Rodolfo Lucena

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Cara e coragem

Entrevista com Monica Otero

Entrevista com Monica Otero

A conquista de Badwater

A paulista Monica Otero é a primeira mulher da América do Sul a completar a ultramaratona de Badwater, que percorre 217 quilômetros e cruza o o deserto de Mojave, na Califórnia. Mãe de dois filhos, essa sobrevivente a um câncer de intestino começou sua vida de peregrina no primeiro ano deste século, percorrendo parte do Caminho de Santiago. E agora, aos 51 anos, fez sua maior aventura, que ela conta nesta entrevista, que foi a base de reportagem publicada hoje no caderno Equilíbrio da Folha (AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL).

Folha - Como você define a Badwater?

Monica - Sacrifício. Exige muito treino. Ela é considerada a corrida a pé mais difícil do mundo. Não pela topografia nem pela quilometragem, mas pelas condições do tempo. Você correr sob uma temperatura acima de 50º não é fácil. E quando me diziam que a maioria dos atletas, durante a corrida, perdia o paladar, eu falava: ‘Gente o que é isso, perder o paladar?‘, e eu experimentei isso.

Folha - E como é perder o paladar?

Monica - Qualquer coisa que você vá mastigar vira uma pasta seca e você não consegue engolir. Tudo resseca, você não consegue engolir nada. Eu tinha fome, mas não conseguia comer. Então, um pedacinho de pão, um pedacinho de batata, um pedacinho de maça, você mastiga, mastiga, mastiga e não adianta. Para engolir aquilo, você tem que ter muita força de vontade e tomar alguma coisa junto, porque senão não desce.

Folha - E como você chegou a participar da prova?

Monica - Você tem que ser qualificado. Porque mais de 2.000 se inscrevem. Atletas do mundo inteiro se inscrevem para fazer essa ultramaratona, mas só 90 podem participar a cada ano. Eles selecionam por currículo, mas há um número de atletas que eles escolhem a critério deles. Eu acredito que eu tenha sido escolhida não pelo currículo, mas a critério deles, porque eu acho que eles têm que dar chance para novos atletas, tem que dar essa abertura. E, quando eu terminei a Brazil 135 em 67 horas, o Mário Lacerda, que é o grande organizador de tudo isso, me chamou.

Folha - Como foi isso?

Monica - Ele falou: ‘Monica, eu gostaria que você se inscrevesse para a Badwater. Eu gostaria muito que uma mulher fosse, e eu não conheço no Brasil alguém que tenha feito uma prova de 135 milhas e que já tenha estado na Badwater como pacer‘. Eu tinha ido no ano passado como pacer do Manuel Mendes, e ser marcador de ritmo é um pré-requisito, já é uma qualificação. Eu me inscrevi no último dia, em janeiro, e no dia 15 de fevereiro recebi o e-mail. Eu falei: ‘Gente do céu, fui escolhida‘. Eu comecei a tremer, eu comecei a chorar, as pernas bambearam. Aí eu falei: não tem o que fazer: agora é treinar e treinar muito. Aí eu comecei a ser orientada pelo Mário Lacerda...

Folha - Como eram os treinos?

Monica - Eu já estava treinando, fazendo musculação em uma academia em Alphaville. E comecei a treinar em piscina, corra dentro d‘água para diminuir o impacto. Então, duas vezes por semana, eu fazia uma hora na piscina, depois eu saía e fazia hidroginástica na piscina, logo em seguida. Depois eu corria, no mínimo, três horas aqui no residencial...

Folha - Você não tirava folga?

Monica - Treinava seis dias por semana. À noite, eu fazia sauna, eu fazia step dentro da sauna, isso duas vezes por semana. O único dia que eu tinha descanso era aos sábados. De treino, porque eu trabalhava. Eu tinha uma cafeteria, que vendi agora em maio, uns dias antes de eu viajar. Eu trabalhava no comércio, mas abandonei o comércio na parte da manhã, para eu poder fazer meus treinos. Eu trabalhava à tarde; à noite, ia para a academia. Sábado era o único dia que eu não treinava, porque era o dia que eu fazia as compras para o café. E no domingo eu treinava o dia inteirinho: eu saía às seis, sete da manhã e só voltava às sete, oito da noite andando.

Folha - Como você se alimentava nessas longas caminhadas?

Monica - A minha história é um pouco diferente. Eu não tenho perfil de atleta, sou gorda... Eu tenho um problema muito sério com alimentação. Há dez anos, eu tive um câncer de intestino. Tive um, não, tive recidiva, aí eu fiz colostomia, passei por todo processo de quimioterapia, então eu tenho muitas restrições alimentares. Muita. Eu não como nada que tenha fibra. Eu não tomo leite. Eu não tomo iogurte nem nada que tenha grão, tirando arroz. A única fruta que eu como é a maçã, sem a casca. Agora, eu estou introduzindo a banana, depois de dez anos... Existe, assim, uma dificuldade muito grande...

Folha - Sua alimentação é mais líquida?

Monica - Olha, é muito complicada minha alimentação, porque tem dia que eu estou bem e aí como pão. Eu gosto de pão integral, mas tudo que tem muita fibra, eu não posso. Tem dia que eu como arroz e uma carne grelhada. Nada com gordura, nada com pimenta, nada com molho. Então, para mim é difícil. A Badwater, eu fiz praticamente em jejum, comendo azeitona, massa e um suplemento de chocolate. Teve uma hora que me deu diarréia, eu não consegui tomar mais. Então, a minha condição de atleta é uma condição diferente. Não é nada daquilo que é comum nas pessoas.

CONTINUA....

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h37

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Entrevista com Monica Otero - terceira parte

Entrevista com Monica Otero - terceira parte

Reviravolta na vida

 

Folha - Quantos filhos você tem?

Monica - Eu tenho dois, mas eu não moro com nenhum. Um mora com o pai, que até eu me separei neste ano.

Folha - Agora, antes de Badwater?

Monica - É, foi assim: 28 anos de casamento, virgem, primeiro namorado. No início foi legal, mas foi um casamento meio tumultuado, porque eu queria fazer as minhas corridas, as minhas caminhadas, e ele muito ciumento. E, sempre a gente estava brigando por causa disso. Aí quando foi neste ano, nós entramos num acordo, e ele aceitou. Eu já estava querendo me separar há mais tempo, mas ele não queria. Aí, quando foi este ano, ele resolveu: ‘Ah, com você não tem jeito, então...‘ Mas foi um ano muito sofrido para mim, porque ele fez uma exigência, que para mim foi muito dura. Ele só aceitava a separação se ele ficasse com o meu filho. Eu tenho dois, um já mora sozinho, ele vai fazer 27 anos, mora sozinho, e eu tenho um de 15 anos. Então, foi assim uma exigência dele: ‘Você quer? Está bom, só que o filho é meu‘. E para mim foi muito difícil, mas muito. Tanto é que, durante os meus treinos aqui, eu só treinava chorando. Gente, como foi difícil este ano.

Interiormente, eu não aceitava, tanto é que eu treinava, eu subia aqui essas ladeiras, gente, eu subia chorando. Como eu chorei, como eu chorei Rodolfo, mas eu chorava, assim, desesperadamente. O pessoal até pensava que era suor, mas não era suor não, eu estava chorando. Então, foi um ano assim, foi uma reviravolta na minha vida, porque eu fui aceita para fazer essa prova, acabou um casamento de 28 anos, eu vendi o comércio que eu tinha...

Folha - Por que vendeu?

Monica - Eu falei: ‘Bom, agora vai ter que ser uma virada‘. O comércio me tomava muito tempo. Mas eu consegui dar a volta por cima e consegui meu objetivo, que era terminar a prova desde o início. Não era ganhar a prova, não era nada, era a conclusão da prova. Eu treinei para terminar a prova em 60 horas.

Folha - Por que?

Monica - É aquela sensação assim: olha, Rodolfo, tem uma coisa na minha vida, que eu acho que eu nasci para andar. É uma coisa, assim, bem interior, bem. Você sabe que quando eu era menina, que eu devia ter mais ou menos cinco ou seis anos, eu tive um sonho. Eu nunca revelei esse sonho para ninguém. Eu guardei esse sonho comigo muitos anos e esse sonho tem tudo a ver com a minha história, mas só agora eu estou ligando isso.

Nesse sonho, eu estava num barco, que tinha várias redes penduradas e eu estava numa dessas redes. Eu estava deitada numa dessas redes e como bagagem, eu tinha um saco de estopa. Eu não sei o que tinha dentro daquele saco de estopa, mas tudo o que eu tinha era aquele saco de estopa e eu cuidava daquele saco de estopa. Eu não me lembro se eu tinha pai, se eu tinha mãe, se eu tinha irmão, eu não me lembro. E, eu estava deitada nessa rede e esse barco partiu e eu lembro até hoje do mato e eu sinto o cheiro do mato. Eu estou falando para você e eu estou sentindo esse cheiro do mato. Eu olho, eu vejo o céu, eu vejo o sol, isso tudo no sonho. Eu ouço até hoje o barulhinho da água do barco, entendeu? E eu fiquei muito tempo nesse barco.

De repente, o barco parou, eu desci e eu comecei a andar. Gente, mas eu andava, como eu andava. Eu andava tanto, tanto, que só de falar eu fico cansada.

Folha - Acordou cansada?

Monica - Mas eu era tão feliz. Era uma felicidade tão grande que não tem palavras. Isso eu sonhei quando eu era menina e eu guardei esse sonho. Nunca contei a ninguém até pouco tempo atrás. Por isso, analisando agora, depois de tudo isso, eu estava pensando, gente, será que tem alguma coisa a ver com meu sonho? Acho que meu destino é andar. E era andar muito, muito, muito, muito.

Folha - Bem, em Badwater você andou muito. Quando você chegou lá?

Monica - Eu cheguei a Stovepipe Wells, no deserto de Mojave (Califórnia), uns 20 dias antes da prova, para fazer a aclimatação. Ali foi minha base, num hotel que é um dos pontos de parada da prova. É o primeiro ponto de checagem. É mais ou menos a 80 km da largada. Sem internet, porque a internet não chegou lá, fiquei lá todos esses dias.

Folha - E como era a sua equipe?

Monica - Levei o Márcio Villar, que tinha me ajudado a terminar a Brasil 135, e mais cinco pessoas de lá, dois carros. Eu banquei tudo, gasolina, alimentação, tudo. Não saiu por menos de R$ 20 mil... Tinha esses quatro ultramaratonistas, que não tinham muita chance de serem escolhidos, mas resolveram ir como pacers. E o Márcio e a Marta Harato.

Folha - A Marta você já conhecia?

Monica - A Marta eu conheci fazendo o Caminho da Luz. Ela organizou para o Mário Lacerda a prova-teste para a Brasil 135. Depois, nós duas fomos ser pacers do Manuel Mendes na Badwater, no ano passado.

CONTINUA....

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h26

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Entrevista com Monica Otero - final

Entrevista com Monica Otero - final

Dever cumprido

Folha - Na prova, qual foi o momento mais complicado? Você terminou em 55 horas, não é isso?

Monica - Cinqüenta e quatro horas e vinte e seis minutos. Eu acredito que teria condições de terminar em menos tempo se não fosse a alimentação, porque eu não comia nada lá, eu não conseguia comer.

Folha - Alguma coisa você comeu...

Monica - É, eu tomei muita bebida isotônica, mais um suplemento alimentar de chocolate, comi azeitonas....

Folha - E ir ao banheiro?

Monica - Lá não tem banheiro, a prova é no deserto mesmo, você tem todo o deserto para ir ao banheiro.

Folha - E dormir?

Monica - Ah, dormir, eu descansei quando eu cheguei em Stovepipe Wells. Eu cheguei lá no deserto no dia 02 de julho para me aclimatar e logo no primeiro dia eu peguei 54º de calor. O meu primeiro treino foi às 10 da manhã e às 15h eu ia ter outro. Eu treinava 12 horas por dia lá.

Mas eu parei uma semana antes o treino por causa dos meus pés, porque o calor era tão grande, que começou a fazer bolhas nos pés, nos últimos treinos. Então, meu pé virou uma placa de bolha e eu tive que parar o treino. Mas, isso uma semana antes.

Folha - O que de certa forma, do ponto de vista do seu físico foi até bom, não é?

Monica - Foi, porque eu tinha que descansar. Eu tinha que descansar, mas eu fui tão alucinada que eu tinha que terminar essa prova, porque se eu não terminasse para mim seria assim uma decepção muito grande, porque todos falavam: ‘Monica, você é a primeira brasileira a se inscrever para essa prova‘. Então, eu alucinei naquele deserto, eu puxava pneu naquele deserto. Eu amarrava um pneu na cintura e saía puxando, para ganhar resistência.

Folha - Mas isso era um treino que tinham te sugerido fazer ou você resolveu fazer da sua cabeça?

Monica - É, o Mário achou que esse treino tinha que ser feito antes, mas, como eu sou louca, eles falam que eu não bato muito bem. Se fosse muito quente, eu treinava 40, 50 minutos com o pneu. À noite, sem sol, eu andava um pouco mais com o pneu..

Folha - E você sentiu o resultado desses treinos?

Monica - Olha, tudo foi válido. Lá é o seguinte: quando está muito calor, você toma tanta água, tanta água que daí o corpo não consegue eliminar, pára aquele líquido no estômago e quando você corre faz chilap, chilap, você não consegue correr. Então, o grande segredo é a aclimatação. O Mário me ligava, instruía para eu tomar três, quatro litros de água por hora, adaptar o seu corpo a isso.

Lá do deserto, então, o que eu fazia? Eu saía com quatro litros d‘água, eu saía com o camel back, gelo na cabeça, um spray e eu ia andar. Então, eu andava assim até onde eu consumia um camel back e depois voltava porque eu não podia ficar sem água no deserto. Então, eu sempre levando gelo, quando eu chegava, aquela água já estava fervendo.

Folha - E como você escolheu a roupa?

Monica - Eu tinha planejado correr de bermuda, porque eu sempre gostei de correr sem nada que me prenda as pernas, tinha que ser um short, uma coisa assim. Mas, onde o sol batia, aquilo queimava de forma assim impressionante. Falei, bom, acho que eu vou ter que usar uma canga. Aí a Marta, que estava em San Diego, me mandou a canga pelo correio, porque lá no deserto não tinha nada. Só que em alguns trechos da corrida ventava tanto, tanto, tanto, que aquilo atrapalhava a perna. Então não dava.

Eu pedi para ela me mandar uma calça fusô. Eu tinha comprado uma roupa especial com fotor de proteção solar 60, mas ela evapora muito rápido a água, e eu queria algo que permanecesse molhado nas minhas pernas. Aquela roupa, que é especial, tem aquele tecido que, em três minutos, evapora a água e seca, daí ela ficava quente na minha perna. A roupa queimava a perna. O sol batia, esquentava e queimava a perna. Não dava.

Então quem sabe um fusô de algodão? Antes de treinar, a primeira vez, eu entrei na piscina de roupa e tudo, depois enxuguei os pés, pus as meias e os tênis e saí andando. Falei: ‘Gente, descobri a América. É isso que eu preciso. É isso o que eu quero‘. Uma roupa molhada no corpo, porque, além de tudo, eu ainda sou hipertensa. Eu tomo remédio...

Folha - Apesar de todas essas caminhadas?

Monica - Ainda sou hipertensa. Então tinha que ser o tempo inteiro uma roupa molhada no meu corpo, para baixar a minha temperatura. Um boné, a cabeça sempre cheia, até eu brincava que eu brincava que o boné era o meu cooler porque embaixo do boné tinha sempre muito gelo. E os meus apoiadores jogavam água em mim com aqueles aparelhos de jogar inseticida em plantas... Cada atleta tem uma forma, eu achei que para mim era essa a melhor forma na hora do sol, assim, mais quente, eu tinha que estar com a roupa o tempo inteiro molhada.

Folha - Enfim, você conseguiu. O que você ganhou com isso?

Monica - O que eu ganhei? Uma medalha, muitos amigos e uma satisfação interior tão grande. Parece, assim, sabe? O dever cumprido. Eu estou feliz. Eu estou feliz.

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h17

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Franck Caldeira, campeão da maratona do Pan

Franck Caldeira, campeão da maratona do Pan

Momentos mágicos

Durante a corrida (foto AP), chegando para a vitória (foto Reuters) e no pódio (EFE), três momentos de um domingo mágico para o jovem corredor de Sete Lagoas (MG).

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h17

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De olho no Pan - Márcia Narloch

De olho no Pan - Márcia Narloch

Pronta para domingo

Acabei de falar com Márcia Narloch, a campeã pan-americana da maratona, que vai defender seu ouro no domingo de manhã, no Rio.

Ela estava saindo de sua casa, em Freguesia de Jacarepaguá, e iria fazer seu credenciamento na Vila dos Atletas.

"Vou dar uma olhada, ver se fico por lá. Conforme, volto para casa", disse ela, que parecia tranqüila e descansada.

"Estou bem, as perspectivas são boas", disse a veterana corredora, que participa de seu terceiro Pan. "Agora é esperar a hora e ver o que vai acontecer".

Márcia, 38, passou o último mês e meio treinando em Teresópolis e, à pergunta sobre quem seriam suas principais adversárias, responde: "Todas. Na maratona não tem essa de dizer que essa ou aquela vai ganhar. Todas são favoritas".

Além de Márcia, a estreante Sirlene do Pinho vai representar o Brasil na maratona, marcada para as 8h30 de domingo. Você lá leu neste blog entrevista da corredora baiana. Para revê-la, clique AQUI (você precisa rolar a página para chegar até o texto).

Na foto da AP, a chegada vitoriosa de Márcia Narloch em Santo Domingo em 2003.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h48

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Agenda do campeão

Agenda do campeão

Marílson volta a NY

Os organizadores da maratona de Nova York anunciaram hoje que os campeões da prova no ano passado voltam neste ano para defender seus títulos.

A bicampeã Jelena Prokopcuka, 30, da Letônia, vai tentar ser a primeira mulher, desde 1986, a vencer três vezes seguidas.

E o brasileiro Marílson Gomes dos Santos, 29, que surpreendeu o mundo ao derrotar monstros sagrados da maratona, sabe que terá muito mais trabalho agora.

"Voltar a ser campeão em 2007 não será fácil, mas aprendi no ano passado que posso correr com, e derrotar, qualquer dos maiores maratonistas do mundo. Sei que não terei o fator surpresa a meu favor este ano, então preciso estar preparado para correr muito mais rápido que antes", disse Marílson.

Até novembro, porém, o atleta tem muito outros desafios pela frente, a começar pelas provas de pista no Pan. Na segunda-feira próxima, ele corre os 5.000 m; no dia 27, os 10.000 m.

A pergunta que fica --e cuja resposta vou tentar obter para você-- é a seguinte: isso significa que Marílson está esnobando o Mundial, que será em agosto/setembro no Japão? Ou, para ser menos provocativo: considera mais importante para sua carreira NY que Osaka?

E você, o que acha? 

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h05

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Molly Tucker

Molly Tucker

Pequena notável

Molly Tucker venceu com facilidade a prova de cinco quilômetros de Dragon’s Fire, no sábado passado, deixando a segunda colocada mais de dois minutos atrás.

Essa informação, publicada em um jornal local do interior do Texas, não teria razão para ser repetida em nenhum outro lugar do planeta, virtual ou concreto, não fosse o fato de a senhora Tucker ter apenas dez anos de idade.

A garota vem se provando um fenômeno na região, ganhando na sua faixa etária, é claro, mas especialmente competindo com adultos e tendo ótimo desempenho na geral em provas de cinco quilômetros.

"Correr é minha paixão. Um dia eu quero ser uma corredora olímpica", diz ela, completando: "Meu modelo e ídolo é Flo-Jo".

Ela se refere à corredora norte-americana Florence Griffith Joyner, que conquistou três ouros em Seoul-88 e morreu de problemas cardíacos aos 38 anos, em 1998.

Como treino, a garota corre cerce de 30 quilômetros por semana, acompanhada pelo pai na bicicleta.

Em recente provas na região, ela se classificou em primeiro lugar entre as mulheres, todas as idades, em quatro corridas.

Imagino que você, como eu, já esteja se perguntando se isso é bom para uma criança tão jovem.

Em geral, a resposta de médicos, ortopedistas, pediatras e terapeutas é contra a participação de crianças em esportes competitivos, ainda mais tão exigentes quanto a corrida.

Mas vá dizer isso para a feliz texanazinha...

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h48

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Bob Dolphin

Bob Dolphin

Enfim, a quadricentésima

Cinco horas, 39 minutos e 27 segundos. Esse foi o tempo que Robert Dolphin levou para completar a Yakima River Canyon Marathon no sábado passado, em Washington. Dolphin tem 78 anos e essa foi sua maratona de número 400, num evento que ele mesmo organiza com sua mulher e que acabou de completar sua sétima edição.

O veterano corredor começou a enfrentar as provas de 42.195 metros aos 51 anos. Desde então, chegou a trafegar pelas ultramaratonas, mas agora está totalmente dedicado às provas "curtas": no ano passado, correu 24 maratonas.

Já sofreu vários contratempos. Um dos mais doloridos talvez tenha sido o recente problema de saúde da mulher, Lenore, que o acompanha pelo mundo nas corridas e que é responsável pela distribuição dos relatos que Dolphin faz acerca da provas que participa.

Os dois superaram as dificuldades (Lenore ainda se recupera de uma angioplastia...) e chegaram juntos à linha de largada em Yakima, Washington, no frio noroeste dos Estados Unidos. Dolphin foi correr, Lenore tinha como missão incentivar a ele a a todos os outros lá presentes.

Depois da prova, troquei e-mails com com Bob. A "conversa"  completou uma entrevista que fiz com ele em outubro do ano passado. Leia a seguir os principais trechos.

Folha - Qual é a importância de completar sua maratona de número 400?

ROBERT DOLPHIN - Os maratonistas contam cada uma de suas maratonas porque é muito difícil completar essa prova, que é tão exigente e especial. Marcos como a maratona 400 são objetivos que merecem uma celebração, e daí partimos para a próxima meta (a 500ª, no meu caso). A mensagem é que você pode se colocar objetivos difíceis de alcançar e, mesmo assim, alcançá-los. Eu queria ser o primeiro corredor do Noroeste do Pacífico (dos EUA) a completar a maratona 400; agora, quero ser o primeiro do Oeste dos EUA a correr 500 maratonas.

A minha maratona 400 foi muito boa. As coisas funcionaram bem, e minha corrida foi melhor do que eu esperava. Eu estava sob muita pressão, mas CONSEGUI! Essa foi a primeira vez, em três anos, que terminei a maratona de Yakima em menos de seis horas. O tempo estava ideal, e tive apenas leves caimbras nos últimos cinco quilômetros.

Na chegada, fui tratado como um rei, com beijos e abraços da Lenore, champanhe, fotos, parabéns. Havia mais de 200 balões coloridos com o desenho de um golfinho (dolphin) e a inscrição "Bob’s 400th" (a 400ª de Bob), e muitos amigos correram comigo a parte final da prova. Meu filho Jeff e sua família vieram para a festa, assim como a milha filha Ellen e seu marido. Uma sobrinha-neta correu a maratona, e outros parentes também ajudaram na organização e nos trabalhos de apoio aos corredores.

Folha - Quem era você antes de começar a correr?

ROBERT DOLPHIN - Tenho doutorado em entomologia. Trabalhei como entomologista por 26 anos. Trabalhei na área de controle de mosquitos do Estado da Califórnia, e depois no Departamento de Agricultura dos EUA, onde fiquei por 23 anos. Minhas pesquisas incluíram trabalhos na área de controle biológico de pragas, o uso de inimigos naturais, insetos contra insetos.

Folha - Paralelamente à sua vida profissional, o senhor já tinha, naquela época, uma vida esportiva?

Dolphin - Eu pratiquei atletismo quando estava no segundo grau: salto em distância, algumas provas curtas de corrida e até uma prova de três milhas. Quando eu estive no Marine Corps, participei por um pequeno período de tempo da equipe de corridas da unidade em que estava. Depois, voltei à universidade e também ao trabalho na área civil. Todo esse tempo eu tive uma vida ativa, mas não pratiquei nada de esportes porque estava simplesmente muito ocupado: tinha uma família para cuidar, o trabalho, os estudos... E as corridas só se tornaram tornaram populares nos Estados Unidos em meados da década de 70. Eu comecei a correr em 1979, quando tinha 49 anos. No ano seguinte eu corri uma prova de dez quilômetros (Human Race, em maio, em Columbia, MO). Daí eu entrei num clube de corridas e passei a participar de provas curtas. Em 1981, corri minha primeira maratona, e não parei mais.

Folha - O que fez com que o senhor passasse das provas curtas para a maratona?

DOLPHIN - Nesse clube de corrida, vários dos colegas corriam maratonas, e eu fiquei tentado a fazer uma também. Então fiquei treinando. Nesses dois anos em que corria, de 79 a 81, eu fui aumentando as distâncias. Corri a minha primeira maratona na cidade onde eu estava morando na época, em Columbia, Missouri, e foi a Heart of America Marathon, 1º de setembro de 1981, Dia do Trabalho nos EUA. Fiz esse difícil percurso em 3h50. Algumas semanas, depois corri uma outra em Kansas City, num tempo parecido. Mais algumas semanas e corri em Saint Louis, em 4h15. E fui indo. No ano seguinte, corri oito maratonas. Nos primeiros dez anos em que corri maratonas, fiz em média dez provas por ano. Não há muito problema, desde que faça em fim de semanas seguidos, desde que você deixe algum intervalo entre as provas.

Folha -E por que tantas? A maioria dos treinadores de corrida e médicos do esporte recomendam no máximo duas provas por ano...

DOLPHIN - Eu não gosto muito de fazer treinos longos. Tentei algumas vezes, e descobri que prefiro correr logo uma maratona do que fazer um treino de 20 milhas (a maratona tem 26,2 milhas). Eu gosto do clima das maratonas, do esporte, das viagens, dos amigos que você faz, gosto do desafio que envolve. Então, assim como quem gosta de sair para jogar golfe ou jogar tênis num fim de semana, eu saio para correr uma maratona.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h51

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Bob Dolphin - parte 2

Bob Dolphin - parte 2

"Eu corro maratonas"

Segunda parte da entrevista com Bob Dolphin, entomologista aposentado de 78 anos que acaba de completar sua maratona de número 400.

Folha - Isso não lhe parece uma espécie de vício?

DOLPHIN - Acho que sim, até um certo ponto. Mas não mais do que o caso de alguém que gosta de jogar golfe todos os finais de semana. É um vício saudável. Eu gosto do desafio, gosto da competição. Eu gosto muito da competição nas faixas etárias. Eu sempre me saí muito bem na minha faixa etária. Pertenço a um grupo chamado Marathon Maniacs (Maníacos por Maratonas), e todos lá correm muitas maratonas porque eles gostam. É uma maneira de ficar em forma, de fazer muitos amigos e de conhecer o país. Não é incomum, hoje em dia, ter pessoas correndo muitas maratonas. Minha mulher e eu somos diretores do Clube das 100 Maratonas. Nós temos 175 membros, e há gente se associando a toda a hora. Nós não estamos tentando ganhar as corridas, mas tentamos nos sair bem, competir na faixa etária. Você pode correr um grande número de maratonas. Você não perde seu treinos. Você pode usar cada maratona como um treino longo para a próxima maratona.

Folha - O senhor tem um médico que o acompanha ou um técnico? Imagino que eles digam que fazer tantas maratonas não é bom para a saúde...

DOLPHIN - Bem, eu estou com 77 anos (na época da entrevista; hoje ele está com 78 anos) e me considero em bom estado de saúde. Não tenho problemas de articulações, passo muito bem nos meus exames anuais, estou em muito boa forma. Alguns médicos admiram o que eu faço... Isso está se tornando uma tendência, em que mais pessoas correm maratonas mais freqüentemente. Eu costumava fazer também ultramaratonas, mas parei quando fui ficando mais velho. Agora me especializei em maratonas.

Folha - Qual é o impacto da corrida em seu cotidiano? O senhor treina muitas horas?

DOLPHIN - Às vezes, na primavera e no outono, eu corro maratonas em seis fins de semana seguidos. E se eu for fazer uma maratona a cada final de semana, não faço nenhum outro exercício especial. Corto a grama, faço algumas pequenas caminhadas, mantenho-me ativo, mas não treino corridas. Em outros períodos, em que as maratonas estão mais espaçadas no tempo, daí, sim, eu faço alguns treinos curtos de corrida, de cinco a dez milhas. Mas a maior parte das minhas corridas é mesmo em competições. Participo de provas curtas, especialmente no inverno, e faço parte de times que participam de duas corridas de revezamento, o Hood to Coast (www.hoodtocoast.com/dev/) e Mt. Rainier to the Pacific Relay. Faço muitas corridas curtas também, que funcionam como treinos de velocidade _elas me dão velocidade, acho. Enfim, eu me considero um afortunado por ser capaz de , na minha idade, fazer uma maratona a cada final de semana ou a cada quinze dias.

Folha - E o que o senhor me diz sobre suas atividades que não envolvem a corrida?

DOLPHIN - Meu objetivo na vida é correr o máximo que eu puder. À medida em que vou ficando mais velho, tenho de caminhar mais durante as corridas. Caminho nas subidas, nos postos de hidratação, nas últimas milhas, quando a prova fica difícil. Mas eu ainda corro cerca de 80% da distância total e caminho apenas para completar, quando sinto que é necessário. Já caminhei maratonas inteiras, do começo ao fim, e já fiz caminhadas de 24 horas algumas vezes. Então eu sei que, quando eu não puder corrê-las mais, ainda poderei caminhar as maratonas. Um amigo meu, de 85 anos, já correu 700 maratonas _começou mais cedo do que eu. Ele já não consegue correr a maratona, mas consegue caminhar. Então ele começa a prova antes, quando isso é permitido, e ele caminha a maratona inteira. Ele faz muito mais maratonas do que eu faço por ano. Só conheço umas poucas pessoas no país que fazem isso, e ele é uma delas.

Folha - Então eu volto à pergunta: por que fazer isso? O senhor disse que gosta da competição. Mas o que correr faz ou traz de bom para a pessoa?

DOLPHIN - Nas faixas etárias, seu competidores vão envelhecendo assim como você, então você tem chances de se manter competitivo. Às vezes, um ou outro cai fora, e a competição fica mais fácil à medida que você fica mais velho. Alguns sujeitos que, há 20 anos, costumavam correr comigo e me vencer não estão mais correndo. Foram para outros esportes ou sofreram cirurgias, então a competição já não está mais tão dura como foi. É simplesmente um estilo de vida, é uma identidade. É quem eu sou. Se me perguntam o que eu sou, o que eu faço, eu respondo: "Eu corro maratonas".

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h45

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Bob Dolphin - parte 3

Bob Dolphin - parte 3

Dançando para o amor

Terceira parte da entrevista com Bob Dolphin, entomologista aposentado de 78 anos que acaba de completar sua maratona de número 400.

Folha - Como é o trabalho com sua mulher?

DOLPHIN - Lenore e eu, nós formamos uma dupla. Nós somos co-diretores da Yakima River Canyon Marathon. Minha mulher toma conta das coisas e eu corro. As pessoas gostam de nossa prova e voltam ano após ano...

Folha - E ela o acompanha em provas pelo país.

DOLPHIN - Ela é muito ativa. É uma excelente diretora de prova, muito conhecedora. Ela tem uma deficiência física e não pode caminhar muito bem, quanto mais fazer outras coisas, por causa de dores nas costas e tudo isso... Mas ela é uma entusiasta e atua como voluntária em diversas provas. E ele e eu vamos a encontros e seminários de diretores de provas, e ela é bem conhecida na comunidade de corredores, tem boa fama como diretora de prova. E ela me dá muito apoio. Toma conta de todos os detalhes das viagens. Quando eu escrevo um artigo, ela digita e edita o texto. Nós somos um time.

Folha - Você estão casados há quantos anos?

DOLPHIN - Vamos completar 12 anos no mês que vem (novembro 2006). É por isso que nós temos duas casas. Ela morava perto de Seattle, em Renton, e eu tinha essa casa em Yakima, onde eu estava alocado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Nós mantivemos nossas casas.

Folha - O senhor tem filhos, netos?

DOLPHIN - Tenho uma filha casada, em Yakima, e ela tem uma filha casada em Renton, e ela tem outros filhos que moram na Califórnia e no Estado de Washington. Eu tenho outra filha casada que mora em Illinois. Nós juntamos nossas famílias. Nós já somos bisavôs e provavelmente somos os mais velhos diretores de prova nos Estados Unidos.

Folha - Como vocês se conheceram?

DOLPHIN - Eu voltava de uma competição de atletismo, e a gente se encontrou em Ellensburg, que é cerca de 35 milhas ao norte de Yakima. Eu estava solteiro, era viúvo, minha primeira mulher já tinha morrido, e eu fui a um clube, Eagle Club, e ela estava lá com algumas amigas, colegas de escola. Eu dancei com várias daquelas senhoras, e ela e eu nos demos muito bem, trocamos números de telefone, passamos a nos encontrar e casamos um ano e pouco depois.

Folha - O que seus familiares pensam de sua corrida?

DOLPHIN - Minha mãe ainda está viva, mora numa casa de repouso para idosos _ela está com 95 anos. Até alguns anos atrás, ela costumava dizer que eu iria prejudicar minha saúde, mas acho que acabou aceitando. E meus filhos, netos e bisnetos, todos eles me dão muito apoio, eles acham que é muito bom. E meus filhos adotivos também dão muito apoio. Acho até que eles têm um pouco de orgulho de minhas realizações. E ninguém tenta me convencer a parar de correr.

Folha - O senhor acha que teriam sucesso se tentassem?

DOLPHIN - Acho que não. É uma coisa que eu gosto de fazer, e espero continuar fazendo enquanto durar minha saúde. Pretendo continuar competindo enquanto não tiver dores, enquanto não sofrer. Eu já tive muitas lesões, mas tudo já passou, nunca tive nada crônico. E também nunca tive de sofrer uma operação.

Folha - Bem, hoje o senhor está aposentado, como é que o senhor vive?

DOLPHIN - Já estou aposentado há quase 20 anos, eu me aposentei com 58 anos. Tive uma boa aposentadoria, uma boa pensão. Minha esposa trabalha para o filho dela, cuida de sua contabilidade, e também ganha algum. E nós fazemos muitas maratonas em locais próximos, que não exigem grandes viagens nem grandes gastos. Nós não vamos muito freqüentemente a outros Estados, e a única viagem que fizemos à Europa foi para fazer a maratona de Londres _foi minha maratona de número 200. Nós tentamos economizar. Nas viagens, ficamos com amigos ou parentes sempre que possível, e até agora estamos nos dando muito bem.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h40

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Bob Dolphin - parte 4

Bob Dolphin - parte 4

"Tento não exagerar"

Última parte da entrevista com Bob Dolphin, entomologista aposentado de 78 anos que acaba de completar sua maratona de número 400.

Folha - Qual a maratona que o senhor mais gostou e qual foi a pior?

DOLPHIN - Minha favorita é a Yakima River Canyon Marathon (foto), que nós organizamos. É um lindo cenário, bem organizada, nós gostamos. A segunda é a Royal Victoria Marathon, em Vancouver. É uma prova muito bonita, muito bem organizada. Foi lá que fiz minha maratona de número 300, alguns anos atrás, e eles me deram inscrição gratuita vitalícia, e eles sempre me tratam muito bem, saúdam minhas realizações.

Também tive meus momentos difíceis, especialmente no calor. Corri a Crater Lake Marathon no ano passado, a altitude chega a quase 2.000 metros e estava muito quente, quase nos 30 graus, levei 7h30 e quase não consegui completar. Eu fiz a Pikes Peak Marathon  uma vez. Lá você sobe a mais de 4.500 metros, dá a volta e desce tudo de novo. Levei cerca de oito horas e meia e tive o mal de altitude.

Tive minhas dificuldades, mas eu tive sorte: fui obrigado a parar em apenas uma maratona e em uma ultramaratona. A maratona foi há um ano e meio, tive uma lesão que não me permitiu ir além da milha 15. Anos atrás, tive de abandonar uma prova de cem quilômetros na milha 12 porque eu estava com uma lesão à qual não dei bola. Eu não deveria ter nem sequer entrado na prova, mas fui assim mesmo e me dei mal.

Folha - O senhor tem algum tipo especial de dieta?

DOLPHIN - Não, nada em especial. Eu não como muita carne. Gosto de peixe, saladas, frutas, vegetais, massa. Minha alimentação tende a ser mais carboidratos. Não bebo muito, apenas um pouquinho de cerveja, um pouco de vinho, mas é só. Acho que minha dieta é muito saudável...

Folha - E as sobremesas?

DOLPHIN - Adoro sorvetes. São minha fonte de cálcio (risos)... Tento não exagerar.

Folha - O senhor falou que usa as provas curtas como treinos de velocidade. E como são seus treinos de força? Faz musculação?

DOLPHIN - Eu gosto de fazer caminhadas e hiking, é o meu segundo esporte. Já fiz um pouco de musculação, mas não fui muito religioso. Tenho de voltar a fazer, pois sinto falta, vejo que estou perdendo massa muscular. Mas eu gosto mesmo é de longas caminhadas, de cortar grama, essas coisas. Eu cheguei a fazer triatlos, cheguei a fazer uns 15, mas eu não era muito bom, acabei desistindo. Acho que, fora das corridas, as caminhadas são meu outro esporte. Eu descanso bastante entre as maratonas, tento dormir e relaxar. Eu gosto de treinar, mas tento não exagerar. Então, talvez na maioria das vezes eu esteja subtreinado do que treinado em excesso. Eu já tive lesões no passado, então eu tento não exagerar para não me machucar novamente.

Folha - Que conselhos o senhor daria para quem está começando a correr?

DOLPHIN - Quem gosta de correr deveria ser encorajado a continuar. Correr pode ser cansativo, você pode se machucar, e você deve fazer o melhor possível para evitar lesões ou aprender a conviver com os problemas. Eu nunca corri uma maratona que fosse fácil, especialmente nas últimas seis milhas (cerca de dez quilômetros). É realmente muito desconfortável, mas é o desafio que você tem de enfrentar. É uma questão de resistência, de persistência.

Folha - O senhor tem uma lista de coisas que se devem e que não se devem fazer?

DOLPHIN - Eu tento não começar a prova muito rapidamente, procuro guardar alguma energia para as últimas milhas e tento não me cansar exageradamente por correr subidas fortes -vou mais devagar ou caminho para economizar energia. Tomo líquidos constantemente e também uso carboidrato em gel, provavelmente na maratona eu como e bebo mais do que a maioria das pessoas costuma. Também consumo essas cápsulas com três tipos de sal, pois tenho tendência a ler câimbras nas pernas. Enfim, procuro encontrar formas para completar a maratona confortavelmente.

Troco de tênis periodicamente para não ter lesões por causa de tênis muito gastos, e tento usar roupas apropriadas para o clima, e sempre tenho roupas extras, em caos de o tempo mudar durante a prova e eu tenha de me proteger contra o vento ou a chuva. Tento ter tudo o que preciso comigo, numa pochete, com minhas cápsulas, meus sachês de gel e outras coisas.

Com a experiência, você acaba aprendendo o que funciona para você. Eu tenho de usar protetor solar para não ter câncer de pele, eu já tive melanomas removidos. Eu tenho tendência a desenvolver câncer de pele, então preciso me cuidar.

Folha - Depois de tantas maratonas, o senhor ainda fica nervoso antes da prova?

DOLPHIN - A gente sempre tem alguma preocupação, especialmente com o clima: se vai ser muito quente, se vai chover... A gente sempre quer fazer o melhor. Cada vez que vou fazer uma maratona, fico um pouco apreensivo um ou dois dias antes, desejando me sair bem, esperando não ter muito problemas. Há sempre algum grau de excitação, de entusiasmo e de preocupação. Você nunca pode ter certeza de que vai completar a maratona até que você veja a linha de chegada. Nada é garantido. Às vezes, surgem lesões ou outros problemas que te impedem de continuar. Nada é garantido. Simplesmente tente fazer o melhor.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h37

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Eleonora Mendonça

Eleonora Mendonça

A desbravadora

Ela conta nos dedos os dias em que ficou sem correr, desde os idos de 1972. E seus passos fizeram história, das ruas do Rio à pista do Coliseu de Los Angeles. Eleonora Mendonça foi a representante do Brasil na primeira maratona olímpica feminina, que ela, como corredora e militante, havia ajudado a tornar realidade (na foto, acena depois de participar da prova, em Los Angeles-84). Como empresária, fez deslanchar a maratona no Rio de Janeiro e organizou, em São paulo, a até então maior corrida feminina do mundo.

Hoje, aos 57 anos, está aposentada de sua vida de atleta e mestra (foi técnica e professora em universidades dos EUA por 20 anos), mas continua correndo diariamente pelas ruas e trilhas da praiana Cape Cod, nos EUA, de onde concedeu, por telefone, esta entrevista exclusiva.

Para melhor apresentação, dividi o texto em quatro trechos colocados em seqüência. No final, não deixem de ver também um anúncio dos anos 80, que ajuda a dar a dimensão da importância dessa militante do esporte e do feminismo, que neste mês é merecidamente homenageado.

Folha - Como você começou sua vida esportiva?

Eleonora - O esporte, para mim, foi, sempre foi e continua sendo uma parte importantíssima na minha vida, desde pequena, com apoio dos meus pais. Depois, sempre fui atleta do Fluminense. Nas escolas, sempre participei em esportes e na universidade também. Meu esporte foi muito diversificado: fiz voleibol, nadei, mas tênis foi aquela dedicação maior, primeira. Fui vice-campeã brasileira, participei de Sul-Americanos de Tênis. Foi uma curta, porém muito importante fase da minha vida.

Folha - Isso com que idade?

Eleonora - Joguei tênis desde os 12, 13 anos. Joguei muito aí em São Paulo, no Pinheiros. Foi uma época muito feliz. Até no meu último ano de universidade estava ativamente jogando tênis. Mas tive um acidente na universidade, estava fazendo educação física e ‘ferrei‘ o meu joelho. Naquela época, 40 anos atrás, não tinha muitos recursos. Então, fiquei debilitada para continuar naquele nível alto que eu estava buscando no tênis. Na mesma ocasião, quando eu estava terminando a faculdade, ganhei uma bolsa para os Estados Unidos para fazer mestrado em educação física. Isso foi em 1971/72.

Folha - E aí que você começou no mundo da corrida?

Eleonora - Em 1972, foi a época da Olimpíada de Munique. Eu acompanhei, fiquei muito impressionada com o evento, a ação terrorista. Ao mesmo tempo, por estar nos Estados Unidos, foi um evento muito glorioso para o país porque o Frank Shorter tinha ganho a medalha de ouro na maratona. Foi o início, como se diz, o estopim para o ‘boom‘ de corridas aqui nos Estados Unidos. Como eu estava aqui, comecei a correr.

Estava buscando uma alternativa para continuar envolvida no esporte. Quando você tem 22, 23 anos, a natação já não é uma alternativa, pois é uma idade em que a maioria dos nadadores está se aposentando. Mas, na corrida, o Frank Shorter naquela época tinha 25 anos. Eu falei: ‘Poxa, talvez seja o esporte em que eu possa buscar uma carreira‘.

Comecei a correr. Retornei ao Brasil depois de terminar o mestrado e continuei minhas corridas. No Fluminense, o técnico de atletismo Frederico Hottstacher, que foi durante muitos anos técnico de atletismo no Fluminense e da seleção brasileira, me chamou para correr. Ele iria me treinar para o sul-Americano de atletismo, onde iria haver pela primeira vez a prova de 1.500 metros feminino. Até então, 800 metros era a distância máxima para as moças.

Aceitei treinar e, após quatro meses, participei das eliminatórias em São Paulo, no clube Pinheiros. Foram alguns meses, dois, três, quatro meses e competi nessa prova, venci a prova abaixo de cinco minutos. Como estava sendo corrida pela primeira vez, a prova passou a ter minha marca como recorde brasileiro, com 4min58.

Gostei dessa experiência, corri mais um ano no Brasil a prova de 1.500 metros, depois retornei, em 74, aos Estados Unidos para retornar aos estudos em Direito e, ao mesmo tempo, tive uma oferta de trabalho.

Folha - Foi quando você começou na maratona?

Eleonora - Fui para Boston e, como você sabe, Boston é a meca de corridas, principalmente, corridas de longa distância, maratona. Comecei a expandir a minha experiência, o meu treinamento, além da pista, além dos 1.500 e 3.000 metros.

Comecei a treinar e competir em cross e, eventualmente, a pensar em correr a maratona.

Minha primeira experiência na maratona foi em 76 aqui mesmo em Boston. E, naquela época, como ainda acontece hoje, para participar da maratona de Boston tinha que se qualificar. Corri uma maratona três ou quatro meses anteriormente, aqui mesmo perto de Boston e corria maratona de Boston. Foi uma experiência excepcional...

Folha - Excepcional por quê? O que a maratona tinha?

Eleonora - Ah, porque eu estava treinando havia três, quatro, cinco anos em provas mistas, em provas de curta distância, e de repente entrei nesse treinamento e uma competição totalmente diferente. Para mim, marcou muito. Eu falei: ‘É aqui que eu quero ficar: treinando em maratona‘. Eu me encontrei em corridas de longa distância e corridas mais longas, como a maratona.

Folha - E como foi seu desempenho na prova?

Eleonora - Foi bom, foi muito bom. Eu cheguei, não me lembro agora, imagino nos dez primeiros lugares. Corri novamente em 77 e em 78. Este talvez, tenha sido o ano mais glorioso, eu não sei se é a palavra certa para mim, quando eu cheguei em sétimo lugar na maratona de Boston e em quinto lugar na maratona de Nova York. Esse quinto lugar em Nova York é ainda a melhor colocação de uma brasileira, com 2h48min45.

Esse tempo, naquela época, me colocou entre as 15 melhores do mundo e me levou a outros eventos na Europa, no Japão.

 

 

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h46

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Eleonora Mendonça - parte 2

Eleonora Mendonça - parte 2

Quebrando tabus

Folha - Nesse período, você estava competindo profissionalmente?

Eleonora - Naquela época, eu estava trabalhando na fábrica de calçados esportivos New Balance. Naquela época, a empresa estava sentindo que a corrida estava tendo um boom. Numa atitude muito capitalista, muito empresarial dos Estados Unidos em geral, e, principalmente, de Boston, as firmas davam esse apoio para quem tinha talento. Ofereciam a oportunidade para o atleta trabalhar e, ao mesmo tempo, ajudar essas firmas a se desenvolverem nesse mercado. Ofereciam tempo para viagens, competições e treinamentos. Então, foram três anos de desenvolvimento muito fértil.

Folha - Você conseguia até competir no Brasil...

Eleonora - Em 76, fiquei ciente de que a São Silvestre, no ano anterior, em 75, tinha aberto para corredoras. Eu entrei em contato com a organização da São Silvestre e fui competir. Foi o primeiro ano que eu competi na São Silvestre e continuei competindo até 88. Tirei em segundo lugar em 78, quinto, lugar, sétimo lugar, subi duas ou três vezes ao pódio, naqueles primeiros anos.

Nessa época, eu via uma diferença muito grande no desenvolvimento que estava ocorrendo nos Estados Unidos e a falta de desenvolvimento ou então essa parada, essa estagnação no Brasil em relação à corrida. Então, eu resolvi trabalhar, iniciar um movimento de base, para ver se o povo, eu pudesse ajudar esse movimento de corrida no Brasil.

Soube que, no Rio, havia uma corrida de veteranos e, como eu estava trabalhando ainda para a New Balance, levei para o Brasil alguns calçados, algumas roupas da New Balance para oferecer como prêmio e foi muito bem recebido. O Yllen Kerr, eu o Paulo César Teixeira resolvemos abrir uma firma para tocar esse movimento para frente e o nome da firma era Printer.

Folha - Printer?

Eleonora - Printer - Promoções Internacionais. Em 78, nós fizemos a primeira corrida, em junho de 78, a Corrida de Copacabana. Depois o movimento começou a crescer, fizemos corridas para veteranos, corridas para crianças.

Entrei em contato com a Avon, que, naquela época, nos Estados Unidos estava fazendo o circuito de corridas femininas. Convenci a Avon a estender o circuito feminino para o Brasil e levamos esse circuito para o Brasil (na foto, Eleonora no segundo lugar, no pódio, em uma corrida Avon no Brasil).

Começamos pelo Rio de Janeiro e dois anos depois fizemos a maior corrida feminina do mundo. Foi realizada aí no Ibirapuera, em 1984, com mais de 5.000 atletas. Foi um sucesso incrível.

Além de corridas, confeccionamos roupas de corridas que, naquela época, não existiam no Brasil. E começamos a publicação da primeira revista de corrida no Brasil, chamada ‘A Corrida‘.

Creio eu que esse passo inicial que nós demos ajudou a despertar nas pessoas esse gosto, essa forma de viver, de integrar a atividade física no dia-a-dia de cada um.

Ao mesmo tempo que eu estava trabalhando nesse programa de desenvolvimento, eu continuava competindo nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, mas estava faltando uma coisa.

Eu estava bem resolvida na maratona, que foi uma experiência muito valiosa e onde eu estava concentrando minhas energias, mas faltava a maratona nas Olimpíadas. O sonho de todo atleta é almejar aquela competição máxima. Quando você é tenista você almeja jogar em Wimbledom. Você é um atleta, sonha com as Olimpíadas e não havia maratona olímpica feminina.

Folha - Qual era a justificativa para que não houvesse?

Eleonora - Havia uma mentalidade antiga no Comitê Olímpico Internacional, que achava que as mulheres não tinham capacidade. Aqueles tabus de que a corrida longa, essa batida, essa pressão traria danos para o sistema interno feminino.

Foi por isso que nós, da comunidade intelectual não só americana mas também internacional, estávamos tentando mudar um pouco essa mentalidade do Comitê Olímpico.

No final dos anos 70, foi criado o IRC - International Runners Committee, com representantes do mundo inteiro, não só na área de atletismo mas esportistas em geral, especialistas da área médica, da psicológica, para fazer estudos e levar ao Comitê Olímpico para mostrar que o que eles pensavam não era exatamente a realidade. Em 79, eu fui eleita presidente desse comitê.

Nós lutamos muito, buscando dados e estudos para provar que a mulher tinha condição de correr a prova de longa distância.

Em 81, o Comitê Olímpico, finalmente, aprovou não só a maratona mas também os 3.000 metros feminino na Olimpíada.

Para mim, foi uma vitória muito grande, através do esforço não só meu mas de vários colegas na parte do esporte, na parte médica, psicológica, de várias áreas, foi uma vitória muito significativa.

A primeira maratona olímpica seria a de 84, em Los Angeles. Então, desse marco de 81, comecei a redirecionar minhas energias, meu tempo para ver se eu conseguia fazer a marca para participar.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h40

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Eleonora Mendonça - parte 3

Eleonora Mendonça - parte 3

Caminho suado

Folha - Como o Brasil selecionou seu representante?

Eleonora - Acho que a decisão pegou o Brasil muito despreparado. A CBAt, creio eu, não tinha uma norma de como iria se exibir, iria representar. Eles, inclusive, ficaram muito vagos se, realmente, iam mandar uma representante para as Olimpíadas. Em 1983, haveria o Campeonato Mundial, e dentro dos meus planos era me qualificar para o Mundial, já em preparação para a Olimpíada, que seria realizada no ano seguinte.

Entrei em contato com a CBAt para saber qual seria o critério para eu me qualificar para o Mundial, e eles também não tinham estabelecido nenhum critério.

Por causa dessa atitude vaga, eu participei da eliminatória para o Campeonato Mundial nos Estados Unidos, tentando, pelo menos, se eu me qualificasse e fizesse um bom tempo aqui nos Estados unidos, talvez, demonstrasse para eles que eu tinha as qualidades para poder representar o Brasil. A eliminatória foi em Los Angeles fiz abaixo de três horas.

Dois dias depois de participar dessa maratona, recebo uma comunicação de Hélio Babo, presidente da CBAt, dizendo que a seletiva brasileira seria a maratona Atlântica Boa Vista, no Rio de Janeiro, um mês depois...

Folha - Você teria apenas uma mês...

Eleonora - Naquela altura, eu não podia nem questionar, acho que as energias eram mais para poder me recuperar. Fui para o Rio, corri a maratona, venci a maratona, mas...

Naquela época, não tinha ninguém assim de muito nome, porque em 83 ainda estão começando, a maratona era um nenê, principalmente, na parte feminina. Eu corri, mas, infelizmente, apesar dos dois resultados, eles acharam uma forma e aleatoriamente disseram que com o meu tempo eles não iriam me enviar.

Folha - Eles decidiram não mandar representante para o Mundial de Helsinque, foi isso?

Eleonora - Exatamente. Fiquei muito decepcionada. Quando a CBAt não oficializou, foi uma decepção. Foi, talvez, uma das maiores decepções que eu tive, mas não foi por isso que eu parei, que eu deixei de lutar. Acho que aí me deu mais forças ainda para continuar lutando.

Folha - O que você fez?

Eleonora - A maratona que serviu como eliminatória tinha apoio do "Jornal do Brasil", que, apesar de eu ter sido recusada, me enviou para Helsinque para, pelo menos, eu fazer parte desse evento. Infelizmente, não como atleta, como eu gostaria.

No correr do ano, fiquei em contato com a CBAt para saber qual seria o critério de seleção para a Olimpíada. Finalmente, em abril de 1984 (os Jogos seriam em julho/agosto), eles disseram que, novamente, a Atlântica-Boa Vista, com o apoio do ‘JB‘, seria eliminatória. Então, eu fui, participei da corrida, venci em 2h54, se não me engano, ou 56min. O Elói Schleder venceu na parte masculina. Mesmo assim, a CBAt ficou muito indecisa de me enviar.

Folha - Ela ficou indecisa com base em quê?

Eleonora - A única razão que pode ser é que o papel deles não estava sendo cumprido e sim, através da Printer, que eu estava levando. E o "Jornal do Brasil", vendo que já era a segunda vez que a CBAt não endossava uma competição em que eles tinham investido muito dinheiro, eles estavam se sentindo, também, prejudicados. Fizeram pressão para a CBAt tomar uma decisão e, finalmente, duas semanas depois dessa prova, eles levaram a vencedora da eliminatória para a Olimpíada. Então, foi suado, foi suado esse caminho todo para chegar até Los Angeles.

Folha - E como foi Los Angeles?

Eleonora - Foi uma vitória profissional, pessoal e desportiva enorme, foi uma realização magnífica. Uma experiência indescritível (na foto, a chegada no Coliseu de Los Angeles).

Folha - O que você lembra do dia da maratona olímpica?

Eleonora - O dia em si foi um dia muito quente e úmido também. Creio que eram 60 as participantes, mas de 12 a 15 desistiram da prova. As condições em Los Angeles, naquele dia, estavam muito desfavoráveis...

Folha - Todos se lembram da figura de Grabriela Andersen chegando...

Eleonora - Ela já tinha tido problemas semelhantes anteriormente, uma questão dela mesma. São pessoas que são assim mais suscetíveis a temperaturas mais baixas ou temperaturas mais altas. Naquela época, ela estava morando Idaho, que é um Estado do norte dos Estados Unidos, muito frio e muito bonito. Ela já tinha tido esse problema em outros eventos, não vou dizer exatamente a maratona.

Eu estive com ela naquela tarde mesmo porque o Brasil ficou no mesmo alojamento da Suíça. Nos ficamos no campus da Ucla, a Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde ficaram as delegações menores. As maiores, como EUA e Canadá, ficaram no campus da U.S. University of California.

Então, eu já a conhecia e conversei com ela depois, ela já estava bem. É sempre um momento para impressionar, mesmo para quem não conhece. É um momento assim meio terrível, mas, graças a Deus, ela se recuperou bem.

Folha - E como você se sentiu?

Eleonora - Foram duas semanas de emoções. Não posso nem descrever o momento. O que eu estava sentindo ali era o fruto de trabalhos de anos não só como atleta, mas como uma pessoa que lutou para que esse evento pudesse ser realizado.

Não tem uma maneira de descrever. São sentimentos, sentimentos são difíceis de descrever. Quanto mais profundo, mais difícil fica. Mas, não resta dúvida que foi o clímax, os dias mais gloriosos...

O que vale é a competição, vale aquele evento, aquela corrida, mas a maior satisfação é o treinamento que veio por trás, o esforço todo. É essa parte que vai te levar à frente. Então, valeu o movimento. Quando eu atravessei a linha de chegada, foi aquela alegria, entendeu? Estou em felicidade total.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h29

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Eleonora Mendonça - final

Eleonora Mendonça - final

Corrida, eu recomendo

Folha - A participação olímpica teve algum impacto posterior na sua carreira ou na sua atividade esportiva de modo geral?

Eleonora - Teve. Logo após a Olímpiada, não só eu como todas as outras mulheres abriram um caminho muito grande. Os eventos aumentaram, os convites também, por causa das firmas, as empresas, estavam vendo que abriu uma outra visibilidade., Até os telespectadores, as pessoas estavam muito cientes de que esse evento é um evento bonito, um evento diferente, e as mulheres estão agora correndo como os homens.

Folha - Depois disso, você continuou competindo?

Eleonora - Continuei participando de outras provas, não só de maratonas, mas corridas de meia distância. Sempre meia distância e longa distância e nunca mais voltei para a pista.

Eu fiquei de olho para a Olimpíada de 88, em Seul.

No ano anterior, teve o Mundial em Roma. A CBAt já estava um pouco mais organizada e o critério era o melhor tempo brasileiro em qualquer maratona até 30 de junho.

Eu participei de uma maratona aqui nos Estados Unidos, fiz o melhor tempo de uma brasileira naquele ano, mas no dia seguinte baixaram meu tempo, nem me lembro quem foi (NR.: A representante brasileira na maratona do Mundial de 1987 foi Angélica de Almeida, que não completou a prova).

Aí eu voltei, bom, como atleta: levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima. Tratei de treinar mais, treinar mais forte.

Em abril de 88, papai faleceu. Foi uma passagem muito difícil para mim porque os dois, meu pai e minha mãe, deram uma força muito grande na minha vida profissional, atlética, mas muito próxima. E daí eu deixei de almejar a Olimpíada.

Continuei treinando, mas aos poucos fui deixando a parte de competição atlética. Comecei a me dedicar à parte profissional, deixei a Printer também e comecei a passar mais tempo aqui nos Estados Unidos. Fui técnica de atletismo numa universidade, a Simmons, passei 20 anos como técnica. Também dei aulas em Cambridge, então é isso.

Folha - E hoje?

Eleonora - Hoje corro todos os dias. Eu posso contar, acho que nas duas mãos quantos dias eu deixei de correr desde 1972. Há uns anos atrás eu diria uma mão só, mas agora... Foram poucos os dias, uns dois ou três dias na época da morte do meu pai e mais alguns. Antigamente, a gente corria no próprio aeroporto. A corrida faz parte e creio eu vai sempre fazer parte do meu dia-a-dia (na foto, ela corre com o logotipo de sua empresa de então, em uma prova em Copacaba, em 1983).

Folha - Você faz parte de um clube de corridas?

Eleonora - Exato. Esse clube foi o primeiro com que eu entrei em contato quando eu cheguei a Boston, em 1974. É o CSU, Cambridge Sports Union. Eles me acolheram de forma excepcional, me deram uma força incrível. Logo que eu comecei a despontar como atleta, eles me enviaram para a Alemanha, na primeira maratona feminina internacional.

Folha - Em Waldniel...

Eleonora - Exatamente, ela foi organizada pelo Dr. Van Aaken. Ele era um corredor e sofreu um acidente. Quando estava treinando, numa noite, foi atropelado por um carro e ficou paralítico. Com o dinheiro do seguro, ele organizou essa corrida. Ele sempre foi um grande apoiador do esporte e das mulheres. Foi o treinador da Christa Valensieck, que venceu a primeira São Silvestre feminina, em 75.

Bem, hoje continuo sócia do clube. Em 2002, eles me colocaram no Hall da Fama, foi uma homenagem muito bacana.

Folha - E profissionalmente?

Eleonora - Bom, agora, depois de 20 anos, me aposentei lá de Cambridge, da universidade. A palavra aposentada significa deixar um trabalho do qual você depende para fazer um trabalho que você gosta. Então, eu estou trabalhando com investimentos imobiliários e no meu tempo livre eu sou voluntária da Cruz Vermelha americana e de outras instituições aqui.

Folha - Para terminar: que mensagem você daria a mulheres que estão pensando em começar a correr ou fazer algum tipo de atividade física?

Eleonora - Eu acho que todo início de atividade física é um pouco difícil, mas os valores, os resultados são tão grandes, que nós, ainda agora, não temos idéia da extensão desses benefícios atléticos.

As mulheres de 20, 30 anos, que participam ativamente da vida profissional, para elas a atividade física é importantíssima para manter uma qualidade de vida saudável.

Não só para as mulheres, para os homens também. Mas os homens já tiveram essa oportunidade e já têm essa oportunidade há muito mais tempo. Eu acho que as mulheres deveriam tentar incorporar qualquer atividade física, não precisa ser a corrida.

A corrida, logicamente, é muito mais livre, muito mais independente, você não depende de ninguém e de nada. Você coloca o tênis, não importa qual a roupa que você vista.

Coloca o tênis e é só abrir a porta, a qualquer hora do dia, em qualquer lugar. Essa independência ajuda muito na escolha da corrida como atividade física. Eu recomendo as pessoas tentarem.

Não é fácil, é preciso uma orientação profissional para facilitar esse trânsito para uma atividade não mais confortável, mas mais bem recebida porque os benefícios são enormes, são imensuráveis.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h24

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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