Rodolfo Lucena

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Cassino, Rio Grande

Cassino, Rio Grande

Regresso aos pagos

Neste momento, escrevo este texto vestido com a camiseta regata lembrança da XIV Supermaratona de Rio Grande, que completei no último domingo, dia 11 de fevereiro, três dias antes dos meus 50 anos, em 6h48min32, segundo registro de meu GPS.

O aparelho, aliás, marcou uma distância um pouco inferior a 50 km no percurso, mas como o trajeto vem sendo percorrido há 14 anos sem reclamações e como a própria fabricante diz que o aparelho pode não ser totalmente preciso, não vou falar mal da distância, que é muito boa, simpática e desafiadora.

A prova foi totalmente excelente. Diferentemente da de dois anos atrás, quando faltou água já no km 5, desta vez a organização foi primorosa. Acho até que havia mais postos de água do que os prometidos no regulamento. Todos eles abastecidos e com um bom número de pessoas atuando, oferecendo a bebida e dando incentivo aos atletas.

Com o calorão, nem sempre a água estava sequer fresca, mas não faltou para ninguém. Ambulâncias cruzavam o percurso, e o interesse e a preocupação com a saúde e o bem-estar dos corredores eram evidentes.

O bem-estar de todos, aliás, foi muito auxiliado pelo clima. Corri dez quilômetros antes da prova, como aquecimento e para engrossar os 50 km, por causa de um objetivo futuro. Comecei às 5h45, e posso dizer que nesse horário estava mais quente, ou a sensação térmica era pior, do que nas primeiras duas ou três horas de prova.

Isso porque a largada, às 7h02, foi sob uma temperatura agradável, brisa e até alguma nebulosidade. O tempo estava abafado, mas já tinha estado pior. Com menos de uma hora de trote, a chuva começou a bater, tirando aquele mormação da nossa frente.

Deu uma pancadinha leve, depois um pancadão, mais uns pingos cá e lá, o suficiente para refrescar. Mas ficaram nuvens no céu, continuando a nos proteger pelos primeiros quilômetros, que são muito perigosos.

A Super larga da praia do Cassino, a maior do mundo em extensão, a praia mais família e gaudéria desse planeta, onde o vento carrega o cheiro do churrasco e o mar é do tamanho da alegria e da satisfação dos banhistas. Dali, a gente roda um quilômetro na própria cidadezinha, que tem pouco mais ou menos que uma dúzia de ruas calçadas e uma enormidade de caminhos de chão batido.

Então pegamos a estrada em direção a Rio Grande, o porto do Mercosul, cidade que foi o berço da pátria gaúcha e que neste fevereiro completou 270 anos de orgulho.

É o trajeto mais complicado do ponto de vista da segurança, único aspecto mais problemático da prova neste ano. Os corredores dividem a estrada apertada com motoristas nervosos, apressados, e ônibus beligerantes, nem sempre dispostos a aguardar com tranqüilidade o momento para ultrapassar.

Em 2005, houve mesmo um acidente. Desta vez, não ouvi comentários, mas o comportamento do povo motorizado me pareceu até mais agressivo e irritadiço.

CONTINUA...

 

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h48

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Cassino, Rio Grande

Cassino, Rio Grande

Bendita praia

A metade da prova se completa no seio da cidade, passando por ruelas, praças, monumentos, tudo vazio. O povo dorme naquele calorão; os poucos que desafiam o sol aplaudem e incentivam os corredores que passamos, também nós meia dúzia de gatos pingados.

Para ser exato, 263 largaram no evento, que teve ainda uma prova de 10 km, a maior parte dela na areia da praia, uma caminhada e uma corrida para a gurizada, numa confraternização bem bacana da comunidade. Segundo os registros que vi publicados no jornal, apenas 206 completaram. Ou seja , uma queda de mais de 20%, o que já dá uma idéia da dificuldade da prova.

Não sei se, nesses que não completaram, eu e mais uns tantos que acabaram o percurso um pouco antes e muito depois de mim, estamos incluídos. É que a prova tem limite de tempo de 6h15.

Quando terminei, havia gente da organização por lá esperando os corredores. Uma senhora meu deu minha medalha e logo outro sujeito da organização veio oferecendo mais uma. Eu agradeci, pois a primeira já seria o suficiente.

Também havia gente acompanhando o último atleta, que terminou os 50 km cerca de meia hora depois de mim (calculo no olhômetro), num exemplo de sujeito que não se entrega por nada.

E olha que não faltou vontade de se entregar. E havia razão para isso. Apesar de as condições estarem bem melhores que há dois anos, isso não significa que estavam adequadas para a prática esportiva, para dizer o mínimo.

O calor é algo que faz parte da Super, todos sabemos disso, mas o fato de saber não significa que não se sofra com ele. E os quilômetros? E os asfalto? E as retas? E o vento?

Para alegria de meus médicos e fisioterapeutas, não tive dores nas costas, as hérnias se comportaram direito. A fasciite plantar também não incomodou, mas os pobres pés sofreram. Chegou uma hora, lá pelo km 30 (que, para mim, era 40), que eu só queria na vida uma bacia com salmoura para largar os pés.

Mas daí já estava ali mesmo, era um treinão, reduzi a marcha e segui em frente. O que me valia era a companhia salvadora da Eleonora, que desta vez me acompanhou todo o percurso, desde a prévia da madrugada.

Ela se encarregou da minha água e de todo o abastecimento, porque, como diz o ditado "gato escaldado tem medo de água fria", e eu não ia me arriscar de novo a ficar sem bebida e alimento nesse trajetão. Mais do que abastecer, incentivou, chamou, deu forças ao meu espírito corredor.

E olha que os espírito fraquejou um tanto, pau a pau com as pernas, as panturrilhas e os coitados dos pés.

O ritmo foi caindo com o calor, que também machucava o ânimo, perdido naquele retão: quando se sai do centro da cidade, vai-se para o porto, sozinho. São 3.200 metros ao longo dos armazéns, depois uma curva para a direita, outra para a esquerda e se chega ao km 30 e à maior reta que já vi em uma prova. Vai até o 42, e claro que não é absolutamente reta, mas é totalmente plana, e a paisagem quase não muda: campo e mar parado, um ou outro corredor que se avista na distância.

O que eu avistei foi um sujeito vestido de corredor, mas sem número, vindo em minha direção. Para encurtar a história, era um conhecido com que já conversara lá em Rio Grande, em outras oportunidades, e que veio bater papo, falar das corridas pelo mundo e contar também belas histórias da terra.

O certo é que corremos e caminhamos juntos os últimos 15 km, que ficaram mais leves por causa de tanta história.

Leves e alegres, pois a última etapa do desafio é, só ela e finalmente, na querida praia do Cassino. Lá pelo km 40,5 se avistam as dunas, depois as perdemos. E só no 42 se põe finalmente o pé na areia (para você ter uma idéia do meu desempenho, clique AQUI; se você tiver Google Earth, poderá acompanhar todo o percurso).

Chãozinho batido, vento gostoso, as famílias na praia, a carne assando, o mate rolando, e a gente vai no trote. Está mais de 30 graus, com certeza. meus ombros e braços estão totalmente vermelhos, apesar do protetor solar, mas a sensação é de quase euforia, mesmo com a dor e o cansaço: sei que vou chegar.

No km 48, a Eleonora entrega a água pela última vez, e dá um tchau que me deixa todo emocionado: "Te vejo na chegada".

E lá fui, para ela, até a chegada.

Escrito por Rodolfo Lucena às 07h45

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Cruce de Los Andes

Cruce de Los Andes

Travessia vitoriosa

A ultramaratonista Elisete Pereira, que vive no Paraná, está de volta da travessia dos Andes, duríssima prova de revezamento para equipes de 12 atletas em que cada um corre uma maratona.

Ela me mandou uma mensagem, que diz o seguinte:

"Consegui sobreviver pelo segundo ano.

"Das 11 equipes, nossa equipe feminina, a Kurufmawida, se posicionou em quinto lugar, chegando a essa colocação com muita garra e mostrando a força que tem a mulher no esporte.

"Só tenho a dizer que a Cruce de Los Andes é uma competição muito dura -de sobrevivência.

"Quando pensava em desistir, me lembrava, primeiramente, da minha equipe, por todo o esforço que havíamos feito nas etapas anteriores, passando por privações, enfrentando as diferenças de altitude, tempestade de neve, chuva, calor, frio. Pensava que deveria ser uma guerreira e ir até o fim.

"Foi muito duro o percurso e não passei bem, devido à altitude.

"Corri o tempo todo com náusea, tonturas, problemas gastrointestinais... Tive que enfrentar no inicio um frio insuportável, e dos 33 km em diante um sol de rachar a cabeça, com subida de 10 km, em curvas de sssss (esses)."

Escrito por Rodolfo Lucena às 13h16

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St. Pauli Elbtunnel

St. Pauli Elbtunnel

Nas entranhas da terra

Esta eu ainda vou fazer um dia: uma maratona sob o rio Elba, na cidade alemã de Hamburgo, cruzando o antigo túnel.

O único risco é ficar claustrofóbico e totalmente tonto, pois são 48 voltas nos túneis mais um tequinho de 508 metros, totalizando a menor ultramaratona do mundo.

É verdade, pois a soma oficial do percurso dá 42.196 metros, um a mais que a cabalística distância da maratona.

A mais recente edição da corrida foi no dia 28 passado. Além de divertida, é uma boa forma de escapar do frio que faz nas ruas lá em cima...

As fotos que ilustram esta mensagem eu consegui deste site AQUI, que é em alemão. Tem um botão para obter a tradução automática para o inglês, com todos os defeitos desse sistema, mas bom o suficiente para entender um pouco do que rolou.

Escrito por Rodolfo Lucena às 14h13

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Vale dos Vinhedos

Vale dos Vinhedos

Corrida nos parreirais

"Cadê o Lavandoski?", conclamou o cartunista Iotti ao final da Maratona do Vinho, chamando às falas o organizador da prova de revezamento realizada no último domingo de janeiro na bela e etílica Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.

Sem esperar resposta e usando sua autoridade de patrono da corrida, o artista, que integra o grupo de corridas Macarruners e colabora com este blog, tascou alto e bom som: "Lavandoski, vá tomar no olho de seu ...! Nós queremos te agradecer pelo percurso que tu arrumaste, todo plaino, sem lomba", disse, irônico e brincalhão, com seu estilo de gaúcho da serra.

A alegria (vá lá, mesclada com uma dose de irritação) de Iotti provavelmente refletia a de todos que participaram da estréia desse projeto: uma corrida que passa pelos parreirais e pelas sedes de várias vinícolas de Bento Gonçalves, com oferta de produtos da região aos corredores, que também foram agraciados com o bom vinho gaúcho.

A corrida começou mal, com quase 15 minutos além do já tardio horário oficial de início (8h30). O solaço prometia uma prova duríssima, exaustiva além das dificuldades inerentes ao percurso (cheio, repleto, crivado de longas subidas e descidas mais terríveis ainda).

Mas todo mundo estava alegre com a perspectiva da aventura. Ao som do tiro de espingarda disparado por Janice Teixeira, heptacampeã brasileira de tiro ao prato e bronze no Pan de Santo Domingo-2003, larguei acompanhando meu irmão Rafael, que faria a primeira perna no nosso quarteto da Nossa Turma, que também levou uma dupla a Bento Gonçalves.

Ele havia preparado uma surpresa: como os organizadores sugeriram que as equipes corressem fantasiadas, meu irmão deu um jeito de produzir máscaras de Rodolfo, e saímos então quatro barbudos e cabeludos.

Depois dos primeiros metros de brincadeira, a coisa ficou séria e cada um tratou de se organizar para que a equipe tivesse o melhor desempenho possível.

Na primeira perna, aqueles metros iniciais no hotel Villa Michelon, que abrigou a largada e a chegada da prova, foram praticamente os únicos planos do percurso. Atravessando a avenida e já margeando um imenso parreiral, a subida veio dolorida, queimando as panturrilhas ainda adormecidas.

Mas a gente seguiu conversando, apreciando a beleza da serra gaúcha, cuidando para não escorregar nos diversos tipos de piso: chão batido, algum trecho acascalhado, asfalto de novo e cascalho mais uma vez.

Nessa batida, chegamos à metade do percurso e ao prometido posto de água. Mas, antes mesmo de aportamos à salvação naquele calor imenso, corredores mais rápidos, que voltavam do posto, avisavam: "Não tem água!!!".

A raiva foi grande. O fornecimento de água é talvez o único ponto em que os organizadores de provas não poderiam errar, pois prejudicam o desempenho e ameaçam a saúde do corredor. Os caras podem dizer o que quiserem, mas não há justificativa para errar nisso.

A gente já entrou no posto gritando e reclamando. Demos a volta protestando e seguimos pela estrada dos Vinhedos pensando em como seria rodar mais meia hora, 40 minutos no seco, nas lombas, no solaço.

Talvez por causa do nosso protesto, uns 500 metros depois fomos abordados por um carro da organização, que levava água. Mas o mal estava feito. E os corredores que passaram antes? Seguiram a seco.

O que vale é que as paisagens nos distraíam, mas não dava para ficar muito perdidão, não, porque estávamos na estrada principal, e carros e caminhões rodavam em velocidade de cruzeiro, tornando o percurso muito perigoso.

Esta foi outra falha muito grave da organização: não cuidar da segurança dos cerca de 250 corredores que participaram do evento. Tudo bem que não desse para fechar a rodovia, mas seria possível pelo menos colocar cartazes de advertência para os motoristas, distribuir panfletos, sei lá, tomar medidas para deixar as coisas menos perigosas.

Ainda bem que, ao que eu saiba, não aconteceu nada mais grave. Mas, no trecho em que percorri com meu irmão, várias vezes tivemos de pular do acostamento para escapar de caminhões ou carros mais afoitos.

Outra dificuldade, que enfrentamos por várias vezes, foi saber para onde ir. Na parte final, do asfalto, estava fácil. Mas, ao longo do percurso encabritado e serpenteante, pelo menos três vezes ficamos em dúvida sobre o caminho a seguir _coisa que poderia ser resolvida pela organização com facilidade e sem muito custo.

E assim, subindo lomba e reclamando, chegamos ao final da primeira perna, festejando ao passar por um belíssimo parreiral, descendo ainda uma rampa escorregadia e alcançando o tapete vermelho da troca de corredor. Ali nos esperavam uvas, vinhos, água e até um sandubão decupado (o pão e os pertences vinham separados, todos embrulhados num pacotinho só).

Também deu para acompanhar o empenho da criançada que participou da Maratoninha do Suco, revezamento de 1.800 metros. Era o posto de troca das duplas: meninos e meninas chegavam afogueados e saíam em disparada, acrescendo mais alegria ao dia de festa.

Continua...

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h09

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Vale dos Vinhedos - parte 2

Vale dos Vinhedos - parte 2

Vozes da montanha

Rafael entrou o bastão para o Marcos, o comandante da Nossa Turma e o mais rápido da equipe, que queimou o chão. A parte dele era praticamente toda de asfalto, com uma enorme descida, longa e leve, e uma amaldiçoada subida de pelo menos dois quilômetros. Em compensação, passou por uma das vinícolas mais progressistas da região do Vale dos Vinhedos, que hoje é muito mais que apenas um terreno.

Os vinhos produzidos ali agora fazem parte do seleto grupo das indicações geográficas reconhecidas pela União Européia. O grupo inclui, por exemplo, os produzidos nas regiões de Champagne, Bordeaux, Douro. Pela primeira vez, a União Européia reconhece uma denominação de origem não-européia. Além do Vale dos Vinhedos, foi aprovada a denominação Napa Valley, para vinhos produzidos naquela região da Califórnia.

Esse "selo", digamos assim, é um reconhecimento da qualidade dos produtos de certa região, fabricados segundo regras e padrões predefinidos. E tem enorme valor de mercado: no ano passado, o Vale dos Vinhedos (região entre os municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul) exportou 500 mil litros de vinho para a União Européia.

Mas nós não contávamos litros nem dólares, muito menos euros: contávamos quilômetros. E Marcos acelerou na parte final de seu percurso, mais uma longa, duríssima subida, que lhe deu como prêmio uma das mais belas vistas de todo o percurso (abaixo).

Linda também era a bagunça montada no alto da montanha para receber os que chegavam à metade exata da prova. Nada de vinho, apenas uva e água.

Em compensação, um coral devidamente paramentado com vestes típicas italianas (ou alemãs ou aleanas ou itamãs, sei lá) mandava ver com invejável entusiasmo. Eu não resisti e relembrei meus tempos de baixo barítono (ou será barítono baixo?), unindo-me ao coro de "Santa Lucia".

Dali saíam os segundos corredores das duplas, os quintos dos octetos e os terceiros dos quartetos para enfrentar talvez o mais "selvagem" ou "rural" de todos os trechos, pegando estrada de terra e cruzando por parreirais. Foi a Lika, a noiva do Marcos, que fez essa perna na nossa equipe, sofrendo um pouco nos trechos íngremes e subidas longas, mas divertindo-se enormemente com o ambiente.

Ela emergiu de um verdadeiro túnel de uvas e vegetação para me entregar a pulseira de corredor da vez no mais belo posto de troca, com grama, árvores e uma vinícola instalada em uma casa antiga. Para os que ali chegavam, havia água, vinho, uvas e sombra. Vários compraram o vinho dali, de boa qualidade e em oferta. A bebida, por sinal, fez parte da premiação: os vencedores em cada categoria, além de dinheiro, levaram 50% do peso da equipe em vinho.

Aos que partiam, como eu, estava reservada, de saída, uma lomba abaixo daquelas, em que só faltou eu ir de cócoras. Desci carregando o velho corpo com cuidado, já tendo uma idéia das dificuldades que viriam.

Escrito por Rodolfo Lucena às 11h04

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Vale dos Vinhedos - final

Vale dos Vinhedos - final

Vinhas da alegria

Apesar de já ser mais de meio-dia, não estava tão quente quanto na primeira metade da prova, pois nuvens encobriam o sol e, de vez em quando, soprava até uma brisa. Quando o sol rompia, porém, o negócio era sair de baixo.

Coisa que eu não podia fazer.

Tinha mesmo era que olhar para o chão, pois mais de metade de meu caminho seria de calçamento irregular, pedras e paralelepípedos traiçoeiros.

Passei por uma fábrica de vinho, para a qual os chamados connoisseurs torcem o nariz, alegando que produz o precioso líquido em massa, sem a pureza artesanal que os enólogos tanto prezam.

Sei lá, o certo era que a fábrica estava cheia de caminhões em volta, para transportar sua produção, um bom indício de seu sucesso. E o cheiro era inebriante.

Subir, subir, subir. Queimamos os quadríceps, as panturrilhas, mas em compensação as costas ficam inteiras. E, olhando para a frente, já vejo o céu, indicação que a lomba um dia há de terminar.

Seu fim me lava a descortinar os vales lá longe, em um show de verdes claros, escuros, indicando campos e parreirais. Saio da estrada para entrar em uma vinícola, talvez a mais sofisticada de todas as que participam do evento e recebem a passagem dos corredores por seu terreno.

Essa hospitalidade é semelhante à que dão aos turistas. Um bom grupo de vinícolas da região está aberta à visitação e, especialmente à degustação de seus vinhos. No passado, tudo isso era gratuito, mas hoje cobram preços simbólicos pela taça de degustação. Você compra uma taça, passeia pelo terreno, aprende alguns dos segredos da produção e, depois, usa sua taça para experimentar os vinhos da terra.

Nessa balada, em uma tarde você pode fazer a festa gastando relativamente pouco e bebendo relativamente muito, se seu interesse for esse. Mas, na região, parece que o foco é na degustação, apreciação lenta e em pequenas quantidades da bebida tratada quase com néctar de saúde e prazer.

Para mim, ali, o prazer era o contato direto com a natureza, com a produção rural de que estou tão distante no dia a dia. Nessa voltinha de pouco mais de um quilômetro pelo terreno da vinícola, passei por um parreiral tradicional e também por outro, muito diferente, em que os pés de uva são arrumados em estacas, em fieiras, formando imensas ruelas, no chamado plantio em espaldeira

Tinha visto isso na França, quando participei de uma maratona na Provença, região também afamada pelos seus vinhos, além das ervas e da cheirosíssima lavanda.

No Brasil, desconhecia esse uso. Pareceu-me curioso que a mesma vinícola usasse as duas técnicas em terrenos próximos, separados apenas pela estrada.

O parreiral tradicional, em que as uvas e folhas fazem um grande campo a cerca de 1,5 m do chão, é mais produtivo, mas a qualidade das uvas assim produzida é muito díspar, pois, como é fácil perceber, uma certa quantidade de cachos vai receber mais sol que a outra, que fica entremeada no parreiral.

Da outra forma, em espaldeiras, o plantio é mais organizado. São carreiras e carreiras de parreiras, como se fossem enormes prateleiras de supermercados. Dessa forma, os cachos recebem sol por igual e a manutenção e a colheita também são mais fáceis.

Essas uvas são usadas na produção de vinhos finos, o orgulho do Vale dos Vinhedos e do Rio Grande do Sul, que produziu no ano passado 32 milhões de litros de vinhos de alta qualidade. No total, o Estado contabilizou 217 milhões de litros, sendo responsável por mais de 90% da produção nacional.

Curioso mesmo foi descobrir que, mesmo pensando estar no alto da montanha, tinha ainda mais um trecho para subir. A volta do percurso seria em uma igrejinha, onde corredores esperavam seus colegas dos octetos, pessoal da organização oferecia água e algumas moças e rapazes fantasiados também divertiam a turma.

Fiz a volta confiante que, a partir dali, era só descida. Como vocês sabem, para baixo todo santo ajuda, mas descer é uma atividade traiçoeira. Os joelhos estão sempre em risco e a musculatura posterior da coxa é chamada a trabalhar como nunca: exagerar na descida é receita certa para abrir o bico mais adiante.

Para um sujeito como eu, então, um tanto acima do peso e, especialmente, com hérnias e dores de coluna, todo cuidado é pouco. Desci aqueles quilômetros escorregadios mais rápido do que subi, é certo, mas fazendo de tudo para proteger a lombar, enrijecendo o abdômen, cuidando da postura, restringindo a fome de correr um pouco mais.

E assim chegou o asfalto e mais morro. Parece que eu só falo de lomba acima e lomba abaixo, mas o fato é que a altimetria do percurso parece um eletrocardiograma... de um sujeito com arritmia.

Não posso reclamar, porque os quilômetros vão se acabar, cruzo a porteira final, mais uma curva e já vejo o tapete vermelho. Os companheiros da Nossa Turma se aprochegam, mascarados de Rodolfo, e lá vamos os quatro para terminar a primeira Maratona do Vinho, um revezamento gostoso e saudável em uma das mais belas e inspiradoras regiões do país.

Escrito por Rodolfo Lucena às 10h59

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Rodolfo Lucena Rodolfo Lucena, 54, é ultramaratonista e colunista do caderno "Equilíbrio" da Folha.

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