Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Fundador do Teatro de Arena revisita Brecht

Política com emoção

Dia desses, fui ao teatro assistir a uma peça de Brecht, "Santa Joana dos Matadouros". Já tinha visto uma sensacional montagem feita pela Companhai do latão, grupo teatral de São Paulo, e queria ver agora a mão do diretor José Renato. Essa figura é um dos mais importantes personagens da história do teatro Brasileiro: foi cofundador do teatro de Arena, dirigiu "Eles Não Usam Black-Tie", que marca o início denovos caminhos na dramaturgia brasileira, participou da resistência à ditadura militar e se manteve fiel ao teatro militante. Hoje, aos 84 anos, é professor aposentado, mas nunca deixou de trabalhar com teatro.

Devo dizer, porém, que ele chegou ao teatro pelo esporte (ou mais ou menos isso). Na adolescência, conta ele na biografia "Energia Eterna" (Imprensa Oficial), chegou a ser "um jogador de basquete bem razoável" e conseguiu também alguns recordes em atletismo juvenil, defendo as cores do clube Pinehiros.

Através do grupo de esportistas, diz no livro, que pode ser baixado gratuitamente AQUI, conseguiu virar sócio do clube. E lá atuou na opriumeira peça que, "Os Parentes da Julinha". Foi o início de uma paixão que dura até hoje.

A Ilustrada deste sábado publica trechos de uma entrevista que fiz com ele na semana passada. José Renato me recebeu no apartamento alugado em que mora, na zona norte de São Paulo, e conversou sobre seu trabalho atual, além de fazer breve balanço de sua carreira.

A seguir, a íntegra de nossa conversa.

+CORRIDA - Como está sendo essa experiência d etrabalhar com um grupo tão jovem?

JOSÉ RENATO - É muito gratificante trabalhar com gente jovem. Eu me aposentei como professor da UniRio, em 96, e continuei a trabalhar com muitos alunos e ex-alunos meus. Fui convidado pelo pessoal da UMES, porque eu havia estreado esse teatro 11 anos atrás, com a peça "Turandot", também de Brecht.

Eles me chamaram e em ofereceram esse grupo jovem. Eu tive muita dificuldade no começo porque esse grupo já era formado. Já vinha de trabalhos anteriores. Então, foi muito mais difícil, o que parece contraditório, porque eles tinham já uma maneira de ser, entendeu? Eles já tinham uma linguagem comum, deles, e eu, para puxar para a expressividade que eu precisava para Joana, tive algumas dificuldades. Mas, enfim, tudo isso se resolveu bem, a partir do momento em que a gente começou a falar a mesma língua.

+CORRIDA - O que é falar a mesma língua?

JOSÉ RENATO - Falar a mesma língua é entender as coisas de maneira igual. Pensar a respeito da vida. Pensar a respeito dos problemas sociais com o mesmo ponto de vista, isto é, é uma gente que se preocupa com os problemas do Brasil. Preocupar-se com os problemas sociais brasileiros, políticos. A discussão do desenvolvimento político do país, a partir do fim da ditadura. Eles têm uma noção ainda um pouco vaga, porque não viveram aquele período, mas, em compensação, eles têm uma clara intuição de que o caminho do Brasil é um caminho que beira muito, busca muito o socialismo. Busca muito a orientação social para resolver as questões políticas. Então, eu acho que esse grupo funcionou muito bem. O grande problema que eu tive com relação a essa peça é que eles têm pouco conhecimento teatral, pouco amadurecimento teatral, o uso do corpo, o uso da voz, que são coisas mais técnicas e, de repente, esse foi um problema maior, muito maior do que as ideias políticas que eram debatidas.

+CORRIDA - E como vocês resolveram isso?

JOSÉ RENATO - Eu procurei aprimorar a noção de utilização do corpo, a utilização da voz e, principalmente, enfrentar um certo preconceito que eles tinham contra o melodrama. A utilização do tom do melodrama é um preconceito que a juventude tem um pouco hoje. Então, é preciso que isso seja superado, para poder atingir melhor o nível de emoção necessária para fazer uma peça como essa.

+CORRIDA - O melodrama é essencial para o teatro?

JOSÉ RENATO - É, claro. Quando se fala em Brecht aqui no Brasil, as pessoas dizem: não, mas Brecht é um autor didático, que pensa em extirpar a emoção dos seus textos para que a coisa fique ligada ao pensamento, à análise, mas isso não é verdade. Essa é uma impressão muito superficial de Brecht. Os processos todos evoluíram muito desde a morte de Brecht, desde as obras do Brecht terem aparecido e tudo isso é muito relativo, em comparação com as ideias essenciais do Brecht. Ele nunca falou em eliminar a emoção. Pelo contrário, ele falou em passar, através da emoção. As peças dele e as estruturas das peças são, realmente, narrativas e didáticas, mas não se pode chegar a elas sem passar através da emoção. Não se chega a elas através de uma ponte, passando por cima da emoção. Não. Tem que se passar primeiro pela emoção.

Assim como, de repente fazendo uma comparação um pouco superficial seria como um pintor começar a sua carreira de pintor pelo Cubismo, pelo Abstracionismo ou pelo Futurismo, em passar pelo Realismo. É absolutamente impossível. Ele tem que escolher a sua opção, depois de conhecer o Realismo. As técnicas geradas pelo tratamento realista da pintura.

+CORRIDA - Ou seja, o distanciamento crítico precisa da emoção que o sustenta.

JOSÉ RENATO - O distanciamento crítico passa fundamentalmente, pela emoção. Só passando pela emoção. Só conhecendo a emoção a fundo é que você pode conseguir dela um distanciamento crítico. Senão você não consegue. Senão fica tudo superficial. Isso é o que eu penso a respeito de Brecht. Foi isso que eu precisei incutir um pouco na moçada. Mas eles assimilaram muito bem. A gente agora só precisa pegar um ritmo melhor e também a concepção de um certo grotesco, que tem a expressão necessária do espetáculo, de certas cenas, que a gente ainda precisa trabalhar melhor.

CONTINUA....

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h02

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Entrevista com José Renato - parte 2

Redescoberta das raízes

+CORRIDA - O quanto o teatro em si tem de político?

JOSÉ RENATO - Eu acho que o teatro tem tudo de político, existe como, fundamentalmente, moderador político ou condutor político. O nosso teatro avançou muito na década de 50, para 60. Se desenvolveu muito e discutiu todas as questões políticas da época. Em 64, a gente estava discutindo no teatro a reforma agrária com uma intensidade total. Esse problema não foi resolvido até agora, mas o teatro não está discutindo mais a reforma agrária. Nesse momento, eu acredito pessoalmente que o teatro está renascendo. A partir do novo milênio, a partir de 2000, estão surgindo novos dramaturgos, porque aqueles que foram esmagados pela ditadura desapareceram na ditadura ou capitularam diante da televisão, foram escrever para a televisão, foram trabalhar na televisão, enfim, lutando pela sobrevivência, é absolutamente normal que isso acontecesse. A gente esperava que, quando terminasse aquele período negro, surgiriam das gavetas textos ótimos, não é? Dias Gomes, Paulinho Pontes, Oduvaldo Viana Filho, todos, infelizmente, morreram no percurso e, quando se abriram as gavetas, saíram cinzas dessas gavetas. Infelizmente. E eu aredito que o teatro é fundamentado pela presença de autores que discutam os valores, os problemas sociais. Então, eu acredito que, nesse momento, a partir dos anos 2000, começou a ressurgir uma dramaturgia muito importante neste país.

+CORRIDA - Uma dramaturgia brasileira, política?

JOSÉ RENATO - Eu já vejo uma nova dramaturgia sim. Existem muitos grupos novos trabalhando com novos dramaturgos. É isso que me anima muito com relação ao teatro. No meu tempo, nos anos 50, quando a Arena começou, por exemplo, nós começamos a formar um grupo de dramaturgos. Então, isso era fundamental. Naquela época, quando a gente começou, nos anos 50, 80% do repertório era composto por textos estrangeiros. Hoje, ao contrário, 80% do repertório é composto por textos nacionais. Essa é uma conquista que vem desde aquela época. Então, eu acredito que, neste momento, estão surgindo muitos autores e cada vez mais preocupados, com uma dramaturgia que discuta a nossa vida, os nossos problemas, a nossa temática, o nosso gestual, enfim, a nossa língua. Isso é muito, muito, mais importante do que fazer textos estrangeiros, que não nos dizem muito, a não ser autores que, realmente, tenham uma contribuição a dar.

+CORRIDA - Mas esse teatro político, esse teatro vinculado, digamos, às raízes do Brasil, não está também um pouco esmagado pelas comédias de costumes pelos grandes musicais?

JOSÉ RENATO - Nos jornais, semanalmente, são oferecidos mais de 120 espetáculos diferentes, numa cidade como São Paulo. Se você for examinar nesses 120 espetáculos, pelo menos 80 são de grupos independentes e grupos que buscam sobreviver, através de uma pesquisa, de um trabalho de grupo, de um trabalho extremamente enraizado numa verdade nacional, numa verdade social. E buscam, muitas vezes, muitos casos na periferia. Problemas de periferia, problemas de relacionamento social, que são importantes para eles. Então, eu acho que está se fazendo, neste momento, um trabalho extremamente importante. Eu acho que a prova disso, por exemplo, muitas provas é a existência dos CEUs, esses núcleos de educação feitos pela Marta [Suplicy] aqui em São Paulo. Em cada um desses CEUs, tem um teatro, que é fantástico. Muito bem instalado e que está atraindo, cada vez mais o interesse das populações locais. Então, é importantíssimo. Acredito que dentro de pouco tempo estarão se estabelecendo nesses teatros núcleos que buscam, que pesquisam, que trabalham, que fazem laboratório, sabe? Que fazem análise, que fazem exercícios, que procuram conhecer as coisas, ler, discutir teatro. Várias pessoas já me falaram disso. Eu mesmo visitei vários desses locais e anotei esses detalhes. Eu acho que, de repente, está se espalhando uma consciência de que o teatro é um caminho muito importante para a consciência de cidadania, para a consciência de problemas sociais. Eu estou sentindo que o teatro está ajudando a descobrir as raízes brasileiras melhor até do que era foi durante os últimos 40 anos.

+CORRIDA - Pessoalmente, você chega a acompanhar alguns desses grupos?

JOSÉ RENATO - Não. Eu vi, visitei esses locais. Sei que o Grupo Engenho, por exemplo, no Tietê, perto da Penha, é um grupo ótimo, que está fazendo um trabalho muito bom. O Folias da Arte, que é um grupo maior já e tem vários grupos que estão trabalhando. O Feijão, já há uma sede própria. O grande problema é um local onde eles possam se desenvolver. A maioria desses grupos já conseguiu um local, mas é difícil sobreviver.

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h59

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Entrevista com José Renato - parte 3

Censura financeira

+CORRIDA - Teatro é caro, não é? Você mesmo teve uma experiência com isso com o Teatro dos Arcos...

JOSÉ RENATO - Em 2001 eu peguei esse teatro, porque era um espaço, era um auditório de uma associação, de uma Federação dos Trabalhadores Cristãos. Esse presidente da Federação me chamou, tinha lido muito sobre mim, gostava e tal, então me ofereceu esse espaço. Então, em princípio seria de graça, mas, depois apareceu um aluguel. Em resumo, eu tinha que pagar um aluguel pequeno, baixo, mas tinha o aluguel, tinha que pagar o IPTU, que era alto e tinha que pagar toda a despesa de luz. Então, isso dava, em resumo, quase R$ 2.000, por mês. Muito bem. Isso dava para aguentar. No começo deu para aguentar. E, principalmente, eu formei um grupo que se chamava Casa Comédia, com um pessoal conhecido, que estava querendo desenvolver um trabalho. E eu comecei a pesquisar o surgimento de novos autores.

Nós fizemos um grupo de dramaturgia. Apareceram alguns autores, aquele Evaldo Mocarzel, que hoje em dia ele é um roteirista de documentário muito conhecido. Ganhou vários prêmios e foi lançado por mim como dramaturgo com uma peça chamada "RG", que foi uma peça, também, de cunho social muito bom, lá naquele espaço. Lancei o Mário Viana, com "Galeria Metrópole" e uma outra dramaturga, Erné Vaz Fregni, que começou a surgir lá conosco, escreveu duas peças importantes. Ela escrevia outras coisas. Ela induzida por nós, fezr um trabalho bom, que era a vida do Artur Azevedo, uma comédia musical, que eu montei lá nesse teatro com mais de 16 atores, chamava-se "Aroma do Tempo". Fez um sucesso razoável e até recentemente, uma outra peça dessa mesma autora sobre a vida do Carlos Gomes. "Carlos Gomes Sangue Selvagem" esse também a gente apresentou em vários CEUs, por ai, também, além de ser no Teatro dos Arcos. Aí é que eu fiquei conhecendo a atuação dos CEUs. Nós fizemos, levado pela Secretaria de Cultura, a gente fez 20 apresentações em 20 CEUs diferentes, que foi muito bom.

A gente se dedicou a fazer um projeto que se chamava "A História Não Oficial". A gente procurava, através de assuntos históricos, descobrir detalhes que não apareciam na narrativa normal. Então, a gente começou a fazer pesquisas e dai surgiram essas peças. Fizemos várias, foi um trabalho que durou uns cinco, seis anos. Enquanto isso eu tive apoio do Fomento da Prefeitura, que me ajudou bem a manter esse espaço. Mas no fim de 2009 eu não tive mais o Fomento, isso me dificultou muito para pagar o aluguel. Então, em função disso eu tive que parar com o Teatro dos Arcos. É um bom teatro, um teatrinho simpático, estava localizado num local assim meio escondido, no Bixiga.

+CORRIDA - O teatro está muito embricado com a necessidade de apoio do Estado?

JOSÉ RENATO - Infelizmente. Quando a gente começou, havia toda uma possibilidade. Havia muito menos concorrência. A televisão não existia. A gente fazia espetáculo de terça a domingo. Vivia da bilheteria. O público ia ao teatro. A frequência era acima de 50% da casa e isso sustentava os espetáculos. Todos os espetáculos eram sustentados pelas bilheterias. A partir do surgimento da televisão, esse problema foi terrível, porque a televisão disse para as pessoas: "Fique na sua casa. Nós vamos trazer tudo para vocês aí, você não levanta do seu sofá, todos os problemas a gente resolve através do nosso aparelho ai. Nós oferecemos a você os dramas, as comédias, tudo o que você quer ver..." Isso restringiu muito a possibilidade das pessoas saírem à rua, além de acrescentar que é extremamente perigoso sair essas divulgações das violências etc.. Então é muito menor a frequência dos teatros hoje em dia. Os grandes teatros existem, mas são todos fartamente subvencionados.

+CORRIDA - Pelo Estado e por empresas?

JOSÉ RENATO - Empresas privadas, principalmente. O Estado ajuda muito precariamente. Ajuda às vezes com esse Projeto Fomento da prefeitura, que é muito bom, que é muito útil para os grupos pequenos, que têm continuidade de trabalho é muito bom o Fomento. Agora, o Estado também está ajudando e o Ministério da Cultura também tem programas de auxílio. Mas o patrocínio das grandes empresas ainda é o melhor. O problema é que o patrocínio das grandes empresas é só através da Lei Rouanet, e a Lei Rouanet é uma lei danada, porque permite que o empresário escolha, enfim. Não é o Ministério da Cultura que seleciona o que deve ser patrocinado. Ele apenas licencia o espetáculo, o projeto para ser patrocinado, mas a escolha definitiva é feita pelo marketing da empresa. Então, o que acontece? Só escolhem textos, projetos que tenham a presença de gente global, gente muito conhecida, que atraiam uma resposta para os produtos que eles querem vender. É evidente. Então, é difícil assim. Agora, existe...

+CORRIDA - Essa dependência de patrocínio provoca o risco da pasteurização do teatro?

JOSÉ RENATO - Claro. Essas pessoas que são muito conhecidas, não querem se arriscar muito, fazer coisas mais comprometidas com a realidade social. Eles fazem coisas superficiais, em geral, não é? E as companhias teatrais também. Eu tinha uma peça, "Corrupção no Palácio da Justiça", do Hugo Betti, autor italiano. Eu fiz a adaptação, a tradução, a gente preparou o espetáculo, mas não se conseguiu patrocínio, porque falava em corrução no Palácio da Justiça. Então, esse é um problema. A censura existe ainda veladamente, através das questões financeiras, exercidas agora não sob o ponto de vista moral, mas através do problema financeiro..

CONTINUA...

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h58

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Entrevista com José Renato - Final

Dramaturgia de risco 

+CORRIDA - Bom, agora queria fazer um breve balanço de sua carreira. Queria saber quais são suas melhores lembranças, as grandes alegrias, numa carreira que já tem mais de 60 anos...

JOSÉ RENATO - Olha, eu acho que a fundação do Arena, a descoberta do rumo de uma perspectiva aberta quando a gente estreou: "Eles Não Usam Black-tie", o que nos deu a convicção de que o caminho seria apoiar a dramaturgia brasileira em profundidade. Esse foi um momento muito bom, muito importante e que eu me senti extremamente bem realizado.

A partir dai, depois em 62, eu fui chamado no Rio de Janeiro, pelo Ministério da Educação, para ampliar o movimento que a gente estava fazendo aqui em são Paulo, em nível nacional. A gente começou a fazer no Rio o mesmo trabalho que estávamos fazendo aqui no Arena. Lançamos o Dias Gomes, lançamos o Nelson Rodrigues, numa linha de teatro nacionalista brasileiro, no grupo chamado Teatro Nacional de Comédia, Chico de Assis, fizemos um movimento.

Foi tão importante que, no fim de 63, eu fui enviado para Montevidéu, para o Uruguai, para montar uma peça lá com um grupo do Uruguai, "El Galpon". Montamos uma peça brasileira do Dias Gomes, que falava sobre problemas sociais. Isso foi em janeiro de 64 e a gente estava fazendo o trabalho lá, mostrando um trabalho de aprofundamento do teatro de esquerda, que se fazia no Brasil, quando veio o golpe militar e ai foi parado o meu apoio, o meu financiamento, que vinha do governo brasileiro. Me abandonaram lá no Uruguai, eu tive que voltar depois, escondido, enfim, mas isso tudo me dá muita saudade, apesar de tudo. Depois, durante o período de resistência, quando a gente conseguiu a liberação de "Rasga Coração", a peça mais importante do teatro do Vianinha. E, eu montei a peça do Vianinha, foi uma alegria fantástica. Foi um dos maiores sucessos que eu já tive e uma lembrança que eu sempre tenho com muito, muito prazer. Foi muito comentado e foi um prazer enorme voltar a trabalhar com um texto tão importante, com consciência política como foi o "Rasga Coração".

+CORRIDA - Foi seu grande momento no período do teatro de resistência...

JOSÉ RENATO - O grande momento no período da resistência eu acho que foi esse. É que eu fiz muita coisa. Não parei de trabalhar nunca. Eu fiz uma peça atrás da outra, felizmente. Então, houve momentos em que eu tive que enveredar pelo caminho da comédia mais fácil, para poder sobreviver e tal, mas, mesmo, escolhendo comédias mais superficiais, menos importantes, sempre eu procurei me pautar por peças que tivessem uma raiz social, que tivessem um fundamento importante, que não fossem apenas comédias para divertir, textos para divertir.

Eu sempre procurei encarar o teatro como uma grande festa de confraternização, onde as pessoas vão, se divertem e aprendem alguma coisa e discutem alguma coisa importante. Não saem de lá vazios. Ao contrário saem de lá com alguma coisa nova para poder, algum conteúdo novo para poder aprender ou discutir, enfim. E, agora, ultimamente, eu tenho trabalhado sempre na formação e busca de uma dramaturgia nova. Eu fiz um grupo que se chama: Grupo de Dramaturgia de Risco. Isso é, um grupo que procura uma dramaturgia, uma forma de escrever segundo princípios não aristotélicos, não tradicionais. Então, buscando soluções diferentes das soluções tradicionais, normais.

+CORRIDA - Como esse grupo funciona?

JOSÉ RENATO - Ele foi montado agora, durante a fase do Teatro dos Arcos. São umas 12 pessoas, que querem escrever, que escrevem e que estão trabalhando sob a nossa orientação, que a gente está se reunindo para poder tentar se afirmar como dramaturgos, dentro de uma linha diferente da dramaturgia tradicional.

+CORRIDA - Quais são os pontos básicos dessa nova dramaturgia?

JOSÉ RENATO - É apenas buscar o desenvolvimento da dramaturgia, não apoiada somente em cânones aristotélicos, isto é, o texto tem que ter princípio, meio e fim. Tem que ter unidades de ação, de espaço, de tempo. Então, buscando uma dramaturgia que não se relaciona fundamentalmente, com essas unidades, mas que busca outros caminhos, que busca outra maneira de se comunicar. A gente procura a comunicação com outras mídias, por exemplo, outros meios de expressão, não é? A tecnologia pode ajudar muito a gente a desenvolver muito a técnica da dramaturgia, a utilização da técnica da dramaturgia. Até que ponto a gente pode utilizar a tecnologia da informática, por exemplo, na dramaturgia e com isso a gente ganha avanços na narrativa. A narrativa não é linear. A gente pode dar saltos. Ou o olho se inverter ou caminhar de trás para diante. Isso é uma busca que a gente está tentando pesquisar.

+CORRIDA - E o seu trabalho, qual você não gostou ou acha que poderia ter sido mais bem feito?

JOSÉ RENATO - Eu fiz três versões, por exemplo, da "Ópera dos Três Vinténs", do Brecht. Duas no Rioo, uma aqui em São Paulo e todas eram diferentes uma da outra. Eu fiz "Antigona" em duas versões diferentes. E tenho vontade de fazer uma nova versão. "Antigona" é uma peça extremamente estimulante, instigante. Tem uma peça que eu fiz no Arena, muito tempo atrás, uma comédia do Silveira Sampaio. Ótimo autor. Ele fez uma sátira política chamada "Só o Faraó Tem Alma". Eu montei no Arena, mas a gente não tinha um elenco tão apto. Essa peça precisaria de um elenco muito maduro. Essa é uma peça que poderia ser feita hoje em dia com muito sucesso. É uma comédia política rasgada, ótima. Acho que essa eu gostaria de ter uma chance de fazer novamente.

+CORRIDA - O senhor construiu sua carreira no teatro. E a televisão?

JOSÉ RENATO - Eu comecei na televisão. Quando a televisão Record ia ser inaugurada, me chamaram. Eu fui um dos três produtores, diretores da Record, que inauguraram a Record, não é? Era o Graça Melo, Miroel Silveira e eu. Nós três, praticamente, colocamos a TV Record no ar, fazendo três, quatro programas por dia. Fizemos até uma Joana D‘Arc, naquela ocasião. Eu fiz uma Joana D‘Arc, naquela ocasião, na televisão ao vivo, sem videoteipe. Tivemos Margarida Rey no papel, que era uma atriz incrível. E foi muito bem. A gente fazia três quatro programas por dia, ensaiava, escrevia, dirigia e operava ainda no suíte, era uma loucura. Eu fiz isso durante uns três anos. Ai o Paulo Machado de Carvalho, que era o dono da Record naquela época, me chamou e disse: "Olha, eu quero que você continue aqui, gostaria muito, mas você tem que optar ou o Arena ou a Record". Porque eu me desdobrava. Pulava de um galho para o outro o tempo todo. Então, eu disse: "Muito obrigado, eu prefiro o Arena". E saí e foi um erro porque eu podia estar milionário hoje em dia. Não estava aí me aborrecendo com esses problemas todos. O Boni começou naquela época, o Newton Travesso começou nessa época, comigo e tal. Então, toda essa gente que ficou na televisão, ficou muito bem. Apenas é uma questão de abdicar de certos princípios e continuar a trabalhar. Mas eu preferi ficar no teatro e eu me dei muito bem no teatro. Não posso me queixar absolutamente. Estou muito feliz no teatro, muito feliz nessa opção.

+CORRIDA - O que o teatro lhe deu?

JOSÉ RENATO - Eu acho que me deu conhecimento de mim mesmo. Acho que, principalmente, me deu a percepção da vida. Eu, pelo menos, acho que sei onde é que está a verdade das coisas que me dizem. Eu não acredito em tudo o que me dizem. Eu sei perceber onde está a verdade. Não ser aquela que me é oferecida quase sempre. E, é isso, eu espero que um amadurecimento nas relações humanas, uma possibilidade de ser generoso e receber generosidade, isso tudo eu aprendi no teatro. Eu sou feliz com as coisas que eu tenho, apesar de não ter muita coisa.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h57

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Maratonista brasileiro conquista o topo do mundo

Vômitos, diarréia, febre...

Prepare-se para morrer de inveja. Se você não ficar louco para imitar o Tadeu, é uma pessoa muito melhor que eu, que fui arrumando este texto e me torcendo de ciúmes, doido de vontade de também ter participado dessa prova maravilhosa. Deixa estar, um dia vou lá. Enquanto isso, festejo a façanha do leitor e amigo TADEU GUGLIELMO, que acaba de conquistar o Everest em uma das mais sensacionais maratonas do mundo. Leia a seguir o texto de TADEU, especial para este blog.

 

"No dia 29 de maio, participei da Tenzing Hillary Everest Marathon, a maratona mais alta do mundo. A largada é no Campo Base, a 5.440 metros de altitude, e chegada em Nanche Bazar, a 3.440 metros de altitude, com ar "batizado". No meu caso, o mais difícil não foi terminar, e sim começar.

"Duas semanas antes da prova, os participantes estrangeiros (34) se reuniram em um hotel em Kathmandu, no Nepal. Dois dias depois, partimos em dois teco-tecos para Lukla, a 2.834 metros de altitude.

"Aterrissamos com nossas tralhas no pequeno campo de aviação existente no topo do monte Lukla, no sopé do Himalaia, não sem um pouco de emoção: o piloto aponta para uma rocha na cabeceira inferior da pista, levanta o bico no ultimo minuto, tocando apenas com as rodas no chão, depois só deixa correr poucos metros na direção do paredão, na outra extremidade.

"Dica para quem quiser dar uma chance ao risco: sente-se na janela no lado esquerdo para apreciar o Himalaia do ângulo mais impressionante.

"Além dos corredores, nossa expedição era formada por 31 trabalhadores (guias sherpas, cozinheiros, carregadores, ajudantes, um chefe), quatro médicos e 14 animais.

"Começamos a caminhar rumo ao Campo Base, 5.440 metros de altitude, no outro dia. Foi um repetitivo sobe e desce forçando a aclimatização e transportando apenas o necessário (a bagagem pesada era carregada pelos animais).

"Algumas pessoas resistem menos que outras à diminuição do oxigênio.

"Foi o meu caso. Tive momentos terríveis (dor de cabeça, falta de apetite, fadiga, enjôo, vômitos, diarréia, insônia, febre, inchaço......). Um pequeno movimento no saco de dormir era o suficiente para o coração bater num ritmo furioso.

"Tive também momentos deslumbrantes.

"Os dias amanhecem claro deixando a mostra os Gigantes nevados. A vista era esplêndida, combustível perfeito para mais uma jornada.

"Outros destaques são as fascinantes aldeias sherpas e a cordialidade, a hospitalidade e simpatia deste povo que se curva e diz "Namaste" em todos os turnos, além dos mosteiros budistas espetacularmente localizados. Tudo isso proporciona uma experiência cultural tão memorável quanto o próprio Everest.

"A mais alta montanha do mundo é chamada pelos tibetanos de Chomolangma e pelos nepaleses de Sargarmatha. Nos dois casos, o significado é o mesmo: "aquela cuja cabeça toca o céu". O nome mais popular entre nos é Everest, uma homenagem ao geógrafo britânico que primeiro mediu a altitude do pico.

"A maratona é sempre realizada no dia 29 de maio, pois foi nesse dia, em 1953, que o sherpa Tenzing Norgay e neozeolandês Edmund Hillary conquistaram seu cume.

"Neste ano, 98 pessoas concluíram a prova. O primeiro colocado foi o nepalês Phurba Tamang, com o tempo de 3:41; no feminino, Ang Phuti, sherpa com 5h08. Até a 27ª posição, só deu Nepal. O primeiro estrangeiro foi o indiano Shyam Keslav Singh, com 5h15.

"Apesar de a prova terminar com um desnível de 2.000 metros, tive a impressão que subi tanto quanto desci.

"Além de todos problemas acima, ainda tive bolhas nos pés. Finalizá-la foi mais uma questão de sobrevivência que uma competição. Ao terminar, tornei-me o primeiro sul-americano a completar essa prova na história. No geral, fui o 92º, com o tempo de 10h30.

VALEU MUITO A PENA!!!"

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h40

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Para não dizer que não falei da Copa....

Bate no segundo pau, infeliz!

A esta altura dos acontecimentos, você deve estar respirando e transpirando Copa por todos os sites que navega, jornais e revistas que lê, emissoras de Tv que acompanha, conversas no Twitter, Facebook e quaisquer outras redes sociais que circulem por aí.

Eu também.

Mesmo assim, tenho procurado não me manifestar sobre o assunto nesses fóruns públicos, apesar de, em alguns momentos, a raiva subir à cabeça, espalhar-se pelos dedos e querer se intrometer pelo teclado do computador.

Mas há um assunto que me incomoda demais e sobre o qual não tenho visto comentários nas páginas e sites especializados.

Trata-se do escanteio mal cobrado, das invenções da prancheta e jogadas ensaiadas no momento de bater o córner, como a gente chamava em outras épocas.

Já vi nesta Copa partidas em que o jogo estava nos seus estertores, o time perdia e, mesmo assim, o jogador batia escanteio de amigo, curtinho, passa daqui, entrega para lá, devolve aqui e... Trila o apito! Acaba o jogo e vai para casa de rabo entre as pernas, sem nem mesmo a duvidosa honra de ter tentado um chute desesperado.

E não se trata de desespero. Todos os manuais do futebol ensinam (e, se eles não ensinam, deveriam): escanteio bem batido é meio gol.

Bate forte, alto, de curva, para ela passar por sobre o mais voador dos goleiros e ir cair na cabeça do atacante, que está lá, solto, na região do segundo pau, longe do entrevero do miolo da pequena área...

Outra coisa: isso vale também para qualquer falta na lateral do gramado, perto da linha de fundo. Cruza, meu filho, cruza!

Lembre o Tarciso, inspire-se no Valdomiro, tome aula com o Nelinho e lance a bola no segundo pau, infeliz, que o jogo é de campeonato.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h28

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Será que a Rainha olhou para o corredor brasileiro?

Nas ruas de Londres

Corredor tem cada uma, não é?! A gente sai por aí a descobrir o mundo, a encontrar a si mesmo pelo asfalto, e vai topando com cada coisa que até dá para duvidar, se não estivesse guardinha na imagem digital.

Pois veja só o que aconteceu com meu amigo José Tadeu Guglielmo, economista multimaratonista, que estava em Londres no mês passado, a caminho de uma das mais sensacionais maratonas do mundo, cujo relato você ainda verá neste blog.

Ele ia pelas ruas londrinas, feliz, satisfeito, de camisa aberta ao peito (não, não, isso era o Casemiro de Abreu....), passeando pelo parque St. James, quando viu alguns carros se aproximando. Um carrão impressionava, e Tadeu resolveu bater a seguinte foto.

Tudo bem, não? Elegantérrimo o carro, mas parece que o corredor também suscitou curiosidade e ...tchan,tchan,tchan,tchan: vejam só quem aparece na janelinha do possante, deitando olhares no fotógrafo brasileiro...

 

A senhora distinta logo fecha o vidro, e o comboio segue, impávido colosso, deixando a cena gravada nas retinas de Tadeu e no cartão de sua câmera digital...

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h27

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Morte em meia maratona nos EUA

Tristeza

Um corredor morreu depois de terminar a meia maratona que integra os eventos da Grandma`s Marathon, uma das mais festejadas maratonas dos Estados Unidos, realizada ontem.

Essas notícias são sempre tristes, e eu lamento voltar ao assunto aqui para lembrar que, sim, correr é um esporte que envolve riscos e que cada um de nós deve tomar pelo menos as precauções básicas antes de começar a praticar esse esporte. Se é atuante na corrida, deve fazer check up completo pelo menos uma vez por ano.

Com isso, não quero dizer que a responsabilidade da morte é do corredor. Há muitos casos em que o sujeito passa mal, é atendido, sobrevive e sai mandando brasa. Aliás, isso aconteceu no ano passado nessa mesma maratona. Ou seja, os organizadores das corridas também precisam estar conscientes dos riscos e devem oferecer atendimento de qualidade e com rapidez a qualquer um que passe mal.

Na prova de Minnesota, a pessoa foi atendida na tenda médica e não resistiu. O diretor médico da prova não revelou nem o sexo do participante, quanto mais nome, idade, profissão. Também não disse se a vítima foi levada a um hospital.  “Eu acredito que o atendimento dado foi adequado”, afirmou Bem Nelson.

Essa foi a primeira morte nos 34 anos do evento, segundo ele, informando que a taxa de mortes em maratonas é de um em 50 mil participantes.

No ano passado, houve três mortes na meia maratona de Detroit. A maratona de Los Angeles tem três mortes ao longo de seus 25 anos de história, e a de Twin Cities, duas mortes em 28 anos.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h33

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Demitido, dopado tem também de pagar multa

Onde dói mais

 Desculpe aí pela demora em colocar novas mensagens neste blog, mas nem sempre as coisas acontecem como a gente quer.

Bueno, hoje não vou falar de corrida, mas de uma notícia desta semana que queria destacar.

Trata-se da decisão da Justiça suíça, que determinou que o jogador romeno Adrian Mutu terá de pagar cerca de 17 milhões de euros em indenização ao Chelsea, depois de ser flagrado em um teste antidoping por uso de cocaína e ter o contrato rescindido.

A história vem se arrastando desde 2004, quando o atleta foi flagrado em exame antidoping. O Chelsea não quis nem saber e demitiu o cara na hora, apesar de ele ainda ter quatro anos de contrato.

Pior, foi em cima do dopado, cobrando multa por violação dos termos do contrato. Ganhou em primeira instância, Mutu recorreu e perdeu, sendo derrotado também na corte da Fifa. Daí o jogador tentou conseguir na Justiça comum a revogação da multa, mas acabou de ser mais uma vez derrotado.

Cá entre nós, acho que esse complemente da punição é muito justo e pode ser ainda mais assustador, para os candidatos a doping, do que as suspensões e mesmo o banimento do esporte.

É no bolso que a coisa dói mais. Vejam o caso da Marion Jones, que foi pega dopada, perdeu medalhas olímpicas, chegou a ser presa e, agora, volta à cena em outro esporte, sendo recebida de portas abertas no basquete.

Não estou dizendo que as punições têm de ser eternas. Ao contrário, acho que, se o sujeito cumpre sua pena, deve ser considerado zerado, tendo direito a começar ou retomar suas atividades dentro da lei.

Mas também acho que é preciso deixar claro de todas as formas, inclusive com punição financeira, que o esporte não aceita o doping.    

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h25

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Elas também fazem dancinha...

Garotas de diamante

 

Elas deixaram rolar depois da dura disputa hoje no salto em altura, na etapa de Roma da Liga de Diamente. A multivencedora Blanka Vlasic (à dir.), da Croácia, conquistou o ouro e festejou fazendo uma dancinha com a rival norte-americana Chaunte Howard-Lowe.

Já a também norte-americana Lashauntea Moore (dir.) não parece estar com vontade de dançar... Faz um derradeiro esforço para cruzar na frente na prova de 100 m, deixando para trás Debbie Ferguson-McKenzie e Chandra Sturrup, das Bahamas.

E a marroquina Halima Hachlaf executa um movimento quase de dança, que depois foi ganhando mais amplitude e alegria, ao vencer os 800 m (fotos Reuters).

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h59

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Mulheres em trajes especiais dominam fim de semana

Cenas atrasadas

Perdão, veloz leitor, rápida leitora, mas ontem não consegui tempo para colocar no ar as belas fotos que engalanam esta página. Em comum, estas imagens de corridas no último final do semana nos trazem mulheres especialmente trajadas para a ocasião.

Aqui, duas moçoilas suecas vestidas a caráter correm o que podem para conseguir alcançar a vencedora da maratona de Escolmo, realizada no sábado. É uma prova bonita, pois a cidade é bela, mas não chega a me atrair porque é no alto verão deles e porque são duas voltas, ainda que não completamente iguais, se bem me lembro. É fato que há divergências. Um conhecido meu adorou aquela maratona, mas eu prefiro correr sozinho e sem destino na ilha que é também um parque, a Djugarden, um dos lugares mais maravilhosos em que já corri na vida, no centro da capital sueca.

Bom, a vencedora foi Isabellah Andersson, da Suécia, que completou no bom tempo de 2h31min35. Já o vencedor, que aqui vemos, não fez uma grande corrida: o queniano Joseph Langat fechou em 2h12min48, mas acho que o mais emocionante foi a diisparada que a suequinha teve de dar para alcançar o campeão da prova (fotos AP). A maratona teve 20.136 inscritos de 76 paises.

Para nao dizer que nao falei das corredoras nacionais, vejam essa imagem (Divulgacao) da corrida feminina realizada domingo em Sao Paulo. Como muitas preferiram usar a blusa ofercida pela prova, as mulheres envermelharam o asfalto. Salve elas.

PS: Claro que voce percebeu, mas devo dizer que meu teclado ficou doidao, e as teclas de acentos passaram a nao responder adequadamente. Vou ver isso, mas, de pronto, espero que essa falha nao atrapalhe tanto a leitura.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h40

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Brasileiro vence 3.000 m em San Fernando

Olha só a gana do cara!

 

Nessa sensacional imagem da EFE, o esgar na face revela todo o esforço, raiva e vontade de vencer do brasileiro Leandro Prates, que conseguiu superar o favorito Reyes Estévez, da Espanha, fechando a prova de 3.000 em 8min15s55. E olha que por um segundo o gringo não fica nem príncipe, pois outro brasileiro chegou colado nos cascos dele e conquistou o bronze em 8min16s58.

No último dia da 14ª edição do Campeonato Iberoamericano de Atletismo, ontem em San fernando, na Espanha, o Brasil ainda conquistou outro ouro. Nilson André, que já havia vencido os 100 m, fez os 200 m em 20s94.

Com sete vitórias, a equipe brasileira ficou em terceiro no quadro de medalhas, atrás de Cuba (15) e Espanha (11). No total de medalhas, o Brasil ficou em segundo, com 27; a Espanha levou 32 e Cuba, 25. No geral, nos três dias da competição, 16 países colocaram atletas no pódio e nove chegaram a conquistar medalhas de ouro.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h24

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Juliana Gomes dos Santos derruba marca que durava 22 anos

Recorde na Espanha

Juliana Gomes dos Santos, cujo sorriso o Brasil conheceu depois de sua vitória no Pan do Rio, voltou a fazer história.

Hoje, no campeonato iberoamericano, em San Fernando, na Espanha, ela derrubou a mais antiga marca do atletismo feminino brasileiro. Correu os 1.500 m em 4min07s30, mandando para o espaço o tempo cravado por Soraya Telles em 1988 (4min10s07), quando talvez você nem fosse nascido.

Juliana, que é mulher do bicampeão de Nova York Marílson Gomes dos Santos, terminou em segundo a corrida de hoje, atrás da espanhola Nuria Domingues.

A prata de Juliana teve, é claro, gosto de ouro. Mas a seleção brasileira conquistou também ouros de verdade nas disputas de hoje.

O revezamento feminino do 4x100 venceu em 43s97, com direito à participação de Bárbara Leôncio da Silva, campeã mundial juvenil nos 100 m. Ela foi a atleta que acompanhou a delegação brasileira no dia em que o Rio foi escolhido sede dos Jogos de 2016.

O outro ouro foi de Luiz Alberto Cardoso de Araújo, que venceu o decatlo.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h38

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Este Merga soube esperar

Nem com recorde

O excelente corredor norte-americano Bernard Lagat correu sua prova como nunca antes na vida. Disputou pau a pau a liderança dos 5.000 metros em Oslo, em mais um encontro da Liga de Diamante, enfrentando como gente grande o etíope Tariku Bekele.

Na volta derradeira, os dois pareciam lançar faíscas de ódio dos olhos. Na reta oposta, dispararam, abrindo vantagem sobre o pelotão onde tinham vindo se digladiando. Fizeram a curva final na liderança e entraram líderes na reta decisiva, onde a força explosiva da musculatura de Lagat provavelmente daria conta da magreza africana.

Mas nenhum deles contava com a astúcia de Merga. Outro Merga, não o Deriba, aquele etíope de cara quadrada que os maratonistas já nos acostumamos a ver, aquele cara que gosta de correr na frente não importa quais sejam as dificuldades e, muitas vezes, acaba perdendo o título quando já vê a linha de chegada.

Também etíope, este Merga, Imane Merga, sentou no meio do pelotão e lá ficou volta a volta. Para não dizer que não aparecia, às vezes ficava em quarto, outras em terceiro, caía para sexto, encostava de novo nos líderes.

Na última volta, na reta oposta, quando Lagat e Bekele dispararam, ele fez que foi mas não foi, acelerou o suficiente para ficar ali pela frente do segundo pelotão.

Na curva final, a câmera da TV olhou dentro dos olhos de Merga, captou o esgar em seu rosto, a boca retorcida no esforço da corrida.

Mas não era seu esforço final.

Serviu apenas para não se distanciar dos dois esgrimistas. Na metade da reta, deu o bote. Abriu para a direita, cruzou a raia dois e chegou à raia três, de onde viu caminho livre para a chegada. E foi.

Lagat estabeleceu novo recorde norte-americano para os 5.000, fechando a prova de Oslo em 12min54s12, melhorando bem a marca construída no ano passado por Dathan Ritzenhein (12min56s29).

Mas não lhe serviu nem para a prata, que ficou com seu rival Bekele.

A vitória, porém, foi para o Merga que soube esperar e deu o bote quando tudo já parecia escrito. Na foto do alto (EFE), ele já deixou Lagat para trás, ainda tem Bekele como sombra, bem à esquerda (não aparece na foto), e vai para a vitória em 12min53s81, melhor marca de sua carreira.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h47

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Sensacional! Comunidade faz pista de atletismo em rua de Sampa

Correndo para o futuro

A reportagem de capa da revista “Contra-Relógio” deste mês é um belo furo e um raio de esperança para todos que acreditam no atletismo e consideram que o esporte em geral e a corrida em particular podem ser fator de inclusão social.

Conta o trabalho da Associação Esportiva Cultural Kauê, que atua na Zola leste da capital paulista sob o comando do abnegado professor Fran (Francisco Carlos da Silva).

A entidade já trabalha há mais de dez anos na região e hoje tem a corrida de rua como prática principal. Para facilitar os treinos da meninada, trataram de construir na rua mesmo uma pista improvisada de atletismo.

Pintada na tradicional cor vermelha, com raias de 60 cm de largura, a pista ocupa 200 metros da rua Nicolino Mastrocola, a menos de um quilômetro do metrô Itaquera-Corinthians.

Em abril, a associação fez aniversário e, para festejar, conclamou a comunidade para a escolha do nome da nova pista, que seria então inaugurada. A decisão foi das crianças que lá treinam, depois de processo de votação e assembléias.

O nome escolhido já foi revelado logo no início deste texto e é um emblema de luta: Correndo para o Futuro.

Salve eles!

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h43

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Vitória depois das lagrimas

Outra sensação

Mestra em história social pela USP, a FERNANDA MAYER LUSTOSA é uma moça pacata, superdedicada a documentos e registros de todo o tipo. Não é para menos, pois trabalha no Banco de Dados aqui da Folha. E, como muita gente que passou a vida em trabalhos de escritório, ela acabou descobrindo os mistérios da corrida. No mês passado, pela primeira vez em sua curta vida (é uma jovem de 45 anos), completou sem caminhar uma prova de cinco quilômetros. Leia a seguir a história corrida de FERNANDA, que já está de olho em um desafio de 10 km...

"Comecei a correr em outubro do ano passado, sem muitas pretensões, mas, por sorte, logo em seguida surgiu a oportunidade de participar de uma corrida, o que me motivou a continuar treinando. No primeiro dia, o máximo que corri foram 450 metros (menos de uma volta completa em volta do gramado do Pacaembu).

"Alguns dias de treino depois e eu já estava me sentindo bem. Aos poucos fui aumentando o tempo: cinco, sete, dez, quinze, até vinte minutos.

"Assim, a primeira caminhada, em novembro, foi bem tranquila. Eu estava com duas amigas e a gente fez o percurso de cinco quilômetros alternando alguns trechos de corrida com alguns de caminhada.

"No começo deste ano, uma amiga sugeriu que participássemos da corrida e caminhada do Graacc em maio. Eu topei na hora, pois já me sentia bem mais preparada.

"Li num livro de orientação para corredores iniciantes que, para melhorarmos nosso desempenho nas corridas, é bom que estipulemos alguma meta a ser atingida. Então, coloquei os cinco quilômetros de corrida como meu objetivo. Sei que para muitos corredores isto não é nada, mas, para mim, era uma grande superação.

"Quando chegou o dia da corrida, em nove de maio, eu me sentia pronta: segui as orientações do treinador da equipe de comer carboidratos, de dormir cedo, de usar um tênis confortável, etc. e, como já estava treinando há seis meses, sabia que conseguiria terminar a prova.

"Eu também estava muito feliz vendo toda aquela galera animada, sorridente, confraternizando ao ar livre.

"Tinha chovido bastante durante a noite, mas de manhã o tempo parecia firme. Era Dia das Mães e havia muitas pessoas passeando com a família, curtindo a manhã de domingo, observando os corredores, andando de bicicleta...

"Eu estava me sentindo nas nuvens, tanto que nem reparei no estado da grama enquanto caminhava em direção à largada. Desligada como sou, fui andando distraidamente, olhando o pessoal do caminhão de som em vez de olhar para o chão.

"Foi bem aí, nesse momento, um minuto antes das sete, que pisei em falso num buraco, torcendo o pé esquerdo.

"Nem gosto de lembrar. Fiquei sem ação. Parecia que um vazio se abria e eu estava caindo nele. Pensei em tudo o que eu tinha treinado e no desperdício de tempo caso eu parasse e voltasse para casa. Aquilo não podia ser verdade! Era muito azar!

"Mas nessas horas temos que manter a cabeça fria. Parei um pouco para tentar avaliar a situação. Fiz um alongamento, senti o tornozelo, fiz massagem no pé. Fui andando até a linha e ao passar pelo radar comecei a correr, bem devagar, sem forçar muito o lado esquerdo.

"Eram sete horas e nove minutos. Eu corria e chorava. A pior dor era pensar em não participar, em sair pelos fundos, de cabeça baixa... Chorei bem uns duzentos metros.

"Mas a dor passou e eu continuei. Continuei junto com aquele povão. Já me sentia melhor de novo. É outra sensação correr com uma multidão. Dá um novo entusiasmo. E fui indo assim até o fim. No quarto quilômetro, deu uma cansadinha, mas consegui ir até o fim sem parar. Foram 32 minutos.

"A dor passou. Acho que não foi mesmo nada grave, talvez tenha sido só mais um susto, talvez. Só sei que no esporte não podemos arriscar nossa integridade física, que devemos respeitar nossos limites.

"Felizmente, dessa vez meu corpo foi mais forte do que a dor. E a dor superou os limites dela mesma."

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h38

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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