Artigo

Esporte contra saúde

Não sei se está crescendo o número de mortes de pessoas que correm maratona ou se cresce a divulgação dessas ocorrências. Acredito que são as duas coisas, pois é crescente o número de pessoas que praticam exercícios e a mídia em geral está um pouco (bem pouco, é verdade) antenada para esse movimento. Eu, que adoro maratonas e provas mais longas, tenho claro que elas não são a coisa mais saudável do mundo, mas são muito gostosas. de qualquer forma, para ajudar a entender um pouco mais os efeitos do exercício e, especialmente, da maratona no corpo, trago hoje um artigo da bióloga Camila Yumi Mandai, que foi publicado originalmente na revista on-line "Vox Scientia", do NJR-ECA/USP, e que repriso com a devida autorização.

"Existe hoje um consenso geral entre os médicos de que o esporte profissional, como praticado atualmente, é nocivo à saúde. Isso porque, com as pressões das competições, os atletas, sobretudo os chamados "atletas de elite", são levados até o limite do corpo. A busca pelas quebras de recordes, e pelos centésimos de segundo decisivos, apontam para o fato de que a capacidade física máxima do ser humano está na fronteira do limite. O melhor atleta será aquele que se sacrificar um pouco mais para atingir tal meta.

"Esse esforço exagerado acarreta, ao longo do tempo, desgastes físicos e psicológicos. Além dos tradicionais males dos esportistas, como fraturas, rupturas ou deslocamentos ósseos e musculares, que levam os atletas ao abandono ou um período de retiro do esporte, há as doenças oriundas de problemas cardíacos, seja conseqüência de uma predisposição genética ou acarretada e agravada pela sobrecarga de exercícios.

"Quando pensamos em pessoas cardíacas, associamos a pessoas sedentárias, de maus hábitos alimentares e submetidas ao constante "estresse cotidiano". Assim, é bastante chocante quando atletas de destaque sofrem, por exemplo, morte súbita em plena competição. O porte atlético e as habilidades de muitos jovens atletas escondem a fragilidade dos seus corpos e o extenso esforço dos mesmos para executar suas exaustivas tarefas diárias.

"Ao iniciar um exercício físico, a primeira reação fisiológica do corpo é o aumento do fluxo respiratório e sangüíneo como resposta à aceleração do metabolismo, que em uma maratona chega até 2.000% acima do normal (uma pessoa com febre tem o metabolismo 100% mais acelerado), com conseqüente elevação na demanda de oxigênio. A distribuição dessa alta taxa de oxigênio para os tecidos é suprida com o aumento da freqüência cardíaca. Durante a prática saudável de exercícios físicos, a freqüência cardíaca é constantemente monitorada, seu valor máximo varia conforme o sexo e a idade do praticante. Ao ultrapassar muito esse limite, há um aumento da liberação de radicais livres, relacionados a processos degenerativos, associada com o aumento do consumo de oxigênio. É claro que um melhor preparo físico suporta exercícios mais intensos com menor freqüência cardíaca e assim menor produção de radicais livres. Ainda assim, por mais preparados que os atletas de elite possam estar, além de eles treinarem diariamente, isto é, sem passar pelo período de repouso que pode causar a "Síndrome de Overtraining", os exercícios são feitos até a exaustão.

"Na prática esportiva, o coração é o órgão mais exigido do corpo. Ele é o um dos fatores determinantes no desempenho máximo dos atletas. Muitas vezes a presença de grande massa muscular esquelética (aquela associada a movimentação do corpo) pode não ser vantagem quando a eficiência do coração for baixa. Os maratonistas que conseguem maior aumento do débito cardíaco, com a prática de exercícios, são os que, em geral, conseguem quebrar os recordes de tempo.

"Essa exigência constante da massa muscular cardíaca leva um aumento do volume da mesma. Em outras palavras, durante o treinamento atlético não são apenas os músculos esqueléticos que se hipertrofiam, mas também o coração. Esse aumento está associado a uma maior capacidade de bombeamento do sangue. O coração de um maratonista é consideravelmente maior que o de uma pessoa normal, tendo um aumento de 50% a 75% na massa cardíaca. Esse aumento exagerado do coração pode estar relacionado com os problemas cardíacos em atletas de elite. A contração do músculo cardíaco é controlada por sinais elétricos transmitidos por sensores nervosos localizados na parede das câmaras cardíacas. Esses sinais são despertados por estímulos sensitivos que indicam o estiramento da parede das câmaras do coração quando preenchidas com o sangue, e controlam as duas fases de contração, a sístole e a diástole. O aumento do coração pode levar a uma alteração da inundação dos ventrículos pelo sangue e conseqüente desritmia cardíaca. Além disso, o espessamento das paredes pode levar a uma obstrução na cavidade ventricular esquerda e prejudicar o funcionamento e eficiência no bombeamento do sangue.

"Assim, é de extrema importância fazer uma avaliação física detalhada antes da prática vigorosa de exercícios. Muitas vezes a busca pela saúde e beleza físicas podem acabar sendo prejudicais em casos de pessoas, jovens ou velhos, que apresentam alguma predisposição genética, como em muitos casos de hipertrofia cardiomiopática, responsável por 36% dos casos de morte súbita em jovens atletas. É claro que, de modo geral, a prática regular de exercícios é um hábito saudável, a curto e longo prazo, já que ela aumenta a eficiência cardio-respiratória, deixando os praticantes menos suscetíveis as doenças oportunistas e levando a uma recuperação mais rápida de possíveis enfermidades, já que há uma maior eficiência de oxigenação dos tecidos. Mas esse fato pode muitas vezes ocultar problemas individuais sérios de saúde e, assim, a falta de acompanhamento médico nas práticas esportivas."