Rodolfo Lucena

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Cara e coragem

Entrevista com Monica Otero

Entrevista com Monica Otero

A conquista de Badwater

A paulista Monica Otero é a primeira mulher da América do Sul a completar a ultramaratona de Badwater, que percorre 217 quilômetros e cruza o o deserto de Mojave, na Califórnia. Mãe de dois filhos, essa sobrevivente a um câncer de intestino começou sua vida de peregrina no primeiro ano deste século, percorrendo parte do Caminho de Santiago. E agora, aos 51 anos, fez sua maior aventura, que ela conta nesta entrevista, que foi a base de reportagem publicada hoje no caderno Equilíbrio da Folha (AQUI, para assinantes da Folha e/ou do UOL).

Folha - Como você define a Badwater?

Monica - Sacrifício. Exige muito treino. Ela é considerada a corrida a pé mais difícil do mundo. Não pela topografia nem pela quilometragem, mas pelas condições do tempo. Você correr sob uma temperatura acima de 50º não é fácil. E quando me diziam que a maioria dos atletas, durante a corrida, perdia o paladar, eu falava: ‘Gente o que é isso, perder o paladar?‘, e eu experimentei isso.

Folha - E como é perder o paladar?

Monica - Qualquer coisa que você vá mastigar vira uma pasta seca e você não consegue engolir. Tudo resseca, você não consegue engolir nada. Eu tinha fome, mas não conseguia comer. Então, um pedacinho de pão, um pedacinho de batata, um pedacinho de maça, você mastiga, mastiga, mastiga e não adianta. Para engolir aquilo, você tem que ter muita força de vontade e tomar alguma coisa junto, porque senão não desce.

Folha - E como você chegou a participar da prova?

Monica - Você tem que ser qualificado. Porque mais de 2.000 se inscrevem. Atletas do mundo inteiro se inscrevem para fazer essa ultramaratona, mas só 90 podem participar a cada ano. Eles selecionam por currículo, mas há um número de atletas que eles escolhem a critério deles. Eu acredito que eu tenha sido escolhida não pelo currículo, mas a critério deles, porque eu acho que eles têm que dar chance para novos atletas, tem que dar essa abertura. E, quando eu terminei a Brazil 135 em 67 horas, o Mário Lacerda, que é o grande organizador de tudo isso, me chamou.

Folha - Como foi isso?

Monica - Ele falou: ‘Monica, eu gostaria que você se inscrevesse para a Badwater. Eu gostaria muito que uma mulher fosse, e eu não conheço no Brasil alguém que tenha feito uma prova de 135 milhas e que já tenha estado na Badwater como pacer‘. Eu tinha ido no ano passado como pacer do Manuel Mendes, e ser marcador de ritmo é um pré-requisito, já é uma qualificação. Eu me inscrevi no último dia, em janeiro, e no dia 15 de fevereiro recebi o e-mail. Eu falei: ‘Gente do céu, fui escolhida‘. Eu comecei a tremer, eu comecei a chorar, as pernas bambearam. Aí eu falei: não tem o que fazer: agora é treinar e treinar muito. Aí eu comecei a ser orientada pelo Mário Lacerda...

Folha - Como eram os treinos?

Monica - Eu já estava treinando, fazendo musculação em uma academia em Alphaville. E comecei a treinar em piscina, corra dentro d‘água para diminuir o impacto. Então, duas vezes por semana, eu fazia uma hora na piscina, depois eu saía e fazia hidroginástica na piscina, logo em seguida. Depois eu corria, no mínimo, três horas aqui no residencial...

Folha - Você não tirava folga?

Monica - Treinava seis dias por semana. À noite, eu fazia sauna, eu fazia step dentro da sauna, isso duas vezes por semana. O único dia que eu tinha descanso era aos sábados. De treino, porque eu trabalhava. Eu tinha uma cafeteria, que vendi agora em maio, uns dias antes de eu viajar. Eu trabalhava no comércio, mas abandonei o comércio na parte da manhã, para eu poder fazer meus treinos. Eu trabalhava à tarde; à noite, ia para a academia. Sábado era o único dia que eu não treinava, porque era o dia que eu fazia as compras para o café. E no domingo eu treinava o dia inteirinho: eu saía às seis, sete da manhã e só voltava às sete, oito da noite andando.

Folha - Como você se alimentava nessas longas caminhadas?

Monica - A minha história é um pouco diferente. Eu não tenho perfil de atleta, sou gorda... Eu tenho um problema muito sério com alimentação. Há dez anos, eu tive um câncer de intestino. Tive um, não, tive recidiva, aí eu fiz colostomia, passei por todo processo de quimioterapia, então eu tenho muitas restrições alimentares. Muita. Eu não como nada que tenha fibra. Eu não tomo leite. Eu não tomo iogurte nem nada que tenha grão, tirando arroz. A única fruta que eu como é a maçã, sem a casca. Agora, eu estou introduzindo a banana, depois de dez anos... Existe, assim, uma dificuldade muito grande...

Folha - Sua alimentação é mais líquida?

Monica - Olha, é muito complicada minha alimentação, porque tem dia que eu estou bem e aí como pão. Eu gosto de pão integral, mas tudo que tem muita fibra, eu não posso. Tem dia que eu como arroz e uma carne grelhada. Nada com gordura, nada com pimenta, nada com molho. Então, para mim é difícil. A Badwater, eu fiz praticamente em jejum, comendo azeitona, massa e um suplemento de chocolate. Teve uma hora que me deu diarréia, eu não consegui tomar mais. Então, a minha condição de atleta é uma condição diferente. Não é nada daquilo que é comum nas pessoas.

CONTINUA....

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h37

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Entrevista com Monica Otero - terceira parte

Entrevista com Monica Otero - terceira parte

Reviravolta na vida

 

Folha - Quantos filhos você tem?

Monica - Eu tenho dois, mas eu não moro com nenhum. Um mora com o pai, que até eu me separei neste ano.

Folha - Agora, antes de Badwater?

Monica - É, foi assim: 28 anos de casamento, virgem, primeiro namorado. No início foi legal, mas foi um casamento meio tumultuado, porque eu queria fazer as minhas corridas, as minhas caminhadas, e ele muito ciumento. E, sempre a gente estava brigando por causa disso. Aí quando foi neste ano, nós entramos num acordo, e ele aceitou. Eu já estava querendo me separar há mais tempo, mas ele não queria. Aí, quando foi este ano, ele resolveu: ‘Ah, com você não tem jeito, então...‘ Mas foi um ano muito sofrido para mim, porque ele fez uma exigência, que para mim foi muito dura. Ele só aceitava a separação se ele ficasse com o meu filho. Eu tenho dois, um já mora sozinho, ele vai fazer 27 anos, mora sozinho, e eu tenho um de 15 anos. Então, foi assim uma exigência dele: ‘Você quer? Está bom, só que o filho é meu‘. E para mim foi muito difícil, mas muito. Tanto é que, durante os meus treinos aqui, eu só treinava chorando. Gente, como foi difícil este ano.

Interiormente, eu não aceitava, tanto é que eu treinava, eu subia aqui essas ladeiras, gente, eu subia chorando. Como eu chorei, como eu chorei Rodolfo, mas eu chorava, assim, desesperadamente. O pessoal até pensava que era suor, mas não era suor não, eu estava chorando. Então, foi um ano assim, foi uma reviravolta na minha vida, porque eu fui aceita para fazer essa prova, acabou um casamento de 28 anos, eu vendi o comércio que eu tinha...

Folha - Por que vendeu?

Monica - Eu falei: ‘Bom, agora vai ter que ser uma virada‘. O comércio me tomava muito tempo. Mas eu consegui dar a volta por cima e consegui meu objetivo, que era terminar a prova desde o início. Não era ganhar a prova, não era nada, era a conclusão da prova. Eu treinei para terminar a prova em 60 horas.

Folha - Por que?

Monica - É aquela sensação assim: olha, Rodolfo, tem uma coisa na minha vida, que eu acho que eu nasci para andar. É uma coisa, assim, bem interior, bem. Você sabe que quando eu era menina, que eu devia ter mais ou menos cinco ou seis anos, eu tive um sonho. Eu nunca revelei esse sonho para ninguém. Eu guardei esse sonho comigo muitos anos e esse sonho tem tudo a ver com a minha história, mas só agora eu estou ligando isso.

Nesse sonho, eu estava num barco, que tinha várias redes penduradas e eu estava numa dessas redes. Eu estava deitada numa dessas redes e como bagagem, eu tinha um saco de estopa. Eu não sei o que tinha dentro daquele saco de estopa, mas tudo o que eu tinha era aquele saco de estopa e eu cuidava daquele saco de estopa. Eu não me lembro se eu tinha pai, se eu tinha mãe, se eu tinha irmão, eu não me lembro. E, eu estava deitada nessa rede e esse barco partiu e eu lembro até hoje do mato e eu sinto o cheiro do mato. Eu estou falando para você e eu estou sentindo esse cheiro do mato. Eu olho, eu vejo o céu, eu vejo o sol, isso tudo no sonho. Eu ouço até hoje o barulhinho da água do barco, entendeu? E eu fiquei muito tempo nesse barco.

De repente, o barco parou, eu desci e eu comecei a andar. Gente, mas eu andava, como eu andava. Eu andava tanto, tanto, que só de falar eu fico cansada.

Folha - Acordou cansada?

Monica - Mas eu era tão feliz. Era uma felicidade tão grande que não tem palavras. Isso eu sonhei quando eu era menina e eu guardei esse sonho. Nunca contei a ninguém até pouco tempo atrás. Por isso, analisando agora, depois de tudo isso, eu estava pensando, gente, será que tem alguma coisa a ver com meu sonho? Acho que meu destino é andar. E era andar muito, muito, muito, muito.

Folha - Bem, em Badwater você andou muito. Quando você chegou lá?

Monica - Eu cheguei a Stovepipe Wells, no deserto de Mojave (Califórnia), uns 20 dias antes da prova, para fazer a aclimatação. Ali foi minha base, num hotel que é um dos pontos de parada da prova. É o primeiro ponto de checagem. É mais ou menos a 80 km da largada. Sem internet, porque a internet não chegou lá, fiquei lá todos esses dias.

Folha - E como era a sua equipe?

Monica - Levei o Márcio Villar, que tinha me ajudado a terminar a Brasil 135, e mais cinco pessoas de lá, dois carros. Eu banquei tudo, gasolina, alimentação, tudo. Não saiu por menos de R$ 20 mil... Tinha esses quatro ultramaratonistas, que não tinham muita chance de serem escolhidos, mas resolveram ir como pacers. E o Márcio e a Marta Harato.

Folha - A Marta você já conhecia?

Monica - A Marta eu conheci fazendo o Caminho da Luz. Ela organizou para o Mário Lacerda a prova-teste para a Brasil 135. Depois, nós duas fomos ser pacers do Manuel Mendes na Badwater, no ano passado.

CONTINUA....

(As fotos usadas nesta mensagem e ao longo da entrevista de Monica Otero são de RODRIGO CERQUEIRA, que acompanhou a participação de corredores brasileiros em Badwater e gentilmente cede as imagens para publicação neste blog. Ele fez muito mais fotos, que você pode ver AQUI.)

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h26

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Entrevista com Monica Otero - final

Entrevista com Monica Otero - final

Dever cumprido

Folha - Na prova, qual foi o momento mais complicado? Você terminou em 55 horas, não é isso?

Monica - Cinqüenta e quatro horas e vinte e seis minutos. Eu acredito que teria condições de terminar em menos tempo se não fosse a alimentação, porque eu não comia nada lá, eu não conseguia comer.

Folha - Alguma coisa você comeu...

Monica - É, eu tomei muita bebida isotônica, mais um suplemento alimentar de chocolate, comi azeitonas....

Folha - E ir ao banheiro?

Monica - Lá não tem banheiro, a prova é no deserto mesmo, você tem todo o deserto para ir ao banheiro.

Folha - E dormir?

Monica - Ah, dormir, eu descansei quando eu cheguei em Stovepipe Wells. Eu cheguei lá no deserto no dia 02 de julho para me aclimatar e logo no primeiro dia eu peguei 54º de calor. O meu primeiro treino foi às 10 da manhã e às 15h eu ia ter outro. Eu treinava 12 horas por dia lá.

Mas eu parei uma semana antes o treino por causa dos meus pés, porque o calor era tão grande, que começou a fazer bolhas nos pés, nos últimos treinos. Então, meu pé virou uma placa de bolha e eu tive que parar o treino. Mas, isso uma semana antes.

Folha - O que de certa forma, do ponto de vista do seu físico foi até bom, não é?

Monica - Foi, porque eu tinha que descansar. Eu tinha que descansar, mas eu fui tão alucinada que eu tinha que terminar essa prova, porque se eu não terminasse para mim seria assim uma decepção muito grande, porque todos falavam: ‘Monica, você é a primeira brasileira a se inscrever para essa prova‘. Então, eu alucinei naquele deserto, eu puxava pneu naquele deserto. Eu amarrava um pneu na cintura e saía puxando, para ganhar resistência.

Folha - Mas isso era um treino que tinham te sugerido fazer ou você resolveu fazer da sua cabeça?

Monica - É, o Mário achou que esse treino tinha que ser feito antes, mas, como eu sou louca, eles falam que eu não bato muito bem. Se fosse muito quente, eu treinava 40, 50 minutos com o pneu. À noite, sem sol, eu andava um pouco mais com o pneu..

Folha - E você sentiu o resultado desses treinos?

Monica - Olha, tudo foi válido. Lá é o seguinte: quando está muito calor, você toma tanta água, tanta água que daí o corpo não consegue eliminar, pára aquele líquido no estômago e quando você corre faz chilap, chilap, você não consegue correr. Então, o grande segredo é a aclimatação. O Mário me ligava, instruía para eu tomar três, quatro litros de água por hora, adaptar o seu corpo a isso.

Lá do deserto, então, o que eu fazia? Eu saía com quatro litros d‘água, eu saía com o camel back, gelo na cabeça, um spray e eu ia andar. Então, eu andava assim até onde eu consumia um camel back e depois voltava porque eu não podia ficar sem água no deserto. Então, eu sempre levando gelo, quando eu chegava, aquela água já estava fervendo.

Folha - E como você escolheu a roupa?

Monica - Eu tinha planejado correr de bermuda, porque eu sempre gostei de correr sem nada que me prenda as pernas, tinha que ser um short, uma coisa assim. Mas, onde o sol batia, aquilo queimava de forma assim impressionante. Falei, bom, acho que eu vou ter que usar uma canga. Aí a Marta, que estava em San Diego, me mandou a canga pelo correio, porque lá no deserto não tinha nada. Só que em alguns trechos da corrida ventava tanto, tanto, tanto, que aquilo atrapalhava a perna. Então não dava.

Eu pedi para ela me mandar uma calça fusô. Eu tinha comprado uma roupa especial com fotor de proteção solar 60, mas ela evapora muito rápido a água, e eu queria algo que permanecesse molhado nas minhas pernas. Aquela roupa, que é especial, tem aquele tecido que, em três minutos, evapora a água e seca, daí ela ficava quente na minha perna. A roupa queimava a perna. O sol batia, esquentava e queimava a perna. Não dava.

Então quem sabe um fusô de algodão? Antes de treinar, a primeira vez, eu entrei na piscina de roupa e tudo, depois enxuguei os pés, pus as meias e os tênis e saí andando. Falei: ‘Gente, descobri a América. É isso que eu preciso. É isso o que eu quero‘. Uma roupa molhada no corpo, porque, além de tudo, eu ainda sou hipertensa. Eu tomo remédio...

Folha - Apesar de todas essas caminhadas?

Monica - Ainda sou hipertensa. Então tinha que ser o tempo inteiro uma roupa molhada no meu corpo, para baixar a minha temperatura. Um boné, a cabeça sempre cheia, até eu brincava que eu brincava que o boné era o meu cooler porque embaixo do boné tinha sempre muito gelo. E os meus apoiadores jogavam água em mim com aqueles aparelhos de jogar inseticida em plantas... Cada atleta tem uma forma, eu achei que para mim era essa a melhor forma na hora do sol, assim, mais quente, eu tinha que estar com a roupa o tempo inteiro molhada.

Folha - Enfim, você conseguiu. O que você ganhou com isso?

Monica - O que eu ganhei? Uma medalha, muitos amigos e uma satisfação interior tão grande. Parece, assim, sabe? O dever cumprido. Eu estou feliz. Eu estou feliz.

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Escrito por Rodolfo Lucena às 07h17

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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