Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Uma razão para voltar a Berlim

 

Gustavo saiu do Brasil para quebrar seu recorde pessoal na maratona de Berlim. E olha que essa militar de profissão já tinha marcas invejáveis, com 3h16 na maratona de Brasília, onde mora. Aos 38 anos, GUSTAVO CASTRO ARAÚJO participou no último domingo de sua primeira corrida no exterior, depois de quatro meses de treinamento específico para essa prova veloz, palco de recordes. A seguir, ele compartilha conosco sua experiência.

 

“Desde a largada, com a adrenalina a mil, era impossível manter um ritmo conservador. Ainda mais porque a temperatura estava perfeita para correr -algo em torno de 17 graus- e com um céu azul perfeito. Não tinha jeito, era sebo nas canelas!

 

O ar fresco invadindo os pulmões, a alegria de estar ali, fazendo parte daquele evento, tudo beirava a perfeição. Preferi até mesmo deixar em casa o mp3 com que sempre corria. Em Berlim, preferi ouvir o som do asfalto, dos corredores e principalmente das milhares de pessoas que vinham às ruas para incentivar --velhos, crianças, mulheres e bandas de músicas de todos os ritmos! Quando alguém conseguia ler o seu nome, ia logo gritando "Vamos, Fulano!"

 

Não tinha como não se empolgar. Passar por Berlim, por seus prédios novos e velhos, por suas fontes, pela parte oriental, tudo era fantástico e altamente gratificante! Na marca do km 10, olhei para o relógio: 41min. Um tempo ótimo, e eu cheio de vontade, me sentindo forte e capaz de chegar ao meu objetivo.

 

Logo em seguida, a dor apareceu. Uma dorzinha no joelho, na verdade, quase imperceptível. Esquece, disse a mim mesmo, e mantenha a passada. Mais pessoas, mais torcida, mais gritos de incentivo, mais música. E eu, ultrapassando muita gente com confiança e determinação. Vamos lá!

 

Mas a dor foi aumentando e eu, no mesmo ritmo, me esforçando para ignorá-la. Em um dos pontos de abastecimento, apanhei bananas, maçã e tomei dois copos d´água. Molhei o joelho e me convenci de que ela sumira. Beleza! Na marca do km 15, eu estava com 1h03m. Vai dar! Mas a dor voltou trazendo consigo a imagem de uma furadeira prestes a acabar com o meu joelho.

 

Passo a passo me roubando a força e a confiança, fazendo surgir diante de mim o fantasma do fracasso.

 

Desistir... Não, não posso nem pensar nessa hipótese. Treinei por dezesseis semanas. Disse a meio mundo que vinha para cá e que faria o melhor tempo da minha vida. Não... Não posso fazer isso. Mas a furadeira está mais agressiva agora. Parece que vai atravessar o meu joelho, dançando e rindo do meu esforço inútil. Adiante, vejo a marca de 21km. A metade do percurso.

 

Na marca da meia maratona, eu já estou com 1h34m. Ainda um bom tempo, mas evidentemente minha condição se deteriora. Saindo da maré de corredores, paro por um instante. Faço um alongamento, maldizendo a sorte. Volto para a rua. A dor parece estacionar por um instante. Alguns minutos depois, confiro o ritmo: 4m50s. Não é o ideal, mas ainda assim dá para chegar num bom tempo, antes de 3h30m quem sabe.

 

Passo por um corredor brasileiro que carrega uma bandeira e digo "Muito bom, Brasil!", disfarçando o receio que me domina. Ele responde com um inconfundível sotaque carioca: "Bom merrrmo!"

 

Mais à frente, não resisto. Começo a caminhar. Um festival de impropérios me cruza a mente. Tento andar rápido, pelo menos, chegando para o lado, deixando que os atletas passem. Todos, até o sujeito com a bandeira.

 

Vou chegar, nem que leve um dia inteiro, penso. Vejo a marca dos 25 km. Agora meu tempo já é de 2h15. Impossível recuperar. Forço a passada, apenas para ver que minha situação se degradar ainda mais. Do jeito que estou, levarei pelo menos mais três horas. Eu podia descansar, nem que fosse um pouco. Alguém grita: "Vamos, Gustavo!", e eu, com um sorriso sem graça, envergonhado, respondo com um aceno de mão.

 

Como é desapontar quem acredita em você? Como é decepcionar aqueles que esperam o seu melhor? Sento em um muro baixo e assisto aos incontáveis corredores passando. A essa altura já é o pessoal de mais idade, aqueles que talvez estejam correndo uma maratona pela primeira vez...

 

E eu, na minha quarta prova desse tipo, naquela que seria a primeira em terras internacionais, falhava. Meu joelho latejava de dor e punha por terra qualquer esperança de chegar com dignidade. Fico em pé e dou um passo para voltar ao percurso. A perna está travada. Se é difícil andar, correr beira o impossível agora. Levo as mãos à cabeça, indignado com a evidência de que minhas chances se esgotaram.

 

Para desistir, eu preciso me superar. Tenho que me convencer que de nada vale o esforço. Que o melhor é colocar a mão na consciência, verificar os erros que por ventura cometi e, por fim, parar. Não vale a pena agravar ainda mais a maldita lesão.

 

Entro numa estação do metrô e tomo a linha U9 de volta para o Reichstag. A prova acabou.

 

Quando cheguei, pude ver muitos corredores ultrapassando o Portão de Brandemburgo, prestes a completar o percurso. A essa altura, a prova já estava com 3h30. Eu já teria chegado há tempos, pensei. Agora, mancando e com a companhia de uma dor lancinante, era obrigado a assistir a todos com suas medalhas e suas expressões de superação e conquista.

 

No fim, ouvi o locutor oficial dizendo que Patrick Makau quebrara o recorde mundial, com 2h03m38s. Haile Gebrselassie desistira da prova, com problemas físicos. Ora, se até o fantástico Haile não consegue vencer todas, quem dirá eu.

 

Há, pelo menos, essa razão para voltar a Berlim."

 

  

PS.: O texto acima, com a devida autorização do Gustavo, a quem agradeço, é uma condensação do depoimento que ele publicou em seu blog, onde também colocou muitas fotos daquele dia tão especial. Para ler o texto dele na íntegra, clique AQUI.   

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 00h01

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Saiba como Makau construiu seu recorde na maratona de Berlim

A resposta fácil à pergunta que o título acima contém é simples: o jovem queniano correu mais rápido do que ninguém jamais havia corrido antes, mais veloz até que a lenda Haile Gebrselassie, que estabeleceu 27 recordes mundiais em diversas distâncias ao longo de sua profícua carreira.

Onde e como, porém, Patrick Makau foi melhor do que Haile só uma análise um pouco mais profunda nos revela. Dividir a distância em blocos de 5 km e comparar os resultados de cada um, por exemplo, dá uma boa ideia das estratégias de cada um dos corredores no melhor dia de sua vida de maratona.

Grosso modo, o que Haile fez quando quebrou o recorde mundial foi sair forte, indo até o km 10 em velocidade maior do que a necessária para atingir a marca de 2h03min59 (que estabeleceu ali mesmo em Berlim, em 2008). A partir dali, tirou o pé do acelerador e foi para uma zona de conforto, digamos assim, seguindo do km 15 ao 25 em ritmo mais ou menos estável, com velocidade inferior à necessária para chegar ao tempo que acabou estabelecendo.

A partir do km 25, Haile foi aumentando progressivamente seu ritmo e, pouco depois do km 32, sentou a bota e passou a voar baixo, rapidamente recuperando os segundos perdidos, chegando enfim ao recorde mundial e se tornando o primeiro homem a concluir uma maratona em menos de 2h04.

Você pode acompanhar a corrida de Haile de 2008, dividida em blocos de 5 km, verificando a linha vermelha no gráfico abaixo, que foi uma engenhosa produção do pessoal do site The Science of Sport, que divulgou uma aprofundada análise assinada pelo doutor Ross Tucker (leia o texto em inglês AQUI).

Bom, o gráfico abaixo mostra as corridas de Haile em 2008 e de Makau no último domingo. Os números abaixo de cada ponto, no gráfico, indicam a diferença acumulada entre Haile e Makau. Se os dois estivessem correndo juntos, Haile chegaria ao km 10 com cinco segundos de vantagem sobre Makau (+5 em número laranja). Essa superioridade, porém, seria destruída no bloco seguinte de 5 km, e Haile passaria o 15º km 12 segundos depois de Makau (-12 em número amarelo).

Aquela linha pontilhada mostra o ritmo necessário para chegar ao recorde mundial estabelecido por Haile em 2008 SE o corredor seguisse sempre na mesma velocidade. E os números no alto do quadro mostram os tempos de Haile (vermelho) e de Makau (verde) em cada bloco de 5 km, no dia em que cada um correu o recorde mundial. Os números sob eles mostram a diferença do tempo no bloco.

Bom, espero ter conseguido ser claro na explicação do gráfico. Quando li pela primeira vez a explicação dada pelo professor Tucker, tive de parar um pouco e acompanhar novamente a orientação, mas acabei compreendendo. Se você precisar, portanto, dê mais uma lida no texto acima, conferindo com o gráfico abaixo. Logo depois do gráfico, eu comento como Makau estabeleceu seu recorde no último domingo.

Siga comigo a linha verde no gráfico acima para acompanhar o desempenho do queniano Patrick Makau em Berlim. Como você pode ver, ele usou tática muito diferente da empregada por Haile quando quebrou o recorde.

O que Patrick Makau fez foi correr um pouco abaixo do ritmo do recorde até o km 10, usando esse tempo como aquecimento. No bloco seguinte (do km 10 ao km 15), fez exatamente o contrário do que Haile fizera em 2008: acelerou ainda mais, começando a construir uma espécie de banco de segundos.

Já com alguma folga, deu uma breve desacelerada até o km 20 e chegou mesmo a relaxar, digamos assim, entre o 20 e o 25. E aí, meu amigo, Makau queimou o chão, correndo em ritmo cada vez mais veloz, chegando ao km 30 com imensa folga em relação ao ritmo necessário para estabelecer novo recorde mundial.

Por isso, pôde novamente dar uma certa relaxada, diminuindo a velocidade aos poucos. Por segurança, porém, se manteve até o km 35 em ritmo mais forte do que o do recorde anterior (a tal linha pontilhada). Só então tirou o pé do acelerador com vontade, relaxou, sentindo-se já o novo recordista mundial. Mesmo perdendo 30 segundos no bloco do km 35 ao km 40, Makau já havia estabelecido tamanha vantagem que acabou chegando ao final com 2h03min38, uma vantagem de 21 segundos sobre a marca de Haile.

Com Chicago chegando aí, vamos ver quanto tempo esse recorde vai durar.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h09

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“É muito bom vencer Haile”, diz novo recordista mundial

“Hoje é dia de festa no Quênia”, disse neste domingo Patrick Makau depois de estabelecer o novo recorde mundial da maratona ao vencer em Berlim em 2h03min38. A marca do etíope Haile Gebrselassie (2h03min59), talvez o maior corredor de longa distância de todos os tempos, agora fica para os livros de história.

Haile também esteve em Berlim, voltando às maratonas depois de ter abandonado a prova de Nova York, em novembro passado, por causa de uma lesão. Ele ficou nos calcanhares de Makau até pouco antes do km 27, mas depois não aguentou o ritmo imposto pelo queniano de 26 anos, 12 anos mais jovem que Haile.

Sem esconder sua alegria por derrotar o etíope, talvez o último bastião a afrontar a supremacia queniana na longa distância, Makau afirmou: “Está chegando uma nova geração que está correndo muito bem”.

De fato, e é bom que ele mesmo fique esperto, pois sua marca pode não durar muito. Na maratona de Chicago, no próximo dia 9, vários jovens corredores estarão no asfalto em ritmo de quebra de recorde.

Um deles, por sinal, já correu abaixo até mesmo do tempo estabelecido hoje em Berlim, mas a marca não foi referendada pela IAAF (a Fifa do atletismo) por ter sido obtida em Boston, circuito que não tem as características exigidas pela entidade para validar recorde.

Pois foi lá, na sua estréia em maratonas, que o queniano Moses Mosop, 26, estabeleceu o melhor tempo de um debutante na história da nobre corrida: 2h03min06.

Além de Mosop, outra promessa para Chicago é ainda mais jovem etíope Bazu Worku, 21. Em 2009, me Paris, ele conquistou o segundo lugar com 2h06min15, o melhor tempo jamais corrido por um jovem de 18 anos.

Mas voltemos a Berlim, pois Chicago é futuro, e a prova germânica é o já, o agora. Na prova de hoje,  Makau fez uma corrida agressiva, não aceitando ficar com marcado de ritmo para Haile. Pouco antes do km 27, fez uma série de zique-zagues no asfalto para fugir da perseguição do etíope, que acusou o golpe e chegou a fazer uma breve parada.

Depois do km 34, o ex-recordista mundial acabou cedendo mesmo e desistiu da prova, atacado por uma crise de asma, segundo disse seu agente.

O novo recordista mundial disse que seus zigue-zagues foram planejados: “Haile estava tentando me usar como marcador de ritmo. Eu decidi que não ia carregar ninguém”, afirmou, acrescentando que imaginava que sua tática iria surpreender e cansar o etíope –o que acabou acontecendo.

“Hoje foi o melhor dia de minha vida de corredor”, festejou Makau.

No feminino, Quênia também fez a festa, com vitória tranqüila de

Florence Kiplagat em 2h19min44. Ela forma, com seu marido Moses Mosop, o que talvez seja o mais rápido casal de maratonistas da história.

A recordista mundial Paula Radclife, que voltou às maratonas depois de dois anos sem competir na prova de longa distância –teve seu segundo filho no ano passado e também enfrentou lesões e uma cirurgia--, não conseguiu manter o ritmo para competir com a queniana, mas não saiu de mãos abanando. Chegou em terceiro, com 2h23min46, tempo mais do que suficiente para se qualificar para competir pela Grã- Bretanha na maratona olímpica de Londres, no ano que vem.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h08

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Radcliffe diz que novas regras sobre recorde feminino são injustas

Com a elegância que lhe é peculiar, a dona do recorde mundial da maratona, a britânica Paula Radcliffe, reclama contra a mudança das regras da IAAF (a Fifa do atletismo) para homologação do recorde feminino na maratona.

 

Nesta semana, a IAAF decidiu que não vai mais considerar recorde mundial feminino  marcas estabelecidas em corridas mistas, em que homens podem atuar como marcadores de ritmo (coelhos) para as mulheres. Com essa decisão, o mais fantástico tempo em maratona jamais estabelecido por uma mulher deixa de ser considerada recorde e passa a ser chamado de “melhor marca” do mundo.

 

Fica, portanto, rebaixada a marca de duas horas, 15 minutos e 25 segundos, cravada por Radcliffe na maratona de Londres em 2003.

“Acho que isso é um pouco injusto”, disse Radcliffe. “Realmente, eu não acredito que você corra mais com os homens do que sem eles. Claro que eles estão te empurrando, mas ainda assim você tem de correr a sua corrida”.

A atleta britânica de 37 anos, mãe de dois filhos, resume assim a situação: “É tudo muito estranho: numa hora tenho o recorde mundial, na outra já não vale mais o recorde, e passa a ser a melhor marca...”

Já a alemã Irina Mikitenko, que venceu em Berlim em 2008 com 2h19min19, saiu detonando a mudança: “Pensei que fosse uma brincadeira”, disse ela. “Como é que você pode conquistar um recorde e então, oito anos depois, alguém vem dizer que aquilo não valeu?”

Boa pergunta, dona Irina.

O fato, porém, é que, o recorde mundial continua nas mãos de Paula Radcliffe. Com a nova regra, que estabelece que recordes femininos só serão válidos se estabelecidos em provas exclusivamente femininas, Paula Radcliffe passa a ser dona da melhor marca do mundo, 2h15min25, e a detentora do recorde mundial da maratona: 2h17min42, que também cravou em Londres, mas em 2005, quando a elite feminina largou antes, o que fez com que a competição fosse considerada exclusivamente feminina.

O que ocorre agora é que o recorde passa a ser mais “derrubável”, ainda que ultimamente ninguém tenha corrido muito perto da segunda marca de Radcliffe. Ela mesmo não se candidata a nada, pelo menos para já. Neste domingo, corre sua primeira maratona desde a prova de Nova York, em novembro de 2009.

Será em Berlim, e ela aguarda com nervosismo o tiro de largada: “Faz muito tempo que não corro uma maratona, então estou com um pouco de medo”, disse Radcliffe. “Vou ver o que dá para fazer. Depois de alguns quilômetros, já vai dar para perceber com estarão as coisas”.

Tomara que estejam indo muito bem e que todos possamos acompanhar uma grande competição.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h04

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Campeão olímpico revela ter sofrido abuso na infância

O norte-americano Frank Shorter, campeão da maratona olímpica em Munique-1972 e considerado o inspirador do boom das corridas nos Estados Unidos no último terço do século passado, revelou ter sido vítima de brutal violência durante a infância.

Em entrevista publicada na revista norte-americana “Runner`s World”, Shorter revela que ele e seus irmãos costumavam ser brutalmente espancados por seu pai, Samuel Shorter, que, no dia a dia, era um pacato médico, conhecido e adorado na comunidade de Middletown, Estado de Nova York, onde a família vivia.

“Ele trabalhava muito. Saí cedo de casa e voltava tarde. À noite, quando chegava, muitas vezes bêbado, conversava com minha mãe, enquanto eu e meu irmãos esperávamos no andar de cima. Ele decidia que alguém deveria ser castigado e batia com toda a força, até cansar. É difícil descrever a intensidade de sua raiva”, diz Shorter em vídeo divulgado no site da publicação, que você pode ver AQUI.

O ex-campeão olímpico, que completa 64 anos neste mês, diz ter decidido contar sua história para ajudar em campanhas contra a violência doméstica, que deixa crianças indefesas; elas são atacadas exatamente por quem as deveria proteger.

“Se, na época, a gente fosse contar essa história, ninguém acreditaria”, acredita ele, pois seu pai era uma figura proeminente na sociedade, bem-quisto e tido como uma boa pessoa...

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h24

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Velho corredor reencontra o GPS perdido

Este blog já foi palco de um longo e ressentido arrazoada deste velho corredor contra uma compra feita no exterior, no início deste ano. Cheio de entusiasmo e esperança, gastei meus minguados caraminguás num flamante GPS da Timex que, depois, não correspondeu às minhas expectativas.

Sejamos mais precisos. O relógio comportou-se com galhardia: números grandes, várias telas programáveis e divisíveis em diversas janelas, botões que respondem facilmente aos comandos, bom nível de navegabilidade e boa sensibilidade para encontrar o sinal do satélite.

Na hora de passar os dados para o computador, porém, foi um desastre. O site em que os dados ficavam arquivados apresentava as informações de forma pobre e limitada, pelo menos na versão gratuita. Havia ainda outras duas versões ambas pagas. O problema é que o sistema gratuito de qualquer um dos concorrentes era muito melhor, mais completo e mais bonito.

Tudo bem. Não tem tu, vai tu mesmo. Segui usando o relógio para monitorar meus treinos, pois ele conta com o recurso de volta automática, que, para mim, é um dos mais importantes. Para deixar meu treinador informado, resignava-me a copiar os tempos de cada quilômetro dos treinos e então transmitir os números por e-mail. Chatinho, mas nada que tire pedaço.

Fui levando a vida, sempre pensando em aposentar o relogião assim que tivesse oportunidade de comprar um melhor; há uma semana, cheguei a conversar com um especialista em vendas de equipamentos de segunda mão sobre as chances de comercialização do GPS da Timex.

Foi quando um dos atentos leitores deste blog, Sérgio Machado Jr., a quem agradeço pelo aviso, fez um comentário informando sobre versão atualizada do serviço da Training Peaks. Assim, depois de longo e tenebroso inverno, voltei a ligar meu GPS ao computador, e imediatamente o sistema me informou que havia uma atualização do programa disponível.

Em poucos segundos fiz o download e instalação do programa, e uma nova vida se descortinou para meu relogião, que estava prestes a ser abandonado. Mapas, gráficos e informações de desempenho volta a volta (no meu caso, quilômetro por quilômetro) estão disponíveis (imagem do alto). Se eu comprar uma faixa de monitoramento cardíaco, também poderei ver na tela, automaticamente, o ritmo de meu coração em cada ponto do percurso.

Sei que, para a maioria dos usuários de outros equipamentos, isso é carne de vaca, informações de rotina. Mas, na caminhada deste velho corredor, significou a salvação de um investimento que parecia perdido. Agora, meu GPS começa seu percurso para passar de simples colega de trabalho a amigo e parceiro de jornada.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h34

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Postura na corrida é tema de aulas grátis

O Sesc Vila Mariana realiza na semana que vem, em São Paulo, um minicurso sobre postura e caminhada na corrida, com duas aulas.

A apresentação do programa afirma: “Aprender a correr e caminhar exige cuidados com a postura corporal. A proposta aborda as principais estruturas envolvidas na sustentação corporal com aula prática e exercícios”.

As aulas serão ministradas pelo treinador Alexandre Blass, mestre em esporte de alto rendimento pela Universidade do Porto, Portugal, e pelo fisioterapeuta Marcelo Semiatzh, especializado em reeducação postural e no estudo do movimento.

O minicurso tem uma aula teórica, na noite de quinta-feira, dia 22, e uma aula prática, na manhã de sábado, dia 24. As aulas são gratuitas, mas é preciso se inscrever. Para mais informações, clique AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h56

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Brasil faz dobradinha no Sul-americano de meia maratona

As vitórias de Marílson Gomes dos Santos e Adriana Aparecida da Silva (fotos cortesia Tião Moreira) na meia maratona de Buenos Aires, ontem na capital argentina, tiveram duplo sabor para os brasileiros, pois a competição valeu também como torneio sul-americano da distância.

No masculino, o domínio do Brasil foi total, com pódio completo em verde-amarelo; no feminino, a batalha enfrentada por Adriana foi mais renhida, mas ela ainda assim conseguiu abrir quase meio minuto de vantagem sobre a segunda colocada e se qualifica como uma das mais consistentes corredoras brasileiras de longa distância na atualidade.

Marílson completou a prova em 1h01min13, o que fez da meia maratona um ótimo apronto para a participação do corredor na maratona de Chicago, no mês que vem. Na corrida nos Estados Unidos, Marílson pretende carimbar seu passaporte para os Jogos de Londres-2012. Se conseguir, ganha tranqüilidade para planejar melhor as competições que fará até lá e também organizar melhor seus períodos de treinamento e descanso.

Adriana Aparecida da Silva também voou baixo, vencendo em 1h13min16, seu recorde pessoal na distância e também indicador de que ela tem potencial para melhorar ainda mais sua marca na maratona. Adriana é uma das cinco brasileiras a correr os 42.195 m em menos de 2h33 e vai representar o país na maratona do Pan de Guadalajara.

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h48

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Confira teste do GPS mais leve do mercado

 

Quando abri a caixa e vi o jeitão do Cardio30, foi antipatia na hora. Já antes de ligar o relógio com GPS da Bryton, fiquei comentando comigo mesmo: muito pequeno, imagine como será o tamanho dos números, não vou enxergar nada na corrida...

Para complicar as coisas, não consegui domar os comandos do relógio por tentativa e erro. Reconheci as funções de cada um dos quatro botões (o que não é difícil, pois elas estão escritas no aparelho, em inglês), mas me foi impossível acessar e controlar cada uma simplesmente mexendo nos comandos, fazendo acionamento mais rápido e mais lento, enfim, testando minhas chances...

Em contrapartida, fiquei extremamente satisfeito com o peso do aparelho: com 47 gramas, é o mais leve à venda no Brasil e um dos mais leves do mundo (o da Nike, que só deverá chegar oficialmente ao país no segundo trimestre do próximo ano, pesa 29 g). Todo emborrachado, ele se adapta bem ao pulso e é confortável de usar.

Para entendê-lo, porém, tive de fazer o que sempre recomendo a todos quando escrevo testes, mas nem sempre faço: ler o manual. Cada botão tem dupla função. Quando você usa o aparelho como relógio, os botões servem para acionar alarme e outros recursos; na hora do exercício, eles dão acesso a uma série de informações, como distância percorrida, ritmo, batimentos cardíacos etc.

Para programar uma sessão de treinos, é preciso acionar botões diversas vezes e de diferentes modos (aperta e segura; aperta e solta). Não se trata de uma neurocirurgia, mas, nas primeiras vezes em que você programa o aparelho, é preciso seguir o manual –eu, pelo menos, tive de segui-lo e até repetir algumas operações antes de me sentir seguro para ir a rua. Veja abaixo, por exemplo, o esquema de como programar um treino intervalado por voltas (pode ser por distância ou por tempo). Os diferentes tipos de seta indicam o botão que deve ser acionado e o tipo de toque, se longo ou curto.

Além dessa dificuldade operacional inicial, havia também a desconfiança em relação ao aparelho. Por ignorância minha ou falta de divulgação da empresa, até cerca de um mês atrás não sabia que a Bryton, empresa com sede em Taiwan dedicada à produção de aparelhos GPS para ciclistas, estava também na área de GPS para corredores. No Brasil, ela apresentou seu relógio Cardio30 em um evento de corrida em São Paulo, no mês passado, e já começa a vender o aparelho no país (custa R$ 599 no site oficial, AQUI).

Bom, vamos aos testes. Depois de passar o relógio para sua personalidade exercício, você aciona o botão para dar início ao treino, e ele começa a buscar o sinal do satélite. Essa é uma operação que, na região onde moro, se mostrou mais demorada do que o comum. Em geral, ligo o GPS um pouco antes de sair para o treino e deixo o aparelho no jardim, “olhando” para o céu; daí faço meus aprontos finais e, quando saio, o aparelho já está conectado com o satélite. Bem, isso nunca aconteceu nos testes que fiz com o Cardio30.

Em todos eles, tive de ir até a rua, buscar área mais livre de árvores e aguardar o sinal, que também lá demorou. Algumas vezes (usei o GPS ao longo de duas semanas, fazendo mais de 20 testes em corrida ou caminhada ao longo do período), não aguentei esperar e comecei minha caminhada de aquecimento, indo até uma esquina que é completamente livre de prédios. Lá, depois de estar ligado por alguns minutos, a conexão com o satélite aconteceu no padrão normal, em menos de um minuto.

Uma vez conectado, o aparelho teve bom desempenho. Percorri diversos trajetos conhecidos, e as distâncias marcadas bateram com as apontadas por outros GPS que já usei. Também a conexão com o frequencímetro cardíaco funcionou bem; a parte que efetivamente monitora os batimentos cardíacos é um tanto gordalhona, fora dos padrões de elegância de outras marcas, mas não chegou a pesar nem atrapalhar (fiz treinos de até três horas sem nenhum incômodo).

O que incomoda mesmo é a lentidão nas operações de troca das informações apresentadas na tela. Na configuração inicial, apresentada quando você inicia o treino (depois de o relógio já ter encontrado o satélite), o visor mostra três linhas. A principal, no meio, com algarismos maiores, informa o tempo do exercício; acima dela, em algarismos bem pequenos, a distância percorrida; e abaixo, em dígitos pequenos, a hora.

Essa é uma questão importante para quem usa óculos apenas para leitura, como eu. Em dias de sol, não tive dificuldade para reconhecer os algarismos em cada uma das linhas, ainda que fosse mais difícil ver o da linha de cima; em dias nublados, porém, não dava. Os números são muitos finos e o contraste é pequeno. Para comparação: no GPS que uso os dígitos têm 1 cm de altura; no Cardio30, a tela inteira (que é dividida naquelas várias linhas) tem 1,4 cm de altura.

De modo geral, o que eu fiz foi trocar a informação principal apresentada, passando para distância; não dá para trocar, porém, a informação de cima, que continua sendo distância percorrida, e a hora, na linha de baixo, desaparece. Você pode girar a informação principal, com um toque breve no botão superior esquerdo; daí surgem em números grandes, a cada vez, o ritmo, os batimentos cardíacos etc. É como um dial que só ande para frente: uma vez que você mude a informação, tem de passar por todo o cardápio até voltar à informação original. E cada mudança demora um segundo, e cada mudança exige um toque no botão (veja abaixo).

O Cardio30 não tem um recurso que, para mim, é essencial: a volta automática. Para treinos, considero imprescindível; para corridas, nem tanto, pois em geral a quilometragem é marcada –o problema é que eu acabo me distraindo e sempre perco alguma passagem de quilômetro, deixando de acionar o botão que marca a volta.

Nessa marcação de voltas, por sinal, o Cardio30 tem uma idiossincrasia que me irritou um pouco. Explico. Fui fazer um treino por distância –ou seja, a informação principal da tela, em números grandes (para os padrões do aparelho), era a distância percorrida. A cada apito do relógio (ele dá um sinal a cada quilômetro percorrido, o que é muito bom), eu acionava o botão de voltas (lap) para registrar meu ritmo por quilômetro. Instantaneamente, o Cardio30 trocava de tela, apresentando em números grandes o tempo da volta; depois de breves segundos, voltava automaticamente para a tela ... de tempo total do exercício, e não para a tela em que estava antes (a de distância percorrida). Para que o relógio apresentasse a informação desejada, lá ia eu apertar o botão até ele chegar à tela de distância.

Depois de terminar a corrida, tive enfim uma grata surpresa. Para ver em seu computador as informações desejadas, você conecta o aparelho ao PC via caba USB, e acessa um site da Bryton, onde você se registra e passa a ter um espaço em que ficam arquivadas as informações dos seus treinos, tudo gratuito, como é em todos os demais (alguns, porém, oferecem um site gratuito muito limitado e têm à venda serviços mais completos). Resumo da ópera: o serviço da Bryton é muito bom, fácil de usar, com muita informação, tudo em detalhes (na distância, por exemplo, informa também a quilometragem percorrida em aclive e em declive); há gráficos que você pode manipular e ligação direta com sistema de mapa. Uma maravilha, se comparada com a pobreza franciscana do sistema que usava (e que já abandonei...). A tela abaixo é exemplo de algumas informações que podem ser visualizadas no serviço on-line.

Você pode compartilhar as informações como quiser: basta um clique para abrir uma janela com botões de acesso a Facebook, Twitter e quejandos. Clique em outro botão e você recebe o link direto da página, que você pode mandar, por exemplo, para seu treinador, para discutir um treino específico.

O design, para meu gosto, é meio antigão, e a navegabilidade um tanto lenta. Mas tudo funciona muito bem e você não precisa de nenhum manual ou tela de ajuda para conseguir dominar o conjunto do serviço.

O Cardio30 é resistente à água até uma profundidade de 50m; não testei isso, mas Vinicius Gaensly, gerente de produtos da Bryton no Brasil, me disse já ter até entrado no mar com o aparelho.

Outro bom recurso, que eu testei, é seu sensor de movimento (G-Sensor), que permite registrar a distância percorrida mesmo em locais fechados, sem acesso ao GPS. O curioso é que o manual, apesar de registrar o tal sensor nas características do produto, não explica como usá-lo (só fiquei sabendo porque Gaensly me falou).

Em resumo, um bom aparelho para iniciantes ou para quem não se importa de não ter o registro automático de cada quilômetro (ou volta definida por outro padrão). O preço é competitivo com o de produtos de entrada de marcas mais conhecidas.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h01

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Nova São Silvestre é criticada por treinadores e ex-campeões

Como você leu neste blog, a São Silvestre neste ano terá um novo percurso, determinado pela Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo com o objetivo, segundo a CET, de evitar a soma, na avenida Paulista, das multidões que concluem a prova e chegam para a festa de réveillon.

A principal alteração é na chegada, que passa a ser em frente ao Obelisco, na região do parque Ibirapuera. Com isso, os corredores terão de enfrentar a subida da avenida Brigadeiro Luiz Antonio e, depois, segurar o esqueleto na descida da própria Brigadeiro, que tem pelo menos um trecho bastante íngreme.

 Logo em seguida ao anúncio, fiz uma rápida avaliação da mudança. Para mim, o novo trajeto apresenta mais riscos para os corredores: descer é sempre perigoso, ainda quando o sujeito está cansado, louco para chegar e ainda atendo de enfrentar um asfalto repleto de irregularidades.

Pois fui ouvir técnicos e acompanhei declarações de corredores de elite, que não apenas concordaram como acrescentaram outras ressalvas. Comecemos por Marílson Gomes dos Santos, tricampeão da São Silvestre e melhor maratonista da atualidade: “Já houve outras mudanças anteriormente. As pessoas vão demorar a se acostumar, mas tudo o que for feito para deixar o evento melhor é válido”, disse ele, no seu tradicional estilo diplomático, ao site Webrun.

Mas logo fala da história da prova: “É um pouco chato trocar a chegada, porque o percurso era o mesmo há muitos anos e um pouco da tradição vai ser perdida.” Marílson completa alertando para os novos riscos da prova:  “A descida íngreme após a subida da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio pode ser prejudicial tanto para os amadores, quanto para a elite. Esse é o lado negativo da mudança”.

Outro vencedor da São Silvestre, Emersom Iser Bem, também comentou a modança. “A prova perde muito. A chegada na Av. Paulista é algo fantástico para todos que conseguem superar a forte subida. É uma magia. Justamente a prova mais tradicional da América Latina...teria que ser mais valorizada”, afirmou no Facebook.

Os técnicos que ouvi por e-mail, por sua vez, reforçam a questão de risco físico. “Após a famoso sobe-e-desce que tem a prova, descer a Brigadeiro ladeira abaixo será extremamente arriscado para a musculatura e as articulações dos corredores, que poderão ter graves lesões e rompimentos dos ligamentos”, advertiu Nélson Evêncio, presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo.

O treinador Miguel Sarkis, também corredor de alto nível –ficou em 30° lugar na SS de 1982 e ostenta no currículo uma maratona em 2h35—aponta ainda outro problema, a qualidade do piso que os corredores terão de enfrentar: “Estamos falando da avenida mais martelada por ônibus de São Paulo, o que provoca um abaloamento da manta asfáltica, deixando numa situação de extremo risco, aos menos avisados. Pense no asfalto que hora é afundado, outra é elevado, feito a corcova de um camelo.Fica até mesmo difícil treinar para um piso desses, mesmo porque o trânsito não para na avenida nem mesmo pela madrugada adentro”.

Por sua vez, Luiz Bernarbeu, diretor-técnico da VO2 Assessoria Esportiva e corredor com 15 São Silvestres no currículo, reforça o risco da descida colocada na parte final da prova. E desafia: “Já que tiraram a chegada da Paulista, por que não tirar também a largada? Há outros locais com mais facilidades para concentração: por exemplo, fazer a largada na praça Campos de Bagatelle e seguir pela v. Sumaré até o Ibirapuera...”

Ou seja, já que é para mudar, então arregaça de uma vez...

Há quem não concorde com isso e queira manter a tradição da Paulista, mesmo que de forma não oficial. Um grupo de corredores está organizando um treino especial em homenagem à São Silvestre dos anos 80: será na noite do próximo dia 17, no trajeto de cerca de 9 km que começa no Masp, desce a Brigadeiro em direção ao centro da cidade e depois volta subindo a rua da Consolação. A concentração começa às 22h, e você pode obter mais informações AQUI.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h45

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Bicampeão Mundial, Abel Kirui agora quer ser chefe de polícia

O queniano Abel Kirui ergueu os braços ao céu, fez uma dancinha muito particular e beijou o asfalto sujo de Daegu depois de conquistar na manhã de ontem (noite de sábado em Brasília) o bicampeonato mundial da maratona.

E, uma vez encerradas as breves comemorações, o maratonista, que deu uma verdadeira aula de ritmo de prova durante a competição na Coreia do Sul, revelou sua grande aspiração: estar presente em Londres-2012 e conquistar o ouro. Não sem antes dar uma melhorada em sua situação funcional no Quênia.

“Se eles me derem o título de inspetor chefe,  eu vou trazer para casa o título da maratona dos Jogos Olímpicos no ano que vem”, disse Kirui, que é sargento da polícia queniana. Como outros atletas de elite do país, Kirui trabalha em setores da administração pública –a ex-recordista mundial Catherine Ndereba, por exemplo, ainda hoje é funcionária da Administração de Presídios do país.

O maratonista de 29 anos mudou recentemente o seu regime de prepração, passando a treinar direto em Iten, a 2.400 m acima do nível do mar. Também trocou de treinador, trabalhando agora com treinamento, passando a treinar com o italiano Renato Canova.

Claro que é um período ainda muito curto para atribuir os resultados à mudança, mas o certo é que Abel Kirui, que detém o recorde de campeonatos mundiais com 2h06min54, deu uma aula de ritmo e estratégia no último dia do Mundial de atletismo em Daegu.

Ele não se importou muito em ficar na frente nos primeiros quilômetros. A corrida começou superlenta, com as passagens dos km 5 e 10 permitindo previsão de tempo final na casa das duas horas e 12 minutos, se o ritmo fosse mantido.

Mas não foi. Já no bloco do km 10 ao 15 o ritmo aumentou e, aos poucos, o pelotão de liderança foi ficando mais magrinho, com menos corredores aguentando o tirão, ainda mais sob um calor em torno de 25 graus centígrados. Mesmo assim, na passagem na meia maratona, havia três corredores liderando no mesmo segundo, e 12 no encalço, apenas um segundo atrás. Kirui ainda ficou mais uns quilômetros com a turma, mas forçando, de modo que o pelotão da frente se estiolasse: na marca do km 25, havia quatro no mesmo segundo, perseguidos por apenas um corredor, um segundo atrás.

Foi quando ele disse: Basta! Acabou a brincadeira. Abriu a passada e queimou o chão, fazendo do km 25 ao km 30 em 14min18, o mais rápido bloco de cinco quilômetros da história da maratona em Mundiais.

Depois, revelou aos jornalistas que tudo fazia parte de um plano para evitar quaisquer surpresas na parte final da prova: “Em uma corrida em que você tem competidores muito fortes, você precisa ser inteligente. A corrida não é apenas com as suas pernas, mas também com a mente”.

 

 

E a mente dos seus perseguidores deve ter ficado estraçalhada ao ver a diferença sempre aumentando. Naquela altura, Kirui estava a caminho de quebrar o próprio recorde –o que não ocorreu porque ele afrouxou um pouco nos quilômetros finais; em compensação, estabeleceu outra marca histórica, praticamente dobrando a maior diferença já registrada entre o primeiro e o segundo lugares em Mundiais.

Terminou em 2h07min38; seu compatriota Vincent Kipruto chegou em 2h10min06 depois de uma ferrenha batalha com o etíope Feiysa Lilesa, que conquistou o bronze.

 

Fotos Reuters e AP

 

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h09

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Morre aos 97 anos o maratonista mais velho do Brasil

Tuplet Seabra Vasconcellos, mais velho corredor do Brasil e um dos mais galardoados, foi enterrado hoje em Itaocara, Rio de Janeiro, onde morava. Ele morreu ontem, na casa de saúde local, depois de complicações por causa de uma pneumonia. Tuplet, campeão dos 1.500 m na categoria acima de 90 anos no Mundial de veteranos em Riccione (Itália-2007, foto do alto), tinha 97 anos.

Tuplet, mais velho maratonista brasileiro e um dos mais veteranos do mundo (mais experiente que ele, conheço apenas o indiano Fauja Singh, que tem 100 anos e continua correndo), começou sua carreira atlética com quase 70 anos. Foi logo após se aposentar, depois de anos de trabalho na construção civil, como pintor. Desafiado a participar de uma corrida de 10 km em Cantagalo, no Rio, foi de calça comprida e sapato social. Resumo da ópera: terminou campeão na sua faixa etária.

A partir de então, Tuplet iniciou uma trajetória de vitórias pelo Brasil e pelo mundo. Participou de mais de cem maratonas –chegou a fazer 14 em um ano apenas— e também teve sucesso em distâncias menores: conquistou o recorde brasileiro, categoria acima de 85 anos, nos 800 m (3min58s97), 1.500 m (7min56s49), 5.000 m (27min41) e 10.000 m (52min15). Mas também não afrouxava diante das provas superlongas. Quando tinha 72 anos, completou em 14h uma prova de 100 km de Uberaba a Uberlândia, informa texto publicado no “A Voz da Serra”.

Correu na Argentina, Paraguai e Chile e participou de cinco edições do Mundial de veteranos –Japão, África do Sul, EUA, Inglaterra e Itália--, além de marcar presença em outras tantas edições do Sul-americano de veteranos, sempre correndo na frente e conquistando medalhas de ouro.

Tuplet parou de correr regularmente no ano passado, porque às vezes tropeçava e caía, mas, mesmo assim, continuou comparecendo a corridas em que recebia homenagens – como a prova no Rio que leva o seu nome.

Nascido a 13 de setembro de 1913, Tuplet era viúvo. Teve dois filhos, ambos mortos há mais de 20 anos, e deixa três netos.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h58

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O maior sorriso do mundo

 

Começar no mundo das corridas é sempre uma emoção. A gente enfrenta dificuldades, depois ganha confiança, resolve se inscrever numa prova bem curtinha, temendo não ter fôlego para ir até o fim. Depois...  A alegria aparece e o sonho cresce, como nos conta a fisioterapeuta LUÍSA CARVALHO E SILVA, de 23 anos, que gostava de nadar, mas hoje é uma corredora. Seu envolvimento teve muito a ver com a família, o namoro, os amigos. Mas deixemos que ela conte a sua história.

 

 

"Há alguns anos escuto meus primos dizerem que treinam corrida, que participam de provas e até fazem parte de uma assessoria. Algumas vezes deixavam de ficar até tarde em um aniversário por conta dessa tal corrida. Mas, afinal de contas, o que fazia com que eles "deixassem de se divertir" para correr? Essa pergunta vivia em minha cabeça.

 

Há dois anos mudei para São Paulo. Já não conseguia mais nadar e o esporte estava me fazendo falta. Mas o que fazer se o tempo para atividade física é tão curto? Fiquei pensando nisso e nada.

 

Certo dia, meu irmão me disse que tinha uma amiga precisando fazer fisioterapia. Logo me animei, ela queria fazer Pilates para ajudar na corrida. Fui logo ler sobre o assunto e, pouco tempo depois, comecei a trabalhar em uma clínica voltada para o esporte. Tudo estava me levando de volta ao que mais gosto de fazer: ESPORTE. 

 

Comentei com meu namorado, Leandro, também fisioterapeuta, que meu irmão e a namorada dele (minha antiga paciente que corre) estavam treinando corrida e que eu também queria. Decidimos treinar juntos; fomos atrás de planilhas e orientação. Fiquei um pouco ansiosa. No início, eu não conseguia correr 3 m e já estava cansada, mas não iria deixar que isso me abatesse.

 

Cada trote e treino terminado, uma conquista nova. Alguns colegas brincavam comigo: "Aonde você vai com essa velocidade toda??" e eu respondia "Bater a minha meta pessoal".

 

Minha primeira prova foi a Fila Night Run. Corri 5Km, uma amiga me acompanhou durante o percurso todo. Cruzar a linha de chegada foi uma alegria tão grande que mal consegui dormir à noite. Minha primeira medalha, uma superação enorme. Dormi feliz.

 

Continuei a treinar, sempre respeitando o limite do meu corpo. Não queria de forma alguma me lesionar. Minha animação com isso tudo era tão grande que contagiou minha mãe, que também começou a correr e, no dia 12 de junho, fomos correr em família: eu, meu namorado, minha mãe, meu irmão e a namorada dele.

 

Fui dificultando o tempo, minha meta agora eram os 8 km do Circuito Athenas. Tudo foi perfeito, dia ensolarado, porém não muito quente, animação na medida certa e meus primos, que antigamente eu achava malucos por gostarem tanto da corrida, iriam correr conosco.

 

Ao terminar a prova, eu pulava de alegria. Parecia ter conquistado o mundo. Não estava cansada ou ofegante, apenas com o maior sorriso do mundo no rosto.

Corrida pra mim agora tem outro significado: conquista, união, alegria. Muitas coisas mudaram em minha vida depois que comecei a correr. Agora viso correr meus primeiros 10 km em novembro. Quem sabe, um dia chego até a meia maratona!"

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h09

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Novo percurso da São Silvestre tem perigo no final

 

A Companhia de Engenharia de Tráfego anunciou hoje o novo percurso da São Silvestre, que não vai mais terminar na avenida Paulista. O motivo alegado para a mudança, que já vinha sendo discutida e comentada há alguns anos, foi tentar evitar somar as multidões envolvidas com a prova e com a festa de Ano Novo; enfim, impedir uma supermuvuca na Paulista na noite do réveillon.

Foram feitas alterações ao longo do percurso, mas a principal mudança é depois da subida da Brigadeiro; em vez de entrar à direita na Paulista, o corredor vai seguir em frente, continuando pela Brigadeiro, mas agora em descida. Lá em baixo, vai dobrar à esquerda, depois à direita e mais uma vez à esquerda até chegar à praça Túlio Fontoura, em frente ao Obelisco, na região do parque Ibirapuera. A distância continua sendo de 15 km.

Ainda não conversei com treinadores nem médicos ortopedistas, mas conheço muito bem a descida da Brigadeiro, e posso garantir que o novo percurso aumenta os riscos para corredores desavisados. A parte mais íngreme é relativamente curta, tem uns três quarteirões mais pesados, mas o fato é que é tudo lomba abaixo, como a gente diz lá no Rio Grande.

Como todos sabemos, subidas são mais difíceis na corrida de rua, mas descidas são mais arriscadas. Além do aumento do impacto no esqueleto, músculos e articulações, o corpo recruta grupos musculares que comumente não são tão exigidos na marcha. Fora isso, há o fato de que você acha que pode aumentar a velocidade –e efetivamente passa a correr mais rápido; um escorregão ou uma torção podem ter resultados desastrosos.

Aposto que agora cada treinador de equipe de corrida vai começar novos estudos para aprimorar e adaptar os treinos de seus alunos para que os corredores sejam capazes de enfrentar, física e psicologicamente, o novo desafio que a São Silvestre coloca para todos.

Quem não tem treinador deve procurar se informar bem sobre os novos riscos, experimentar aos poucos incluir algumas descidas em seus treinos e, na hora do vamos ver, lembrar que a corrida só acaba quando termina. Se o sujeito partir em desabalada carreira quando falta ainda um quilômetro e pouco para o final, em descida forte, corre o risco de não chegar.

Veja a seguir o mapa distribuído pela CET mostrando o novo trajeto da São Silvestre.

Escrito por Rodolfo Lucena às 22h13

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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