Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Dicas para quem vai debutar na São Silvestre

Poucos dias antes de correr a minha primeira São Silvestre, no século passado, fiz também minha primeira reportagem sobre a mais importante e tradicional corrida de rua do Brasil. Um de meus entrevistados foi o então campeão da maratona de São Paulo, Diamantino dos Santos, maratonista olímpico e gaúcho (grande sujeito, mas tenho a impressão de que ele é colorado).

Pois Diamantino me disse uma frase que ficou gravada na minha memória como ensinamento lapidar, daqueles que a gente vê em filme de kung-fu, quando o Grande Mestre, ancião careca e de longas barbas brancas, diz para o aprendiz: “Ouça, Pequeno Gafanhoto...” E daí vem uma pérola de sabedoria.

O ensinamento de Diamantino, certamente aprendido por ele ao longo do caminho, se resume ao seguinte: “Treinar, todo mundo treina. Ganha quem comer melhor e descansar melhor”.

Não sei se isso é totalmente verdadeiro, pois há muitos elementos que concorrem para produzir uma vitória, mas não importa; a frase vale simplesmente por apontar de forma cristalina a importância fundamental da alimentação e do descanso para o bom desempenho.

Começo assim, portanto, minhas dicas para quem vai correr sua primeira São Silvestre (e mesmo para os mais experientes): tudo o que você tinha de fazer do ponto de vista de treinamento, já fez. Agora é hora de descansar, se alimentar bem e tomar bastante água, chás, sucos, ficar hidratado e tentar dominar os nervos.

Esta última missão talvez seja a mais difícil, pois o nervosismo pré-prova ataca até corredores experientes.

Para alguns, o frio na barriga chega minutos antes da largada, quando todas as dúvidas sobre sua capacidade de enfrentar aquele desafio desabam sobre a cabeça do vivente; para outros, especialmente os novatos, o medo e a insegurança se transformam em noites insones ou mal dormidas.

Por isso, desde hoje procure dormir mais cedo. Na véspera da prova, vá para a cama mais cedo também e procure relaxar; talvez você não consiga dormir ou ache que não vai conseguir dormir, mas não faz mal: fique frio, pelo menos o corpo vai descanso um pouco.

A partir de amanhã ou quinta, reforce a ingestão de carboidratos, sem exagerar nas quantidades. Faça várias refeições, pequenas, ao longo do dia.

Na véspera da prova, dê ainda mais atenção a uma boa alimentação e à hidratação.

Todos, novatos ou veteranos, enfrentarão uma São Silvestre totalmente desconhecida, pois o percurso novo traz desafios muito diferentes, ainda que inclua trechos do trajeto tradicional.

Além de já ter corrido o novo percurso, procurei conversar sobre ele com alguns especialistas.

O primeiro km é quase igual, vai pela Paulista, mas, em vez de dobrar na Consolação, submerge no túnel que passa sob ela, para chegar à Doutor Arnaldo. Vá com calma, aproveite os aplaudos da multidão na Paulista, procure não bater em ninguém nem tropeçar, pois a muvuca aí é grande.

Do km 1 ao km 3 é o primeiro trecho de grande risco, pois há uma ladeira bem forte até o Pacaembu e, depois, contornando o estádio, um tobogã que se encerra com uma descida curta que vai morrer na praça Charles Miller. Aí, todo o cuidado é pouco. Reduza o tamanho das passadas; na dúvida, caminhe, procurando não ser atropelado pelos malucões que vão se estropiar mais à frente.

Do km 3 ao km 10, tudo praticamente plano, com o viaduto da av. Rudge no km 6 como principal desafio. É hora de ganhar ritmo, equilibrar forças, até acelerar um pouco, dentro dos limites que você treinou.

Do km 10 ao km 12, 5 (av. Paulista). Trecho praticamente só em subidas. Apesar de a Brigadeiro ser a mais temida, a saída do viaduto do Chá até o largo de São Francisco é bem íngreme e curta, exige fôlego e força. Depois, há uma leve descida pela Cristovão Colombo até o início da Brigadeiro. Aí é correr ritmado e firme. Se você se guardou, vai conseguir correr toda a subida e ultrapassar montes de insensatos.

Descida da Brigadeiro em direção ao Ibirapuera (até km 14, aproximadamente). De novo, trecho perigoso. Descida leve combinada com ladeira forte, asfalto traiçoeiro. Fique esperto para não levar um tombão. Reduza, que você ganhar depois.

Último quilômetro. De novo, tudo plano, o povo já aplaudindo, seu coração bate mais forte. Agora esqueça a paciência e as precauções, vá acelerando aos pouco, atinja velocidade de cruzeiro por volta do km 14,5 e daí, meu irmão, minha amiga, senta a bota! Vai embora que a medalha é tua.

O ano está terminando, uma nova corrida vai começar em breve.

 

 

  

PS.: Este texto foi produzido baseado na minha experiência na São Silvestre  e em muitas outras corridas, mais entrevistas e conversas com médicos, treinadores e outros especialistas. Se você tiver algum orientador, siga o que ele lhe disser. Outra coisa: se sentir dor durante o percurso, tente primeiro observar que tipo de dor é. Reduza o passo ou mesmo caminhe um pouco. Se não passar, pare. Você não estará desistindo, estará apenas começando uma preparação ainda melhor para seu próximo desafio.

 

PS2.: Vou comentar a São Silvestre via Twitter, na minha página (clique AQUI). Então, sábado, se você não for correr, se ligue no @rrlucena.

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h54

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Bom velhinho derrota câncer e bate recorde em maratona

Bem, para começar, muita gente pode dizer que ele nem é tão velhinho assim. Mas, aos 62 anos e aposentado como professor de geografia, Brent Weigner já se qualifica como lídimo representante da terceira idade.

E que ele é bom, disso não há dúvida. Na verdade, no que se refere a combater o câncer em suas diversas formas, ele é totalmente excelente.

Aos 12 anos, foi diagnosticado com linfoma, supostamente em estágio terminal. “Os médicos me deram seis meses de vida”, diz o norte-americano, que acaba de retornar de uma viagem à Antártica, onde correu uma prova de 100 km. –o mais velho da história ao participar daquele evento.

As chances de recuperação daquele câncer na infância eram de 1%. Pois ele se agarrou a elas e sobreviveu. Depois de cinco anos, em geral a pessoa é tida como livre do mal, mas o linfoma voltou dez anos mais tarde, apenas para ser mais uma vez derrotado.

Quando tudo parecia acalmado, Weigner ainda sofreu com câncer de pele, que também mandou para o espaço.

Com tantas vitórias, o morador de Cheyenne, Colorado, resolveu testar sua capacidade nas corridas.

Para resumir a história, com sua última corrida na Antártica ele bateu dois recordes. Além de ser o mais velho a lá completar os 100 km, tornou-se a primeira pessoa na histórica a correr uma maratona em cada um dos sete continentes, sete vezes.

Tá bom assim ou quer mais?

Então lhe desejo Boas Festas e um Feliz Ano Novo, como muita saúde, amor, alegria, trabalho e paz. Bastante chocolate e muitos quilômetros rodados.

Saravá!

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h17

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Rocinha terá duas corridas no início de 2012

Duas corridas em janeiro marcam o que se espera sejam tempos de paz na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

No dia 22, um evento vai combinar corridas de 5 km e 10 km, mais corrida para a criançada e ainda espaço para manifestações culturais, como as campanhas  Fotografe Esta Ideia, Grafite Seu Esporte e Adote um Atleta.

O projeto, que tem o apoio do Bope, pretende também arrecadar fundos para a comunidade –os organizadores esperam gerar uma receita de mais de R$ 100 mil. Para mais informações, clique AQUI.

O outro evento é organizado pelo grupo AfroReggae, que já realizou, neste ano, a Corrida da paz no morro do Alemão. No dia 29, fará uma segunda edição da prova, agora na favela da Rocinha. Os organizadores prometem “muitos desafios para os atletas em um percurso de 6 km, passando por vielas da comunidade, com subidas e descidas”.

Ainda não há informações sobre inscrições, mas você pode conferir o site do AfroReggae aqui.

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h24

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Esgotadas as inscrições para a São Silvestre

 

Com recorde de inscritos, a São Silvestre fechou no último domingo o período de registro de corredores interessados em participar da mais importante corrida de rua do país.

Se todo mundo comparecer, serão 25 mil corredores largando da avenida Paulista, na tarde do próximo dia 31, para percorrer um percurso novo, que foi objeto de muita polêmica ao longo das últimas semanas.

Alegando que a avenida Paulista não comportava mais a multidão de corredores e a que chegava, no final da tarde, início da noite, para a festa de Ano Novo, os organizadores decidiram mudar o local da chegada.

O ponto final saiu da avenida Paulista e foi deslocado para o Ibirapuera, incorporando ao percurso uma forte descida no final da prova, pois o corredor terá de subir a Brigadeiro, cruzar a Pualista na altura do km 12,5, e então descer a Brigadeiro em direção ao Ibirapuera.

Isso foi num primeiro desenho do novo circuito, lançado no início de novembro. Semanas depois, surgiu o trajeto apresentado como definitivo, que incluiu ainda outra forte descida, esta agora no início da prova.

Em vez de descer a Consolação, agora o corredor vai seguir direto da Paulista em direção à avenida Doutor Arnaldo e então despencar pela Major Natanael em direção ao Pacaembu.

Apesar das polêmicas, seguiu célere o ritmo de inscrições. E a prova segue majoritariamente masculina: os homens representam 81% do total de inscritos.

Há gente de todas as idades e formatos. O mais velho, segundo os organizadores, é um corredor de 92 anos, Francisco José Paulino, que virá do Mato Grosso do Sul.Mas há também guris de 18 anos.

Com o novo traçado, a prova fica mais complicada, especialmente para corredores mais inexperientes, que devem tomar todo o cuidado possível nas descidas das ladeiras, tanto no início da São Silvestre quanto no final.

Em contrapartida, técnicos e corredores profissionais acreditam que o novo traçado será mais rápido. No ano passado, o brasileiro Marílson Gomes dos Santos venceu com 44min25. Vamos ver o que rola neste ano.

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h54

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Las Vegas faz exames de fezes em maratonistas

O departamento de saúde de Las Vegas está fazendo exames de fezes em corredores que participaram na maratona noturna realizada na cidade no inicio do mês.
Querem verificar se há bactérias ou sinais de ação de micro-organismos deletérios.
Isso porque muita gente passou mal durante a prova, com vômitos e diarréia. Houve quem tivesse de ser hospitalizado com desidratação.
Muita gente reclamou da água servida nos postos de hidratação, dizendo que estava com gosto ruim.
O sistema de abastecimento era assim: água de hidrantes era colocada em grandes latas de lixo forradas de plástico. Os voluntários responsáveis pelos postos pegavam copinhos de plástico e catavam a água dos latões. Os voluntários usavam luvas.
O departamento de águas afirmou que o líquido havia sido testado dias antes e estava em condições de ser bebido. Os organizadores da prova disseram que esse esquema de distribuição de água é padrão, mas eu não me lembro de ter visto algo semelhante em nenhuma das maratonas que corri nos EUA.
De qualquer forma, fica o registro, mostrando que nem tudo são flores na terra do Tio Sam.

ATUALIZAÇÃO = Saíram os resultados dos exames e nada ficou comprovado. Depois de testar cerca de mil dos 44 mil participantes da prova, organizadores e responsáveis pela área de saúde continuam sem saber o que aconteceu e qual foi a origem do problema.

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 20h23

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Veja como uma recordista mundial cuida dos tênis

 

A foto acima, colocada por Catherine Ndereba em sua página no Facebook, fala por si mesma.

 

Mesmo assim, a ex-recordista mundial da maratona fez uma legenda para explicar tintim por tintim aquele seu momento mágico: “Bem cansada depois de uma boa sessão de treinos em pista. Mas nunca tão cansada que não possa lavar meus tênis favoritos. Eu lavo meus tênis a cada dois dias”.

 

Bom, como você já leu neste blog, não é exatamente isso que os fabricantes recomendam. Mas Ndereba sabe tudo no que se refere a corridas e provavelmente está certa –pelo menos, faz o que acha que funciona para ela e seus calçados de treinamento.

 

Essa corredora queniana é uma das mais elegantes atletas que já largaram em uma maratona. É notada pelo estiloso trato que dá à cabeleira e também pelos inseparáveis óculos escuros. Acima de tudo, porém, suas passadas têm uma leveza e um ritmo que deveria ser objeto de estudo para a elaboração de tratados de biomecânica.

 

Você pode achar que pareço um fã entusiasmado, mas não; é apenas observação pura e simples, comprovada pelos resultados dessa corredora de 39 anos. Ela foi duas vezes campeã mundial da maratona, prata na maratona olímpica em Atenas-2004 e Pequim2008, tetracampeã da maratona de Boston e recordista mundial em 2001, quando correu Chicago em 2h18min47.

Escrito por Rodolfo Lucena às 15h25

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Tricampeão da maratona de Londres vai participar da São Silvestre

O queniano Martin Lel, tricampeão da maratona de Londres e dono do décimo melhor tempo do mundo na maratona neste ano, vai estar presente na São Silvestre no próximo dia 31, em São Paulo. O convite foi feito e, segundo informações obtidas pela Folha, a resposta positiva foi confirmada.

Além das vitórias em Londres em 2005, 2007 e 2008 (foto Reuters), Lel também conquistou a maratona de Nova York em 2003 e 2007. Seu melhor tempo é de 2h05min15 –o recorde mundial hoje reconhecido pela IAAF (a Fifa do atletismo) é de 2h03min38.

Nos últimos dois anos, o corredor, hoje com 33 anos, enfrentou vários problemas com lesão, mas voltou em abril para disputar a maratona de Londres, em busca do tetracampeonato.

A primeira tentativa deveria ter sido feita em 2009, quando venceu a meia maratona de Lisboa em março e parecia absolutamente em forma para obter a conquista sem precedentes em Londres. Pouco antes da prova, que acontece em abril, sofreu uma lesão no quadril que o forçou a mudar de planos.

No ano seguinte, novos problemas apareceram e ele continuou sem condições de disputar a prova, ainda que tivesse participado de corridas de distâncias menores.

Neste ano, recebeu convite de última hora, substituindo em Londres o campeão olímpico Sammy Wanjiru, morto depois de uma queda da varanda do apartamento onde morava. Lel chegou cheio de esperanças e mostrou que estava mesmo muito rápido, mas não o suficiente para bater seu compatriota Patrick Makau, que é o dono do recorde mundial da maratona.

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h45

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Corrida ilumina noite chuvosa de São Paulo

A saparia estava feliz. Tinha chovido a tarde inteira, a garoa ainda sorria para a grama de vez em quando, e o canteiro central da avenida Escola Politécnica, na zona oeste de São Paulo, estava transformado em um charco.

Para comemorar, uma sinfonia de coaxos saudava os corredores que subiam pelo asfalto até o encontro com a avenida Jaguaré, quando faziam uma curva para retornar pelo mesmo caminho. A entusiasmada gritaria dos sapos funcionava como incentivo para encarar ainda mais um trecho, e outro e outro –pelo menos para mim, que já estava cansado antes mesmo de começar.

Apesar da lombeira e das dores que ainda me acometem durante treinos, inchando calcanhar, castigando as costas, repuxando a musculatura posterior das pernas, mesmo um lesionado tem direito a uma corridinha de vez em quando, a tentar trazer mais uma medalhinha para casa. E, depois de uma semana em que fiquei mais tempo colocando gelo nas juntas, nadando relaxadamente, fazendo alongamentos (pouquinho) e exercício de forças do que correndo propriamente dito, resolvi tentar dar uma alegria ao espírito de correr, se é que ao corpo não fosse possível.

A tarde chuvosa colaborou, reduzindo a canícula deste quase-verão. Depois de uma séria discussão comigo mesmo, um vai-não-vai, acabei indo. Peguei o ônibus mais rápido da face da terra, com um motorista que faria sucesso em Interlagos ou qualquer circuito de Fórmula 1, tal a precisão milimétrica e a velocidade alucinada com que fazia curvas aparentemente impossíveis. Se eu chegasse vivo, já tinha uma inspiração para meu desempenho no asfalto.

São e salvo, cheguei à linha de largada cinco minutos antes do soar da corneta. Ainda havia luz do sol, mas parca, reduzida por nuvens cinzas que prometiam, se não um aguaceiro, pelo menos algum chuvisco. A prova, um tiro de 10 km, chama-se Light the Night, e o nome é a pior coisa dela, pela minha percepção. Amante que sou da língua pátria, fico furioso e decepcionado com essa submissão a idioma estrangeiro, ininteligível para grande parte, se não a maioria dos brasileiros. Mas, como se sabe, também nas corridas mandam os marqueteiros, que parecem acreditar piamente que fazer algo que os outros não entende dá prestígio, fama e fortuna.

Azar. Independente do nome da prova, a coisa estava bem organizada, havia corrida e caminhada, e o melhor é que o evento era beneficente, em favor da Associação Brasileira de Leucemia e Linfoma. O chato é que, para completar 10 km, teríamos de rodar três vezes uma voltinha de 3.334 metros (veja foto acima).     

Quando comecei a correr, porém, nem achei tão aborrecido assim. No primeiro quilômetro, senti-me cansado, costas doloridas, disse a mim mesmo que iria parar ao completar a volta –era uma possibilidade dada pela organização, que reconhecia e homenageava quem fizesse uma, duas ou as três voltas do percurso completo, o importante era participar, se mexer, fazer exercício.

Ao passar pelo pórtico pela primeira vez, porém, já estava suado e quente, totalmente disposto a fazer pelo menos mais uma vez aquele percurso. Quando estava no momento mais difícil, se é que se pode falar disso da delicada subida que nos levava ao encontro da avenida Jaguaré, percebi a sinfonia sapística, ri, me diverti e acelerei.

Que susto! Foi acelerar na curva e tropicar em algo incerto e não sabido. Por décimo, centésimos de segundo, me vi no chão, braço quebrado, sangue no asfalto, aquela meleca toda. Mas qual! Um braço serviu de leme, uma perna de apoio, um palavrão de incentivo, e retomei o equilíbrio perdido para seguir viagem.

Passando o km 5, o céu já estava escuro, e uma gigantesca lua amarela teimava em aparecer entre as nuvens de chuva. Além dela, nós também iluminávamos a noite, usando minilanternas oferecida pela organização para aqueles que estavam prestes a iniciar a terceira e última volta.

Tonto que sou, só percebi a oferta depois de passar pelo posto de distribuição de lanternas, mas imaginei que os organizadores teriam ainda um posto do outro lado. Fiquei atento e, de fato, pude pegar minha luz para iluminar a noite.

Não se tratava apenas de um adereço romântica, mas de uma necessidade prática, pois mais uma vez pude constatar que a iluminação da cidade é insuficientes para as necessidades do pedestre –mais insuficiente ainda para quem se movimenta rápido pelo asfalto ou pelas calçadas.

De luz na mão, dava para confiar mais nas passadas e fui acelerando, gastando a energia contida e sofrida das primeiras voltas. Para minha surpresa, tive gás para ultrapassar corredores que antes só vislumbrava ao longe. Melhor que nada, pensei, e fui até me alegrando um pouco com o ritmo que conseguia imprimir às pernas.

Terminei em 1h02min18 uma distância que meu GPS calculou em 10.660 m. Passo de tartaruga para boa parte de corredores, mas um sucesso para quem vinha rodando a quase oito minutos por quilômetro e mal acreditava que pudesse participar de uma corrida sem ter de recorrer a intervalos de caminhada.

Assim, saí pela noite fria sorrindo e satisfeito, até iluminado (pelo menos, quando acendia a minha lanterninha...).

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h56

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Nova São Silvestre agora tem um cotovelo na Pacaembu

A cada vez que consulto o site da São Silvestre, encontro uma nova surpresa no já surpreendente novo percurso da octogenária prova.

A mais recente é um cotovelo na avenida Pacaembu, pouco depois de ter passado por baixo da General Olímpio da Silveira (a continuação da São João).

Ali o corredor terá de fazer um curva fechadíssima à direita, indo de fato praticamente no sentido contrário ao que vinha; ou seja, vai virar à direita e para trás.

É a rua Mário de Andrade, uma larga artéria de duas pistas, dividida por um canteiro central. Você vai correr ali por cerca de um quarteirão para em seguida fazer o retorno e voltar pelo outro lado para ganhar novamente a Pacaembu e seguir a prova.

Não se trata de um trecho complicado: como é todo praticamente plano, não deve acrescentar dificuldade técnica. O problema é que, por causa da curva fechadíssima, tudo mundo vai ter de reduzir bem o ritmo –que, naquelas alturas, já deve estar bem acelerado, na batida da prova. Mal comparando, o cotovelo vai funcionar como uma chicane dos circuitos de Fórmula 1, se é que entendi direito as transmissões de corrida de carros a que assisti.

Aproveito para comentar com um pouco mais de detalhamento o novo percurso, que, como se sabe, larga da avenida Paulista, em frente ao MASP, e termina na região do Ibirapuera, em frente ao Obelisco (abaixo, mapa atualizado, com o tal cotovelo em destaque).

Minha sugestão é que você aproveite bem o primeiro quilômetro, na Paulista, para se aquecer, sorrir para o público e fazer as brincadeiras de praxe, porque depois o jogo vai ser duro.

Vai cruzar a rua da Consolação e já pegar curvas em penca até entrar na doutor Arnaldo. É bem possível que aí seja uma área de concentração, engarrafamento, mas até que não é de todo ruim, pois impede que você vá com tudo para a primeira curva maldita, saindo da doutor Arnaldo para encarar a descida da Major Natanael.

Ali é uma pirambeira braba. Para noviços e quem não fez treinamento específico de descidas, sugiro reduzir bem ou mesmo caminhar para evitar uma queda e terminar a prova antes do segundo quilômetro. A descida vai íngreme até a boca do Pacaembu e então faz o contorno do estádio, com uma curta subidinha, platô e nova descidas, esta um pouco mais leve. Mas não se entusiasme, porque, quando você já estiver vendo lá embaixo as árvores da avenida Pacaembu, a descida leve vira de novo uma pirambeira, curtíssima, mas traiçoeira.

Se você chegou incólume ao km 3, agora é hora de reunir as forças e começar a entrar no ritmo da prova. Terá pela frente um percurso praticamente plano de cerca de 7 km. O que não significa que vai enfrentar moleza.

Ainda antes de terminar o trecho na Pacaembu vai enfrentar aquele cotovelo a que me referi no início. Mais à frente, depois de ter passado pelo retão da Marquês de São Vicente e entrado na Rudge, terá o viaduto Engenheiro Orlando Murgel. No percurso anterior, era o segundo viaduto e dava um desânimo, uma raiva... Agora, acho que não será tão ruim assim, você estará um pouco mais descansado (isso se não tiver feito erros graves na primeira descidona...).

Aí segue no vai da valsa: Rio Branco, Ipiranga, São João, passa por trás do Teatro Municipal, cruza o viaduto do Chá e pega a subida da Líbero Badaró, curtinha e dolorida até o alívio em frente às vetustas arcadas da Faculdade de Direito do largo São Francisco.

Agora vem o trecho mais conhecido e temido da São Silvestre, a subida da Brigadeiro. Se você ainda não experimentou esse momento, vá com calmas, saboreando metro a metro e vai ver que o diabo não é tão feio como o pintam. A subida é em várias etapas, há breves platôs para recuperar as forças e enfrentar novo desafio até sorrir na Paulista.

Mas, calma, não é o final. Você vai cruzar a avenida que acaba de completar 120 anos e seguir para nova descida, agora cansado depois de mais de 12 km de asfalto. Por isso, recrute os neurônios, comande a musculatura, fique de olho nas armadilhas do asfalto e desça com calma e serenidade: a rampa é menos complicada do que a primeira, mas tem uma queda brusca depois de uma descida suave. E dura menos, cerca de um quilômetro.

Chega o plano, talvez você já esteja até ouvindo a bagunça do pessoal no ponto final, no Ibirapuera. Agora, sim, meu amigo, minha amiga, deixe de lado todas as precauções e vá acelerando, acelerando, acelerando até ver o Obelisco. Quando a chegada estiver à vista, queime o chão, corredor, que a São Silvestre é sua.

Divirta-se bastante e, enquanto pensa no percurso, dê uma olhadinha neste vídeo que fizemos para a TV Folha mostrando o trajeto. Além de minhas observações, o programa, que você pode conferir clicando AQUI, traz dicas do ortopedista Henrique Cabrita, que também é maratonista. Ele orienta como proceder para diminuir os riscos na hora da descida.

O vídeo é o primeiro do +Corrida na TV Folha. Aguarde que outros virão por aí.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h21

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Estudo relaciona maratona a problemas cardíacos

Maratonistas e atletas que participam de competições de longa duração podem sofrer problemas temporários no ventrículo direito do coração, segundo estudo feito por pesquisadores australianos e publicado nesta semana no “European Heart Journal”.

A pesquisa, que analisou 40 atletas de elite que não tinham problemas cardíacos, constatou que, na maioria deles, o problema foi superado depois de uma semana. Cinco deles, no entanto, apresentaram sinais de que o problema poderia vir a ser mais duradouro.

Apesar desses resultados, os pesquisadores afirmam que isso não significa que os exercícios de longa duração não sejam saudáveis.

Liderada por Andre La Gerche, pesquisador na Universidade de Melbourne, a pesquisa procurou estabelecer vínculos entre exercícios de longa duração e as funções cardíacas, analisando um grupo de atletas australianos de elite que se preparavam para quatro eventos: maratona, triatlo, corrida de bicicleta em montanha e ultratriatlo.

Constataram que, na maioria dos casos, “o coração se desenvolve de forma a ser capaz de responder a estímulos semelhantes (de esforço) em treinamentos futuros”. A questão a pesquisar, segundo La Gerche, é se há alguns atletas em que o coração sofra lesão da qual não possa se recuperar totalmente”.

Os atletas treinavam mais de dez horas por semana e passaram por testas algumas semanas antes da prova, imediatamente depois da competição e cerca de uma semana depois.

Imediatamente depois da competição, o coração dos atletas havia mudando de forma, com volume maior e redução no funcionamento do ventrículo direito. Em cinco casos, o coração não se recuperou completamente depois de uma semana, e foram encontrados sinais de cicatrizes (fibrose).

Médicos consultados pelas agências de notícias procuraram relativizar os achados, dizendo que é preciso haver pesquisa com grupos maiores de atletas para ter uma ideia da importância e do significado exato desses resultados.

O certo é que, como qualquer um de nós pode constatar em si mesmo, exercícios de longa duração provocam alterações no funcionamento de nosso corpo. A gente precisa estar preparado para isso, fazendo  consultas regulares a médicos especialistas em esporte e, especialmente, cuidando de não exagerar nos treinos.

Claro que, do ponto de vista médico, qualquer treino de um maratonista já é um exagero. Eu me refiro a não fazer mudanças drásticas de aumento de volume ou de intensidade do exercício. Além disso, nunca se deve descuidar da alimentação, da hidratação e do descanso.

E, independentemente do que digam os médicos, acho que nosso coração se alegra quando treinamos e competimos. Em contrapartida, sofre quando ficamos “de molho” –e disso eu posso falar de cadeira, pois sinto que cada sessão frustrada de treinamento é um baque físico e psicológico daqueles.

Aliás, Doireann Maddock, da Fundação Britânica do Coração, lembrou que os resultados da tal pesquisa não devem desanimar ninguém. “É importante lembrar que os benefícios da atividade física para a saúde estão bem comprovados”, afirmou.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h34

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Paula Radcliffe tenta primeira medalha em sua quinta Olimpíada

Depois de um ano em que enfrentou muitas adversidades, a recordista mundial da maratona, Paula Radcliffe, enfim pode respirar aliviada: está oficialmente confirmada em sua quinta Olimpíada. Desta vez, vai tentar sair com uma medalha...

“Se conseguir seguir sem lesões até lá, tenho chances de disputar medalha”, disse ela, que faz de si mesmo uma avaliação bem rigorosa: “Não acho que minhas chances sejam tão boas como em 2004 ou 2008. Vai ser muito difícil, mas realmente acredito que é possível”.

Dona das melhores marcas da história na maratona para mulheres, Radcliffe até agora não se deu bem na maior competição do atletismo mundial. Ficou fora da briga por medalhas nos 5.000 m em 1996 e nos 10.000 m em Sydney-2000.

 Na maratona de Atenas-2004, já rainha internacional da maratona desistiu, quando faltava cerca de 5km para a chegada. Com dores no estômago, vomitou muito e chorou sentada na calçada. Em Pequim-2008 (foto AFP), chegou dolorosamente ao 23º lugar, mancando, com fortes dores na perna esquerda –três meses antes dos Jogos, havia sido recebido o diagnóstico de fratura por estresse no fêmur.

Campeã mundial da maratona em 2005, tricampeã da maratona de Nova York e da de Londres, ela se classificou ao completar a maratona de Berlim em 2h23min46, quase oito minutos e meio mais lenta que o recorde que cravou em 2003.

"Representar o seu país numa Olimpíada é algo muito especial e estou muito feliz por ter sido escolhida para o time da Grã-Bretanha. Agora, meu único foco é ficar em forma para a maratona de Londres-2012”, disse ela, que não vai competir em nenhuma maratona até lá, mas deve participar de uma prova de 10 km no próximo final de semana.

A prova em que se qualificou foi a primeira maratona que disputou nos dois últimos anos, em que ela enfrentou lesões e tirou uma longa folga para ter o seu segundo filho. Sobre o resultado e suas condições, ela diz que está melhor do que nada. Ou, nas suas próprias palavras, ditas de forma mais elegante:

“Eu não diria que estou voando e pronto para quebrar recordes mundiais, mas estou melhorando aos poucos, e provavelmente em melhores condições do que eu pensava que estaria”.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h19

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Em Las Vegas, maratona noturna tem até casamento

A noite de Las Vegas, capital do hedonismo, da luxúria e da jogatina, encheu-se ontem de vigor e saúde quando mais de 44 mil pessoas saíram a correr participando da primeira maratona noturna da cidade –o evento, que faz parte da série de corridas Rock `n` Roll, teve também uma meia maratona.

A gigantesca festa esportiva, que de cara assumiu o terceiro posto entre as maiores maratonas dos EUA, fechou por oito horas a famosa Strip, a avenida onde estão instalados alguns dos maiores hotéis e cassinos da cidade.

Na meia maratona, havia ainda um atrativo especial: o percurso passava por uma capelinha apta a realizar as velozes cerimônias de casamento que também são marca registrada de Vegas.

Já que estava ali, por que não aproveitar? Nada menos de 41 casais resolveram atar os laços nupciais enquanto participavam da corrida.

O terreno romântico ainda tem a tal de renovação dos votos matrimoniais, que a gente costuma ver em alguns filmes, mas que eu não acreditava que o povo fizesse mesmo. Pois não é que fazem: mais de 60 casais trataram de reafirmar sua paixão quando passavam pelo falso vulcão de um dos hotéis da cidade

O vulcão é falso, porém bem ensinado: entrou em erupção a cada beijo dos casais. Por fim, reamados e bem casados seguiram a correr como todos os outros atletas pela fria noite de Nevada, iluminados pelo néon (foto AP).

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h12

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Biomecânico orienta corredores sobre novo percurso da São Silvestre

Nas conversas de corredores, o novo percurso da São Silvestre continua sendo tema de discussões. Há alguns apaixonadamente contra, mas a maioria quer mesmo é correr a São Silvestre, passe ela por onde passar. Aliás, mais da metade das inscrições já se foram, e quem demorou para fazer seu registro já está agora pagando mais caro.

Eu já dei minha opinião sobre o caso: acho que o argumento da tradição não se sustenta como defesa do percurso anterior; também considero que o novo percurso envolve mais riscos para o corredor, mas ainda dá tempo para se preparar para as novas adversidades que o trajeto nos reserva.

Para ajudar nisso, conversei com o professor universitário Allan Brennecke, 34, mestre em biomecânica e coordenador de pesquisa e desenvolvimento da

a Solus Fisioterapia e Esporte. Ele faz considerações que podem ser muito úteis na preparação nestes dias que faltam até a São Silvestre e mesmo para lembrar no calor da batalha. Vamos à entrevista.

 

+CORRIDA - A São Silvestre, em seu novo percurso, inclui duas fortes e longas descidas, a primeira pouco depois do km 1 (descida da Major Natanael/Pacaembu); a outra, no km 12,5 (descida da Brigadeiro em direção ao Ibirapuera). Que riscos elas apresentam para o corredor? Há diferença entre as duas situações?

ALLAN BRENNECKE - Sim, há diferenças. Uma vez que a primeira descida é próxima ao início da prova e a outra é mais próxima do final, a capacidade do corpo do atleta em responder a essas duas situações pode ser diferente se levarmos em conta o nível de fadiga muscular nos membros inferiores. A redução da resposta do sistema muscular às forças de impacto no decorrer da prova é normal até mesmo para atletas de alto nível, mas pode representar um risco para atletas menos preparados ou mais desavisados. Além disso, os atletas tendem a aumentar a velocidade nos quilômetros finais da prova. Isto provavelmente irá acontecer na descida da Brigadeiro em direção ao Ibirapuera. O aumento da velocidade também tende a aumentar as forças de impacto com o solo. Assim, a combinação fadiga muscular e aumento da velocidade pode ser ainda um fator de risco adicional e que exige um bom preparo físico.

 

+CORRIDA - Há aumento do impacto quando se corre em descida? Quais as consequências disso?

ALLAN BRENNECKE - Sim, há aumento de impacto. O aumento da distância vertical entre o centro de gravidade do corpo e o solo e o aumento da velocidade angular das pernas provocam isso. A força de impacto na corrida em descida varia de duas a quatro vezes o peso corporal e pode, dependendo da velocidade, chegar até 30% a mais que na corrida no plano, e cerca de 54% a mais que na corrida em subida. Em termos biomecânicos, esses valores não são muito elevados se comparados a outras atividades motoras, mas podem ter efeitos deletérios quando aplicados repetidas vezes a um corpo não bem preparado.

 

+CORRIDA - Há aumento do número de lesões quando se corre em descida?

ALLAN BRENNECKE - Dizem que “pra descer todo santo ajuda”! Nesse caso, não dá para se apegar tanto aos santos, pois existe certo suporte na literatura corrente que mostra aumento da incidência de lesões durante a corrida em descida.

Há uma tendência de aumento em três a quatro vezes na compressão femoropatelar (a compressão que a patela faz sobre a face anterior do fêmur) quando comparado com a corrida no plano. Pacientes com osteoartrite de joelho, condromalácia, síndrome da dor patelo-femoral ou com histórico de luxação patelar estão mais vulneráveis a essas cargas e devem considerar com maior cautela sua participação em provas com fortes descidas.

Outra lesão a que a corrida em descida predispõe é a síndrome do trato íliotibial. O Esta é uma pequena fáscia (tecido que envolve o músculo e tem função de apoio) e que sofre atrito com a lateral do fêmur quando o joelho é flexionado a pouco menos de 30 graus. A corrida em descida predispõe o corredor a essa síndrome porque o grau de flexão do joelho durante o contato inicial do pé com o solo, normalmente, está próximo dessa angulação de 30 graus. Durante a corrida no plano ou em subida, o joelho é flexionado além dessa angulação durante o contato inicial do pé e, portanto, oferece menos risco.

Nem sempre a corrida em descida pode ser a causa da lesão, mas pode agravar outras já pré-existentes. Por exemplo, é muito comum encontrar pessoas com histórico de lesão de ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho. Para aqueles com esse histórico e que vão correr a São Silvestre, vale a pena ficar atento, pois há evidências de que a corrida em descida, durante a fase de apoio do pé, tende a ocasionar maior adução (joelho varo) e rotação externa do joelho operado em pacientes que fizeram a cirurgia há até um ano. Outros estudos ainda mostram certa translação da tíbia em pacientes recém-operados (cerca de 11 meses de pós-cirúrgico).

Não temos muitos estudos tratando de coluna e corrida em descida, mas as poucas evidências mostram que a amplitude flexão–extensão da coluna lombar tende a ser maior do que na corrida no plano. Para aqueles com histórico de dores lombares vale a pena também ficar atento.  O aumento do risco de torção de tornozelo também tem sido reportado na literatura.

 

+CORRIDA - O que o corredor pode fazer para se prevenir ou melhorar suas chances de não ter lesão quando corre em descida?

ALLAN BRENNECKE - Apesar do quadro preocupante que citei na pergunta anterior, felizmente, há muito que se pode fazer para prevenir ou melhorar as chances de não ter lesão na corrida em descida. Em primeiro lugar, vale a pena fazer um bom trabalho de fortalecimento das pernas por meio do treinamento com pesos. Esse tipo de treinamento não serve apenas para os músculos, mas ossos, ligamentos e cartilagens também se adaptam a essas cargas, tornando toda a estrutura locomotora mais resistente às cargas aumentadas da corrida em descida.

Entretanto aqueles que levam o treinamento mais a sério provavelmente estão agora numa fase de treino específico, na qual o trabalho com pesos não faz mais parte do escopo do planejamento. Para estes, recomendo o chamado treinamento pliométrico, que nada mais é do que treinar o nosso corpo para responder mais rapidamente, utilizando a energia elástica dos músculos com maior rapidez e segurança, mesmo que a carga esteja aumentada. As estratégias de treinamento pliométrico são várias e vão desde diferentes tipos de saltitamentos e saltos até a própria corrida em descida. Recomendo, todavia, consultar um treinador formado em educação física para aplicação deste treinamento.    

Outra estratégia que vale a pena para evitar lesões é conhecer o próprio padrão de corrida. Quando observamos as pessoas correndo, em princípio, parecem que estão todas executando exatamente o mesmo movimento. No entanto existem nuances de controle de movimento que podem variar em mais de 100% entre um indivíduo e outro. Por exemplo, o tipo de pisada, o grau de abdução do quadril durante o balanço, o movimento dos braços etc. Isto acontece porque, apesar de termos a mesma natureza embrionária, nosso corpo se adaptou de diversas maneiras quando em contato com o ambiente externo e encontrou diferentes estratégias de controle motor para um mesmo movimento. Por isso, muitas vezes encontramos pacientes que, apesar de terem um padrão de corrida muito parecido, têm estratégias de controle neuromuscular bastante diversificadas. A mensuração desses detalhes hoje já é possível de ser feita tanto em laboratório quanto no campo de treinamento. Conhecê-los é essencial para que possam ser feitas correções, recomendações de calçados e de treinamento do modo mais personalizado possível.

 

+CORRIDA - Que recomendações o senhor dá para quem vai correr a São Silvestre?

ALLAN BRENNECKE - Todos os pontos que procurei passar aqui não são para desencorajar as pessoas a participarem da São Silvestre. Muito pelo contrário. São informações adicionais para que fiquem mais atentos caso venham a sentir algo as incomodando, tanto durante quanto após a corrida.

Caso o corredor venha a sentir algum tipo dor, em qualquer articulação que seja, recomendo, primeiramente, que reduza a velocidade. Caso a dor ainda continue, mesmo que seja caminhando, não a subestime, pois pode ser um sinal de algo que venha a piorar quando o corpo esfriar. Aí, infelizmente, o melhor e mais seguro a fazer é parar e se preparar melhor para o próximo ano.

Se o corredor não teve muito tempo pra se preparar esse ano, ou caso seja marinheiro de primeira viagem na São Silvestre, recomendo atenção redobrada aos fatores que discutimos aqui. Vale à pena consultar um médico para saber se há lesões pré-existentes, ou não.  

Do ponto de vista biomecânico, creio que passei, ao longo de todas as respostas, as recomendações essenciais para uma prova segura. Obviamente, não podemos esquecer os outros aspectos fisiológicos, psicológicos e bioquímicos, como saber sua condição cardiorrespiratória, e outros fatores de risco, não se esquecendo da hidratação, alimentação, sono e descanso adequados, tanto antes como depois da prova.   

Escrito por Rodolfo Lucena às 12h39

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Palestras gratuitas dão dicas sobre corridas

Não basta correr, tem de estudar corrida. Na semana que vem, duas boas palestras gratuitas vão contribuir para o debate sobre o esporte e sobre como corremos.

Em São Paulo, no dia 7, o medalhista olímpico Vicente Lenílson, prata nos 4x100 em Sydney-2000 e ouro nos recentes Jogos Mundiais Militares, realizados no Rio, fala sobre sua carreira. Também comandará alguns exercícios educativos durante a palestra/oficina no Sesc Vila Mariana. A participação é gratuita, mas é preciso se inscrever, como você pode ver no cartaz abaixo. O telefone direto para inscrições é (0xx11) 5080-3130 (setor esportivo).

A outra palestra é no dia 9, em Fortaleza, e vai tratar mais especificamente da biomecânica da corrida, analisando como corremos e discutindo como podemos aproveitar melhor a energia. Será ministrado pelo fisioterapeuta Marcelo Semiatzh. Veja a seguir mais informações.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h05

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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