Rodolfo Lucena

+ corrida

 

Cara e coragem

Elisete Pereira

Elisete Pereira

Travessia andina

A ultramaratonista Elisete Pereira, que mora no Paraná, iniciou ontem mais uma aventura corrida. Deixou Curitiba com destino à Argentina, onde, a partir de sexta-feira, participa de uma corrida de revezamento que atravessa os Andes e chega ao Chile.
Cada equipe tem 12 atletas, e cada um vai correr uma maratona, totalizando mais de 500 quilômetros de morro, frio e ventania.
Elisete, 44, é catarinense, casada, tem duas filhas e vai participar do único time feminino entre os dez da prova, que, neste ano, contará pela primeira vez com uma equipe brasileira. A turma da atleta, Kurufmawida, foi organizada por atletas da Argentina e tem também tem representantes do Chile e do Uruguai.
Conversei com Elisete por e-mail pouco antes de ela iniciar sua viagem. Leia a seguir um resumo da entrevista.

FOLHA – O que você espera de Cruce de Los Andes?
ELISETE PEREIRA -
Cruce? É pura aventura, é corrida para poucos corajosos e ao mesmo tempo para quem gosta de ficar em contato com a natureza, longe da civilização.
Espero fazer o melhor que puder, e poder compartilhar esses momentos com o espírito de coleguismo e também curtir ao máximo o belo visual e deixar uma boa impressão do meu país como atleta e cidadã.

FOLHA – O que há de mais bacana na prova? E de mais desagradável?
ELISETE -
O que tem de mais bacana é a beleza encontrada na cadeia de montanhas, a amizade que existe entre os competidores, o apoio que um dá para o outro. Ninguém é adversário, porque todos sabemos das dificuldades que é correr por lá. Não existe nenhuma etapa fácil, todos enfrentamos na nossa etapa algo diferente, seja na altitude ou no clima.


O ruim é querer ir ao banheiro, por exemplo, e não poder. Também a falta de comunica cação, pois quando estamos lá, estamos desligados do mundo. Somos sós nós e as montanhas. E temos que cuidar da alimentação para não faltar. Não passaremos sede porque há muitos córregos de água desgelada das montanhas.

FOLHA - Qual a importância de haver uma equipe feminina? Vocês encontram
dificuldades diferentes das dos outros corredores? E facilidades?
ELISETE -
A imprensa de lá mais uma vez comentará a presença das “divas”, “perfumes na cordilheira”. Acho que a competição fica mais leve e harmônica. Somos guerreiras e sempre contornamos as situações com amor, carinho, coleguismo.

Mas é bom saber que lá não existe o "sexo frágil".

Não temos nenhuma facilidade, a regra é a mesma da dos homens (não existe uma premiação só para mulheres).

A desvantagem fica lá na parte mais alta, pois os homens têm mais músculos e fazem em menor tempo. Nós temos que cuidar do tempo limite, que é chegar em até três horas depois que a primeira equipe fecha aquela etapa. Se ultrapassarmos esse tempo a nossa equipe pode até continuar, mas será desclassificada.

FOLHA – Como você entrou na equipe?
ELISETE -
Participei na edição de 2006, quando entrei no fórum de corredores da Argentina, e veio a idéia de participar. Mandei um e-mail para uma corredora que eu havia conhecido numa competição de lá, disse que estava interessada em participar, Imediatamente me aceitaram.

A minha etapa neste ano será a décima, na Cordilheira do lado Argentino, e ficarei alojada em Iglesias, a 2.200 m de altitude, minha etapa será praticamente em descida, entre as 2h e 6h do dia 4 de fevereiro.

Vale lembra que a Equipe Kurufmaiwida é composta por 15 atletas, das quais só 12 participam. Temos várias professoras de educação física, cozinheira, uma que trabalha como tradutora na Cepal -órgão regulador da ONU-, eu, uma funcionária pública. A maioria delas não tem computador e usa o do trabalho para se comunicar.

Temos na equipe a primeira mulher a correr numa maratona na Argentina. Trata-se de Stella Maris Del Papa, que também se comunica via e-mail do computador do serviço do marido.

Todas enfrentam as mesmas dificuldades que aqui no Brasil para conseguir apoio financeiro. No ano passado, conseguimos ajuda. Neste ano, cada uma pagará as suas despesas.

As reuniões viram verdadeiras novelas, pois cada uma tem uma profissão, dias e horários disponíveis para tratar de assuntos da equipe. Ainda bem que existe o e-mail. Tudo o que acontece por lá é repassado por e-mail na nossa lista. Estamos todas sabendo de tudo o que está acontecendo o tempo todo, das competições que cada uma participa, das aniversariantes. Apesar da diversidade de nacionalidades, somos muito unidas.

FOLHA - Quando você começou a correr ultras?
ELISETE –
Minha primeira participação em corridas de ruas aconteceu em setembro de 1984, quando morava em Florianópolis. Foi a Corrida da Primavera - 9 km, na Beira Mar , promovida pelas Lojas Pernambucanas. Vi o folder, entrei na loja e me inscrevi sem nunca ter corrido, sem treino... Fui para a corrida sem roupa especial ou calçado. Era um calor insuportável, mas cheguei em quinta na minha faixa-etária.

Dei uma longa parada, de 1987 a 2003, para cuidar da família e cursar faculdade.

Retornei aos treinos em 08/01/2003. Não conseguia correr sequer 100 m, porém, com bastante dedicação em três meses de treinamentos diários, voltei ao condicionamento físico e recomecei as minhas participações em competições. Esse período de retorno foi ótimo porque perdi em torno de seis quilos, comprei roupas mais joviais e já podia encarar um espelho (ela mede 1m57 e pesa 58 quilos).
No sétimo mês de retorno já corri na Maratona de Florianópolis em agosto, depois na da Serra da Graciosa, em outubro, e finalizei o ano com a maratona de Curitiba.

Estreei na modalidade ultramaratona em julho de 2004, no estádio Pinheirão, em Curitiba.

Até a data já havia corrido em duas de 50 km, uma delas em montanhas, e duas maratonas. A prova começava às 10h de sábado e terminava às 10h do domingo:
consegui somar 132 km, me classifiquei em quinto lugar feminino e primeira na faixa etária 40-44 anos.
Nunca vou esquecer dessa ultra!

Escrito por Rodolfo Lucena às 17h56

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In memoriam

In memoriam

O céu está cinza

Morreu na sexta-feira passada Denny Doherty, 66, um quarto do sensacional grupo folk The Mamas and The Papas, que mesmo os mais jovens entre vós devem conhecer pelos sucessos "California Dreamin" e "Monday, Monday".

Ele cantará para sempre.

Escrito por Rodolfo Lucena às 16h12

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Lance Armstrong

Lance Armstrong

Sub-2h45

Este é o objetivo do sete vezes campeão do Tour de France para 2007: terminar a maratona de Nova York deste ano em menos de 2h45. A revelação foi feita numa entrevista à ex-mulher, Kristin Armstrong, publicada na versão on-line da revista "Runner‘s World".

Como vocês se lembram, Armstrong foi a estrela maior da prova vencida pelo brasileiro Marilson. Havia uma câmera especial, a Lance Cam, acompanhando seus movimentos, e ele era apoiado por atletas e ex-atletas de elite, como a vencedora da primeira maratona olímpica feminina, Jean Benoit, numa gigantesca e bem-sucedida operação de marketing esportivo.

A conversa entre o superciclista e sua ex-mulher aconteceu três dias depois da prova (que ele correu 24 segundos abaixo das três horas), na cozinha da casa que os dois haviam compartilhado. Traz mais informações sobre as emoções e dores do corredor da maratona e, ao longo do texto leve, um pouco dos momentos passados entre os dois.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h24

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Deena Kastor

Deena Kastor

Medalhista internauta

A recordista americana da maratona e medalhista olímpica Deena Kastor lançou nesta semana seu novo site (foto acima), que traz um monte de informações sobre a atleta.

Ela conta, por exemplo, que adora cozinhar e até dá as receitas de alguns de seus pratos favoritos.

Se você quer saber mais sobre Deena Kastor, em português, não deixe de ler a entrevista que fiz com ela meses depois de sua sensacional performance em Atenas-04. Está no meu site Atletismo, Cara e Coragem.

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h10

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Filha do ano

Filha do ano

Ela se chama Isla

Esse foi o nome escolhido pela casal Radcliffe para a primeira filha da recordista mundial da maratona.

"O parto não foi fácil, mas ela vale a pena", disse a inglesa Paula Radcliffe, conforme publicado em seu site oficial.

"Eu estou adorando os meus primeiros dias como mãe, me preparando para conhecer minha filha e dividir a nossa vida com ela".

Escrito por Rodolfo Lucena às 18h55

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Paula Radcliffe

Paula Radcliffe

Nasceu!!!

É uma menina! A recordista mundial da maratona, Paula Radcliffe, entrou em trabalho de parto na manhã de ontem e, depois de "muito, muito tempo", no dizer de seu marido, deu à luz uma garota saudável no hospital Princess Grace, em Mônaco.

O anúncio foi feito hoje por Gary Lough, o "Mr. Radcliffe", que acompanhou o parto. A mãe e a criança passam bem.

Até agora, o casal não informou qual o nome escolhido: Lough disse que não tinham decidido ainda.

O bebê, que era esperado para o dia seis passado (como eu falei neste blog), nasceu com 2,9 kg. O pai, feliz da vida, disse que até agora "não caiu a ficha" sobre a novidade.

Se o bebê seguir a carreira dos pais (Lough também foi corredor, especialista nos 1.500 m), poderá competir sob a bandeira de Mônaco ou escolher entre as cores da Irlanda do Norte, pátria do pai, e da Inglaterra.

Radcliffe fez sua última corrida oficial em outubro último, mas continuou treinando. Ao anunciar sua gravidez, em julho passado, a recordista disse que pretendia continuar ativa na profissão por mais seis anos e planejava disputar a maratona olímpica em 2012. Para este ano, sua principal competição deverá ser o Mundial de Atletismo, no Japão. Mas não decidiu se irá para a pista, nos 10 mil metros, ou para as ruas, na maratona.

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h48

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Franck Caldeira

Franck Caldeira

Quem dá mais?

O pessoal do Cruzeiro está anunciando aos quatro ventos a iminente contratação do mineiro Franck Caldeira, campeão da São Silvestre e da Maratona de São Paulo no ano passado, para a equipe de atletismo comandada pelo técnico Alexandre Minartdi. Ele abandonaria, assim, o trabalho que vem realizando sob a orientação do doutor Henrique Viana, da equipe fluminense Pé de Vento.

Segundo publicado no site RunnerBrasil, Minardi teria afirmado o seguinte: "Vai ser bom para todo mundo: para o Cruzeiro, para mim, Alexandre Minardi, para o patrocinador do Cruzeiro, que é a Unimed, e principalmente para o Franck, que será muito bem remunerado, e ele correndo para um clube da grandeza do Cruzeiro Esporte Clube, um dos maiores clubes do mundo, o nome dele aparecerá mais".

O treinador disse que Caldeira precisou aguardar o término dos contratos com a Nike e com o Bingo Arpoador, que teriam terminado no dia 31 passado, para assinar com o Cruzeiro, que ofereceu ao atleta R$ 10 mil mensais.

Mas o dirigente da equipe Pé de Vento e atual treinador de Caldeira, Henrique Viana, diz que as coisas não são bem assim. Colocou mensagem no fórum Atletismo Brasil - Pestana Br, afirmando que conversou hoje com o atleta e traz informações diferentes.

"O contrato com a Nike termina dia 30 de abril, e antes disso o Franck não romperá o contrato. A Nike está estudando nova proposta para ele. Outros nomes que o Franck usa, como Arpoador e Caixa, totaliza R$ 7.000. O Cruzeiro ofereceu a ele R$ 10 mil. O acordo que fiz com o Franck foi que, se conseguirmos isso, a proposta do Cruzeiro está fora", escreveu o treinador Henrique Viana.

Escrito por Rodolfo Lucena às 21h14

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Lição de vida

Lição de vida

Fica para outra vez

Faltam apenas alguns passos para a linha de chegada. C. J. Howards pára, arranca sua perna esquerda e, com a prótese na mão como uma bandeira, pula num pé só e termina a maratona de Orange County, na Califórnia, em 3h23.

"Fui meia hora mais lento do que eu planejava, mas terminei a prova", comemorou ele, falando ao "O.C. Register".

Howards, 19, é um corredor competitivo desde os tempos do ginásio, participando da equipe de corridas da escola e obtendo bons resultados para o time.

Mas, na época, ele tinha as duas pernas. Em 2002, uma suposta lesão provocada pela atividade esportiva acabou diagnosticada como câncer ósseo. O remédio foi amputar a perna esquerda abaixo do joelho.

"Qual será o recorde mundial dos 5 km para amputados?", ele diz ter perguntado. E, depois de nove meses de quimioterapia, voltou a competir.

Em 2004, estabeleceu o recorde mundial da meia-maratona na sua categoria, com 1h23min59. Agora, sonhava em ser o primeiro amputado a correr a maratona em menos de três horas, mas teve um machucado na perna que o incomodou muito durante a prova.

"Vou tentar de novo", disse ele ao jornal local depois da maratona de domingo passado. "Mas não hoje".

Escrito por Rodolfo Lucena às 19h12

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Ronaldo da Costa

Ronaldo da Costa

Lalo de Almeida - 30.dez.98 /Folha Imagem

 

Até Pequim

Ele deu uma estrela no asfalto de Berlim e desapareceu no firmamento esportivo. Agora, tenta voltar: sonha com o Pan, com a maratona olímpica, sabe-se lá mais com quê. É Ronaldo da Costa, mineiro de Descoberto, o primeiro dos Ronaldinhos a maravilhar o mundo, derrubando um recorde que durava dez anos. Depois da brilhante marca, no entanto, passou por uma série de problemas na vida pessoal e profissional. Nesta entrevista exclusiva, feita por telefone em novembro passado, ele conta sobre seu recomeço, no interior de Minas, relembra o passado e revela um pouco de seus sonhos.

Folha - Há quanto tempo você recomeçou os treinos?

Ronaldo - Tem um ano e três meses que estou trabalhando com o Filé, o treinador da Márcia Narloch.

Folha - Por que você resolveu mudar de treinador?

Ronaldo - Bom, o Cavalheiro estava viajando muito, e eu estava um pouco abandonado, não é? Eu precisava de uma pessoa para ficar perto de mim, para me dar uma atenção. Aí, eu conversei com o Filé, na época, e ele me aceitou. Ele me arrumou um médico para tratar da cirurgia e tudo o mais. Eu operei o calcanho do pé esquerdo há um ano e meio, mais ou menos.

Folha - E você voltou para os treinos quando?

Ronaldo - Tem mais ou menos um ano que já voltei. Durante esse um ano, eu treinava uma mês, parava uma semana. Agora, não, estou bom. Depois da cirurgia, pararam as dores no pé, mas aí vieram as lesões, uma hora era na panturrilha, outra na coxa, até perder um pouco o peso. Agora, já está indo bem. Não falo que está 100% não, porque não vou mentir, não.

Folha - Mas você está treinando cinco, seis dias por semana?

Ronaldo - É, eu treino todos os dias, não é? De manhã e de tarde, uma média mais ou menos de 25 quilômetros por dia. Por enquanto, estou só no trabalho de base mesmo, para depois pegar firme. E, agora, já era para estar mais ou menos bem, porque já está quase em cima do Pan.

Folha - É esse seu objetivo agora?

Ronaldo - É. Meu objetivo mesmo agora é tentar pegar o índice do Pan. Tentar, não é? E Pequim, a Olimpíada, esse é o maior objetivo. Depois parar.

Folha - Você quer a maratona no Pan?

Ronaldo - Meu objetivo é a maratona. Vamos tentar treinar bem, a partir de janeiro começar competir em algumas provas aí, em abril tentar correr a maratona para ver se já pego o índice logo, num tiro só, vamos ver.

Folha - Você está treinando aí em Minas?

Ronaldo - Agora estou em São João Nepomuceno, próximo de Juiz de Fora, 70 km. Eu nasci em Descoberto e São João fica a 10 km de Descoberto, mas aí a minha família mora aqui, a minha esposa e tudo o mais.

Folha - Tem lugar legal para treinar aí?

Ronaldo - Aqui é bom, aqui é uma maravilha. Tem as paisagens, assim, muito verde, a montanha e terra batida, não tem muito trânsito, não tem nada de casas, aquela poluição, por isso que eu gosto daqui. Aqui é legal, vejo boi, paisagem de montanha.

Folha - Como é sua vida aí? Você mora na cidade ou tem uma casa no campo?

Folha - Eu tenho meu apartamento na cidade aqui e estou fazendo uma casa na roça, numa chacarazinha, a gente gosta de ficar mais lá.

Folha - Você planta alguma coisa?

Ronaldo - Eu capino, planto. É pertinho, mas é bom. É tranqüilo, é natureza, não é? Eu planto milho, feijão, planto grama, faço de tudo, é um tipo de ginástica, uai. Eu comecei a minha vida na enxada. É meu jeito mesmo. Eu não vou fugir das minhas origens, não. Não sei o dia de amanhã, é ou não é? Não vou passar fome. A gente tem que ser versátil.

Folha - Quando você começou a correr?

Ronaldo - Comecei com 16 para 17 anos. Antes, eu trabalhava na roça, mexia com plantio de arroz, de milho, feijão. Trabalhei na prefeitura aqui na cidade de Descoberto, onde nasci. O prefeito organizou essa corrida, em 1987, aí fui segundo colocado e meu irmão terceiro. Na segunda corrida que ele fez, fui primeiro e meu irmão foi segundo. Dali para a frente, foi isso aí.

Folha - Mas você resolveu participar da corrida do nada?

Ronaldo - Não, o prefeito fez a corrida aqui no dia do aniversário da cidade, um evento, no dia 30 de maio de 1987. Aí faltando 15 dias para essa corrida, comecei a treinar, pensando: "Quem sabe eu posso ganhar esse radinho aqui", que era o prêmio. Aí fui segundo colocado. O cara que ganhou, fazia dez anos que corria, eu não tinha nem 15 dias direito, fui segundo colocado e meu irmão terceiro. O pessoal gostou, eu era pequenininho, era uma atração, foi diferente. Em setembro teve outra corrida, no 7 de Setembro, aí eu ganhei do cara que tinha dez anos que corria, que se chamava Wilsinho.

Ronaldo - Não, aí eu fui para Juiz de Fora, eu fui correr na região, conheci um treinador que se chama Jefferson Viana. Ele foi meu primeiro técnico. Aí depois veio o Henrique, da Pé de Vento, ganhamos a São Silvestre de 94. O Henrique acabou de me formar. Depois passei para o Cavalheiro.

Folha - E você já estava ganhando dinheiro com corrida?

Ronaldo - Estava começando a ganhar alguma coisinha. Assim que eu fui correr pela Pé de Vento lá, não é? Comecei a pegar mais experiência, comecei a viajar para o exterior, aí começou a melhorar.

Escrito por Rodolfo Lucena às 00h00

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Ronaldo da Costa - parte 2

Ronaldo da Costa - parte 2

O giro da estrela

Esta é a segunda parte da entrevista exclusiva com Ronaldo da Costa, que foi ao fundo do poço e aspira os píncaros da glória. Neste trecho, ele fala sobre seu momento no topo do ranking mundial dos maratonistas. Segue o baile.

Folha - Como foi a experiência de ganhar a São Silvestre?

Ronaldo - Ah, foi bom, porque a São Silvestre tinha dez anos que brasileiro não ganhava. Eu estava bem preparado porque em 93 eu tinha sido sétimo colocado geral. Depois, em 94, no ano da São Silvestre, fui terceiro colocado no Mundial da meia-maratona, na Noruega, e estava bem. Aí fui para a Colômbia treinar na altitude. Treinei 25 dias lá e estava confiante que podia ganhar e ganhei, foi aquela maior festa, foi bom. Era meu sonho ganhar a São Silvestre. Me abriu as portas mais ainda.

Folha - No ano seguinte, você passou a treinar com o Cavalheiro? Por que trocou?

Ronaldo - Ah, porque já tinha um tempo com o Henrique já, queria mudar, fazer uma nova experiência, para ver, não é? Eu não briguei com ele, que é uma pessoa muito boa. Eu queria fazer uma experiência. O Cavalheiro é um cara muito estudioso também. Só por isso mesmo.

Folha - E você fez sua primeira maratona em 1997, certo?

Ronaldo - Muito bem, ali mesmo, eu lembro até hoje, se eu tivesse aquela mesma experiência... Eu corri um pouco com medo naquela maratona. Todo mundo falava que eu poderia quebrar. Aí eu segurei até os 30. Estava muito fácil para mim. Aí quando eu vi lá. eu achei que ia ganhar a corrida, cheguei todo vibrando, não tinha ninguém na minha frente. E eles já tinham chegado. É sério. Essa história não contei para ninguém. Cheguei todo animado, feliz, não sei o quê, depois... Mas foi bom, o tempo foi excelente, 2h09min07. No ano seguinte aconteceu o que aconteceu.

Folha - Mas, antes de chegar lá, na sua melhor prova, eu queria saber qual foi sua pior corrida, da qual você tem as piores lembranças...

Ronaldo - Rapaz, foi Porto Rico, a meia-maratona. É bonito, eu fui segundo colocado, em 93 ou 94. O Khannouchi ganhou de mim lá no final. Meu amigo, quatro horas da tarde, um calor de não sei quantos graus no lombo, nossa Mãe do Céu. Eu fui duas vezes, umas três vezes eu já fui lá. Um calor! Mas tinha mais de mil pessoas na rua. Um sobe e desce danado, mas subida mesmo. É três vezes mais do que a Brigadeiro. Aquilo não é para atleta, é para cabrito, uai. Estou falando sério, um calor, um calor infernal. Onze horas da noite lá é dia, eu nunca vi isso, uai. A gente fica doido, não dá para concentrar, não.

Folha – E por que você resolveu passar para a maratona? Você estava se dando bem em distâncias menores...

Ronaldo - A maratona, como dizem, tem a sua história. É uma prova muito especial. E exige treinos longos. É um pouco mais desgastante, mas é um ritmo mais moderado. Você correr, fazer uma prova de 10 mil, são trabalhos de piques muito rápidos. Eu sou rápido em termos. Na maratona, você se dá mais, o corpo fica mais tranqüilo, o seu coração vai naquela batida...

Folha - E aí você foi para o recorde mundial...

Ronaldo - É, me preparei aí, estava muito bem, estava numa fase muito boa. Estava crescendo muito e sabia que podia bater o recorde brasileiro. Acho que do André Ramos, 2h07min35. Eu sempre falava que podia correr entre 2h07 e pouco e 2h08? Estava muito bem aquela vez ali. Aí eu falei: "Bom, eu não tenho o compromisso de bater o recorde mundial". Pensei em bater em os recordes Sul-Americano e Brasileiro. Aí que deu aquele 2h06min05. Eu cheguei muito bem, inclusive fiz aquela estrela, aquela gracinha no final.

Folha - O que deu em você para fazer aquilo? Você tinha planejado?

Ronaldo - Planejei quando estava no final, faltando mais ou menos uns três quilômetros, estava na frente dos caras. Já sabendo ali que estava para ir para o recorde, pensei: "Se chegar bem aqui, vou fazer uma graça".

Folha - Como você sabia que estava indo para o recorde? Quem avisou?

Ronaldo - Ah, foi o Felipe, meu empresário. Foi no km 30 mais ou menos. Ele estava no carro da organização e falou: "Ronaldo, Ronaldo, você está correndo para o recorde mundial" Eu fiquei na minha, tranqüilo, está bom, bom. Fui concentrado. Aí o ritmo foi aumentando. A cada quilômetro foi baixando o tempo. Eu tive que fazer 2h06min05, e ali estava correndo para 2h06min40, mais ou menos. Nos últimos quatro quilômetros, três quilômetros, corri mais de 2min17 por km. É, mano, quando é o dia não tem jeito... Às vezes, você treina bem, treina para caramba, chega no dia, você não corre o que treinou. Deu tudo certo, a temperatura estava ótima, o clima estava agradável, estava 12 graus, mais ou menos, aí falei: "É hoje". Aí foi.

Folha - E o que aconteceu depois da estrela, como foi a festa?

Ronaldo - Eles costumam fazer uma festa, tinha comes e bebes, dança, foi uma maravilha. Eu fiquei umas duas noites sem dormir, cara. Duas noites sem dormir e aí fui correr. Até cair a ficha, não é? É meio complicado, não é?

Folha - Você na época estava casado ou solteiro?

Ronaldo - Já tinha saído de um relacionamento e eu conheci uma outra. Antes da maratona de Berlim estava com a minha amiga, estou com ela até hoje, com a Lucília. Ela é o meu ponto de equilíbrio, não é? É uma pessoa tranqüila, pessoa da paz, de boa índole. Depois, outra coisa, é uma mãe exemplar., não é? Claro: se tem um pai exemplar como eu, tem que ter uma mãe exemplar.

Folha - Vocês têm um filho, dois filhos?

Ronaldo - Não, tenho um enteado de 13, que eu conheci com cinco anos, na época, e minha filha Victória, tem seis anos e meio. Essa é a Ronaldinha da Costa .......

Folha - Vai ser corredora também?

Ronaldo - Bom, eu não quero forçá-la, não. Ela é criança, quer brincar e tudo o mais. Você não pode obrigar a ser igual ao papai. Calma. Deixa assim.

Escrito por Rodolfo Lucena às 23h48

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Ronaldo da Costa - parte 3

Ronaldo da Costa - parte 3

De olho na política

 

Esta é a terceira e última parte da entrevista exclusiva com Ronaldo da Costa, 36, brasileiro que bateu o recorde mundial da maratona em 1998. Depois da façanha, ele viveu anos complicados e agora tenta voltar à antiga forma. Sonha com o Pan e com a vereança. A foto é Leonardo Colosso (Folha Imagem), feita em 30.dez.98. Segue o baile.

Folha - Voltando ao recorde: quanto você ganhou?

Ronaldo - É, foi US$ 100 mil pelo recorde, mais a premiação, não é? US$ 30 mil, na época. Foi bom.

Folha - Teve teste antidoping? Como foi?

Ronaldo - Tranqüilo. Eu, se acontecer isso comigo, eu nunca mais mexo com esporte, não. O homem tem que ter vergonha na cara. A pessoa que faz isso aí, não dá para confiar em hora nenhuma. Eu não confio, não. Você treina, dá um duro danado, na natureba, vem um safado desse aí, tem que ser preso. Não tem nem conversa. Você tem que se valer do esporte, incentivar as outras pessoas. Mas esse negócio de doping, além de não fazer bem, está roubando do próximo que está levando a sério.

Folha – Mas, na época em que você quebrou o recorde, um outro atleta que treinava com o Cavalheiro foi pego... E você não usava?

Ronaldo - Mas aí, ele pode usar, alguém pode usar, está do meu lado e eu não estou sabendo, não é? Porque você sabe que quem vê cara não vê coração. Eu não sei, eu não posso falar por ele, porque não vi, não sei. Se foi acusado, alguma coisa de errado deve ter feito. Se foi comprovado, é porque usou. Se ele fez, ele pagou pelo erro. Mas é assim mesmo, a gente não pode esquentar a cabeça, não. Minha cabeça está sempre está erguida, nesse ponto aí.

Folha - Bem, com a divulgação do dinheiro que você ganhou surgiram várias histórias, a ameaça de um seqüestro...

Ronaldo - É, dei muita falta de sorte. Quando fui para Berlim, já fui mais ou menos machucado também. Não fui 100% para lá. Aí as coisas começaram a dar tudo errado. Foi complicado. Um amigo meu inventou aquelas coisas de seqüestro, foi uma confusão danada.

Folha - Um amigo seu?

Ronaldo - Foi, não vou citar o nome dele, não. Na época, ele queria ir para os Estados Unidos. Como eu já estava com aquele nome tudo o mais, direitinho, em 99, aí ele estava em casa em Minas, aqui, começou a inventar moda, que alguém queria me matar e não sei o que lá. Mas quem não deve não teme. Estou vivo ainda, não é? Tranqüilo aqui, olha.

Folha - E você foi para os Estados Unidos?

Ronaldo - Eu e a Lucília, ficamos em San Diego, fomos para Bolder, depois. É no Colorado, é uma cidade maravilhosa.

Folha - E como você se sustentava?

Ronaldo - Ah, não, a viagem, essas coisas aí, foi tudo visualização da competição, a gente aproveitava e ia. Aí aluguei uma casa lá. Ficamos num apartamento lá, em San Diego. Ficamos dois meses, três meses lá, é muito tempo. Eu gosto do Brasil, meu, o Brasil que é bom. Aqui ou senão a Colômbia, a Colômbia eu gosto.

Folha - Mas você voltou para cá e ficou afastado das competições. O que aconteceu nesse tempo todo? Às vezes parecia que você ia voltar, participava de uma prova ou outra...

Ronaldo - Sei lá, nem eu entendia, nem eu estava entendendo também. Mudou tudo, as coisas estavam esquisitas. Tudo complicado. Não sei nem como explicar.

Folha - E o que você fez nesse período que não estava correndo.

Ronaldo - Ah, estava aqui, estava em casa, sem nada, sei lá, sem passado, sem falar com ninguém, Ficava dentro do meu quarto. Não podia falar nem em corrida comigo. Não é que eu quisesse parar de correr, mas não podia falar de corrida. Fiquei em deprê, mas agora, não, agora estou tranqüilo...

Folha - Pelo menos, já consegue falar sobre suas corridas... O que você pensa quando corre?

Ronaldo - Rodolfo, o negócio é o seguinte: meu negócio é chegar, eu quero ganhar. Claro, o pensamento pensa em ganhar, mas as pernas, às vezes, não vão, não é? Aí você pensa tanta coisa boa, você pensa na família, se ganhar pode ajudar um pouco no orçamento financeiro e tudo o mais, mas concentrado e fazendo força. Puxa, pensar o que eu já fiz, quando eu trabalhava na roça, pensando e fazendo força. Tipo uma coisa lê na sua mente. Aí vai passando, vai aumentando, faz força e concentração total e não se preocupar com adversário nenhum que esteja do seu lado.

Folha - E depois do Pan, vocês já sabe o que pretende fazer?

Ronaldo - Coloca aí: eu sou candidato a vereador na cidade, sabe?

Folha - Você já se envolveu com política antes?

Ronaldo - Eu gosto de política, sempre gostei. Ah, gosto de tumulto. Porque política é tumulto, você sabe, não é? É, uai, é uma confusão danada, eu gosto da função. Porque eu sou uma pessoa muito popular, entendeu? Pessoa muito comunicativa, gosto dessas coisas, não é?

Folha - E você já se candidou alguma vez?

Ronaldo - Não. Sempre tive vontade, mas não me candidatei, não. Mas, desta vez, agora, a idade vai chegando, aí o corpo vai diminuindo, aí estou pensando alguma coisa, de passar a minha experiência para alguém.

Escrito por Rodolfo Lucena às 23h35

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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