Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Fesporte cancela maratona de Santa Catarina

Falta de verba

A Maratona Internacional de Santa Catarina, que estava marcada para o próximo mês de abril, foi cancelada. O anúncio foi publicado hoje no site da Fesporte (Fundação Catarinense do Esporte).

Segundo a nota "a dificuldade na realização do evento, que obrigou ao cancelamento, se deve a um enxugamento do orçamento da entidade".

E continua: "A organização tem obrigações no sentido de montar uma infraestrutura adequada com segurança e conforto para todos atletas e essas ações ficariam comprometidas devido aos cortes no orçamento".

No ano passado, o balanço oficial da nona edição da maratona, publicado no próprio site da Fesporte, dizia: "A Maratona Internacional de SC teve a participação de 1.300 atletas dos 1.500 inscritos. A competição é um evento do Governo do Estado através da Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte e organizada pela Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte). Foram distribuídos mais de R$ 80 mil em prêmios".

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h57

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Especialista informa sobre fasciite plantar

 

Paciência e exercícios

O relato de minha saga em defesa da sanidade de meu calcanhar esquerdo inspirou um espírito de solidariedade em corredores dos mais diversos recantos, como você pode conferir nos comentários sobre aquele texto (tem de rolar a página).

Alguns contaram suas histórias, outros deram receitas salvadoras e houve quem simplesmente manifestasse seu apoio à luta incessante pela volta ao asfalto sem dor.

Fisioterapeutas e médicos também mandaram comentários, por e-mail. Agradeço a todos, corredores e especialistas, irmanados que estamos na disposição de fazer uma corrida saudável (pelo menos, um treininho por semana, vá lá...).

Pois elegi, como uma espécie de representante de todos os comentaristas, o doutor Márcio Freitas, especialista em pé e tornozelo que milita no Instituto Vita e que mandou apaziguadores esclarecimentos sobre a maldita e penosa fasciite plantar.

A mensagem dele começa dizendo que não devemos (não podemos) ficar muito ansiosos, esperançosos, crentes de que a cura dessa inflamação será rápida. Em contrapartida, não é necessário excesso de temor de que o paciente vá acabar na faca.

É fato comprovado, diz Freitas, que "a fasciite plantar demora em média oito meses para melhorar e que mais de 90% dos pacientes melhoram sem a necessidade de procedimentos invasivos, cirurgias".

Se a cirurgia se fizer necessária ou for o procedimento escolhido, "devemos contar com três meses, pelo menos, de afastamento das corridas, com número de ótimos e bons resultados em torno de 75%".

Ou seja, na humilde opinião desse escriba, não vale a pena. É melhor ter calma e paciência, alongar e fortalecer, que uma hora a gente volta com tudo e arrasa o quarteirão.

Com o que Freitas parece concordar, pois diz: "O tratamento conservador da fasciite plantar é um paradigma para os ortopedistas, enraizado nas nossas cabeças pelos nossos mestres nas escolas de Medicina: ‘Para que operar, se a dor, mais cedo ou mais tarde, irá melhorar?’"

Mas, para os corredores, admite ele, oito meses podem ser uma eternidade. "Não podemos destratar um paciente, antes de paciente um corredor, pedindo para ele deixar de correr, conduta aceitável tempos atrás", afirma o médico.

Freitas diz ainda: "Cabe ao médico e ao paciente/corredor, diante dos fatos e números, discutir a realização precoce da cirurgia, para agilizar o retorno à corrida".

Bom, eu prefiro correr uns meses dentro da água do que fazer uma cirurgia que, pelo explicado, tem mais cara de eletiva do que de necessária.

E o especialista conclui: "Em resumo, na minha opinião, o melhor tratamento clínico para o paciente é aquele que coincide com o tempo da melhora natural da fasciite".

O que eu pretendo fazer é, com a orientação já recebida de meu médico, tentar ajudar essa "melhora natural" o máximo possível, com exercícios e alongamento. E tratar de tentar me acalmar para superar a dor e aguentar um tempo ainda com corridas curtas ou com algum sofrimento. Afinal, como diz meu treinador, essa dor não nasceu comigo. Uma hora ela passa. Que essa hora venha logo...

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h50

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Fim do horário de verão aumenta riscos para corredor

Apelo aos organizadores de provas

O horário de verão terminou ontem, mas a estação calorenta continua. No Brasil, aliás, é sempre tempo quente na maior parte do território.

Por isso mesmo, está mais do que na hora de as empresas que organizam provas pensarem um pouco mais na saúde e no bem-estar dos corredores, puxando para mais cedo o horário da largada.

E olhe que, a julgar pelos termômetros dos últimos dias, nem assim as corridas seriam realizadas em condições recomendadas pela IAAF, a Fifa do atletismo.

Nelson Evêncio, presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo, diz que o manual da entidade internacional recomenda bandeira preta para temperatura acima de 28 graus e umidade de acima de 75% (há ainda outras condições de bandeira preta). Nessas condições, diz ele, não deveria haver a competição ou deveria ser interrompida, mas infelizmente é uma recomendação e não uma proibição.

Por isso, acabam acontecendo em condições adversas até mesmo competições internacionais do calendário oficial, como o Campeonato Mundial de Meia Maratona, que tivemos em 2008 no Rio de Janeiro, e as maratonas do Mundial de Osaka (2007) e dos Jogos Olímpicos de Pequim (2008).

O que não significa que os organizadores de provas para amadores não possa colocar suas corridas mais cedo, começando provas longas, como um meia maratona, às 7h, por exemplo. A saúde dos corredores agradece. A contrapartida é de alto risco, conforme explica o doutor Gilson Shinzato, especialista que atua no HCor.

Ele diz que, em temperaturas acima de 20ºC, o corpo pode perder até dois litros de água por hora durante exercício intenso. Citando o livro "Sports Injury Assesment and Rehabilitation", Shinzato aponta quatro síndromes à hipertermia induzida por exercício: 1) Cãimbras, geralmente relacionadas à grande perda de sódio e potássio; 2) Síncope, com vasodilatação e represamento do sangue nas extremidades reduzindo o retorno venoso ao coração e causando desmaio por pressão arterial baixa e insuficiente fluxo sanguíneo para o cérebro; 3) Exaustão por calor, com fraqueza extrema, hipertermia (39,5ºC), sede, redução da produção urinária, confusão mental ou delírio, cãimbras, cefaléia, taquicardia, hipotensão, mialgia, vômitos e diarréia; e 4). Colapso por calor, emergência médica com falência do mecanismo termorregulador do organismo. Não há mais sudorese, há hipertermia acima de 40ºC e o atleta está seco, vermelho e com diversos graus de comprometimento cerebral, desde confusão mental até o coma, podendo falecer se não houver atendimento rápido.

É por isso que quem defende os corredores procura oferecer a eles as melhores condições de desempenho com saúde. A ATC, diz Evêncio, "já se reuniu com organizadores de provas e sugeriu mudanças de horários, além da melhor distribuição de água, de hidratantes e da orientação aos corredores via microfone e informativos antes da prova".

Além disso, ele afirma que os treinadores têm recomendado que, no calor, os atletas diminuam o ritmo, corram somente para participar ou simplesmente não participem de provas onde haja risco. "Atualmente, estamos procurando apoiar e recomendar as provas onde as largadas ocorrem mais cedo", resume Evêncio.

Complementando, o doutor Shinzato diz que o American College of Sports Medicine produziu um elenco de recomendações para evitar lesões em corredores que participam de provas de fundo em altas temperaturas. Entre elas, estão as seguintes orientações: "Todos os eventos de verão devem ser agendados cedo, de preferência antes das 8h ou, à tarde, após as 18h para minimizar a radiação solar; suprimento de água deve ser garantido antes da largada e a cada 2-3 km. Os fiscais de corrida devem ser orientados para reconhecer sinais de colapso térmico e os controles de tráfego e comunicação por rádio devem permitir o rápido atendimento; um diretor médico familiarizado com fisiologia do exercício, medicina esportiva e emergências, incluindo hipertermia, deve coordenar o suporte médico do evento juntamente com o diretor de corrida.

Então, organizadores de provas, que tal começar as corridas longas às 7h? Ou ainda mais cedo, dependendo do Estado? A saúde dos brasileiros agradece.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h47

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Para fugir da dor, corredor incréu entrega pé às chamas e ao martelo

Em busca da cura

Confesso: não acredito no poder curativo das esferas nem em aromaterapia, musicoterapia, medicina oriental ou ortomolecular, meditação ou pensamento positivo. Também não creio em benzeduras, orações para santos, orixás, antepassados, cirurgias astrais ou quaisquer outras intervenções do além. Sou sócio-atleta do Clube dos Incréus, materialista de carteirinha, "mais ortodoxo que reclame de xarope", como diria o Analista de Bagé.

Mas acontece que meu pé esquerdo dói. Dói, não para de doer, não me deixar correr em paz e entorta meus caminhos e minhas crenças (ou descrenças).

Quando começou, não sei ao certo. Mas foi no ano passado, antes de outubro. Já lá se vão quase seis meses.

A dor é no calcanhar, bem no meinho, um bocadinho só para o lado esquerdo. Se apertar meio centímetro para cima, não dói. Para baixo, não dói também. No meio do pé não dói, não dói nos dedos nem dos lados. Dói ali. E depois se espalha.

Primeiro, esperei passar. Mas não se foi, e eu tive de buscar ajuda especializada.

O cara é ortopedista do bons, já cuida dos meus ossos há anos, sempre dando um jeito de colocar meu despreparado corpo em condições de correr maratonas uma em cima da outra, ainda que a natureza não me tenha aquinhoado com um biotipo adequado a esse tipo de esporte _a nenhum, para encarar de frente a verdade dos fatos.

Pois ele olhou, apertou o calcanhar de um lado e de outro, foi fechando a cara, ficando mais silencioso. "É osso", já pensei comigo mesmo, começando a calcular quanto tempo ficaria sem correr por causa de uma fratura por estresse. Mas podia também ser fasciite plantar, uma inflamação que não me impediria de correr. Há que fazer uma ressonância magnética.

Ainda bem que o convênio paga, pois a consulta já tinha me custado os olhos da cara. Dois dias de espera intensa e enfim chega o laudo.

Cheio de palavrões assustadores, mas com adjetivos que parecem aliviar o desespero: "Diminuto esporão calcâneo plantar e posterior, tendinopatia com leve espessamento, leve espessamento da porção central da fascia plantar, leve esclerose óssea subcondral na subtalar posterior e na talonavicular, pequena distensão líquida da bainha dos fibulares e do tibial posterior, pequeno derrame articular subtalar".

Além disso, ergam os braços aos céus e acendam velas aos santos (não eu, que não acredito em nada disso): "Demais estruturas ósseas com morfologia e sinal dentro da normalidade". Melhor ainda: "Gordura do seio do tarso preservada e demais planos musculares e tendíneos sem anormalidades".

Em resumo, uma fasciite plantar, "inflamação da planta do pé, que apresenta internamente uma grossa fáscia (tecido firme e forte que suporta o peso do corpo)". O tratamento, me disse o médico, é conservador, quer dizer: redução do ritmo de treino _sem interrupção do treinamento_ e tratamento caseiro (saiba mais AQUI).

Que maravilha. Com seis sessões de fisioterapia, alongamento em casa e um pouco de fortalecimento específico, eu praticamente já não sofria. Em um mês, tive alta, com recomendações específicas de manter os trabalhos de alongamento, não deixar de fazer exercícios antes e depois dos treinos e aumentar lenta e progressivamente o volume de corrida.

Você fez? Nem eu. Já não doía tanto...

Alongava quando dava na telha, fortalecia quando tinha vontade, corria o que desse. Se viesse uma chuva, então, coisa boa, dava para correr mais rápido. Até de provas longas participei, fazendo minha estreia na Pampulha (18 km) e revisitando, com muito prazer e alta velocidade, a Gonzaguinha (15 km), onde fiz minha melhor média por quilômetro no ano de 2009.

A dor voltou. Mas eu, de vergonha, não voltei ao meu médico.

Crente (epa, opa!) de que era só dar umas repuxadinhas, dar uns choquinhos no pé, fazer um ultrassom rápido, consultei a lista do convênio e encontrei um que pareceu boa gente. E ainda fazia acupuntura. Googlei o cara, os resultados foram bem satisfatórios, marquei consulta.

O consultório é muito diferente de um particular, mas estava tudo nos conformes. Marquei sessões de acupuntura e também de fisioterapia, tudo no mesmo prédio, depois de fazer um raio-x ali também.

Eu nunca acreditei muito nessa história de quem o sujeito coloca uma agulha no terceiro dedo do pé esquerdo e o paciente para de ter dor de ouvido ou qualquer outra baboseira do gênero, combinando chakras, meridianos do corpo e por aí. Mas, se os órgãos oficiais da medicina brasileira consideram a acupuntura uma prática médica, quem sou eu para discordar?

Ao contrário, já várias vezes fui paciente de excelentes acupunturistas, com ótimos resultados. E esperava repeti-los nessa agulhagem de convênio.

Que deu certo, pelo menos na hora. A dor sumia mesmo.

Mas voltava. E não passava com a fisioterapia, que, esta sim, era muito fraca em relação ao que eu estava acostumado. Os aparelhos mais antigos, a duração do tratamento menor, os cuidados com alongamento e exercícios menos severos... Enfim, me pareceu uma fisio meia boca. Segui, porém, já que não estava pagando nada.

Também não melhorei, até que uma amiga recomendou um outro sistema de tratamento. Coisa muito boa, tinha salvado a moça da cirurgia. "Ele me tirou do bico do corvo", garantiu a colega.

Com uma recomendação dessa e com a dor ainda limitando meus treinos, não havia por que não tentar o tal fisioterapeuta.

Caro demais, uma fortuna: cada sessão era mais do que o dobro do que pagava no consultório particular aonde costumava ir. Mas a avaliação inicial era gratuita...

Olha, o cara me convenceu.

Mostrou tim-tim por tim-tim as causas do problema, deu dicas de movimentação, exemplos de como meu corpo precisava ser reorganizado e as passadas, reestruturadas. Um novo Rodolfo haveria de nascer.

Mas aí já era a época das Festas. Fiquei de não correr por duas semanas e voltar depois... Caminhei na praia, sem esforço. Mas fiz umas duas ou três corridinhas leves até a volta ao especialista, no início deste ano.

Foi uma descoberta mesmo. Com as aplicações de ultrassom, a inflamação parecia encolher. E as orientações técnicas e posturais que ele deu eram bastante úteis: estava mudando meu jeito de correr.

De novo, com meia dúzia de sessões, parecia tudo ir às mil maravilhas. Menos para meu bolso, que doía ainda mais do que o pé. Resolvi interromper o tratamento para reduzir a hemorragia na minha conta bancária, contando que, desta vez, faria mesmo os exercícios etc e tal.

Que nada!

 CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h50

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Para fugir da dor, corredor incréu entrega pé às chamas e ao martelo - final

Formão de madeira

Com duas semanas, as dores voltaram. Pelo menos, eu já não estava gastando tanto dinheiro. Talvez precisasse apenas de um empurrão para o pé melhorar também. Quem sabe uma massagem especial, um toque de gênio...

E foi assim que, incréu, materialista e ortodoxo, me vi num minúsculo consultório na Vila Mariana, quase intoxicado pelo cheiro de incenso que dominava os reduzidos metros quadrados da sala.

O mestre japonês era também diminutivo, anguloso, parecendo saído de uma obra de Akira Kurosawa. Era um Toshiro Mifune em vertente xamânica.

Ouviu minha arenga, não entendeu o que era fasciite, buscou um dicionário de termos médicos com tradução para os caracteres japoneses. A palavra não estava lá, mas ele se entusiasmou quando percebeu que era esporão calcâneo.

"Tem que quebrar", disse ele. E, como se precisasse ser mais explícito, mostrou-me um formão de madeira e um martelo comum, desses de acertar o dedo quando se tenta pregar um prego na parede...

Quando vi aqueles instrumentos, quase tive um treco. A pressão baixou, lembrei todas as explicações dadas pelos vários fisioterapeutas e médicos ortodoxos com quem tinha me consultado anteriormente, revisitei na memória o laudo da ressonância magnética e pensei mesmo em começar a explicar para o doutor samurai que aquilo não era um problema ósseo, mas da fáscia, precisava de alongamento e massagem, não de porrada.

Só pensei, porque, enquanto meu raciocínio e minha vontade tergiversavam, o mestre já me mostrava ilustrações do esporão de calcâneo e explicava como seria a terapia.

"Tem que quebrar", repetia, fazendo os gestos de martelar e acrescentando: "Dói, dói muito". Como a dor seria muito intensa, ela não iria fazer isso à seca...

Ufa, que alívio!

Já pensei em uma generosa injeção anestésica, uma pomada que fizesse adormecer os nervos da região, ou quem sabe uma talagada de uísque à moda das extrações de bala no Velho Oeste...

Que nada! Ele explicou que iria usar a moxa, que ira queimar umas plantinhas secas e amarfanhadas no meu calcanhar, e que aquilo iria doer muito, mas muito mesmo, e depois iria parar de doer. Por causa da dor, disse ele, o cérebro iria descarregar endorfinas, deixando a área pronta para ser martelada.

Ouvindo aquilo, me levantei para ir embora, mas o samurai comandou: "Tira o sapato e deita no chão". Fazer o quê?

Lá fui eu para a moxabustão (leia mais AQUI).

Ele usa uma massinha seca feita de uma erva chamada artemísia (parente do absinto). Coloca aquilo no ponto desejado do pé (ou outras partes do corpo, ao que eu saiba) e tasca fogo nela. A moxa não inflama, mas vai queimando como um rastilho, aquecendo brutalmente a região. É uma espécie de acupuntura a fogo.

E dó muito!

Na primeira, eu fiquei quieto, porque homem não chora, aguenta a dor e aquelas baboseiras todas. Na segunda, dei uma sacudida no pé. Na terceira, quase acertei um chute na cara do mestre. E dali a pouco já estava berrando, enquanto ele apertava meu tornozelo para valer, impedindo o sangue de chegar ao calcanhar.

Nos momentos de alívio entre um incêndio e outro no meu pé, eu pensava que, se aquilo era a anestesia, que tipo de dor seria a da martelada?

O incrível era que dava tempo para pensar. Eu precisava ir embora, fugir dali. Eu não acreditava nessa lenga-lenga. E se esse sujeito arrebentasse o meu osso? O que eu ia dizer lá em casa?

Bueno, fiquei.

Acabou a sessão de moxabustão, ele esperou meio segundo e agarrou de novo no meu pé.

Não sei como ele fez, mas pareceu usar o corpo como um prendedor, para manter a minha perna imóvel, enquanto segurava a cunha de madeira com uma mão e o martelo com a outra.

Eu já estava suando antes da primeira batida.

Comecei a berrar.

Ele colocou a cunha bem no centro do calcanhar e martelou uns quatro, cinco, seis vezes. depois, tirou a cunha e colocou no ponto ao lado. E assim foi, circundando o calcanhar, naquele maldito ponto de dor.

Dor, dor, dor. Cada vez doía mais. Até que terminou.

O mestre começou a fazer massagem na lombar, no quadrado lombar, no omoplata. Pé e perna, nada.

Até que ele falou: "Levanta, anda até a porta".

"Levanta-te e anda", disse Jesus em um de seus milagres, lembrei eu das histórias de Bíblia que ouvira na infância e nas quais não acreditava havia muito tempo.

Como é que eu poderia sequer pensar em encostar meu pé em qualquer coisa, quanto mais andar.

Mas me dobrei, ergui o corpo em um braço, coloquei a perna direita em posição, ergui-me apoiado nela e na mesa, mantendo a esquerda no ar.

"Anda", disse ele.

Coloquei o pé esquerdo no chão, devagarinho, mal roçando o parquê.

Não doeu.

Dei um passo.

Não doeu.

Caminhei os três passos até a porta, voltei, retornei à porta, voltei, repeti tudo outra vez.

Caminhei.

"Tá curado", disse ele. "Se precisar, volta aqui. mas não vai precisar", garantiu, me orientando para deixar o corpo descansar por uns três dias, sem caminhadas nem corridas.

De lá, saí sem dor. Cheguei a ensaiar um trotinho, só de bobo alegre, e depois segui caminhando. Ainda fiz hora, procurando uma lotérica para apostar na mega acumulada.

Descansei três dias.

Voltei a correr.

Zero dor. Que maravilha!

Mas, ao longo do dia, o pé foi latejando, mal podia colocá-lo no chão.

E me peguei alongando, fazendo os tradicionais e ortodoxos procedimentos que aprendera havia muito tempo, em minha primeira fasciite.

Quando tinha também aprendido que não existem milagres nem maravilhas curativas. O processo é lento e chato, exige a participação total do paciente, seja ele crente ou incréu.

Tinha esquecido ou desenvolvido esperanças em outras chances, acendido velas e moxas a deus e ao diabo, quem quer que sejam. Nenhum deles estava lá.

Eu é que vou ter de cuidar do assunto. Alongar, fortalecer, descansar, correr um pouquinho.

Alongar, fortalecer, descansar, correr mais um pouquinho.

Depois repetir.

Um dia eu chego lá. E talvez um dia ganhe na megasena.

Não foi desta vez.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h46

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Ex-campeão ferido em acidente no Quênia

Morte na estrada

O ex-campeão mundial dos 10.000 m Moses Tanui saiu ferido e o ex-atleta David Lelei morreu em um acidente de carro nos subúrbios de Nairobi, segundo informações divulgadas ontem pela imprensa do Quênia.

Tanui, ouro em Tóquio-91 e prata no Mundial seguinte, foi hospitalizado com ferimentos graves, mas é dado como "fora de perigo".

No Mundial da Alemanha, em que foi prata, Tanui perdeu para Haile a poucos metros da chegada de uma controvertida prova. É que, logo depois de soar o sino indicando a última volta, Haile estava nos calcanhares do queniano e chegou a pisar no tênis do rival, que botou as mãos na cabeça, como a dizer: "O que está acontecendo?".

O tênis ficou meio frouxo, e Tanui, hoje com 44 anos, jogou fora o calçado, correndo com um pé descalço praticamente toda a última volta.

Depois, o etíope foi pedir desculpas, mas Tanui quase lhe bateu com o calçado, não aceitando as explicações do rival, como você pode acompanhar no clipe abaixo.

Lelei não era tão famoso nem tão rápido como seu colega de desastre (Tanui foi o primeiro homem a correr a meia maratona em menos de uma hroa), mas teve destaque em competições internacionais, sendo finalista em Mundiais nos 1.500 m e nos 800 m. Atualmente, aos 38 anos, trabalhava como técnico.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h59

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Mãe capaz de saltar mais de dois metros se desaposenta

Novo desafio

Com 1,82 m e 62 quilos, ela não é uma corredora, mas pode servir de inspiração para muitos de nós, que às vezes entregamos os pontos. Mesmo tendo desistido, é possível voltar atrás, retornar ao asfalto, às pistas, à vida ativa.

Estou falando da belga Tia Hellebaut (foto AP), campeã olímpica do salto em altura, que abandonou o esporte em dezembro de 2008.

A vitória olímpica em Pequim, naquele ano, foi uma espécie de canto do cisne para a atleta: "Fiquei com a sensação de não ter maiores desafios competitivos".

Largou e foi cuidar da vida e dos amores, tornando-se mãe em junho passado.

Pois ontem, ao completar 32 anos, anunciou que pretende voltar. Segue o exemplo das veteranas tenistas belgas Kim Clijsters e Justine Henin, que se afastaram das quadras por um tempo e voltaram em belas condições competitivas.

"Agora tenho um desafio", disse Hellebaut: "Quero ser uma mãe capaz de saltar acima dos dois metros".

Tomara.

Este blogueiro torce por ela e por todos os que, em qualquer área do esporte --da vida--, tentam recomeçar, teimam em ficar vivos.

Parafraseando a frase feita, "somos todos tripulantes nesta nave e não desistimos nunca".

Vai lá, Tia, salta que o espaço é teu.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h01

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Revista on-line traz belíssimas fotos de corridas

Linda e grátis

Recebi hoje a edição de fevereiro/março da revista internética “Pace”, uma publicação virtual da Marathon-Photos, que, como diz o nome, é uma empresa especializada em fotografar maratonas e outros eventos esportivos.

A revista é de altíssima qualidade gráfica (claro que depende muito de seu monitor). É muito bem desenhada, como deveria ser uma publicação que serve de propaganda para os serviços da empresa.

Mas ela vai bem além disso. Traz belíssimas fotos de maratonas e provas menores, competições de triatlo e mountain bike. E não são meros textos legendas, como a gente costuma chamar aqueles textos curtos que acompanham algumas fotos: ao contrário, há reportagens contando desenrolar de provas e outras apresentando eventos, não só no hemisfério Norte, mas também no mundo abaixo do Equador.

Claro que tudo tem um tom meio oficialesco e entusiasmado, mas, pelo menos, você fica sabendo de coisas que nem sempre chegam pelas agências de notícias. E praticamente cada texto tem um complemento de serviço bacana, como o site da prova resenhada, o twitter do evento e link para inscrição.

Para completar o rol de gostosuras, você não paga nada por isso. A assinatura é gratuita. Basta fazer seu cadastro (há um link para isso na página do índice) e você recebe a “Pace” no seu e-mail.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h26

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Carnaval com corrida é mais legal

Morro de inveja

Olha só que bacana: enquanto a gente estava por aqui naquele calorão danado, alguns se preparando para o Carnaval, outros não dando a menor bola para a folia, no Egito a turma estava correndo uma maratona quentíssima.

E o adjetivo aí vale nas suas diversas acepções, pois a prova, além de ser corrida sob forte sol, é realmente muito bacana, passando por estruturas do tempo dos faraós, como mostra o registro da AP.

Realizada na última sexta-feira, a Maratona Internacional do Egito levou a Luxor 1.874 corredores de mais de 36 países.

Um dia ainda vou correr esta prova, mas ainda tenho de aprender muito, pois aguentar o sol no lombo ao longo de quatro horas e caquerada não é para qualquer um.

A não ser na praia, com sombra e água fresca... Mas aí é outra conversa.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h34

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Elegância marca revista para corredoras

Beleza no asfalto

Só hoje encontrei em uma banca a revista "W Run - Corrida para Mulheres", novidade na área editorial do mundo do atletismo.

Fiquei assutado com o preço, R$ 12,90, mas parece que todas do gênero estão nessa faixa. O que não significa que seja bom.

Em contrapartida, o conteúdo, na primeira vista geral, pareceu bastante bom.

A revista é arrumada, elegante, agradável. Trata de corrida, comida, roupas e por aí vai.

Tem uma página destacável, em papel mais duro, com sugestões de planilhas de treinamento.

Está com bastante publicidade e aparenta ter chances de competir no altamente competitivo mercado editorial.

Não gostei do título em inglês e também não concordo de jeito nenhum com a afirmação de que Kara Goucher é a melhor corredora norte-americana da década.

Isso cheira a deslumbramento com uma carinha bonita, jovem, que aparece bem na mídia e tem pinta de musa.

Mas La Goucher ainda tem de aprender muito para chegar perto da medalhista olímpica Deena Kastor, que ensinou nos Jogos de Atenas como se corre uma maratona em condições adversas. E, depois, mostrou como é possível lutar contra o câncer, vencê-lo, voltar às corridas e continuar competitiva e vitoriosa.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h32

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Cerveja prejudica recuperação de corredor

"Se beber, não corra"

O título acima é copiado de um excelente artigo publicado na edição deste mês da revista "O2". Nele, o técnico de atletismo Marcello Lima desfaz alguns mitos sobre o consumo de álcool e a prática de exercício físico.

Adverte que a gostosa, geladérrima cervejinha de pós-treino não é tão inocente assim, apesar de sua simpatia e do tratamento benevolente que em geral damos a seu consumo.

Ao contrário do que alguns acreditam, a cerveja é uma porcaria como repositor pós-exercício. "Para conseguir a reposição de carboidratos recomendada, o atleta deveria consumir oito latas de cerveja logo após o exercício e outras oito duas horas depois!!!".

Tudo bem. Pode haver quem se entusiasme com isso. Mas saiba que, segundo Lima, pouco mais de meio copo de suco de frutas já fornece os carboidratos necessários.

Além disso, o álcool tem efeitos diuréticos. Ou seja, bebendo cerveja, "o atleta corre o risco de perder mais líquidos".

O artigo publicado na "O2" traz ainda uma informação assustadora sobre a ingestão de álcool antes da prática de exercício. Diz o autor: "Ela pode ser um prelúdio para um evento fatal".

E mais não me alongo para causar pânico, mas parece ser de bom tom dar uma revisada em hábitos que combinem bebida alcoólica e corrida.

Claro que elas não são excludentes, mas cada uma tem sua hora, lugar e função.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h33

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Emoção pura em cenas do atletismo

Com e sem recorde

A multirrecordista mundial do salto com vara, Yelena Isinbayeva, já começou o ano de olho em nova quebra de recorde. Primeiro, a russa fez o que precisava para vencer o Meeting Russo de Inverno, ontem em Moscou. Saltou 4,85 m, estabelecendo a melhor marca do mundo no ano, e mandou subir a trave.

Aí não deu e, além de se frustar, a atleta, também famosa por seus chamejantes olhos azuis, ainda teve de ouvir um sermão de seu técnico, Vitaly Petrov (foto Reuters), que movimentava os braços como um ventilador, talvez querendo combinar crítica, orientação e incentivo num pacote só.

A atleta até se entusiasmou e mandou subir a régua mais um centímetro. "Se é para quebrar o recorde, vamos quebrá-lo bem quebrado", provavelmente foi sua linha de pensamento.

Mas não deu certo, como mostra o registro da AP.

Do outro lado do mundo, também não deu certo a tentativa da etíope Tirunesh Dibaba de estabelecer, no Boston Indoor Games, uma nova marca mundial nos 5.000 m.

As coelhas quebraram antes da hora e ela teve de correr sozinha, além de lidar com câimbras desagradáveis. O que não a impediu de vencer em respeitáveis 14min44.53.

No masculino, Bernard Lagat não deixou barato e foi com tudo para tentar o recorde. Correu o que deu, parecendo até um pouco assustado ao ver se aproximar a faixa da chegada.

Depois, até botou a língua de fora para comemorar o recorde norte-americano dos 5.000 em pistas cobertas, no sábado: 13min11s50 (fotos Reuters).

E mais uma vez cruzamos o planeta para acompanhar um sensacional momento nos Jogos do Sul da Ásia, no sábado. Na prova de 200 metros, Chandrika Subakshini, do Sri Lanca, faz caretas e retorce o corpo todo em esforço para chegar à fita, que enfim alcança em primeiro lugar (AP).

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h00

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Loirinha manda ver na corrida dos machões

Fogo, gelo, lama e arame farpado

 

 

A corrida dos machões, uma prova realizada há 20 anos na Inglaterra, é o tema de reportagem que fiz para a Revista da Folha deste domingo.

A edição deste ano da Tough Guy aconteceu no domingo passado, em Perton, no coração da ilha, onde uma fazenda serve de base para um percurso absolutamente maluco.

Ao longo de cerca de 13 quilômetros, milhares de homens e três centenas de mulheres enfrentaram lagos de lama, engatinharam sob arame farpado, cruzaram carvão em brasa, desabaram em precipícios e escalaram paredões, mergulharam em lagos enregelantes, tudo sob o também gelado vento que caracteriza a região.

Eles participam do que o diretor do evento chama de maior teste de resistência física e mental do planeta. É tão duro que, afirma o cara, as Forças Armadas britânicas querem que seus recrutas enfrentem o percurso antes de serem mandados para combates de verdade.

Mas as mulheres não fazem feio não. Uma simpática professora de ginástica, dona de academia, foi a vencedora entre as damas, concluindo o percurso em pouco mais de uma hora e meia, deixando para trás mais de 3.000 marmanjos.

Ela se chama Lisa Foley, tem 30 anos, 1m67 e 62 kg e é a estrela das várias fotos que acompanham a entrevista. Ela respondeu às minhas perguntas por e-mail, contando de suas emoções na prova.

Leia a seguir a breve entrevista.

 

+CORRIDA -  Essa prova não é um tanto maluca?

LISA FOLEY  - Olha, dá para dizer que a Tough Guy é um pouco doida, sim. De fato, é MUITO maluca. Mas eu adorei cada momento da prova. É um desafio de verdade, não apenas de sua resistência física mas também de sua força psicológica. Os obstáculos são tão variados que às vezes você até esquece o quanto está se esforçando.

+CORRIDA – Como você se sentiu ao terminar. Você percebeu que era a primeira mulher?

LISA FOLEY – Sim, eu estava todo o tempo consciente de minha posição, porque os espectadores e o pessoal da organização passavam informações. No começo, eu era a quinta mulher, mas estava confiante de que, se eu não forçasse demais no início, tinha uma boa chance de chegar até elas mais tarde, superando uma por uma.

E foi o que aconteceu. Não demorou muito para eu alcançar a primeira colocada, no primeiro obstáculo em forma de A.

A partir daí, não dava para esquecer que eu estava na frente, porque público ficava gritando: “Você é a primeira, você é a primeira!”.

O apoio de todos é fantástico, é um clima muito bacana mesmo. Então, quando cheguei ao final eu estava superentusiasmada, mas também estava congelando, então minha primeira prioridade foi dar um jeito de me esquentar o mais rapidamente possível.

+CORRIDA – Você se machucou muito?

LISA FOLEYEstou cheia de manchas roxas pelo corpo todo e cortes por saltar em áreas com gelo. A maior parte dos obstáculos com água estava coberta de gelo... Além disso, apenas mais alguns cortes e machucados...

+CORRIDA – Como você treinou para essa prova?

LISA FOLEY – Eu sou personal trainer e dirijo minha própria academia, chamada Lisa Foley Fitness, onde nosso objetivo é treinar nossos clientes para que sejam capazes de enfrentar provas desafiadoras. Nós inscrevemos um grupo de oito pessoas, a maioria delas meus alunos, e nós treinamos bastante. O treinamento envolveu sessões de treinos intervalados, corridas em subidas e em trilhas e também exercícios na água.

Além disso, eu fiz pelo menos duas sessões por semana de treinos pessoais, no meu próprio ritmo e dando o maior duro.

Agora, tenho pela frente várias provas de triatlon, mountain bike e corridas.

Mas posso dizer que, até agora, a vitória na Tough Guy foi minha maior conquista, porque aquilo lá é um teste de verdade.

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h26

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Aposentado de 72 anos corre maratona sub-3h

 

Caminhos da vida

a minha coluna de ontem no caderno Equilíbrio da Folha (AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL), comentei as exigências da vida, que nos traz uma surpresa a cada esquina, derrubando plano e obrigado cada um a aprender a se adaptar e, não raro, a se reinventar.

Falei que os corredores gostamos muito de fazer planilhas, projetar tempos, organizar a vida. Muitos de nós somos metódicos ao extremo, fazendo sempre os mesmos percursos, anotando os mínimos detalhes dos treinos. Citei como exemplo um engenheiro aposentado que vive no Canadá, Ed Whitlock, que foi a primeira pessoa de mais de 70 anos a correr uma maratona em menos de três horas.

Claro que você tem perfeita idéia do que isso significa, mas não custa lembrar, para que tenhamos um termo de comparação, que a velocidade média de conclusão de maratonas nos Estados Unidos, em 2005, foi de 4h3208 para homens e 5h06min08 para mulheres.

Pois bem. Eu conversei com o simpático senhor Whitlock em 2003, pouco tempo depois de ele ter completado a Toronto Waterfront Marathon em 2h59min09. Por telefone, esse engenheiro de minas aposentado, então com 72 anos, me deu uma longa entrevista, que foi publicada na Folha em dezembro daquele ano.

A seguir, os principais trechos da conversa.

Folha - O que essa conquista representou para o senhor?

ED WHITLOCK - Eu fiquei muito satisfeito com o recorde, muito aliviado.

Folha - Por que aliviado? Há quanto tempo o senhor vem pensando nessa marca?

WHITLOCK - Comecei a pensar na maratona sub-3 quando estava chegando perto dos 70 anos, quando tinha 68. Fiz uma primeira tentativa pouco depois de completar 70 anos, mas corri 24 segundos acima das três horas. Desde então, tive alguns problemas, fiquei machucado e não tinha tido outra oportunidade até agora.

Folha - O que lhe dava tanta certeza de que poderia conseguir?

WHITLOCK - Aos 69 anos, corri uma maratona em 2h52min50. Isso me fazia acreditar que, no ano seguinte, eu faria mesmo sub-3, mas não consegui.

Folha - Quando o senhor começou a correr?

WHITLOCK - Quando eu estava na escola, na Inglaterra. Corria principalmente provas de cross-country. Mas parei quando vim para o Canadá, aos 21 anos. Eu era engenheiro de minas e vim trabalhar em mineração. Naquela época, nos lugares em que eu trabalhava, não havia corridas, ninguém corria. Então larguei de mão.

Folha - Quando o senhor voltou a correr? E como chegou às maratonas?

WHITLOCK - Aos 41 anos. Desde então, não parei mais de correr... Passei às maratonas quando eu tinha 45 anos, mas sem treinar muito seriamente. Na época, eu era principalmente um corredor de provas de pista, 800 m e 1.500 m. Eu era bastante bom para a minha idade, ganhei um Mundial nos 1.500 m quando eu tinha 46 anos. Cheguei às maratonas porque estava fazendo treinos longos como preparação para minhas provas curtas. Fazia longões durante o inverno para ganhar resistência para as provas curtas, realizadas no verão. E acabei entrando em uma maratona no final do inverno.

Folha - E o que há de bom em correr? Por que o senhor corre?

WHITLOCK - Eu corro porque gosto de participar de corridas, gosto de me sair bem em corridas, isso me dá muita satisfação. Descobri que corredores de longa distância são gente boa para conversar.

Folha - O senhor se considera um exemplo para outras pessoas de sua idade?

WHITLOCK - Algumas pessoas dizem isso. Acredito que meu desempenho pode ajudar a mostrar que as pessoas mais velhas provavelmente são capazes de fazer muito mais do que a sociedade acredita que possam. Meu recorde, por exemplo, certamente pode ser superado. Fui o primeiro _e isso é muito bom_, mas posso ser superado.

Folha - Como são seus treinos?

WHITLOCK - Corro duas horas por dia em um ritmo confortável, não muito forte. Corro em volta do cemitério. É um circuito muito pequeno, pouco mais de 500 metros. Não conto as voltas que dou nem marco o tempo de cada volta, simplesmente corro. Esse lugar fica perto de casa _se eu ficar cansado, é fácil voltar.

Folha - O senhor não tira dias de folga?

WHITLOCK - Não. Posso descansar um dia antes de uma prova ou deixar de correr uma vez ou outra, mas não estabeleço dias de folga deliberadamente.

Folha - Como é o seu dia?

Whitlock - Eu corro, trabalho em casa e no jardim, leio jornais e revistas, fico no computador. Assim é meu dia.

Folha - E no campo da saúde? Certamente o senhor está em melhor forma do que a maioria das pessoas de sua idade.

WHITLOCK - Não sei se isso se deve às corridas. Eu diria que provavelmente eu estaria saudável, em boa forma, de qualquer jeito. Correr não me prejudica, não me faz mal, exceto por algumas lesões de vez em quando, mas acho que é assim para a maioria das pessoas. Acho que, para sua saúde, é bom correr. Mas também há coisas ruins: você acaba machucando os joelhos, por exemplo, e há quem tenha ataque cardíaco.

Folha - Como é sua alimentação? O senhor bebe, fuma?

WHITLOCK - Não como nada de especial nem faço dieta, não uso vitaminas nem suplementos alimentares. Cheguei a fumar há muitos anos, mas por pouco tempo. Bebo vinho duas a três vezes por semana, uma cerveja de vez em quando.

Folha - O senhor tem alguma mensagem para os corredores?

WHITLOCK - Continuem correndo. Correr é bom.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h31

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Chega batelada de livros de corrida

Manuais de passadas

Está chegando às lojas brasileira uma nova batelada de livros de corrida. De modo geral, são manuais: livros que se apresentam como técnicos, com orientação para iniciantes e experientes.

Trazem dicas de nutrição, treinamento e, alguns, até uma espécie de orientação psicológica, com textos de inspiração.

Entre os autores, o mais conhecido _pelo menos, por este blogueiro_, é Jeff Galloway.

Ex-atleta olímpico, maratonista e colunista da revista "Runner’s World", Galloway assina o "Manual de Corrida", que foi lançado nos EUA na década de 1980 _a primeira edição vendeu 400 mil exemplares. Ele procura ensinar como correr bem e fazer do esporte um companheiro para a vida.

Também colunista da revista norte-americano, a outra figurinha carimbada é John "Pinguim" Bingham", que assina com Jenny Hadfield o "Corrida para Mortais". De novo, uma espécie de manual didático, que vem com o subtítulo "um plano inteligente para transformar sua vida por meio da corrida".

Completando a série de livros professorais, há o "Guia Completo para Corrida em Trilha", "Treine Menos, Corra Mais" e "Guia de Prevenção de Tratamento de Lesões".

Ainda não li nenhum, portanto não posso fazer uma crítica ou recomendação específica. Todos vêm com o aval da "Runner’s World", que é a principal revista da área no mundo.

O livro de Galloway custa R$ 79,90 e o de Bingham, R$ 59,90.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h31

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Melhores marcas mundiais em penca

Hospitalidade germânica

Já contei para você do meu amigo de ginásio FÁBIO SHIRO MONTEIRO, que hoje é músico e dá aulas de violão em uma pequena cidade da Alemanha. Pois o local é pequeno, mas hospitaleiro e esportivo: no domingo passado, foi sede de um meeting internacional de atletismo que não ficou nada a dever às grandes competições internacionais.

Direto de Karlsruhe, que também é terra natal de um time de futebol que não prima pelo melhor desempenho no campeonato alemão, Fábio mandou o seguinte texto, que relata as grandes vitórias obtidas em solo germânico.

 

 "O BW-Bank Meeting do Atletismo em Karlsruhe (Alemanha), ocorrido no domingo passado, terminou com nada menos do que sete melhores marcas anuais a nível mundial, entre 13 modalidades disputadas. Enquanto lá fora a neve não parava de cair, 4.500 pessoas faziam a Europahalle ferver, ao assistir às performances dos seus craques.

"Lavernes Jones-Ferrete (foto Divulgação), das Ilhas Virgens, não deu moleza pra concorrência e terminou uma das preliminares nos 60 m em 7s09, a melhor marca desde 2008. Nos 60 m com barreiras, a americana Lolo Jones chegou, com seus 7s97, na frente das compatriotas Yvette Lewis (7s99) e Kellie Wells (8s01). No masculino, o tcheco Petr Svoboda saltou seus 60 m de obstáculos em 7s50, recorde nacional.

"Enquanto isso, Saif Saaeed Shaheen, do Catar, passeou seus 3.000 m em imperturbáveis 7min43,44. Nos 3000 m femininos, a queniana Sylvia Kibet deu um show, chegando, com 8min41,24, mais de 6,5 segundos antes da russa Anna Alminowa. Outras melhores marcas anuais foram do russo Yuri Borsakowski: 800 m em 1min45s94, e do queniano Gideon Gathimba, que venceu nos 1.500 m com 3min37s01.

"Mas a grande emoção da plateia foi o salto em altura de Ariane Friedrich (foto Divulgação). Apesar de insuportáveis dores nas costas, a loiríssima de Frankfurt repetiu sua vitória do ano anterior com um respeitável salto de dois metros, 8 cm além da russa Viktoria Kliugina, segunda colocada. E Ariane foi dali direto para o fisioterapeuta, porque o baile continua: daqui a quatro semanas são as finais alemãs do atletismo indoor, também em Karlsruhe."

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h13

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Maratona de São Paulo terá novo percurso

Menos USP, mais ruas planas

Os organizadores da maratona de São paulo anunciaram hoje mudanças no percurso da prova. A alteração foi acertada em reunião com representantes da Prefeitura da cidade e, à primeira vista, parece positiva, devendo tornar a prova um pouco mais rápida.

Isso porque, com a mudança, saem alguns trechos de subidas fortes ou longas, na Cidade Universitária, e entram trechos de avenidas planas, na zona sul.

Mais especificamente, segundo o comunicado distribuído pelos organizadores, os trechos na USP que caem fora são "a subida até a Prefeitura Universitária, a descida até a Rua do Matão, o balão do Instituto Oceanográfico, o mergulho em direção à Reitoria e a subida após a Reitoria".

O novo percurso, informam os organizadores, passará por um trecho maior da Avenida Juscelino Kubitschek, pela Faria Lima e pela República do Líbano.

A maratona de São Paulo será disputada no dia 2 de maio, com largada na Avenida Jornalista Roberto Marinho e chegada no Ibirapuera. A competição está com inscrições abertas (veja no site oficial, AQUI) até o dia 23 de abril ou até que os limites definidos por especialidades sejam alcançados. O valor da taxa varia conforme a época da inscrição. Para participar da maratona, o valor é de R$ 50 até o dia 20 de fevereiro. De 21 de fevereiro a 10 de abril, a taxa passa a R$ 60 e, depois, para R$ 65.

Com isso, se o tempo estiver bom, é capaz até de alguém tentar bater o recorde da prova, que não é nenhuma maravilha, se comparado aos tempos vencedores em provas internacionais de alto nível. A marca a ser batida foi estabelecida pelo herói olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima, que cravou 2h11min19 na edição de 2002.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h53

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Brasileiros fazem 13 maratonas em dois meses nos EUA

Maníacos pela distância

Eu fui o primeiro participante do clube Marathon Maniacs na América Latina, no distante ano de 2006. Desde então, a tribo dos loucos por maratonas cresce e se multiplicou, especialmente aqui no Brasil, onde há uma turma de maníacos militantes da pá virada.

Um pequeno contingente deles desembarcou nos Estados Unidos no fim do ano passado, como já contei aqui, para realizar um rosário de maratonas e outras diversões. Nem todos participaram de todas as etapas, mas quem entrou desde o início e ficou até o final, ontem em Miami, completou 13 maratonas e uma meia em 65 dias, o que é um feito para deixar qualquer um embasbacado.

E mostra como a corrida apela ao mais íntimo de cada participante. Aqui, nem sempre saúde é o que importa, como já disse o famoso doutor Kenneth Cooper, um dos grandes incentivadores da atividade física: "Qualquer pessoa que corra mais que 25 quilômetros por semana está correndo por outras razões, não para manter a forma".

De fato, para o corredor há sempre outras razões. Nílson Paulo Lima, um dos participantes da empreitada brasileira em terras do Tio Sam, diz: "Correr com 17 mil pessoas pela bela região de Miami Beach, assistir à própria largada ao vivo em um telão frente à Arena, o templo do basquete americano, e ser ovacionado pelo percurso durante a prova podem ser algumas das explicações".

O grupo de brasileiros enfrentou as mais diferentes condições climáticas. No Missouri, a prova começou às 14h30 para evitar a neve; em Miami, a largada foi às 6h para fugir do calor. No total, foram percorridos 16,3 mil quilômetros em 25 Estados norte-americanos. A soma corrida em provas superou os 570 quilômetros.

Como diz Nilson, a grande lição que o grupo aprende (ou ensina) talvez esteja resumida no pensamento:"A vida não é uma viagem para a cova com a intenção de chegar a salvo, num corpo bonito e bem preservado, e sim aterrissar lá derrapando, bastante usado, completamente gasto e poder proclamar bem alto: UFA! Valeu a pena, que viagem!".

Bom, espero ter, ao longo dos próximos dias, relatos de alguns dos participantes. Deixo, desde já, meus parabéns e meu abraço a cada um deles. E, para que você tenha uma idéia mais precisa do tamanho da encrenca que eles enfrentaram, apresento abaixo um quadro com as datas, nomes e sites das provas realizadas pelo grupo.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h40

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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