. É que, ao final da trilha de bicicleta começa o trecho de acesso à praia e à chegada. Devem ser uns 300, 400 metros. Você vai trotando para o final, que não vê por causa de uma curva, outra curva e outra curva e mais uma, mas vê a multidão que volta emedalhada, carregando tênis nas mãos, bebendo sucos, comendo laranja. Na verdade, toda essa gente não foi melhor do que você _só uma mísera parcela é de maratonistas_, mas você não sabe, só vê as hordas voltantes. Sabe que o fim está próximo, mas não sabe onde será.

É lá!

Abro os braços, corro, solto o gogó. Viva o Brasil! Eleonora, tô com saudades! Tô chegando! Os gringos não entendem nada, mas festejam junto, aplaudem, sorriem. E que ganho mais uma medalha, esta o mapa do lago Tahoe, que está impresso agora no meu coração.

 

PS. Veja mais fotos AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h56

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Maratona no Velho Oeste tem presença verde-amarela

Vitória brasileira

Há quem diga que maratonista é tudo doido. Talvez seja verdade, mas há alguns mais doidões que os outros. Doidos por maratona, bem entendido. Pois meu amigo Nilson é um deles. Economista mineiro, nascido Nilson Paulo de Lima há quase 57 anos (faz aniversário em janeiro), está desde o finzinho de novembro nos Estados Unidos, onde realiza um tour rigorosamente planejado, com o objetivo de fazer mais de uma dezena de maratonas até a data de seu aniversário, no dia 24 de janeiro.

O pior (ou melhor, sei lá) é que ele não está sozinho. Desde o início, é acompanhado pelo parceiro Ésio Padilha Cursino, médico pernambucano também nascido em 1953 e também membro do grupo Marathon Maniacs, cujo nome já indica a especialidade e que também me tem como sócio-atleta. Aos poucos, ao longo do período, aos dois se somarão outros brasileiros --o grupo chegará a ter uma dúzia de integrantes na maratona da Disney.

Além de correr bem, Nilson ainda tem se revelado um bom narrador, mandando e-mails com breves mas coloridos relatos dos eventos. No último domingo, o grupo de brasileiros, já mais fornido, participou da maratona de Tucson, no Arizona.

"Depois de dois dias atravessando o deserto, chegamos a Tucson no Arizona, a 185 km de Phoenix, local da maratona que leva o nome da cidade. Tucson, com 750 mil habitantes, é cenário dos saudosos filmes de faroeste, onde o legendário Cowboy John Wayne e seus seguidores deixaram suas marcas. Quem não é daquela época ainda pode reviver o passado na Old Tucson Stúdios, um local construído entre as montanhas num cenário real, que ainda respira seus heróis. E quem diria: até mesmo a Sharon Stone em sua juventude foi mocinha nos bangue-bangues e marcou sua presença por aqui", relata Nílson.

A maratona é dirigida por Pam Reed, ultramaratonista conhecida por ter sido a única mulher a vencer, no geral, a temida e dificílima Badwater Ultramarathon, quando superou até mesmo o famoso Dean Karnazes. Pois a corrida, diz Nilson, "São 42 quilômetros por montanhas, cercadas por vegetações predominantes no deserto, um contraste com as belezas da Califórnia".

Para ele, a prova de domingo já foi a quarta etapa da jornada, que iniciou em Los Angeles, na Califórnia, e já registra um momento glorioso, quando Nilson venceu pela primeira vez uma corrida de 42.195 metros, a Running Off the Turkey Marathon, conforme relata o seu parceiro brasileiro na empreitada, Ésio:

"A corrida tinha uns 25 corredores na maratona e uns 20 na meia. A maratona era num parque com inúmeras pistas, o que dificultava para quem não conhecia e, para quem conhecia, tornava fácil até cortar caminho sem quem ninguém percebesse. Nilson passou por mim, e o segundo passou com mais de 1 km de diferença, mas um sujeito cortou caminho e quase conseguiu ganhar. Na nona volta, Nilson me disse que o diretor da prova havia informado que ele estava em segundo lugar, o que me deixou muito chateado, pois conseguia ver claramente o que estava acontecendo.

"Quando cheguei ao único posto de marcação, disse que Nilson estava em primeiro lugar, e o diretor se dirigiu para mim gritando que ele era o segundo. Tentei argumentar e explicar o que estava se passando, falando em português, mas ninguém me entendia. Usei mímica, pedi ajuda aos hispânicos, mas ninguém queria se comprometer.

"Na última volta, Nilson disse que passou o cara, que não tinha lhe passado, mas estava em primeiro lugar (!). Faltando apenas 1 km, disse a Nílson que corresse o máximo que podia para tentar garantir.

"Quando cheguei, Nilson tinha vencido, mas o cara que levou o segundo lugar tinha chegado logo atrás sem ter passado por mim. Ele deve ter pegado atalho novamente e por pouco não conseguiu chegar na frente do Nílson...."

Quanto ao bravo vencedor, tratou de ir logo contar a boa notícia para a filha, por telefone. A jovem brincou com ele, dizendo ser história de pescador. E ainda acrescentou que só ia acreditar quando confirmasse no site. Você também pode confirmar a vitória brasileira clicando AQUI:

No total, o grupo brasileiro vai empreender uma jornada de 7.500 km, de avião e carro, correndo maratonas na Califórnia, no Arizona, na Pensilvânia, no Texas e na Flórida.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h33

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O dia em que eu dei um pau no Papai Noel

Chuva na Gonzaguinha

Havia muito tempo que eu não corria tanto. Passei o quilômetro cinco com dois segundos de vantagem em relação a uma média de seis minutos por quilômetro. Isso pode parecer lerdíssimo para você, mas é um grande feito para mim, tiritando de frio sob a chuva fina que não parou de fustigar desde bem antes da largada da 43ª edição da Prova Pedrestre Sargento Gonzaguinha, uma corrida de 15 km realizada na zona norte de São Paulo.

Pois foi naquele exato quilômetro, o quinto, que avistei mais à frente Papai Noel. Corria talvez uns 50 metros mais para frente, tendo como escudeiro um sujeito vestido com a camiseta do São Paulo, clube de futebol paulistano. O Papai Noel batia uma sineta sem parar, enquanto o são-paulino ouvia incessantes piadinhas sobre suas supostas preferências sexuais e sobre o fato de estar carregando o saco vermelho do PN --uma sacolinha, a bem da verdade.

Mas o que dava nos nervos era a tal sinetinha, que eu ouvia desde, sei lá, o terceiro quilômetro. O Papai Noel brandia o instrumento musical de enlouquecer ouvintes e cumprimentava a cada um, incentiva os corredores --até quando passou por mim gritou um "Vai, gremista!". Enfim, um gentleman, apesar de sua pouca idade, denunciada por densas barbas negras. O que prejudicava mesmo era o cincerro...

E o sujeito corria, pois eu ouvira o som da sineta ao longe, depois cada vez mais perto, depois passando por mim e seguindo embora até desaparecer no espaço... E reaparecer depois de passado o tal km 5, quando meu relógio marcou 29min58 de prova e me fez abrir um sorriso de satisfação, prometendo ali mesmo que agora iria administrar um pouco e depois, quem sabe, acelerar...

Planos feitos, planos esquecidos em parcas centenas de metros, quando percebo que meu novo status de corredor de quase 6min/km me leva a ficar próximo do Papai Noel, seu escudeiro são-paulino e sua incansável sineta. Mais um tanto, emparelho, fico alguns segundos no mesmo ritmo, percebo que minha balada está mais acelerada que a do Bom Velhinho, e me vou, deixando para trás o dito cujo com todas as suas renas barulhentas.

Dei um pau no Papai Noel! O que dirão as criancinhas deste mundo, me perguntei enquanto aos poucos me conscientizava da enormidade do feito. É bom que se diga que não foi um embate físico, não chegamos ás vias de fato, foi apenas uma ultrapassagem em uma corrida de bairro na capital paulista. E pensei que o Bom Velhinho, que de velhinho, como disse, só tinha o apelido, fosse logo me ultrapassar novamente.

Mas qual! Logo deixei de ouvir o cincerro bimbalhante e pude novamente me concentrar na chuvosa corrida. Agradecia, por sinal, pelo clima aguado da capital paulistana, pois só ele me permitia correr daquele jeito --estivesse hoje o calor de costume nesta época do ano e tenho sérias dúvidas sobre minhas chances de acabar a prova.

Mesmo bem servido de água --do céu e dos postos de hidratação--, logo passei a sentir dores e repuxões na perna esquerda. Foi praga do Papai Noel!

Imagine, o simpático ancião não faria uma coisa dessas, mesmo se ultrapassado por um tartaruguento corredor tal qual este. O fato é que estou com uma fasciite plantar bem no calcanhar esquerdo e que, à medida que corro, os músculos vão se retesando, encurtando, repuxando, e daí dói o joelho, dói a coxa, dói o quadril... A dor se espalha pela lombar e exige medidas imediatas.

Erguer o corpo, endurecer o abdômen, puxar energias do transverso e correr um pouquinho mais forte, um pouquinho mais inclinado, um pouquinho mais qualquer coisa que me faça esquecer um pouquinho só da dor e permita que o corpo vá se ajeitando tal e qual possa, assim como as melancias se ajeitam com o andar da carroça.

Pois assim passei o km 8 ainda com uma folguinha. Chuva vai, chuva vem, iniciamos o caminho de volta, cruzando a ponte da Casa Verde por sobre a marginal Tietê. Que fique registrado aqui que, na Gonzaguinha, atravessamos mais pontes que na Corrida das Pontes, já comentada neste blog. A prova larga na avenida Cruzeiro do Sul, em frente ao quartel da Polícia Militar, promotora do evento. Cruza ponte Cruzeiro do Sul, entre na marginal Tietê, serpenteia pelo lado de lá até voltar para o lado de cá, o entrerrios, digamos assim, o terreno delimitado pelo Tietê e o Pinheiros.

Pois a ponte de volta é pouco depois do km 8. No quilômetro seguinte, outra surpresa: pois não é que o meu GPS apita anunciando o nono quilômetro exatamente onde está a placa do KM 9??!! Tal concatenação é difícil de ver, pois marcação de provas, por este Brasil afora e pelos recantos deste mundo onde já corri, nunca se acertam exatamente com os cálculos do meu velho reloginho, já cada vez mais cansado e com crescente dificuldade se comunicar com os satélites e com meu computador.

Cumprimentei os dois, GPS e marcador da prova, mas desconfio que um dos dois está errado (ou ambos, o que também é possível).

Cem metros para cá, duzentos para lá, que importa, são filigranas inúteis, pois o que vale é a linha de chagada, diga o que diga o GPS... E para alcançá-la há que correr, cruzando ainda uma ponte, esta sobre um afluente do Tietê. Logo passamos por baixo de outra, onde se abrigam trabalhadores das obras da marginal --eles se protegem da chuva e aplaudem os corredores... Por sinal, logo depois uma moça da organização é a mais entusiasta apoiadora: grita, ri, bate palmas, avisa com voz estridente, mas simpática: "Só faltam três, só faltam três!"

Então, tá: vamos correr. E assim fiz, aproveitando para acelerar um pouquinho mais a cada quilômetro, já me preparando para a disparada que daria ao adentrar a pista. A prova termina no campo que fica dentro do quartel da PM, e a pista de atletismo é uma delícia.

Curva para cá, retinha, outra curva, descamba um pouco no asfalto, afunila tudo para passar pelo portão do quartel, ainda um caminho de asfalto, faltam apenas uns 20 metros até a pista, fico imaginando onde estará Eleonora a me esperar, a última curva e...

A pista está virada numa barral só!!!! Barro preto, retinto, poças por tudo que é lado, terra revirada por milhares de passadas.

O primeiro pensamento que vem é que não vai dar para correr. O segundo é que vou levar um tombo, tropeçar, escorregar, me esbugalhar, cair nessa charneca e ficar de palhaço sem circo e sem minha belíssima média, que agora já está com mais de um minuto de folga sobre os 6min/km. Praga do Papai Noel, de certo!

Depois dos primeiros passos embarrados, porém, ganho segurança e vou, ainda vejo Eleonora antes de cruzar a linha, encharcado e embarrado, feliz e satisfeito.

Só o que não deu satisfação foi a saída, atravancada, apertada e demorada: levei 18 minutos até encontrar novamente a Eleonora, e só conseguimos sair do quartel 25 minutos depois de eu ter cruzado a linha de chegada.

Isso foi erro dos organizadores, talvez a única falha importante notada no evento. Não pode ser praga do Papai Noel, pois, para que fiquem bem claros os fatos, devo dizer que, pouco antes de passar pelo Bom Velhinho e sua sineta, na pista de ida da avenida Olavo Fontoura, notei que ele cumprimentava um outro Papai Noel, este sim um velhinho de barbas brancas (seria máscara?), que vinha pela pista de volta, portanto com mais de um quilômetro de vantagem sobre nós. E nunca cheguei nem perto de ultrapassá-lo.

O que pode indicar que Papais Noéis são muitos, estão em todo o lugar e são imbatíveis. Feliz Natal!

 

PS: Franck Caldeira, com 45min40, e Zenaide Vieira, com 52min52, foram os vencedores da competição, que teve 4.000 inscritos. A foto usada na abertura foi distribuída pela ZDL, assessoria de imprensa do evento, e é de Sérgio Shibuya. As outras foram gentilmente cedidas por Walter Francisco da Silva, que participou da prova de hoje acompanhado por sua inseparável câmera fotográfica. Obrigado, prezado corredor.

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h58

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Jovem do Mississipi faz 51 maratonas em 50 dias

Mais que Karnazes

O grande ultramaratonista Dean Karnazes, conhecido por seus feitos em distâncias ultralongas, correu 50 maratonas em 50 dias, o que originou um livro com o mesmo nome (por sinal, já lançado por estas bandas, até com a presença do autor).

Pois agora um garoto do Mississipi faz um feito tão impressionante quanto e ainda botou uma maratona a mais na conta: em 50 dias, correu 51 vezes a distância de 42.195 metros, visitando os 50 Estados do seu país.

O objetivo da empreitada de Sam Thompson, de 25 anos, foi arrecadar fundos para as vítimas do furacão Katrina, que se abateu sobre Nova Orleans há quase um ano, e chamar a atenção para a situação lastimável em que parte da região ainda se encontra.

Ele terminou sua aventura na sexta-feira passada e, desde então, tem feito outra maratona --esta de entrevistas a rádios, jornais e TVs. Contou que as provas foram realmente difíceis, mas o mais complicado de todo o projeto foi a logística das viagens.

"Ao longo desses 50 dias, eu corri em todas as horas do dia", afirmou ele, que chegou a correr duas provas em um só dia, para fechar a conta.

Thompson foi acompanhado pela namorada, Kirsten Sellereit (com ele na foto/Divulgação), nutricionista que se encarregou do planjamento da alimentação do corredor.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h05

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Conversão ilegal é ameaça a corredor de rua

Redobre os cuidados

Hoje quase fui atropelado por um furgãozinho de entregas de uma rede de farmácias que fez uma conversão ilegal na avenida Sumaré, zona oeste de São Paulo. nada aconteceu porque o carrinho rosa e verde fez toda a manobra irregular muito lentamente, o que também evitou uma tragédia, pois o grupo de motoqueiros que vinha atrás teve tempo para parar ou desviar do motorista malandro.

Esses caras que trapaceiam no trânsito são um perigo para todos e, especialmente, para os corredores de rua, que vão no seu ritmo e não esperam que lhes venha um adversário pelos costados ou pelos lados.

Por isso, é muito importante que você redobre a atenção durante seu treino, especialmente nesta época do ano, em que todo mundo está mais estressado, acelerado, tentando fazer um monte de coisas ao mesmo tempo para ficar livre dos compromissos antes do Natal ou do Revéillon.

O primeiro cuidado básico ao correr na ruão é seguir no contrafluxo, na contramão. Mesmo assim, procure correr pelas calçadas. Sei que em São Paulo isso é dureza, pois as calçadas são estreitas e maltratadas, transformando o treino em verdadeira corrida de obstáculos. use o bom senso para calcular onde está o risco maior.

Correndo da contramão, redobre os cuidados nos cruzamentos. Os motoristas que vêm de uma rua transversal para entrar na artéria principal não esperam que algo esteja vindo no sentido contrário. Conforme o caso, eu até entro na rua lateral e vou atravessar mais para o meio da quadra para evitar qualquer surpresa desagradável.

Use roupas chamativas. Se correr à noite, coloque na roupa um pisca-pisca e examine se é o caso de usar uma lanterna de cabeça. Elas são um pouco desconfortáveis, mas são leves; com o tempo; a gente se acostuma. Uma medida simples e barata é usar coletes ou faixas reflexivas, tal como fazem os garis e trabalhadores do trânsito.

Finalmente, mas não menos importante: por favor, não use fones de ouvido ao correr na rua. O prazer da música tira um importante sentido e deixa o corredor menos alerta aos sinais de perigo. Ao correr com qualquer tipo de fone de ouvido, você multiplica os riscos para si mesmo e para todos a sua volta.

Se considera imprescindível, deixe para usar esses aparelhos quando chegar a um parque ou pista sem trânsito. E pratique seu esporte com segurança e alegria.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h21

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Chuva deixa mais gostosa a Volta da Pampulha

Pão de queijo do asfalto

 

Fui a Belo Horizonte, mas não vi as montanhas de Minas, que cercam a capital em um "abraço feito de terra", como cantou o poeta Drummond. A neblina encobriu as colinas, e minha visão foi tolhida pela chuva que lavou o fim de semana, molhando sem parar o asfalto, os carros, o Mineirão e o Mineirinho, a igreja de São Francisco. Parece até que deixou mais cheia a lagoa da Pampulha, palco de uma das mais conhecidas corrida deste Brasil, a Volta da Pampulha.

São exatos 17.800 metros em torno do belo espelho d’água, a crer nas informações apresentadas no site da prova. Faça isso sob chuva permanente, com um certo vento cortante de vez em quando pegando na contramão, e cada metro merecerá ser contado em dobro.

Foi assim no último domingo. Aproveitei minha capinha de plástico vagabundo até os últimos momentos antes da largada. O aguaceiro tinha diminuído, parecia que teríamos uma estiagem, e deixei de lado a vestimenta protetora. Pois foi só me expor que a água caiu de novo. Aí, não tinha mais jeito: molhado por molhado, molhado e meio, como diz o povo. Podia apenas torcer para que a largada fosse na hora prevista.

Que, por sinal, não existia assim exatamente: o site oficial dizia que sairíamos "a partir das" 9h15, com eventual atraso de sete a dez minutos. De qualquer forma, 9h15, mais ou menos, soou a corneta, marcando o início do movimento da massa.

E que massa! A multidão formada por mais de 12 mil inscritos lentamente movimentou seus músculos. Quem estava com o peito na fita se mandou, e as levas seguintes aos poucos foram se transformando, deixando a posição estática para entrar no passo, no trote, até um galopezinho meio sem-vergonha. A mim foram necessários mais de sete minutos até cruzar a largada e enfim começar a me mexer como se estivesse em uma corrida.

A chuva, em si, não atrapalha. Ao contrário, o friozinho exige que a gente se mova mais rapidamente, é melhor para ganharmos uma média menos tartaruguenta. O problema são as poças, o barral, as lagoas que se formam no asfalto, transformado todo ele em armadilha escorregadia.

Mesmo assim, apesar de alguns sustos, nunca perdi o equilíbrio nem vi ninguém espatifado no chão; a ambulância que passou guinchando por mim, já a pouco mais de um quilômetro do final, devia estar levando alguém que se sentiu mal por outra razão.

Na prova, ontem, só dava mesmo para se sentir bem. Tudo funcionou direito. Nos postos de abastecimento, havia água em profusão --resta saber se seria assim em dia de sol forte, como foram as mais recentes edições dessa carreira.

Sem sol para nos maltratar e tirar a concentração, os quilômetros fluíram gostosos. Ainda que meio de revesgueio, com a vista embaçada pela chuva, deu para apreciar as belezas que margeiam a lagoa e para imaginar outras tantas, no entorno, que parece ser uma das regiões mais ricas da cidade, cheia de belos casarões em bem-cuidadas ladeiras residenciais.

Mesmo parando para bater fotos e reduzindo o ritmo para conversar com um ou outro conhecido, cheguei ao km 11 com média de exatos 6min30/km, o que estava mais do que bom para mim.

Resolvi tentar melhorar, apesar das terríveis dores no calcanhar esquerdo, que faziam com que minha passada ficasse cambota e se refletiam em mais dores ao longo da perna e, especialmente, na já sofrida lombar. O mal é uma fasciite, que vem sendo tratada aos poucos, no entretreinos: às vezes melhora, outras piora, mas boa não está ficando não...

Azar dela, pois a proximidade da chegada foi incentivo para forçar um pouquinho mais, sem cansar, mas parecendo que galopava. E assim, molhado de chuva e de suor, satisfeito como quê, cheguei ao final da Volta da Pampulha, bela corrida mineira gostosa que nem pão de queijo quentinho.

....

PS.: As fotos desta mensagem foram feitas por mim (a do alto) e pela Eleonora; o mapa é do Google. Veja outras imagens AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h34

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Papai Noel larga renas e corre no asfalto

 

Corra, Bom Velhinho!!!

Indefectível sinal de que o natal se aproxima são as corridas em homenagem ao Papai Noel.

Pelo mundo afora, pessoas se vestem tal e qual o Bom Velhinho e vão para as ruas suar de alegria e disposição, em provas em geral destinadas a arrecadar fundos para entidades benemerentes.

Assim é, por exemplo, na agitada Las Vegas que, no último fim de semana, deixou de lado sua porção mais depravada para levar à Strip (a avenida principal, onde ficam os maiores hotéis e cassinos) a Las Vegas Santa Run (confira o site AQUI).

Foram mais de 5.000 pessoas fantasiadas, o que dá à corrida uma boa chance na disputa pelo recorde mundial de maior corrida de Papais Noéis do mundo.

Uma de suas grandes adversárias, se não a maior rival, é a Liverpool Santa Dash, que, como diz o nome, é realizada na cidade britânica pátria dos Beatles.

Lá, segundo um blog que você pode ver AQUI, em inglês, cerca de 7.000 aspirantes a Bom Velhinho se reuniram para correr e fazer benemerência, além de tomar cerveja, como você vê na foto ao lado.

Ah, talvez você saiba, mas fica o registro: a palavra "santa" no nome das corridas se refere a Santa Claus, que é como americanos e britânicos (provavelmente, também nativos de outros países) chamam o Papai Noel.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h39

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Marilson vai a Londres, depois da desistência em Nova York

Elenco de campeões

Os organizadores da maratona de Londres, marcada para 25 de abril do próximo ano, já estão anunciando a presença de um elenco estelar, a começar pelos atuais campeões, o queniano Samuel Wanjiru e a alemã Irina Mikitenko, que vão defender seus títulos.

Entre os nomões anunciados está o do brasileiro Marilson Gomes do Santos, bicampeão de Nova York que termina este ano com uma nota amarga, tendo desistido na metade da prova norte-americana. Apesar de apresentado com um dos candidatos ao posto mais alto do pódio, ele tem apenas o nono melhor tempo entre os contendores já conhecidos.

O pelotão de elite conta com nada menos que seis maratonistas sub2h06, liderados pelo queniano Duncan Kibet, que correu a maratona de Roterdã em 2h04min27, o segundo melhor tempo da história.

No feminino, Mikitenko também encontrará oposição feroz, apesar de ser a mais veloz entre as corredores já anunciadas. Uma oponente será a britânica Mara Yamauchi, que deverá contar com todo apoio dos locais, já que até agora não está confirmada a presença da estrela-mór Paula Radcliffe. A campeã olímpica Constatina Dita também estará presente, além da norte-americana Deena Kastor e da ultradeterminada russa Lyudmila Petrova; outros destaques são as etíopes Magarsa Assale Tafa e Bezunesh Bekele, a chinesa Bai Xue e a russa Liliya Shobukhova.

Vai ser ótimo acompanhar esses duelos.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h04

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Dicas para quem vai correr a Volta da Pampulha

Água, água, água

Nunca corri a bela e maltratada Volta da Pampulha, portanto não posso falar sobre o percurso, que me parece muito bacana, plano e divertido.

Mas tenho uma certa experiência com provas quentes e nem sempre bem organizadas. O que me leva a dizer o seguinte: a partir deste momento, a melhor preparação que você pode fazer para ter uma boa participação na prova é beber muita água, alimentar-se bem e descansar bastante.

Talvez a maior modificação na rotina deva ser mesmo o aumento da ingesta de água. Em geral, eu costumo beber de dois a três litros de água por dia. Quando se aproxima a data de alguma prova longa, aumento isso para de três a quatro litros por dia.

Faço isso ouvindo conselhos de médicos, técnicos e nutricionistas. Não me peça agora a explicação técnica e fisiológica da coisa (algum leitor médico pode esclarecer nos comentários, por favor), mas a idéia é aumentar a hidratação geral, deixar o corpo mais refrescado. Funciona.

Em geral, eu começo esse aumento na quarta ou na quinta feira, quando a prova é no domingo. Então, cuide-se.

Os corredores mais lentos, que vão em ritmo em torno de  6min por quilômetro, podem pensar em usar duas vezes o gel de carboidrato ou outro sistema de reposição energética. Eu diria que essa prova deve ser tratada, nesse aspecto da reposição de carbos, como se fosse uma meia maratona. Nas provas de 21 km, em geral eu uso um gel por volta do km 8 e outro por volta do km 17. Se fosse correr a Pampulha, usaria um por volta do km 7 e outro perto do km 15 (no meu ritmo, mais ou menos a cada 45 min).

Outra recomendação geral é para tentar conter a ansiedade. O que treinamos está treinado e não vai ser nesses poucos dias que faltam que vamos melhorar velocidade, resistência ou qualquer outro aspecto de nossa corrida. Portanto, procure relaxar, descansar, fazer treinos leves, alongar e preparar o espírito para o fogo da disputa. porque ela vai ser quente.

Talvez não terrível quanto no ano passado, pois a meteorologia prevê chuvas e temperatura máxima de 21 graus, mas acho que não dá para confiar muito... De qualquer forma, mesmo com chuva, essa temperatura já é alta e os corredores devem tomar o máximo cuidado.

Outra coisa que sempre me assusta em provas da Yescom é o maldito horário. Por causa da transmissão pela Globo, as provas começam muito mais tarde do que deveriam, se a saúde dos corredores fosse levada em consideração. Para ficar piro, as provas não têm uma hora certa de largada: no regulamento da Pampulha, por exemplo, está escrito, em referência à categoria geral, masculino e feminino: "LARGADA a partir das 09:15h em pelotão único". E, para deixar as coisas ainda mais incertas, avisa: "Os horários citados acima poderão variar entre 7 e 10 minutos a mais.".

Ora, raciocinando por absurdo, se a prova começar às 23h59 não estará ferindo o regulamento, pois o horário de largada é "a partir das..." e ainda pode atrasar...

Bom, espero que as coisas fiquem dentro do razoável e que a organização funcione dentro dos conformes para que sejam preservados o bom humor e a saúde dos mais de 12 mil inscritos nessa corrida mineira.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h03

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Saiba o que a maratona faz com seu corpo

Alta temperatura

 

A tela que você vê nesta página é apenas uma das combinações possíveis em um sensacional gráfico interativo apresentado no site da maratona de San Sebastián, Espanha.

O gráfico mostra as alterações sofridas no corpo humano durante uma maratona e compara os efeitos de participação na prova em atletas de elite (a linha verde no quadro cima) e corredores amadores.

O gráfico mostra as alterações da temperatura do atleta, que pode ultrapassar os 39 graus; clicando-se na linha vermelha, no lado esquerdo superior da tela, abre uma janela com um comentário sobre o desempenho do corpo em cada uma das etapas da prova.

É uma aula de fisiologia do exercício, tudo muito claro e apresentado de forma atraente. Os textos estão em espanhol. Para conferir o gráfico, clique AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h35

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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