Rodolfo Lucena

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Cara e coragem

Dean Karnazes

Dean Karnazes

Ultraman delirante

Como informei hoje na minha coluna no caderno Equilíbrio, da Folha (AQUI, apenas para assinantes da Folha e/ou do UOL), chega às livrarias na próxima semana a versão em português da autobiografia de Dean Karnazes, que se transformou no mais popular ultramaratonista norte-americano (talvez o primeiro ultramaratonista a ser popular).

Ele voltou às manchetes (pelo menos, de sites esportivos norte-americanos), ao completar em novembro, na maratona de Nova York, uma série de 50 maratonas em 50 dias, numa campanha para arrecadar fundos para entidades benemerentes.

A história do cara é muito legal, ainda que seus treinos e estilo de vida possam não ser considerados um exemplo para a maioria de nós.

Para dar uma palhinha, conto como ele virou ultra. Estava num boteco fino, com os colegas yuppies do mundo do marketing e da publicidade, comemorando seus 30 anos e uma carreira em franca ascensão. Uma garota começou a dar em cima dele, que também deu mole. estavam quase chegando aos beijos, no final da noite, quando ele, então (e ainda agora) um sujeito bem casado, se deu conta da meleca que estava fazendo.

Caiu fora e, em vez de pegar o carro para voltar para casa, saiu a correr pelas ruas de San Francisco para desanuviar a cabeça. Correu a noite toda e iniciou uma revolução na sua vida.

Hoje vive de patrocínios, palestras e da renda do livro ("O Ultramaratonista", ed. Rocco). Que, por sinal, na versão que recebi para avaliação, tem um erro logo na capa. O subtítulo diz que o autor é “o homem que correu dez maratonas em um único dia”.

Eu já tinha lido o livro há mais de um ano e não lembrava de nada do gênero. Conversei com Karnazes por e-mail, e ele disse o seguinte: “Bem que eu gostaria de poder correr 262 milhas (422 quilômetros) em 24 horas, mas não dá. Já corri 350 milhas em 81 horas nas Califórnia. E recentemente corri 50 maratonas em seqüência, no que provavelmente foi meu maior desafio até agora”. Leia a seguir a primeira parte da entrevista com Karnazes.

FOLHA - Qual foi sua pior corrida (se é que existe uma corrida ruim)?
DEAN KARNAZES -
A primeira vez que eu tentei correr a Badwater Ultramarathon, uma corrida de 135 milhas (217 quilômetros) que passa pelo Vale da Morte no meio do verão. Foi um desastre. Eu relato a experiência no meu livro. Basicamente, tudo que poderia dar errado deu errado. Meu carro de apoio quebrou, eu bebi água contaminada, meus tênis derreteram, fiquei muito desidratado e cheguei ao delírio. Na milha 72, desmaiei e fui levado para atendimento em segurança.

FOLHA - E qual foi o desafio mais interessante?
KARNAZES -
Recentemente eu corri 50 maratonas nos 50 Estados dos EUA em 50 dias seguidos. Não só a corrida foi muito interessante, mas eu pude viajar e ver o país inteiro. A experiência como um todo foi incrível.

FOLHA - O que você sente quando corre?
KARNAZES -
Liberdade. Qualquer um que corra conhece a sensação. Correr dá a você um sentido de liberdade marcante.Algumas pessoas não conseguem entender o que faço. Mas eu adoro fazer isso, e é sempre muito legal poder fazer o que você gosta. Uma coisa maravilhosa da corrida é que ela é tão simples, qualquer um pode correr. Há algo primordial, intrínseco na corrida que faz com que aflore o melhor das pessoas.

FOLHA - Mas é preciso correr distâncias tão longas para obter essa satisfação? Uma coisinha mais curta, como uma maratona dupla, já não seria suficiente?

KARNAZES - Eu tenho curiosidade de saber até onde o corpo humano pode ir. Quero testar e ampliar os limites da resistência humana. Eu sou fascinado por isso. Então, não é tanto pela corrida, mas sim por expandir os meus próprios limites pessoais.


Continua a seguir.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h34

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Dean Karnazes

Dean Karnazes

Dicas do Ultraman

Esta é a continuação da entrevista exclusiva com Dean Karnazes, ultramaratonista norte-americano cuja autobiografia será lançada no Brasil na próxima semana.


FOLHA - O que o torna diferente dos outros corredores?
KARNAZES -
Nada, na verdade. Sou apenas um sujeito comum. Eu sinceramente acredito que qualquer um pode fazer o que eu faço, desde que tenha a paixão e o compromisso para treinar e se preparar adequadamente. Eu acho que isso é parte da razão pela qual minha história tem tido alguma repercussão. Sou apenas um sujeito comum fazendo o melhor possível com os recursos que tenho. As pessoas consideram isso inspirador.

FOLHA - No seu livro, você conta que correr, de certa forma, salvou seu casamento. E agora, com tantas horas dedicadas ao esporte, como sua família reage?
KARNAZES -
A corrida pode unir as famílias, mas também pode provocar separações. Para nós, minha corrida nos tornou ainda mais unidos. Nós estamos mais próximos do que nunca.

FOLHA - O que fez você passar de um ultramaratonista para um ultrafamoso ultramaratonista?
KARNAZES -
Isso aconteceu basicamente por causa de meu livro. Quando eu o escrevi, pensei: “Se eu conseguir que uns dez colegas meus comprem, já serei muito sortudo”. Quando o livro se tornou um best-seller, eu fiquei doidão.

FOLHA - Com o sucesso de seu livro, você se tornou uma estrela. Como isso se refletiu na sua vida financeira?
KARNAZES -
Apesar de tudo, eu ainda ganho menos hoje, com o livro, as palestras e os patrocínios, do que ganhava no mundo corporativo. mas eu estou muito mais feliz. A troca valeu a pena.

FOLHA - Como é um típico dia de Dean Karnazes?
KARNAZES -
Na verdade, não há um dia típico, o que é uma das coisas que adoro em meu estilo de vida. Às vezes, corro cedinho pela manhã, outras vezes corro à noite (às vezes, toda a noite). Se as ondas estiverem legais, vou dar uma surfada. Se está nevando, vou fazer snowboard.

FOLHA - Você já enfrentou vários desafios. Qual é o próximo?
KARNAZES -
Tenho muitos planos e alguns projetos em andamento. Eu gostaria de fazer coisas mais globais, na Europa, na África, na Ásia, na América do Sul. A corrida tem uma capacidade única de unir as pessoas, provocar a integração além das fronteiras, das religiões, das raças. Há muitas guerras no mundo, muita raiva e muitas mortes desnecessárias. Usar a corrida para ajudar a unir as pessoas, esse é o meu maior objetivo.

FOLHA - Algum plano para o Brasil?
KARNAZES -
Por enquanto, não. Mas eu adoraria. Já encontrei muitos corredores brasileiros em minhas viagens, e gostei muito de seu espírito e atitude.

FOLHA - Você recomendaria que alguém se tornasse ultramaratonista?
KARNAZES -
Não sou muito bom em recomendar coisas para pessoas ou para dar conselhos. Se alguém pergunta, meu conselho é que ele escolha fazer algo de que goste muito. Se for ultramaratonas, muito bem. Se for outra coisas, surfe, ciclismo, então faça isso. Se você começar fazer algo de que não gosta, nunca vai perseverar naquela atividade.

FOLHA - Quais são suas dez principais dicas para quem pretenda começar uma atividade física.
KARNAZES -
Correr uma maratona começa com o primeiro passo. Meus dez conselhos são esses:

1. Seja paciente.
2. Estabeleça objetivos realistas.
3. Se você perder algum treino ou fraquejar, não é o fim do mundo. Não desista.
4. Conte a todo mundo o que você está fazendo e que planeja entrar em forma.
5. Escolha uma atividade que você adore.
6. Passe a considerar entrar em forma uma prioridade importante em sua vida.
7. Consiga um parceiro para treinar junto.
8. Inscreva-se numa corrida ou caminhada de cinco ou dez quilômetros (NR: Mas dê a você mesmo um tempo para a preparação).
9. Elimine de sua dieta o açúcar refinado.
10. Tome dez copos de água por dia.

 

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h26

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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